quarta-feira, 21 de outubro de 2026

As eleições 2026 e o vespeiro polonês - ou da Polônia como Cristo da Europa (parte II)

 

Foto – Brasileiras fazendo o L em Varsóvia.

Em regiões do interior do Brasil como o Pantanal e o Cerrado, os vaqueiros locais, quando precisam atravessar um rio infestado de piranhas, sacrificam um boi velho ou doente para ser devorado pelas piranhas ao mesmo tempo em que o resto do rebanho atravessa o rio ileso. Disso surgiu a expressão boi de piranha, muito usada para se referir a um indivíduo que em determinada situação é escolhido para levar a culpa pelo erro de todo um grupo e/ou blindar figuras mais importantes. Essa é a manobra que, no presente momento, está sendo feita com Keffe D em relação ao assassinato de Tupac Shakur, ocorrido em 1996, e que foi feita com o Doutor Conrad Murray no caso da morte de Michael Jackson, ocorrida em 2009.

E a coisa não para por aí – o que hoje é feito na Europa oriental por meio das leis de proibição do nazismo e do comunismo, a mesma lei que Tarczyński usou para justificar uma eventual deportação das duas brasileiras da Polônia, é precisamente isso: sacrificam Hitler, Goebbels, Göring, Rudolf Hess, Alfred Rosenberg e companhia limitada às piranhas, ao mesmo tempo em que aqueles que flertaram e colaboraram com Hitler tanto antes quanto durante a guerra atravessam o rio ilesos.

Em outras palavras, essas leis nada mais são que mecanismos de blindagem. No caso específico da Polônia, proíbe-se nazismo e comunismo para blindar a já citada Segunda República Polonesa. A mesma Segunda República Polonesa, existente entre 1918 a 1939, que, entre outras coisas, conchavou com Hitler, fez acordo de não-agressão com o Terceiro Reich ainda em 1934 (ou seja, meia década antes do acordo Molotov-Ribbentrop) e em 1938 participou da partilha da Tchecoslováquia, tomando para si a região de Zaolzie (área fronteiriça entre a Polônia e a atual República Tcheca, em disputa entre os dois países à época). E que Churchill classificou como a hiena sedenta da Europa.

E a coisa não para por ai – o mesmo Partido Lei e Justiça que hoje pede a expulsão das duas brasileiras por suposta apologia do comunismo promoveu a controversa reabilitação de grupos armados ultranacionalistas que flertaram abertamente com a Alemanha nazista no final da guerra, como é o caso da brigada Świętokrzyska (fração das Forças Armadas Nacionais, de orientação ultranacionalista e abertamente anti-semita), que combateu os partisans comunistas e assinou um pacto de não-agressão e trégua com as forças alemãs em 1944, tendo recebido suprimentos da Wehrmacht para recuar com eles diante do avanço soviético. Em 2018, o então primeiro-ministro do PiS, Mateusz Morawiecki [1], chocou a comunidade internacional ao visitar formalmente e depositar flores nos túmulos dos combatentes dessa brigada em Munique, tratando-a como uma unidade que colaborou taticamente com os nazistas como “heróis nacionais”.

Nos países bálticos, blinda-se os regimes filo-fascistas que lá existiam antes de 1940, tais como o regime de Antanas Smetona na Lituânia, o regime de Karlis Ulmanis na Letônia e o regime de Konstantin Päts na Estônia, e ao mesmo tempo colaboradores de nazistas (os quais chegaram a formar legiões de voluntários dentro da Waffen SS) como o lituano Jonas Noreika e os irmãos da floresta são alçados à condição de heróis nacionais. Na Estônia e na Letônia, periódicos desfiles de veteranos das divisões locais da Waffen SS ocorrem, vide o caso da “Marcha dos Veteranos La Legião Letã” que ocorre anualmente em 16 de março no centro de Riga.

Na Ucrânia, a mesma Ucrânia que desde a queda de Janukovič em 2014 e o golpe do Euromaidan vem promovendo limpeza étnica de sua população étnica russa do leste e do sul (em especial no Donbass), figuras como Stepan Bandera, Andrij Melnik e Roman Šukhevič passam a ser glorificados como heróis da nação a partir da Revolução Laranja de 2004. Figuras essas que colaboraram com os nazistas na guerra e após a guerra fugiram em massa ao Ocidente, em especial para a Alemanha e o Canadá.

Sobre a Ucrânia, um parêntese – lembro-me de ter visto certa vez um vídeo do Lorenzo Lazzarotto, do canal História e Fé Católica, em que fala sobre os mártires greco-católicos das repressões soviéticas. Só que há uma parte da história que não é citada: ele fala de um jeito como se Bandera, Melnik, Šukhevič, OUN-UPA, o movimento nacionalista ucraniano, massacre da Igreja de Khatyn, a luta do poder soviético contra os últimos remanescentes da OUN-UPA e grupos afins nas florestas galicianas que se estendeu até os anos 1950, nada disso tivesse existido. Como se setores importantes do clero greco-católico ucraniano também não estivessem envolvidos com o movimento colaboracionista ucraniano com os nazistas até o pescoço.

Em 2018, a Polônia sancionou uma lei por meio da qual qualquer um que ouse falar a respeito, por exemplo, que no Holocausto houve colaboradores poloneses que ajudaram a entregar e a caçar os judeus, em episódios como o pogrom de Jedwabne (ocorrido em 10 de julho de 1941 na aldeia de mesmo nome), é submetido a três anos de sanções legais. E todos nós sabemos que, sem toda a rede de colaboradores locais que os nazistas arregimentaram ao longo da guerra tanto no leste quanto no oeste e no norte, o holocausto não teria sido possível na escala em que aconteceu.

O fato é que quando se vai falar, por exemplo, no fenômeno nazi-fascista, a tendência é falar praticamente só da Itália de Mussolini, da Alemanha de Hitler e, quando muito, do Japão militarista da era Šowa inicial (1925 – 1989). Ou seja, das principais potências do bloco do Eixo. Sendo que na mesma época haviam outros regimes autoritários no Leste Europeu que se formaram no período entreguerras, como as já citadas Segunda República Polonesa e os regimes fascistóides dos países bálticos. Todos eles na área designada pela Inglaterra e pela França como o Cordão Sanitário de contenção da União Soviética ainda no período entreguerras (1918 – 1939).

E o próprio bloco do eixo também tinha suas potências menores. Como é o caso da Hungria de Miklós Horthy, da Croácia de Ante Paveliċ [2], da Romênia de Ion Antonescu, da Eslováquia do padre Jozef Tizo e da Finlândia de Mannerheim. Tanto que quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, em 1942, rompeu relações com esses países todos.

E a coisa não para por aí – quando a Alemanha nazista iniciou seu avanço pela Europa, ela foi arregimentando colaboradores por onde passava. Regimes colaboracionistas surgiram, como o de Vichy na França encabeçado pelo general Pétain e o de Vidkun Quisling na Noruega. Legiões de voluntários franceses, holandeses, belgas, noruegueses, dinamarqueses, espanhóis, gregos, eslovenos, bósnios, sérvios e croatas surgiram dentro das fileiras da Waffen SS, tais como a Divisão Charlemagne (os últimos soldados que defenderam a chancelaria do Reichstag eram dessa divisão) e a Divisão Wiking.

Quando a Alemanha nazista invadiu a União Soviética (a qual antes mesmo do início da guerra na Europa travou escaramuças fronteiriças com o Japão no Extremo Oriente nas quais saiu-se vitoriosa) em 1941 por meio da Operação Barbarossa, ela não fez isso sozinha. Também contou com o apoio de Hungria, Croácia, Eslováquia, Romênia, Itália e Finlândia mais legiões diversas de colaboradores recrutadas na Europa ocidental e na Península Balcânica.

