domingo, 18 de outubro de 2026

As eleições 2026 e o vespeiro polonês - ou da Polônia enquanto Cristo da Europa (parte I)

 

Foto – Dominik Tarczyński ao lado de 03 (direita).

O eurodeputado Dominik Tarczyński[1], do partido Pis (Pravo i Spravedliwość; Lei e Justiça, na sigla em polonês), acionou e ameaçou deportar duas brasileiras que não só votaram no Lula no primeiro turno das eleições 2026, como também postaram nas redes sociais fotos fazendo o L e mostrando a estrela petista estampada na camisa em outra em redes sociais.

O que dizer dessa história? Primeiro de tudo, que é ridículo (para não dizer absurdo) dizer que o PT é comunista. O PT nunca foi, não é e nunca será comunista. Começa pelo fato de que o Partido dos Trabalhadores, em sua gênese, rejeitava não só as experiências socialistas vistas em países como a União Soviética, a Mongólia, a China, a Coréia do Norte, o Vietnã e a Líbia, como também a tradição trabalhista (que também passava longe de comunismo) de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. Isso a tal ponto que à época Darcy Ribeiro e Brizola classificavam o PT por adjetivos como “UDN de macacão”, “esquerda que a direita gosta” e “galinha que cacareja pela esquerda e bota ovos pela direita”.

Tanto é verdade que ainda no começo dos anos 1980 o PT era simpático à causa do sindicato Solidarność (em polonês Solidariedade) na Polônia, ao passo que outros partidos da esquerda brasileira, como o PCB, olhavam o mesmo Solidarność como contra-revolucionário. Isso a tal ponto que o PT convocou manifestações de rua em apoio ao Solidarność. Ou seja, é até bizarro de se pensar que naquela época o PT, Plínio Correa de Oliveira (intelectual católico e fundador da TFP[2] no Brasil, o mesmo que dá nome ao IPCO [3]) e o pessoal que depois fundou o PiS, o partido de extrema-direita que hoje governa a Polônia e com o qual a família Bolsonaro tem suas ligações, estavam do mesmo lado da barricada, lutando contra o regime da República Popular da Polônia encabeçado pelo marechal Wojciech Jaruzelski [4].

O fato é que historicamente a práxis política do Partido dos Trabalhadores esteve bem mais próxima daquela de partidos social-democratas como o Partido Democrata dos Estados Unidos, o Partido Trabalhista da Inglaterra e o SPD alemão (a chamada terceira via) que dos países do chamado socialismo real.

Brizola, do alto de sua sabedoria e argúcia, disse na entrevista ao Roda Viva, em 1994, o seguinte: que Lula é a espuma da história, que a mente dele está dentro do sistema tal qual Fernando Henrique e as equipes econômicas do tucano e do petista se acotovelavam para executar o mesmo programa econômico, neoliberal. Com FHC vindo por cima e Lula por baixo. Desdobramentos posteriores, como a carta aos brasileiros de 2002 e toda a política econômica dos governos Lula e Dilma, apenas confirmam o diagnóstico de Brizola.

Brizola era um homem que enxergava longe, e já naquela época ele vislumbrou o que viria a ser o petucanismo se formando no horizonte: petistas e tucanos se revezando no poder, administrando a ordem capitalista no Brasil e executando no essencial o mesmo programa econômico (baseado no chamado tripê macroeconômico – metas fiscais de superávit primário, metas fiscais de inflação e câmbio flutuante).

Pode-se dizer que ali o velho caudilho também vislumbrou o papel que o PT teria dentro da governabilidade petucana – o bombeiro do sistema ao qual os donos do poder vão recorrer em tempos de crise, a hora em que a política levada adiante pelos representantes orgânicos deles (como o PSDB e o PMDB) chegar ao seu limite e o perigo de convulsão social massiva estiver no ar (como foi o caso de 2002). A típica manobra de abrir mão dos anéis para preservar os dedos.

Foto – petucanismo: os dois bandos brigando para ver quem melhor serve aos donos do poder. Charge de Latuff datada de 2012.

Segundo o professor Jessé Souza em sua obra “A classe média no espelho”, o que Fernando Henrique Cardoso operou na economia brasileira foi uma espécie de recriação da Primeira República Brasileira (1889 – 1930): em seu afã de “enterrar a era Vargas”, o uspiano fez do estado brasileiro um mero orçamento a ser dividido pela elite do dinheiro, elevou a taxa SELIC a 45%, o real passou a valer o mesmo que o dólar, as funções sociais do Estado foram encolhidas, uso do orçamento para turbinar o setor financeiro com o dinheiro de todos, o endividamento do estado dispara, o processo de desindustrialização do país tem início. O estado brasileiro literalmente se torna o balcão de negócios da Faria Lima, parafraseado Marx.

Consequentemente, surgiram esquemas de corrupção como a Privataria Tucana (estatais como a Companhia Siderúrgica Nacional e a Vale Rio Doce entregues a preço de banana a investidores e especuladores internacionais), Banestado (o maior esquema de evasão de divisas da história do Brasil, por meio do qual cerca de R$ 124 bilhões [valores da época] foram enviados a contas no exterior via contas CC5), mensalão mineiro, Dersa, Rodoanel, Alstom, trensalão, entre outros. Assim como personagens das sombras tais como os doleiros Dario Messer, Nelma Kodama e Alberto Yousseff, Geraldo Brindeiro (engavetador-geral da República da era FHC) e operadores de esquemas como Marcos Valério (inicialmente operador de esquemas do PSDB em Minas Gerais), Paulo Preto e o finado Manfred von Richthofen (morto pela própria filha em 2002).

E, uma vez chegando à presidência da República, o que os governos Lula e Dilma fazem? Mantêm no essencial o funcionamento dessa engrenagem, os fundamentos estabelecidos lá atrás no Plano Real: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante. A reforma agrária (pauta histórica do PT) congela e o agronegócio não só expande sua fronteira agrícola, como também o próprio governo petista se vale de sucessivos Planos Safra para investir e irrigar as contas do mesmo. Usa a verba publicitária para irrigar as contas de canais televisivos como a Globo, o SBT e a Record. Os bancos privados continuam lucrando horrores por meio do pagamento de juros e amortizações da dívida pública, que consome cerca de metade do orçamento da união anualmente. O BNDES se torna uma plataforma por meio do qual o governo brasileiro financia obras de empreiteiras como a Odebrecht, a OAS e a Camargo Correa em países como Venezuela, Cuba e Líbia (ao passo que, a despeito de toda a histeria de setores da direita brasileira e dos meios de comunicação, no essencial, a política externa brasileira continua tendo como parceiros estratégicos países como Estados Unidos e França). Um bolsa família aqui e acolá acaba se tornando medida de contingenciamento para impedir que o país pegue fogo. Perto do que o país gasta pagando por ano só de juros e amortizações da dívida pública (o que alguns chamam de bolsa banqueiro), o bolsa família não passa de troco de pinga.

Foto – Gastos da União em 2014.

E isso não passou despercebido nem por políticos e nem por analistas políticos – em 2003 (ou seja, ainda no primeiro ano do primeiro governo Lula), Brizola rompeu com Lula por, entre outras coisas, manter a mesma política econômica de FHC e se afastar das pautas históricas da classe trabalhadora e da esquerda. Em 2004, o Doutor Enéas diz em programa eleitoral que não há diferença básica entre o governo do PSDB e o do PT. 

E em 2006, durante a eleição para governador do estado de São Paulo, em debate com Aloísio Mercadante, Plínio de Arruda Sampaio mostrou por A+B que o PT, no essencial, aplicava a mesma agenda econômica que o PSDB aplicava antes. 

Analistas políticos como Gilberto Felisberto Vasconcellos (colunista da finada revista Caros Amigos) e Nildo Ouriques criaram o petucanismo para designar esse fenômeno. Ou seja, políticos e analistas de diferentes visões ideológicas observando o mesmo fenômeno e convergindo para a mesma conclusão.

