Blog sobre política de modo geral, com a intenção de mostrar visões alternativas ao que a grande mídia passa sobre certos fatos que ela periodicamente noticia e que as pessoas muitas vezes comem sem saber do que se trata.
Recentemente, a morte do cachorro de rua Orelha, de cerca de
10 anos de idade, ocorrida em Praia Brava (bairro na região norte do município
de Florianópolis, Santa Catarina) no dia 4 de janeiro do presente ano por
quatro jovens, chocou o Brasil. O cachorro foi morto a pauladas e com requintes
de crueldade. O animal, um cachorro vira-lata, foi encontrado com ferimentos
graves, em seguida enviado a uma clínica veterinária e, dada a gravidade dos
ferimentos, decidiu-se sacrificá-lo.
A repercussão deste incidente lamentável foi tal que no feed
do meu perfil do Facebook praticamente só via o povo falando em Orelha. Orelha
isso, Orelha aquilo, Orelha não sei o que, Orelha não sei aquilo, Orelha não
sei mais o que. E isso me deixou com a pulga atrás da orelha, literalmente.
Me lembrou muito do dia em que veio à tona os podres da
pastora Flordelis (vulgo Queturiene), incluindo o fato de ela ter sido a
mandante do assassinato do segundo marido dela, o pastor Anderson do Carmo
(vulgo Niel). O povo praticamente só falava em Flordelis (à época deputada
federal pelo estado do Rio de Janeiro e aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro).
Flordelis isso, Flordelis aquilo, Flordelis não o sei o que, Flordelis não sei
aquilo, Flordelis não sei mais o que. E também fiquei muito incomodado com
isso.
E ainda por cima já se passaram quase dois meses do ocorrido
e ainda vejo o assunto Orelha em alta no meu feed de notícias do Facebook.
E vejam só: o povo só falando em Orelha e se esquecendo, por
exemplo, do banco Master (escândalo de corrupção EM LARGA ESCALA que envolve
altos figurões da política, do sistema judiciário, da imprensa e do sistema
financeiro brasileiro, verdadeiro Banestado 2.0), do caso Jeffrey Epstein (que
envolve altos figurões da política americana e israelense e da realeza
europeia), do caso Sean Combs/Puff Daddy (no qual estão envolvidos altos
figurões do mundo do show business e que escancara a extensão da podridão de
Hollywood) ou das tensões no Oriente Médio (com potencial para levar o mundo a
uma Terceira Guerra Mundial).
Mas não vou entrar no mérito das questões jurídicas e legais
do caso. Nem dos projetos de lei que surgiram na trilha do caso Orelha. Muito
menos pedir punição para os assassinos do cachorro. Isso é mais do mesmo. E
mais do mesmo é chover no molhado. Vou sim entrar no mérito de questões que, no
meio da comoção do caso, passam batidas e que o povão não se dá conta (ou será
que ignora propositalmente e só quer saber de sentimentalismo e comoção barata
nas redes sociais – afinal, é o que gera engajamento)?
Primeiro de tudo, acho que já está mais que na hora de
pararmos de agir feito um gado acéfalo quando casos como esse ocorrem. Vou
falar o que tem que ser dito a respeito desse caso, não o que o povão quer
ouvir. Quem quiser ver sentimentalismo, indignação barata e pedidos por justiça
por Orelha, procure outro lugar. Aqui a conversa é outra.
Primeiro de tudo, vamos nos lembrar que tipo de vida o
finado Orelha levava, e usando as palavras certas. O pessoal fala por ai que
Orelha era um cachorro comunitário, cuidado por moradores do local em que
vivia.
Só que essa coisa de cachorro de comunitário nada mais é que
um malabarismo, uma maquiagem lingüística, que certo pessoal usa para mascarar
a realidade lamentável e degradante que cachorros de rua como ele vivem. E por
mais que os ditos cachorros comunitários tenham alguns cuidados, isso não muda
a situação concreta de que eles são cachorros de rua, sem dono nem um lar fixo.
Isso é como perfumar excremento. O excremento não vai deixar de ser o que é só
por que foi perfumado e agora tem cheiro agradável.
Portanto, surpresa zero o destino que Orelha teve. É o típico
caso do cachorro de rua que morre nas mais diversas situações. Situações tais
como atropelamentos por carros, ônibus, motos e caminhões, toda sorte de
agressões por parte de pessoas, ferimentos decorrentes de lutas contra outros
cachorros, doenças diversas, problemas relativos à velhice (isso quando chegam
à idade avançada), fome, frio, entre outras tantas. A expectativa de vida de
cães de rua é bem menor que a de cães que vivem em um lar sob os cuidados de
uma família, geralmente em torno de 3 a 5 anos (quando sob os devidos cuidados cachorros
têm uma longevidade bem maior – eu mesmo tive uma poodle que morreu aos 18
anos, e hoje tenho uma Lhasa Apso de 10 anos de idade).