Tanto é que em pôsteres de propaganda de recrutamento, a Operação Barbarossa era apresentada como o levante da Europa unida contra o chamado “bolchevismo judaico” e como uma cruzada, fazendo clara alusão às cruzadas do norte dos séculos XII a XV contra os povos pagãos e ortodoxos da região do Mar Báltico levadas adiante por ordens militares germânicas como os cavaleiros teutônicos e por reinos escandinavos. E detalhe: pôsteres escritos não em alemão, mas em idiomas como o francês e o holandês.

Foto – Pôsteres de propaganda nazistas de recrutamento para a guerra contra a União Soviética, escritos em holandês e em francês, evocando as cruzadas e a união da Europa contra o chamado “bolchevismo judaico”.

Assim como Napoleão em 1812, Hitler recrutou tropas de toda a Europa para invadir a União Soviética. E conforme a Alemanha nazista foi avançando a leste dos Cárpatos, dentro do território soviético, legiões de colaboradores bálticos, ucranianos, bielorrussos, cossacos e até mesmo russos engrossaram as fileiras das hostes hitleristas.

Entretanto, a União Soviética de Stalin com o tempo virou o jogo, expulsou os nazistas de seu território, em seguida também expulsou os nazistas das áreas por eles ocupados na Europa oriental e, por fim, o exército vermelho hasteou a bandeira vermelha no Reichstag. No Extremo Oriente, tão logo a guerra na Europa chegou ao fim, o Exército Vermelho expulsou as guarnições japonesas da Manchúria, do norte da Coréia, do sul da ilha Sakhalin e das ilhas Kurilas.

Ou seja – o pessoal de direita (seja por cegueira ou desonestidade intelectual) adora dizer por aí, por exemplo, que a Polônia foi vítima do nazismo e do comunismo em 1939, como se a Polônia fosse a vítima inocente da história que não fez nada de errado antes disso. E não falam, por exemplo, que a mesma Polônia flertou com Hitler antes de 1939 e foi junto com a Hungria de Hórthy partícipe da partilha da Tchecoslováquia um ano antes.

Também omitem que nos países bálticos que a União Soviética anexou (e que eram parte do Império Russo antes de 1918) e nos países do Leste Europeu onde a União Soviética estabeleceu repúblicas populares antes lá haviam regimes facistóides que flertaram com Hitler tanto antes quanto durante a guerra, alguns dos quais inclusive foram parceiros da Alemanha nazista durante a Operação Barbarossa. Ou seja, havia uma questão de segurança geoestratégica por parte de Moscou na conquista dos países bálticos e no estabelecimento das repúblicas populares do Leste Europeu presente após o fim da Segunda Guerra Mundial. Para que esses países todos não virassem ponta de lança contra a União Soviética em caso de uma nova invasão vinda do oeste, como ocorreu em 1610, 1812 e 1941. Da mesma forma que hoje a Rússia invade a Ucrânia por motivo parecido e impedir uma eventual entrada da Ucrânia na OTAN.

Foto –pôster de propaganda nazista em norueguês para recrutamento de efetivos para a guerra contra a União Soviética, apelando para a unidade da Europa contra o bolchevismo.

Terminada a guerra, parte desses colaboradores bálticos, poloneses, eslovacos, tchecos, ucranianos, russos, croatas, sérvios e de outras nacionalidades, por meio de rotas de fuga conhecidas como ratlines, logrou fugir e estabeleceu diásporas no Ocidente, em países como a Alemanha ocidental, a França, a Inglaterra, os Estados Unidos, o Canadá e até mesmo países latino-americanos. Tais colaboradores são acolhidos no Ocidente dentro do contexto da Guerra Fria.

Um dos principais torturadores de Pinochet, o hoje presidiário Miguel Krassnoff, chegou ao Chile junto com sua família por meio dessas diásporas. O pai e o avô de Miguel Krassnoff foram colaboradores cossacos dos nazistas na guerra e mortos nas prisões soviéticas depois de tentarem bandear para o Ocidente (episódio dos cossacos de Lienz). Dessa forma, Miguel Krassnoff é também o elo biológico e ideológico do colaboracionismo com os nazistas na Segunda Guerra Mundial com o terrorismo de estado das ditaduras civil-militares da América Latina. O Brasil acolheu o aviador letão Herberts Cukurs [3], envolvido com comando Arajs (unidade envolvida no massacre de judeus letões em episódios como o massacre da floresta de Rumbula) durante a guerra.

Durante a guerra fria, tanto a inteligência soviética quanto a inteligência iugoslava enviam agentes para dar cabo desses colaboradores exilados no Ocidente, como foram os casos dos ucranianos Lev Rebet e Stepan Bandera, ambos mortos em Munique pelo agente soviético Bogdan Stašinskij (que depois bandeou para o lado do Ocidente e cujo destino é até hoje desconhecido).

Com o processo de debacle do bloco soviético e da Iugoslávia a partir dos anos 1980, muitos desses colaboradores em diáspora no Ocidente voltam a seus países natais. E uma vez de volta a seus países de origem, se organizam politicamente e passam a branquear e a reescrever o passado, a reabilitar e a glorificar como heróis colaboradores de nazistas envolvidos até o pescoço no Holocausto como patriotas, heróis da nação e lutadores pela liberdade contra o comunismo. Processo esse similar ao que se viu, por exemplo, no Japão do pós-guerra, em que muitos dos oficiais envolvidos em crimes de guerra (incluindo pessoal envolvido com a Unidade 731) escapam da prisão e depois se tornaram políticos graúdos, entre eles Nobusuke Kiši (avô de Šindzo Abe e primeiro-ministro do Japão entre 1957 a 1960). E na Coréia do Sul os antigos colaboradores coreanos do Japão Imperial se tornando figuras graúdas na política, na economia e na sociedade sul-coreana.

E é precisamente por conta dessa lacuna quanto aos regimes da Europa oriental do período entreguerras no estudo do fenômeno nazi-fascista que as forças políticas que hoje governam países como a Polônia, a Ucrânia e os países bálticos podem promover o branqueamento da história dos heróis deles que eles mesmos promovem. Branqueamento esse não raro feito levado a cabo por institutos de memória nacional, como no caso da Polônia, da Ucrânia e da Lituânia. Ao mesmo tempo, esses países promovem derrubadas de monumentos e estátuas dedicadas a soldados do exército vermelho que lutaram no front oriental contra o nazismo e seus aliados locais.

Já tratei desse assunto em outras oportunidades, vide respostas minhas ao já citado Lorenzo Lazzarotto e a Thiago Braga. Toda a indústria ideológica que emergiu na Europa oriental após o fim do bloco soviético, que em última instância alimenta o ódio para com a Rússia dos dias hodiernos. Ódio esse que inclusive é exportado ao Brasil, vide o caso de grupos e influenciadores de extrema direita católica que possuem suas ligações com países como a Polônia e a Hungria. Alguns desses influenciadores chegam ao ponto de dizer que o fiel católico tem o dever de ser hostil à Rússia por conta do histórico de perseguições à Igreja Greco-Católica Ucraniana tanto no período imperial quanto no império soviético.

E algo que estarrece é o fato de que, em algumas páginas de apologética católica que vi no Facebook, o pessoal que posta esse tipo de conteúdo não se dá conta (ou finge não ver) de que esse tipo de legislação contra o nazismo e o comunismo existente em países da Europa oriental nada mais é que um mecanismo de blindagem de colaboradores de nazistas e regimes fascistóides.

Foto – Postagem da página do Facebook “Abrace a tradição”, listando os países que proibiram a propagação de nazismo e comunismo por lei.

