quarta-feira, 11 de março de 2026

A podridão do reino da Dinamarca, parte I: o general Combs e a guerra das costas


 Foto – Jeffrey Epstein (1953 – 2019).

Uma sombra paira sobre a Casa Branca. E essa sombra tem nome: o finado Jeffrey Epstein.

O caso Epstein envolve políticos graúdos dos Estados Unidos, e tanto Republicanos quanto Democratas nele estão envolvidos até o pescoço. E se pensam que a coisa se resume aos Estados Unidos, muito enganados estão. Altos figurões da política israelense e da realeza europeia também tiveram seus envolvimentos com Epstein, finado desde 2019 e cuja morte até hoje é objeto de controvérsia. Teria ele de fato tirado a própria vida, ou fizeram uma operação de queima de arquivo para cima dele?

O fato é que no presente momento os EUA movem uma guerra contra o Irã em parceria com Israel. Por conta dos bombardeios, veio a óbito o aiatolá Ali Khamenei, presidente da República Islâmica do Irã entre 1981 a 1989 e desde 1989 líder espiritual da nação persa, assim como outros membros de sua família, incluindo a esposa, filhos, . O filho de Ali Khamenei, Modžtaba Hosseini Khamenei, foi eleito para suceder o pai no posto de líder espiritual do Irã. Além disso, a nação persa desistiu de participar da Copa do Mundo do presente ano.

Dado o timing dos eventos, a guerra contra o Irã está sendo claramente usada para desviar a atenção do caso Epstein, da mesma forma que em 1999 Bill Clinton (talvez, não por acaso, um dos muitos políticos hoje envolvidos no caso Epstein) usou a guerra de 78 dias contra a Iugoslávia para desviar a atenção do caso Monica Lewinsky. Dessa forma podemos muito bem chamar a atual guerra contra o Irã de a guerra Epstein.

Entretanto, algo muito importante deve ser dito: o caso Epstein não surgiu do nada. Pelo contrário, ele surge em um contexto maior de falência moral do mundo político e artístico norte-americano, junto com outros casos similares. Sobre os quais iremos falar mais adiante.

Historicamente, se tem um meio pelo qual os Estados Unidos têm se utilizado para se projetar para o resto do mundo é o cinema de Hollywood. Da mesma forma que, por exemplo, a França fazia o mesmo por meio da moda e da literatura, o México por meio das novelas e programas humorísticos, Hong Kong por meio dos filmes de artes marciais (estrelados por figuras como Bruce Lee, Jet Li e Jackie Chan), o Japão por meio dos animes, mangás e seriados tokusatsu, o Brasil por meio do futebol e das novelas, e mais recentemente a Turquia por meio das novelas e a Coréia do Sul por meio dos doramas e k-pop. É o chamado soft power, algo sobre o qual Ariano Suassuna explica em uma palestra datada dos anos 2000.

Toda a fantasia, todo o glamour que Hollywood e o mundo do show business vendem, tudo isso está ruindo por conta de uma série de escândalos, entre eles os casos Jeffrey Epstein e Puff Daddy. O véu de Maya foi rasgado. É o reino da Dinamarca mostrando as suas vísceras em alto grau de apodrecimento, parafraseando Shakespeare em sua obra Hamlet.

Comecemos pelo caso Puff Daddy.

O caso em questão estourou no segundo semestre de 2023, e diz respeito ao rapper e produtor musical novaiorquino Sean Combs, também conhecido pelas alcunhas de Puff Daddy e P.Diddy. Ou simplesmente Diddy.

Foto – Sean Combs, vulgo Puff Daddy/P.Diddy.

Recapitulemos um pouco da história de Combs. Oriundo do Harlem, tradicional bairro novaiorquino cuja história remonta aos tempos da Nova Amsterdam, Combs tem uma longa história não só como organizador de eventos, como também dentro do mundo da música.

Sua história como organizador de eventos começa no dia 28 de dezembro de 1991, quando ele organizou um jogo de basquete beneficente no City College de Nova York em parceria com Heavy D. O ginásio tinha capacidade máxima para 2730 pessoas. Só que algo deu muito errado nisso: cerca de 5000 pessoas tentaram entrar no local, no que ocasionou uma debandada que terminou com 9 mortos e 29 feridos.

Em 1993 Puff funda a gravadora Bad Boy Records, e por meio da Bad Boy Records lançou artistas como Usher, Mary J. Blige e Christopher George Latore Wallace, este último também conhecido como Biggie Smalls e The Notorious B. I. G. Nessa mesma época, o mundo do rap foi sacudido pela crescente rivalidade entre as costas leste e oeste. Mais precisamente entre Califórnia e Nova York, os principais cenários do rap e hip hop nos EUA à época.

Foto – Costa Leste x Costa Oeste.

À frente dessa guerra estavam duas gravadoras: a Bad Boy Records, liderada por Sean Combs e sediada em Nova York, e a Death Row Records, encabeçada por Suge Knight e sediada em Los Angeles. Episódio emblemático dessa contenda foi a premiação do Source Music Awards, ocorrida em Nova York no Paramount Theather, no dia 3 de agosto de 1995. No qual os artistas da costa oeste, entre eles Suge Knight e Snoop Dog, foram vaiados pela plateia.

Um dos principais artistas, se não o principal, da Death Row Records à época era Tupac Shakur (vulgo Lesane Parish Crooks). Novaiorquino de nascença, Tupac Shakur (também conhecido 2Pac) em um primeiro momento era amigo de Biggie Smalls. Sempre que ia à Califórnia Biggie dormia no sofá da casa de Tupac (à época já um cantor de certo renome e já tendo atuado em alguns filmes), e Tupac, por seu turno, quando ia a Nova York ia se encontrar com Biggie. Para Biggie, Tupac exerceu um papel de mentor musical à época.  

Mas um incidente veio a azedar de forma irremediável a relação entre os dois: o incidente no estúdio Quad, ocorrido no dia 30 de novembro de 1994. Tupac foi emboscado e baleado, e em fevereiro de 1995 foi preso por conta do incidente de abuso sexual envolvendo Ayanna Jackson dois anos antes. Apenas em outubro do mesmo ano que Tupac saiu da cadeia mediante fiança paga por Suge Knight.

Foto – Suge Knight.

Tupac passou a acreditar que Biggie e Puff tiveram alguma relação com o incidente, que eles sabiam de algo e não fizeram nada para impedir o ocorrido, e para jogar ainda mais lenha na fogueira Biggie lança em 1995 a música “Who Shot Ya?”. Dado o timing infeliz, Tupac achou que a música em questão era para ele, zombando dele por ele ter sido baleado e em seguida preso.

Em resposta, Tupac lançou a música “Hit em’ Up”, uma diss track (tipo de música feita para insultar e/ou expor outro artista) destinada especialmente a Biggie e Puff Daddy. No clipe de Hit em’ Up Biggie e Puff são interpretados por sósias (prática muito comum do rap da época). 

Tupac também caçoa de Biggie e Puff na música “2 of Americaz most wanted”, do álbum “All eyez on me”, em parceria com Snoop Dog. No clipe dessa música também vemos Biggie e Puff sendo vividos por sósias.

A tensão entre as costas com o passar do tempo foi se elevando, e era questão de tempo uma tragédia ocorrer.

No dia 7 de setembro de 1996, após voltar de uma luta de Mike Tyson (amigo pessoal de Tupac) no MGM Grand Arena, Tupac, acompanhado de Suge Knight, foi baleado nas ruas de Las Vegas. Os tiros vieram de um carro que o seguiu. Tupac tomou quatro tiros, foi hospitalizado, mas dada a gravidade de seus ferimentos veio a óbito seis dias depois. A mãe dele, a ex-militante do movimento dos Panteras Negras Afeni Shakur, vendo que estava diante de uma batalha perdida, resolveu por desligar os aparelhos que o mantinham vivo. Como não poderia deixar de ser, suspeitas e especulações de que Puff estivesse envolvido de alguma forma com a morte de Tupac surgiram.