E isso para não falar que cães de rua por vezes atacam
pessoas, animais silvestres, se tornam eles mesmos selvagens, formam bandos com
outros cães de rua e são transmissores de doenças como a raiva (que é uma
doença incurável). Ou seja, são um problema de saúde pública e ambiental!
Fazendo uma pesquisa pela Internet sobre “cachorro
comunitário”, descobri vários casos semelhantes com outros cachorros de rua, e
que não geraram a mesma comoção do caso Orelha. Entre eles casos como o do
cachorro Abacate (da cidade de Toledo, Paraná) e tantos outros.
Quando se
coloca a coisa em perspectiva, em um contexto mais amplo, aí se tem um
entendimento mais claro da coisa toda. Sem sentimentalismo barato, nem nada.
E verdade seja dita – o dito “cachorro comunitário” que certos
defensores de animais e políticos e ONGs a eles ligadas advogam e tentam
emplacar por aí por meio de projetos de lei nada mais é que um cachorro que é
de toda a comunidade, e ao mesmo tempo é de ninguém. Em outras palavras, é um
cachorro sem dono, sem casa nem nada. Uma coisa bem Grande Reset e Agenda 2030
para o meu gosto, diga-se de passagem.
Foto – “Você não terá nada e será feliz sobre isso”.
Assim disse Klaus Schwab, arauto do Grande Reset e da Agenda 2030.
Essa história de cachorro comunitário é, em realidade, uma
grande farsa. Não existe cachorro comunitário, e sim cachorro abandonado nas
ruas. Quando será que as pessoas vão se tocar da realidade? Entenderam, ou
precisa desenhar? Aliás, o próprio Orelha morava em uma casinha de cachorro
junto com outras duas ao lado. Casinha essa que não oferece proteção
alguma quando, por exemplo, ocorre uma chuva forte com vento e a água voa para
o teu lado. Nem mesmo contra temporais e vendavais fortes.
Chamar cachorro de rua de cachorro comunitário é que nem,
por exemplo, chamar favela de comunidade. Uma maquiagem lingüística e nada mais.
Não é de hoje que em nome do politicamente correto certo
pessoal começou a fazer maquiagem lingüística, que no fim das contas só muda o
nome da coisa. Pessoas como a renomada professora e historiadora Lilia Schwarcz
e até mesmo figurões do STF endossam esse tipo de coisa sob o pretexto de
coisas como limpar o idioma da escravidão e do combate ao racismo.
E não para por aí: há alguns anos acompanhei a uma novela do
SBT, Poliana Moça (estrelada por Sophia Valverde e Igor Jansen), continuação de
as aventuras de Poliana (ambas adaptações da série de livros Pollyanna, da escritora
americana Eleanor H. Porter). E na novela há uma favela, a qual no texto da
mesma é chamada de comunidade. Ou seja: a favela vira comunidade e o local
continua tendo infraestrutura precária, ruas sujas e fedorentas, sem água, sem
esgoto, casas amontoadas, moradores sem emprego, passando uma série de
necessidades e ainda por cima intimidados e chantageados por bandidos como o
Rato e a Cobra.
Uma das vozes que se insurgiram contra essas maquiagens
lingüísticas é o professor José Paulo Netto. Em palestra datada de 2012, o
professor de Juiz de Fora e militante histórico do Partido Comunista Brasileiro
(PCB) classifica isso como “hipocrisia pequeno-burguesa”.
Pela direita, esse
tipo de maquiagem lingüística é criticada por figuras como o professor Marco
Antônio Villa.
O rapper carioca MV Bill também faz denúncia similar na música “Favela
vive parte 2”, datada de 2017 e feita em parceria com Funkero e BK.
Lá atrás começaram chamando favela de comunidade. Negro de
afrodescendente. Índio de povo originário. O uso de palavras como denegrir e
criado mudo passou a ser prescrito. E mais recentemente, a coisa escalou e hoje
chamam o proprietário de um cachorro, gato ou coelho de tutor ao invés de dono
e cachorro de rua de cachorro comunitário. Para ver como essa coisa de
maquiagem lingüística começou há uns 15, 20 anos e foi escalando com o passar
do tempo. E a tendência é a coisa piorar e escalar ainda mais se não houver um
freio a essa situação.
E fecho este artigo com algo para deixar esses defensores de
animais, entre eles a famigerada Luisa Mell (vulgo Marina Zats) e deputados da
chamada causa animal que acham essa coisa de cachorro de rua lindo, p* da vida:
antes esses cachorros fazendo truques em um circo ou em provas de obstáculos,
ajudando cegos ou conduzindo gado em rodeios, vaquejadas e fazendas que
abandonado nas ruas, sujeitos a todo tipo de agressão e maldades. Que nem os
infelizes Orelha, Abacate e tantos outros.