Há um ditado que diz que a história é escrita pelos vencedores. Ou como Máscara da Morte de Câncer diz no episódio 39 de Cavaleiros do Zodíaco, na conversa com Dohko de Libra nos Cinco Picos Antigos: “Por favor, as definições de justiça mudam com o passar do tempo. Isso é uma coisa que a história já provou. O que Ares pretende fazer agora pode ser diabólico, mas vencendo ele será o justo. Ou seja, Mestre, o errado pode se tornar o certo. Se o senhor perder, o injusto passa a ser o senhor. Está entendendo, Mestre Ancião?”.

Como bem pontua Máscara da Morte de Câncer, a história é escrita pelos vencedores. Ou no caso específico dos países da Europa Oriental que hoje reabilitam aqueles que colaboraram e flertaram com Hitler tanto antes quanto durante a guerra, a história é escrita por aqueles que em um primeiro momento foram os perdedores da história, mas que depois de um tempo viraram o jogo e se tornaram os vencedores da história.

Pois bem. Quando as duas brasileiras tiraram foto fazendo o L em Varsóvia e mostrando o broche do PT, não só mexeram no vespeiro do ideário da Polônia enquanto muralha da Cristandade e Cristo da Europa que ela cultiva há séculos, como também pisaram em um campo minado. O campo minado do processo de branqueamento e posterior glorificação daqueles que um dia flertaram e colaboraram com Hitler na Europa oriental tanto antes quanto depois da guerra e agora são pintados como heróis e lutadores pela liberdade pelas forças políticas que hoje governam não só a Polônia, como também na Ucrânia, na Lituânia e em outros países da região, na nova história que pessoas como Andrzej Duda (ex-presidente da Polônia), Dominik Tarczyński, Mateusz Morawiecki, Karol Nawrocki (atual presidente da Polônia), Viktor Juŝenko, Julija Timošenko, Petro Porošenko, Volodymir Zelenskij e outros escrevem e promovem.

E aí eu pergunto – antes de serem depostos, tanto Muammar al-Gaddafi quanto Bašar al-Assad alertaram para o fato de que se as nações européias continuassem a apoiar grupos terroristas salafistas no mundo muçulmano para fins de desestabilização regional, questão de tempo seria o flagelo do terrorismo bater às portas da Europa como se fosse um bumerangue via imigração descontrolada. A história deu razão a eles, vide os recentes ocorridos na Europa ocidental.

Foto – O alerta de Bašar al-Assad em 2013 sobre a exportação do terrorismo para a Europa por meio da imigração ilegal e descontrolada.

O Ocidente “livre e democrático” também vive fazendo vistas grossas para esse fenômeno na Europa oriental. Assim como no caso do mundo muçulmano, questão de tempo será isso chegar à Europa ocidental como se fosse um bumerangue, e por contágio. E nisso aparecendo movimentos pela reabilitação dos colaboradores dos nazistas da Europa ocidental, como o caso do francês Philippe Pétain, do holandês Anton Mussert e do norueguês Vidkun Quisling. No fim das contas, Hitler é o grande boi de piranha da história.

E a marcha do bumerangue não vai parar na Europa ocidental. Também seguirá pelo leste e chegará a países como a Rússia, a China e a Coréia do Norte por meio de movimentos pela reabilitação de figuras como o ataman Pëtr Krasnov e seu filho Semën Krasnov (o avô paterno e o pai do já citado Miguel Krassnoff, respectivamente) e Andrej Vlasov (general do exército vermelho que bandeou para o lado da Alemanha nazista na guerra) na Rússia, Pu Yi (último imperador da China ainda criança e regente do estado fantoche Mančukuo na Manchúria) e Wang Ťinwei (colaborador chinês dos japoneses na época da guerra) na China e os colaboradores coreanos dos japoneses na Coréia do Norte (algo que há muito já ocorreu no sul, diga-se de passagem).

E para quem pensa que isso é problema apenas da Europa, vocês estão muito enganados. Quando vai se falar nas ligações internacionais do clã Bolsonaro, muito se fala nas ligações com os Estados Unidos e Israel, ao mesmo tempo em que as ligações com a Europa oriental, em particular com países como a Hungria, a Polônia e a Ucrânia, são negligenciadas. Pois bem. Eduardo Bolsonaro (vulgo 03), inspirado no modelo ucraniano, tentou trazer para cá essas legislações existentes na Europa oriental por meio do PL 4425/2020 (algo que não passou despercebido pela imprensa russa à época, diga-se de passagem).

Caso um dia o PL 4425/2020 vire lei, isso abrirá espaço para que um dia a esquerda como um todo, por mais moderada que seja, seja criminalizada em território brasileiro sob o pretexto do combate ao comunismo ao mesmo tempo em que personagens das sombras como Carlos Alberto Brilhante Ustra (torturador da ditadura civil-militar brasileira finado em 2015, ao qual Bolsonaro pai dedicou seu voto a favor do impeachment de Dilma), sejam blindados e promovidos ao status de heróis nacionais (e é só lembrarmos que em manifestações da direita brasileira bandeiras rubro-negras alusivas aos grupos de extrema direita ucranianos apareceram).

Foto – Bandeira rubro-negra do Setor de Direita, grupo de extrema direita ucraniano envolvido no golpe do Euromaidan de 2014, em manifestação pró-Bolsonaro. São Paulo, 2020.

Fontes:

A descomunização da Ucrânia e a ascensão do fascismo. Disponível em: https://pcb.org.br/portal2/28593

Antemurale myth (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Antemurale_myth

As tradições religiosas da Polônia. Disponível em: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/LEG_390924_Polonia.htm

Ato do PT em apoio ao sindicato Solidariedade (Polônia) (Local desconhecido, data desconhecida). Crédito: Vera Jursys. Disponível em: https://acervo.fpabramo.org.br/index.php/ato-do-pt-em-apoio-ao-sindicato-solidariedade-polonia-local-desconhecido-data-desconhecida-credito-vera-jursys-8;isad?sf_culture=fr

Christ of Europe (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Christ_of_Europe

Crise ucraniana – os crimes de Stepan Bandera, herói dos nazistas ucranianos. Disponível em: https://apaginavermelha.blogspot.com/2014/06/crise-ucraniana-os-crimes-de-stepan.html

Dossiê – Ato do PT em apoio ao sindicato Solidariedade (Polônia) (Local desconhecido, data desconhecida). Disponível em: https://acervo.fpabramo.org.br/index.php/ato-do-pt-em-apoio-ao-sindicato-solidariedade-polonia-local-desconhecido-data-desconhecida

Eurodeputado que ‘caçou’ brasileiras com símbolos do PT é apoiador de Flávio Bolsonaro e disse que Brasil em breve ‘estará livre de comunistas’. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/10/06/deputado-polones-persegue-brasileiras-por-usar-adesivos-do-pt-entenda-o-caso/

Governo ultranacionalista da Polônia aperta o cerco contra os historiadores do Holocausto. Disponível em: https://brasil.elpais.com/internacional/2021-02-11/governo-ultranacionalista-da-polonia-aperta-o-cerco-contra-os-historiadores-do-holocausto.html

Os milhões enviados da Polônia a conservadores da TFP no Brasil e no mundo. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/28/os-milhoes-enviados-da-polonia-para-radicais-da-tfp-no-brasil-e-pelo-mundo.htm

PL 4425/2020. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2261904

Poland honors wartime group that colaborated with the nazis (em inglês). Disponível em:

https://apnews.com/general-news-9eb9502f00724a50aeb33082ff7ce692

Presidente da Polônia sanciona lei sobre o Holocausto. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/presidente-da-pol%C3%B4nia-ratifica-lei-sobre-holocausto/a-42470330

Pre-war “democratic and peaceful Europe”. Western countries. Disponível em: https://en.topwar.ru/167109-predvoennaja-demokraticheskaja-i-mirnaja-evropa-zapadnye-strany.html

Projeto de Eduardo Bolsonaro quer criminalizar apologia ao comunismo. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/09/02/pl-de-eduardo-bolsonaro-quer-criminalizar-apologia-ao-nazismo-e-comunismo.htm

Relações entre Brasil e Hungria. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%B5es_entre_Brasil_e_Hungria

Сын Болсонару захотел повторить в Бразилии украиснкую декоммунизацию (em russo). Disponível em: https://vz.ru/news/2020/9/2/1058127.html

NOTAS:

[1] Leia-se “Mateush Moravitski”.