Na madrugada do dia 9 de março do ano seguinte, foi a vez de Biggie (o qual estava para lançar seu segundo disco, Life After Death) nos deixar. Após voltar de uma festa organizada pela revista Vibe no Petersen Automotive Museum, ele foi baleado nas ruas de Los Angeles, quando o carro em que Biggie estava parou em um semáforo e tiros saíram de um carro Chevrolet Impala SS. Biggie tomou quatro tiros, foi levado às pressas ao hospital, e meia hora após ser hospitalizado foi declarado morto. E assim as duas maiores lendas da história do rap nos deixaram, de forma inglória e trágica, antes mesmo de completarem 30 anos de idade.

Foto – Tupac Shakur (direita) e Biggie Smalls (esquerda).

Tupac e Biggie deixaram este mundo, assim como tantos outros rappers que vieram a morrer em circunstâncias similares nos anos seguintes, tais como Fat Pat, Big L, DJ Uncle Al, Big Hawk (irmão mais velho de Fat Pat) e tantos outros (ainda que em situações sem relação direta com a guerra das costas). Assim como os casos de Tupac e Biggie, muitos desses casos continuam sem solução até hoje.

A Death Row Records faliu em 2008 e Suge Knight, por seu turno, foi preso em 2018 por homicídio culposo voluntário em um atropelamento fatal ocorrido três anos antes. Foi sentenciado a 28 anos de prisão e apenas em 2034 terá direito à liberdade condicional.

A mãe de Tupac, Afeni Shakur, nos deixou em 2016, sem que o caso da morte do filho fosse solucionado. A mãe de Biggie, Voletta Wallace, nos deixou em 2025, também sem ver solução alguma para o caso da morte do filho.

A cena de rap nos Estados Unidos, nos anos subsequentes, viu a primazia das costas leste e oeste ser questionada por meio da ascensão de novas cenas de rap, entre elas a costa sul.

Já Puff, ou se preferirem, o general Combs, no fim das contas, emergiu como o grande vitorioso da guerra das costas. Ele começou ainda nos anos 1990 a organizar festas que reuniam a nata do mundo do show business. Mais precisamente, a partir de 1998.

Entre 1998 a 2009, Puff foi o anfitrião de uma série de festas conhecidas como as festas brancas. É um tipo de festa, muito comum em Hollywood, nas quais os presentes vestem trajes brancos, dessa forma não sendo exclusividade do rapper.

As festas de Puff aconteceram na casa do rapper e produtor musical em East Hampton, Nova York, ao passo que a festa de 2006 aconteceu em Saint-Tropez no sul da França e a de 2009, a última delas, em Beverly Hills na Califórnia. Tais festas geralmente começavam de dia e duravam até as primeiras horas do dia seguinte, sendo patrocinados por marcas importantes que distribuíam mercadorias e produtos. Importantes celebridades, entre elas Paris Hilton, Justin Bieber, Mariah Carey, Usher, Leonardo di Caprio, Rihanna, Nick Minaj, as irmãs Kardashian, Ashton Kutcher, Will Smith, Naomi Campbell, Kanye West, Jay-Z e Beyoncé compareceram a tais festas. Jornalistas como Oprah Winfrey, atletas como Lebron James e Tiger Woods, políticos graúdos como Barack Obama, Hillary Clinton e Donald Trump e membros da realeza como o príncipe Harry também marcaram presença nessas festas.

Festa – Foto da primeira festa branca de Puff, datada de 1998. Leonardo di Caprio no centro.

Só que as festas de Puff Daddy, por trás de todo o luxo e o glamour por ele vendido, também tinham seu lado sombrio.

Narcóticos rolavam soltos nelas, assim como violência física, intercursos sexuais sem consentimento de uma das partes. Tudo isso regado a uma substância conhecida como óleo de bebê. Cerca de 1000 frascos dessa substância foram encontrados em uma batida policial feita na mansão de Puff em 2024. Em outras palavras, as festas de Puff Daddy era um verdadeiro bacanal. E a coisa não para por aí: filmagens eram feitas dos atuais sexuais que ocorriam nas festas. E com essas filmagens em mãos, Puff tinha um meio de chantagem em mãos, verdadeira carta na manga muito útil para eventuais complicações judiciais.

A fama das festas organizadas por Puff era tal que não passava despercebida. Haja vista, por exemplo, o filme “As branquelas” (originalmente White Chicks), estrelado pelos irmãos Shawn e Marlon Wayans. Há uma cena na qual o personagem de Marlon Wayans, se passando por uma mulher chamada Tiffany Wilson, é leiloado e diz que não ir a um encontro com um homem chamado Buff Daddy. Lembrando, a propósito, que no clipe da música “2 of Americaz most wanted” Tupac chama Puff de Buff, Biggie de Piggie e Faith Evans (esposa de Biggie e mãe dos dois filhos dele) de Paith.

Há um episódio de South Park, o episódio 11 da temporada 10, “Inferno na Terra 2006”, em que as festas dele são citadas. Nesse mesmo episódio, Biggie aparece como espécie de alma penada que é invocada sempre que o nome dele é dito três vezes em frente a um espelho.

As festas de Puff Daddy também aparecem em um episódio de Simpsons, o episódio 12 da temporada 28, intitulado “O grande Phatsby” e lançado em 2017. Phatsby é uma clara alusão ao personagem literário Gatsby, da obra “O grande Gatsby”, escrita por Francis Scott Fitzgerald e lançada em 1925. Na obra Gatsby é um bilionário conhecido por suas festas animadas e extravagantes que ele mesmo dava em sua mansão em Long Island. Ou seja, tudo a ver com Puff Daddy. Posteriormente, a obra de Fitzgerald ganhou várias adaptações para cinema, incluindo os filmes de 1926, 1949, 1974, 2000 e 2013 (este último com participação de Leonardo DiCaprio).

Foto – Mariah Carey (esquerda) e Puff Daddy (direita).

Em 2003, Puff adquire propriedades em Star Island em Miami, e 11 anos depois propriedade em Los Angeles. Mais precisamente, uma mansão em Holmby Hills, avaliada à época em US$ 40 milhões. Isso à primeira vista pode parecer algo anedótico e até irrelevante, sendo que na verdade possui grande significado do ponto de vista simbólico. Visto que Puff passou a morar na mesma Los Angeles na qual Biggie foi morto 17 anos antes e que era a sede da já finada Death Row na época da guerra das costas. Era como se Puff, como um general vencedor de uma guerra, tivesse hasteado seus estandartes no território do inimigo vencido, ainda que um tanto quanto tardiamente. E tão logo marcou terreno em Los Angeles, começou a dar festas em sua nova propriedade, algo certamente impensável nos anos 1990.

Só que chegou 2023 e o general Combs viria a enfrentar uma nova guerra. Uma guerra bem diferente daquela que ele estava acostumado. Se nos anos 1990 o general Combs comandou as hostes da Bad Boy Records em batalhas campais contra um adversário bem definido, no caso as hostes da Death Row Records, agora ele se viu diante de um novo tipo de guerra, a guerra de tribunal. Uma guerra de caráter assimétrico na qual teria de enfrentar juízes, promotores, advogados de acusação, acusadora e de brinde a justiça dos homens. A narrativa já não está mais do seu lado e o cerco estava definitivamente se fechando contra Puff. O jogo virou – o conquistador de outrora agora precisa defender suas conquistas.

