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domingo, 19 de abril de 2026

O alerta de Brizola e a campanha de ódio da direita católica contra o Islã

 

Foto – Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004).

No rastro da guerra que Estados Unidos e Israel movem no presente momento contra o Irã, com a clara intenção de desviar a atenção do caso Epstein, temos visto círculos de direita católica, como é o caso do Centro Dom Bosco, Luiz Phillipe de Orléans e Bragança (vulgo Deputado Príncipe), Bernardo Küster, Lorenzo Lazzarotto, Edmílson Cruz e outros afins, postando em seus respectivos canais conteúdos contrários ao Islamismo.

O centro Dom Bosco chegou a ponto de lançar por meio de sua editora seis livros críticos ao Islamismo. O mesmo centro Dom Bosco que antes de embarcar de cabeça na campanha contra o Islamismo fez postagens exaltando a figura de Francisco Franco, ditador da Espanha entre 1936 a 1975.

Mal devem saber eles que o mesmo Franco teve no exército espanhol uma unidade de soldados de origem marroquina, a Guarda Moura, a qual lutou do lado franquista em episódios como a guerra civil espanhola (1936 – 1939) e exercia a função de guarda pessoal do próprio Franco. Franco também recebeu visitas de lideranças do mundo muçulmano, como é o caso de Gamal Abdel Nasser, do Egito, em 1960.

Um ano antes de vir a óbito, em dezembro de 1974, Franco recebeu em Madrid Saddam Hussein, então vice-presidente do Iraque e homem-forte do regime iraquiano, e o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica em Madrid. Em sua primeira viagem à Espanha Saddam também visitou Toledo, Córdoba e Granada. Um ano depois Saddam também compareceu ao velório de Franco. Após as visitas à Espanha, Saddam veio a visitar outros países falantes de espanhol, como a Venezuela em 2000 3e Cuba em 2001. Franco também manteve relações cordiais com Fidel Castro, a despeito de diferenças ideológicas entre os dois.

Foto – Francisco Franco e Gamal Abdel Nasser. Por volta de 1960.

O conteúdo desse pessoal de direita católica, entretanto, não se limita à críticas de ordem teológica a religião fundada pelo profeta Maomé no século VII. É conteúdo de incitação de ódio ao Islamismo sob alegações e pretextos como a de que há um suposto “perigo islâmico” ao Brasil e que se nada for feito a lei da sharia tomará conta do Brasil, e para isso usando exemplos como o da Europa e dos Estados Unidos.

E, como não poderia deixar de ser, Mansur Peixoto, da página História Islâmica, nos últimos dias lançou vídeos em seu canal no You Tube rebatendo os argumentos desses caras, tal qual fez com Thiago Braga em 2023.


A pergunta que fica é a seguinte: haverá alguma articulação internacional por trás desses grupos de extrema direita católica? Estaria essa gente ligada a think thanks e grupos de extrema direita internacionais, de países como a Polônia, a Hungria, a França, ou mesmo os Estados Unidos?

Eles falam que o Islamismo tem um projeto de tomar conta do Brasil no longo prazo, por meio do fator demográfico, tanto através de imigração vinda de países muçulmanos quanto por meio da taxa de natalidade.

O governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas (o mesmo Tarcísio de Freitas que na Marcha para Jesus do ano passado apareceu com a bandeira de Israel enrolada em suas costas), tem sido objeto de críticas por parte desse pessoal por ter tomado em parceria com a FAMBRAS (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil) uma série de medidas visando o aumento do fluxo de visitantes e atração de investimentos vindos do mundo muçulmano, incluindo medidas para adaptar hotéis e restaurantes para receber turistas muçulmanos. Entre elas oferta de alimentação halal (permitida pela lei islâmica), ambientes sem álcool e espaço e espaços adequados para as orações diárias em direção à Meca, uma das cidades sagradas do Islã.

Nada me tira da cabeça que, por trás de toda a verborragia e ataques ao Islamismo por parte desses católicos reacionários, quem de fato têm um projeto de poder e de longo prazo é precisamente essa gente. E isso não é nenhuma novidade na história do Brasil. Visto que em seus últimos anos de vida, Leonel de Moura Brizola mostrou-se preocupado quanto ao crescimento da influência de pastores ligados a denominações neopentecostais na política do estado do Rio de Janeiro.

Em 2000, o político gaúcho, à época presidente nacional do PDT, chegou a pedir ao então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, para colocar fim à influência dos pastores protestantes no governo estadual. “O governo tem de ser mais discreto, está vivendo um protestantismo exagerado”, Brizola disse à época.

Brizola também se mostrou preocupado a respeito da presença excessiva de pastores no gabinete de Benedita da Silva, com as seguintes palavras: “Qual a legitimidade de tantos pastores no governo? Quem são esses pastores da Benedita? Por que esse pastor Everaldo tem o controle sobre a distribuição dos cheques? O cheque do pastor é dinheiro público”, disse Brizola à época, o qual também aconselhou Garotinho a fazer uma ampla reforma no secretariado.

Segundo as notícias da época, um dos objetos de denúncias por parte do velho caudilho foi a Cehab (Companhia Estadual de Habitação), cujo presidente à época era Eduardo Cunha. O mesmo Eduardo Cunha que anos mais tarde veio a ser o grande articulador do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016.

Brizola também se mostrou descontente com a atuação do então subsecretário do Gabinete Civil, pastor Everaldo Dias Ferreira. À época ligado politicamente à então vice-governadora Benedita da Silva (PT), em 2016 o mesmo pastor Everaldo batizou o então deputado federal pelo Rio de Janeiro Jair Messias Bolsonaro nas águas do Rio Jordão.

Foto – Bolsonaro nas águas do Rio Jordão, abençoado pelo pastor Everaldo.

Em 23 de agosto do mesmo ano Brizola, em entrevista à Revista Veja, disse as seguintes palavras: “Esses pastores querem é estação de rádio e dinheiro. São adoradores do bezerro de ouro”.

Brizola era um homem arguto, de uma inteligência ímpar e que enxergava longe. Sabia muito bem sobre o que estava falando. Ele fez esse alerta em 2000 (ou seja, quatro anos antes de nos deixar), e o alerta se mantem atual. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Visto que em favelas no Rio de Janeiro, narcotraficantes imbuídos de uma visão religiosa fundamentalista neopentecostal formaram o Complexo de Israel a partir de 2020. No qual pode-se ver bandeiras de Israel e estrelas de Davi estampadas nos muros em diversos pontos. Facções criminosas não apenas atacam praticantes de religiões de matriz africana, como também constrangem cultos católicos no local. E na política, temos visto o surgimento de fenômenos como a bancada da Bíblia, composta por políticos que não raro exercem a função de pastores.

Uma dessas pastoras, Ana Paula Valadão, cantora de música gospel e pastora da igreja Diante do Trono, disse a seguinte pérola a respeito da guerra no Irã: “tô emocionada, tão emocionada, a gente ora tanto pela igreja perseguida, nós cristãos, falando do nosso povo, e o Irã sofrendo tanto na lista de países de maior perseguição. Se não me engano, esse ano, na lista de países de maior perseguição o Irã estava em nono lugar”.

É nítido que ela falou essas abobrinhas tendo interesses em mente, com vistas que uma eventual queda do regime dos aiatolás no Irã possa abrir as portas para que a Igreja dela possa atuar abertamente e a realizar atividade missionária na nação persa. Algo que o atual regime iraniano, dada a vinculação dessas igrejas neopentecostais com os interesses dos Estados Unidos e toda a simpatia que elas nutrem por Israel, não permite. Daí que vem as histórias falaciosas como a de que o Irã persegue cristãos, sendo que o que o Irã na verdade faz é colocar limites e regulamentações na atividade religiosa.

Entretanto, o mais assombroso disso tudo é que a atualidade da fala de Brizola não para por aí. Ela também se aplica muito bem aos setores tradicionalistas e reacionários da Igreja Católica dos dias hodiernos, representados por grupos como Centro Dom Bosco, Arautos do Evangelho, Partido dos Cristeros, Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Instituto Plínio Correa de Oliveira (IPCO), Instituto Estudos Nacionais Regina Milites (IENRN) e afins.

Tais grupos demonstram insatisfação para com os rumos que a Igreja Católica vem tomando desde o Concílio Vaticano II, a ponto de parte deles, os chamados sedevacantistas, considerarem que desde a morte de Pio XII em 1958 o trono de São Pedro em Roma está vago. Ou seja, todos os papas a partir de João XXIII para parte deles não são papas legítimos.

Como não poderia deixar de ser, também são críticos da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e de sacerdotes ligados à Teologia da Libertação. Frequentemente, os acusam de ser comunistas e afins. Costumam criticar as campanhas da fraternidade que a CNBB lança todo ano (em que pese alguns erros verdadeiros e desatinos por parte do pessoal que hoje comanda a CNBB).

O fato é que vemos tais grupos de direita católica não apenas se organizando por meio de entidades e centros, como também ocupando espaços em redes sociais (as quais eram inexistentes, no máximo bem rudimentares, quando Brizola deu seu alerta), onde eles não raro costumam vender seus cursos. Eles já começam a eleger políticos (como é o caso do já citado Deputado Príncipe) e até se organizando em institutos e partidos políticos, como é o caso do já citado Partido dos Cristeros (que advoga para o Brasil a instauração de um estado confessional católico).

Já dá para imaginar o que esses católicos reacionários têm em mente na esfera política – formar uma espécie de versão católica da Bancada da Bíblia, além de fornecer apoio a políticos a eles identificados, tais como Jair Bolsonaro e afins, contra políticos de esquerda. Ir ocupando espaços, pouco a pouco, e influenciar a política brasileira em favor da agenda deles.

Tal pessoal demonstra odiar de forma rábica não só o Islã, como também odeia a Rússia, e para justificar o ódio deles pela nação de Gogol, Puškin e Prokofiev usam o Terceiro Segredo de Fátima e toda aquela lorota de que a Rússia iria espalhar seus erros pelo mundo como pretexto. Eles odeiam a Rússia seja como Império, seja como União Soviética, seja como República Federativa. A China então, nem se fala.