E reiterando: não contem conosco para o politicamente
correto! Maquiagem lingüística não é conosco.
Foto – Bandeira da República Islâmica do Irã (imagem ilustrativa).
E agora, trago aqui um texto que eu mesmo encontrei no grupo
do Facebook “Em defesa da República Islâmica do Irã”, de autoria de Rhainer
Fernandes, sobre a hipocrisia de certos elementos da direita brasileira em
torno do Irã (e por tabela também da Venezuela, da Coréia do Norte e tantos outros
países). E mais comentários meus:
“O conservador liberal adora apontar o dedo para o Irã
chamando-o de ‘ditadura islâmica’, como se estivesse fazendo uma defesa moral
da civilização. Mas essa indignação acaba exatamente onde começa o alinhamento
geopolítico com os EUA, porque a moral dele tem fronteira, tem aliado e
conveniência.
O Irã é condenado não porque aplica leis religiosas, mas
porque não é submisso. Porque não aceita ser americanizado. Porque insiste em
ter um projeto próprio de Estado, mesmo que isso desagrade ao Ocidente. Já as
verdadeiras ditaduras islâmicas, aquelas onde o salafismo é religião oficial e
base jurídica do Estado, passam ilesas pelo radar moral do conservador liberal.
Arábia Saudita e Catar não incomodam. Pelo contrário, são tratados como
parceiros estratégicos. E isso é curioso, porque as leis nesses países são
objetivamente mais rigorosas do que no Irã.
Na Arábia Saudita não existem eleições nacionais.
Partidos políticos são proibidos; a tutela masculina sobre mulheres é
ilimitada; a liberdade religiosa é praticamente inexistente fora do salafismo;
execuções públicas continuam sendo prática do Estado; a sharia salafista é aplicada
de forma literal, sem espaço para pluralismo interno.
No Catar, a conversão religiosa é criminalizada; a
liberdade de expressão é severamente limitada; trabalhadores estrangeiros vivem
sob regimes de exploração; a legislação moral é rígida e controlada diretamente
pelo Estado.
Ainda assim, nenhum desses países desperta a fúria moral
do conservador liberal. Nenhum vira símbolo do ‘atraso islâmico’. Nenhum vira
alvo de campanhas por ‘libertação do povo’.
Isso acontece porque o conservador liberal não defende
valores conservadores. Ele defende alinhamento geopolítico. Ele não julga
regimes pelo que fazem internamente, mas por quem obedecem externamente. Se é
aliado dos EUA, a ditadura vira ‘complexa’. Se é adversário, vira ‘tirania’.
Esse mesmo conservador, que vive discursando contra o
progressismo e o wokismo, vira subitamente defensor dos direitos humanos quando
países como Irã ou China aplicam leis de defesa moral ou civilizacional. Aí ele
reproduz a linguagem da ONU, das ONGs e do globalismo. Ele só é conservador
enquanto isso não entra em conflito com a hegemonia ocidental.
Valores, para ele, só são aceitáveis se forem homologados
por Washington. Se os EUA fazem, é ‘liberdade’. Se um país soberano faz, é ‘opressão’.
O curioso é que os próprios EUA não são exemplos de
moralidade pública, nem de coesão social, nem de defesa da família ou da
tradição. Ainda assim, o conservador liberal aceita esse modelo como padrão
civilizacional.
A hipocrisia atinge o auge quando esse mesmo personagem
defende a derrubada do regime iraniano para resgatar o modelo do Xá Reza
Pahlavi, ou melhor, do seu herdeiro. Um período marcado por submissão total ao
Ocidente, drogas liberadas em festas elitizadas, bairros de prostituição
institucionalizados e alienação cultural inspirada na libertinagem do Ocidente.
Ou seja, ele quer restaurar um passado que jamais foi conservador, mas que
servia bem aos interesses externos culturalmente libertinos.
O conservador liberal não é contra ditaduras. Se fosse,
pediria intervenção nas monarquias salafistas do Golfo. Ele é contra regimes
contra-hegemônicos. Contra qualquer povo que se recuse a aceitar o liberalismo,
não apenas como economia, mas como filosofia de vida obrigatória.
Ele é conservador no discurso, liberal na submissão e
progressista na repressão, desde que o alvo seja alguém resistindo à ordem
liberal global. Por isso, o conservador liberal não é apenas contraditório, ele
é uma piada, uma anomalia do próprio liberalismo.
Abaixo, fotos do bairro da luz vermelha, em Teerã nos
anos 70, onde a prostituição era legalizada e o consumo de drogas era liberado
em clubes noturnos antes da Revolução Islâmica”.