[2] Leia-se “Pavelitch”.

[3] Leia-se “Tsukurs”.

domingo, 18 de outubro de 2026

As eleições 2026 e o vespeiro polonês - ou da Polônia enquanto Cristo da Europa (parte I)

 

Foto – Dominik Tarczyński ao lado de 03 (direita).

O eurodeputado Dominik Tarczyński[1], do partido Pis (Pravo i Spravedliwość; Lei e Justiça, na sigla em polonês), acionou e ameaçou deportar duas brasileiras que não só votaram no Lula no primeiro turno das eleições 2026, como também postaram nas redes sociais fotos fazendo o L e mostrando a estrela petista estampada na camisa em outra em redes sociais.

O que dizer dessa história? Primeiro de tudo, que é ridículo (para não dizer absurdo) dizer que o PT é comunista. O PT nunca foi, não é e nunca será comunista. Começa pelo fato de que o Partido dos Trabalhadores, em sua gênese, rejeitava não só as experiências socialistas vistas em países como a União Soviética, a Mongólia, a China, a Coréia do Norte, o Vietnã e a Líbia, como também a tradição trabalhista (que também passava longe de comunismo) de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. Isso a tal ponto que à época Darcy Ribeiro e Brizola classificavam o PT por adjetivos como “UDN de macacão”, “esquerda que a direita gosta” e “galinha que cacareja pela esquerda e bota ovos pela direita”.

Tanto é verdade que ainda no começo dos anos 1980 o PT era simpático à causa do sindicato Solidarność (em polonês Solidariedade) na Polônia, ao passo que outros partidos da esquerda brasileira, como o PCB, olhavam o mesmo Solidarność como contra-revolucionário. Isso a tal ponto que o PT convocou manifestações de rua em apoio ao Solidarność. Ou seja, é até bizarro de se pensar que naquela época o PT, Plínio Correa de Oliveira (intelectual católico e fundador da TFP[2] no Brasil, o mesmo que dá nome ao IPCO [3]) e o pessoal que depois fundou o PiS, o partido de extrema-direita que hoje governa a Polônia e com o qual a família Bolsonaro tem suas ligações, estavam do mesmo lado da barricada, lutando contra o regime da República Popular da Polônia encabeçado pelo marechal Wojciech Jaruzelski [4].

O fato é que historicamente a práxis política do Partido dos Trabalhadores esteve bem mais próxima daquela de partidos social-democratas como o Partido Democrata dos Estados Unidos, o Partido Trabalhista da Inglaterra e o SPD alemão (a chamada terceira via) que dos países do chamado socialismo real.

Brizola, do alto de sua sabedoria e argúcia, disse na entrevista ao Roda Viva, em 1994, o seguinte: que Lula é a espuma da história, que a mente dele está dentro do sistema tal qual Fernando Henrique e as equipes econômicas do tucano e do petista se acotovelavam para executar o mesmo programa econômico, neoliberal. Com FHC vindo por cima e Lula por baixo. Desdobramentos posteriores, como a carta aos brasileiros de 2002 e toda a política econômica dos governos Lula e Dilma, apenas confirmam o diagnóstico de Brizola.

Brizola era um homem que enxergava longe, e já naquela época ele vislumbrou o que viria a ser o petucanismo se formando no horizonte: petistas e tucanos se revezando no poder, administrando a ordem capitalista no Brasil e executando no essencial o mesmo programa econômico (baseado no chamado tripê macroeconômico – metas fiscais de superávit primário, metas fiscais de inflação e câmbio flutuante).

Pode-se dizer que ali o velho caudilho também vislumbrou o papel que o PT teria dentro da governabilidade petucana – o bombeiro do sistema ao qual os donos do poder vão recorrer em tempos de crise, a hora em que a política levada adiante pelos representantes orgânicos deles (como o PSDB e o PMDB) chegar ao seu limite e o perigo de convulsão social massiva estiver no ar (como foi o caso de 2002). A típica manobra de abrir mão dos anéis para preservar os dedos.

Foto – petucanismo: os dois bandos brigando para ver quem melhor serve aos donos do poder. Charge de Latuff datada de 2012.

Segundo o professor Jessé Souza em sua obra “A classe média no espelho”, o que Fernando Henrique Cardoso operou na economia brasileira foi uma espécie de recriação da Primeira República Brasileira (1889 – 1930): em seu afã de “enterrar a era Vargas”, o uspiano fez do estado brasileiro um mero orçamento a ser dividido pela elite do dinheiro, elevou a taxa SELIC a 45%, o real passou a valer o mesmo que o dólar, as funções sociais do Estado foram encolhidas, uso do orçamento para turbinar o setor financeiro com o dinheiro de todos, o endividamento do estado dispara, o processo de desindustrialização do país tem início. O estado brasileiro literalmente se torna o balcão de negócios da Faria Lima, parafraseado Marx.

Consequentemente, surgiram esquemas de corrupção como a Privataria Tucana (estatais como a Companhia Siderúrgica Nacional e a Vale Rio Doce entregues a preço de banana a investidores e especuladores internacionais), Banestado (o maior esquema de evasão de divisas da história do Brasil, por meio do qual cerca de R$ 124 bilhões [valores da época] foram enviados a contas no exterior via contas CC5), mensalão mineiro, Dersa, Rodoanel, Alstom, trensalão, entre outros. Assim como personagens das sombras tais como os doleiros Dario Messer, Nelma Kodama e Alberto Yousseff, Geraldo Brindeiro (engavetador-geral da República da era FHC) e operadores de esquemas como Marcos Valério (inicialmente operador de esquemas do PSDB em Minas Gerais), Paulo Preto e o finado Manfred von Richthofen (morto pela própria filha em 2002).

E, uma vez chegando à presidência da República, o que os governos Lula e Dilma fazem? Mantêm no essencial o funcionamento dessa engrenagem, os fundamentos estabelecidos lá atrás no Plano Real: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante. A reforma agrária (pauta histórica do PT) congela e o agronegócio não só expande sua fronteira agrícola, como também o próprio governo petista se vale de sucessivos Planos Safra para investir e irrigar as contas do mesmo. Usa a verba publicitária para irrigar as contas de canais televisivos como a Globo, o SBT e a Record. Os bancos privados continuam lucrando horrores por meio do pagamento de juros e amortizações da dívida pública, que consome cerca de metade do orçamento da união anualmente. O BNDES se torna uma plataforma por meio do qual o governo brasileiro financia obras de empreiteiras como a Odebrecht, a OAS e a Camargo Correa em países como Venezuela, Cuba e Líbia (ao passo que, a despeito de toda a histeria de setores da direita brasileira e dos meios de comunicação, no essencial, a política externa brasileira continua tendo como parceiros estratégicos países como Estados Unidos e França). Um bolsa família aqui e acolá acaba se tornando medida de contingenciamento para impedir que o país pegue fogo. Perto do que o país gasta pagando por ano só de juros e amortizações da dívida pública (o que alguns chamam de bolsa banqueiro), o bolsa família não passa de troco de pinga.

Foto – Gastos da União em 2014.

E isso não passou despercebido nem por políticos e nem por analistas políticos – em 2003 (ou seja, ainda no primeiro ano do primeiro governo Lula), Brizola rompeu com Lula por, entre outras coisas, manter a mesma política econômica de FHC e se afastar das pautas históricas da classe trabalhadora e da esquerda. Em 2004, o Doutor Enéas diz em programa eleitoral que não há diferença básica entre o governo do PSDB e o do PT. 