Sobre o ato das brasileiras em si em Varsóvia, elas, ao fazerem o L e postarem foto em redes sociais com estrela petista, involuntariamente, mexeram em um vespeiro. Mais precisamente, o vespeiro da direita polonesa e de todo o ideário que a própria Polônia vem cultivando e que remonta aos tempos da conversão da nação de Copérnico e Chopin ao cristianismo, ainda no século X.

O fio dessa história remonta ao ano de 966, quando a Polônia se converte ao cristianismo sob o rei Mieszko I. Junto com a Hungria, convertida ao cristianismo no ano 1000 sob o rei Estevão (este último posteriormente canonizado como Santo Estevão), a Polônia se torna a fronteira oriental da cristandade latina. Nisso, desenvolveram conceitos como o da Antemurale Christianitatis (Muralha da Cristandade em latim), e da Polônia como Cristo da Europa.

Com o cisma do Oriente em 1054 e a divisão dentro do mundo cristão dela decorrente entre leste e oeste e ainda mais a partir do século XIII com as invasões mongóis, a Polônia passa a desempenhar, junto com a Hungria, o papel de sentinela das fronteiras orientais da cristandade latina.

Em 1241, os mongóis, liderados por Batu Khan e o general Subotai (um dos principais comandantes militares do Império Mongol inicial), invadem a Hungria e a Polônia simultaneamente, com a intenção de impedir que poloneses, tchecos e cavaleiros germânicos viessem em auxílio do Reino Húngaro, sabendo de antemão a respeito das ligações dinásticas entre as aristocracias húngara e polonesa.

Baidar, Orda (irmão de Batu) e Khadan [5] comandam as divisões do flanco norte do exército mongol. Depois de passar e devastar cidades como Lublin, Zawichost, Sandomir, Cracóvia e Wrocław, em 9 de abril daquele ano os mongóis infligem uma derrota esmagadora ao exército polaco-germânico liderado pelo duque Henrique o piedoso da Silésia, na batalha de Legnica [6]. O duque é morto em combate.

Dois dias depois, é a vez do rei húngaro Béla IV ser vencido pelos mongóis na batalha de Mohi. A derrota foi tal que o rei húngaro teve que fugir para não ser capturado e morto pelos invasores. Batedores mongóis chegam às cercanias de Viena e Udine. Por conta da morte do grande khan Ôgôdėi em Karakorum e levantes dos cumanos nas estepes do sul da Rússia a campanha europeia chega ao fim. Os mongóis recuam e se retiram da Hungria, devastando a Sérvia e a Bulgária no caminho de volta às estepes.

Foto – Batalha de Legnica, 1241.

No inverno de 1259/1260, nova invasão mongol à Polônia se segue, sob o comando de Burundai, depois de ter invadido o Grão-Ducado da Lituânia e o Principado da Galícia-Volínia. Cidades como Lublin, Zawichost, Sandomir e Cracóvia são devastadas e pilhadas pelos invasores. Em Sandomir, o beato Sadok e 48 frades dominicanos são levados ao martírio pelos invasores vindos do leste na Igreja de Santiago.

Foto – O martírio do beato Sadok e dos 48 frades dominicanos durante o saque de Sandomir em 1260. Pintura do século XVII.

A terceira e última dessas invasões ocorre no inverno de 1287/1288, sob a liderança de Nogai (à época o homem-forte da Horda Dourada, a divisão noroeste do Império Mongol) e Talabuga. Os dois vinham de um fracasso na Hungria em 1285/1286. O primeiro veio pelo sul, na direção de Cracóvia, e o segundo pelo norte, na direção de Sandomir. Mas dessa vez os poloneses, assim como os húngaros, estavam melhor preparados para enfrentar os invasores, já dispondo de uma rede de castelos e fortificações e evitando combates em campo aberto em um primeiro momento, e o sucesso das invasões anteriores não se repetiu. Nogai foi batido nas muralhas de Cracóvia e Talabuga nas muralhas de Sandomir.

Nos séculos seguintes, a Polônia, sob a égide de reis como Casimiro o Grande (r. 1333 – 1370) se expande ao leste, firma uma aliança dinástica com a Lituânia em 1386 (União de Krewo) que em 1569 evoluiu para a Comunidade Polaco-Lituano (União de Lublin, 1569) e conquista grande parte do que hoje é Ucrânia e Belarus. A Comunidade Polaco-Lituana veio a desempenhar papel importante em conflitos contra o Império Otomano (vide o episódio do cerco otomano a Viena em 1683, no qual o rei polonês Jan Sobieski III veio em auxílio dos austríacos e ajudou a derrotar o cerco otomano), contra os cavaleiros teutônicos (batalha de Grunwald, 1410), contra a Suécia (o episódio do dilúvio de 1655 a 1660) e contra o crescente poder da Rússia moscovita.

Em 1610, o rei polonês Sigismundo III Vasa, aproveitando-se da situação de instabilidade interna dentro da Rússia após a morte do tzar Fëdor I (1598) e a crise dinástica dela decorrente, ocupa Moscou e tenta instalar no trono russo um rei católico alinhado a Varsóvia. O Kremlin de Moscou fica dois anos ocupado por guarnições polonesas e mercenários europeus. Graças à insurreição popular e religiosa encabeçada por Kuzma Minin e pelo príncipe Dmitrij Požarskij, um exército é formado em Nižnij Novgorod e Moscou é libertada em 1612 da ocupação polaco-lituana. No ano seguinte Mikhail Romanov é eleito como novo tzar da Rússia, dando início a 304 anos de dinastia Romanov.

Foto – Comunidade Polaco-Lituana em sua máxima extensão territorial, por volta de 1648.

A partir da segunda metade do século XVII a Polônia-Lituânia entra em decadência, começa a perder territórios no leste para a Rússia (incluindo Kiev) e ao fim é riscada do mapa no século XVIII nas três partilhas da Polônia entre Rússia, Prússia e Áustria (1772, 1793 e 1795). No século XIX tentativas de restaurar a independência polonesa e a velha Comunidade Polaco-Lituana nas fronteiras de 1772 ocorrem em 1830-1831 (levante de novembro) e 1863-1864 (levante de janeiro), ambas esmagadas e suprimidas pelo Império Russo tzarista.

Enquanto a Polônia esteve riscada do mapa, surge a ideia da Polônia como o Cristo da Europa, concebida por figuras como o poeta romântico Adam Mickiewicz.

Na visão de Mickiewicz, a perseguição e sofrimento dos poloneses servia para trazer salvação a outras nações oprimidas e perseguidas, da mesma forma que a morte de Cristo (crucificado por seus vizinhos) trouxe redenção à humanidade. Assim surgiu a frase “Polska Chrystusem naradów” (Polônia, o Cristo das nações, na tradução do polonês).

Foto – Adam Mickiewicz (1798 – 1855).

A Polônia só volta a surgir no mapa europeu em 1918, após o fim da Primeira Guerra Mundial e a queda dos impérios Austro-Húngaro, Russo e Alemão. Ressurge como a Segunda República Polonesa, a qual em 1920, sob a liderança do marechal Jozéf Piłsudski, vence o exército vermelho na batalha de Varsóvia. A vitória polonesa em Varsóvia entra para a história como o milagre sobre o Vístula. Dessa forma, todo esse ideário da Polônia como a muralha da cristandade latina e Cristo da Europa ressurge, dessa vez contra o comunismo soviético ateu e contra o nazismo (em particular o primeiro).

Algo digno de nota é que em 24 de setembro de 1939 Plínio Correa de Oliveira publica no Legionário o texto “As tradições religiosas da Polônia”, no qual se solidariza com a Polônia contra aquilo que ele chama de “invasão totalitária da extrema direita e da extrema esquerda” e evoca toda esse ideário a respeito da Polônia de muralha da cristandade. Em um dos trechos desse texto ele diz o seguinte:

“Deus sempre ouviu a Polônia, que, durante um milênio de existência, jamais tomou das armas para empreender guerras de opressão mas, pelo contrário, sempre fê-lo em prol de justas causas”.