MEUS COMENTÁRIOS
Esse é um texto bem interessante, que mata a charada sobre a
postura hipócrita desse pessoal da direita neocon (simpática aos EUA e Israel,
em especial quando estes países são governados por políticos do Partido
Republicano e do Likud, respectivamente) a respeito não só do Irã, como também
de outros países como a Venezuela, Cuba, Coréia do Norte e outros tantos.
E o mais curioso de tudo é o ponto de convergência entre os esquerda
e direita a despeito de discordâncias aqui e ali: se a esquerda alinhada com o
Partido Democrata (representada no Brasil por partidos como o PSOL e o PT) acha
lindo em nome da agenda político-ideológica deles quando países
contra-hegemônicos são invadidos e bombardeados pelo Ocidente “livre e
democrático” e em situações de revolução colorida gritam “fora Maduro”, “Assad
tem que cair” e mantras afins quando determinado regime se fecha por uma
questão de sobrevivência, a direita neocon (representada no Brasil por figuras
como o ex-presidente Jair Bolsonaro) também pensa o mesmo em nome da agenda
político-ideológica deles. Nisso, os dois blocos políticos hoje hegemônicos no
Brasil, que fazem da política brasileira hodierna um puxadinho da política
estadunidense, no essencial estão de acordo. Eles se completam um ao outro e
formam uma unidade contraditória. O yin e o yang, o alfa e o ômega, Kami Sama e
Piccolo Daimaō. As duas faces do deus Janus contrapostas entre si, no fim das
contas.
Foto – as duas faces de Janus: diagrama de Venn sobre as
convergências e divergências entre democratas e os republicanos nos EUA. No
essencial, os dois bandos estão de acordo.
Para esses caras, como é dito no texto acima, o que importa
é alinhamento com Estados Unidos e Israel e nada mais. O que é feito dentro de
cada um por seus respectivos regimes, não importa. E, parafraseando o saudoso
Paulo Henrique Amorim (que Deus o tenha), as ditaduras salafistas do Golfo
Pérsico não vem ao caso para esses caras. Afinal, os monarcas desses países são
amiguinhos de EUA e Israel. Assim como eram, por exemplo, os presidentes da
Venezuela na época da República de Punto Fijo da qual eles também demonstram
saudosismo, a ponto de achar que a nação caribenha vinha bem naquela época. Até
mesmo a Cuba de antes da revolução de 1959 eles idealizam.
Em 1990, foi lançado nos Estados Unidos pela Eclipses
Enterprise uma coleção de cartas chamada “Friendly Dictators”. Com ilustrações
de Bill Sienkiewicz, o jogo contem 36 cartas ao todo, sendo uma carta de
apresentação do jogo e mais 35 apresentando diversos ditadores que foram amigos
dos Estados Unidos da América (tanto com republicanos quanto com democratas na
presidência da república), de diversas partes do globo. E entre esses
ditadores, o xá Reza Pahlevi.
No jogo em questão, Reza Pahlevi aparece junto de nomes como
o imperador etíope Haile Selassie (o mesmo que era cultuado como se fosse uma
espécie de divindade messiânica pelo movimento rastafari, ao qual Bob Marley
dedicou em 1976 a música “Jah Live”), o boliviano Hugo Banzer, o alemão Adolf
Hitler (por conta dos negócios de companhias americanas com os nazistas tanto antes quanto durante a guerra), os haitianos Papa Doc e Baby Doc, o zairense
Mobutu Sese Seko, o chileno Augusto Pinochet, o cubano Fulgencio Batista, o
argentino Jorge Videla, o brasileiro Humberto Castelo Branco, o espanhol
Francisco Franco, o dominicano Rafael Trujillo, entre muitos outros.
Aliás, falando em Haile Selassie, vale lembrar que o último
imperador etíope marcou presença na festa de 2500 anos de fundação do Império
Persa, organizada pelo próprio xá Reza Pahlevi nas ruínas de Persépolis, a
capital do Império Persa no período Aquemênida. E que Selassie foi deposto
antes mesmo do xá, em 1974. Dessa forma, podemos dizer que a festa de 2500 anos
de fundação do Império Persa foi a festa de despedida de coroa não apenas de
uma, mas de duas monarquias: a etíope e a iraniana, ambas derrubadas por
processos revolucionários nos anos 1970.
Segundo o jogo de cartas colecionáveis em questão, o xá Reza
Pahlevi é apresentado da seguinte forma (tradução feita por mim):
“Mohammad Reza Pahlevi
Xá do Irã, Rei dos Reis
1953 foi um ano agitado para Allen Dulles. Mesmo enquanto
ele preparava a CIA para um golpe na Guatemala (veja carta 9), seus agentes
estavam derrubando o governo liberal-esquerdista de Dr. Mohammad Mossadeq e
pavimentando o caminho para o xá do Irã. Com o incentivo de Dulles, o xá fez ao
povo iraniano uma oferta que eles não podiam recusar – aderir a sua causa ou ir
à cadeia. Milhares que se recusaram a ceder foram presos ou assassinados.