No final de 2023 a cantora Cassie Ventura, namorada de Combs por muitos anos, o denunciou à justiça. Ela formalizou acusações de agressão sexual contra o produtor musical e rapper. Ventura também acusou Puff de forçá-la a ter relações com outros homens durante vários anos. Batidas policiais foram feitas nas propriedades de Puff em Nova York, Miami e Los Angeles.

Em maio de 2024, um vídeo que mostrava Puff agredindo a cantora foi divulgado, o que levou a um processo resolvido fora do tribunal. Entretanto, essa situação desencadeou uma série de novas denúncias de agressão sexual, gerando assim investigações adicionais sobre Puff.

Em 16 de setembro de 2024 Puff foi preso, e sobre ele pesaram acusações graves: tráfico sexual, extorsão, conspiração e transporte para fins de prostituição. Diddy declarou-se inocente, mas teve pedido de fiança negado. Visto que o tribunal destacou seu histórico de abuso de substâncias e acessos de fúria como riscos à sociedade.

No julgamento que se seguiu, Puff foi inocentado das acusações mais graves de sexual e racketeering (ser o chefe de uma associação criminosa), mas foi condenado por transporte para engajamento em prostituição. Ao fim do processo foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão. Hoje amarga prisão no Metropolitan Detetion Center, em Nova York.

Triste fim de Puff Daddy. Teve um começo humilde no Harlem, em Nova York. Ascendeu socialmente, tornou-se um dos homens mais bem relacionados do mundo do show business, lançou vários artistas, tornou-se anfitrião de festas extravagantes, mas ao ascender socialmente parece-me que ele se esqueceu de onde veio. E é bem razoável supor que os grão-finos do mundo do showbusiness certamente não o aceitavam no círculo deles, no máximo o toleravam e o olhavam com desdém e de cima para baixo por conta da origem humilde e por ele mesmo ser negro em um dos países mais racistas do mundo. E agora está preso na mesma Nova York de onde veio.

Puff Daddy foi preso. E uma série de perguntas fica no ar: e as celebridades que nesse tempo todo estiveram envolvidas com o rapper, como será que ficam? Elas vão sofrer alguma represália ou será que Puff no fim das contas vai virar o boi de piranha conveniente ao sistema? E será que Puff, assim como Epstein, na verdade era apenas a ponta do iceberg do sistema em questão, ou seja, a face visível do mesmo?

Foto – Puff Daddy (direita) e Cassie Ventura (esquerda).

sábado, 7 de março de 2026

Caso Orelha - Cachorro comunitário é uma farsa!

 

Foto – Orelha.

Recentemente, a morte do cachorro de rua Orelha, de cerca de 10 anos de idade, ocorrida em Praia Brava (bairro na região norte do município de Florianópolis, Santa Catarina) no dia 4 de janeiro do presente ano por quatro jovens, chocou o Brasil. O cachorro foi morto a pauladas e com requintes de crueldade. O animal, um cachorro vira-lata, foi encontrado com ferimentos graves, em seguida enviado a uma clínica veterinária e, dada a gravidade dos ferimentos, decidiu-se sacrificá-lo.

A repercussão deste incidente lamentável foi tal que no feed do meu perfil do Facebook praticamente só via o povo falando em Orelha. Orelha isso, Orelha aquilo, Orelha não sei o que, Orelha não sei aquilo, Orelha não sei mais o que. E isso me deixou com a pulga atrás da orelha, literalmente.

Me lembrou muito do dia em que veio à tona os podres da pastora Flordelis (vulgo Queturiene), incluindo o fato de ela ter sido a mandante do assassinato do segundo marido dela, o pastor Anderson do Carmo (vulgo Niel). O povo praticamente só falava em Flordelis (à época deputada federal pelo estado do Rio de Janeiro e aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro). Flordelis isso, Flordelis aquilo, Flordelis não o sei o que, Flordelis não sei aquilo, Flordelis não sei mais o que. E também fiquei muito incomodado com isso.

E ainda por cima já se passaram quase dois meses do ocorrido e ainda vejo o assunto Orelha em alta no meu feed de notícias do Facebook.

E vejam só: o povo só falando em Orelha e se esquecendo, por exemplo, do banco Master (escândalo de corrupção EM LARGA ESCALA que envolve altos figurões da política, do sistema judiciário, da imprensa e do sistema financeiro brasileiro, verdadeiro Banestado 2.0), do caso Jeffrey Epstein (que envolve altos figurões da política americana e israelense e da realeza europeia), do caso Sean Combs/Puff Daddy (no qual estão envolvidos altos figurões do mundo do show business e que escancara a extensão da podridão de Hollywood) ou das tensões no Oriente Médio (com potencial para levar o mundo a uma Terceira Guerra Mundial).

Mas não vou entrar no mérito das questões jurídicas e legais do caso. Nem dos projetos de lei que surgiram na trilha do caso Orelha. Muito menos pedir punição para os assassinos do cachorro. Isso é mais do mesmo. E mais do mesmo é chover no molhado. Vou sim entrar no mérito de questões que, no meio da comoção do caso, passam batidas e que o povão não se dá conta (ou será que ignora propositalmente e só quer saber de sentimentalismo e comoção barata nas redes sociais – afinal, é o que gera engajamento)?

Primeiro de tudo, acho que já está mais que na hora de pararmos de agir feito um gado acéfalo quando casos como esse ocorrem. Vou falar o que tem que ser dito a respeito desse caso, não o que o povão quer ouvir. Quem quiser ver sentimentalismo, indignação barata e pedidos por justiça por Orelha, procure outro lugar. Aqui a conversa é outra.

Primeiro de tudo, vamos nos lembrar que tipo de vida o finado Orelha levava, e usando as palavras certas. O pessoal fala por ai que Orelha era um cachorro comunitário, cuidado por moradores do local em que vivia.

Só que essa coisa de cachorro de comunitário nada mais é que um malabarismo, uma maquiagem lingüística, que certo pessoal usa para mascarar a realidade lamentável e degradante que cachorros de rua como ele vivem. E por mais que os ditos cachorros comunitários tenham alguns cuidados, isso não muda a situação concreta de que eles são cachorros de rua, sem dono nem um lar fixo. Isso é como perfumar excremento. O excremento não vai deixar de ser o que é só por que foi perfumado e agora tem cheiro agradável.



Portanto, surpresa zero o destino que Orelha teve. É o típico caso do cachorro de rua que morre nas mais diversas situações. Situações tais como atropelamentos por carros, ônibus, motos e caminhões, toda sorte de agressões por parte de pessoas, ferimentos decorrentes de lutas contra outros cachorros, doenças diversas, problemas relativos à velhice (isso quando chegam à idade avançada), fome, frio, entre outras tantas. A expectativa de vida de cães de rua é bem menor que a de cães que vivem em um lar sob os cuidados de uma família, geralmente em torno de 3 a 5 anos (quando sob os devidos cuidados cachorros têm uma longevidade bem maior – eu mesmo tive uma poodle que morreu aos 18 anos, e hoje tenho uma Lhasa Apso de 10 anos de idade).

E isso para não falar que cães de rua por vezes atacam pessoas, animais silvestres, se tornam eles mesmos selvagens, formam bandos com outros cães de rua e são transmissores de doenças como a raiva (que é uma doença incurável). Ou seja, são um problema de saúde pública e ambiental!

Fazendo uma pesquisa pela Internet sobre “cachorro comunitário”, descobri vários casos semelhantes com outros cachorros de rua, e que não geraram a mesma comoção do caso Orelha. Entre eles casos como o do cachorro Abacate (da cidade de Toledo, Paraná) e tantos outros. 