Resumindo a ópera, quando Dominik Tarczyński aciona a lei contra o comunismo e o nazismo para justificar uma eventual deportação das duas brasileiras que fizeram o L, o que ele está fazendo é nada mais que acionar todo esse arcabouço político-ideológico que a Polônia, na condição de nação fronteiriça da cristandade latina, construiu desde a época de sua conversão ao cristianismo. Da nação muralha da cristandade que luta e dá o sangue para impedir que as mazelas vindas do sul, do leste e do norte cheguem ao coração da cristandade latina. Ou seja, a cidades como Roma, Viena, Munique, Paris e Avignon.

NOTAS:

[1] Leia-se "Tartchinski".

[2] Tradição, Família e Propriedade.

[3] Instituto Plínio Correa de Oliveira.

[4] Leia-se “Voitsierr Iaruzelski”.

[5] Leia-se “Rratan”.

[6] Leia-se “Legnitsa”.

domingo, 4 de outubro de 2026

O caso do elefante Sandro e o futuro dos zoológicos brasileiros

 

Foto – Sandro, o elefante do zoológico de Sorocaba.

A história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa. Assim diz Karl Marx na introdução de sua obra “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, ao analisar a ascensão de Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte, como imperador da França.

Sandro, elefante asiático de mais de 50 anos de idade que desde 1982 vivia no bosque municipal de Sorocaba “Quinzinho de Barros”, enfim foi transferido ao chamado Santuário dos Elefantes Brasil, situado no Mato Grosso, após um imbróglio judicial que se estendeu por vários anos.

O caso envolvendo o elefante idoso (do qual tomei conhecimento ainda em 2022, por meio de vídeos no canal do Wagner Ávila no You Tube) vem dividindo e polarizando a opinião das pessoas no Brasil nos últimos anos.

De um lado, aqueles que eram a favor da permanência dele no Quinzinho de Barros, sob a alegação de que transferir um elefante já idoso e desdentado, que precisa de cuidados especiais e já acostumado aos seus tratadores, é algo temerário e que uma vez no santuário ele não consiga se adaptar ao novo ambiente. E de outro, os que defenderam a transferência dele ao santuário (parte significativa deles influenciadores e artistas – a malta de hipócritas de sempre que adoram levantar bandeira para fim de massagem de ego e promoção pessoal), sob a alegação de que lá ele enfim vai ser livre depois de tantos anos vivendo no circo e no zoológico.

O que os defensores da transferência de Sandro do zoológico ao santuário parecem não perceber é que no SEB o Sandro não está livre, não está na natureza. Visto que elefantes são animais nativos de locais como a África ao sul do Saara, o subcontinente indiano e o Sudeste Asiático, não do cerrado brasileiro que é onde se encontra o santuário (a América do Sul já teve seus proboscídeos no passado, mas hoje já estão todos extintos). E segundo que mesmo ele estando no santuário ele ainda estará sob cuidados humanos. Em outras palavras, ainda estará em cativeiro. Tal qual o elefante que está em um circo, em um zoológico, em uma fazenda ou em um exército servindo como animal de combate, por exemplo.

Aliás, é muita pretensão da parte do pessoal que comanda santuários como o SEB e o santuário de elefantes do Tennessee nos Estados Unidos querer vender uma imagem de que, sob os cuidados deles, os elefantes são livres e vivem na natureza, livres de exploração humana, e que eles é que são os iluminados que sabem cuidar de animais. No fim das contas, santuários não passam de zoológicos gourmet, aos quais apenas alguns escolhidos têm acesso.

Antes mesmo do caso envolvendo Sandro, houve também o caso do chimpanzé Black, que foi transferido do Quinzinho de Barros ao Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, em 2019. E uma vez no santuário, morreu em questão de dois anos, em 2021.

Foto – Black, o chimpanzé.

O Santuário de Elefantes Brasil tem um histórico, digamos, não muito abonador para o lado dele. Visto que alguns dos elefantes que lá chegaram morreram em questão de meses, como foi o caso de Kenya e Puppy ainda no ano passado, ambas vindas da Argentina. E nisso repete um padrão visto, por exemplo, no santuário de elefantes do Tennessee, nos Estados Unidos, também notório por seus periódicos casos de mortes dos elefantes que eles tiram de zoológicos e circos após campanhas similares às que o pessoal do SEB faz.

Foto – Listagem das mortes de elefantes no santuário do Tennessee, de 2001 a 2017 (Fonte: página do Facebook “Nosey the amazing Elephant”).

Dito isso, a pergunta que fica no ar é – o que será que está em jogo com a transferência de Sandro de Sorocaba ao santuário no Mato Grosso? Acho que isso é muito mais que uma simples transferência de um animal de um local a outro. Eu, particularmente, temo que com a transferência de Sandro, o único e último elefante macho restante no Brasil (lembrando que ano passado o elefante africano macho do zoológico de Belo Horizonte, Jamba, faleceu aos 29 anos), ao santuário de elefantes os zoológicos brasileiros estejam entrando em uma espiral descendente, um ponto de não-retorno muito perigoso.

Sandro é um animal idoso, de mais de 50 anos de idade, que antes mesmo de viver no “Quinzinho de Barros” fez parte dos circos Bismarck e Orlando Orfei, este último um dos principais e mais eminentes circos brasileiros durante décadas.

Foto – Vista aérea do circo Orlando Orfei, anos 1980.

O circo Orlando Orfei fechou suas portas em 2008 depois de todo a campanha feita à época contra os circos com animais em solo brasileiro, levada adiante por ONGs de protetores de animais e políticos ligados a essas ONGs e o surgimento de leis em estados e municípios proibindo o uso de animais em apresentações circenses, em especial depois que aconteceu a tragédia do circo Vostok, na qual um menino de seis anos foi morto por um leão dentro das dependências do circo (e a própria família Orfei, tanto aqui no Brasil quanto na Itália, é uma família bem tradicionalista no que tange ao uso de animais em circos).

Em outras palavras, isso que vimos em episódios como a transferência do chimpanzé Black e mais recentemente de elefantes como a Baby e o Sandro de zoológicos a santuários não é nenhuma novidade. Visto que isso nos governos Lula e Dilma, ONGs de protetores de animais moveram vigorosas campanhas para confiscar animais dos circos e enviá-los aos santuários deles, sob a alegação de que os animais em circos eram maltratados, que circo legal não tem animal e verborragias afins.

E hoje estamos vendo esse mesmo filme se repetir, agora com os zoológicos. Algo bem curioso a esse respeito é o fato de que biólogos que hoje encampam a defesa dos zoológicos como o Richard Rasmussen e Henrique Abrahão Charles (vulgo biólogo Henrique) em momento algum citam esse fato.

O caso do biólogo Henrique (um dos que encamparam a defesa pela permanência de Sandro no Quinzinho de Barros – até aí tudo bem) é bem curioso. Esses dias vi um vídeo dele no qual ele exalta o papel dos zoológicos e todo o trabalho de conservação de espécies e educação ambiental que eles fazem, e ao mesmo tempo se diz contra a presença de animais em circos.

Acho bem estranho, um biólogo como ele se incomodar com as mentiras que o pessoal dos direitos dos animais fala sobre os zoológicos (até aí tudo bem), mas ao mesmo tempo engolir as mentiras dessa mesma gente a respeito dos animais em circos. Ou seja, em um caso ele e a Luísa Mell (vulgo Marina Zats) que ele tanto critica estão em lados opostos da barricada, ao passo que em outro caso os dois estão cerrando fileiras e no mesmo lado da barricada. Curioso, não?

Essa guerra que hoje vemos sendo feita contra os zoológicos brasileiros por parte do pessoal dos direitos dos animais nada mais é que a continuação da guerra que foi feita lá atrás contra os circos com animais, e isso ele e outros biólogos que comungam desse pensamento parecem não perceber. É a mesma história, sem tirar nem pôr, ainda mais levando que alguns dos animais hoje visados por essa gente, incluindo a Baby e o próprio Sandro, um dia também foram animais de circo.