E em 2006, durante a eleição para governador do estado de São Paulo, em debate com Aloísio Mercadante, Plínio de Arruda Sampaio mostrou por A+B que o PT, no essencial, aplicava a mesma agenda econômica que o PSDB aplicava antes. 

Analistas políticos como Gilberto Felisberto Vasconcellos (colunista da finada revista Caros Amigos) e Nildo Ouriques criaram o petucanismo para designar esse fenômeno. Ou seja, políticos e analistas de diferentes visões ideológicas observando o mesmo fenômeno e convergindo para a mesma conclusão.

Sobre o ato das brasileiras em si em Varsóvia, elas, ao fazerem o L e postarem foto em redes sociais com estrela petista, involuntariamente, mexeram em um vespeiro. Mais precisamente, o vespeiro da direita polonesa e de todo o ideário que a própria Polônia vem cultivando e que remonta aos tempos da conversão da nação de Copérnico e Chopin ao cristianismo, ainda no século X.

O fio dessa história remonta ao ano de 966, quando a Polônia se converte ao cristianismo sob o rei Mieszko I. Junto com a Hungria, convertida ao cristianismo no ano 1000 sob o rei Estevão (este último posteriormente canonizado como Santo Estevão), a Polônia se torna a fronteira oriental da cristandade latina. Nisso, desenvolveram conceitos como o da Antemurale Christianitatis (Muralha da Cristandade em latim), e da Polônia como Cristo da Europa.

Com o cisma do Oriente em 1054 e a divisão dentro do mundo cristão dela decorrente entre leste e oeste e ainda mais a partir do século XIII com as invasões mongóis, a Polônia passa a desempenhar, junto com a Hungria, o papel de sentinela das fronteiras orientais da cristandade latina.

Em 1241, os mongóis, liderados por Batu Khan e o general Subotai (um dos principais comandantes militares do Império Mongol inicial), invadem a Hungria e a Polônia simultaneamente, com a intenção de impedir que poloneses, tchecos e cavaleiros germânicos viessem em auxílio do Reino Húngaro, sabendo de antemão a respeito das ligações dinásticas entre as aristocracias húngara e polonesa.

Baidar, Orda (irmão de Batu) e Khadan [5] comandam as divisões do flanco norte do exército mongol. Depois de passar e devastar cidades como Lublin, Zawichost, Sandomir, Cracóvia e Wrocław, em 9 de abril daquele ano os mongóis infligem uma derrota esmagadora ao exército polaco-germânico liderado pelo duque Henrique o piedoso da Silésia, na batalha de Legnica [6]. O duque é morto em combate.

Dois dias depois, é a vez do rei húngaro Béla IV ser vencido pelos mongóis na batalha de Mohi. A derrota foi tal que o rei húngaro teve que fugir para não ser capturado e morto pelos invasores. Batedores mongóis chegam às cercanias de Viena e Udine. Por conta da morte do grande khan Ôgôdėi em Karakorum e levantes dos cumanos nas estepes do sul da Rússia a campanha europeia chega ao fim. Os mongóis recuam e se retiram da Hungria, devastando a Sérvia e a Bulgária no caminho de volta às estepes.

Foto – Batalha de Legnica, 1241.

No inverno de 1259/1260, nova invasão mongol à Polônia se segue, sob o comando de Burundai, depois de ter invadido o Grão-Ducado da Lituânia e o Principado da Galícia-Volínia. Cidades como Lublin, Zawichost, Sandomir e Cracóvia são devastadas e pilhadas pelos invasores. Em Sandomir, o beato Sadok e 48 frades dominicanos são levados ao martírio pelos invasores vindos do leste na Igreja de Santiago.

Foto – O martírio do beato Sadok e dos 48 frades dominicanos durante o saque de Sandomir em 1260. Pintura do século XVII.

A terceira e última dessas invasões ocorre no inverno de 1287/1288, sob a liderança de Nogai (à época o homem-forte da Horda Dourada, a divisão noroeste do Império Mongol) e Talabuga. Os dois vinham de um fracasso na Hungria em 1285/1286. O primeiro veio pelo sul, na direção de Cracóvia, e o segundo pelo norte, na direção de Sandomir. Mas dessa vez os poloneses, assim como os húngaros, estavam melhor preparados para enfrentar os invasores, já dispondo de uma rede de castelos e fortificações e evitando combates em campo aberto em um primeiro momento, e o sucesso das invasões anteriores não se repetiu. Nogai foi batido nas muralhas de Cracóvia e Talabuga nas muralhas de Sandomir.

Nos séculos seguintes, a Polônia, sob a égide de reis como Casimiro o Grande (r. 1333 – 1370) se expande ao leste, firma uma aliança dinástica com a Lituânia em 1386 (União de Krewo) que em 1569 evoluiu para a Comunidade Polaco-Lituano (União de Lublin, 1569) e conquista grande parte do que hoje é Ucrânia e Belarus. A Comunidade Polaco-Lituana veio a desempenhar papel importante em conflitos contra o Império Otomano (vide o episódio do cerco otomano a Viena em 1683, no qual o rei polonês Jan Sobieski III veio em auxílio dos austríacos e ajudou a derrotar o cerco otomano), contra os cavaleiros teutônicos (batalha de Grunwald, 1410), contra a Suécia (o episódio do dilúvio de 1655 a 1660) e contra o crescente poder da Rússia moscovita.

Em 1610, o rei polonês Sigismundo III Vasa, aproveitando-se da situação de instabilidade interna dentro da Rússia após a morte do tzar Fëdor I (1598) e a crise dinástica dela decorrente, ocupa Moscou e tenta instalar no trono russo um rei católico alinhado a Varsóvia. O Kremlin de Moscou fica dois anos ocupado por guarnições polonesas e mercenários europeus. Graças à insurreição popular e religiosa encabeçada por Kuzma Minin e pelo príncipe Dmitrij Požarskij, um exército é formado em Nižnij Novgorod e Moscou é libertada em 1612 da ocupação polaco-lituana. No ano seguinte Mikhail Romanov é eleito como novo tzar da Rússia, dando início a 304 anos de dinastia Romanov.

Foto – Comunidade Polaco-Lituana em sua máxima extensão territorial, por volta de 1648.

A partir da segunda metade do século XVII a Polônia-Lituânia entra em decadência, começa a perder territórios no leste para a Rússia (incluindo Kiev) e ao fim é riscada do mapa no século XVIII nas três partilhas da Polônia entre Rússia, Prússia e Áustria (1772, 1793 e 1795). No século XIX tentativas de restaurar a independência polonesa e a velha Comunidade Polaco-Lituana nas fronteiras de 1772 ocorrem em 1830-1831 (levante de novembro) e 1863-1864 (levante de janeiro), ambas esmagadas e suprimidas pelo Império Russo tzarista.

Enquanto a Polônia esteve riscada do mapa, surge a ideia da Polônia como o Cristo da Europa, concebida por figuras como o poeta romântico Adam Mickiewicz.

Na visão de Mickiewicz, a perseguição e sofrimento dos poloneses servia para trazer salvação a outras nações oprimidas e perseguidas, da mesma forma que a morte de Cristo (crucificado por seus vizinhos) trouxe redenção à humanidade. Assim surgiu a frase “Polska Chrystusem naradów” (Polônia, o Cristo das nações, na tradução do polonês).

Foto – Adam Mickiewicz (1798 – 1855).

A Polônia só volta a surgir no mapa europeu em 1918, após o fim da Primeira Guerra Mundial e a queda dos impérios Austro-Húngaro, Russo e Alemão. Ressurge como a Segunda República Polonesa, a qual em 1920, sob a liderança do marechal Jozéf Piłsudski, vence o exército vermelho na batalha de Varsóvia. A vitória polonesa em Varsóvia entra para a história como o milagre sobre o Vístula. Dessa forma, todo esse ideário da Polônia como a muralha da cristandade latina e Cristo da Europa ressurge, dessa vez contra o comunismo soviético ateu e contra o nazismo (em particular o primeiro).

