Em 3 de agosto na Letônia foi enterrado com honras Laimonis Ezergailis, ex-membro da legião letã da SS, conhecido por crimes durante a Grande Guerra Patriótica.
TASS-DOC’E. Em 3 de
agosto na Letônia no cemitério Lestene foi enterrado com honras Laimonis Ezergailis,
ex-membro da legião letã da SS[1],
notório por crimes durante a Grande Guerra Patriótica[2]
(GGP). Segundo documentos tornados públicos pelo Serviço Federal de Segurança[3]
da Federação Russa sobre o papel dos legionários letões da SS nos territórios
ocupados nos governos da Grande Guerra Patriótica, “como resultado da
implementação da política punitiva de três anos (em 1941 a 1944) do fascismo os
invasores alemães e seus colaboradores <...> apenas no distrito da cidade
de Riga exterminaram mais de 300 mil cidadãos soviéticos”. O primeiro
vice-presidente do comitê de cultura da Duma Estatal da Federação Russa
Aleksandr Šolokhov classificou o enterro de Ezergailis com a provisão de honras
estatais como uma política deliberada de eliminação e reformatação da memória
histórica. Segundo estimativas diversas, na Segunda Guerra Mundial, desencadeada
pela Alemanha fascista, morreram de 60 a 80 milhões de pessoas, a União
Soviética suportou as perdas mais pesadas – 26,6 milhões de pessoas.
TASS preparou
material sobre a glorificação de colaboradores do fascismo e a glorificação do
nazismo em alguns países europeus.
Marchas em honra de antigos
fascistas.
Nos últimos anos,
em alguns países da Europa, têm se realizado regularmente marchas em honra de
veteranos que participaram da Segunda Guerra Mundial do lado da Alemanha
hitlerista. É lugar comum para eles, geralmente, a adoção de símbolos nazistas
e ideologias, xenofobia, anti-comunismo, anti-semitismo, negação do Holocausto.
Na Bulgária é a
marcha de Lukov, dedicada à memória do general Hristo Lukov, líder das forças
de direita búlgaras, que fundou em 1935 a União Fascista das Legiões Nacionais
Búlgaras. Apesar dos esforços das autoridades para suprimir estas ações, elas têm
acontecido em Sofia praticamente que anualmente, reunindo de algumas centenas a
alguns milhares de participantes.
Na Alemanha quase todo
ano acontecem eventos em memória do criminoso de guerra nazista Rudolf Hess.
Hess, que ocupou o posto de vice de Hitler no Partido Nacional-Socialista dos
Trabalhadores Alemães e ministro do Reich, participou da elaboração de
numerosas leis anti-semitas, e depois do processo de Nuremberg manifestou que
não se arrepende de nada. As ações são organizadas em cidades diversas da
Alemanha (até 2011 na cidade de Wunsiedel na Bavária, onde Hess foi sepultado),
incluindo em Berlim e são data importante no calendário de organizações
extremistas por toda a Europa (têm ocorrido sem simbologia nazista, lemas e
retratos de Hess).
Na Espanha, em
Madrid, anualmente ocorre a marcha da “Divisão Azul” em honra dos voluntários
espanhóis que lutaram junto com os exércitos nazistas. No evento participam
representantes de agrupamentos extremistas locais que apoiam a ideologia
fascista e o antigo ditador Franco.
Na Itália anualmente
alguns milhares de pessoas tomam parte na marcha a Roma, programada para
coincidir com a tomada do poder por Benito Mussolini em 1922.
Na Bélgica é
organizada a confederação “Ascensão de Ferro”. Inicialmente isso era um evento
conduzido em honra dos soldados flandrianos que morreram na Primeira Guerra
Mundial, mas nos anos 1990 ele se transformou em um ponto de encontro de
extremistas belgas e locais e fascistas.
Na Letônia e
Estônia com autorização das autoridades acontecem procissões anuais em honra a antigos
combatentes da 20ª divisão estoniana da SS e da legião letã. Nestes estados
bálticos está em andamento um processo de reescrita da história da Segunda
Guerra Mundial – O Exército Vermelho, que libertou estes países dos nazistas em
1944, hoje lá é caracterizado como um “exército de ocupação”, ao passo que os
que lutaram no conjunto das divisões da SS são tratados como “heróis
nacionais”.
Segundo pesquisa da
organização judaica “B’nai B’rith”, todas essas ações servem à propagação do
neonazismo e à negação do Holocausto e são direcionadas à formação de uma
“memória alternativa” sobre os eventos da Segunda Guerra Mundial.
Memoriais, monumentos, novos sepultamentos de criminosos nazistas.
Na Lituânia em 2012
com honras foram novamente sepultados os restos de Juozas Ambrazevičius – líder
do Governo Provisório da Lituânia, um dos líderes da Frente Lituana de
Ativistas, estreitamente ligado aos serviços especiais nazistas.