Mas afinal, por que o biólogo Henrique e outros que também pensam como ele omitem esse fato, de que a atual campanha contra os zoológicos aqui no Brasil é, em essência, o prolongamento natural da campanha feita lá atrás contra os circos com animais? É uma omissão no mínimo preocupante, que passa da ideia de que isso é um problema que começou recentemente, sendo que é algo que vem de vários carnavais.

Imagino que o biólogo Henrique deva ter seus motivos para tal. Será que (especulação minha) na época ele estava batendo palmas para essa mesma campanha que as ONGs moviam contra os circos? Será que ele, como também outros biólogos que compartilham dessa mesma opinião, na verdade estavam lutando do mesmo lado da barricada desse mesmo pessoal de ONGs e santuários? E que lembrar disso agora seria muito inconivente a ele? O que será que ele fez no verão passado, afinal? Talvez aí esteja a parte farsesca da presente história, segundo a máxima de Marx.

Esses dias, soube de uma notícia que fala que o circo Krone, um dos principais e mais tradicionais circos alemães, foi alvo de vandalismo por parte de ativistas dos direitos dos animais em Hamburgo. E antes disso, ainda no começo do presente ano (2026), também na Alemanha, houve o caso envolvendo a domadora de tigres Carmen Zander, conhecida em seu país natal como “a rainha dos tigres” (a qual tem uma página no Facebook chamado “Im Auge des Tigers”).

Em Leipzig, um de seus tigres, Sandokan, fugiu de seu recinto, atacou e feriu seriamente um dos tratadores e em seguida foi morto a tiros pela polícia. Após o incidente, outros seis tigres da domadora foram confiscados pelas autoridades locais e transferidos a um santuário na Espanha.

Sabendo do que o biólogo Henrique pensa a respeito da presença de animais em circos, não ficaria nem um pouco surpreso se ele, nesses casos, resolvesse cerrar fileira com os ativistas que vandalizaram o circo Krone e apoiar o confisco e envio dos tigres de Carmen Zander ao santuário espanhol. Ou seja, com o pessoal daquilo que ele chama de “fofofauna” que ele tanto critica (e com razão).

Foto – Carmen Zander, a rainha dos tigres.

Ou seja, para pessoas como o biólogo Henrique, quando a água bate no traseiro do outro, está tudo bem. Tudo bem o outro ser jogado aos tubarões e por eles ser devorado. Afinal, não é comigo mesmo. Agora, quando a água começa a bater no meu traseiro, aí a conversa muda de tom e eu fico preocupado, consternado.

E outra – pelo que vejo, parece que para pessoas como o biólogo Henrique está tudo bem o outro, por trabalhar de um jeito um pouco diferente do dele, apanhar de pessoas como a Luiza Mell, de políticos como os irmãos Tripoli e organização animalistas como o PETA e o ALF (“Animal Liberation Front”, na sigla em inglês), se lascar nas mãos deles e ter seus animais confiscados por eles. Agora, quando essa mesma gente começa a me atacar, aí é que eu vou ficar incomodado com a situação.

Na contramão do biólogo Henrique, vejo, por exemplo, o pessoal do zoos.media (portal de notícias sobre zoológicos da Alemanha) demonstrar solidariedade à Carmen Zander.

Pessoas como o biólogo Henrique e o Ary Borges (o homem que criava tigres em Maringá e teve seus animais confiscados pelo Ibama em 2014) me parecem o Mussum naquele esquete dos Trapalhões, no qual o personagem interpretado pelo finado ator, humorista e sambista Antônio Carlos Bernardes Gomes faz toda sorte de ginástica mental e retórica para justificar os aumentos de preço por parte do governo, até ficar sabendo do aumento do preço da cachaça (vulgo mé). Quando ele fica sabendo do aumento do preço da cachaça, a conversa muda de tom e o Mussum passa a condenar e a maldizer o governo que antes ele apoiava.

Como Wagner Ávila aponta em recente vídeo, hoje foi a vez do Sandro ser transferido do zoológico para o santuário. E amanhã, quem será o próximo a rodar? Será que um dia veremos os zoológicos brasileiros definharem a um ponto de insignificância, com muitos deles sendo sucateados e fechados com o tempo e depenados de seus animais (em especial os animais de grande porte), tal qual aconteceu com os circos brasileiros anos antes?

https://www.facebook.com/reel/2292018944948950

Podem me apedrejar e me cancelar o quanto quiser. Eu defendo sim os circos tradicionais com animais e os zoológicos. Para além das questões de conservação de espécies e educação ambiental, é graças a locais como os circos e os zoológicos que eu não preciso viajar à África ou à Índia para ver um elefante, um leão ou uma zebra (e assim ter de encarar duas viagens de avião mais caminho por terra – fora o dinheiro que terei de gastar para tal).

Lembro-me muito bem da primeira vez em que vi leões na minha vida, no circo de Roma, ainda nos anos longínquos anos 1980, ao qual fui junto com o meu finado pai. Havia lá um leão e duas leoas. Nos circos subsequentes aos quais fui (entre eles o circo Garcia), pude ver tigres, animal que (até onde me lembro) o bosque da minha cidade nunca teve. Já nas duas últimas vezes em que eu fui a circos (ambas no finado circo do Beto Carrero – julho de 1998 e fevereiro de 2003), pude ver um casal de tigres brancos (provavelmente, um deles é o mesmo que aparece ao lado do Beto Carrero na capa do CD “O mundo encantado de Beto Carrero”, lançado em 1996). E isso sem precisar sair da minha cidade natal. Em todas as outras vezes em que pude ver tigres brancos na minha vida, os vi em zoológicos gringos.

Foto – Capa do CD “O mundo encantado de Beto Carrero”, de 1996.

Na última vez em que estive em um circo, também pude ver o camelo bactriano (o de duas corcovas) e o elefante na parte de fora do circo, bem de pertinho, na saída.

Ao ver animais diversos nos circos e zoológicos, pude ver que eles não são abstrações de livros, revistas, filmes e documentários que se passam em locais distantes como a África, a Índia e o Sudeste Asiático. E sim seres vivos reais, de carne e osso, e esse contato que tive desde tenra idade foi muito importante a ponto de ajudar com o tempo a criar fascínio para com o mundo animal.

No bosque da minha cidade, Ribeirão Preto, há uma elefanta chamada Maison. Tal como o Sandro e a Baby, ela também já foi de circo um dia. Mais precisamente, do circo Kroner (favor não confundir com o circo alemão Krone). Uma vez estive no recinto provisório dela, junto com o palhaço Biriba, em 2012. Pude vê-la de perto, sem nenhuma grade se interpondo entre mim e a elefanta (ainda que a uma certa distância). Até tirei uma foto dela.

Foto – Maison no recinto provisório dela, outubro de 2012.

Ver um elefante vivo de tão perto é algo simplesmente incrível, surreal. O quão grande e majestoso ele é, uma sensação de imponência sem igual. Ainda mais sem precisar ter de viajar meio mundo para vê-los no habitat natural deles, sem precisar ter de encarar duas viagens de avião para tal que somam mais de 20 horas.

A minha cidade já teve outra elefanta chamada Bambi, a qual em 2020 foi transferida ao Santuário do Mato Grosso. Talvez, seja questão de tempo o mesmo santuário voltar suas atenções à Maison, tal como feito com Baby, com Sandro e os elefantes que eles trouxeram da Argentina (e que morreram em questão de meses no santuário).

Mal sabem certos incautos que apoiam esse tipo de causa, que pedem o fim de circos com animais, aquários, ecoparques e zoológicos, a roubada que apoiam. Vai chegar a hora em que um deles vai querer ver um elefante ao vivo, e não vai poder porque para isso vai ter que viajar até a Índia, a Tailândia ou ao Quênia, e nisso ter de encarar duas viagens de avião que juntas somam mais de 20 horas e que vai sair muito cara para o bolso dele. Sendo que lá atrás ele poderia muito bem ver um desses no bosque da cidade dele ou no circo.