Eles odeiam tanto o Islã que se esquecem, por exemplo, que em 2019, quando o Porta dos Fundos fez aquele especial no qual Jesus Cristo (interpretado pelo ator Gregório Duvivier) foi retratado de uma forma bem indecente, uma associação islâmica, a Associação Nacional dos Juristas Islâmicas (ANAJI), repudiou a atitude do Porta dos Fundos.

Por essas e outras que penso eu que países como a China, a Rússia, o Irã, o Vietnã e a Coreia do Norte certos estão em colocar condições para a atuação religiosa e não permitir a entrada de certas denominações religiosas. Em outras palavras, para que não floresçam como ervas daninhas pastores politiqueiros (muitos dos quais lá atrás apoiavam o Partido dos Trabalhadores e hoje apoiam Bolsonaro) como Valdomiro Santiago, Marco Feliciano, Edir Macedo, Flordelis (vulgo Queturiene) e afins, fanáticos religiosos católicos como o Deputado Príncipe e associações e entidades como o Partido dos Cristeros e o Centro Dom Bosco.

Diante do que estamos vendo, uma pergunta fica: será que daqui um tempo, após ganharem musculatura, veremos tais grupos religiosos de direita católica enfim mostrarem suas garras insidiosas e organizarem uma espécie de versão brasileira da rebelião Taiping, revolta de caráter messiânico cujo líder, Hong Xiuquan, se dizia irmão de Jesus Cristo e que trouxe grande prejuízo e morticínio à China durante um decênio e meio (de 1850 a 1864)? Será que não está na hora de as autoridades brasileiras darem a devida atenção a essa gente?

Que fique bem claro uma coisa: ao tratar do presente tema, não estamos falando da religião enquanto escolha pessoal do indivíduo. E sim do uso da mesma para finalidades politiqueiras, com vistas a projetos de poder. E isso independente da denominação religiosa. Quer seja por parte de católicos, evangélicos, luteranos, anglicanos, ortodoxos, muçulmanos xiitas ou sunitas, budistas, judeus, hinduístas, xintoístas, taoístas, pagãos das mais diversas vertentes, entre outros.

Fontes:

Brizola pede fim de influência religiosa. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3103200026.htm

Complexo de Israel. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_de_Israel

Estudos nacionais. Disponível em:

https://www.estudosnacionais.com/

Guardia Mora (em espanhol). Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Guardia_Mora

Juristas islâmicos repudiam vídeo de Porta dos Fundos. Disponível em: https://pleno.news/fe/juristas-islamicos-repudiam-video-do-porta-dos-fundos.html

Leonel Brizola. Disponível em: https://pt.wikiquote.org/wiki/Leonel_Brizola

List of international trips made by Saddam Hussein (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_international_trips_made_by_Saddam_Hussein

Los moros de Franco (em espanhol). Disponível em: https://serhistorico.net/2018/09/15/los-moros-de-franco/

Partido dos Cristeros. Disponível em:

https://partidodoscristeros.com.br/

Tarcísio humilhou comunidade árabe ao usar bandeira de Israel, diz ministro. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/06/20/marcio-franca-humilhar-arabes-tarcisio-israel-marcha-para-jesus.htm

domingo, 12 de abril de 2026

O iceberg do PL 1424/2026 e a real natureza do sionismo.

 

Foto – Tabata Amaral.

Recentemente, entrou em tramitação na Câmara dos Deputados o projeto de lei 1424/2026, de autoria de Tabata Amaral (PSB-SP), Gilberto Abramo (Republicanos-MG), Geovania de Sá (PSDB-SC), Kim Kataguiri (Missão-SP), Heloísa Helena (Rede-RJ), Paulinho da Força (Solidari-SP), Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP), Eduardo Pazuello (PL-RJ), entre outros políticos de diversas colorações partidárias.

O projeto foi apresentado em 26 de março do presente ano e em sua ementa propõe “define anti-semitismo (ou seja, o ódio, antipatia em relação aos judeus) com a finalidade de instruir as políticas públicas nacionais”. Ainda segundo a proposta do PL, o anti-semitismo vai passar a ser equiparado ao crime de racismo, com pena de reclusão de 2 a 5 anos e multa, não podendo ter prescrição e nem fiança.

Também de acordo com o projeto, um ato é considerado como anti-semita quando os alvos dos ataques (quer sejam pessoas ou bens) são escolhidos porque são judaicos ou associados aos judeus, incluindo associações comunitárias e instalações religiosas.

No papel, tudo parece muito bonito. A própria Tabata Amaral nega que o projeto em questão limite a liberdade de expressão. Mas, como diz o velho ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Leis como essa são que nem a recém-aprovada Lei Felca (vulgo Felipe Neto 2.0), por exemplo. Leis como o PL 1424/2026, a lei Felca (também conhecida como ECA Digital, prevê normas para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais) e a lei da proibição de veiculação de publicidade infantil na TV aberta brasileira de 2014 são como um iceberg flutuando no mar.

Na superfície, vemos as boas intenções das mesmas, a retórica bonita daqueles que propõem a lei. Tudo muito bonitinho e etc. Boas intenções e retórica bonita essas que na verdade escondem a parte do iceberg oculta sobre o mar. E é aí onde está o perigo por trás do PL 1424/2026.

Primeiro de tudo, o que a lei em questão define por anti-semitismo do ponto de vista jurídico? Só para começo de conversa, os parâmetros desta lei são baseados nos da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Definições essas que são objetos de crítica por juristas e relatores da ONU por seu caráter aberto.

Uma das coisas que me estranha muito nesse PL é o timing do mesmo. Bem no momento em que Estados Unidos e Israel, no afã de desviar a atenção dos desdobramentos do caso Epstein (no qual a nata da política americana, assim como figurões da política israelense e da realeza europeia, está envolvida até o pescoço), movem uma guerra contra a República Islâmica do Irã.

E outra coisa que também me chama e muito a atenção sobre o PL 1424/2026 é que um dos que o apoiam é a patética e ignóbil figura de Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, deputado federal pelo Partido Liberal por São Paulo e descendente da família real brasileira, deposta em 1889 por conta do golpe republicano liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca.

Surpresa zero o nome dele estar associado a esse PL. Visto que o deputado príncipe, em 10 de novembro do ano passado, publicou na Gazetado Povo a coluna “O Brasil e a próxima Guerra Santa”, onde ele discorre sobre riscos associados ao que ele chama de civilização ocidental advindos da migração islâmica e uma possível imposição da lei da šariah, advogando que o Brasil se posicione em uma espécie de nova cruzada travada na esfera política para proteção contra essa ameaça. Ou seja, ele quer trazer ao Brasil problemas que nem são nossos como toda essa histeria anti-islâmica vinda de círculos de extrema direita da Europa e dos Estados Unidos (para ver como até nisso a nossa direita, assim como a esquerda, adora copiar o que há de pior na gringa).  Como consequência, a coluna recebeu críticas do Grupo de Diálogo Inter-religioso de Londrina, que a considerou promotora de intolerância religiosa e generalizações contra muçulmanos. Em resposta ao artigo do Deputado Príncipe, Mansur Peixoto, do canal História Islâmica, postou um vídeo de reação rebatendo às ilações dele.

O Deputado Príncipe é uma das muitas figuras da direita católica que bem no momento da guerra Epstein contra o Irã embarcaram em campanhas de ódio contra o Islã, junto com o Centro Dom Bosco e outras tantas. A mesma gente que não raro também demonstra ódio rábico pela Rússia, a ponto de evocar o Terceiro Segredo de Fátima bem no momento em que a Rússia lançou a Operação Militar Especial contra a Ucrânia a partir de 2022 com toda aquela lorota de que a nação de Gogol, Puškin e Prokofiev iria espalhar seus erros pelo mundo. Pelo visto, eles odeiam a Rússia quer seja como Império tzarista, quer seja como União Soviética, quer seja como República Federativa.

Foto – Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, o deputado príncipe.

Vejam só o paradoxo: o mesmo deputado príncipe que faz histeria anti-islâmica e até mesmo advoga novas cruzadas contra o Islã, apoia um projeto de lei que (ao menos na ementa) diz que combater o anti-semitismo (ou seja, a secular antipatia contra os judeus).

O que mosta por A+B que, no fim das contas, a Tabata Amaral não passa de um chamariz, a parte visível da coisa toda. Quando vemos que por baixo do mar se escondem figuras venais como Heloísa Helena, Paulinho da Força, Pazuello e o deputado príncipe, além do apoio que recebe de organizações como a StandwithUs (um dos principais grupos que atuam em defesa de Israel pelo mundo, cujo presidente aqui no Brasil é André Lajst – o mesmo André Lajst que recentemente travou com debate com Mansur Peixoto), vemos que há bem mais coisas em jogo por trás do PL 1424/2026. E também vemos quão patética e inexpressiva a Tabata Amaral é.

E conhecendo a índole de muitos desses que apoiam o PL, é razoável supor que este PL na verdade vai se transformar em uma grande ratoeira, um meio para criminalizar toda e qualquer crítica que se possa fazer ao estado de Israel sob o pretexto do combate ao anti-semitismo. É um iceberg que inexoravelmente irá se chocar contra nós, assim como o iceberg que se chocou com o navio Titanic em 1912 e o jogou para dentro das gélidas águas do Atlântico Norte.

E o que me espanta é também o fato de que esse PL não veio de um sionista de carteirinha como o Jair Bolsonaro ou seus filhos (que já desfilaram pelas ruas de Israel com camisa da IDF e do Mossad), e sim de uma figura dita de esquerda, que começou sua carreira política pelo PDT, o mesmo PDT de Brizola e Darcy Ribeiro, e que hoje é filiada ao PSB (Partido Socialista Brasileiro). Certamente o velho caudilho e Darcy Ribeiro devem estar se revirando em seus respectivos túmulos.

Foto – Eduardo e Carlos Bolsonaro desfilando pelas ruas de Israel com camisetas da IDF e do Mossad.

Não é de hoje que círculos sionistas usam como carteirada para calar seus críticos a equiparação de anti-sionismo a anti-semitismo. E não raro usam citações do Reverendo Martin Luther King, uma das grandes lideranças do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, para legitimar tal posição.

