domingo, 4 de outubro de 2026

O caso do elefante Sandro e o futuro dos zoológicos brasileiros

 

Foto – Sandro, o elefante do zoológico de Sorocaba.

A história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa. Assim diz Karl Marx na introdução de sua obra “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, ao analisar a ascensão de Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte, como imperador da França.

Sandro, elefante asiático de mais de 50 anos de idade que desde 1982 vivia no bosque municipal de Sorocaba “Quinzinho de Barros”, enfim foi transferido ao chamado Santuário dos Elefantes Brasil, situado no Mato Grosso, após um imbróglio judicial que se estendeu por vários anos.

O caso envolvendo o elefante idoso (do qual tomei conhecimento ainda em 2022, por meio de vídeos no canal do Wagner Ávila no You Tube) vem dividindo e polarizando a opinião das pessoas no Brasil nos últimos anos.

De um lado, aqueles que eram a favor da permanência dele no Quinzinho de Barros, sob a alegação de que transferir um elefante já idoso e desdentado, que precisa de cuidados especiais e já acostumado aos seus tratadores, é algo temerário e que uma vez no santuário ele não consiga se adaptar ao novo ambiente. E de outro, os que defenderam a transferência dele ao santuário (parte significativa deles influenciadores e artistas – a malta de hipócritas de sempre que adoram levantar bandeira para fim de massagem de ego e promoção pessoal), sob a alegação de que lá ele enfim vai ser livre depois de tantos anos vivendo no circo e no zoológico.

O que os defensores da transferência de Sandro do zoológico ao santuário parecem não perceber é que no SEB o Sandro não está livre, não está na natureza. Visto que elefantes são animais nativos de locais como a África ao sul do Saara, o subcontinente indiano e o Sudeste Asiático, não do cerrado brasileiro que é onde se encontra o santuário (a América do Sul já teve seus proboscídeos no passado, mas hoje já estão todos extintos). E segundo que mesmo ele estando no santuário ele ainda estará sob cuidados humanos. Em outras palavras, ainda estará em cativeiro. Tal qual o elefante que está em um circo, em um zoológico, em uma fazenda ou em um exército servindo como animal de combate, por exemplo.

Aliás, é muita pretensão da parte do pessoal que comanda santuários como o SEB e o santuário de elefantes do Tennessee nos Estados Unidos querer vender uma imagem de que, sob os cuidados deles, os elefantes são livres e vivem na natureza, livres de exploração humana, e que eles é que são os iluminados que sabem cuidar de animais. No fim das contas, santuários não passam de zoológicos gourmet, aos quais apenas alguns escolhidos têm acesso.

Antes mesmo do caso envolvendo Sandro, houve também o caso do chimpanzé Black, que foi transferido do Quinzinho de Barros ao Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, em 2019. E uma vez no santuário, morreu em questão de dois anos, em 2021.

Foto – Black, o chimpanzé.

O Santuário de Elefantes Brasil tem um histórico, digamos, não muito abonador para o lado dele. Visto que alguns dos elefantes que lá chegaram morreram em questão de meses, como foi o caso de Kenya e Puppy ainda no ano passado, ambas vindas da Argentina. E nisso repete um padrão visto, por exemplo, no santuário de elefantes do Tennessee, nos Estados Unidos, também notório por seus periódicos casos de mortes dos elefantes que eles tiram de zoológicos e circos após campanhas similares às que o pessoal do SEB faz.

Foto – Listagem das mortes de elefantes no santuário do Tennessee, de 2001 a 2017 (Fonte: página do Facebook “Nosey the amazing Elephant”).

Dito isso, a pergunta que fica no ar é – o que será que está em jogo com a transferência de Sandro de Sorocaba ao santuário no Mato Grosso? Acho que isso é muito mais que uma simples transferência de um animal de um local a outro. Eu, particularmente, temo que com a transferência de Sandro, o único e último elefante macho restante no Brasil (lembrando que ano passado o elefante africano macho do zoológico de Belo Horizonte, Jamba, faleceu aos 29 anos), ao santuário de elefantes os zoológicos brasileiros estejam entrando em uma espiral descendente, um ponto de não-retorno muito perigoso.

Sandro é um animal idoso, de mais de 50 anos de idade, que antes mesmo de viver no “Quinzinho de Barros” fez parte dos circos Bismarck e Orlando Orfei, este último um dos principais e mais eminentes circos brasileiros durante décadas.

Foto – Vista aérea do circo Orlando Orfei, anos 1980.

O circo Orlando Orfei fechou suas portas em 2008 depois de todo a campanha feita à época contra os circos com animais em solo brasileiro, levada adiante por ONGs de protetores de animais e políticos ligados a essas ONGs e o surgimento de leis em estados e municípios proibindo o uso de animais em apresentações circenses, em especial depois que aconteceu a tragédia do circo Vostok, na qual um menino de seis anos foi morto por um leão dentro das dependências do circo (e a própria família Orfei, tanto aqui no Brasil quanto na Itália, é uma família bem tradicionalista no que tange ao uso de animais em circos).

Em outras palavras, isso que vimos em episódios como a transferência do chimpanzé Black e mais recentemente de elefantes como a Baby e o Sandro de zoológicos a santuários não é nenhuma novidade. Visto que isso nos governos Lula e Dilma, ONGs de protetores de animais moveram vigorosas campanhas para confiscar animais dos circos e enviá-los aos santuários deles, sob a alegação de que os animais em circos eram maltratados, que circo legal não tem animal e verborragias afins.

E hoje estamos vendo esse mesmo filme se repetir, agora com os zoológicos. Algo bem curioso a esse respeito é o fato de que biólogos que hoje encampam a defesa dos zoológicos como o Richard Rasmussen e Henrique Abrahão Charles (vulgo biólogo Henrique) em momento algum citam esse fato.

O caso do biólogo Henrique (um dos que encamparam a defesa pela permanência de Sandro no Quinzinho de Barros – até aí tudo bem) é bem curioso. Esses dias vi um vídeo dele no qual ele exalta o papel dos zoológicos e todo o trabalho de conservação de espécies e educação ambiental que eles fazem, e ao mesmo tempo se diz contra a presença de animais em circos.

Acho bem estranho, um biólogo como ele se incomodar com as mentiras que o pessoal dos direitos dos animais fala sobre os zoológicos (até aí tudo bem), mas ao mesmo tempo engolir as mentiras dessa mesma gente a respeito dos animais em circos. Ou seja, em um caso ele e a Luísa Mell (vulgo Marina Zats) que ele tanto critica estão em lados opostos da barricada, ao passo que em outro caso os dois estão cerrando fileiras e no mesmo lado da barricada. Curioso, não?

Essa guerra que hoje vemos sendo feita contra os zoológicos brasileiros por parte do pessoal dos direitos dos animais nada mais é que a continuação da guerra que foi feita lá atrás contra os circos com animais, e isso ele e outros biólogos que comungam desse pensamento parecem não perceber. É a mesma história, sem tirar nem pôr, ainda mais levando que alguns dos animais hoje visados por essa gente, incluindo a Baby e o próprio Sandro, um dia também foram animais de circo.

Mas afinal, por que o biólogo Henrique e outros que também pensam como ele omitem esse fato, de que a atual campanha contra os zoológicos aqui no Brasil é, em essência, o prolongamento natural da campanha feita lá atrás contra os circos com animais? É uma omissão no mínimo preocupante, que passa da ideia de que isso é um problema que começou recentemente, sendo que é algo que vem de vários carnavais.

Imagino que o biólogo Henrique deva ter seus motivos para tal. Será que (especulação minha) na época ele estava batendo palmas para essa mesma campanha que as ONGs moviam contra os circos? Será que ele, como também outros biólogos que compartilham dessa mesma opinião, na verdade estavam lutando do mesmo lado da barricada desse mesmo pessoal de ONGs e santuários? E que lembrar disso agora seria muito inconivente a ele? O que será que ele fez no verão passado, afinal? Talvez aí esteja a parte farsesca da presente história, segundo a máxima de Marx.

Esses dias, soube de uma notícia que fala que o circo Krone, um dos principais e mais tradicionais circos alemães, foi alvo de vandalismo por parte de ativistas dos direitos dos animais em Hamburgo. E antes disso, ainda no começo do presente ano (2026), também na Alemanha, houve o caso envolvendo a domadora de tigres Carmen Zander, conhecida em seu país natal como “a rainha dos tigres” (a qual tem uma página no Facebook chamado “Im Auge des Tigers”).

Em Leipzig, um de seus tigres, Sandokan, fugiu de seu recinto, atacou e feriu seriamente um dos tratadores e em seguida foi morto a tiros pela polícia. Após o incidente, outros seis tigres da domadora foram confiscados pelas autoridades locais e transferidos a um santuário na Espanha.

Sabendo do que o biólogo Henrique pensa a respeito da presença de animais em circos, não ficaria nem um pouco surpreso se ele, nesses casos, resolvesse cerrar fileira com os ativistas que vandalizaram o circo Krone e apoiar o confisco e envio dos tigres de Carmen Zander ao santuário espanhol. Ou seja, com o pessoal daquilo que ele chama de “fofofauna” que ele tanto critica (e com razão).

Foto – Carmen Zander, a rainha dos tigres.

Ou seja, para pessoas como o biólogo Henrique, quando a água bate no traseiro do outro, está tudo bem. Tudo bem o outro ser jogado aos tubarões e por eles ser devorado. Afinal, não é comigo mesmo. Agora, quando a água começa a bater no meu traseiro, aí a conversa muda de tom e eu fico preocupado, consternado.

E outra – pelo que vejo, parece que para pessoas como o biólogo Henrique está tudo bem o outro, por trabalhar de um jeito um pouco diferente do dele, apanhar de pessoas como a Luiza Mell, de políticos como os irmãos Tripoli e organização animalistas como o PETA e o ALF (“Animal Liberation Front”, na sigla em inglês), se lascar nas mãos deles e ter seus animais confiscados por eles. Agora, quando essa mesma gente começa a me atacar, aí é que eu vou ficar incomodado com a situação.

Na contramão do biólogo Henrique, vejo, por exemplo, o pessoal do zoos.media (portal de notícias sobre zoológicos da Alemanha) demonstrar solidariedade à Carmen Zander.