E o mais grave de tudo: nessa brincadeira de justiceiro da causa animal o que eles vão fazer é, no fim das contas, privar as próximas gerações de ter experiências como as que eu tive desde a infância. E privando as novas gerações de contato com animais selvagens, o interesse delas pela proteção e conservação desses animais irá simplesmente para o ralo (e o animal no circo ou no zoológico é, antes de tudo, um embaixador da espécie). No fim, apenas os ricos que podem ter acesso a viagens internacionais e o círculo de pessoas próximas com acesso aos santuários é que vão se beneficiar dessa brincadeira. E quando o estrago estiver feito, uma coisa é certa: o julgamento da história para com esses que resolveram brincar de justiceiros da causa animal vai ser pesado, muito pesado.

Pois como o grande Steve Irwin certa vez disse, “Se nós pudermos ensinar as pessoas sobre a vida selvagem, elas serão tocadas. Compartilhe minha vida selvagem comigo. Porque os humanos querem salvar coisas que eles amam”.

Alguns podem me perguntar, mas e os maus tratos a animais? E o animal confinado, fora de seu ambiente natural? Não nego que em alguns momentos tratadores de circos e de zoológicos tenham pisado na bola. Mas é de uma generalização estúpida e burra pensar que animais em circos e zoológicos é sinônimo de crueldade, maus tratos e privação de liberdade (sendo que mesmo no ambiente natural o animal não é livre para se estabelecer no lugar em que quiser – há um artigo em alemão no site do zoos.media que fala sobre isso). Isso faz tanto sentido quanto dizer, por exemplo, que jogador de futebol é sinônimo de salários milionários (sendo que só uns poucos é que recebem tais salários). Que Igreja é sinônimo de padre pedófilo. Que casamento é sinônimo de violência doméstica. Que Islamismo é sinônimo de terrorismo. Entre outros tantos paralelos que posso ficar traçando.

Dito isso, eu sugiro a vocês que estão lendo esse meu texto a procurem pelo trabalho de profissionais que trabalham com animais em circos estrangeiros, de países como a Itália (o país natal de Orlando Orfei), a Alemanha e a Rússia. Vocês vão encontrar muita coisa legal. O trabalho de domadores como Martin Lacey (circo Krone), os irmãos Edgar e Askold Zapašnyj (grão-circo estatal de Moscou), Nikolaj Pavlenko (famoso domador de tigres russo, hoje aposentado, alcunhado de o “Karajan da grande jaula”), Bruno Togni (American Circus Togni), entre outros.

Foto – Nikolaj Pavlenko, o “Karajan da grande jaula”.

Em países lusófonos, cito o exemplo do circo Victor Hugo Cardinali, de Portugal, o qual durante muitos anos trabalhou com animais como leões, elefantes africanos, camelos e cavalos e é tido como um circo de excelência no trato aos animais (inclusive o Marcos Frota elogiou o Victor Hugo Cardinali por isso, em 2015). E mesmo no Brasil, no passado circos como o Garcia e o Orlando Orfei também se destacavam no bom trato aos animais (o Garcia chegou a realizar reprodução de chimpanzés). Há fotos de vários tratadores de circos abraçados a seus animais, incluindo fotos de Orlando Orfei abraçado a seus leões.

Foto – Orlando Orfei abraçado a um de seus leões.

E antes que venham com essa coisa de polarização de esquerda x direita, é bom que saibam de uma coisa – é fato que aqui no Brasil a guerra contra os circos animais (e agora contra os zoológicos) se deu sob as asas dos governos Lula e Dilma, políticos vinculados ao partido dos trabalhadores (PT), o principal partido de esquerda do Brasil e de toda a América Latina. Isso ao mesmo em que a Polônia proibiu os animais em circos em 2020 com a extrema direita no poder, representada por Andrzej Duda e o partido Prawo i Sprawdliwość (Lei e Justiça, na sigla em polonês). Duda que, a propósito, é um dos principais aliados de Bolsonaro dentro da extrema direita europeia junto com o húngaro Viktor Órban. A Polônia de Duda que, junto da Hungria de Órban, é também a grande inspiração internacional para a atual direita católica brasileira, representada por grupos como o Centro Dom Bosco e o IPCO (Instituto Plínio Correa de Oliveira).

Também penso com os meus botões o seguinte: o que será que esse santuário vai fazer a hora em que já não houver mais elefantes em solo brasileiro ou nos países vizinhos da América hispânica, depois que os poucos que ainda restam já estiverem todos mortos? Será que vai fechar as portas e sair daqui, como uma nuvem de gafanhotos em uma colheita? Quem viver, verá os próximos capítulos dessa novela ainda em aberto.

E outra – lá atrás, esse mesmo pessoal de ONGs e santuários, mancomunados com o Ibama, lá atrás falavam que circo legal não tem animal. Em 2016, tentaram prescrever por lei a vaquejada em todo o Brasil. Hoje, não só tiram animais de zoológicos, como também políticos como a Heloísa Helena (a mesma Heloísa Helena que um dia foi membra do PT e de lá saiu para formar o PSOL) lançam projeto de lei por meio do qual zoológicos, safaris e eco-parques deverão fechar em questão de dois anos. E amanhã, o que mais vão fazer? Será que não vamos chegar a uma situação na qual também será errado você comer carne e ter um cachorro, um gato ou um coelho em casa, ainda mais em se tratando de animais de raça? Como disse certa vez Klaus Schwab, um dos arautos da Agenda 2030 e do Grande Reset, “você não terá nada e será feliz sobre isso”.

Foto – “Você não terá nada e será feliz sobre isso”, assim disse Klaus Schwab.

Fontes:

Chimpanzé Black morre em Santuário em Sorocaba (SP). Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/02/08/chimpanze-black-morre-so-50-anos-em-santuario-de-sorocaba.htm

“Rainha dos tigres” deixa animal escapar e idoso é morto após ataque. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/rainha-dos-tigres-deixa-animal-escapar-e-idoso-e-morto-apos-ataque/

Steve Irwin quotes (em inglês). Disponível em: https://www.goodreads.com/author/quotes/311848.Steve_Irwin

Tiger von Carmen Zander: Anklage – Das Gegenteil von Rettung (em alemão). Disponível em: https://zoos.media/medien-echo/tiger-carmen-zander-anklage-gegenteil-rettung/

Was Weiss man darüber, ob Zootiere die Freiheit vermissen? (em alemão). Disponível em: https://zoos.media/zoo-fakten/zoo-tiere-freiheit-vermissen/

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Considerações sobre o bicampeonato espanhol e as comparações entre Pelé e Messi.

 

Foto – Espanha campeã da Copa do Mundo 2026.

Enfim a Copa do Mundo 2026 chegou ao fim. E a grande vencedora foi a Espanha. A equipe comandada por jogadores como Lamini Yamal, Fernan Torres, Rodri e companhia limitada e pelo técnico Luis de la Fuente Castillo venceu a Argentina por 1 a 0 (gol marcado por Fernan Torres na prorrogação – e não esquecendo que a Espanha teve um gol legítimo anulado pelo VAR minutos antes, marcado por Nico Williams), e assim conquistou sua segunda copa do mundo (a primeira foi em 2010, após vencer a Holanda, também na prorrogação).

E eu, particularmente, fiquei feliz com esse resultado. Nas quartas-de-final, torci para que a Noruega de Erling Haaland fosse a grande campeã, para ver um campeão de Copa do Mundo inédito e diferente. Mas, com a derrota do time escandinavo para a Inglaterra por 2 a 1, passei a torcer para a Espanha. Estava torcendo pela vitória da Espanha, e não por causa de racismo por parte dos argentinos ou coisa do tipo como muitos por aí fizeram. Para mim atitudes de torcedores, sejam elas vindas de quem quer que seja, é o menor dos problemas. Estava é torcendo pelo ponto fora da curva.