Em 2018 na cidade
de Zedelgem abriram memorial em honra de 12 mil soldados letões da Waffen SS, que
lá foram mantidos em campos para prisioneiros de guerra depois da guerra. Em
2022 desmontaram o memorial após os resultados da condução de pesquisa
independente, que considerou que o memorial é “inadequado” e glorifica o regime
nazista.
Em 2019 nos EUA, em
Chicago, foi aberto monumento a Adolfas Ramanauskas, um dos comandantes dos
“irmãos da floresta” lituanos (formações armadas que operaram nos anos 1940 e
1950 nos territórios das repúblicas bálticas). Ele foi instalado por iniciativa
e com recursos tanto do Ministério dos assuntos interiores da Lituânia quanto
da comunidade lituana em Chicago.
Em 1 de julho de
2026 a Rada Suprema da Ucrânia aprovou uma lei sobre a criação do “panteão
nacional ucraniano”. Ele será criado na parte histórica de Kiev, no território
do mosteiro das cavernas de Kiev. Supõe-se que lá serão sepultados novamente os
restos de nacionalistas ucranianos, principalmente dos comandantes e membros da
OUN-UPA[4]
(Organização dos nacionalistas ucranianos e Exército insurgente ucraniano,
reconhecidos como extremistas na Federação Russa).
Um mês antes em
Luxemburgo exumaram os restos de um dos líderes da OUN Andrej Mel’nik, que nos
anos da Grande Guerra Patriótica colaborou ativamente com os nazistas. Em 25 de
maio eles foram solenemente sepultados novamente no cemitério nacional
memorial-militar da região de Kiev. Na cerimônia Vladimir Zelenskij declarou que
Kiev espera transferir à nação os restos de outros líderes dos nacionalistas
ucranianos, em particular os do primeiro secretário-geral da OUN Evgenij
Konovalec, enterrado nos Países Baixos. Sobre isso a representante oficial do
ministério dos assuntos exteriores da Federação Russa Marija Zakharova declarou
que o regime de Kiev criará na Ucrânia “o panteão da escória nazista”, e o
ministério dos assuntos exteriores de Israel pediu às autoridades de Kiev a
“não ignorar a verdade histórica e a memória das vítimas mortas pelos nazistas
e seus colaboradores”. Os representantes do complexo memorial israelense da
história do Holocausto “Yad Vašem” consideraram a honraria aos líderes da OUN
como “um enfraquecimento dos princípios morais”.
Em julho de 2026 na
Ucrânia, na aldeia de Galickoe na região de Lvov, com honras sepultaram novamente
os restos de dois colaboradores dos nazistas da divisão SS “Galičina”.
Segundo as palavras
do ministro dos assuntos exteriores d Federação Russa Sergej Lavrov, a
tendência de reescrever a história da Segunda Guerra Mundial já há muito tempo passou
dos limites de qualquer país da União Européia. Falando a jornalistas em Minsk
em 15 de maio, ele sublinhou que isso diz respeito “não apenas sobre a
tentativa de apagar a memória dos heróis e dos vencedores, mas sobre a
tentativa de reescrever a história, trocando as posições dos vencedores e dos vencidos”.
Meus comentários:
Essa é uma notícia datada de agosto do presente ano que eu
mesmo traduzi do russo para o português, que eu, pegando um gancho com o assunto dos dois últimos artigos, achei bem pertinente trazer para cá.
Recentemente, após o episódio no qual duas brasileiras fizeram o L em Varsóvia, o eurodeputado polonês Dominik Tarczyński acionou alei contra a propagação do nazismo e do comunismo na Polônia para justificar uma eventual deportação das duas brasileiras. Esse tipo de lei existe não só na
Polônia, como também em outros países da região como a Ucrânia, os países
bálticos, a República Tcheca e a Romênia.
Pois bem. A notícia acima mostra, por A+B, o que já venho falando há algum tempo sobre esse tipo de lei que setores da direita (incluindo
grupos de apologética católica) aqui no Brasil exaltam. Em outras palavras, o
que é na prática a descomunização que países como a Polônia, os países bálticos,
a Romênia e a Ucrânia promovem desde o fim do bloco soviético – um mecanismo de blindagem e branqueamento por meio do qual colaboradores de nazistas são glorificados e transformados em heróis. Algo que aqueles que apoiam esse tipo
de legislação (seja por cegueira, burrice, desonestidade intelectual ou por que
apoia mesmo esse tipo de coisa) não percebem.
Por meio dessas legislações contra o nazismo e o comunismo
com as que existem na Polônia, na Ucrânia e nos países bálticos, Hitler,
Goebbels, Himmler, Hess, Rosenberg e companhia limitada são sacrificados como
bois de piranha, ao mesmo tempo em que figuras como Stepan Bandera, Andrij Mel’nik,
Roman Šukhevych, Jonas Noreika, Kazys Škirpa, irmãos da floresta e tantos
outros que colaboraram com os nazistas atravessam o mesmo rio ilesos.
