Foto – Jeffrey Epstein (1953 – 2019).
Uma sombra paira sobre a Casa Branca. E essa sombra tem nome: o finado Jeffrey Epstein.
O caso Epstein envolve políticos graúdos dos Estados Unidos,
e tanto Republicanos quanto Democratas nele estão envolvidos até o pescoço. E
se pensam que a coisa se resume aos Estados Unidos, muito enganados estão.
Altos figurões da política israelense e da realeza europeia também tiveram seus
envolvimentos com Epstein, finado desde 2019 e cuja morte até hoje é objeto de
controvérsia. Teria ele de fato tirado a própria vida, ou fizeram uma operação
de queima de arquivo para cima dele?
O fato é que no presente momento os EUA movem uma guerra
contra o Irã em parceria com Israel. Por conta dos bombardeios, veio a óbito o
aiatolá Ali Khamenei, presidente da República Islâmica do Irã entre 1981 a 1989
e desde 1989 líder espiritual da nação persa, assim como outros membros de sua
família, incluindo a esposa, filhos, . O filho de Ali Khamenei, Modžtaba Hosseini
Khamenei, foi eleito para suceder o pai no posto de líder espiritual do Irã. Além disso, a nação persa desistiu de participar da Copa do Mundo do presente ano.
Dado o timing dos eventos, a guerra contra o Irã está
sendo claramente usada para desviar a atenção do caso Epstein, da mesma forma
que em 1999 Bill Clinton (talvez, não por acaso, um dos muitos políticos hoje
envolvidos no caso Epstein) usou a guerra de 78 dias contra a Iugoslávia para
desviar a atenção do caso Monica Lewinsky. Dessa forma podemos muito bem chamar
a atual guerra contra o Irã de a guerra Epstein.
Entretanto, algo muito importante deve ser dito: o caso
Epstein não surgiu do nada. Pelo contrário, ele surge em um contexto maior de
falência moral do mundo político e artístico norte-americano, junto com outros
casos similares. Sobre os quais iremos falar mais adiante.
Historicamente, se tem um meio pelo qual os Estados Unidos
têm se utilizado para se projetar para o resto do mundo é o cinema de
Hollywood. Da mesma forma que, por exemplo, a França fazia o mesmo por meio da
moda e da literatura, o México por meio das novelas e programas humorísticos,
Hong Kong por meio dos filmes de artes marciais (estrelados por figuras como
Bruce Lee, Jet Li e Jackie Chan), o Japão por meio dos animes, mangás e
seriados tokusatsu, o Brasil por meio do futebol e das novelas, e mais
recentemente a Turquia por meio das novelas e a Coréia do Sul por meio dos
doramas e k-pop. É o chamado soft power, algo sobre o qual Ariano Suassuna explica
em uma palestra datada dos anos 2000.
Toda a fantasia, todo o glamour que Hollywood e o mundo do show business vendem, tudo isso está ruindo por conta de uma série de escândalos, entre eles os casos Jeffrey Epstein e Puff Daddy. O véu de Maya foi rasgado. É o reino da Dinamarca mostrando as suas vísceras em alto grau de apodrecimento, parafraseando Shakespeare em sua obra Hamlet.
Comecemos pelo caso Puff Daddy.
O caso em questão estourou no segundo semestre de 2023, e
diz respeito ao rapper e produtor musical novaiorquino Sean Combs, também
conhecido pelas alcunhas de Puff Daddy e P.Diddy. Ou simplesmente Diddy.
Foto – Sean Combs, vulgo Puff Daddy/P.Diddy.
Recapitulemos um pouco da história de Combs. Oriundo do
Harlem, tradicional bairro novaiorquino cuja história remonta aos tempos da
Nova Amsterdam, Combs tem uma longa história não só como organizador de
eventos, como também dentro do mundo da música.
Sua história como organizador de eventos começa no dia 28 de
dezembro de 1991, quando ele organizou um jogo de basquete beneficente no City
College de Nova York em parceria com Heavy D. O ginásio tinha capacidade máxima
para 2730 pessoas. Só que algo deu muito errado nisso: cerca de 5000 pessoas
tentaram entrar no local, no que ocasionou uma debandada que terminou com 9
mortos e 29 feridos.
Em 1993 Puff funda a gravadora Bad Boy Records, e por meio
da Bad Boy Records lançou artistas como Usher, Mary J. Blige e Christopher
George Latore Wallace, este último também conhecido como Biggie Smalls e The Notorious
B. I. G. Nessa mesma época, o mundo do rap foi sacudido pela crescente
rivalidade entre as costas leste e oeste. Mais precisamente entre Califórnia e
Nova York, os principais cenários do rap e hip hop nos EUA à época.