Mas, de fato. A questão do racismo na Argentina existe sim e é um problema de longa data na nação platina, tendo em vista todo o histórico de racismo e discriminação contra minorias étnicas que vem desde o século XIX, desde que a Argentina se tornou independente da Espanha e se formou enquanto estado nacional, com todo o processo de branqueamento de sua população levado adiante pelos sucessivos governos por meio da massiva vinda de imigrantes europeus à Argentina. Ao passo que grande parte da população negra local foi exterminada em decorrência de massacres em guerras e epidemias em cidades como Buenos Aires.

Isso a tal ponto que se formos vermos novelas argentinas recentes como Violetta, Sou Luna e Kally’s Mashup (as duas primeiras produzidas pela Disney e a terceira pela Nickelodeon em parceria com estúdios locais), perceberá a ausência de diversidade étnica nessas novelas. Na verdade, até há diversidade étnica, visto que em Violetta e Sou Luna só há um negro, que é interpretado por um ator brasileiro (Samuel Nascimento), e em Sou Luna o único personagem com traços claramente indígenas é interpretado por um ator mexicano (Michael Ronda, que na novela faz o Simón). Só que é, digamos, a diversidade étnica para gringo ver. As tramas dessas novelas se passam em Buenos Aires, e geralmente em bairros e colégios da alta sociedade portenha. Nada muito diferente das novelas brasileiras que se passam em ambientes da alta sociedade carioca ou paulistana, diga-se de passagem.

Foto – Elenco de Violetta.

Ao passo que a Argentina profunda pode ser vista, por exemplo, nos programas do pescador e naturalista inglês Jeremy Wade, como Monstros do Rio (originalmente River Monsters), o qual em alguns episódios visitou as províncias do norte do país como Corrientes, Misiones e Jujuy. Ou seja, temos a situação paradoxal na qual um gringo mostra mais da Argentina e suas regiões interioranas que os próprios argentinos, do alto do pensamento deles de se acharem europeus perdidos no meio da América.

Foto – Jeremy Wade na Argentina.

E, para adicionar mais uma camada de paradoxo, a própria seleção argentina de futebol é etnicamente mais europeia que seleções europeias como França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Espanha e Portugal, com alguns jogadores filhos ou netos de imigrantes geralmente vindos de ex-colônias desses países. Aliás, no desenho francês Miraculous: as aventuras de Lady Bug, vemos bem mais diversidade étnica que nas novelas argentinas em questão, a começar pelo fato de que a protagonista do desenho é mestiça de pai francês com mãe chinesa.

Mas o ponto nevrálgico da questão, o elefante na sala é outro, como veremos.

Certa vez, Jorge Kajuru, em entrevista, disse o seguinte – que jogos de futebol são decididos 60% fora de campo e os outros 40% dentro de campo. Na presente copa claramente havia um interesse por parte principalmente da FIFA, atualmente comandada por Gianni Infantino, para que a Argentina fosse mais uma vez campeã do mundo, de preferência enfrentando um time como a França na final.


Mas, por mais que nesse e em outros jogos a arbitragem tenha claramente ajudado o time platino (vide o exemplo do jogo contra o Egito, nas oitavas-de-final; diga-se de passagem, o time do Messi ser eliminado por um time árabe seria um péssimo negócio para Infantino e companhia limitada), na grande final a Argentina não fez a parte dela em campo (mal viu a cor da bola na final, no fim das contas) e no fim tiveram que engolir o merecido título da Espanha. Paradigmático disso é a atitude que os argentinos tiveram tão logo o jogo acabou – os espanhóis parabenizaram os argentinos quando estes receberam a medalha de prata, ao passo que os argentinos não devolveram a gentileza quando os espanhóis receberam a medalha de ouro e deram as costas aos vencedores. Claramente mostrando ao mundo que eles não passam de maus perdedores.

Fica evidente que há um claro interesse por parte das pessoas que comandam o futebol mundial hoje em dia em promover o Messi como o novo rei do futebol, no lugar do Pelé. Em outras palavras, o favorecimento é não para a Argentina em específico, e sim para o Messi.

Afinal, Messi, embora seja argentino de nascença, é um jogador que jogou a carreira toda dele na Europa, em times como o Barcelona e o Paris Saint-Germain, e só mais no final foi jogar nos Estados Unidos pelo Inter Miami. E, na contramão de Maradona, é um sujeito que não costuma se manifestar politicamente. Limpinho, cheirosinho, carreira quase toda na Europa, o produto ideal para os senhores do futebol mundial promoverem como novo rei do futebol. E aí é só ligarmos os pontos.

Foto – Messi (esquerda), Infantino (meio) e Trump (direita).

Entenderam, ou precisa desenhar? A questão aqui é apontar o processo sórdido e canalha que há por trás da promoção do Messi como novo rei do futebol, com a clara intenção de em médio e longo prazo transformar o Pelé, um homem negro que jogou toda a sua carreira no Brasil e só no final foi jogar nos Estados Unidos, em um jogador comum para as próximas gerações que não o viram jogar, no máximo ouviram as histórias sobre ele. Em última instância, apagar a memória do Pelé. Ainda mais agora que o próprio Pelé já não está mais conosco, assim como a maioria do pessoal com o qual ele jogou, e a geração que viu o rei do futebol jogar indo embora.

E o que é pior, o próprio Messi, ao que tudo indica, se prestando a tal papel ridículo. Mas uma coisa é certa nisso tudo – a história cobrará caro o jogador argentino no futuro por isso.

Não há como comparar Messi com Pelé. Para além do fato de ambos terem jogado em épocas bem diferentes um do outro, o seguinte fato é mais que o suficiente: Pelé ganhou 3 das 4 copas do mundo que disputou, em 1958, 1962 e 1970. Em 1966, não passou nem da primeira fase dada a eliminação precoce da seleção brasileira. Ou seja, aproveitamento de 75% (e não me venham com essa de que em 1962 ele só jogou dois jogos – ele estava no time e isso é o que importa). Como jogador, ninguém conseguiu tal feito na história das Copas do Mundo. Ao passo que Messi só ganhou uma das 6 copas que disputou, a de 2022 (ou seja, 16,6% de aproveitamento). De resto foi quartas-de-final em 2006 e 2010, vice-campeão em 2014, oitavas-de-final em 2018 e agora mais uma vez vice-campeão.

E não esquecendo que outro brasileiro também tem três copas em seu currículo, Mário Jorge Lobo Zagallo. Três não, quatro. Visto que o velho lobo ganhou duas copas como jogador, mais uma como técnico e mais uma como auxiliar técnico. Um feito a meu ver ainda mais impressionante que o de Pelé, visto que além de Zagallo apenas o alemão Franz Beckenbauer e o francês Didier Deschamps ganharam a competição máxima do futebol mundial tanto como jogador quanto como técnico.

Além disso, como que querem comparar o Pelé com o Messi, sendo que o Messi, antes da Copa de 2022, vivia tendo desempenhos pífios e apagados sempre que jogava pela albiceleste? O fato de ele ter brilhado em 2022 e tido seus bons momentos em 2026 de forma alguma apaga as péssimas atuações que ele teve antes disso. O desempenho de Messi na seleção argentina antes de 2022 era tão ruim que ele me passava a impressão de que fora do Barcelona ele era como se fosse um peixe fora d’água, diria até que o parasita do time que bem provavelmente só estava ali por pressão de patrocinadores. Talvez os mesmos patrocinadores que desejam que ele venha a ser sagrado como o novo rei do futebol.

Por sorte, a Espanha venceu a Copa de 2026, a Copa que seria para eles a sagração do Messi em caso de título da Argentina, a sagração que acabou não aconteceu. Tudo estava pronto. Só que os planos não saíram como o esperado para eles.

Essa é a verdadeira questão de racismo, o verdadeiro elefante na sala que muitos não estão vendo. E podem ter certeza que a derrota da Argentina na copa do mundo deste ano, embora tenha sido um golpe duro nos planos dessa gente, um grande revés, não significa o fim dessa agenda por parte de Infantino e companhia limitada. Muito pelo contrário, podem ter certeza que esse pessoal que hoje comanda o futebol mundial ainda não desistiu de promover um novo rei do futebol no lugar de Pelé, um Messi 2.0 que sirva aos propósitos deles.