Durante as eleições regionais em 1954, os agentes do xá atacaram uma escola
religiosa e atiraram centenas de estudantes para a morte do telhado. Seu regime
recebeu 100% da votação naquele ano, em uma eleição na qual foram registrados
mais votos que votantes.
A subsequente consolidação do poder do xá levou a um
governo de punho de ferro imposto por medo e tortura. Sua agência de polícia
secreta, a SAVAK, foi criada em 1957 e operado pela CIA em todos os níveis de
operação diária, incluindo a escolha e organização de pessoal, seleção e
operação de equipamento, e gerenciamento de agentes. Os métodos de tortura da
SAVAK incluíam choques elétricos, açoitamento, espancamentos, inserção de vidro
quebrado e despejo de água fervente no reto, amarração de pesos aos testículos,
e a extração de dentes e unhas.
O Irã sob o xá virou um aliado devoto dos EUA e uma base
de operações de espionagem na fronteira com a União Soviética. Mas
eventualmente o xá foi deposto em 1978 por uma revolução popular autóctone que
se manteve no poder até que o líder religioso fundamentalista aiatolá Khomeini
voltou ao Irã do exílio e reafirmou seu poder durante a crise dos reféns
americanos de 1979”.
E, diga-se de passagem, essa prática dos “ditadores amigos”
não é exclusividade dos Estados Unidos. Outros países do Ocidente tão “livre e
democrático” como a Inglaterra, a França e Israel também tem suas relações espúrias
com seus ditadores amigos. Vide as relações da França com ditaduras em suas
ex-colônias na África (como com a dinastia Bongo no Gabão, Paul Biya em
Camarões e Blaise Campaoré em Burkina Fasso), ou de Israel com o próprio Irã na
época do xá e com a África do Sul na época do apartheid.
Algo digno de nota é a carta de desculpas de Jair Bolsonaro
ao embaixador de Israel no Brasil em 2014, depois que Dilma condenou as ações
de Israel na Faixa de Gaza.
Foto – A carta de desculpas de Bolsonaro ao embaixador de
Israel, datada de 25 de julho de 2014.
Vejam que interessante e até irônico. Nessa carta,
Bolsonaro, à época deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, condena no
penúltimo parágrafo as relações do Brasil durante as administrações petistas
com países como Coréia do Norte, Irã, Cuba, Líbia, Venezuela, Bolívia, China,
Rússia, Síria, Zimbábue e Belarus, ao embaixador de um país que era aliado da
África do Sul no tempo do apartheid, do Irã na época do xá Reza Pahlevi (e sem
contar que na guerra Irã-Iraque Israel apoiou o Irã por meio do esquema
Irã-Contras, quando a nação persa já era governado pela atual república
islâmica), da Nicarágua na época da dinastia Somoza, regimes cívico-militares
na América Latina, entre outros. Ou seja, Israel também tem seu histórico de
ditadores amigos pelo mundo. Paradoxal, não?
Recentemente, o Irã foi sacudido por protestos em várias
partes do país, objetivando a derrubada do regime vigente por lá desde 1979,
data da revolução islâmica que derrubou o regime do xá Reza Pahlevi. E o apoio
do Ocidente “livre e democrático” aos mesmos é bem evidente.
Não vou entrar no mérito das motivações iniciais dos
protestos, nem da evolução ulterior deles. Mas o fato é que, nesse ínterim, andei vendo umas coisas bem,
digamos, bizarros no feed de notícias da minha conta no Facebook (o qual parece
apoiar uma mudança de regime no Irã favorável ao Ocidente “livre e
democrático”) e no You Tube. Como não poderia deixar de ser, elementos ligados
à direita, do alto da tacanhice e estupidez bem típica deles, apoiam o motim
colorido em curso no Irã. Também tive o desprezar de ver postagens de André
Lajst, embaixador do exército israelense no Brasil, apoiando a queda do regime
iraniano e lembrando da amizade que outrora havia entre Irã e Israel na época
do xá.
Como também vi alguns esquisitões monarquistas, entre eles o
Luiz Phillipe de Orleans e Bragança (herdeiro da família real brasileira e
deputado federal pelo Partido Liberal; vulgo príncipe sem reino), defendendo a
queda do regime iraniano (como também a do regime bolivariano na Venezuela). Em
outros textos, este figurão adota um discurso de matiz neocon claramente de
ódio para o Islã. De tal forma que se Dom Pedro II os lesse, teria vergonha de
seu descendente. O mesmo Dom Pedro II que visitou o Egito, a Palestina, a Síria
e o Líbano (à época partes do Império Otomano) em 1871 e 1876-77, era fluente
em árabe, abriu as portas do Brasil à imigração de origem árabe e até traduziu
para o português o clássico da literatura árabe “As mil e uma noites”.