Que fique bem claro uma coisa: quando falarmos em sionismo, há de se ter em mente o seguinte. Que nem todo judeu é sionista, assim como nem todo sionista é judeu. Vide exemplos como o dos judeus ortodoxos da Neturei Karta, ou de Norman Gary Filkenstein, autor do livro "A indústria do Holocausto", nem um pouco simpáticos ao sionismo. E no sentido contrário o apoio que a causa sionista recebe de expressivos setores de denominações neopentecostais, o chamado sionismo cristão.

A respeito da relação entre sionismo e anti-semitismo, o que a história em realidade mostra é o contrário do que certos grupos sionistas ventilam por aí. Os sionistas, tanto antes quanto depois da fundação do estado de Israel, nunca tiveram o menor pudor em colaborar com a nata do anti-semitismo europeu, desde a época do caso Dreyfus e dos pogroms da Rússia Imperial tardia.

O próprio fundador do movimento sionista, Theodor Herzl, que à época do caso Dreyfus serviu como correspondente de um jornal vienense em Paris, esteve em contato com os principais anti-semitas da época. Segundo Ernst Pawel em sua biografia sobre Herzl, “Labirinto do Exílio”, os mesmos que financiaram e editaram o periódico “La Libre Parole”, que advogava uma plataforma de “defesa da França Católica contra ateus, republicanos, franco-maçons e judeus”, periodicamente convidada Herzl para suas residências.

Em 1896, Herzl lançou o livro “Der Judenstaat” (“O Estado judeu”, em alemão). À época, o livro de Herzl foi amplamente depreciado pelas lideranças judaicas da época, as quais viam a si mesmas como cidadãos franceses, alemães, ingleses, austríacos ou italianos de origem e religião judaica. Mas o mesmo não pode ser dito a respeito dos anti-semitas de sua época. Estes elogiaram o trabalho de Herzl. Uma das primeiras revisões do livro de Herzl apareceu no “Westungarischer Grenzbote” (em alemão “Mensageiro fronteiriço da Hungria Ocidental”), jornal anti-semita de Bratislava publicado por Ivan von Simonyi, membro da dieta húngara, o qual não apenas elogiou o livro de Herzl, como também pagou ao próprio Herzl uma visita pessoal.

A respeito de Ivan von Simonyi, Herzl diz as seguintes palavras em seu diário:

“Meu estranho seguidor, o anti-semita de Bratislava Ivan von Simonyi veio me ver. Um sexagenário hipervivo, hiperfalante com uma estranha simpatia pelos judeus. Balança para frente e para trás entre fala perfeitamente racional e total absurdo, acredita no libelo de sangue e ao mesmo tempo vem com as mais sensíveis ideias modernas. Me ama”.

O próximo passo de Herzl foi se encontrar com o ministro do interior russo, Vjačeslav Konstantinovič Plehve. Plehve foi um dos principais incitadores de pogroms da Rússia Imperial tardia, nos quais judeus eram linchados, feridos e por vezes mortos pelo populacho e milícias leais ao poder tzarista, entre eles cossacos e o movimento centúrias negras. Um desses pogroms teve lugar na cidade de Kišinev (atual Moldávia), em abril de 1901, no qual 48 judeus foram mortos e mais centenas de feridos.

O líder cultural judaico Chaim Žitlovskij ficou furioso com Herzl por ter negociado com Plehve. A Žitlovskij, Herzl respondeu da seguinte maneira: “Eu tenho uma promessa vinculativa de Plehve de que ele irá adquirir uma carta pela Palestina por nós em 15 anos no exterior. Há uma condição, entretanto, os revolucionários devem parar sua luta contra o governo russo”.

Em agosto de 1903, Plehve e Herzl se encontraram em São Petersburgo e discutiram o estabelecimento de sociedades sionistas na Rússia. O próprio Plehve propôs um requerimento por parte do governo russo ao Império Otomano para obter um alvará para a colonização judaica na Palestina. Um ano depois, tanto Herzl quanto Plehve vieram a óbito. O primeiro por complicações decorrentes de uma pneumonia, e o segundo assassinado por meio de um atentado a bomba em São Petersburgo.

E o colaboracionismo do sionismo com a Rússia Imperial não para por aí. O chefe da Okhrana (a polícia secreta tzarista) em Moscou na época do reinado de Nicolau II (r. 1894 – 1917), Sergej Vasil’evič Zubatov, era simpático ao sionismo como uma forma de calar a oposição judaica ao regime tzarista. Zubatov e outros anti-semitas de seu tempo ficaram encantados com o sionismo, visto que havia uma convergência de interesses entre as duas partes: por meio do sionismo e a emigração à Palestina Zubatov e sua laia se livravam dos judeus em território russo, e os sionistas por meio da imigração à Palestina visando a criação de um estado judaico iam embora da Rússia. Dessa forma, nem um e nem outro almejavam resolver a situação de miséria e desespero que os judeus russos passavam à época.

Os sionistas serviram a Zubatov como espiões e subversores do Bund (um dos principais grupos de oposição judaica ao poder tzarista), e assim o Bund e outros grupos opositores eram exterminados com o sinal verde dos sionistas.

Após a queda do regime imperial na Rússia, o líder sionista revisionista Vladimir Žabotinskij fez acordos com o líder reacionário ucraniano Simon Petljura. As forças de Pletjura aniquilaram as vidas de cerca de 100 mil judeus no período de 1918 a 1921.

Mas a cereja do bolo ainda estava por vir. Em 1933, sobe ao poder na Alemanha Adolf Hitler.

Quando Hitler subiu ao poder na Alemanha, um boicote econômico mundial à Alemanha foi conclamado por organizações judaicas. E lá estava a organização sionista da Alemanha para furar o boicote. Em 1935, os sionistas, no Congresso Sionista Mundial, decidiram por meio da empresa Hanotea importar bens de origem alemã e exportar seus próprios bens ao país, ao mesmo tempo em que também transferiam judeus da Alemanha para a Palestina por meio do Tratado Ha’avara.

Os conchavos entre nazistas e sionistas não apenas ajudaram à Alemanha hitlerista a escapar de sanções internacionais (com o acordo de transferência Ha’avara sendo celebrado através de uma moeda comemorativa que estampa a suástica em um dos lados e a Estrela de David de outro), como também armas alemãs (entre elas metralhadoras e pistolas Mauser) passaram a abastecer milícias sionistas na Palestina como o Irgun e o Haganah. Uma vez em mãos de milícias como o Irgun e o Haganah, estes passaram as armas de origem alemã para promover limpezas étnicas da população de origem árabe-palestina.

Um dos principais ideólogos do nazismo, Alfred Rosenberg, autor do livro “O mito do século XX”, também se mostrou simpático ao sionismo, com as seguintes palavras:

“O sionismo deve ser vigorosamente apoiado para que um certo número de judeus alemães seja transportado anualmente à Palestina, ou pelo menos forçados a deixar o país”.

Já na época da guerra, grupos sionistas que operavam na Palestina, como é o caso do Lehi, tentaram se aproximar da Alemanha em busca de apoio contra a Inglaterra, que à época começou a impor restrições à imigração judaica à Palestina. Para isso, Yitzhak Šamir, futuro primeiro-ministro de Israel, chegou a enviar uma carta a Hitler.

Foto – “Um nazista viaja à Palestina e fala sobre isso em ataque“. Moeda da época da Alemanha nazista, com a estrela de David de um lado e de outro a suástica nazista, datada de 1934.

E mais recentemente, grupos de extrema direita europeus como o alemão AfD e os ucranianos Setor de Direita e Batalhão Azov tiveram seus contatos com autoridades israelenses.

Dessa forma, levando em consideração a história do sionismo desde seus primórdios, não só podemos dizer que não faz sentido algum categorizar anti-sionismo como equivalente de anti-semitismo, como podemos ir mais além: na verdade, há uma relação dialética entre sionismo e anti-semitismo. Um retroalimenta o outro e vice-versa a ponto de um não existe sem o outro.

Dessa forma, parafraseando o que o velho Brizola e Darcy Ribeiro diziam sobre o PT ainda nos anos 1980 e 1990, o sionista é o judeu que o anti-semita gosta. E o exemplo histórico da admiração que Ivan von Simonyi tinha por Herzl e a colaboração dos sionistas russos com o aparato repressivo tzarista na figura de Zubatov são exemplos cabais e ilustrativos disso.

No fim, anti-semitismo e sionismo são como, por exemplo, as faces do deus Janus na mitologia romana, o yin e o yang no taoísmo ou os personagens Piccolo e Kami Sama em Dragon Ball. Uma grande unidade contraditória, em que um completa o outro. Resumindo a ópera: o sionismo, ao invés de resolver os problemas que afligem aos judeus, na verdade vive destes mesmos problemas e ainda por cima os agrava.

Em 2018, publiquei neste espaço alguns textos do portal Radio Islam sobre a história dos conchavos entre sionistas e anti-semitas, dentro do contexto da eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República, e que eu mesmo traduzi do espanhol e do inglês para o português. 

Sionismo e anti-semitismo - uma estranha aliança ao longo da história

Sionismo e Terceiro Reich

O mito do anti-fascismo sionista

À época, cheguei a ficar preocupado com o fato de que críticas ao estado de Israel pudessem ser criminalizadas legalmente. Pelo visto, isto está para acontecer, mas não vindo de Bolsonaro pai ou seus filhos, ou qualquer outro representante da direita filo-sionista brasileira, e sim de uma deputada que foi do PDT e hoje é do PSB. E mais um detalhe: isso pode vir a acontecer sob as asas de um governo dito de esquerda, o governo Lula 3.0.

E se um dia esse PL virar lei, é capaz que até mesmo a abordagem do passado sombrio dos sionistas e todos os conchavos que eles fizeram com a nata do anti-semitismo europeu, incluindo incitadores de pogroms como Plehve, Zubatov e Petljura, ou mesmo o acordo Ha’avara que os sionistas alemães fizeram com o Terceiro Reich, os elogios que o próprio movimento sionista recebeu de importantes anti-semitas europeus do final do século XIX e primeira metade do século XX, também será sujeita à mordaça sob o pretexto do combate ao anti-semitismo. Até mesmo a abordagem da questão do colaboracionismo judaico com a Alemanha nazista e o fato de que muitos dos kapos dos campos de concentração nazistas eram eles mesmos judeus, também passará pelo mesmo escrutínio.