Algo digno de nota é que em 24 de setembro de 1939 Plínio Correa de Oliveira publica no Legionário o texto “As tradições religiosas da Polônia”, no qual se solidariza com a Polônia contra aquilo que ele chama de “invasão totalitária da extrema direita e da extrema esquerda” e evoca toda esse ideário a respeito da Polônia de muralha da cristandade. Em um dos trechos desse texto ele diz o seguinte:

“Deus sempre ouviu a Polônia, que, durante um milênio de existência, jamais tomou das armas para empreender guerras de opressão mas, pelo contrário, sempre fê-lo em prol de justas causas”.

Resumindo a ópera, quando Dominik Tarczyński aciona a lei contra o comunismo e o nazismo para justificar uma eventual deportação das duas brasileiras que fizeram o L, o que ele está fazendo é nada mais que acionar todo esse arcabouço político-ideológico que a Polônia, na condição de nação fronteiriça da cristandade latina, construiu desde a época de sua conversão ao cristianismo. Da nação muralha da cristandade que luta e dá o sangue para impedir que as mazelas vindas do sul, do leste e do norte cheguem ao coração da cristandade latina. Ou seja, a cidades como Roma, Viena, Munique, Paris e Avignon.

NOTAS:

[1] Leia-se "Tartchinski".

[2] Tradição, Família e Propriedade.

[3] Instituto Plínio Correa de Oliveira.

[4] Leia-se “Voitsierr Iaruzelski”.

[5] Leia-se “Rratan”.

[6] Leia-se “Legnitsa”.

domingo, 4 de outubro de 2026

O caso do elefante Sandro e o futuro dos zoológicos brasileiros

 

Foto – Sandro, o elefante do zoológico de Sorocaba.

A história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa. Assim diz Karl Marx na introdução de sua obra “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, ao analisar a ascensão de Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte, como imperador da França.

Sandro, elefante asiático de mais de 50 anos de idade que desde 1982 vivia no bosque municipal de Sorocaba “Quinzinho de Barros”, enfim foi transferido ao chamado Santuário dos Elefantes Brasil, situado no Mato Grosso, após um imbróglio judicial que se estendeu por vários anos.

O caso envolvendo o elefante idoso (do qual tomei conhecimento ainda em 2022, por meio de vídeos no canal do Wagner Ávila no You Tube) vem dividindo e polarizando a opinião das pessoas no Brasil nos últimos anos.

De um lado, aqueles que eram a favor da permanência dele no Quinzinho de Barros, sob a alegação de que transferir um elefante já idoso e desdentado, que precisa de cuidados especiais e já acostumado aos seus tratadores, é algo temerário e que uma vez no santuário ele não consiga se adaptar ao novo ambiente. E de outro, os que defenderam a transferência dele ao santuário (parte significativa deles influenciadores e artistas – a malta de hipócritas de sempre que adoram levantar bandeira para fim de massagem de ego e promoção pessoal), sob a alegação de que lá ele enfim vai ser livre depois de tantos anos vivendo no circo e no zoológico.

O que os defensores da transferência de Sandro do zoológico ao santuário parecem não perceber é que no SEB o Sandro não está livre, não está na natureza. Visto que elefantes são animais nativos de locais como a África ao sul do Saara, o subcontinente indiano e o Sudeste Asiático, não do cerrado brasileiro que é onde se encontra o santuário (a América do Sul já teve seus proboscídeos no passado, mas hoje já estão todos extintos). E segundo que mesmo ele estando no santuário ele ainda estará sob cuidados humanos. Em outras palavras, ainda estará em cativeiro. Tal qual o elefante que está em um circo, em um zoológico, em uma fazenda ou em um exército servindo como animal de combate, por exemplo.

Aliás, é muita pretensão da parte do pessoal que comanda santuários como o SEB e o santuário de elefantes do Tennessee nos Estados Unidos querer vender uma imagem de que, sob os cuidados deles, os elefantes são livres e vivem na natureza, livres de exploração humana, e que eles é que são os iluminados que sabem cuidar de animais. No fim das contas, santuários não passam de zoológicos gourmet, aos quais apenas alguns escolhidos têm acesso.

Antes mesmo do caso envolvendo Sandro, houve também o caso do chimpanzé Black, que foi transferido do Quinzinho de Barros ao Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, em 2019. E uma vez no santuário, morreu em questão de dois anos, em 2021.

Foto – Black, o chimpanzé.

O Santuário de Elefantes Brasil tem um histórico, digamos, não muito abonador para o lado dele. Visto que alguns dos elefantes que lá chegaram morreram em questão de meses, como foi o caso de Kenya e Puppy ainda no ano passado, ambas vindas da Argentina. E nisso repete um padrão visto, por exemplo, no santuário de elefantes do Tennessee, nos Estados Unidos, também notório por seus periódicos casos de mortes dos elefantes que eles tiram de zoológicos e circos após campanhas similares às que o pessoal do SEB faz.

Foto – Listagem das mortes de elefantes no santuário do Tennessee, de 2001 a 2017 (Fonte: página do Facebook “Nosey the amazing Elephant”).

Dito isso, a pergunta que fica no ar é – o que será que está em jogo com a transferência de Sandro de Sorocaba ao santuário no Mato Grosso? Acho que isso é muito mais que uma simples transferência de um animal de um local a outro. Eu, particularmente, temo que com a transferência de Sandro, o único e último elefante macho restante no Brasil (lembrando que ano passado o elefante africano macho do zoológico de Belo Horizonte, Jamba, faleceu aos 29 anos), ao santuário de elefantes os zoológicos brasileiros estejam entrando em uma espiral descendente, um ponto de não-retorno muito perigoso.

Sandro é um animal idoso, de mais de 50 anos de idade, que antes mesmo de viver no “Quinzinho de Barros” fez parte dos circos Bismarck e Orlando Orfei, este último um dos principais e mais eminentes circos brasileiros durante décadas.

Foto – Vista aérea do circo Orlando Orfei, anos 1980.

O circo Orlando Orfei fechou suas portas em 2008 depois de todo a campanha feita à época contra os circos com animais em solo brasileiro, levada adiante por ONGs de protetores de animais e políticos ligados a essas ONGs e o surgimento de leis em estados e municípios proibindo o uso de animais em apresentações circenses, em especial depois que aconteceu a tragédia do circo Vostok, na qual um menino de seis anos foi morto por um leão dentro das dependências do circo (e a própria família Orfei, tanto aqui no Brasil quanto na Itália, é uma família bem tradicionalista no que tange ao uso de animais em circos).

Em outras palavras, isso que vimos em episódios como a transferência do chimpanzé Black e mais recentemente de elefantes como a Baby e o Sandro de zoológicos a santuários não é nenhuma novidade. Visto que isso nos governos Lula e Dilma, ONGs de protetores de animais moveram vigorosas campanhas para confiscar animais dos circos e enviá-los aos santuários deles, sob a alegação de que os animais em circos eram maltratados, que circo legal não tem animal e verborragias afins.

E hoje estamos vendo esse mesmo filme se repetir, agora com os zoológicos. Algo bem curioso a esse respeito é o fato de que biólogos que hoje encampam a defesa dos zoológicos como o Richard Rasmussen e Henrique Abrahão Charles (vulgo biólogo Henrique) em momento algum citam esse fato.

O caso do biólogo Henrique (um dos que encamparam a defesa pela permanência de Sandro no Quinzinho de Barros – até aí tudo bem) é bem curioso. Esses dias vi um vídeo dele no qual ele exalta o papel dos zoológicos e todo o trabalho de conservação de espécies e educação ambiental que eles fazem, e ao mesmo tempo se diz contra a presença de animais em circos.