A história começa no ano de 1951.
Naquele mesmo ano, Mohammad Mossadegh é designado como Primeiro-Ministro do
Irã, e uma vez Primeiro-Ministro ele, entre outras coisas, nacionaliza no dia
15 de março (data essa que após a revolução de 1979 foi transformada em feriado
nacional no Irã) daquele ano com aprovação do parlamento iraniano a produção de
petróleo iraniano, à época explorado por companhias estrangeiras, em especial
inglesas e norte-americanas. A companhia Anglo-Iranian Oil Company
(posteriormente rebatizada de British Petroleum), é extinta e a exploração de
petróleo passa para as mãos do Estado iraniano.
Isso levou a um conflito
inexorável com o Reino Unido e os Estados Unidos. Mossadegh despediu todos os
especialistas e conselheiros ingleses, e em outubro de 1952 rompeu relações
diplomáticas com o Reino Unido. Em resposta, EUA e Reino Unido declararam
boicote ao petróleo iraniano e começaram a preparar um golpe de Estado no Irã.
A Operação Ajax, encabeçada pela
CIA, é iniciada com vistas à deposição de Mossadegh. No Irã, monumentos ao xá
(àquela altura rompido com Mossadegh) foram derrubados e este fugiu para Bagdá
e em seguida para Roma. Ao fim, Mossadegh foi deposto em 19 de agosto e em seu
lugar entra o general Fazlollah Zahedi, que cancelou as reformas de Mossadegh e
devolveu as concessões de exploração de petróleo às companhias inglesas e
estadunidenses e restabeleceu relações diplomáticas com os dois países.
Mossadegh, por seu turno, ao ser
deposto foi também condenado por traição estatal e sentenciado a três anos de
prisão. Passou seus últimos anos de vida em prisão domiciliar até falecer no
dia 5 de março de 1967, em Ahmedabad (cidade próxima a Teerã).
Foto – Mohammed Mossadegh
(1882 – 1967).
Uma vez deposto Mossadegh, o xá
volta ao Irã e o poder da monarquia iraniana cresce de forma exponencial. Um
regime pró-Ocidente e visceralmente anti-comunista e de terror de estado é
implementado no Irã, com este se tornando um dos principais aliados de EUA e
Inglaterra na região da Ásia Ocidental.
Aliás, é bem interessante notar que
certos elementos da direita brasileira (que tendem a apoiar os Estados Unidos e
Israel, em especial quando ambos os países são governados por políticos do
Partido Republicano e do Likud) se queixam de que o atual regime iraniano é
repressivo sobre opositores políticos, sendo que o regime do xá que eles querem
de volta ao Irã fazia exatamente a mesmíssima coisa. Era um regime de terror de
estado em nada diferente, por exemplo, das ditaduras cívico-militares no Cone
Sul, do Haiti na época da dinastia Duvalier (Papa Doc e seu filho Baby Doc), da
Indonésia na época de Suharto, do Zaire na época de Mobutu, da Bolívia na época
de Hugo Banzer, das Filipinas na época de Ferdinando Marcos ou mesmo da
Colômbia sob governos como o de Álvaro Uribe.
O seguinte texto, extraído da
página do Facebook “Patria Grande Latinoamericana” e por mim traduzido do
espanhol, mostra bem o que foi a SAVAK (sigla para Sāzemān-e Ettalā’āt va Amiyat-e
Kešvar; em português Organização de Segurança e Inteligência Nacional), a
polícia secreta do regime do xá:
“SAVAK, a brutal polícia secreta
do xá com selo ocidental
A história da repressão no Irã
durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlevi pode soar bastante familiar para
as vítimas das ditaduras latino-americanas e todas elas têm algo em comum:
foram criadas com apoio do Ocidente.
▪️ Vigente de 1957 a 1979, os
agentes da polícia secreta do SAVAK – serviço de inteligência e segurança
interior do Irã – semearam o terror na população, torturaram e assassinaram a
milhares de pessoas sem julgamento.
▪️ A SAVAK foi estabelecida
oficialmente em 20 de março de 1957. Entretanto, o núcleo desta estrutura, sob
a direção de especialistas estadunidenses, se formou vários vários anos antes.
▪️ O primeiro chefe da Polícia
secreta do xá foi Teymur Bakhtiyar, durante o golpe de Estado de 19 de agosto de
1953, comandou uma brigada blindada que participou na execução dos
manifestantes anti-xá em Teerã.
▪️ Os oficiais da SAVAK foram
treinados pelos serviços especiais dos EUA, do Reino Unido e de Israel;
inclusive foi ensinado a eles a torturar ‘corretamente’.
▪️ A revista Time em fevereiro
de 1979, durante o derrocamento do xá, descreveu a SAVAK como ‘a instituição
mais odiada e perigosa do Irã’ que ‘tortura e matou a milhares de oponentes do
xá’.