Quando se coloca a coisa em perspectiva, em um contexto mais amplo, aí se tem um entendimento mais claro da coisa toda. Sem sentimentalismo barato, nem nada.

E verdade seja dita – o dito “cachorro comunitário” que certos defensores de animais e políticos e ONGs a eles ligadas advogam e tentam emplacar por aí por meio de projetos de lei nada mais é que um cachorro que é de toda a comunidade, e ao mesmo tempo é de ninguém. Em outras palavras, é um cachorro sem dono, sem casa nem nada. Uma coisa bem Grande Reset e Agenda 2030 para o meu gosto, diga-se de passagem.

Foto – “Você não terá nada e será feliz sobre isso”. Assim disse Klaus Schwab, arauto do Grande Reset e da Agenda 2030.

Essa história de cachorro comunitário é, em realidade, uma grande farsa. Não existe cachorro comunitário, e sim cachorro abandonado nas ruas. Quando será que as pessoas vão se tocar da realidade? Entenderam, ou precisa desenhar? Aliás, o próprio Orelha morava em uma casinha de cachorro junto com outras duas ao lado. Casinha essa que não oferece proteção alguma quando, por exemplo, ocorre uma chuva forte com vento e a água voa para o teu lado. Nem mesmo contra temporais e vendavais fortes.

Chamar cachorro de rua de cachorro comunitário é que nem, por exemplo, chamar favela de comunidade. Uma maquiagem lingüística e nada mais.

Não é de hoje que em nome do politicamente correto certo pessoal começou a fazer maquiagem lingüística, que no fim das contas só muda o nome da coisa. Pessoas como a renomada professora e historiadora Lilia Schwarcz e até mesmo figurões do STF endossam esse tipo de coisa sob o pretexto de coisas como limpar o idioma da escravidão e do combate ao racismo. 


E a grande imprensa do nosso país também comunga com esse tipo de coisa, vide o caso da jornalista da Globo News Carolina Cimenti, que em 2022 tomou uma corrigida ao vivo após usar a palavra denegrir.

E não para por aí: há alguns anos acompanhei a uma novela do SBT, Poliana Moça (estrelada por Sophia Valverde e Igor Jansen), continuação de as aventuras de Poliana (ambas adaptações da série de livros Pollyanna, da escritora americana Eleanor H. Porter). E na novela há uma favela, a qual no texto da mesma é chamada de comunidade. Ou seja: a favela vira comunidade e o local continua tendo infraestrutura precária, ruas sujas e fedorentas, sem água, sem esgoto, casas amontoadas, moradores sem emprego, passando uma série de necessidades e ainda por cima intimidados e chantageados por bandidos como o Rato e a Cobra.

Uma das vozes que se insurgiram contra essas maquiagens lingüísticas é o professor José Paulo Netto. Em palestra datada de 2012, o professor de Juiz de Fora e militante histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB) classifica isso como “hipocrisia pequeno-burguesa”.

Pela direita, esse tipo de maquiagem lingüística é criticada por figuras como o professor Marco Antônio Villa. 

O rapper carioca MV Bill também faz denúncia similar na música “Favela vive parte 2”, datada de 2017 e feita em parceria com Funkero e BK.

Lá atrás começaram chamando favela de comunidade. Negro de afrodescendente. Índio de povo originário. O uso de palavras como denegrir e criado mudo passou a ser prescrito. E mais recentemente, a coisa escalou e hoje chamam o proprietário de um cachorro, gato ou coelho de tutor ao invés de dono e cachorro de rua de cachorro comunitário. Para ver como essa coisa de maquiagem lingüística começou há uns 15, 20 anos e foi escalando com o passar do tempo. E a tendência é a coisa piorar e escalar ainda mais se não houver um freio a essa situação.

E fecho este artigo com algo para deixar esses defensores de animais, entre eles a famigerada Luisa Mell (vulgo Marina Zats) e deputados da chamada causa animal que acham essa coisa de cachorro de rua lindo, p* da vida: antes esses cachorros fazendo truques em um circo ou em provas de obstáculos, ajudando cegos ou conduzindo gado em rodeios, vaquejadas e fazendas que abandonado nas ruas, sujeitos a todo tipo de agressão e maldades. Que nem os infelizes Orelha, Abacate e tantos outros.

E reiterando: não contem conosco para o politicamente correto! Maquiagem lingüística não é conosco.

Fontes:

Caso Orelha. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Orelha

O que é cachorro comunitário. Disponível em: https://www.petz.com.br/blog/cachorro-comunitario/

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O que era o Irã antes da revolução de 1979? (parte 2)

 

Foto – Bandeira da República Islâmica do Irã (imagem ilustrativa).

E agora, trago aqui um texto que eu mesmo encontrei no grupo do Facebook “Em defesa da República Islâmica do Irã”, de autoria de Rhainer Fernandes, sobre a hipocrisia de certos elementos da direita brasileira em torno do Irã (e por tabela também da Venezuela, da Coréia do Norte e tantos outros países). E mais comentários meus:

“O conservador liberal adora apontar o dedo para o Irã chamando-o de ‘ditadura islâmica’, como se estivesse fazendo uma defesa moral da civilização. Mas essa indignação acaba exatamente onde começa o alinhamento geopolítico com os EUA, porque a moral dele tem fronteira, tem aliado e conveniência.

O Irã é condenado não porque aplica leis religiosas, mas porque não é submisso. Porque não aceita ser americanizado. Porque insiste em ter um projeto próprio de Estado, mesmo que isso desagrade ao Ocidente. Já as verdadeiras ditaduras islâmicas, aquelas onde o salafismo é religião oficial e base jurídica do Estado, passam ilesas pelo radar moral do conservador liberal. Arábia Saudita e Catar não incomodam. Pelo contrário, são tratados como parceiros estratégicos. E isso é curioso, porque as leis nesses países são objetivamente mais rigorosas do que no Irã.

Na Arábia Saudita não existem eleições nacionais. Partidos políticos são proibidos; a tutela masculina sobre mulheres é ilimitada; a liberdade religiosa é praticamente inexistente fora do salafismo; execuções públicas continuam sendo prática do Estado; a sharia salafista é aplicada de forma literal, sem espaço para pluralismo interno.

No Catar, a conversão religiosa é criminalizada; a liberdade de expressão é severamente limitada; trabalhadores estrangeiros vivem sob regimes de exploração; a legislação moral é rígida e controlada diretamente pelo Estado.

Ainda assim, nenhum desses países desperta a fúria moral do conservador liberal. Nenhum vira símbolo do ‘atraso islâmico’. Nenhum vira alvo de campanhas por ‘libertação do povo’.

Isso acontece porque o conservador liberal não defende valores conservadores. Ele defende alinhamento geopolítico. Ele não julga regimes pelo que fazem internamente, mas por quem obedecem externamente. Se é aliado dos EUA, a ditadura vira ‘complexa’. Se é adversário, vira ‘tirania’.

Esse mesmo conservador, que vive discursando contra o progressismo e o wokismo, vira subitamente defensor dos direitos humanos quando países como Irã ou China aplicam leis de defesa moral ou civilizacional. Aí ele reproduz a linguagem da ONU, das ONGs e do globalismo. Ele só é conservador enquanto isso não entra em conflito com a hegemonia ocidental.

Valores, para ele, só são aceitáveis se forem homologados por Washington. Se os EUA fazem, é ‘liberdade’. Se um país soberano faz, é ‘opressão’.

O curioso é que os próprios EUA não são exemplos de moralidade pública, nem de coesão social, nem de defesa da família ou da tradição. Ainda assim, o conservador liberal aceita esse modelo como padrão civilizacional.