Pessoas como o biólogo Henrique e o Ary Borges (o homem que criava tigres em Maringá e teve seus animais confiscados pelo Ibama em 2014) me parecem o Mussum naquele esquete dos Trapalhões, no qual o personagem interpretado pelo finado ator, humorista e sambista Antônio Carlos Bernardes Gomes faz toda sorte de ginástica mental e retórica para justificar os aumentos de preço por parte do governo, até ficar sabendo do aumento do preço da cachaça (vulgo mé). Quando ele fica sabendo do aumento do preço da cachaça, a conversa muda de tom e o Mussum passa a condenar e a maldizer o governo que antes ele apoiava.

Como Wagner Ávila aponta em recente vídeo, hoje foi a vez do Sandro ser transferido do zoológico para o santuário. E amanhã, quem será o próximo a rodar? Será que um dia veremos os zoológicos brasileiros definharem a um ponto de insignificância, com muitos deles sendo sucateados e fechados com o tempo e depenados de seus animais (em especial os animais de grande porte), tal qual aconteceu com os circos brasileiros anos antes?

https://www.facebook.com/reel/2292018944948950

Podem me apedrejar e me cancelar o quanto quiser. Eu defendo sim os circos tradicionais com animais e os zoológicos. Para além das questões de conservação de espécies e educação ambiental, é graças a locais como os circos e os zoológicos que eu não preciso viajar à África ou à Índia para ver um elefante, um leão ou uma zebra (e assim ter de encarar duas viagens de avião mais caminho por terra – fora o dinheiro que terei de gastar para tal).

Lembro-me muito bem da primeira vez em que vi leões na minha vida, no circo de Roma, ainda nos anos longínquos anos 1980, ao qual fui junto com o meu finado pai. Havia lá um leão e duas leoas. Nos circos subsequentes aos quais fui (entre eles o circo Garcia), pude ver tigres, animal que (até onde me lembro) o bosque da minha cidade nunca teve. Já nas duas últimas vezes em que eu fui a circos (ambas no finado circo do Beto Carrero – julho de 1998 e fevereiro de 2003), pude ver um casal de tigres brancos (provavelmente, um deles é o mesmo que aparece ao lado do Beto Carrero na capa do CD “O mundo encantado de Beto Carrero”, lançado em 1996). E isso sem precisar sair da minha cidade natal. Em todas as outras vezes em que pude ver tigres brancos na minha vida, os vi em zoológicos gringos.

Foto – Capa do CD “O mundo encantado de Beto Carrero”, de 1996.

Na última vez em que estive em um circo, também pude ver o camelo bactriano (o de duas corcovas) e o elefante na parte de fora do circo, bem de pertinho, na saída.

Ao ver animais diversos nos circos e zoológicos, pude ver que eles não são abstrações de livros, revistas, filmes e documentários que se passam em locais distantes como a África, a Índia e o Sudeste Asiático. E sim seres vivos reais, de carne e osso, e esse contato que tive desde tenra idade foi muito importante a ponto de ajudar com o tempo a criar fascínio para com o mundo animal.

No bosque da minha cidade, Ribeirão Preto, há uma elefanta chamada Maison. Tal como o Sandro e a Baby, ela também já foi de circo um dia. Mais precisamente, do circo Kroner (favor não confundir com o circo alemão Krone). Uma vez estive no recinto provisório dela, junto com o palhaço Biriba, em 2012. Pude vê-la de perto, sem nenhuma grade se interpondo entre mim e a elefanta (ainda que a uma certa distância). Até tirei uma foto dela.

Foto – Maison no recinto provisório dela, outubro de 2012.

Ver um elefante vivo de tão perto é algo simplesmente incrível, surreal. O quão grande e majestoso ele é, uma sensação de imponência sem igual. Ainda mais sem precisar ter de viajar meio mundo para vê-los no habitat natural deles, sem precisar ter de encarar duas viagens de avião para tal que somam mais de 20 horas.

A minha cidade já teve outra elefanta chamada Bambi, a qual em 2020 foi transferida ao Santuário do Mato Grosso. Talvez, seja questão de tempo o mesmo santuário voltar suas atenções à Maison, tal como feito com Baby, com Sandro e os elefantes que eles trouxeram da Argentina (e que morreram em questão de meses no santuário).

Mal sabem certos incautos que apoiam esse tipo de causa, que pedem o fim de circos com animais, aquários, ecoparques e zoológicos, a roubada que apoiam. Vai chegar a hora em que um deles vai querer ver um elefante ao vivo, e não vai poder porque para isso vai ter que viajar até a Índia, a Tailândia ou ao Quênia, e nisso ter de encarar duas viagens de avião que juntas somam mais de 20 horas e que vai sair muito cara para o bolso dele. Sendo que lá atrás ele poderia muito bem ver um desses no bosque da cidade dele ou no circo.

E o mais grave de tudo: nessa brincadeira de justiceiro da causa animal o que eles vão fazer é, no fim das contas, privar as próximas gerações de ter experiências como as que eu tive desde a infância. E privando as novas gerações de contato com animais selvagens, o interesse delas pela proteção e conservação desses animais irá simplesmente para o ralo (e o animal no circo ou no zoológico é, antes de tudo, um embaixador da espécie). No fim, apenas os ricos que podem ter acesso a viagens internacionais e o círculo de pessoas próximas com acesso aos santuários é que vão se beneficiar dessa brincadeira. E quando o estrago estiver feito, uma coisa é certa: o julgamento da história para com esses que resolveram brincar de justiceiros da causa animal vai ser pesado, muito pesado.

Pois como o grande Steve Irwin certa vez disse, “Se nós pudermos ensinar as pessoas sobre a vida selvagem, elas serão tocadas. Compartilhe minha vida selvagem comigo. Porque os humanos querem salvar coisas que eles amam”.

Alguns podem me perguntar, mas e os maus tratos a animais? E o animal confinado, fora de seu ambiente natural? Não nego que em alguns momentos tratadores de circos e de zoológicos tenham pisado na bola. Mas é de uma generalização estúpida e burra pensar que animais em circos e zoológicos é sinônimo de crueldade, maus tratos e privação de liberdade (sendo que mesmo no ambiente natural o animal não é livre para se estabelecer no lugar em que quiser – há um artigo em alemão no site do zoos.media que fala sobre isso). Isso faz tanto sentido quanto dizer, por exemplo, que jogador de futebol é sinônimo de salários milionários (sendo que só uns poucos é que recebem tais salários). Que Igreja é sinônimo de padre pedófilo. Que casamento é sinônimo de violência doméstica. Que Islamismo é sinônimo de terrorismo. Entre outros tantos paralelos que posso ficar traçando.

Dito isso, eu sugiro a vocês que estão lendo esse meu texto a procurem pelo trabalho de profissionais que trabalham com animais em circos estrangeiros, de países como a Itália (o país natal de Orlando Orfei), a Alemanha e a Rússia. Vocês vão encontrar muita coisa legal. O trabalho de domadores como Martin Lacey (circo Krone), os irmãos Edgar e Askold Zapašnyj (grão-circo estatal de Moscou), Nikolaj Pavlenko (famoso domador de tigres russo, hoje aposentado, alcunhado de o “Karajan da grande jaula”), Bruno Togni (American Circus Togni), entre outros.

Foto – Nikolaj Pavlenko, o “Karajan da grande jaula”.

Em países lusófonos, cito o exemplo do circo Victor Hugo Cardinali, de Portugal, o qual durante muitos anos trabalhou com animais como leões, elefantes africanos, camelos e cavalos e é tido como um circo de excelência no trato aos animais (inclusive o Marcos Frota elogiou o Victor Hugo Cardinali por isso, em 2015). E mesmo no Brasil, no passado circos como o Garcia e o Orlando Orfei também se destacavam no bom trato aos animais (o Garcia chegou a realizar reprodução de chimpanzés). Há fotos de vários tratadores de circos abraçados a seus animais, incluindo fotos de Orlando Orfei abraçado a seus leões.

Foto – Orlando Orfei abraçado a um de seus leões.

E antes que venham com essa coisa de polarização de esquerda x direita, é bom que saibam de uma coisa – é fato que aqui no Brasil a guerra contra os circos animais (e agora contra os zoológicos) se deu sob as asas dos governos Lula e Dilma, políticos vinculados ao partido dos trabalhadores (PT), o principal partido de esquerda do Brasil e de toda a América Latina. Isso ao mesmo em que a Polônia proibiu os animais em circos em 2020 com a extrema direita no poder, representada por Andrzej Duda e o partido Prawo i Sprawdliwość (Lei e Justiça, na sigla em polonês). Duda que, a propósito, é um dos principais aliados de Bolsonaro dentro da extrema direita europeia junto com o húngaro Viktor Órban. A Polônia de Duda que, junto da Hungria de Órban, é também a grande inspiração internacional para a atual direita católica brasileira, representada por grupos como o Centro Dom Bosco e o IPCO (Instituto Plínio Correa de Oliveira).

Também penso com os meus botões o seguinte: o que será que esse santuário vai fazer a hora em que já não houver mais elefantes em solo brasileiro ou nos países vizinhos da América hispânica, depois que os poucos que ainda restam já estiverem todos mortos? Será que vai fechar as portas e sair daqui, como uma nuvem de gafanhotos em uma colheita? Quem viver, verá os próximos capítulos dessa novela ainda em aberto.

E outra – lá atrás, esse mesmo pessoal de ONGs e santuários, mancomunados com o Ibama, lá atrás falavam que circo legal não tem animal. Em 2016, tentaram prescrever por lei a vaquejada em todo o Brasil. Hoje, não só tiram animais de zoológicos, como também políticos como a Heloísa Helena (a mesma Heloísa Helena que um dia foi membra do PT e de lá saiu para formar o PSOL) lançam projeto de lei por meio do qual zoológicos, safaris e eco-parques deverão fechar em questão de dois anos. E amanhã, o que mais vão fazer? Será que não vamos chegar a uma situação na qual também será errado você comer carne e ter um cachorro, um gato ou um coelho em casa, ainda mais em se tratando de animais de raça? Como disse certa vez Klaus Schwab, um dos arautos da Agenda 2030 e do Grande Reset, “você não terá nada e será feliz sobre isso”.