▪️ Em Teerã havia duas prisões
da SAVAK: no distrito Evin e o centro de detenção preventiva, no coração da
capital. Ambos construídas por arquitetos alemães e apoio israelense.
▪️ As instalações do centro de
detenção preventiva foram criadas para levar ao máximo o terror: as câmaras de
torturas estavam orientadas de tal modo que os gritos dos torturadores iam
direto às celas dos detidos.
▪️ As celas eram estreitas,
sem ventilação, cadeiras, mesas e muito menos camas. Os detidos dormiam
amontoados no concreto frio.
▪️ A partir de 1972, este
centro de tortura foi administrado por um dos departamentos da SAVAK: o Comitê
Conjunto contra Sabotagem. Era a estrutura mais perversa da Polícia secreta,
onde serviram investigadores e torturadores profissionais treinados por
especialistas do Serviço de Segurança interna israelense Shabak.
▪️ Os prisioneiros eram
açoitados com cabos elétricos, pendurados pelas mãos ou pés, afogados,
torturados com eletricidade, vidros quebrados, água fervendo, submetidos a
espancamentos para quebrar os ossos, lhes arrancavam os dentes, unhas. Uma das
formas mais sádicas de intimidação era cortar o crânio de uma pessoa viva. O
centro Evin tinha tubulações especialmente conectadas às celas, através das
quais era possível fornecer ar excessivamente frio ou demasiadamente quente.
▪️ As salas de interrogatório
contavam com pequenas jaulas de metal onde os detidos eram colocados em seu
interior e se ligava a eletricidade a qualquer momento durante longas seções de
tortura.
▪️ De 1972 a 1979, as cifras
mais conservadoras falam de mais de 8 mil pessoas torturadas no Centro de
Detenção Preventiva, entre elas o atual líder espiritual do Irã, o aiatolá Ali
Khamenei. Entretanto, a cifra pode ser ainda maior, afinal, ali se levaram a
cabo milhares de execuções sem julgamento: as pessoas eram simplesmente levadas
para lá e nunca mais se soube delas.
▪️ Nos calabouços, além dos
homens, havia mulheres e crianças. Nem todos tinham relação com a oposição,
intelectuais foram presos simplesmente porque ‘sabiam ler livros’.
🇮🇷 Um pouco de
história sobre EUA, Irã e o xá da Pérsia
Os EUA sempre quiseram a
‘democracia’ para o Irã, por isso em 1953 organizou um golpe de Estado para
derrubar a Mohammad Mossadegh, que àquela altura era o primeiro ministro eleito
democraticamente pelo povo persa.
Após
o golpe de Estado organizado e financiado pela CIA e encorajado pelo MI6
britânico, se estabeleceu uma ditadura com o xá Mohammad Reza Pahlavi à frente.
Este
ditador ordenou a prisão de Mossadegh, primeiro na cela e depois domiciliar até
sua morte, enterrando-o no pátio de sua casa por sua popularidade e para evitar
excessos.
E
para os que falam sobre o quão bom a monarquia de Pahlevi era, os convidamos a
ler um artigo nosso sobre a SAVAK, a brutal polícia secreta do xá com selo
ocidental.
O
XÁ e Mossadegh condenado à perpétua”.
Foto – Emblema da Savak.
Segundo publicação da revista
Time datada de 19 de fevereiro de 1979, a Savak tinha cerca de 5 mil membros. A
Savak operou de 1957 até 1979, quando foi dissolvida por Šapur Bakhtiyar[1], o
último primeiro-ministro iraniano. Em seu lugar, foi instituído o atual ministério
de inteligência da República Islâmica do Irã, em operação desde 1983.
Algo igualmente digno de nota é o
que o regime do xá fez em 1971, mais precisamente entre entre os dias 12 a 16
de outubro, durante as festividades da comemoração dos 2500 anos da fundação do
Império Persa Aquemênida.
A área escolhida para as
celebrações foi a cidade de Persépolis, capital do Império Persa à época da
dinastia Aquemênida (550 – 330 a. C.), hoje ruínas no meio de um deserto
situado a 70 quilômetros a nordeste da cidade de Shiraz (província de Fars).
Para o evento em questão, o
aeroporto de Shiraz foi ampliado e renovado e uma rodovia foi construída ligado
Shiraz a Persépolis, além de outra para ligar Persépolis à capital Teerã. Como
forma de amenizar o clima árido do local, foram importadas e plantadas 15 mil
árvores da França, aviões carregados de pesticidas derramaram produtos químicos
num raio de 30 quilômetros para matar cobras, escorpiões e outros animais perigosos.
Um campo de golfe também foi preparado.
Tendas luxuosas inspiradas nas
tendas luxuosas em que Henrique VIII esteve quando foi hóspede de Francisco I
da França, no século XVI, foram erguidas para os convidados de fora. Tais
tendas foram construídas de material específico resistente ao calor e ao frio e
equipadas com aparelhos como telefones e ares condicionados.