A hipocrisia atinge o auge quando esse mesmo personagem defende a derrubada do regime iraniano para resgatar o modelo do Xá Reza Pahlavi, ou melhor, do seu herdeiro. Um período marcado por submissão total ao Ocidente, drogas liberadas em festas elitizadas, bairros de prostituição institucionalizados e alienação cultural inspirada na libertinagem do Ocidente. Ou seja, ele quer restaurar um passado que jamais foi conservador, mas que servia bem aos interesses externos culturalmente libertinos.

O conservador liberal não é contra ditaduras. Se fosse, pediria intervenção nas monarquias salafistas do Golfo. Ele é contra regimes contra-hegemônicos. Contra qualquer povo que se recuse a aceitar o liberalismo, não apenas como economia, mas como filosofia de vida obrigatória.

Ele é conservador no discurso, liberal na submissão e progressista na repressão, desde que o alvo seja alguém resistindo à ordem liberal global. Por isso, o conservador liberal não é apenas contraditório, ele é uma piada, uma anomalia do próprio liberalismo.

Abaixo, fotos do bairro da luz vermelha, em Teerã nos anos 70, onde a prostituição era legalizada e o consumo de drogas era liberado em clubes noturnos antes da Revolução Islâmica”.








MEUS COMENTÁRIOS

Esse é um texto bem interessante, que mata a charada sobre a postura hipócrita desse pessoal da direita neocon (simpática aos EUA e Israel, em especial quando estes países são governados por políticos do Partido Republicano e do Likud, respectivamente) a respeito não só do Irã, como também de outros países como a Venezuela, Cuba, Coréia do Norte e outros tantos.

E o mais curioso de tudo é o ponto de convergência entre os esquerda e direita a despeito de discordâncias aqui e ali: se a esquerda alinhada com o Partido Democrata (representada no Brasil por partidos como o PSOL e o PT) acha lindo em nome da agenda político-ideológica deles quando países contra-hegemônicos são invadidos e bombardeados pelo Ocidente “livre e democrático” e em situações de revolução colorida gritam “fora Maduro”, “Assad tem que cair” e mantras afins quando determinado regime se fecha por uma questão de sobrevivência, a direita neocon (representada no Brasil por figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro) também pensa o mesmo em nome da agenda político-ideológica deles. Nisso, os dois blocos políticos hoje hegemônicos no Brasil, que fazem da política brasileira hodierna um puxadinho da política estadunidense, no essencial estão de acordo. Eles se completam um ao outro e formam uma unidade contraditória. O yin e o yang, o alfa e o ômega, Kami Sama e Piccolo Daimaō. As duas faces do deus Janus contrapostas entre si, no fim das contas.

Foto – as duas faces de Janus: diagrama de Venn sobre as convergências e divergências entre democratas e os republicanos nos EUA. No essencial, os dois bandos estão de acordo.

Para esses caras, como é dito no texto acima, o que importa é alinhamento com Estados Unidos e Israel e nada mais. O que é feito dentro de cada um por seus respectivos regimes, não importa. E, parafraseando o saudoso Paulo Henrique Amorim (que Deus o tenha), as ditaduras salafistas do Golfo Pérsico não vem ao caso para esses caras. Afinal, os monarcas desses países são amiguinhos de EUA e Israel. Assim como eram, por exemplo, os presidentes da Venezuela na época da República de Punto Fijo da qual eles também demonstram saudosismo, a ponto de achar que a nação caribenha vinha bem naquela época. Até mesmo a Cuba de antes da revolução de 1959 eles idealizam.

Em 1990, foi lançado nos Estados Unidos pela Eclipses Enterprise uma coleção de cartas chamada “Friendly Dictators”. Com ilustrações de Bill Sienkiewicz, o jogo contem 36 cartas ao todo, sendo uma carta de apresentação do jogo e mais 35 apresentando diversos ditadores que foram amigos dos Estados Unidos da América (tanto com republicanos quanto com democratas na presidência da república), de diversas partes do globo. E entre esses ditadores, o xá Reza Pahlevi.

No jogo em questão, Reza Pahlevi aparece junto de nomes como o imperador etíope Haile Selassie (o mesmo que era cultuado como se fosse uma espécie de divindade messiânica pelo movimento rastafari, ao qual Bob Marley dedicou em 1976 a música “Jah Live”), o boliviano Hugo Banzer, o alemão Adolf Hitler (por conta dos negócios de companhias americanas com os nazistas tanto antes quanto durante a guerra), os haitianos Papa Doc e Baby Doc, o zairense Mobutu Sese Seko, o chileno Augusto Pinochet, o cubano Fulgencio Batista, o argentino Jorge Videla, o brasileiro Humberto Castelo Branco, o espanhol Francisco Franco, o dominicano Rafael Trujillo, entre muitos outros.

Aliás, falando em Haile Selassie, vale lembrar que o último imperador etíope marcou presença na festa de 2500 anos de fundação do Império Persa, organizada pelo próprio xá Reza Pahlevi nas ruínas de Persépolis, a capital do Império Persa no período Aquemênida. E que Selassie foi deposto antes mesmo do xá, em 1974. Dessa forma, podemos dizer que a festa de 2500 anos de fundação do Império Persa foi a festa de despedida de coroa não apenas de uma, mas de duas monarquias: a etíope e a iraniana, ambas derrubadas por processos revolucionários nos anos 1970.

Segundo o jogo de cartas colecionáveis em questão, o xá Reza Pahlevi é apresentado da seguinte forma (tradução feita por mim):

“Mohammad Reza Pahlevi

Xá do Irã, Rei dos Reis

1953 foi um ano agitado para Allen Dulles. Mesmo enquanto ele preparava a CIA para um golpe na Guatemala (veja carta 9), seus agentes estavam derrubando o governo liberal-esquerdista de Dr. Mohammad Mossadeq e pavimentando o caminho para o xá do Irã. Com o incentivo de Dulles, o xá fez ao povo iraniano uma oferta que eles não podiam recusar – aderir a sua causa ou ir à cadeia. Milhares que se recusaram a ceder foram presos ou assassinados. Durante as eleições regionais em 1954, os agentes do xá atacaram uma escola religiosa e atiraram centenas de estudantes para a morte do telhado. Seu regime recebeu 100% da votação naquele ano, em uma eleição na qual foram registrados mais votos que votantes.

A subsequente consolidação do poder do xá levou a um governo de punho de ferro imposto por medo e tortura. Sua agência de polícia secreta, a SAVAK, foi criada em 1957 e operado pela CIA em todos os níveis de operação diária, incluindo a escolha e organização de pessoal, seleção e operação de equipamento, e gerenciamento de agentes. Os métodos de tortura da SAVAK incluíam choques elétricos, açoitamento, espancamentos, inserção de vidro quebrado e despejo de água fervente no reto, amarração de pesos aos testículos, e a extração de dentes e unhas.

O Irã sob o xá virou um aliado devoto dos EUA e uma base de operações de espionagem na fronteira com a União Soviética. Mas eventualmente o xá foi deposto em 1978 por uma revolução popular autóctone que se manteve no poder até que o líder religioso fundamentalista aiatolá Khomeini voltou ao Irã do exílio e reafirmou seu poder durante a crise dos reféns americanos de 1979”.

E, diga-se de passagem, essa prática dos “ditadores amigos” não é exclusividade dos Estados Unidos. Outros países do Ocidente tão “livre e democrático” como a Inglaterra, a França e Israel também tem suas relações espúrias com seus ditadores amigos. Vide as relações da França com ditaduras em suas ex-colônias na África (como com a dinastia Bongo no Gabão, Paul Biya em Camarões e Blaise Campaoré em Burkina Fasso), ou de Israel com o próprio Irã na época do xá e com a África do Sul na época do apartheid.