Foto – “Você não terá nada e será feliz sobre isso”, assim disse Klaus Schwab.

Fontes:

Chimpanzé Black morre em Santuário em Sorocaba (SP). Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/02/08/chimpanze-black-morre-so-50-anos-em-santuario-de-sorocaba.htm

“Rainha dos tigres” deixa animal escapar e idoso é morto após ataque. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/rainha-dos-tigres-deixa-animal-escapar-e-idoso-e-morto-apos-ataque/

Steve Irwin quotes (em inglês). Disponível em: https://www.goodreads.com/author/quotes/311848.Steve_Irwin

Tiger von Carmen Zander: Anklage – Das Gegenteil von Rettung (em alemão). Disponível em: https://zoos.media/medien-echo/tiger-carmen-zander-anklage-gegenteil-rettung/

Was Weiss man darüber, ob Zootiere die Freiheit vermissen? (em alemão). Disponível em: https://zoos.media/zoo-fakten/zoo-tiere-freiheit-vermissen/

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Considerações sobre o bicampeonato espanhol e as comparações entre Pelé e Messi.

 

Foto – Espanha campeã da Copa do Mundo 2026.

Enfim a Copa do Mundo 2026 chegou ao fim. E a grande vencedora foi a Espanha. A equipe comandada por jogadores como Lamini Yamal, Fernan Torres, Rodri e companhia limitada e pelo técnico Luis de la Fuente Castillo venceu a Argentina por 1 a 0 (gol marcado por Fernan Torres na prorrogação – e não esquecendo que a Espanha teve um gol legítimo anulado pelo VAR minutos antes, marcado por Nico Williams), e assim conquistou sua segunda copa do mundo (a primeira foi em 2010, após vencer a Holanda, também na prorrogação).

E eu, particularmente, fiquei feliz com esse resultado. Nas quartas-de-final, torci para que a Noruega de Erling Haaland fosse a grande campeã, para ver um campeão de Copa do Mundo inédito e diferente. Mas, com a derrota do time escandinavo para a Inglaterra por 2 a 1, passei a torcer para a Espanha. Estava torcendo pela vitória da Espanha, e não por causa de racismo por parte dos argentinos ou coisa do tipo como muitos por aí fizeram. Para mim atitudes de torcedores, sejam elas vindas de quem quer que seja, é o menor dos problemas. Estava é torcendo pelo ponto fora da curva.

Mas, de fato. A questão do racismo na Argentina existe sim e é um problema de longa data na nação platina, tendo em vista todo o histórico de racismo e discriminação contra minorias étnicas que vem desde o século XIX, desde que a Argentina se tornou independente da Espanha e se formou enquanto estado nacional, com todo o processo de branqueamento de sua população levado adiante pelos sucessivos governos por meio da massiva vinda de imigrantes europeus à Argentina. Ao passo que grande parte da população negra local foi exterminada em decorrência de massacres em guerras e epidemias em cidades como Buenos Aires.

Isso a tal ponto que se formos vermos novelas argentinas recentes como Violetta, Sou Luna e Kally’s Mashup (as duas primeiras produzidas pela Disney e a terceira pela Nickelodeon em parceria com estúdios locais), perceberá a ausência de diversidade étnica nessas novelas. Na verdade, até há diversidade étnica, visto que em Violetta e Sou Luna só há um negro, que é interpretado por um ator brasileiro (Samuel Nascimento), e em Sou Luna o único personagem com traços claramente indígenas é interpretado por um ator mexicano (Michael Ronda, que na novela faz o Simón). Só que é, digamos, a diversidade étnica para gringo ver. As tramas dessas novelas se passam em Buenos Aires, e geralmente em bairros e colégios da alta sociedade portenha. Nada muito diferente das novelas brasileiras que se passam em ambientes da alta sociedade carioca ou paulistana, diga-se de passagem.

Foto – Elenco de Violetta.

Ao passo que a Argentina profunda pode ser vista, por exemplo, nos programas do pescador e naturalista inglês Jeremy Wade, como Monstros do Rio (originalmente River Monsters), o qual em alguns episódios visitou as províncias do norte do país como Corrientes, Misiones e Jujuy. Ou seja, temos a situação paradoxal na qual um gringo mostra mais da Argentina e suas regiões interioranas que os próprios argentinos, do alto do pensamento deles de se acharem europeus perdidos no meio da América.

Foto – Jeremy Wade na Argentina.

E, para adicionar mais uma camada de paradoxo, a própria seleção argentina de futebol é etnicamente mais europeia que seleções europeias como França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Espanha e Portugal, com alguns jogadores filhos ou netos de imigrantes geralmente vindos de ex-colônias desses países. Aliás, no desenho francês Miraculous: as aventuras de Lady Bug, vemos bem mais diversidade étnica que nas novelas argentinas em questão, a começar pelo fato de que a protagonista do desenho é mestiça de pai francês com mãe chinesa.

Mas o ponto nevrálgico da questão, o elefante na sala é outro, como veremos.

Certa vez, Jorge Kajuru, em entrevista, disse o seguinte – que jogos de futebol são decididos 60% fora de campo e os outros 40% dentro de campo. Na presente copa claramente havia um interesse por parte principalmente da FIFA, atualmente comandada por Gianni Infantino, para que a Argentina fosse mais uma vez campeã do mundo, de preferência enfrentando um time como a França na final.


Mas, por mais que nesse e em outros jogos a arbitragem tenha claramente ajudado o time platino (vide o exemplo do jogo contra o Egito, nas oitavas-de-final; diga-se de passagem, o time do Messi ser eliminado por um time árabe seria um péssimo negócio para Infantino e companhia limitada), na grande final a Argentina não fez a parte dela em campo (mal viu a cor da bola na final, no fim das contas) e no fim tiveram que engolir o merecido título da Espanha. Paradigmático disso é a atitude que os argentinos tiveram tão logo o jogo acabou – os espanhóis parabenizaram os argentinos quando estes receberam a medalha de prata, ao passo que os argentinos não devolveram a gentileza quando os espanhóis receberam a medalha de ouro e deram as costas aos vencedores. Claramente mostrando ao mundo que eles não passam de maus perdedores.

Fica evidente que há um claro interesse por parte das pessoas que comandam o futebol mundial hoje em dia em promover o Messi como o novo rei do futebol, no lugar do Pelé. Em outras palavras, o favorecimento é não para a Argentina em específico, e sim para o Messi.

Afinal, Messi, embora seja argentino de nascença, é um jogador que jogou a carreira toda dele na Europa, em times como o Barcelona e o Paris Saint-Germain, e só mais no final foi jogar nos Estados Unidos pelo Inter Miami. E, na contramão de Maradona, é um sujeito que não costuma se manifestar politicamente. Limpinho, cheirosinho, carreira quase toda na Europa, o produto ideal para os senhores do futebol mundial promoverem como novo rei do futebol. E aí é só ligarmos os pontos.

Foto – Messi (esquerda), Infantino (meio) e Trump (direita).

Entenderam, ou precisa desenhar? A questão aqui é apontar o processo sórdido e canalha que há por trás da promoção do Messi como novo rei do futebol, com a clara intenção de em médio e longo prazo transformar o Pelé, um homem negro que jogou toda a sua carreira no Brasil e só no final foi jogar nos Estados Unidos, em um jogador comum para as próximas gerações que não o viram jogar, no máximo ouviram as histórias sobre ele. Em última instância, apagar a memória do Pelé. Ainda mais agora que o próprio Pelé já não está mais conosco, assim como a maioria do pessoal com o qual ele jogou, e a geração que viu o rei do futebol jogar indo embora.

E o que é pior, o próprio Messi, ao que tudo indica, se prestando a tal papel ridículo. Mas uma coisa é certa nisso tudo – a história cobrará caro o jogador argentino no futuro por isso.

Não há como comparar Messi com Pelé. Para além do fato de ambos terem jogado em épocas bem diferentes um do outro, o seguinte fato é mais que o suficiente: Pelé ganhou 3 das 4 copas do mundo que disputou, em 1958, 1962 e 1970. Em 1966, não passou nem da primeira fase dada a eliminação precoce da seleção brasileira. Ou seja, aproveitamento de 75% (e não me venham com essa de que em 1962 ele só jogou dois jogos – ele estava no time e isso é o que importa). Como jogador, ninguém conseguiu tal feito na história das Copas do Mundo. Ao passo que Messi só ganhou uma das 6 copas que disputou, a de 2022 (ou seja, 16,6% de aproveitamento). De resto foi quartas-de-final em 2006 e 2010, vice-campeão em 2014, oitavas-de-final em 2018 e agora mais uma vez vice-campeão.

E não esquecendo que outro brasileiro também tem três copas em seu currículo, Mário Jorge Lobo Zagallo. Três não, quatro. Visto que o velho lobo ganhou duas copas como jogador, mais uma como técnico e mais uma como auxiliar técnico. Um feito a meu ver ainda mais impressionante que o de Pelé, visto que além de Zagallo apenas o alemão Franz Beckenbauer e o francês Didier Deschamps ganharam a competição máxima do futebol mundial tanto como jogador quanto como técnico.

Além disso, como que querem comparar o Pelé com o Messi, sendo que o Messi, antes da Copa de 2022, vivia tendo desempenhos pífios e apagados sempre que jogava pela albiceleste? O fato de ele ter brilhado em 2022 e tido seus bons momentos em 2026 de forma alguma apaga as péssimas atuações que ele teve antes disso. O desempenho de Messi na seleção argentina antes de 2022 era tão ruim que ele me passava a impressão de que fora do Barcelona ele era como se fosse um peixe fora d’água, diria até que o parasita do time que bem provavelmente só estava ali por pressão de patrocinadores. Talvez os mesmos patrocinadores que desejam que ele venha a ser sagrado como o novo rei do futebol.

Por sorte, a Espanha venceu a Copa de 2026, a Copa que seria para eles a sagração do Messi em caso de título da Argentina, a sagração que acabou não aconteceu. Tudo estava pronto. Só que os planos não saíram como o esperado para eles.