Quem será esse novo aspirante a Messi 2.0? Apenas o tempo dirá, mas já dá para ter uma noção de quem será esse personagem e o perfil dele. Um jogador branco, formado na Europa, que jogou praticamente que a carreira toda na Europa e muito bem relacionado com o pessoal da Fifa e patrocinadores influentes. Dessa forma, podemos descartar jogadores de ascendência africana como o francês Kylian Mbappé e o espanhol Lamine Yamal. Mas podemos ter certeza de uma coisa – parafraseando Karl Marx no 18 Brumário de Luís Bonaparte, vai ser a história se repetindo primeiro como tragédia e depois como farsa.

E quanto ao futuro da Argentina em copas do mundo, anotem aí o que vou dizer – com o fim iminente da era Messi, a Argentina voltará a ser o que era antes, se não pior. O time de craques que atuam nas principais ligas europeias e que entra na Copa badalado, mas que tomba miseravelmente quando chega às oitavas ou quartas-de-final. É só lembrarmos dos desempenhos da Argentina a partir da copa de 1994: em 1994 perdeu para a Romênia nas oitavas-de-final por 3 a 2. Em 1998 tombou para a Holanda nas oitavas-de-final após derrota por 2 a 1 e o gol antológico de Bergkamp. Não passou nem da primeira fase em 2002. Em 2006 e 2010, com Messi já jogando pela seleção argentina, duas eliminações para a Alemanha nas quartas-de-final, em 2006 após empate no tempo normal por 1 a 1 e derrota nos pênaltis por 4 a 2 e em 2010 derrota por 4 a 0. E em 2018 eliminação para a França nas oitavas-de-final após derrota por 4 a 3.

E a coisa não para por aí. Desde 2018 times argentinos não mais vencem mais a Copa Libertadores, com o título do River Plate. O mesmo River Plate que no mundial do mesmo ano foi eliminado ainda nas semifinais pelo time dos Emirados Árabes Unidos Al Ain, após empatar em 2 a 2 no tempo normal e perder por 5 a 4 nos pênaltis. E a última vez em que um time argentino disputou final de Libertadores foi em 2023, na qual o Fluminense venceu o Boca Juniors por 2 a 1.

O predomínio brasileiro em Libertadores é tal que temos visto a imprensa dos países vizinhos se queixando disso. E podem ter certeza que a conta que hoje os clubes argentinos pagam logo chegará também à seleção principal em Copa do Mundo. É questão de tempo ela chegar, e quando chegar vai vir com juros e correção monetária. Quem viver, viverá para ver a Argentina começar a cair em oitavas-de-final, quem sabe até em 16 avos de final ou até mesmo em primeira fase.

domingo, 19 de abril de 2026

O alerta de Brizola e a campanha de ódio da direita católica contra o Islã

 

Foto – Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004).

No rastro da guerra que Estados Unidos e Israel movem no presente momento contra o Irã, com a clara intenção de desviar a atenção do caso Epstein, temos visto círculos de direita católica, como é o caso do Centro Dom Bosco, Luiz Phillipe de Orléans e Bragança (vulgo Deputado Príncipe), Bernardo Küster, Lorenzo Lazzarotto, Edmílson Cruz e outros afins, postando em seus respectivos canais conteúdos contrários ao Islamismo.

O centro Dom Bosco chegou a ponto de lançar por meio de sua editora seis livros críticos ao Islamismo. O mesmo centro Dom Bosco que antes de embarcar de cabeça na campanha contra o Islamismo fez postagens exaltando a figura de Francisco Franco, ditador da Espanha entre 1936 a 1975.

Mal devem saber eles que o mesmo Franco teve no exército espanhol uma unidade de soldados de origem marroquina, a Guarda Moura, a qual lutou do lado franquista em episódios como a guerra civil espanhola (1936 – 1939) e exercia a função de guarda pessoal do próprio Franco. Franco também recebeu visitas de lideranças do mundo muçulmano, como é o caso de Gamal Abdel Nasser, do Egito, em 1960.

Um ano antes de vir a óbito, em dezembro de 1974, Franco recebeu em Madrid Saddam Hussein, então vice-presidente do Iraque e homem-forte do regime iraquiano, e o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica em Madrid. Em sua primeira viagem à Espanha Saddam também visitou Toledo, Córdoba e Granada. Um ano depois Saddam também compareceu ao velório de Franco. Após as visitas à Espanha, Saddam veio a visitar outros países falantes de espanhol, como a Venezuela em 2000 3e Cuba em 2001. Franco também manteve relações cordiais com Fidel Castro, a despeito de diferenças ideológicas entre os dois.

Foto – Francisco Franco e Gamal Abdel Nasser. Por volta de 1960.

O conteúdo desse pessoal de direita católica, entretanto, não se limita à críticas de ordem teológica a religião fundada pelo profeta Maomé no século VII. É conteúdo de incitação de ódio ao Islamismo sob alegações e pretextos como a de que há um suposto “perigo islâmico” ao Brasil e que se nada for feito a lei da sharia tomará conta do Brasil, e para isso usando exemplos como o da Europa e dos Estados Unidos.

E, como não poderia deixar de ser, Mansur Peixoto, da página História Islâmica, nos últimos dias lançou vídeos em seu canal no You Tube rebatendo os argumentos desses caras, tal qual fez com Thiago Braga em 2023.


A pergunta que fica é a seguinte: haverá alguma articulação internacional por trás desses grupos de extrema direita católica? Estaria essa gente ligada a think thanks e grupos de extrema direita internacionais, de países como a Polônia, a Hungria, a França, ou mesmo os Estados Unidos?

Eles falam que o Islamismo tem um projeto de tomar conta do Brasil no longo prazo, por meio do fator demográfico, tanto através de imigração vinda de países muçulmanos quanto por meio da taxa de natalidade.

O governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas (o mesmo Tarcísio de Freitas que na Marcha para Jesus do ano passado apareceu com a bandeira de Israel enrolada em suas costas), tem sido objeto de críticas por parte desse pessoal por ter tomado em parceria com a FAMBRAS (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil) uma série de medidas visando o aumento do fluxo de visitantes e atração de investimentos vindos do mundo muçulmano, incluindo medidas para adaptar hotéis e restaurantes para receber turistas muçulmanos. Entre elas oferta de alimentação halal (permitida pela lei islâmica), ambientes sem álcool e espaço e espaços adequados para as orações diárias em direção à Meca, uma das cidades sagradas do Islã.

Nada me tira da cabeça que, por trás de toda a verborragia e ataques ao Islamismo por parte desses católicos reacionários, quem de fato têm um projeto de poder e de longo prazo é precisamente essa gente. E isso não é nenhuma novidade na história do Brasil. Visto que em seus últimos anos de vida, Leonel de Moura Brizola mostrou-se preocupado quanto ao crescimento da influência de pastores ligados a denominações neopentecostais na política do estado do Rio de Janeiro.

Em 2000, o político gaúcho, à época presidente nacional do PDT, chegou a pedir ao então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, para colocar fim à influência dos pastores protestantes no governo estadual. “O governo tem de ser mais discreto, está vivendo um protestantismo exagerado”, Brizola disse à época.

Brizola também se mostrou preocupado a respeito da presença excessiva de pastores no gabinete de Benedita da Silva, com as seguintes palavras: “Qual a legitimidade de tantos pastores no governo? Quem são esses pastores da Benedita? Por que esse pastor Everaldo tem o controle sobre a distribuição dos cheques? O cheque do pastor é dinheiro público”, disse Brizola à época, o qual também aconselhou Garotinho a fazer uma ampla reforma no secretariado.

Segundo as notícias da época, um dos objetos de denúncias por parte do velho caudilho foi a Cehab (Companhia Estadual de Habitação), cujo presidente à época era Eduardo Cunha. O mesmo Eduardo Cunha que anos mais tarde veio a ser o grande articulador do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016.