Algo digno de nota é a carta de desculpas de Jair Bolsonaro ao embaixador de Israel no Brasil em 2014, depois que Dilma condenou as ações de Israel na Faixa de Gaza.

Foto – A carta de desculpas de Bolsonaro ao embaixador de Israel, datada de 25 de julho de 2014.

Vejam que interessante e até irônico. Nessa carta, Bolsonaro, à época deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, condena no penúltimo parágrafo as relações do Brasil durante as administrações petistas com países como Coréia do Norte, Irã, Cuba, Líbia, Venezuela, Bolívia, China, Rússia, Síria, Zimbábue e Belarus, ao embaixador de um país que era aliado da África do Sul no tempo do apartheid, do Irã na época do xá Reza Pahlevi (e sem contar que na guerra Irã-Iraque Israel apoiou o Irã por meio do esquema Irã-Contras, quando a nação persa já era governado pela atual república islâmica), da Nicarágua na época da dinastia Somoza, regimes cívico-militares na América Latina, entre outros. Ou seja, Israel também tem seu histórico de ditadores amigos pelo mundo. Paradoxal, não?


E nem vou entrar no mérito da questão do terrorismo, sobre a qual abordei em textos anteriores. Como se vê, coerência não é o forte dessa gente.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O que era o Irã antes da Revolução de 1979?

 

Foto – aiatolá Ali Khamenei.

Recentemente, o Irã foi sacudido por protestos em várias partes do país, objetivando a derrubada do regime vigente por lá desde 1979, data da revolução islâmica que derrubou o regime do xá Reza Pahlevi. E o apoio do Ocidente “livre e democrático” aos mesmos é bem evidente.

Não vou entrar no mérito das motivações iniciais dos protestos, nem da evolução ulterior deles. Mas o fato é que, nesse ínterim, andei vendo umas coisas bem, digamos, bizarros no feed de notícias da minha conta no Facebook (o qual parece apoiar uma mudança de regime no Irã favorável ao Ocidente “livre e democrático”) e no You Tube. Como não poderia deixar de ser, elementos ligados à direita, do alto da tacanhice e estupidez bem típica deles, apoiam o motim colorido em curso no Irã. Também tive o desprezar de ver postagens de André Lajst, embaixador do exército israelense no Brasil, apoiando a queda do regime iraniano e lembrando da amizade que outrora havia entre Irã e Israel na época do xá.

Como também vi alguns esquisitões monarquistas, entre eles o Luiz Phillipe de Orleans e Bragança (herdeiro da família real brasileira e deputado federal pelo Partido Liberal; vulgo príncipe sem reino), defendendo a queda do regime iraniano (como também a do regime bolivariano na Venezuela). Em outros textos, este figurão adota um discurso de matiz neocon claramente de ódio para o Islã. De tal forma que se Dom Pedro II os lesse, teria vergonha de seu descendente. O mesmo Dom Pedro II que visitou o Egito, a Palestina, a Síria e o Líbano (à época partes do Império Otomano) em 1871 e 1876-77, era fluente em árabe, abriu as portas do Brasil à imigração de origem árabe e até traduziu para o português o clássico da literatura árabe “As mil e uma noites”.

Tais partidários da monarquia, obviamente, advogam para o Irã a volta da monarquia e da dinastia que lá reinava até 1979, os Pahlevi, sob a alegação de que a derrubada do poder deles não tirou a legitimidade do trono deles. Já que eles acham que o Irã com os Pahlevi no poder era uma maravilha, gostaria de lembrar neste texto a essas pessoas o que era Irã na época do xá. Assim como eu fiz no texto passado em relação àqueles que acham que a Venezuela da Quarta República (1958 – 1999) era uma maravilha, entre eles o Marcelo Andrade.

A história começa no ano de 1951. Naquele mesmo ano, Mohammad Mossadegh é designado como Primeiro-Ministro do Irã, e uma vez Primeiro-Ministro ele, entre outras coisas, nacionaliza no dia 15 de março (data essa que após a revolução de 1979 foi transformada em feriado nacional no Irã) daquele ano com aprovação do parlamento iraniano a produção de petróleo iraniano, à época explorado por companhias estrangeiras, em especial inglesas e norte-americanas. A companhia Anglo-Iranian Oil Company (posteriormente rebatizada de British Petroleum), é extinta e a exploração de petróleo passa para as mãos do Estado iraniano.

Isso levou a um conflito inexorável com o Reino Unido e os Estados Unidos. Mossadegh despediu todos os especialistas e conselheiros ingleses, e em outubro de 1952 rompeu relações diplomáticas com o Reino Unido. Em resposta, EUA e Reino Unido declararam boicote ao petróleo iraniano e começaram a preparar um golpe de Estado no Irã.

A Operação Ajax, encabeçada pela CIA, é iniciada com vistas à deposição de Mossadegh. No Irã, monumentos ao xá (àquela altura rompido com Mossadegh) foram derrubados e este fugiu para Bagdá e em seguida para Roma. Ao fim, Mossadegh foi deposto em 19 de agosto e em seu lugar entra o general Fazlollah Zahedi, que cancelou as reformas de Mossadegh e devolveu as concessões de exploração de petróleo às companhias inglesas e estadunidenses e restabeleceu relações diplomáticas com os dois países.

Mossadegh, por seu turno, ao ser deposto foi também condenado por traição estatal e sentenciado a três anos de prisão. Passou seus últimos anos de vida em prisão domiciliar até falecer no dia 5 de março de 1967, em Ahmedabad (cidade próxima a Teerã).

Foto – Mohammed Mossadegh (1882 – 1967).

Uma vez deposto Mossadegh, o xá volta ao Irã e o poder da monarquia iraniana cresce de forma exponencial. Um regime pró-Ocidente e visceralmente anti-comunista e de terror de estado é implementado no Irã, com este se tornando um dos principais aliados de EUA e Inglaterra na região da Ásia Ocidental.

Aliás, é bem interessante notar que certos elementos da direita brasileira (que tendem a apoiar os Estados Unidos e Israel, em especial quando ambos os países são governados por políticos do Partido Republicano e do Likud) se queixam de que o atual regime iraniano é repressivo sobre opositores políticos, sendo que o regime do xá que eles querem de volta ao Irã fazia exatamente a mesmíssima coisa. Era um regime de terror de estado em nada diferente, por exemplo, das ditaduras cívico-militares no Cone Sul, do Haiti na época da dinastia Duvalier (Papa Doc e seu filho Baby Doc), da Indonésia na época de Suharto, do Zaire na época de Mobutu, da Bolívia na época de Hugo Banzer, das Filipinas na época de Ferdinando Marcos ou mesmo da Colômbia sob governos como o de Álvaro Uribe.

O seguinte texto, extraído da página do Facebook “Patria Grande Latinoamericana” e por mim traduzido do espanhol, mostra bem o que foi a SAVAK (sigla para Sāzemān-e Ettalā’āt va Amiyat-e Kešvar; em português Organização de Segurança e Inteligência Nacional), a polícia secreta do regime do xá:

“SAVAK, a brutal polícia secreta do xá com selo ocidental

A história da repressão no Irã durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlevi pode soar bastante familiar para as vítimas das ditaduras latino-americanas e todas elas têm algo em comum: foram criadas com apoio do Ocidente.

▪️ Vigente de 1957 a 1979, os agentes da polícia secreta do SAVAK – serviço de inteligência e segurança interior do Irã – semearam o terror na população, torturaram e assassinaram a milhares de pessoas sem julgamento.