Essa é a verdadeira questão de racismo, o verdadeiro elefante na sala que muitos não estão vendo. E podem ter certeza que a derrota da Argentina na copa do mundo deste ano, embora tenha sido um golpe duro nos planos dessa gente, um grande revés, não significa o fim dessa agenda por parte de Infantino e companhia limitada. Muito pelo contrário, podem ter certeza que esse pessoal que hoje comanda o futebol mundial ainda não desistiu de promover um novo rei do futebol no lugar de Pelé, um Messi 2.0 que sirva aos propósitos deles.

Quem será esse novo aspirante a Messi 2.0? Apenas o tempo dirá, mas já dá para ter uma noção de quem será esse personagem e o perfil dele. Um jogador branco, formado na Europa, que jogou praticamente que a carreira toda na Europa e muito bem relacionado com o pessoal da Fifa e patrocinadores influentes. Dessa forma, podemos descartar jogadores de ascendência africana como o francês Kylian Mbappé e o espanhol Lamine Yamal. Mas podemos ter certeza de uma coisa – parafraseando Karl Marx no 18 Brumário de Luís Bonaparte, vai ser a história se repetindo primeiro como tragédia e depois como farsa.

E quanto ao futuro da Argentina em copas do mundo, anotem aí o que vou dizer – com o fim iminente da era Messi, a Argentina voltará a ser o que era antes, se não pior. O time de craques que atuam nas principais ligas europeias e que entra na Copa badalado, mas que tomba miseravelmente quando chega às oitavas ou quartas-de-final. É só lembrarmos dos desempenhos da Argentina a partir da copa de 1994: em 1994 perdeu para a Romênia nas oitavas-de-final por 3 a 2. Em 1998 tombou para a Holanda nas oitavas-de-final após derrota por 2 a 1 e o gol antológico de Bergkamp. Não passou nem da primeira fase em 2002. Em 2006 e 2010, com Messi já jogando pela seleção argentina, duas eliminações para a Alemanha nas quartas-de-final, em 2006 após empate no tempo normal por 1 a 1 e derrota nos pênaltis por 4 a 2 e em 2010 derrota por 4 a 0. E em 2018 eliminação para a França nas oitavas-de-final após derrota por 4 a 3.

E a coisa não para por aí. Desde 2018 times argentinos não mais vencem mais a Copa Libertadores, com o título do River Plate. O mesmo River Plate que no mundial do mesmo ano foi eliminado ainda nas semifinais pelo time dos Emirados Árabes Unidos Al Ain, após empatar em 2 a 2 no tempo normal e perder por 5 a 4 nos pênaltis. E a última vez em que um time argentino disputou final de Libertadores foi em 2023, na qual o Fluminense venceu o Boca Juniors por 2 a 1.

O predomínio brasileiro em Libertadores é tal que temos visto a imprensa dos países vizinhos se queixando disso. E podem ter certeza que a conta que hoje os clubes argentinos pagam logo chegará também à seleção principal em Copa do Mundo. É questão de tempo ela chegar, e quando chegar vai vir com juros e correção monetária. Quem viver, viverá para ver a Argentina começar a cair em oitavas-de-final, quem sabe até em 16 avos de final ou até mesmo em primeira fase.

domingo, 19 de abril de 2026

O alerta de Brizola e a campanha de ódio da direita católica contra o Islã

 

Foto – Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004).

No rastro da guerra que Estados Unidos e Israel movem no presente momento contra o Irã, com a clara intenção de desviar a atenção do caso Epstein, temos visto círculos de direita católica, como é o caso do Centro Dom Bosco, Luiz Phillipe de Orléans e Bragança (vulgo Deputado Príncipe), Bernardo Küster, Lorenzo Lazzarotto, Edmílson Cruz e outros afins, postando em seus respectivos canais conteúdos contrários ao Islamismo.

O centro Dom Bosco chegou a ponto de lançar por meio de sua editora seis livros críticos ao Islamismo. O mesmo centro Dom Bosco que antes de embarcar de cabeça na campanha contra o Islamismo fez postagens exaltando a figura de Francisco Franco, ditador da Espanha entre 1936 a 1975.

Mal devem saber eles que o mesmo Franco teve no exército espanhol uma unidade de soldados de origem marroquina, a Guarda Moura, a qual lutou do lado franquista em episódios como a guerra civil espanhola (1936 – 1939) e exercia a função de guarda pessoal do próprio Franco. Franco também recebeu visitas de lideranças do mundo muçulmano, como é o caso de Gamal Abdel Nasser, do Egito, em 1960.

Um ano antes de vir a óbito, em dezembro de 1974, Franco recebeu em Madrid Saddam Hussein, então vice-presidente do Iraque e homem-forte do regime iraquiano, e o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica em Madrid. Em sua primeira viagem à Espanha Saddam também visitou Toledo, Córdoba e Granada. Um ano depois Saddam também compareceu ao velório de Franco. Após as visitas à Espanha, Saddam veio a visitar outros países falantes de espanhol, como a Venezuela em 2000 3e Cuba em 2001. Franco também manteve relações cordiais com Fidel Castro, a despeito de diferenças ideológicas entre os dois.

Foto – Francisco Franco e Gamal Abdel Nasser. Por volta de 1960.

O conteúdo desse pessoal de direita católica, entretanto, não se limita à críticas de ordem teológica a religião fundada pelo profeta Maomé no século VII. É conteúdo de incitação de ódio ao Islamismo sob alegações e pretextos como a de que há um suposto “perigo islâmico” ao Brasil e que se nada for feito a lei da sharia tomará conta do Brasil, e para isso usando exemplos como o da Europa e dos Estados Unidos.

E, como não poderia deixar de ser, Mansur Peixoto, da página História Islâmica, nos últimos dias lançou vídeos em seu canal no You Tube rebatendo os argumentos desses caras, tal qual fez com Thiago Braga em 2023.


A pergunta que fica é a seguinte: haverá alguma articulação internacional por trás desses grupos de extrema direita católica? Estaria essa gente ligada a think thanks e grupos de extrema direita internacionais, de países como a Polônia, a Hungria, a França, ou mesmo os Estados Unidos?

Eles falam que o Islamismo tem um projeto de tomar conta do Brasil no longo prazo, por meio do fator demográfico, tanto através de imigração vinda de países muçulmanos quanto por meio da taxa de natalidade.

O governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas (o mesmo Tarcísio de Freitas que na Marcha para Jesus do ano passado apareceu com a bandeira de Israel enrolada em suas costas), tem sido objeto de críticas por parte desse pessoal por ter tomado em parceria com a FAMBRAS (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil) uma série de medidas visando o aumento do fluxo de visitantes e atração de investimentos vindos do mundo muçulmano, incluindo medidas para adaptar hotéis e restaurantes para receber turistas muçulmanos. Entre elas oferta de alimentação halal (permitida pela lei islâmica), ambientes sem álcool e espaço e espaços adequados para as orações diárias em direção à Meca, uma das cidades sagradas do Islã.

Nada me tira da cabeça que, por trás de toda a verborragia e ataques ao Islamismo por parte desses católicos reacionários, quem de fato têm um projeto de poder e de longo prazo é precisamente essa gente. E isso não é nenhuma novidade na história do Brasil. Visto que em seus últimos anos de vida, Leonel de Moura Brizola mostrou-se preocupado quanto ao crescimento da influência de pastores ligados a denominações neopentecostais na política do estado do Rio de Janeiro.

Em 2000, o político gaúcho, à época presidente nacional do PDT, chegou a pedir ao então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, para colocar fim à influência dos pastores protestantes no governo estadual. “O governo tem de ser mais discreto, está vivendo um protestantismo exagerado”, Brizola disse à época.

Brizola também se mostrou preocupado a respeito da presença excessiva de pastores no gabinete de Benedita da Silva, com as seguintes palavras: “Qual a legitimidade de tantos pastores no governo? Quem são esses pastores da Benedita? Por que esse pastor Everaldo tem o controle sobre a distribuição dos cheques? O cheque do pastor é dinheiro público”, disse Brizola à época, o qual também aconselhou Garotinho a fazer uma ampla reforma no secretariado.

Segundo as notícias da época, um dos objetos de denúncias por parte do velho caudilho foi a Cehab (Companhia Estadual de Habitação), cujo presidente à época era Eduardo Cunha. O mesmo Eduardo Cunha que anos mais tarde veio a ser o grande articulador do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016.

Brizola também se mostrou descontente com a atuação do então subsecretário do Gabinete Civil, pastor Everaldo Dias Ferreira. À época ligado politicamente à então vice-governadora Benedita da Silva (PT), em 2016 o mesmo pastor Everaldo batizou o então deputado federal pelo Rio de Janeiro Jair Messias Bolsonaro nas águas do Rio Jordão.

Foto – Bolsonaro nas águas do Rio Jordão, abençoado pelo pastor Everaldo.

Em 23 de agosto do mesmo ano Brizola, em entrevista à Revista Veja, disse as seguintes palavras: “Esses pastores querem é estação de rádio e dinheiro. São adoradores do bezerro de ouro”.

Brizola era um homem arguto, de uma inteligência ímpar e que enxergava longe. Sabia muito bem sobre o que estava falando. Ele fez esse alerta em 2000 (ou seja, quatro anos antes de nos deixar), e o alerta se mantem atual. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Visto que em favelas no Rio de Janeiro, narcotraficantes imbuídos de uma visão religiosa fundamentalista neopentecostal formaram o Complexo de Israel a partir de 2020. No qual pode-se ver bandeiras de Israel e estrelas de Davi estampadas nos muros em diversos pontos. Facções criminosas não apenas atacam praticantes de religiões de matriz africana, como também constrangem cultos católicos no local. E na política, temos visto o surgimento de fenômenos como a bancada da Bíblia, composta por políticos que não raro exercem a função de pastores.

Uma dessas pastoras, Ana Paula Valadão, cantora de música gospel e pastora da igreja Diante do Trono, disse a seguinte pérola a respeito da guerra no Irã: “tô emocionada, tão emocionada, a gente ora tanto pela igreja perseguida, nós cristãos, falando do nosso povo, e o Irã sofrendo tanto na lista de países de maior perseguição. Se não me engano, esse ano, na lista de países de maior perseguição o Irã estava em nono lugar”.