Acho bem estranho, um biólogo como ele se incomodar com as mentiras que o pessoal dos direitos dos animais fala sobre os zoológicos (até aí tudo bem), mas ao mesmo tempo engolir as mentiras dessa mesma gente a respeito dos animais em circos. Ou seja, em um caso ele e a Luísa Mell (vulgo Marina Zats) que ele tanto critica estão em lados opostos da barricada, ao passo que em outro caso os dois estão cerrando fileiras e no mesmo lado da barricada. Curioso, não?

Essa guerra que hoje vemos sendo feita contra os zoológicos brasileiros por parte do pessoal dos direitos dos animais nada mais é que a continuação da guerra que foi feita lá atrás contra os circos com animais, e isso ele e outros biólogos que comungam desse pensamento parecem não perceber. É a mesma história, sem tirar nem pôr, ainda mais levando que alguns dos animais hoje visados por essa gente, incluindo a Baby e o próprio Sandro, um dia também foram animais de circo.

Mas afinal, por que o biólogo Henrique e outros que também pensam como ele omitem esse fato, de que a atual campanha contra os zoológicos aqui no Brasil é, em essência, o prolongamento natural da campanha feita lá atrás contra os circos com animais? É uma omissão no mínimo preocupante, que passa da ideia de que isso é um problema que começou recentemente, sendo que é algo que vem de vários carnavais.

Imagino que o biólogo Henrique deva ter seus motivos para tal. Será que (especulação minha) na época ele estava batendo palmas para essa mesma campanha que as ONGs moviam contra os circos? Será que ele, como também outros biólogos que compartilham dessa mesma opinião, na verdade estavam lutando do mesmo lado da barricada desse mesmo pessoal de ONGs e santuários? E que lembrar disso agora seria muito inconivente a ele? O que será que ele fez no verão passado, afinal? Talvez aí esteja a parte farsesca da presente história, segundo a máxima de Marx.

Esses dias, soube de uma notícia que fala que o circo Krone, um dos principais e mais tradicionais circos alemães, foi alvo de vandalismo por parte de ativistas dos direitos dos animais em Hamburgo. E antes disso, ainda no começo do presente ano (2026), também na Alemanha, houve o caso envolvendo a domadora de tigres Carmen Zander, conhecida em seu país natal como “a rainha dos tigres” (a qual tem uma página no Facebook chamado “Im Auge des Tigers”).

Em Leipzig, um de seus tigres, Sandokan, fugiu de seu recinto, atacou e feriu seriamente um dos tratadores e em seguida foi morto a tiros pela polícia. Após o incidente, outros seis tigres da domadora foram confiscados pelas autoridades locais e transferidos a um santuário na Espanha.

Sabendo do que o biólogo Henrique pensa a respeito da presença de animais em circos, não ficaria nem um pouco surpreso se ele, nesses casos, resolvesse cerrar fileira com os ativistas que vandalizaram o circo Krone e apoiar o confisco e envio dos tigres de Carmen Zander ao santuário espanhol. Ou seja, com o pessoal daquilo que ele chama de “fofofauna” que ele tanto critica (e com razão).

Foto – Carmen Zander, a rainha dos tigres.

Ou seja, para pessoas como o biólogo Henrique, quando a água bate no traseiro do outro, está tudo bem. Tudo bem o outro ser jogado aos tubarões e por eles ser devorado. Afinal, não é comigo mesmo. Agora, quando a água começa a bater no meu traseiro, aí a conversa muda de tom e eu fico preocupado, consternado.

E outra – pelo que vejo, parece que para pessoas como o biólogo Henrique está tudo bem o outro, por trabalhar de um jeito um pouco diferente do dele, apanhar de pessoas como a Luiza Mell, de políticos como os irmãos Tripoli e organização animalistas como o PETA e o ALF (“Animal Liberation Front”, na sigla em inglês), se lascar nas mãos deles e ter seus animais confiscados por eles. Agora, quando essa mesma gente começa a me atacar, aí é que eu vou ficar incomodado com a situação.

Na contramão do biólogo Henrique, vejo, por exemplo, o pessoal do zoos.media (portal de notícias sobre zoológicos da Alemanha) demonstrar solidariedade à Carmen Zander.

Pessoas como o biólogo Henrique e o Ary Borges (o homem que criava tigres em Maringá e teve seus animais confiscados pelo Ibama em 2014) me parecem o Mussum naquele esquete dos Trapalhões, no qual o personagem interpretado pelo finado ator, humorista e sambista Antônio Carlos Bernardes Gomes faz toda sorte de ginástica mental e retórica para justificar os aumentos de preço por parte do governo, até ficar sabendo do aumento do preço da cachaça (vulgo mé). Quando ele fica sabendo do aumento do preço da cachaça, a conversa muda de tom e o Mussum passa a condenar e a maldizer o governo que antes ele apoiava.

Como Wagner Ávila aponta em recente vídeo, hoje foi a vez do Sandro ser transferido do zoológico para o santuário. E amanhã, quem será o próximo a rodar? Será que um dia veremos os zoológicos brasileiros definharem a um ponto de insignificância, com muitos deles sendo sucateados e fechados com o tempo e depenados de seus animais (em especial os animais de grande porte), tal qual aconteceu com os circos brasileiros anos antes?

https://www.facebook.com/reel/2292018944948950

Podem me apedrejar e me cancelar o quanto quiser. Eu defendo sim os circos tradicionais com animais e os zoológicos. Para além das questões de conservação de espécies e educação ambiental, é graças a locais como os circos e os zoológicos que eu não preciso viajar à África ou à Índia para ver um elefante, um leão ou uma zebra (e assim ter de encarar duas viagens de avião mais caminho por terra – fora o dinheiro que terei de gastar para tal).

Lembro-me muito bem da primeira vez em que vi leões na minha vida, no circo de Roma, ainda nos anos longínquos anos 1980, ao qual fui junto com o meu finado pai. Havia lá um leão e duas leoas. Nos circos subsequentes aos quais fui (entre eles o circo Garcia), pude ver tigres, animal que (até onde me lembro) o bosque da minha cidade nunca teve. Já nas duas últimas vezes em que eu fui a circos (ambas no finado circo do Beto Carrero – julho de 1998 e fevereiro de 2003), pude ver um casal de tigres brancos (provavelmente, um deles é o mesmo que aparece ao lado do Beto Carrero na capa do CD “O mundo encantado de Beto Carrero”, lançado em 1996). E isso sem precisar sair da minha cidade natal. Em todas as outras vezes em que pude ver tigres brancos na minha vida, os vi em zoológicos gringos.

Foto – Capa do CD “O mundo encantado de Beto Carrero”, de 1996.

Na última vez em que estive em um circo, também pude ver o camelo bactriano (o de duas corcovas) e o elefante na parte de fora do circo, bem de pertinho, na saída.

Ao ver animais diversos nos circos e zoológicos, pude ver que eles não são abstrações de livros, revistas, filmes e documentários que se passam em locais distantes como a África, a Índia e o Sudeste Asiático. E sim seres vivos reais, de carne e osso, e esse contato que tive desde tenra idade foi muito importante a ponto de ajudar com o tempo a criar fascínio para com o mundo animal.

No bosque da minha cidade, Ribeirão Preto, há uma elefanta chamada Maison. Tal como o Sandro e a Baby, ela também já foi de circo um dia. Mais precisamente, do circo Kroner (favor não confundir com o circo alemão Krone). Uma vez estive no recinto provisório dela, junto com o palhaço Biriba, em 2012. Pude vê-la de perto, sem nenhuma grade se interpondo entre mim e a elefanta (ainda que a uma certa distância). Até tirei uma foto dela.