Foto – Costa Leste x Costa Oeste.
À frente dessa guerra estavam duas gravadoras: a Bad Boy
Records, liderada por Sean Combs e sediada em Nova York, e a Death Row Records,
encabeçada por Suge Knight e sediada em Los Angeles. Episódio emblemático dessa
contenda foi a premiação do Source Music Awards, ocorrida em Nova York no
Paramount Theather, no dia 3 de agosto de 1995. No qual os artistas da costa
oeste, entre eles Suge Knight e Snoop Dog, foram vaiados pela plateia.
Um dos principais artistas, se não o principal, da Death Row Records à época era Tupac Shakur (vulgo Lesane Parish Crooks). Novaiorquino de nascença, Tupac Shakur (também conhecido 2Pac) em um primeiro momento era amigo de Biggie Smalls. Sempre que ia à Califórnia Biggie dormia no sofá da casa de Tupac (à época já um cantor de certo renome e já tendo atuado em alguns filmes), e Tupac, por seu turno, quando ia a Nova York ia se encontrar com Biggie. Para Biggie, Tupac exerceu um papel de mentor musical à época.
Mas um incidente veio a azedar de forma irremediável a
relação entre os dois: o incidente no estúdio Quad, ocorrido no dia 30 de
novembro de 1994. Tupac foi emboscado e baleado, e em fevereiro de 1995 foi
preso por conta do incidente de abuso sexual envolvendo Ayanna Jackson dois anos antes. Apenas
em outubro do mesmo ano que Tupac saiu da cadeia mediante fiança paga por Suge
Knight.
Foto – Suge Knight.
Tupac passou a acreditar que Biggie e Puff tiveram alguma
relação com o incidente, que eles sabiam de algo e não fizeram nada para
impedir o ocorrido, e para jogar ainda mais lenha na fogueira Biggie lança em
1995 a música “Who Shot Ya?”. Dado o timing infeliz, Tupac achou que a música
em questão era para ele, zombando dele por ele ter sido baleado e em seguida
preso.
Em resposta, Tupac lançou a música “Hit em’ Up”, uma diss track (tipo de música feita para insultar e/ou expor outro artista) destinada especialmente a Biggie e Puff Daddy. No clipe de Hit em’ Up Biggie e Puff são interpretados por sósias (prática muito comum do rap da época).
Tupac também caçoa de Biggie e Puff na música “2 of Americaz most wanted”, do álbum “All eyez on me”, em parceria com Snoop Dog. No clipe dessa música também vemos Biggie e Puff sendo vividos por sósias.
A tensão entre as costas com o passar do tempo foi se elevando, e era questão de tempo uma tragédia ocorrer.
No dia 7 de setembro de 1996, após voltar de uma luta de
Mike Tyson (amigo pessoal de Tupac) no MGM Grand Arena, Tupac, acompanhado de
Suge Knight, foi baleado nas ruas de Las Vegas. Os tiros vieram de um carro que
o seguiu. Tupac tomou quatro tiros, foi hospitalizado, mas dada a gravidade de
seus ferimentos veio a óbito seis dias depois. A mãe dele, a ex-militante do
movimento dos Panteras Negras Afeni Shakur, vendo que estava diante de uma
batalha perdida, resolveu por desligar os aparelhos que o mantinham vivo. Como
não poderia deixar de ser, suspeitas e especulações de que Puff estivesse
envolvido de alguma forma com a morte de Tupac surgiram.
Na madrugada do dia 9 de março do ano seguinte, foi a vez de
Biggie (o qual estava para lançar seu segundo disco, Life After Death) nos
deixar. Após voltar de uma festa organizada pela revista Vibe no Petersen
Automotive Museum, ele foi baleado nas ruas de Los Angeles, quando o carro em
que Biggie estava parou em um semáforo e tiros saíram de um carro Chevrolet Impala
SS. Biggie tomou quatro tiros, foi levado às pressas ao hospital, e meia hora
após ser hospitalizado foi declarado morto. E assim as duas maiores lendas da
história do rap nos deixaram, de forma inglória e trágica, antes mesmo de
completarem 30 anos de idade.
Foto – Tupac Shakur (direita) e Biggie Smalls (esquerda).
Tupac e Biggie deixaram este mundo, assim como tantos outros
rappers que vieram a morrer em circunstâncias similares nos anos seguintes,
tais como Fat Pat, Big L, DJ Uncle Al, Big Hawk (irmão mais velho de Fat Pat) e
tantos outros (ainda que em situações sem relação direta com a guerra das
costas). Assim como os casos de Tupac e Biggie, muitos desses casos continuam
sem solução até hoje.