É nítido que ela falou essas abobrinhas tendo interesses em mente, com vistas que uma eventual queda do regime dos aiatolás no Irã possa abrir as portas para que a Igreja dela possa atuar abertamente e a realizar atividade missionária na nação persa. Algo que o atual regime iraniano, dada a vinculação dessas igrejas neopentecostais com os interesses dos Estados Unidos e toda a simpatia que elas nutrem por Israel, não permite. Daí que vem as histórias falaciosas como a de que o Irã persegue cristãos, sendo que o que o Irã na verdade faz é colocar limites e regulamentações na atividade religiosa.

Entretanto, o mais assombroso disso tudo é que a atualidade da fala de Brizola não para por aí. Ela também se aplica muito bem aos setores tradicionalistas e reacionários da Igreja Católica dos dias hodiernos, representados por grupos como Centro Dom Bosco, Arautos do Evangelho, Partido dos Cristeros, Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Instituto Plínio Correa de Oliveira (IPCO), Instituto Estudos Nacionais Regina Milites (IENRN) e afins.

Tais grupos demonstram insatisfação para com os rumos que a Igreja Católica vem tomando desde o Concílio Vaticano II, a ponto de parte deles, os chamados sedevacantistas, considerarem que desde a morte de Pio XII em 1958 o trono de São Pedro em Roma está vago. Ou seja, todos os papas a partir de João XXIII para parte deles não são papas legítimos.

Como não poderia deixar de ser, também são críticos da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e de sacerdotes ligados à Teologia da Libertação. Frequentemente, os acusam de ser comunistas e afins. Costumam criticar as campanhas da fraternidade que a CNBB lança todo ano (em que pese alguns erros verdadeiros e desatinos por parte do pessoal que hoje comanda a CNBB).

O fato é que vemos tais grupos de direita católica não apenas se organizando por meio de entidades e centros, como também ocupando espaços em redes sociais (as quais eram inexistentes, no máximo bem rudimentares, quando Brizola deu seu alerta), onde eles não raro costumam vender seus cursos. Eles já começam a eleger políticos (como é o caso do já citado Deputado Príncipe) e até se organizando em institutos e partidos políticos, como é o caso do já citado Partido dos Cristeros (que advoga para o Brasil a instauração de um estado confessional católico).

Já dá para imaginar o que esses católicos reacionários têm em mente na esfera política – formar uma espécie de versão católica da Bancada da Bíblia, além de fornecer apoio a políticos a eles identificados, tais como Jair Bolsonaro e afins, contra políticos de esquerda. Ir ocupando espaços, pouco a pouco, e influenciar a política brasileira em favor da agenda deles.

Tal pessoal demonstra odiar de forma rábica não só o Islã, como também odeia a Rússia, e para justificar o ódio deles pela nação de Gogol, Puškin e Prokofiev usam o Terceiro Segredo de Fátima e toda aquela lorota de que a Rússia iria espalhar seus erros pelo mundo como pretexto. Eles odeiam a Rússia seja como Império, seja como União Soviética, seja como República Federativa. A China então, nem se fala.

Eles odeiam tanto o Islã que se esquecem, por exemplo, que em 2019, quando o Porta dos Fundos fez aquele especial no qual Jesus Cristo (interpretado pelo ator Gregório Duvivier) foi retratado de uma forma bem indecente, uma associação islâmica, a Associação Nacional dos Juristas Islâmicas (ANAJI), repudiou a atitude do Porta dos Fundos.

Por essas e outras que penso eu que países como a China, a Rússia, o Irã, o Vietnã e a Coreia do Norte certos estão em colocar condições para a atuação religiosa e não permitir a entrada de certas denominações religiosas. Em outras palavras, para que não floresçam como ervas daninhas pastores politiqueiros (muitos dos quais lá atrás apoiavam o Partido dos Trabalhadores e hoje apoiam Bolsonaro) como Valdomiro Santiago, Marco Feliciano, Edir Macedo, Flordelis (vulgo Queturiene) e afins, fanáticos religiosos católicos como o Deputado Príncipe e associações e entidades como o Partido dos Cristeros e o Centro Dom Bosco.

Diante do que estamos vendo, uma pergunta fica: será que daqui um tempo, após ganharem musculatura, veremos tais grupos religiosos de direita católica enfim mostrarem suas garras insidiosas e organizarem uma espécie de versão brasileira da rebelião Taiping, revolta de caráter messiânico cujo líder, Hong Xiuquan, se dizia irmão de Jesus Cristo e que trouxe grande prejuízo e morticínio à China durante um decênio e meio (de 1850 a 1864)? Será que não está na hora de as autoridades brasileiras darem a devida atenção a essa gente?

Que fique bem claro uma coisa: ao tratar do presente tema, não estamos falando da religião enquanto escolha pessoal do indivíduo. E sim do uso da mesma para finalidades politiqueiras, com vistas a projetos de poder. E isso independente da denominação religiosa. Quer seja por parte de católicos, evangélicos, luteranos, anglicanos, ortodoxos, muçulmanos xiitas ou sunitas, budistas, judeus, hinduístas, xintoístas, taoístas, pagãos das mais diversas vertentes, entre outros.

Fontes:

Brizola pede fim de influência religiosa. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3103200026.htm

Complexo de Israel. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_de_Israel

Estudos nacionais. Disponível em:

https://www.estudosnacionais.com/

Guardia Mora (em espanhol). Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Guardia_Mora

Juristas islâmicos repudiam vídeo de Porta dos Fundos. Disponível em: https://pleno.news/fe/juristas-islamicos-repudiam-video-do-porta-dos-fundos.html

Leonel Brizola. Disponível em: https://pt.wikiquote.org/wiki/Leonel_Brizola

List of international trips made by Saddam Hussein (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_international_trips_made_by_Saddam_Hussein

Los moros de Franco (em espanhol). Disponível em: https://serhistorico.net/2018/09/15/los-moros-de-franco/

Partido dos Cristeros. Disponível em:

https://partidodoscristeros.com.br/

Tarcísio humilhou comunidade árabe ao usar bandeira de Israel, diz ministro. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/06/20/marcio-franca-humilhar-arabes-tarcisio-israel-marcha-para-jesus.htm

domingo, 12 de abril de 2026

O iceberg do PL 1424/2026 e a real natureza do sionismo.

 

Foto – Tabata Amaral.

Recentemente, entrou em tramitação na Câmara dos Deputados o projeto de lei 1424/2026, de autoria de Tabata Amaral (PSB-SP), Gilberto Abramo (Republicanos-MG), Geovania de Sá (PSDB-SC), Kim Kataguiri (Missão-SP), Heloísa Helena (Rede-RJ), Paulinho da Força (Solidari-SP), Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP), Eduardo Pazuello (PL-RJ), entre outros políticos de diversas colorações partidárias.

O projeto foi apresentado em 26 de março do presente ano e em sua ementa propõe “define anti-semitismo (ou seja, o ódio, antipatia em relação aos judeus) com a finalidade de instruir as políticas públicas nacionais”. Ainda segundo a proposta do PL, o anti-semitismo vai passar a ser equiparado ao crime de racismo, com pena de reclusão de 2 a 5 anos e multa, não podendo ter prescrição e nem fiança.

Também de acordo com o projeto, um ato é considerado como anti-semita quando os alvos dos ataques (quer sejam pessoas ou bens) são escolhidos porque são judaicos ou associados aos judeus, incluindo associações comunitárias e instalações religiosas.

No papel, tudo parece muito bonito. A própria Tabata Amaral nega que o projeto em questão limite a liberdade de expressão. Mas, como diz o velho ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Leis como essa são que nem a recém-aprovada Lei Felca (vulgo Felipe Neto 2.0), por exemplo. Leis como o PL 1424/2026, a lei Felca (também conhecida como ECA Digital, prevê normas para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais) e a lei da proibição de veiculação de publicidade infantil na TV aberta brasileira de 2014 são como um iceberg flutuando no mar.

Na superfície, vemos as boas intenções das mesmas, a retórica bonita daqueles que propõem a lei. Tudo muito bonitinho e etc. Boas intenções e retórica bonita essas que na verdade escondem a parte do iceberg oculta sobre o mar. E é aí onde está o perigo por trás do PL 1424/2026.

Primeiro de tudo, o que a lei em questão define por anti-semitismo do ponto de vista jurídico? Só para começo de conversa, os parâmetros desta lei são baseados nos da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Definições essas que são objetos de crítica por juristas e relatores da ONU por seu caráter aberto.

Uma das coisas que me estranha muito nesse PL é o timing do mesmo. Bem no momento em que Estados Unidos e Israel, no afã de desviar a atenção dos desdobramentos do caso Epstein (no qual a nata da política americana, assim como figurões da política israelense e da realeza europeia, está envolvida até o pescoço), movem uma guerra contra a República Islâmica do Irã.

E outra coisa que também me chama e muito a atenção sobre o PL 1424/2026 é que um dos que o apoiam é a patética e ignóbil figura de Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, deputado federal pelo Partido Liberal por São Paulo e descendente da família real brasileira, deposta em 1889 por conta do golpe republicano liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca.

Surpresa zero o nome dele estar associado a esse PL. Visto que o deputado príncipe, em 10 de novembro do ano passado, publicou na Gazetado Povo a coluna “O Brasil e a próxima Guerra Santa”, onde ele discorre sobre riscos associados ao que ele chama de civilização ocidental advindos da migração islâmica e uma possível imposição da lei da šariah, advogando que o Brasil se posicione em uma espécie de nova cruzada travada na esfera política para proteção contra essa ameaça. Ou seja, ele quer trazer ao Brasil problemas que nem são nossos como toda essa histeria anti-islâmica vinda de círculos de extrema direita da Europa e dos Estados Unidos (para ver como até nisso a nossa direita, assim como a esquerda, adora copiar o que há de pior na gringa).  Como consequência, a coluna recebeu críticas do Grupo de Diálogo Inter-religioso de Londrina, que a considerou promotora de intolerância religiosa e generalizações contra muçulmanos. Em resposta ao artigo do Deputado Príncipe, Mansur Peixoto, do canal História Islâmica, postou um vídeo de reação rebatendo às ilações dele.