Brizola também se mostrou descontente com a atuação do então subsecretário do Gabinete Civil, pastor Everaldo Dias Ferreira. À época ligado politicamente à então vice-governadora Benedita da Silva (PT), em 2016 o mesmo pastor Everaldo batizou o então deputado federal pelo Rio de Janeiro Jair Messias Bolsonaro nas águas do Rio Jordão.

Foto – Bolsonaro nas águas do Rio Jordão, abençoado pelo pastor Everaldo.

Em 23 de agosto do mesmo ano Brizola, em entrevista à Revista Veja, disse as seguintes palavras: “Esses pastores querem é estação de rádio e dinheiro. São adoradores do bezerro de ouro”.

Brizola era um homem arguto, de uma inteligência ímpar e que enxergava longe. Sabia muito bem sobre o que estava falando. Ele fez esse alerta em 2000 (ou seja, quatro anos antes de nos deixar), e o alerta se mantem atual. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Visto que em favelas no Rio de Janeiro, narcotraficantes imbuídos de uma visão religiosa fundamentalista neopentecostal formaram o Complexo de Israel a partir de 2020. No qual pode-se ver bandeiras de Israel e estrelas de Davi estampadas nos muros em diversos pontos. Facções criminosas não apenas atacam praticantes de religiões de matriz africana, como também constrangem cultos católicos no local. E na política, temos visto o surgimento de fenômenos como a bancada da Bíblia, composta por políticos que não raro exercem a função de pastores.

Uma dessas pastoras, Ana Paula Valadão, cantora de música gospel e pastora da igreja Diante do Trono, disse a seguinte pérola a respeito da guerra no Irã: “tô emocionada, tão emocionada, a gente ora tanto pela igreja perseguida, nós cristãos, falando do nosso povo, e o Irã sofrendo tanto na lista de países de maior perseguição. Se não me engano, esse ano, na lista de países de maior perseguição o Irã estava em nono lugar”.

É nítido que ela falou essas abobrinhas tendo interesses em mente, com vistas que uma eventual queda do regime dos aiatolás no Irã possa abrir as portas para que a Igreja dela possa atuar abertamente e a realizar atividade missionária na nação persa. Algo que o atual regime iraniano, dada a vinculação dessas igrejas neopentecostais com os interesses dos Estados Unidos e toda a simpatia que elas nutrem por Israel, não permite. Daí que vem as histórias falaciosas como a de que o Irã persegue cristãos, sendo que o que o Irã na verdade faz é colocar limites e regulamentações na atividade religiosa.

Entretanto, o mais assombroso disso tudo é que a atualidade da fala de Brizola não para por aí. Ela também se aplica muito bem aos setores tradicionalistas e reacionários da Igreja Católica dos dias hodiernos, representados por grupos como Centro Dom Bosco, Arautos do Evangelho, Partido dos Cristeros, Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Instituto Plínio Correa de Oliveira (IPCO), Instituto Estudos Nacionais Regina Milites (IENRN) e afins.

Tais grupos demonstram insatisfação para com os rumos que a Igreja Católica vem tomando desde o Concílio Vaticano II, a ponto de parte deles, os chamados sedevacantistas, considerarem que desde a morte de Pio XII em 1958 o trono de São Pedro em Roma está vago. Ou seja, todos os papas a partir de João XXIII para parte deles não são papas legítimos.

Como não poderia deixar de ser, também são críticos da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e de sacerdotes ligados à Teologia da Libertação. Frequentemente, os acusam de ser comunistas e afins. Costumam criticar as campanhas da fraternidade que a CNBB lança todo ano (em que pese alguns erros verdadeiros e desatinos por parte do pessoal que hoje comanda a CNBB).

O fato é que vemos tais grupos de direita católica não apenas se organizando por meio de entidades e centros, como também ocupando espaços em redes sociais (as quais eram inexistentes, no máximo bem rudimentares, quando Brizola deu seu alerta), onde eles não raro costumam vender seus cursos. Eles já começam a eleger políticos (como é o caso do já citado Deputado Príncipe) e até se organizando em institutos e partidos políticos, como é o caso do já citado Partido dos Cristeros (que advoga para o Brasil a instauração de um estado confessional católico).

Já dá para imaginar o que esses católicos reacionários têm em mente na esfera política – formar uma espécie de versão católica da Bancada da Bíblia, além de fornecer apoio a políticos a eles identificados, tais como Jair Bolsonaro e afins, contra políticos de esquerda. Ir ocupando espaços, pouco a pouco, e influenciar a política brasileira em favor da agenda deles.

Tal pessoal demonstra odiar de forma rábica não só o Islã, como também odeia a Rússia, e para justificar o ódio deles pela nação de Gogol, Puškin e Prokofiev usam o Terceiro Segredo de Fátima e toda aquela lorota de que a Rússia iria espalhar seus erros pelo mundo como pretexto. Eles odeiam a Rússia seja como Império, seja como União Soviética, seja como República Federativa. A China então, nem se fala.

Eles odeiam tanto o Islã que se esquecem, por exemplo, que em 2019, quando o Porta dos Fundos fez aquele especial no qual Jesus Cristo (interpretado pelo ator Gregório Duvivier) foi retratado de uma forma bem indecente, uma associação islâmica, a Associação Nacional dos Juristas Islâmicas (ANAJI), repudiou a atitude do Porta dos Fundos.

Por essas e outras que penso eu que países como a China, a Rússia, o Irã, o Vietnã e a Coreia do Norte certos estão em colocar condições para a atuação religiosa e não permitir a entrada de certas denominações religiosas. Em outras palavras, para que não floresçam como ervas daninhas pastores politiqueiros (muitos dos quais lá atrás apoiavam o Partido dos Trabalhadores e hoje apoiam Bolsonaro) como Valdomiro Santiago, Marco Feliciano, Edir Macedo, Flordelis (vulgo Queturiene) e afins, fanáticos religiosos católicos como o Deputado Príncipe e associações e entidades como o Partido dos Cristeros e o Centro Dom Bosco.

Diante do que estamos vendo, uma pergunta fica: será que daqui um tempo, após ganharem musculatura, veremos tais grupos religiosos de direita católica enfim mostrarem suas garras insidiosas e organizarem uma espécie de versão brasileira da rebelião Taiping, revolta de caráter messiânico cujo líder, Hong Xiuquan, se dizia irmão de Jesus Cristo e que trouxe grande prejuízo e morticínio à China durante um decênio e meio (de 1850 a 1864)? Será que não está na hora de as autoridades brasileiras darem a devida atenção a essa gente?

Que fique bem claro uma coisa: ao tratar do presente tema, não estamos falando da religião enquanto escolha pessoal do indivíduo. E sim do uso da mesma para finalidades politiqueiras, com vistas a projetos de poder. E isso independente da denominação religiosa. Quer seja por parte de católicos, evangélicos, luteranos, anglicanos, ortodoxos, muçulmanos xiitas ou sunitas, budistas, judeus, hinduístas, xintoístas, taoístas, pagãos das mais diversas vertentes, entre outros.

Fontes:

Brizola pede fim de influência religiosa. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3103200026.htm

Complexo de Israel. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_de_Israel

Estudos nacionais. Disponível em:

https://www.estudosnacionais.com/

Guardia Mora (em espanhol). Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Guardia_Mora

Juristas islâmicos repudiam vídeo de Porta dos Fundos. Disponível em: https://pleno.news/fe/juristas-islamicos-repudiam-video-do-porta-dos-fundos.html

Leonel Brizola. Disponível em: https://pt.wikiquote.org/wiki/Leonel_Brizola

List of international trips made by Saddam Hussein (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_international_trips_made_by_Saddam_Hussein

Los moros de Franco (em espanhol). Disponível em: https://serhistorico.net/2018/09/15/los-moros-de-franco/

Partido dos Cristeros. Disponível em:

https://partidodoscristeros.com.br/

Tarcísio humilhou comunidade árabe ao usar bandeira de Israel, diz ministro. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/06/20/marcio-franca-humilhar-arabes-tarcisio-israel-marcha-para-jesus.htm