A Death Row Records faliu em 2008 e Suge Knight, por seu
turno, foi preso em 2018 por homicídio culposo voluntário em um atropelamento fatal
ocorrido três anos antes. Foi sentenciado a 28 anos de prisão e apenas em 2034
terá direito à liberdade condicional.
A mãe de Tupac, Afeni Shakur, nos deixou em 2016, sem que o
caso da morte do filho fosse solucionado. A mãe de Biggie, Voletta Wallace, nos
deixou em 2025, também sem ver solução alguma para o caso da morte do filho.
A cena de rap nos Estados Unidos, nos anos subsequentes, viu
a primazia das costas leste e oeste ser questionada por meio da ascensão de
novas cenas de rap, entre elas a costa sul.
Já Puff, ou se preferirem, o general Combs, no fim das
contas, emergiu como o grande vitorioso da guerra das costas. Ele começou ainda
nos anos 1990 a organizar festas que reuniam a nata do mundo do show business.
Mais precisamente, a partir de 1998.
Entre 1998 a 2009, Puff foi o anfitrião de uma série de
festas conhecidas como as festas brancas. É um tipo de festa, muito comum em
Hollywood, nas quais os presentes vestem trajes brancos, dessa forma não sendo
exclusividade do rapper.
As festas de Puff aconteceram na casa do rapper e produtor
musical em East Hampton, Nova York, ao passo que a festa de 2006 aconteceu em
Saint-Tropez no sul da França e a de 2009, a última delas, em Beverly Hills na
Califórnia. Tais festas geralmente começavam de dia e duravam até as primeiras
horas do dia seguinte, sendo patrocinados por marcas importantes que
distribuíam mercadorias e produtos. Importantes celebridades, entre elas Paris
Hilton, Justin Bieber, Mariah Carey, Usher, Leonardo di Caprio, Rihanna, Nick
Minaj, as irmãs Kardashian, Ashton Kutcher, Will Smith, Naomi Campbell, Kanye
West, Jay-Z e Beyoncé compareceram a tais festas. Jornalistas como Oprah
Winfrey, atletas como Lebron James e Tiger Woods, políticos graúdos como Barack
Obama, Hillary Clinton e Donald Trump e membros da realeza como o príncipe
Harry também marcaram presença nessas festas.
Festa – Foto da primeira festa branca de Puff, datada de 1998. Leonardo di Caprio no centro.
Só que as festas de Puff Daddy, por trás de todo o luxo e o
glamour por ele vendido, também tinham seu lado sombrio.
Narcóticos rolavam soltos nelas, assim como violência
física, intercursos sexuais sem consentimento de uma das partes. Tudo isso
regado a uma substância conhecida como óleo de bebê. Cerca de 1000 frascos
dessa substância foram encontrados em uma batida policial feita na mansão de
Puff em 2024. Em outras palavras, as festas de Puff Daddy era um verdadeiro
bacanal. E a coisa não para por aí: filmagens eram feitas dos atuais sexuais
que ocorriam nas festas. E com essas filmagens em mãos, Puff tinha um meio de
chantagem em mãos, verdadeira carta na manga muito útil para eventuais
complicações judiciais.
A fama das festas organizadas por Puff era tal que não
passava despercebida. Haja vista, por exemplo, o filme “As branquelas”
(originalmente White Chicks), estrelado pelos irmãos Shawn e Marlon Wayans. Há
uma cena na qual o personagem de Marlon Wayans, se passando por uma mulher
chamada Tiffany Wilson, é leiloado e diz que não ir a um encontro com um homem
chamado Buff Daddy. Lembrando, a propósito, que no clipe da música “2 of
Americaz most wanted” Tupac chama Puff de Buff, Biggie de Piggie e Faith Evans
(esposa de Biggie e mãe dos dois filhos dele) de Paith.
Há um episódio de South Park, o episódio 11 da temporada 10, “Inferno na Terra 2006”, em que as festas dele são citadas. Nesse mesmo episódio, Biggie aparece como espécie de alma penada que é invocada sempre que o nome dele é dito três vezes em frente a um espelho.