O Deputado Príncipe é uma das muitas figuras da direita católica que bem no momento da guerra Epstein contra o Irã embarcaram em campanhas de ódio contra o Islã, junto com o Centro Dom Bosco e outras tantas. A mesma gente que não raro também demonstra ódio rábico pela Rússia, a ponto de evocar o Terceiro Segredo de Fátima bem no momento em que a Rússia lançou a Operação Militar Especial contra a Ucrânia a partir de 2022 com toda aquela lorota de que a nação de Gogol, Puškin e Prokofiev iria espalhar seus erros pelo mundo. Pelo visto, eles odeiam a Rússia quer seja como Império tzarista, quer seja como União Soviética, quer seja como República Federativa.

Foto – Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, o deputado príncipe.

Vejam só o paradoxo: o mesmo deputado príncipe que faz histeria anti-islâmica e até mesmo advoga novas cruzadas contra o Islã, apoia um projeto de lei que (ao menos na ementa) diz que combater o anti-semitismo (ou seja, a secular antipatia contra os judeus).

O que mosta por A+B que, no fim das contas, a Tabata Amaral não passa de um chamariz, a parte visível da coisa toda. Quando vemos que por baixo do mar se escondem figuras venais como Heloísa Helena, Paulinho da Força, Pazuello e o deputado príncipe, além do apoio que recebe de organizações como a StandwithUs (um dos principais grupos que atuam em defesa de Israel pelo mundo, cujo presidente aqui no Brasil é André Lajst – o mesmo André Lajst que recentemente travou com debate com Mansur Peixoto), vemos que há bem mais coisas em jogo por trás do PL 1424/2026. E também vemos quão patética e inexpressiva a Tabata Amaral é.

E conhecendo a índole de muitos desses que apoiam o PL, é razoável supor que este PL na verdade vai se transformar em uma grande ratoeira, um meio para criminalizar toda e qualquer crítica que se possa fazer ao estado de Israel sob o pretexto do combate ao anti-semitismo. É um iceberg que inexoravelmente irá se chocar contra nós, assim como o iceberg que se chocou com o navio Titanic em 1912 e o jogou para dentro das gélidas águas do Atlântico Norte.

E o que me espanta é também o fato de que esse PL não veio de um sionista de carteirinha como o Jair Bolsonaro ou seus filhos (que já desfilaram pelas ruas de Israel com camisa da IDF e do Mossad), e sim de uma figura dita de esquerda, que começou sua carreira política pelo PDT, o mesmo PDT de Brizola e Darcy Ribeiro, e que hoje é filiada ao PSB (Partido Socialista Brasileiro). Certamente o velho caudilho e Darcy Ribeiro devem estar se revirando em seus respectivos túmulos.

Foto – Eduardo e Carlos Bolsonaro desfilando pelas ruas de Israel com camisetas da IDF e do Mossad.

Não é de hoje que círculos sionistas usam como carteirada para calar seus críticos a equiparação de anti-sionismo a anti-semitismo. E não raro usam citações do Reverendo Martin Luther King, uma das grandes lideranças do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, para legitimar tal posição.

Que fique bem claro uma coisa: quando falarmos em sionismo, há de se ter em mente o seguinte. Que nem todo judeu é sionista, assim como nem todo sionista é judeu. Vide exemplos como o dos judeus ortodoxos da Neturei Karta, ou de Norman Gary Filkenstein, autor do livro "A indústria do Holocausto", nem um pouco simpáticos ao sionismo. E no sentido contrário o apoio que a causa sionista recebe de expressivos setores de denominações neopentecostais, o chamado sionismo cristão.

A respeito da relação entre sionismo e anti-semitismo, o que a história em realidade mostra é o contrário do que certos grupos sionistas ventilam por aí. Os sionistas, tanto antes quanto depois da fundação do estado de Israel, nunca tiveram o menor pudor em colaborar com a nata do anti-semitismo europeu, desde a época do caso Dreyfus e dos pogroms da Rússia Imperial tardia.

O próprio fundador do movimento sionista, Theodor Herzl, que à época do caso Dreyfus serviu como correspondente de um jornal vienense em Paris, esteve em contato com os principais anti-semitas da época. Segundo Ernst Pawel em sua biografia sobre Herzl, “Labirinto do Exílio”, os mesmos que financiaram e editaram o periódico “La Libre Parole”, que advogava uma plataforma de “defesa da França Católica contra ateus, republicanos, franco-maçons e judeus”, periodicamente convidada Herzl para suas residências.

Em 1896, Herzl lançou o livro “Der Judenstaat” (“O Estado judeu”, em alemão). À época, o livro de Herzl foi amplamente depreciado pelas lideranças judaicas da época, as quais viam a si mesmas como cidadãos franceses, alemães, ingleses, austríacos ou italianos de origem e religião judaica. Mas o mesmo não pode ser dito a respeito dos anti-semitas de sua época. Estes elogiaram o trabalho de Herzl. Uma das primeiras revisões do livro de Herzl apareceu no “Westungarischer Grenzbote” (em alemão “Mensageiro fronteiriço da Hungria Ocidental”), jornal anti-semita de Bratislava publicado por Ivan von Simonyi, membro da dieta húngara, o qual não apenas elogiou o livro de Herzl, como também pagou ao próprio Herzl uma visita pessoal.

A respeito de Ivan von Simonyi, Herzl diz as seguintes palavras em seu diário:

“Meu estranho seguidor, o anti-semita de Bratislava Ivan von Simonyi veio me ver. Um sexagenário hipervivo, hiperfalante com uma estranha simpatia pelos judeus. Balança para frente e para trás entre fala perfeitamente racional e total absurdo, acredita no libelo de sangue e ao mesmo tempo vem com as mais sensíveis ideias modernas. Me ama”.

O próximo passo de Herzl foi se encontrar com o ministro do interior russo, Vjačeslav Konstantinovič Plehve. Plehve foi um dos principais incitadores de pogroms da Rússia Imperial tardia, nos quais judeus eram linchados, feridos e por vezes mortos pelo populacho e milícias leais ao poder tzarista, entre eles cossacos e o movimento centúrias negras. Um desses pogroms teve lugar na cidade de Kišinev (atual Moldávia), em abril de 1901, no qual 48 judeus foram mortos e mais centenas de feridos.

O líder cultural judaico Chaim Žitlovskij ficou furioso com Herzl por ter negociado com Plehve. A Žitlovskij, Herzl respondeu da seguinte maneira: “Eu tenho uma promessa vinculativa de Plehve de que ele irá adquirir uma carta pela Palestina por nós em 15 anos no exterior. Há uma condição, entretanto, os revolucionários devem parar sua luta contra o governo russo”.

Em agosto de 1903, Plehve e Herzl se encontraram em São Petersburgo e discutiram o estabelecimento de sociedades sionistas na Rússia. O próprio Plehve propôs um requerimento por parte do governo russo ao Império Otomano para obter um alvará para a colonização judaica na Palestina. Um ano depois, tanto Herzl quanto Plehve vieram a óbito. O primeiro por complicações decorrentes de uma pneumonia, e o segundo assassinado por meio de um atentado a bomba em São Petersburgo.

E o colaboracionismo do sionismo com a Rússia Imperial não para por aí. O chefe da Okhrana (a polícia secreta tzarista) em Moscou na época do reinado de Nicolau II (r. 1894 – 1917), Sergej Vasil’evič Zubatov, era simpático ao sionismo como uma forma de calar a oposição judaica ao regime tzarista. Zubatov e outros anti-semitas de seu tempo ficaram encantados com o sionismo, visto que havia uma convergência de interesses entre as duas partes: por meio do sionismo e a emigração à Palestina Zubatov e sua laia se livravam dos judeus em território russo, e os sionistas por meio da imigração à Palestina visando a criação de um estado judaico iam embora da Rússia. Dessa forma, nem um e nem outro almejavam resolver a situação de miséria e desespero que os judeus russos passavam à época.

Os sionistas serviram a Zubatov como espiões e subversores do Bund (um dos principais grupos de oposição judaica ao poder tzarista), e assim o Bund e outros grupos opositores eram exterminados com o sinal verde dos sionistas.

Após a queda do regime imperial na Rússia, o líder sionista revisionista Vladimir Žabotinskij fez acordos com o líder reacionário ucraniano Simon Petljura. As forças de Pletjura aniquilaram as vidas de cerca de 100 mil judeus no período de 1918 a 1921.

Mas a cereja do bolo ainda estava por vir. Em 1933, sobe ao poder na Alemanha Adolf Hitler.

Quando Hitler subiu ao poder na Alemanha, um boicote econômico mundial à Alemanha foi conclamado por organizações judaicas. E lá estava a organização sionista da Alemanha para furar o boicote. Em 1935, os sionistas, no Congresso Sionista Mundial, decidiram por meio da empresa Hanotea importar bens de origem alemã e exportar seus próprios bens ao país, ao mesmo tempo em que também transferiam judeus da Alemanha para a Palestina por meio do Tratado Ha’avara.

Os conchavos entre nazistas e sionistas não apenas ajudaram à Alemanha hitlerista a escapar de sanções internacionais (com o acordo de transferência Ha’avara sendo celebrado através de uma moeda comemorativa que estampa a suástica em um dos lados e a Estrela de David de outro), como também armas alemãs (entre elas metralhadoras e pistolas Mauser) passaram a abastecer milícias sionistas na Palestina como o Irgun e o Haganah. Uma vez em mãos de milícias como o Irgun e o Haganah, estes passaram as armas de origem alemã para promover limpezas étnicas da população de origem árabe-palestina.

Um dos principais ideólogos do nazismo, Alfred Rosenberg, autor do livro “O mito do século XX”, também se mostrou simpático ao sionismo, com as seguintes palavras:

“O sionismo deve ser vigorosamente apoiado para que um certo número de judeus alemães seja transportado anualmente à Palestina, ou pelo menos forçados a deixar o país”.

Já na época da guerra, grupos sionistas que operavam na Palestina, como é o caso do Lehi, tentaram se aproximar da Alemanha em busca de apoio contra a Inglaterra, que à época começou a impor restrições à imigração judaica à Palestina. Para isso, Yitzhak Šamir, futuro primeiro-ministro de Israel, chegou a enviar uma carta a Hitler.

Foto – “Um nazista viaja à Palestina e fala sobre isso em ataque“. Moeda da época da Alemanha nazista, com a estrela de David de um lado e de outro a suástica nazista, datada de 1934.

E mais recentemente, grupos de extrema direita europeus como o alemão AfD e os ucranianos Setor de Direita e Batalhão Azov tiveram seus contatos com autoridades israelenses.