Como também o fato de que foi a vanguarda sionista que introduziu no Oriente Médio o conceito de guerra urbana via atentados terroristas e organização de grupos paramilitares. E que importantes figuras da política israelense tais como Yitzhak Šamir, David Ben Gurion e Menachem Begin estiveram envolvidos em grupos como o Irgun, o Haganah e o Stern antes mesmo da fundação do estado de Israel, tendo tomado parte em episódios como o massacre de Deir Yasin, o atentado ao hotel King David e o assassinato do conde sueco Folke Bernadotte (algo sobre o qual Bolsonaro e seus filhos se calam). A questão da indústria ideológica em torno do Holocausto que surgiu após o fim da guerra e que justifica o projeto sionista no Oriente Médio, similar à indústria em torno do Holodomor que a Ucrânia criou após o fim da União Soviética. Será que até isso estará submetido à mordaça?

Fontes:

Conteúdos islamofóbicos no Brasil por católicos. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/conteudos-islamofobicos-por-catolicos-no-brasil/

Israel na visão de Martin Luther King. Disponível em: https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/2973224/jewish/Israel-na-viso-de-Martin-Luther-King.htm

Não há comparação mais justa do que a feita entre Israel e nazismo. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/nao-ha-comparacao-mais-justa-do-que-a-feita-entre-israel-e-o-nazismo/

Luiz Phillipe de Orlenas e Bragança. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Philippe_de_Orl%C3%A9ans_e_Bragan%C3%A7a

PL 1424/2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2612333

Projeto equipara anti-semitismo a crime de racismo. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1261955-projeto-equipara-antissemitismo-a-crime-de-racismo/

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Refutando Marcelo Andrade - verdades e mentiras sobre a Venezuela.

 

Foto – Professor Marcelo Andrade.

No dia 7 de janeiro do presente ano o professor Marcelo Andrade postou em seu canal no You Tube a seguinte mensagem a respeito da Venezuela, na sequência da queda do então presidente Nicolás Maduro. Um texto que, como veremos, até diz algumas verdades, mas que ao mesmo tempo omite detalhes e informações muito importantes a respeito da história recente da Venezuela.

Em 2017, escrevemos nesse mesmo blog uma resposta a Nando Moura sobre o mesmo assunto:

Resistência terceiro-mundista: As imprecisões de Nando Moura, parte 6 - A verdade não será televisionada.

“A Venezuela já foi o país mais rico da América Latina

Nos anos 50, o país tinha o 4º maior PIB per capita do mundo. Superava países europeus em renda e desenvolvimento.

Até que o socialismo chegou...”

Primeiro de tudo, é impossível entender como que o Hugo Chávez chegou aonde chegou sem entender o que era de fato a Venezuela nos anos que antecedem à sua ascensão ao poder. E, como veremos, não era o paraíso que se quer vender.

Deixa-me te perguntar uma coisa, Marcelo Andrade: como que essa renda era distribuída entre os habitantes da nação caribenha? A Venezuela de antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder, ocorrida em 1998, na verdade não era uma espécie de Noruega ou Suíça tropical como você quer vender. Na verdade, se tratava de uma espécie de emirado petroleiro latino-americano. Em outras palavras, estava muito mais próxima de um Qatar, um Emirados Árabes Unidos ou uma Arábia Saudita.

Haja vista que a parte do leão da renda do petróleo venezuelano ficava concentrada nas mãos de uma restrita elite local e de petroleiras gringas (em especial americanas) que exploravam o petróleo. A maioria da população vivia em uma situação de penúria, e favelas conhecidas como ranchos pululavam pela paisagem urbana das cidades venezuelanas, incluindo a capital Caracas.

Foto – Rancho venezuelano. Qualquer semelhança com as favelas cariocas (não) é mera coincidência.

E deixe eu lhe fazer mais uma pergunta, Marcelo Andrade: acaso essa riqueza toda fazia da Venezuela um país de indústria forte e economia diversificada e pujante? Não, não fazia. Bem longe disso. A Venezuela nunca teve uma indústria forte tal qual, por exemplo, o Brasil, o México e a Argentina. O país vivia de exportar petróleo cru para o exterior (em especial para os Estados Unidos) de tal modo que era um país cujo desempenho econômico era ditado pelo preço do barril do petróleo no mercado internacional. Em outras palavras, trata-se de um país que até os dias hodiernos padece do mal econômico conhecido como a “doença holandesa”.

A dependência da Venezuela para com a riqueza advindo do petróleo era tal (e ainda é) que o país tinha que importar tudo de fora, incluindo comida, papel higiênico, sabonete e outros itens básicos. Tudo vai bem nos tempos de bonança, mas quando chega o período de escassez (ou seja, quando o preço do barril do petróleo no mercado internacional baixa) a situação aperta e a grana advinda do petróleo seca, o país se via em sérios problemas, incluindo hiperinflação e crise econômica. Foi assim, durante os choques do petróleo nos anos 1980 e 1990, que reverberaram profundamente na Venezuela.

O volume 24 da Enciclopédia Larousse Cultural, publicada pela finada editora Nova Cultural em 1998 (ou seja, antes mesmo de Hugo Chávez se tornar presidente da nação caribenha), mostra que muitos dos problemas estruturais que afligem a economia venezuelana hoje em dia já existiam na época da Quarta República.

E na política institucional, antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder vigorava a República de Punto Fijo (também conhecida como Quarta República Venezuelana), estabelecida em 1958 e por meio da qual dois partidos se alternavam no poder: a Ação Democrática e o Copei (Comitê de Organização Política Eleitoral Independente). Figuras como Rafael Caldera, Carlos Andrés Perez e Romulo Bettancourt ocuparam o palácio de Miraflores nesse período. Ou seja, era como se fosse uma espécie de política do Café com Leite à moda caribenha, tal como havia aqui no Brasil na época da Primeira República (1889 – 1930). Ou se quisermos usar um exemplo mais recente, o petucanismo aqui no Brasil com a alternância entre PT e PSDB no Palácio do Planalto, e com o PT no essencial mantendo a mesma política macroeconômica instituída nos anos 1990, quando o Plano Real foi instituído e o pacto de classes dele advindo.

“Enquanto ditaduras se espalhavam pelo continente, a Venezuela recebia milhares de imigrantes: espanhóis, chilenos, argentinos, brasileiros…

O jornal El País chegou a dizer:

‘Na Venezuela se vive uma liberdade genuína.’”

A Venezuela podia ser a nível político-institucional uma democracia, mas isso não quer dizer nada. Tal como em outras partes da América Ibérica os protestos contra políticas neoliberais na Venezuela também foram tratados com base na bala. E o Caracazo, ocorrido em 27 de fevereiro de 1989, manda lembranças.

Foto – Caracazo.

Na ocasião, o então presidente Carlos Andrés Pérez (à época em seu segundo mandato) passou um pacote de medidas neoliberais, que incluía, entre outras coisas, o aumento do preço dos combustíveis. E por tabela, isso também implicou em um aumento no preço das passagens de ônibus. Como resultado, protestos surgiram em várias partes do país, sendo Caracas o epicentro. Para poder contornar a crise, o exército foi convocado e a repressão foi brutal. Grande morticínio se seguiu ao evento: calcula-se que possam ter morrido entre 277 (estatísticas oficiais) a mais de 3000 pessoas (estatísticas independentes) no Caracazo, sem contar ainda com feridos.

E é a partir deste momento que o nome de Hugo Chávez, então coronel do exército e líder do movimento MR-200, começa a se projetar no cenário político venezuelano. Em 1992 ele tentou assumir o poder por meio de um golpe de estado, mas não logrou sucesso. Apenas em 1998 é que ele, dessa vez pela via eleitoral, logrou se tornar presidente da Venezuela. E uma vez presidente da Venezuela, uma das primeiras coisas que ele fez foi enterrar a Quarta República Venezuelana e fundar uma nova República, a Quinta República Venezuelana, também conhecida como República Bolivariana da Venezuelana.

Você, Marcelo Andrade, fala de um jeito como se o Caracazo nunca tivesse existido. E como se a Venezuela pré-Chávez fosse um mundo idílico e paradisíaco, perfeito, que foi destruído pelo malvado Chávez e sua camarilha. Sendo que isso passa bem longe da realidade. A insatisfação popular era generalizada e Hugo Chávez soube captar tal sentimento, propondo uma alternativa ao arranjo até então existente no país. E no fim a República de Punto Fijo caiu sob o peso de suas contradições.

“Os salários impressionavam o mundo. Um professor recém-chegado ao país na década de 70 relatou ter ganhado US$ 1.700 em seu primeiro mês, o suficiente para comprar um carro novo.

Em Miami, os venezuelanos ficaram conhecidos como os "dame dos" ("me dá dois"), de tanto que consumiam.

Em 1914, o país descobriu o petróleo e pelas 6 décadas seguintes seria chamado de ‘Venezuela saudita’, em referência à Arábia Saudita, maior produtora de petróleo do mundo.

Na capital, Caracas, os prédios eram altos e modernos para a época. As rodovias, largas. Os hotéis eram considerados um ‘luxo em um paraíso tropical’. E os venezuelanos tinham o título de maiores consumidores de uísque do mundo”.

Essa é uma parte da história, mas e a outra parte da história que você não mostra? O outro lado da moeda, a outra face do deus Janus?

Você não mostra no teu texto, certamente por conveniência de momento, quais venezuelanos tinham acesso a tal padrão de consumo. De fato, era comum as elites venezuelanas à época fazerem suas compras de supermercado em Miami, e não em supermercados venezuelanos. E que a linha aérea Miami-Caracas era uma das mais movimentadas do mundo.

Sem contar ainda que a influência cultural norte-americana no país era gigantesca. Tanto que se assistirmos aos seriados que o Carlos Villagrán fez depois que saiu do elenco de Chaves e Chapolin, terá a impressão de que se está assistindo a um sitcom americano. O que ajuda a causar um estranhamento ainda maior para com tais produções, para além do fato de o Kiko estar fora de seu habitat natural, a vila do Chaves. Seriados esses que foram produzidos e veiculados pela RCTV (a mesma emissora que em 2007 não teve sua concessão renovada pelo governo chavista) e exibidos no Brasil no começo dos anos 1990 pela Rede Bandeirantes, e dublados pelo mesmo estúdio que fez a dublagem dos seriados de Chespirito, a finada Maga.