As festas de Puff Daddy também aparecem em um episódio de
Simpsons, o episódio 12 da temporada 28, intitulado “O grande Phatsby” e lançado
em 2017. Phatsby é uma clara alusão ao personagem literário Gatsby, da obra “O
grande Gatsby”, escrita por Francis Scott Fitzgerald e lançada em 1925. Na obra
Gatsby é um bilionário conhecido por suas festas animadas e extravagantes que
ele mesmo dava em sua mansão em Long Island. Ou seja, tudo a ver com Puff
Daddy. Posteriormente, a obra de Fitzgerald ganhou várias adaptações para
cinema, incluindo os filmes de 1926, 1949, 1974, 2000 e 2013 (este último com
participação de Leonardo DiCaprio).
Foto – Mariah Carey (esquerda) e Puff Daddy (direita).
Em 2003, Puff adquire propriedades em Star Island em Miami,
e 11 anos depois propriedade em Los Angeles. Mais precisamente, uma mansão em
Holmby Hills, avaliada à época em US$ 40 milhões. Isso à primeira vista pode
parecer algo anedótico e até irrelevante, sendo que na verdade possui grande
significado do ponto de vista simbólico. Visto que Puff passou a morar na mesma
Los Angeles na qual Biggie foi morto 17 anos antes e que era a sede da já
finada Death Row na época da guerra das costas. Era como se Puff, como um
general vencedor de uma guerra, tivesse hasteado seus estandartes no território
do inimigo vencido, ainda que um tanto quanto tardiamente. E tão logo marcou
terreno em Los Angeles, começou a dar festas em sua nova propriedade, algo certamente
impensável nos anos 1990.
Só que chegou 2023 e o general Combs viria a enfrentar uma
nova guerra. Uma guerra bem diferente daquela que ele estava acostumado. Se nos
anos 1990 o general Combs comandou as hostes da Bad Boy Records em batalhas
campais contra um adversário bem definido, no caso as hostes da Death Row
Records, agora ele se viu diante de um novo tipo de guerra, a guerra de
tribunal. Uma guerra de caráter assimétrico na qual teria de enfrentar juízes,
promotores, advogados de acusação, acusadora e de brinde a justiça dos homens. A
narrativa já não está mais do seu lado e o cerco estava definitivamente se
fechando contra Puff. O jogo virou – o conquistador de outrora agora precisa
defender suas conquistas.
No final de 2023 a cantora Cassie Ventura, namorada de Combs
por muitos anos, o denunciou à justiça. Ela formalizou acusações de agressão
sexual contra o produtor musical e rapper. Ventura também acusou Puff de
forçá-la a ter relações com outros homens durante vários anos. Batidas
policiais foram feitas nas propriedades de Puff em Nova York, Miami e Los
Angeles.
Em maio de 2024, um vídeo que mostrava Puff agredindo a
cantora foi divulgado, o que levou a um processo resolvido fora do tribunal.
Entretanto, essa situação desencadeou uma série de novas denúncias de agressão
sexual, gerando assim investigações adicionais sobre Puff.
Em 16 de setembro de 2024 Puff foi preso, e sobre ele
pesaram acusações graves: tráfico sexual, extorsão, conspiração e transporte
para fins de prostituição. Diddy declarou-se inocente, mas teve pedido de
fiança negado. Visto que o tribunal destacou seu histórico de abuso de
substâncias e acessos de fúria como riscos à sociedade.
No julgamento que se seguiu, Puff foi inocentado das
acusações mais graves de sexual e racketeering (ser o chefe de uma associação
criminosa), mas foi condenado por transporte para engajamento em prostituição. Ao
fim do processo foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão. Hoje amarga
prisão no Metropolitan Detetion Center, em Nova York.
Triste fim de Puff Daddy. Teve um começo humilde no Harlem,
em Nova York. Ascendeu socialmente, tornou-se um dos homens mais bem
relacionados do mundo do show business, lançou vários artistas, tornou-se
anfitrião de festas extravagantes, mas ao ascender socialmente parece-me que
ele se esqueceu de onde veio. E é bem razoável supor que os grão-finos do mundo
do showbusiness certamente não o aceitavam no círculo deles, no máximo o
toleravam e o olhavam com desdém e de cima para baixo por conta da origem
humilde e por ele mesmo ser negro em um dos países mais racistas do mundo. E agora está preso na mesma Nova York de onde veio.
Puff Daddy foi preso. E uma série de perguntas fica no ar: e
as celebridades que nesse tempo todo estiveram envolvidas com o rapper, como
será que ficam? Elas vão sofrer alguma represália ou será que Puff no fim das
contas vai virar o boi de piranha conveniente ao sistema? E será que Puff,
assim como Epstein, na verdade era apenas a ponta do iceberg do sistema em
questão, ou seja, a face visível do mesmo?
Foto – Puff Daddy (direita) e Cassie Ventura (esquerda).