Dessa forma, levando em consideração a história do sionismo desde seus primórdios, não só podemos dizer que não faz sentido algum categorizar anti-sionismo como equivalente de anti-semitismo, como podemos ir mais além: na verdade, há uma relação dialética entre sionismo e anti-semitismo. Um retroalimenta o outro e vice-versa a ponto de um não existe sem o outro.

Dessa forma, parafraseando o que o velho Brizola e Darcy Ribeiro diziam sobre o PT ainda nos anos 1980 e 1990, o sionista é o judeu que o anti-semita gosta. E o exemplo histórico da admiração que Ivan von Simonyi tinha por Herzl e a colaboração dos sionistas russos com o aparato repressivo tzarista na figura de Zubatov são exemplos cabais e ilustrativos disso.

No fim, anti-semitismo e sionismo são como, por exemplo, as faces do deus Janus na mitologia romana, o yin e o yang no taoísmo ou os personagens Piccolo e Kami Sama em Dragon Ball. Uma grande unidade contraditória, em que um completa o outro. Resumindo a ópera: o sionismo, ao invés de resolver os problemas que afligem aos judeus, na verdade vive destes mesmos problemas e ainda por cima os agrava.

Em 2018, publiquei neste espaço alguns textos do portal Radio Islam sobre a história dos conchavos entre sionistas e anti-semitas, dentro do contexto da eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República, e que eu mesmo traduzi do espanhol e do inglês para o português. 

Sionismo e anti-semitismo - uma estranha aliança ao longo da história

Sionismo e Terceiro Reich

O mito do anti-fascismo sionista

À época, cheguei a ficar preocupado com o fato de que críticas ao estado de Israel pudessem ser criminalizadas legalmente. Pelo visto, isto está para acontecer, mas não vindo de Bolsonaro pai ou seus filhos, ou qualquer outro representante da direita filo-sionista brasileira, e sim de uma deputada que foi do PDT e hoje é do PSB. E mais um detalhe: isso pode vir a acontecer sob as asas de um governo dito de esquerda, o governo Lula 3.0.

E se um dia esse PL virar lei, é capaz que até mesmo a abordagem do passado sombrio dos sionistas e todos os conchavos que eles fizeram com a nata do anti-semitismo europeu, incluindo incitadores de pogroms como Plehve, Zubatov e Petljura, ou mesmo o acordo Ha’avara que os sionistas alemães fizeram com o Terceiro Reich, os elogios que o próprio movimento sionista recebeu de importantes anti-semitas europeus do final do século XIX e primeira metade do século XX, também será sujeita à mordaça sob o pretexto do combate ao anti-semitismo. Até mesmo a abordagem da questão do colaboracionismo judaico com a Alemanha nazista e o fato de que muitos dos kapos dos campos de concentração nazistas eram eles mesmos judeus, também passará pelo mesmo escrutínio.

Como também o fato de que foi a vanguarda sionista que introduziu no Oriente Médio o conceito de guerra urbana via atentados terroristas e organização de grupos paramilitares. E que importantes figuras da política israelense tais como Yitzhak Šamir, David Ben Gurion e Menachem Begin estiveram envolvidos em grupos como o Irgun, o Haganah e o Stern antes mesmo da fundação do estado de Israel, tendo tomado parte em episódios como o massacre de Deir Yasin, o atentado ao hotel King David e o assassinato do conde sueco Folke Bernadotte (algo sobre o qual Bolsonaro e seus filhos se calam). A questão da indústria ideológica em torno do Holocausto que surgiu após o fim da guerra e que justifica o projeto sionista no Oriente Médio, similar à indústria em torno do Holodomor que a Ucrânia criou após o fim da União Soviética. Será que até isso estará submetido à mordaça?

Fontes:

Conteúdos islamofóbicos no Brasil por católicos. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/conteudos-islamofobicos-por-catolicos-no-brasil/

Israel na visão de Martin Luther King. Disponível em: https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/2973224/jewish/Israel-na-viso-de-Martin-Luther-King.htm

Não há comparação mais justa do que a feita entre Israel e nazismo. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/nao-ha-comparacao-mais-justa-do-que-a-feita-entre-israel-e-o-nazismo/

Luiz Phillipe de Orlenas e Bragança. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Philippe_de_Orl%C3%A9ans_e_Bragan%C3%A7a

PL 1424/2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2612333

Projeto equipara anti-semitismo a crime de racismo. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1261955-projeto-equipara-antissemitismo-a-crime-de-racismo/

domingo, 22 de março de 2026

A podridão do reino da Dinamarca, parte II: verde de slime

 

Foto – Jeffrey Epstein.

“Ashrah: a sua Hollywood está cheia de mal.

Johnny Cage: não precisa da Kris[1] para sacar”

Fala de início de luta entre Johnny Cage e Ashrah, Mortal Kombat 1.

Como já dito no preâmbulo da primeira parte, e é muito importante frisar: o caso Epstein não é uma anomalia, um caso isolado, muito menos surge do nada. Quem assim pensa assina atestado de estupidez. Muito pelo contrário, o caso Epstein surge dentro de um contexto no qual uma série de escândalos no mundo do showbusiness vem à tona. E que mostram ao mundo a extensão da podridão do reino da Dinamarca. O quão profunda a coisa é.

Dando continuidade à série de artigos, agora abordaremos o caso Dan Schneider (vulgo Dan Alfaiate[2]).

A título de registro, o título da segunda parte da presente série de artigos é uma alusão ao episódio “verde de raiva” (originalmente “green with evil”), da primeira temporada de Power Rangers, o primeiro de um arco de cinco episódios (se estende do episódio 17 ao 21) que marca a estréia do personagem Tommy Oliver (interpretado pelo finado Jason David Frank e dublado no Brasil por Reinaldo Buzzoni nas duas primeiras temporadas e Jorge Lucas nas temporadas subsequentes) no seriado.

Mas antes de entrarmos em maiores detalhes sobre o caso Dan Schneider, um pouco sobre a história da Nickelodeon para melhor contextualização da história.

A história da Nickelodeon começa ainda nos anos 1970, mais precisamente no dia 1º de dezembro de 1977. Em um primeiro momento a Nickelodeon foi parte da grade de programação da Qube Network, um dos primeiros sistemas de televisão a cabo resultado de parceria entre as empresas Warner Communications e a American Express, disponível para 600 mil assinantes da cidade de Columbus (Ohio). Seus primeiros programas, voltados ao público infanto-juvenil, eram desenhos como Video Comic Book, America Goes Bananaz, Nickel Flicks e By the Way, os quais faziam parte do Pinwheel (nome inicial do canal), show apresentado por um homem e várias marionetes.

Entretanto, apenas no dia 1º de abril de 1979 é que a Nickelodeon virou um canal próprio e disponível em outras partes dos Estados Unidos. Fundada pela educadora e executiva de televisão Vivian Horner, a Nickelodeon à época era o único canal a cabo com programação totalmente voltada ao público infanto-juvenil.

Nos anos subsequentes, a Nickelodeon não apenas passa a distribuir seu sinal para outras partes do globo (incluindo o Brasil a partir de 1996), como também passa a se destacar na produção de desenhos animados e sitcons. Entre eles desenhos famosos como a vida moderna de Rocko, Doug, Hey Arnold!, Ren e Stimpy, os Padrinhos Mágicos, Rugrats (lançado no Brasil com o título de Os anjinhos), Rocket Power, Os Thornberrys, Ginger e Bob Esponja e sitcons como Clarissa sabe tudo (originalmente Clarissa Explains it All), Kenan e Kel, show da Amanda, Manual de Sobrevivência escolar do Ned e tantos outros, os quais obtiveram grande sucesso nos anos 1990 e 2000.

Foto – Vivian Horner (1934 – 2022), a fundadora da Nickelodeon.

Uma das marcas registradas dos programas da Nickelodeon, incluindo até mesmo premiações como o Kids Choice Award e o Meus Prêmios Nick, é a presença periódica de um líquido verde e viscoso chamado slime. O slime é feito a partir de uma mistura de pudim de baunilha, purê de maçã, corante alimentício verde e um pouco de aveia. Apareceu pela primeira vez no programa “You can’t do that on Television”, nos idos de 1979.

Geralmente, o banho de slime se dava em programas de game show como forma de “punição divertida” e em premiações nas quais celebridades, geralmente vencedores de um prêmio, eram “meladas”. E com o tempo, o slime se tornou parte da identidade do canal.

Foto – banho de slime no programa “You can’t do that on Television”.

Um dos principais produtores de conteúdo da Nickelodeon em sua época áurea (ou seja, anos 1990 e 2000) é Dan Schneider.

Nascido em Memphis no dia 14 de janeiro de 1966, Dan Schneider (nascido Daniel James Schneider) cresceu em Nova York, no bairro do Queens, após ser adotado por uma família de classe baixa-média. Em 1980, Schneider inicia sua carreira, com participações em filmes como Making the Grade, Better Off Dead e The Big Picture (lançado como A Grande Comédia no Brasil). Em 1994 começa a trabalhar para a Nickelodeon, não como ator, mas como roteirista e produtor de seriados.

Durante muito tempo Dan Schneider trabalhou para a Nickelodeon por meio de sua empresa associada Schneider’s Bakery, e foi a mente por trás de muitos dos sitcons de sucesso do canal, entre eles Kenan e Kel, o show da Amanda, Drake e Josh, Zoey 101, iCarly, Victorious (lançado como Brilhante Vitória no Brasil), Sam e Cat (spin-off de iCarly e Victorious) e Henry Danger.

Foto – Dan Schneider (ao centro).

Os anos 1990 e 2000 foi a época na qual Disney e Nickelodeon travaram uma intensa briga pela audiência infanto-juvenil norte-americana. Cada uma com diferentes abordagens. Enquanto que a Disney adotava um estilo mais focado em emoção, fantasia e magia, uma coisa mais família, a Nickelodeon já tinha um estilo mais, digamos, caótico e cômico, voltado para situações absurdas.