Foto – Maison no recinto provisório dela, outubro de 2012.

Ver um elefante vivo de tão perto é algo simplesmente incrível, surreal. O quão grande e majestoso ele é, uma sensação de imponência sem igual. Ainda mais sem precisar ter de viajar meio mundo para vê-los no habitat natural deles, sem precisar ter de encarar duas viagens de avião para tal que somam mais de 20 horas.

A minha cidade já teve outra elefanta chamada Bambi, a qual em 2020 foi transferida ao Santuário do Mato Grosso. Talvez, seja questão de tempo o mesmo santuário voltar suas atenções à Maison, tal como feito com Baby, com Sandro e os elefantes que eles trouxeram da Argentina (e que morreram em questão de meses no santuário).

Mal sabem certos incautos que apoiam esse tipo de causa, que pedem o fim de circos com animais, aquários, ecoparques e zoológicos, a roubada que apoiam. Vai chegar a hora em que um deles vai querer ver um elefante ao vivo, e não vai poder porque para isso vai ter que viajar até a Índia, a Tailândia ou ao Quênia, e nisso ter de encarar duas viagens de avião que juntas somam mais de 20 horas e que vai sair muito cara para o bolso dele. Sendo que lá atrás ele poderia muito bem ver um desses no bosque da cidade dele ou no circo.

E o mais grave de tudo: nessa brincadeira de justiceiro da causa animal o que eles vão fazer é, no fim das contas, privar as próximas gerações de ter experiências como as que eu tive desde a infância. E privando as novas gerações de contato com animais selvagens, o interesse delas pela proteção e conservação desses animais irá simplesmente para o ralo (e o animal no circo ou no zoológico é, antes de tudo, um embaixador da espécie). No fim, apenas os ricos que podem ter acesso a viagens internacionais e o círculo de pessoas próximas com acesso aos santuários é que vão se beneficiar dessa brincadeira. E quando o estrago estiver feito, uma coisa é certa: o julgamento da história para com esses que resolveram brincar de justiceiros da causa animal vai ser pesado, muito pesado.

Pois como o grande Steve Irwin certa vez disse, “Se nós pudermos ensinar as pessoas sobre a vida selvagem, elas serão tocadas. Compartilhe minha vida selvagem comigo. Porque os humanos querem salvar coisas que eles amam”.

Alguns podem me perguntar, mas e os maus tratos a animais? E o animal confinado, fora de seu ambiente natural? Não nego que em alguns momentos tratadores de circos e de zoológicos tenham pisado na bola. Mas é de uma generalização estúpida e burra pensar que animais em circos e zoológicos é sinônimo de crueldade, maus tratos e privação de liberdade (sendo que mesmo no ambiente natural o animal não é livre para se estabelecer no lugar em que quiser – há um artigo em alemão no site do zoos.media que fala sobre isso). Isso faz tanto sentido quanto dizer, por exemplo, que jogador de futebol é sinônimo de salários milionários (sendo que só uns poucos é que recebem tais salários). Que Igreja é sinônimo de padre pedófilo. Que casamento é sinônimo de violência doméstica. Que Islamismo é sinônimo de terrorismo. Entre outros tantos paralelos que posso ficar traçando.

Dito isso, eu sugiro a vocês que estão lendo esse meu texto a procurem pelo trabalho de profissionais que trabalham com animais em circos estrangeiros, de países como a Itália (o país natal de Orlando Orfei), a Alemanha e a Rússia. Vocês vão encontrar muita coisa legal. O trabalho de domadores como Martin Lacey (circo Krone), os irmãos Edgar e Askold Zapašnyj (grão-circo estatal de Moscou), Nikolaj Pavlenko (famoso domador de tigres russo, hoje aposentado, alcunhado de o “Karajan da grande jaula”), Bruno Togni (American Circus Togni), entre outros.

Foto – Nikolaj Pavlenko, o “Karajan da grande jaula”.

Em países lusófonos, cito o exemplo do circo Victor Hugo Cardinali, de Portugal, o qual durante muitos anos trabalhou com animais como leões, elefantes africanos, camelos e cavalos e é tido como um circo de excelência no trato aos animais (inclusive o Marcos Frota elogiou o Victor Hugo Cardinali por isso, em 2015). E mesmo no Brasil, no passado circos como o Garcia e o Orlando Orfei também se destacavam no bom trato aos animais (o Garcia chegou a realizar reprodução de chimpanzés). Há fotos de vários tratadores de circos abraçados a seus animais, incluindo fotos de Orlando Orfei abraçado a seus leões.

Foto – Orlando Orfei abraçado a um de seus leões.

E antes que venham com essa coisa de polarização de esquerda x direita, é bom que saibam de uma coisa – é fato que aqui no Brasil a guerra contra os circos animais (e agora contra os zoológicos) se deu sob as asas dos governos Lula e Dilma, políticos vinculados ao partido dos trabalhadores (PT), o principal partido de esquerda do Brasil e de toda a América Latina. Isso ao mesmo em que a Polônia proibiu os animais em circos em 2020 com a extrema direita no poder, representada por Andrzej Duda e o partido Prawo i Sprawdliwość (Lei e Justiça, na sigla em polonês). Duda que, a propósito, é um dos principais aliados de Bolsonaro dentro da extrema direita europeia junto com o húngaro Viktor Órban. A Polônia de Duda que, junto da Hungria de Órban, é também a grande inspiração internacional para a atual direita católica brasileira, representada por grupos como o Centro Dom Bosco e o IPCO (Instituto Plínio Correa de Oliveira).

Também penso com os meus botões o seguinte: o que será que esse santuário vai fazer a hora em que já não houver mais elefantes em solo brasileiro ou nos países vizinhos da América hispânica, depois que os poucos que ainda restam já estiverem todos mortos? Será que vai fechar as portas e sair daqui, como uma nuvem de gafanhotos em uma colheita? Quem viver, verá os próximos capítulos dessa novela ainda em aberto.

E outra – lá atrás, esse mesmo pessoal de ONGs e santuários, mancomunados com o Ibama, lá atrás falavam que circo legal não tem animal. Em 2016, tentaram prescrever por lei a vaquejada em todo o Brasil. Hoje, não só tiram animais de zoológicos, como também políticos como a Heloísa Helena (a mesma Heloísa Helena que um dia foi membra do PT e de lá saiu para formar o PSOL) lançam projeto de lei por meio do qual zoológicos, safaris e eco-parques deverão fechar em questão de dois anos. E amanhã, o que mais vão fazer? Será que não vamos chegar a uma situação na qual também será errado você comer carne e ter um cachorro, um gato ou um coelho em casa, ainda mais em se tratando de animais de raça? Como disse certa vez Klaus Schwab, um dos arautos da Agenda 2030 e do Grande Reset, “você não terá nada e será feliz sobre isso”.

Foto – “Você não terá nada e será feliz sobre isso”, assim disse Klaus Schwab.

Fontes:

Chimpanzé Black morre em Santuário em Sorocaba (SP). Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/02/08/chimpanze-black-morre-so-50-anos-em-santuario-de-sorocaba.htm

“Rainha dos tigres” deixa animal escapar e idoso é morto após ataque. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/rainha-dos-tigres-deixa-animal-escapar-e-idoso-e-morto-apos-ataque/

Steve Irwin quotes (em inglês). Disponível em: https://www.goodreads.com/author/quotes/311848.Steve_Irwin

Tiger von Carmen Zander: Anklage – Das Gegenteil von Rettung (em alemão). Disponível em: https://zoos.media/medien-echo/tiger-carmen-zander-anklage-gegenteil-rettung/

Was Weiss man darüber, ob Zootiere die Freiheit vermissen? (em alemão). Disponível em: https://zoos.media/zoo-fakten/zoo-tiere-freiheit-vermissen/