▪️ A SAVAK foi estabelecida oficialmente em 20 de março de 1957. Entretanto, o núcleo desta estrutura, sob a direção de especialistas estadunidenses, se formou vários vários anos antes.

▪️ O primeiro chefe da Polícia secreta do xá foi Teymur Bakhtiyar, durante o golpe de Estado de 19 de agosto de 1953, comandou uma brigada blindada que participou na execução dos manifestantes anti-xá em Teerã.

▪️ Os oficiais da SAVAK foram treinados pelos serviços especiais dos EUA, do Reino Unido e de Israel; inclusive foi ensinado a eles a torturar ‘corretamente’.

▪️ A revista Time em fevereiro de 1979, durante o derrocamento do xá, descreveu a SAVAK como ‘a instituição mais odiada e perigosa do Irã’ que ‘tortura e matou a milhares de oponentes do xá’.

▪️ Em Teerã havia duas prisões da SAVAK: no distrito Evin e o centro de detenção preventiva, no coração da capital. Ambos construídas por arquitetos alemães e apoio israelense.

▪️ As instalações do centro de detenção preventiva foram criadas para levar ao máximo o terror: as câmaras de torturas estavam orientadas de tal modo que os gritos dos torturadores iam direto às celas dos detidos.

▪️ As celas eram estreitas, sem ventilação, cadeiras, mesas e muito menos camas. Os detidos dormiam amontoados no concreto frio.

▪️ A partir de 1972, este centro de tortura foi administrado por um dos departamentos da SAVAK: o Comitê Conjunto contra Sabotagem. Era a estrutura mais perversa da Polícia secreta, onde serviram investigadores e torturadores profissionais treinados por especialistas do Serviço de Segurança interna israelense Shabak.

▪️ Os prisioneiros eram açoitados com cabos elétricos, pendurados pelas mãos ou pés, afogados, torturados com eletricidade, vidros quebrados, água fervendo, submetidos a espancamentos para quebrar os ossos, lhes arrancavam os dentes, unhas. Uma das formas mais sádicas de intimidação era cortar o crânio de uma pessoa viva. O centro Evin tinha tubulações especialmente conectadas às celas, através das quais era possível fornecer ar excessivamente frio ou demasiadamente quente.

▪️ As salas de interrogatório contavam com pequenas jaulas de metal onde os detidos eram colocados em seu interior e se ligava a eletricidade a qualquer momento durante longas seções de tortura.

▪️ De 1972 a 1979, as cifras mais conservadoras falam de mais de 8 mil pessoas torturadas no Centro de Detenção Preventiva, entre elas o atual líder espiritual do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Entretanto, a cifra pode ser ainda maior, afinal, ali se levaram a cabo milhares de execuções sem julgamento: as pessoas eram simplesmente levadas para lá e nunca mais se soube delas.

▪️ Nos calabouços, além dos homens, havia mulheres e crianças. Nem todos tinham relação com a oposição, intelectuais foram presos simplesmente porque ‘sabiam ler livros’.

🇮🇷 Um pouco de história sobre EUA, Irã e o xá da Pérsia

Os EUA sempre quiseram a ‘democracia’ para o Irã, por isso em 1953 organizou um golpe de Estado para derrubar a Mohammad Mossadegh, que àquela altura era o primeiro ministro eleito democraticamente pelo povo persa.

Mossadegh, eleito em 1951, foi muito popular e seu governo se caracterizou por suas mudanças profundas na sociedade iraniana. Seu ‘pecado’ foi a nacionalização do petróleo explorado por BP (British Petroleum).

Após o golpe de Estado organizado e financiado pela CIA e encorajado pelo MI6 britânico, se estabeleceu uma ditadura com o xá Mohammad Reza Pahlavi à frente.

Este ditador ordenou a prisão de Mossadegh, primeiro na cela e depois domiciliar até sua morte, enterrando-o no pátio de sua casa por sua popularidade e para evitar excessos.

E para os que falam sobre o quão bom a monarquia de Pahlevi era, os convidamos a ler um artigo nosso sobre a SAVAK, a brutal polícia secreta do xá com selo ocidental.

O XÁ e Mossadegh condenado à perpétua”.



Foto – Emblema da Savak.

Segundo publicação da revista Time datada de 19 de fevereiro de 1979, a Savak tinha cerca de 5 mil membros. A Savak operou de 1957 até 1979, quando foi dissolvida por Šapur Bakhtiyar[1], o último primeiro-ministro iraniano. Em seu lugar, foi instituído o atual ministério de inteligência da República Islâmica do Irã, em operação desde 1983.

Algo igualmente digno de nota é o que o regime do xá fez em 1971, mais precisamente entre entre os dias 12 a 16 de outubro, durante as festividades da comemoração dos 2500 anos da fundação do Império Persa Aquemênida.

A área escolhida para as celebrações foi a cidade de Persépolis, capital do Império Persa à época da dinastia Aquemênida (550 – 330 a. C.), hoje ruínas no meio de um deserto situado a 70 quilômetros a nordeste da cidade de Shiraz (província de Fars).

Para o evento em questão, o aeroporto de Shiraz foi ampliado e renovado e uma rodovia foi construída ligado Shiraz a Persépolis, além de outra para ligar Persépolis à capital Teerã. Como forma de amenizar o clima árido do local, foram importadas e plantadas 15 mil árvores da França, aviões carregados de pesticidas derramaram produtos químicos num raio de 30 quilômetros para matar cobras, escorpiões e outros animais perigosos. Um campo de golfe também foi preparado.

Tendas luxuosas inspiradas nas tendas luxuosas em que Henrique VIII esteve quando foi hóspede de Francisco I da França, no século XVI, foram erguidas para os convidados de fora. Tais tendas foram construídas de material específico resistente ao calor e ao frio e equipadas com aparelhos como telefones e ares condicionados.

Ao centro uma enorme fonte d’água central foi erigida, na qual desembocavam todas as tendas. Cerca de 50 mil pássaros canoros foram importados, com vistas a dar mais “naturalidade” a esse oásis artificial (a maioria deles morreu em questão de poucos dias por conta do clima extremo da região).

Convidados de várias partes do mundo vieram às festividades. Entre eles o vice-presidente estadunidense Spiro Agnew, o premiê da França Jacques Chaban-Delmas, o cardeal Maximilien von Fürstenberg, o imperador da Etiópia Haile Selassie (o qual veio a ser deposto do trono etíope em 1974) acompanhado de sua esposa e cachorro de estimação, o rei do Nepal, rei Hussein da Jordânia, o sultão do Omã, rei da Malásia, reis e rainhas da Suécia, Dinamarca, Países Baixos e Bélgica, o ditador das Filipinas Ferdinando Marcos e sua esposa, o líder iugoslavo Josip Broz Tito, entre muitos outros convidados. O Brasil enviou à festividade o então presidente Emilio Garrastazu Médici. A rainha da Inglaterra, Elizabeth II, se ausentou do evento, no que quase causou uma crise diplomática entre o Reino Unido e o Irã. A situação foi resolvida por meio do envio do Príncipe Phillip e da Princesa Anne.

Para alimentar toda essa gama de ilustres convidados, foi contratado o time do Restaurante Maxim, de Paris, à época considerado o melhor do mundo. Foram enviadas ao local do evento 18 toneladas de comida, sendo 2700 quilos de bife, porco e cordeiro, 1280 quilos de aves diversas, e apenas 150 quilos de caviar, o único prato iraniano no cardápio do evento. Também foram trazidos ao local garrafas diversas de vinhos, conhaques e outras bebidas alcoólicas.