A Disney com desenhos animados como Phineas e Ferb, sitcons como Zack e Cody, as visões da Raven, Lizzie McGuire, Hannah Montana e os feiticeiros de Waverly Place e filmes de sucesso como High School Musical e Camp Rock, lançou estrelas como Raven Simoné, Hillary Duff, Miley Cyrus, Demi Lovato e Selena Gomez. E a Nickelodeon idem, lançou estrelas tais como Amanda Bynes, Miranda Cosgrove, Victoria Justice, Ariana Grande, Daniella Monet e tantas outras. Dessas, apenas Ariana Grande (a qual participou primeiro de Victorious e depois de Sam e Cat) teve grande sucesso no mundo do showbusiness após o fim de sua passagem pela Nickelodeon (ao passo que as estrelas da Disney se saíram bem melhor nesse quesito).

Não raro, as duas empresas trocavam alfinetadas entre si por meio dos programas. Vide o episódio de iCarly “iTake on Dingo”, o episódio 21 da segunda temporada. No episódio em questão, Carly e Sam descobrem que o programa Totalmente Teri, do Dingo Channel, está plagiando as ideias do iCarly. A dupla vai a Hollywood para tentar convencer os produtores do programa a pararem com o plágio, enquanto que Freddy e Spencer decidem provar a veracidade da história de que a cabeça do fundador do canal, Charles Dingo, está congelada nos fundos do estúdio (clara alusão à lenda urbana de que Walt Disney foi congelado criogenicamente na Disneylândia debaixo de uma das atrações). O canal em questão é uma clara paródia do Disney Channel, e Totalmente Teri é claramente uma alusão a Sunny entre estrelas (originalmente Sunny with a choice), sitcom da Disney estrelado por Demi Lovato produzido entre 2009 a 2011 e que aproveitou a ideia original do iCarly, de uma garota que passa a apresentar seu programa televisivo favorito (depois modificada para um web show).

Há um ditado que diz que onde há luz há escuridão, e Dan Schneider não era a exceção que confirma a regra. Embora fosse um roteirista talentoso e tenha emplacado sucessos um atrás do outro como produtor, Dan Schneider tinha seu lado problemático nos bastidores. O que veio à tona em massa principalmente a partir de 2018, durante a explosão do movimento #MeToo. Polêmicas e controvérsias envolvendo Dan Schneider e o ambiente de trabalho dos sitcons que ele mesmo escreveu emergiram.

E, para piorar ainda mais as coisas para o lado dele, em 2024 saiu o documentário “Quiet on Set: the Dark Side of Kids TV (Calado no set: o lado sombrio da TV infantil)”, pelo canal Discovery ID, com cinco episódios ao todo e que contou com a participação de artistas e funcionários que participaram dos sitcons, entre eles Drake Bell (o Drake de Drake e Josh) e Alexa Nikolas (a Nicole de Zoey 101).

Nesse documentário, notou-se uma série de vídeos virais que mostram cenas inadequadas de programas produzidos por Dan Schneider. Entre elas, cenas de mensagens subliminares envolvendo podolatria (fetiche por pés), práticas sugestivas à ejaculação e até mesmo assédio sexual nos programas de Schneider. Boa parte dessas cenas envolvem Ariana Grande, entre elas cenas do episódio “Sobrevivendo ao calor” (originalmente “Survival of the Hottest” - título bem sugestivo e de duplo sentido, a propósito, que a dublagem brasileira do sitcom tratou de dar uma alterada, e com razão), o oitavo episódio da primeira temporada de Victorious, que se passa em uma das praias de Los Angeles. Detalhe: quando Victorious começou, nos idos de 2010, Ariana Grande tinha apenas 17 anos.

Além disso, Schneider dava festas na piscina de sua casa e chamava as atrizes dos programas, à época menores de idade, sem o consentimento dos pais delas.

Uma das controvérsias envolvendo o nome de Dan Schneider gira em torna de Jamie Lynn Spears, irmã mais nova de Britney Spears. Jamie foi a protagonista de um dos sitcons da Nickelodeon da época, Zoey 101, produzido entre 2005 a 2008. Em 2007, já no final da produção do sitcom, Jamie anunciou que estava grávida de uma menina. Detalhe: ela tinha apenas 16 anos de idade à época. Jamie sempre sustentou que o pai de sua filha, que ganhou o nome de Maddie Briann, é o namorado dela da época. Mas há quem acredite que o pai do filho de Jamie Lynn seja na verdade o próprio Dan Schneider.

Foto – Jamie Lynn Spears.

Antes mesmo do caso envolvendo Jamie Lynn Spears, houve o caso envolvendo a atriz Amanda Bynes. Amanda Bynes foi a protagonista do sitcom que leva seu próprio nome, o Show da Amanda, produzido entre 1999 a 2002, além de ter feito participações no seriado All That na mesma época. Quando o show da Amanda, um dos programas de maior audiência da Nickelodeon à época, teve início, ela ainda tinha apenas 13 anos.

Circulam vídeos nos quais pode-se ver uma Amanda Bynes em trajes de banho ainda bem novinha dividindo uma jacuzzi com Dan Schneider totalmente vestido. Algo no mínimo bem inapropriado, diga-se de passagem, um homem já adulto (e ainda por cima obeso) tendo esse tipo de relação com uma menor de idade.

Após o fim da série, ela se afastou da Nickelodeon, passou a fazer filmes voltados ao público infanto-juvenil, até encerrar a carreira em 2010. Passou a enfrentar problemas com drogas e álcool, a está irreconhecível em relação ao começo de sua carreira e lida com questões de saúde mental.

Foto – Amanda Bynes ontem (esquerda) e hoje (direita).

Outro ponto polêmico envolvendo Dan Schneider diz respeito à atriz Jenette Faye McCurdy, que interpretou a Sam Puckett em iCarly e Sam e Cat. A personagem de McCurdy fez muito sucesso no seriado, virou uma das favoritas do público. A tal ponto que boa parte do fandom do sitcom “shippa” a Sam (que no Brasil ganhou a voz de Ana Lúcia Menezes, finada em 2021) com o Freddy (interpretado por Nathan Kress e dublado no Brasil por Luciano Amaral), o cameraman do sitcom.

Em 2021, bem no meio da pandemia de Covid, saiu o revival de iCarly. Todo o elenco original voltou para o seriado. Novas temporadas foram feitas, agora mostrando os personagens mais velhos. Bom, na verdade, quase todo o elenco voltou. McCurdy não participou do revival de iCarly.

Em 2022 McCurdy lançou um livro, que no Brasil foi lançado sob o título “Estou feliz que minha mãe morreu”. No livro em questão, McCurdy relata algumas situações que viveu nos bastidores de iCarly e Sam e Cat, mas sem citar diretamente o nome de San Schneider. Este é sempre referido como “o criador” no livro. Ela cita uma tentativa de acordo feita pela emissora norte-americana em receber US$ 300 mil para não contar as suas experiências e que o próprio produtor, junto com a mãe de McCurdy (finada desde 2013 e com a qual ela tinha um relacionamento bem complicado), incentivaram-na a comer de forma exagerada, no que a fez desenvolver uma anorexia nervosa.

Foto – Jenette Faye McCurdy.

Há ainda outros casos, que envolvem Drake Bell, Alexa Nikolas, Erin Sanders (a Quinn de Zoey 101) e outras figuras que trabalharam na Nickelodeon ao longo dos anos, sobre os quais não irei me aprofundar para não me alongar muito.

Mas nem tudo é espinhos nessa história toda. Algo digno de nota é o papel que o ator Jerry Trainor, o intérprete de Spencer em iCarly, desempenhou nos bastidores do seriado. Trainor era o único adulto do elenco principal de iCarly quando as filmagens do sitcom se iniciaram, e vídeos de bastidores mostram o intérprete de Spencer exercendo um papel de protetor para com os atores mais novos do elenco. Frequentemente rechaçando eventuais investidas de Schneider para cima dos atores mais jovens do elenco, ou mesmo pedindo para o pessoal ir embora após o fim das filmagens.

Papel análogo ao de Jerry Trainor em iCarly exerceu anos depois o ator Cooper Barnes (o Capitão Man de Henry Danger). Há um vídeo no qual ele pede para que dois dos produtores do seriado fechem os zíperes, visto que estavam trabalhando em um programa para crianças.

Atualmente, Schneider não trabalha mais para a Nickelodeon. Visto que em 2018 ele se desligou da Nickelodeon por conta das polêmicas e controvérsias em torno dele. Em sua defesa, Schneider nega as acusações a ele imputadas no documentário, embora confesse que tenha feito coisas inapropriadas enquanto trabalhou para a Nickelodeon.

Cereja do bolo: em entrevista, Orlando Brown (o qual participou de as visões da Raven no papel de Eddie) afirmou que o verdadeiro dono da Nickelodeon era ninguém menos que... Jeffrey Epstein! Na mesma entrevista, Brown também afirmou que Puff Daddy era parte de um grupo ainda maior e mais sinistro de predadores sexuais de Hollywood, os quais geralmente voltam seus olhos a jovens artistas em ascensão.


Ao mesmo tempo, também surgiram teorias (um tanto quanto viajadas) de que o formato da ilha de Epstein é o mesmo formato do logo da Nickelodeon.

Foto – Ilha Epstein (esquerda) e logo da Nickelodeon (direita).

Se Orlando Brown disse isso em tom de piada, ou se é algo com algum fundo de verdade, é difícil saber. Mas o fato é que isso ajuda a mostrar, como venho ressaltando, que o caso Epstein não surge do nada e que, de alguma forma, está relacionado com outros casos similares como o de Puff Daddy, o da Nickelodeon, o de Harvey Weinstein, o de R. Kelly e outros tantos, nos quais a nata da política e do mundo empresarial e artístico norte-americano está envolvida até o pescoço.

E é bem razoável supor e imaginar, por exemplo, que Epstein e Puff Daddy tenham tido aliciadores em comum em seus esquemas de tráfico sexual. E ainda mais sabendo da podridão que é Hollywood, por trás de todo o glamour, todas as premiações, todo o luxo e todos os tapetes vermelhos. Como diz o velho ditado, onde há luz há escuridão. E é para desviar a atenção do caso Epstein que EUA e Israel hoje movem a guerra contra a República Islâmica do Irã.

NOTAS:


[1] Espada de lâmina curvada e ondulada, típica do Sudeste Asiático.

[2] Para quem não sabe, Schneider em alemão significa alfaiate.