Apenas as altas classes venezuelanas é que tinham acesso a tal padrão de consumo. Com o povão que vivia em ranchos como o de Caracas a história era totalmente outra. Calcula-se que nos governos anteriores a Hugo Chávez a pobreza extrema atingia 40% da população do país, e mais 70% abaixo da linha da pobreza, a subnutrição flagelava 21% da população, apenas 7 a cada 10 crianças concluíam o ensino primário (no que fazia da educação um privilégio dos ricos) e o acesso às universidades era algo restrito às elites e à pequena classe média. Apenas 387 mil idosos eram contemplados pela previdência venezuelana.

Tanto que uma das coisas que o Hugo Chávez fez ao se tornar presidente da nação caribenha é usar a renda do petróleo para programas sociais, visando melhorar as condições sociais das populações mais carentes do país. Sob Chávez a desigualdade social (medida pelo índice de Gini) diminuiu em 54%. A pobreza despencou de 70,8% em 1996 para 21% em 2010, ao passo que a extrema pobreza caiu de 40% em 1996 para 7,3% em 2010. A desnutrição foi reduzida a 5% e a desnutrição infantil, a 2,9%. A mortalidade infantil diminuiu de 25 por mil em 1990 para apenas 13 por mil em 2010. Em 2005, o país foi declarado livre do analfabetismo pela UNESCO. Entre outros feitos.

Foto – Hugo Chávez Rafael Frias (1954 – 2013).

Chávez também usou a renda do petróleo para investir no futebol, esporte até então secundário na Venezuela, visto que antes dele o esporte mais popular da nação caribenha era o beisebol, muito em função da influência cultural norte-americana por lá. A Venezuela (cuja seleção é apelidada de “Vinotinto”) até hoje nunca participou de uma Copa do Mundo, e durante muito tempo, quando enfrentava seleções como o Brasil ou a Argentina, vivia tomando goleada. Vide o exemplo do jogo entre Brasil e Venezuela da Copa América de 1999, ocorrida no Paraguai, no qual a Venezuela tomou de 7 a 0 do Brasil, naquele que foi o jogo de estreia do Ronaldinho Gaúcho pela seleção canarinho (à época treinada por Wanderley Luxemburgo) em competições oficiais.

O investimento chavista no futebol foi tal que a Venezuela não só aumentou a competividade no futebol, como também sediou a Copa América em 2007, passou a se classificar com mais frequência para a fase eliminatória da Copa América (chegou a ser quarta colocada na Copa América de 2011) e mais recentemente vemos que países como o Brasil e a Argentina já não têm a mesma facilidade de antes quando enfrentam a Venezuela. Vide o empate sem gols entre Brasil e Venezuela na Copa América de 2019. Talvez, seja questão de tempo um dia vermos a Vinotinto em uma Copa do Mundo, ainda mais agora que 48 times se classificam para a competição máxima do futebol mundial.

Entre 1959 e 1983, o desemprego no país se manteve na marca de 10%. No mesmo período, o crescimento médio do país foi de 4,3% por ano, a inflação também era menor do que a registrada em outros países da América Latina”.

E aí, cadê o período de 1983 a 1998, hein Marcelo Andrade? Pois o que aconteceu nesse meio tempo desmonta toda a narrativa que você quer vender. Cadê o Caracazo, cadê as políticas neoliberais da presidência de Carlos Andrés Pérez, cadê o corrupto sistema advindo do pacto de Punto Fijo em colapso em sua fase tardia?

No fim das contas, é um cherry-picking dos mais cretinos e vagais, bem típico de figuras como você e o Thiago Braga.

“Até que em 1998, o povo elegeu o tenente-coronel Hugo Chávez, que já havia sido preso após uma tentativa de golpe de Estado. E iniciou o que chamou de ‘revolução bolivariana’.

Desde então, mesmo com as maiores reservas de petróleo do planeta, a Venezuela sofre com escassez de combustível. Sem comida, sem remédios e com milhões de refugiados, o país virou um retrato do fracasso socialista”.

E aí, vai chamar a Quarta República Venezuelana de socialista? Pois muitos dos problemas econômicos dos quais a Venezuela hoje padece já existiam antes mesmo de Hugo Chávez se tornar presidente da nação caribenha.

“Segundo a ONU, 5,1 milhões de venezuelanos não têm o suficiente para comer. O PIB do país encolheu 73% na última década. E mais de 94% de venezuelanos vivem na extrema pobreza”.

“A Venezuela já foi uma grande nação, mas o que o socialismo entregou foi o maior desastre da história moderna da América do Sul.

A lição é clara: o socialismo nunca resultará em nada além de miséria”.

Por um acaso um país vira socialista só por que institui políticas sociais e de redistribuição de renda? Não, isso não quer dizer nada. Um país pode muito bem ter política sociais mantendo o funcionamento já existente da economia. Acaso, por exemplo, as políticas de redistribuição de renda que existem em países como a Alemanha, a Holanda, o Reino Unido e as nações escandinavas tonam essas nações socialistas? Não. Passa bem longe disso. E acaso o Bolsa Família ou o SUS fizeram do Brasil um país socialista? Também não. Haja vista que mesmo com tais programas sociais os superricos do Brasil (muitos deles mancomunados com o PT inclusive) continuam enchendo as burras de dinheiro.

Vai chamar de socialismo um regime que nunca mudou de forma profunda a estrutura econômica do país? Um país que antes vivia de exportar petróleo cru para fora do país e que sob os ditos socialistas Hugo Chávez e Nicolás Maduro continuou vivendo da mesma forma como vivia antes deles? A Venezuela, sob Chávez e Maduro, continuou se organizando sob bases capitalistas. Tanto que grandes capitalistas como o conglomerado alimentício Polar e o grupo de mídia Cisneros continuaram a operar em solo venezuelano, mesmo na era chavista.

E mais: falando em socialismo, acaso o François Hollande, presidente da França entre 2012 a 2017, ser de um partido que se diz socialista (Partido Socialista) fez da França um país socialista? Não, não fez. E antes dele, a França teve outro presidente desse mesmo partido, o François Miterrand, que foi presidente de 1981 até sua morte em 1996. Miterrand também não fez da França um partido socialista. Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando. No fim das contas, siglas partidárias muitas vezes não passam de siglas partidárias.

Fontes:

As imprecisões de Nando Moura, parte 6 – A verdade não será televisionada. Disponível em:

https://resistenciaterceiromundista.blogspot.com/2017/08/os-imprecisoes-de-nando-moura-parte-6.html

Asentamientos irregulares en Venezuela (em espanhol). Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Asentamientos_irregulares_en_Venezuela

Grande Enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo: 1998. v. 24. p. 5907 – 5910.

Hugo Chávez e o futebol na Venezuela. Disponível em: https://trivela.com.br/america-do-sul/hugo-chavez-e-o-futebol-na-venezuela/#:~:text=Foram%20investidos%20cerca%20de%20US,grande%20renova%C3%A7%C3%A3o%20em%20outros%20seis.

sábado, 16 de agosto de 2025

Freeza e Rei Vegeta, parte XII

 

Foto – Rei Vegeta no meio, com o jovem Vegeta à esquerda, Nappa e mais três guerreiros saiyanos à direita.

E com vocês a parte XII da série de artigos Freeza e Rei Vegeta. E o assunto da vez é a visão distorcida da história que grande parte da direita brasileira, geralmente identificada com a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros políticos reacionários, manifesta em relação a episódios históricos como a conquista islâmica do norte da África e da Ibéria e as cruzadas.

Como vemos, mudaremos de lado dentro do espectro político. Deixaremos de falar do pessoal da esquerda pós-moderna e a idealização que eles fazem do passado de certos povos e vamos falar sobre as ilações que o pessoal da direita faz a respeito de eventos como as Cruzadas levantinas strictu sensu e as relações entre o mundo cristão europeu e o mundo muçulmano ao longo dos séculos latu sensu. Em outras palavras, dos chamados “zé cruzadinhas”. Afinal, como já dito em outras oportunidades, essa gente de direita mais reacionária e tacanha é a cara metade político-ideológica desse pessoal da esquerda pós-moderna.

Originalmente, Zé Cruzadinha era um personagem que aparece em algumas histórias da Turma da Mônica, criadas por Maurício de Souza. Amigo do Cebolinha, ele é um menino de cabelos espetados meio maluco que gosta muito de resolver revistas de palavras cruzadas e usa óculos circulares (fundo de garrafa), camisa amarela, bermuda preta e tênis lilás (ou marrom) com meias. Ele surgiu em 1963, nas tiras do Cebolinha, e desde então tem sido personagem recorrente nas histórias da Turma da Mônica.

Foto – Zé Cruzadinha.

Mais recentemente, o nome do personagem da Turma da Mônica ganhou um novo significado. Ele passou a designar, de forma pejorativa, certos tipos que vemos na Internet e em redes sociais, geralmente direitistas, que bradam por ai frases como “Deus Vult” (“Deus o quer”, em latim) e afins.

Em linhas gerais, tais tipos geralmente explicam que as Cruzadas na Terra Santa foram uma guerra de resposta tardia por conta de séculos de invasões de califados e sultanatos islâmicos a regiões outrora sob domínio cristão, incluindo Síria, Palestina, Egito, noroeste da África, Península Ibérica, França e Itália. E ainda chegam ao ponto de dizer que “as cruzadas salvaram a Europa de se tornar islâmica” e conversas similares.

Este tipo de explicação pode ser encontrado até mesmo no vídeo de Thiago Braga sobre o tema no canal Brasão de Armas, como também por parte de figuras de extrema direita católica como Marcelo Andrade e Raphael Tonon.



Só que há um buraco BEM grande na explicação que eles dão. Primeiro de tudo que as cruzadas começam em 1095, passados já quase 400 anos da conquista islâmica da Ibéria sob o califado omíada de Damasco e quase 500 anos das conquistas islâmicas iniciais na Síria, no Levante e no Egito ainda sob os primeiros califas. Como explicar eventos ocorridos entre os séculos XI a XIII por conta de eventos ocorridos meio milênio antes? Para mim não faz sentido algum. A conta não fecha.