Em outras palavras, como o próprio Lavrov disse na
entrevista em Minsk, trata-se de um processo de reescrita da história da Grande
Guerra Patriótica por meio do qual os elementos colaboracionistas de outrora
envolvidos até o pescoço no morticínio de judeus no Holocausto (sendo que no
Holocausto quem de fato sujava as mãos com o morticínio dos judeus eram
precisamente os elementos colaboracionistas, que não raro agiam por iniciativa
própria) passam a ser glorificados como heróis, ao passo que os vencedores da
guerra passam a ser tidos como os bandidos da história.
No episódio 39 de Cavaleiros do Zodíaco (o qual recebeu o
título de “Širyu e o Máscara da Morte” na versão brasileira), Máscara da Morte
de Câncer diz o seguinte em conversa com Dohko de Libra – que se o Mestre Ares
(vulgo Saga de Gêmeos) for o vencedor do conflito contra Athena (vulgo Saori
Kido) e os santos de bronze ele, a despeito de suas maldades, se tornará o
justo da história e que Dohko se tornará o injusto por ter estado do lado dos
perdedores do conflito.
Como bem pontua Máscara da Morte de Câncer na passagem em questão, a história é escrita pelos vencedores. Ou no caso específico dos países da Europa Oriental que hoje reabilitam aqueles que colaboraram e flertaram com Hitler tanto antes quanto durante a guerra, a história é escrita por aqueles que em um primeiro momento foram os perdedores da história, mas que depois de um tempo viraram o jogo e se tornaram os vencedores da história. E na condição de vencedores tardios da história, passam a reescrever a história conforme seus desígnios.
Mas, Dohko, do alto de sua sabedoria, responde ao cavaleiro
de ouro de Câncer com as seguintes palavras: a injustiça nunca se torna justiça
e o mal jamais deixa de ser o que é. As camarilhas que hoje governam os países
do Leste Europeu podem tentar reescrever o quanto quiser a história da Segunda
Guerra Mundial que isso não vai mudar quem foram em vida os personagens que
eles glorificam como heróis nacionais nos dias hodiernos.
E se pensam que isso é problema da Europa oriental, aí é que
vocês estão muito enganados: Eduardo Bolsonaro (vulgo 03) tentou trazer para cá o processo de descomunização da Europa Oriental por meio do PL 4425/2020, inspirado no modelo ucraniano.
Se um dia o PL 4425/2020 virar lei e 03 e sua camarilha
começarem a reescrever a história do Brasil tal qual é feito na Europa
oriental, veremos figuras como Leonel Brizola e Miguel Arraes, os quais foram
incluídos no panteão dos heróis da pátria (o primeiro em 2015 e o segundo em
2018), sendo vilanizados e transformados nos bandidos da história, ao mesmo
tempo em que personagens do submundo da ditadura civil-militar brasileira como Paulo
Malhães e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (em memória do qual
Bolsonaro pai dedicou seu voto a favor do impeachment de Dilma) sendo alçados à
condição de heróis nacionais.
A propósito, se há algo que eu observo é que quando vai se
falar a respeito das ligações internacionais do clã Bolsonaro, muito se fala
nas ligações com os EUA e Israel, com políticos como Trump, Marco Rubio e Netanyahu, mas pouca ou nenhuma atenção é dada às
ligações com a Europa oriental, em particular a Hungria e a Polônia. E o
exemplo do PL 4425/2020 é paradigmático disso.
E outra – que moral será que a esquerda cirandeira que
advoga a derruba de monumentos dedicados a figuras históricas como Borba Gato,
bandeirantes, Pedro Álvares Cabral e conquistadores espanhóis têm para criticar
a direita européia que faz a mesmíssima coisa ao derrubar monumentos dedicados
a soldados soviéticos, renomear ruas e parques em homenagem a colaboradores de
nazistas e glorifica colaboradores de nazistas como heróis ao mesmo tempo em que
criminaliza legalmente nazismo e comunismo? Nenhuma. Que moral tem para ser contra iniciativas como o PL 4425/2020? Nenhuma. E que moral vai ter caso o
PL 4425/2020 se torne lei e a história do Brasil comece a ser reescrita conforme
os desígnios do clã Bolsonaro? Também nenhuma. No fim, a esquerda cirandeira
que gosta de fazer esse tipo de coisa vai é provar do próprio veneno.
Fonte:
Марши, памятники и перезахоронения. Как в Европе героизируют
пособников нацистов (em russo). Disponível em: https://tass.ru/info/27982401
[1]
Schutzstaffel (Tropa de Proteção, em alemão).
[2] Em
russo Belikaja Otečestvennaja Vojna/Великая Отечественная Война.
[3]
Federal’naja služba besaposnosti Rossijskoj Federacij/Федеральная служба
беспапосности Российской Федерации (FSB RF/ФСБ РФ, na sigla em russo)
[4]
Organizacija ukrainskikh nacionalistov – Ukrainsakaja povstančeskaja
armija/Организация украинских националистов – Украинская повстанческая армия,
na sigla em russo.