Ao final dos três dias, muito da comida sobrou, indo a maior parte direto para o lixo. O xá tinha planos para fazer do local uma atração turística, com vistas a hospedar turistas que fossem visitar Persépolis. Só que a situação foi tal que foi impossível o plano ir adiante, visto que a cidade-tenda agora estava suja, inóspita, verde findando, lotada de pássaros mortos e numa localização nada agradável.

O clero xiita islâmico do Irã logo reagiu, e de forma contundente: o evento foi chamado de “A festa do demônio”. E entre os líderes que criticaram o evento estava o aiatolá Khomeini.

No fim das contas, o evento, inicialmente planejado para ser usado como propaganda para promover o regime do xá, gerou o efeito contrário. Visto que a comemoração foi extremamente impopular entre a população iraniana que ficou de fora do mesmo (excetuando-se funcionários, militares, membros do governo e a família real). Calcula-se que o evento tenha custado aos cofres iranianos entre 12 a 150 milhões de dólares (segundo estimativas variadas).

No fim das contas, a festa que celebrou os 2500 anos de fundação do Império Persa Aquemênida acabou ajudando a selar o destino ulterior da monarquia iraniana, anos mais tarde. Uma festa na qual se esbanjou e ostentou muito luxo enquanto que a maioria da população iraniana vivia em situação precária, flagelada por problemas como pobreza, analfabetismo e fome. O xá e sua família de costas para o Irã profundo, e de frente para o Ocidente “livre e democrático”. No melhor estilo “They don’t care about us”.

Pode-se até dizer que o xá, em sua ânsia por projetar o Irã no mundo por meio de um evento dessa magnitude, no longo prazo cavou sua sepultura política. Podemos também dizer que o evento em questão foi (guardadas as devidas proporções) para a monarquia iraniana o que o baile da ilha fiscal em 1889 foi para a monarquia brasileira.

Foto – Festa de 2500 anos da monarquia persa, 1971.

Não custa lembrar também que na época do xá em cidades como Teerã havia bairros da luz vermelha e consumo de drogas em casas noturnas, entre outros flagelos. Tal como na Venezuela da época da República de Punto Fijo, o dinheiro da exploração do petróleo apenas enriquecia uma pequena elite local e petroleiras gringas, ao passo que grande parte da população vivia em situação precária. E soma-se a isso a questão da crescente ocidentalização do Irã apoiada pelo regime do xá, na qual o uso de vestimentas como o hidžab foi proibido.

Toda essa situação de insatisfação popular com o que vinha acontecendo no Irã (terror de estado, pobreza, decadência moral, ingerência estrangeira, aculturação da nação), à época levou à queda da monarquia iraniana e à Revolução que instaurou a República Islâmica do Irã. O xá, por seu turno, fugiu do Irã e morreu no Egito em 1981, vítima de câncer.

Para termos noção da importância do processo liderado pelo aiatolá Khomeini em 1979, um texto datado de 2010 no blog Arcana Coelestia Universalia traz a seguinte passagem:

“A meu juízo, a Revolução Islâmica salvou o Irã não apenas da tenebrosa ditadura de Reza Pahlevi, mas, sobretudo, d’algo infinitamente pior: o mergulho no báratro da desagregação espiritual e cultural d’uma civilização milenar. Pahlevi estava simplesmente DESTRUINDO a própria essência primordial da nação iraniana, assim como antes, por exemplo, Kemal Atatürk arrasara séculos de tradição otomana na Turquia; destarte, a Revolução Islâmica não apenas ‘resgatou’ política e socialmente o Irã, mas efetivamente RESSUSCITOU a alma de toda uma nação”.

E o resto é história.

Foto – capa da revista Manchete datada de 1979 com o aiatolá Khomeini na capa.

Para fechar o presente texto e saltando para os dias hodiernos, gostaria de fazer uma pergunta a esses sujeitos que em redes sociais como o Facebook, o Instagram e o X (antigo Twitter) clamam pela queda do regime iraniano e até mesmo para que EUA e Israel lá intervenham militarmente: acaso caindo o regime dos aiatolás a situação do Irã (que há muito tempo sofre com problemas decorrentes de sanções econômicas e crise hídrica) vai melhorar? Eu acho que não, e é só olhar para o que virou, por exemplo, o Iraque após a queda de Saddam Hussein em 2003 após a invasão anglo-americana. O que virou a Líbia depois da queda de Muammar al-Kadaffi em 2011, após o país ser invadido por EUA, França e Inglaterra. O que a Síria virou desde que Bašar al-Assad foi deposto do poder em 2024. O que viraram países como a Tunísia e a Egito desde o início da primavera árabe (vulgo pesadelo árabe). Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando.

É isso que vocês querem para o Irã? Que o Irã vire um estado falido tal qual aconteceu com os citados países? E nisso criando um efeito domínio sobre a região da Ásia Média, fazendo com que esta última entre em uma espiral de instabilidade, caos e destruição? Da Ásia Média para essa onda se alastrar por China, Índia, Paquistão, Rússia e até mesmo a Europa é praticamente um pulo. Ou será que no fim das contas o que vocês querem mesmo é ver o sonho molhado de vocês se tornar realidade: Israel virar o Grande Israel se estendendo do Nilo ao Eufrates, e com o aval do Ocidente “livre e democrático”?

E para quem clama pela volta da monarquia iraniana: vocês não percebem que a monarquia iraniana, caso volte, não passará de um regime títere, um governo Quisling a serviço de Israel e dos EUA? Tal como o regime do xá foi lá atrás, antes da revolução de 1979 liderada pelo aiatolá Khomeini? Ou será que isso não vem ao caso a vocês?

Acho que não dá para esperar muito dessa gente. No fim das contas, essa gente que idealiza o regime do xá e quer a volta da monarquia para o Irã é em essência a mesma gente que acha, por exemplo, que a Venezuela era um paraíso na época da putrefata e corrupta República de Punto Fijo, derrubada pelo comandante Chávez em 1998. Que Cuba de antes da revolução de 1959 liderada por Fidel Castro também era uma maravilha. Como também a Líbia de antes da revolução de 1969, o Egito de antes da revolução de 1952, entre tantos outros exemplos que podem ser citados.

Ao fim e a cabo, tanto a dinastia Pahlevi no Irã quanto a República de Punto Fijo na Venezuela, o regime de Fulgencio Batista em Cuba, entre outros, foram derrubados antes de tudo por conta do peso de suas contradições internas. E não por que veio do nada malvadões revolucionários como Nasser, Kadaffi, Fidel Castro, Khomeini e Hugo Chávez e acabou com tudo.

Foto – comparativo entre o Irã atual e o Irã da época do xá Reza Pahlevi.

Fontes:

“A festa de Satã” – o 2500º aniversário de fundação do Império Persa e a extravagância do xá. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/a-festa-de-sata-do-xa/

A propósito das ideias políticas de Khomeini. Disponível em: https://worden.blogspot.com/2010/04/proposito-das-ideias-politicas-de.html

Celebração dos 2500 anos do Império Persa. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Celebra%C3%A7%C3%A3o_dos_2.500_Anos_do_Imp%C3%A9rio_Persa

D. Pedro II no Líbano. Disponível em: https://academiafriburguensedeletras.blogspot.com/2016/01/d-pedro-ii-no-libano.html

Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir obra do árabe, diz pesquisa. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/noticias/dom-pedro-ii-foi-1-a-traduzir-obra-do-arabe-diz-pesquisa/575605545

Friendly dictators (em inglês). Disponível em: Friendly Dictators

Mohammed Mossadegh. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mohammed_Mossadegh

Savak. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/SAVAK

NOTA:

[1][1] Leia-se “Barrtiyar”. No farsi o dígrafo kh tem som de r aspirado forte.