E segundo que o contexto europeu e mediterrânico da segunda metade do século XI era bem diferente daquele dos séculos VII a IX, que é quando o grosso dessas invasões e conquistas se dá.

O contexto do Medievo inicial era o da Europa pós-romana, no qual o Império Romano do Ocidente deixou de existir e em seu lugar surgiu uma miríade de reinos bárbaros, entre eles os reinos visigodo e suevo na Ibéria, reino ostrogodo na Itália, reinos franco e burgúndio na Gália (atual França), reino alamano na Germânia, reino vândalo no norte da África, reinos anglo-saxônicos nas ilhas britânicas, reino frísio na atual Holanda e outros, todos eles oriundos da grande migração de povos (em alemão Volkerwanderung) da Antiguidade Tardia e Medievo inicial.

Era um contexto de fragilidade política e social que eventualmente acabou sendo explorado por terceiros. E os muçulmanos não foram os primeiros e nem os únicos a se aproveitarem dessa situação.

Ainda no século VI houve as invasões dos ávaros, povo das estepes ao norte do Mar Negro, provavelmente oriundo dos Žužan (os quais de suas bases na atual Mongólia e sul da Sibéria causaram problemas aos chineses entre os séculos IV a VI).

Sob a liderança de Bayan (r. 562 – 602), os ávaros se estabeleceram na Panônia (atual Hungria) por volta de 562 e assim preencheram o vazio deixado pela debacle do Império Huno um século antes, após a morte de Atila. De suas bases na Panônia os ávaros lançaram invasões à Itália, Gália, Turíngia e Península Balcânica na segunda metade do século VI e começo do século VII. Em 626 os ávaros sitiaram Constantinopla junto com a Pérsia Sassânida. O poder ávaro na Panônia só veio a ser destruído no começo do século IX por Carlos Magno.

Também no século VI o Império Bizantino, durante o reinado de Justiniano I, lançou suas guerras de conquista sobre partes da Europa Ocidental pós-romana, vide a guerra vândala de 533/534 contra o reino vândalo no norte da África, a guerra gótica de 535 a 554 contra o reino ostrogodo na Itália e a conquista de parte da Ibéria visigótica em 552.

E os zé cruzadinhas que choram as pitangas pelo Império Bizantino por conta das conquistas islâmicas do século VII em momento algum falam sobre os dias de conquistadores do mesmo. Conquistas essas que se deram à custa de outros estados cristãos (ainda que da vertente ariana) e que tiveram lugar antes mesmo de o profeta Maomé nascer.

Foto – Império Bizantino por volta de 555, após as conquistas do reinado de Justiniano I (r. 527 – 565).

Mais adiante, já nos séculos VIII e IX, em especial após a morte de Carlos Magno (r. 768 – 814) e a subsequente fragmentação de seu império em três partes, junto com as invasões árabes pelo sul também temos as invasões vikings pelo norte e magiares pelo leste. Os vikings, oriundos das atuais Dinamarca, Noruega e Suécia, promoveram a partir de 793 (ataque ao mosteiro de Lindsfarne na Inglaterra) incursões de pirataria às Ilhas Britânicas, à França e até mesmo a partes da Ibéria, do norte da África e da Itália. Chegaram a estabelecer seu senhorio sobre partes da atual Inglaterra, o chamado Danelaw (c. 878 – 954), e com a anuência do rei francês Carlos o simples (r. 898 – 922) alguns deles se estabeleceram na França em regiões como a Normandia e a Bretanha, mediante conversão ao cristianismo.

Já os magiares, antes vassalos dos khazares, após migrarem das estepes ao norte do Mar Negro e se estabelecerem no atual território húngaro a partir de 896 sob a liderança do chefe Arpád Álmos e assim preencher o vácuo de poder deixado na Panônia com o fim do poder ávaro, concentraram seus esforços no leste, na França, Germânia e Itália. Em 942 hostes magiares avançaram a oeste até a Ibéria islâmica.

Foto – invasões árabes, vikings e magiares na Europa entre os séculos VII a X.

A partir dos séculos X e XI tais invasões não apenas chegam ao fim, como também nórdicos e magiares passam a fazer parte do mundo cristão europeu.

Os magiares são vencidos em 955 pelo imperador germânico Otto II na batalha de Lechfeld e por volta do ano 1000 a Hungria se converte ao cristianismo sob o rei São Estevão I (r. 997 – 1038). Junto com a Polônia, a Hungria se tornou o bastião oriental da cristandade ocidental.

Já os vikings se convertem ao cristianismo primeiro nas regiões colonizadas por eles como as ilhas britânicas e a Normandia (vide a conversão do chefe viking Rollon em 911), depois, dentro dos marcos da formação das monarquias nacionais escandinavas, houve a conversão das nações escandinavas sob a liderança de monarcas como o dinamarquês Harald dente azul (r. 958 – 986) e os noruegueses Olaf Tryggvasson (r. 995 – 1000) e Olaf II (r. 1015 – 1028), o segundo posteriormente canonizado pela Igreja Católica como Santo Olavo.

A integração de nórdicos e magiares ao mundo cristão medieval foi tal que monarcas escandinavos e húngaros participaram de cruzadas na Terra Santa, vide a cruzada de peregrinação do rei norueguês Sigurd I (r. 1103 – 1130) entre 1107 a 1111 e a participação do príncipe húngaro Geza na terceira cruzada (1189 – 1192) e do rei húngaro André II (r.1205 – 1235) na quinta cruzada (1217 – 1221). Além disso, as monarquias escandinavas, junto com ordens militares germânicas como os Cavaleiros Teutônicos e os Cavaleiros Livonianos da Espada, lançaram suas próprias cruzadas dentro da própria Europa, as cruzadas do norte, contra os povos ainda pagãos do Báltico oriental, entre eles os vendos, os prussianos e os lituanos, e até mesmo contra estados cristãos ortodoxos oriundos da fragmentação da Rus de Kiev a partir de 1054 como a República de Novgorod.

E a coisa não para por ai. De suas bases na Normandia no noroeste da França, os normandos, descendentes cristianizados dos vikings, lançaram-se no século XI à conquista de territórios como a Inglaterra, Gales, Malta e sul da Itália, incluindo o emirado da Sicília entre 1061 a 1091. Participaram ativamente das cruzadas levantinas e no século XII, mais precisamente entre 1146 a 1160, a Sicília normanda chegou a estender seu domínio sobre partes do norte da África, sobre a atual Tunísia e noroeste da Líbia, até perder a região para os almoadas.

Foto – conquistas normandas entre os séculos XI a XV.

Como podemos muito bem ver, na segunda metade do século XI o contexto já era totalmente diferente daquele do Medievo inicial. As invasões que os reinos cristãos europeus sofriam antes por parte de povos como árabes, nórdicos e magiares já era coisa do passado. O máximo que houve ao final do século XI foram as invasões dos cumanos a partes dos domínios do estado Rus de Kiev (vide os ataques cumanos a Kiev em 1096, 1097, 1105 e 1107) e os atritos dos reinos cristãos ibéricos com o califado almorávida. Ou seja, atritos localizados nas fronteiras dos reinos que estavam bem longe de representar a mesma ameaça aos reinos cristãos europeus que as invasões das centúrias anteriores.

As fronteiras do mundo cristão medieval europeu eram outras. Se por volta de 700 as fronteiras desta não passavam do Reno e do Danúbio, por volta de 1100 essas fronteiras, por contas das sucessivas de conversões de nações e reinos europeus tais como Polônia, Rus de Kiev, Hungria, Noruega, Suécia e Dinamarca, agora se estendem das margens do Oceano Ártico ao norte às ilhas gregas e Itália ao sul e das ilhas britânicas ao oeste às fronteiras orientais da Rus de Kiev (a essa altura já fragmentada em vários principados) ao leste. E isso a despeito da divisão entre Igreja Católica Romana e Igreja Ortodoxa Bizantina advinda do cisma do oriente de 1054.

E a situação dos potentados islâmicos na Europa também era outra. De todos os potentados que os muçulmanos, em sucessivas ondas de conquista, estabeleceram na Europa nos séculos VIII e IX só restava o sul da Ibéria sob a jurisdição de estados muçulmanos na virada do século XI para o XII. Os emirados de Bari e Taranto na Itália continental foram riscados do mapa em 871 e 883, respectivamente. O Fraxinetum no sul da França deixou de existir em 973 após 85 anos de existência. O emirado de Creta na Grécia foi conquistado pelo Império Bizantino em 961. O emirado da Sicília foi conquistado pelos normandos entre 1061 a 1091. Em 1091 os normandos também expulsam os muçulmanos de Malta.

Foto – A expansão do Islã sob os primeiros califas e depois sob a dinastia omíada (661 – 750), em alemão.

E mesmo na Ibéria o outrora poderoso califado omíada de Córdoba (929 – 1031) se estilhaçou nos reinos de taifas em 1031 por conta de uma série de guerras intestinas iniciadas ainda em 1009 (fitna de Al-Andalus) e importantes praças já estavam sob a jurisdição dos reinos cristãos do norte, incluindo Toledo, a antiga capital visigótica, tomada em 1085 pelo rei de Castela Afonso VI. Ante essa situação, os soberanos dos reinos taifas pedem auxílio aos almorávidas do noroeste da África.

Apenas no século XIII com as invasões mongóis e mais adiante com o Império Otomano a partir do final do século XIV é que novas ondas de invasões extracontinentais em larga escala a reinos europeus ocorrem.

Ao escutar falas como a de que as cruzadas foram uma resposta tardia aos avanços de hostes islâmicas dos séculos VIII a X passa-se a impressão de que antes das cruzadas os reinos europeus nunca reagiram aos avanços dos invasores vindos do sul. Em outras palavras, passa-se a impressão de que batalhas tão celebradas por eles, como a batalha de Poitiers na qual Carlos Martel venceu os muçulmanos em 732, não ocorreu. Muito menos, por exemplo, a batalha de Tourtour que colocou fim à existência do Fraxinetum em 973. Ou mesmo os avanços de Carlos Magno sobre o norte da Ibéria ainda no final do século VIII, onde ele estabeleceu no que hoje é o nordeste da Espanha a marca hispânica.

Mas, se o que esses zé cruzadinhas geralmente falam não tem fundamento histórico algum, de onde vem isso? Um dos principais divulgadores da tese que eles defendem é o ex-professor de física e escritor norte-americano Bill Warner.

Segundo Bill Warner, houve 548 batalhas provocadas pelo Islã contra o que ele chama de civilização cristã. Vídeos de Bill Warner no You Tube podem ser encontrados e vistos em canais de direita, onde ele mostra um mapa onde ele faz uma comparação entre a quantidade de batalhas daquilo que ele convém chamar de cruzada e jihad.

Nessa comparação, Warner, entre outras coisas, faz um verdadeiro cherry picking e não menciona, por exemplo, as já citadas cruzadas do norte contra os povos pagãos do Báltico oriental, ou mesmo outras cruzadas contra poderes não-islâmicos, vide a cruzada dos cátaros no sul da França entre 1209 a 1229.

Foto – Bill Warner.

Isso sem contar com os mapas cheios de erros bem crassos, como o abaixo:


Foto – Europa e o mundo mediterrânico entre 1900 a 1920, segundo as ilações de Bill Warner.

No mapa acima, Bill Warner, para além de apresentar o mundo muçulmano como se fosse um bloco monolítico do ponto de vista geopolítico, ele coloca dentro das fronteiras do Islã entre 1900 a 1920 regiões como os baixos Volga e Ural, as margens do mar de Azov, o Cáucaso e a Ásia Média, regiões essas que foram conquistadas pela Rússia, um império cristão ortodoxo, entre os séculos XVI a XIX. Também coloca dentro do mundo muçulmano o subcontinente indiano, a época sob o controle colonial britânico, e a Argélia, o Marrocos e a Tunísia, a época sob o controle colonial francês. Sem contar ainda com o Oriente Médio, sobre o qual França e Inglaterra estabeleceram mandatos coloniais após o fim da Primeira Guerra Mundial por meio do acordo de Sykes-Picot.

E por que falar a esse respeito? Por que isso não é coisa de meia dúzia de gatos pingados de Internet, como a primeira vista pode parecer. Pelo contrário, pessoas influentes, que ocupam altos cargos em governos ocidentais professam esse tipo de pensamento.  Além disso, esse é o tipo de retórica que justifica, por exemplo, as sucessivas intervenções do Ocidente “livre e democrático” sobre países do muçulmano que só tem trazido instabilidade e caos a região, derrubando regimes e em seu lugar abrindo caminho para o surgimento de grupos salafistas como o Estado Islâmico, o Boko Haram e outros afins. E mesmo o que Israel vem fazendo na Palestina e outras partes do mundo árabe desde 1948, incluindo a atual guerra do governo Netanyahu contra a faixa de Gaza.

E, além disso, pode-se dizer que esses zé cruzadinhas e a esquerda pós-moderna tem seus pontos em comum. Se a segunda cria todo um passado idealizado de povos como os africanos e os ameríndios de antes da chegada dos europeus e início do processo de colonização, os primeiros enxergam a Europa medieval de maneira similar, para não dizer análoga.

Eles tratam a Europa medieval como se fosse um mundo idílico e monolítico, onde não havia conflitos entre os diversos reinos cristãos que surgiram após o fim do Império Romano Ocidental. Como se antes mesmo do surgimento do Islã não houvesse episódios como as já citadas conquistas bizantinas do reinado de Constantino II, as guerras entre os reinos franco e visigodo entre 496 a 511, a guerra entre francos e burgúndios entre 523 a 533, guerras entre francos e frísios nos séculos VII e VIII, a conquista do reino suevo pelo reino visigodo em 585 e outras tantas. Ou mesmo guerras civis dentro dos reinos, incluindo a guerra civil dentro do reino visigótico às vésperas da conquista islâmica da Ibéria. Tanto que a conquista islâmica tanto da Ibéria quanto da Sicília se dá com o apoio de setores da nobreza e do exército locais, vide o caso do general bizantino Eufêmio, que movido por ambições pessoais convidou os aglábidas do norte da África em 827 para auxiliá-lo em sua querela com o governo imperial baseado em Constantinopla.

Assim, podemos dizer que até nisso a esquerda pós-moderna e esses zé cruzadinhas de direita se completam um ao outro. Kami Sama e Piccolo Daimaoh, o yin e o yang, o alfa e o ômega, as duas faces de Janus contrapostas entre si. Podem ter certeza que se um cavaleiro dos tempos medievais visse um desses zé cruzadinhas atuais, no mínimo ficaria envergonhado.

Foto – Cavaleiro cruzado medieval vs zé cruzadinha dos dias hodiernos.

Fontes:

As cruzadas derrotaram o Islã? Disponível em: https://historiaislamica.com.br/as-cruzadas-derrotaram-o-isla-o-que-ninguem-te-contou-sobre-isso/

As cruzadas salvaram a Europa de se tornar muçulmana? Disponível em: https://historiaislamica.com.br/as-cruzadas-salvaram-a-europa-de-se-tornar-muculmana/

Jihad vs Cruzadas: quem agrediu mais, e pior? Disponível em: https://lepanto.com.br/jihad-vs-cruzadas-quem-agrediu-primeiro-mais-e-pior/

List of wars involving Francia (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_wars_involving_Francia

O fenômeno dos zé cruzadinhas da Internet. Disponível em: https://sadclaps.medium.com/o-fen%C3%B4meno-dos-z%C3%A9-cruzadinhas-da-internet-2b71734e493

Por que e como os muçulmanos tomaram a Sicília? Disponível em: https://historiaislamica.com.br/por-que-e-como-os-muculmanos-tomaram-a-sicilia/

Quando os visigodos eram os conquistadores e a reconquista ibérica era bizantina. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/quando-os-visigodos-eram-os-invasores-e-a-reconquista-iberica-era-bizantina/

Quem foi Tariq Ibn Zyiad e como ele tomou a Hispânia dos visigodos? Disponível em: https://historiaislamica.com.br/quem-foi-tariq-ibn-ziyad-e-como-ele-tomou-a-hispania-dos-visigodos/

Zé Cruzadinha. Disponível em: https://turmadamonica.fandom.com/pt-br/wiki/Z%C3%A9_Cruzadinha

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

A Polônia está prestes a dar um passo perigoso no conflito ucraniano (texto da página Nova Resistência + meus comentários)


 “Vladimir Zelensky afirmou que, nos termos de um pacto recentemente assinado entre Kiev e Varsóvia, o país da OTAN poderia usar as suas forças militares para deter mísseis e drones russos no espaço aéreo ucraniano. Tal situação poderia ser considerada pelos russos como um caso de participação direta, conduzindo a uma guerra aberta entre a Rússia e um país da OTAN.

O pacto, segundo Zelensky, estabelece as condições necessárias para que Varsóvia tenha posições dentro da Ucrânia e participe diretamente no papel de defesa aérea, ajudando assim Kiev a superar uma das suas principais dificuldades estratégicas atuais. Durante muito tempo, o espaço aéreo na zona de conflito foi quase completamente controlado pela Rússia, o que tornou os tanques e veículos militares da Ucrânia, fornecidos pelo Ocidente, alvos fáceis para drones, mísseis e aeronaves russos. Kiev está a fazer o seu melhor para tentar resolver este problema, pois é impossível para um lado obter quaisquer ganhos militares sem uma forte capacidade de defesa aérea.

Neste sentido, procurando formas de reverter o colapso das suas defesas aéreas, Kiev tem procurado a cooperação direta com os parceiros ocidentais. Perante a impossibilidade de aderir à OTAN ou de trazer a aliança atlântica para o conflito, a Ucrânia aposta atualmente na assinatura de acordos bilaterais com o maior número possível de membros da OTAN, dando passos significativos para que estes países iniciem uma espécie de “intervenção direta” a nível individual . Neste sentido, o pacto de defesa entre Kiev e Varsóvia pode ser visto como uma forma de a Ucrânia utilizar ainda mais software e tropas da OTAN para melhorar as suas posições no terreno, sem, no entanto, envolver oficialmente a aliança.

“[O acordo] prevê o desenvolvimento de um mecanismo [para a Polônia] para abater mísseis e drones russos disparados no espaço aéreo da Ucrânia na direção da Polônia (…) [Nós] trabalharemos juntos para descobrir como podemos rapidamente implementar este ponto”, disse ele.

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, confirmou as expectativas de Zelensky e afirmou que os termos do acordo estabelecem de facto os termos para a cooperação direta, com a Polônia sendo autorizada a utilizar publicamente o seu equipamento militar em solo ucraniano contra os russos. No entanto, Tusk parece preocupado com o nível de participação da OTAN em tais manobras, temendo que a Polônia possa ser responsabilizada individualmente pelo ataque a alvos russos.

Tusk espera que os parceiros da OTAN cheguem a um consenso com Varsóvia e Kiev sobre como agir na atual fase do conflito. Ele espera que todas as ações tomadas pela Polônia e outros países membros sejam vistas como um ato conjunto da aliança, gerando assim responsabilidade coletiva. Ou seja, Tusk teme as consequências que o uso de militares polacos na Ucrânia poderá gerar para o país e espera que a OTAN proteja Varsóvia no caso de um conflito direto com Moscou.

‘Precisamos de uma cooperação clara dentro da OTAN aqui, porque tais ações exigem uma responsabilidade conjunta da OTAN (…) Incluiremos outros aliados da OTAN nesta conversa. Portanto, tratamos o assunto seriamente como aberto, mas ainda não finalizado’, disse Tusk.

Deve sublinhar-se que a Polônia participa de facto no conflito há muito tempo. É através da fronteira polaca que a maioria das armas ocidentais chega à Ucrânia. Militares polacos, tanto comandos como tropas comuns, serviram em grande número na Ucrânia e há muita informação pública sobre polacos mortos em combate durante confrontos com forças russas. É ingênuo pensar que estes polacos estão meramente a agir como “mercenários” individualmente interessados ​​em “ganhar dinheiro” ou “ajudar” Kiev. Obviamente, tratam-se de tropas regulares enviadas com o apoio do próprio Estado polaco, sendo o rótulo de “mercenários” e “voluntários” apenas uma forma de disfarçar a participação direta de Varsóvia na guerra.

Para piorar a situação, a Ucrânia está cada vez mais dependente da intervenção estrangeira na situação atual. Incapaz de se defender dos ataques aéreos russos e com pouca força para impedir o progresso terrestre, Kiev está focada na criação de pactos de defesa com parceiros da OTAN para aumentar a sua força militar e tentar sobreviver ao conflito. Para Kiev, quanto mais internacionalizado e escalado for o conflito, melhor. O país espera criar uma situação que torne impossível para a OTAN não intervir, razão pela qual está a tentar trazer a Polônia para a guerra.

No entanto, muitos analistas duvidam que a OTAN iria realmente intervir em defesa da Polônia ou de qualquer outro membro europeu. Embora exista uma cláusula de defesa coletiva no tratado da OTAN, este artigo nunca foi realmente testado. Além disso, se a Polônia intervir na guerra e atacar alvos russos, pode ser considerada o agressor, o que elimina a responsabilidade da OTAN de intervir em caso de retaliação russa em território polaco.

Na verdade, só a paciência e a racionalidade dos estrategistas russos estão a impedir que a guerra se transforme num conflito de magnitudes catastróficas.

Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://x.com/leiroz_lucas e https://t.me/lucasleiroz

Fonte: Infobrics”

Fonte: https://novaresistencia.org/2024/08/02/polonia-prestes-a-participar-diretamente-no-conflito-ucraniano/

MEUS COMENTÁRIOS

Este é um texto bem interessante que achei no site da Nova Resistência, lá postado faz alguns dias, e que resolvi trazer para cá com comentários meus, que fala a respeito do papel que a Polônia, atualmente governada pelo partido Lei e Justiça, vem exercendo no presente conflito russo-ucraniano.

É sabido e notório que desde tempos medievais, mais precisamente dos tempos da Rus’ de Kiev e do Primeiro Principado Polonês, há a rivalidade russo-polonesa (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_armed_conflicts_involving_Poland_against_Russia).

Segundo a Wikipédia, o primeiro destes enfrentamentos se deu ainda no século X, mais precisamente no ano de 981, com a expedição militar do grão-príncipe de Kiev Vladimir Svjatoslavič (o mesmo Vladimir que sete anos mais tarde converteu a Rus’ ao cristianismo e entrou para a história como São Vladmir de Kiev) nos domínios orientais do Principado Polonês (https://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%9F%D0%BE%D0%BB%D1%8C%D1%81%D0%BA%D0%B8%D0%B9_%D0%BF%D0%BE%D1%85%D0%BE%D0%B4_%D0%92%D0%BB%D0%B0%D0%B4%D0%B8%D0%BC%D0%B8%D1%80%D0%B0_%D0%A1%D0%B2%D1%8F%D1%82%D0%BE%D1%81%D0%BB%D0%B0%D0%B2%D0%B8%D1%87%D0%B0). E com as diferenças religiosas ajudando alimentar a rivalidade entre os dois países: os poloneses são católicos romanos, e os russos ortodoxos.

Digno de nota é o fato de que ao longo da história a Polônia se mostrou mais próxima e amigável a nações como a Hungria e a Lituânia que com a própria Rússia, a despeito de ambas as nações serem etnicamente eslavas. A ligação da Polônia com a Hungria era tal que quando os mongóis invadiram a Europa central em 1241, foi feito um ataque simultâneo aos dois países como forma de impedir que os poloneses viessem em auxílio aos húngaros. Tal plano foi ideia do general Subotai, um dos líderes da expedição mongol à Europa e um dos principais e mais eminentes generais do Império Mongol inicial, ao saber sobre as ligações entre as nobrezas de ambos os reinos.

A ligação entre os dois países é tal que há até uma canção proverbial a respeito da secular amizade polaco-húngara, que tem texto tanto em polonês quanto em húngaro, cuja tradução seria algo como “polonês e húngaro irmãos são” (https://en.wikipedia.org/wiki/Pole_and_Hungarian_brothers_be).

Além disso, durante séculos a Polônia foi unida à Lituânia, formando a partir de 1569 a Comunidade Polaco-Lituana. Em seu apogeu, a Comunidade Polaco-Lituana dominou grande parte dos atuais territórios de Ucrânia e Belarus, e até mesmo partes da Rússia ocidental. Na esfera religiosa, a comunidade Polaco-Lituana (também conhecida como a República das Duas Nações), por meio de uma política de polonização de seus domínios orientais, criou denominações tais como a Igreja Greco-Católica Ucraniana e a Igreja Greco-Católica Bielorrussa através da união eclesiástica de Brest em 1596, ambas as denominações de rito e liturgia bizantina, mas em comunhão com a Santa Sé Romana. No longo prazo a política religiosa da Comunidade Polaco-Lituana ajudou a criar as divisões da etnos russa.

Os poloneses, aproveitando-se da situação de instabilidade interna dentro da Rússia advinda da morte do tsar Fëdor II em 1598, lograram ocupar Moscou entre 1610 a 1612 (ou seja, algo que nem Napoleão e nem Hitler lograram conseguir anos depois), até que por fim foram expulsos e a Rússia voltou a ter um tsar em 1613 com a eleição de Mikhail Romanov, no que deu início aos 304 anos de reinado dos Romanov na Rússia. Eventualmente, com o passar do tempo, os russos foram virando o jogo, começando a tomar terras até então sob a posse polaco-lituana (incluindo Kiev em 1667) até culminar com as três partilhas da Polônia entre Rússia, Áustria e Prússia (1772, 1793, 1795).

E a união com a Lituânia não foi a única da história polonesa – a nação eslava foi também unida à Hungria em dois momentos: de 1370 a 1382 sob o rei Luís I da Hungria e de 1440 a 1444 sob Wladyslaw III da Polônia. Como também foi unida à Suécia sob Sigismundo III Vasa entre 1592 a 1599.

Como a Polônia e a Hungria eram os bastiões orientais da cristandade ocidental, criou-se todo um mito segundo o qual as duas nações eram as muralhas da mesma contra os avanços das hostes vindas do leste e do sul, algo visível em episódios como as invasões mongóis do século XIII, as guerras contra o Império Otomano (incluindo a intervenção do rei polonês Jan Sobieski III no segundo cerco a Viena, em 1683) e contra o Império Russo (https://en.wikipedia.org/wiki/Antemurale_Christianitatis). Também surgiu a ideia messiânica baseada no Novo Testamento de que a Polônia é o Cristo da Europa (https://en.wikipedia.org/wiki/Christ_of_Europe).

Cristiano Alves, do canal Camarada Comissário, postou dois vídeos em seu canal a respeito da geopolítica polonesa dos tempos da Segunda República Polonesa (1918 – 1939) e que vem sendo retomados desde o fim da República Popular da Polônia, em especial a partir da ascensão do partido Lei e Justiça (o partido ao qual pertence o atual mandatário polaco, Andrzej Duda) na nação de Copérnico, Chopin e do papa João Paulo II.


A propósito, uma indagação de minha parte: em vídeo do canal Nova Resistencia a respeito do massacre de Srebrenica (datado de 1995), Raphael Machado levanta a seguinte bola – de que há uma página que embora traga bons conteúdos sobre a Palestina e outras partes do mundo muçulmano, essa mesma página está alinhada com a geopolítica da Turquia hodierna. No que implica em uma visão negativa da Sérvia no que tange aos conflitos que levaram ao fim da Iugoslávia (ainda mais levando em conta que a Turquia, junto com outros países islâmicos como o Irã, o Paquistão e a Arábia Saudita, apoiou a Bósnia na guerra de 1992 a 1995). Ainda segundo Machado, a Turquia tem uma rede de influenciadores que fazem coro à narrativa do projeto geopolítico neootomano (segundo o qual a Turquia busca exercer influência nos países balcânicos que outrora estiveram sob o tacão do Império Otomano).

Com base nessa afirmação e juntando os pontos, me faço a seguinte pergunta: será que a Polônia também não tem um esquema similar para com influenciadores católicos de extrema direita, e que a antipatia em relação à Rússia que pode ser vista em alguns círculos de extrema direita católica aqui no Brasil (incluindo figuras como Marcelo Andrade, Lucas Lancaster e Lorenzo Lazzarotto) vem não dos Estados Unidos e da Inglaterra, e sim da Polônia?

Fazendo uma busca pela Internet, encontrei algumas coisas nesse sentido. Segundo notícias de 2020, há sim ligações da extrema direita católica brasileira com a Polônia. Mais precisamente, com institutos religiosos tais como o Piotr Skarga e o Ordo Iuris. E que entre as organizações católicas da extrema direita católica brasileira que recebem dinheiro vindo da Polônia está o IPCO (Instituto Plínio Correa de Oliveira). (https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/28/os-milhoes-enviados-da-polonia-para-radicais-da-tfp-no-brasil-e-pelo-mundo.htm). Talvez, o IPCO seja apenas a ponta do iceberg disso tudo, e que haja mais dessas figuras e grupos católicos de extrema direita com alguma ligação com a Polônia. Quer seja com organizações reacionárias de lá, quer seja com o próprio governo polonês.

A Polônia é governada pelo partido de extrema direita Lei e Justiça desde 2015. E desde então tem não apenas tem demolido monumentos relacionados ao passado soviético do país (incluindo profanações de túmulos doexército vermelho mortos na Polônia e até mesmo o caso ocorrido no ano passado no qual o embaixador russo na Polônia foi impedido de levar flores ao túmulo de soldados do exército vermelho por manifestantes de extrema direita), e até mesmo a promulgação de uma lei em 2018 sancionada pelo próprio Duda que prevê pena de três anos para quem ousar falar sobre a participação de colaboradores poloneses dos nazistas no Holocausto. Lei essa que, sob o pretexto de proteger a reputação da Polônia, nada mais serve que para proteger e acobertar os colaboradores poloneses dos nazistas na guerra.

E, de cereja do bolo, o clã Bolsonaro é simpático à Polônia de Duda. Vide postagem do Facebook datada de 13 de julho de 2020 na qual Eduardo Bolsonaro (vulgo 03) felicita Duda por sua reeleição.