Ao centro uma enorme fonte d’água
central foi erigida, na qual desembocavam todas as tendas. Cerca de 50 mil
pássaros canoros foram importados, com vistas a dar mais “naturalidade” a esse
oásis artificial (a maioria deles morreu em questão de poucos dias por conta do
clima extremo da região).
Convidados de várias partes do
mundo vieram às festividades. Entre eles o vice-presidente estadunidense Spiro
Agnew, o premiê da França Jacques Chaban-Delmas, o cardeal Maximilien von
Fürstenberg, o imperador da Etiópia Haile Selassie (o qual veio a ser deposto
do trono etíope em 1974) acompanhado de sua esposa e cachorro de estimação, o
rei do Nepal, rei Hussein da Jordânia, o sultão do Omã, rei da Malásia, reis e
rainhas da Suécia, Dinamarca, Países Baixos e Bélgica, o ditador das Filipinas
Ferdinando Marcos e sua esposa, o líder iugoslavo Josip Broz Tito, entre muitos
outros convidados. O Brasil enviou à festividade o então presidente Emilio
Garrastazu Médici. A rainha da Inglaterra, Elizabeth II, se ausentou do evento,
no que quase causou uma crise diplomática entre o Reino Unido e o Irã. A
situação foi resolvida por meio do envio do Príncipe Phillip e da Princesa
Anne.
Para alimentar toda essa gama de
ilustres convidados, foi contratado o time do Restaurante Maxim, de Paris, à
época considerado o melhor do mundo. Foram enviadas ao local do evento 18
toneladas de comida, sendo 2700 quilos de bife, porco e cordeiro, 1280 quilos
de aves diversas, e apenas 150 quilos de caviar, o único prato iraniano no
cardápio do evento. Também foram trazidos ao local garrafas diversas de vinhos,
conhaques e outras bebidas alcoólicas.
Ao final dos três dias, muito da
comida sobrou, indo a maior parte direto para o lixo. O xá tinha planos para
fazer do local uma atração turística, com vistas a hospedar turistas que fossem
visitar Persépolis. Só que a situação foi tal que foi impossível o plano ir
adiante, visto que a cidade-tenda agora estava suja, inóspita, verde findando,
lotada de pássaros mortos e numa localização nada agradável.
O clero xiita islâmico do Irã
logo reagiu, e de forma contundente: o evento foi chamado de “A festa do
demônio”. E entre os líderes que criticaram o evento estava o aiatolá Khomeini.
No fim das contas, o evento,
inicialmente planejado para ser usado como propaganda para promover o regime do
xá, gerou o efeito contrário. Visto que a comemoração foi extremamente
impopular entre a população iraniana que ficou de fora do mesmo (excetuando-se
funcionários, militares, membros do governo e a família real). Calcula-se que o
evento tenha custado aos cofres iranianos entre 12 a 150 milhões de dólares
(segundo estimativas variadas).
No fim das contas, a festa que
celebrou os 2500 anos de fundação do Império Persa Aquemênida acabou ajudando a
selar o destino ulterior da monarquia iraniana, anos mais tarde. Uma festa na
qual se esbanjou e ostentou muito luxo enquanto que a maioria da população
iraniana vivia em situação precária, flagelada por problemas como pobreza,
analfabetismo e fome. O xá e sua família de costas para o Irã profundo, e de
frente para o Ocidente “livre e democrático”. No melhor estilo “They don’t care
about us”.
Pode-se até dizer que o xá, em
sua ânsia por projetar o Irã no mundo por meio de um evento dessa magnitude, no
longo prazo cavou sua sepultura política. Podemos também dizer que o evento em
questão foi (guardadas as devidas proporções) para a monarquia iraniana o que o
baile da ilha fiscal em 1889 foi para a monarquia brasileira.
Foto – Festa de 2500 anos da
monarquia persa, 1971.
Não custa lembrar também que na
época do xá em cidades como Teerã havia bairros da luz vermelha e consumo de
drogas em casas noturnas, entre outros flagelos. Tal como na Venezuela da época
da República de Punto Fijo, o dinheiro da exploração do petróleo apenas
enriquecia uma pequena elite local e petroleiras gringas, ao passo que grande
parte da população vivia em situação precária. E soma-se a isso a questão da
crescente ocidentalização do Irã apoiada pelo regime do xá, na qual o uso de vestimentas
como o hidžab foi proibido.
Toda essa situação de
insatisfação popular com o que vinha acontecendo no Irã (terror de estado,
pobreza, decadência moral, ingerência estrangeira, aculturação da nação), à
época levou à queda da monarquia iraniana e à Revolução que instaurou a
República Islâmica do Irã. O xá, por seu turno, fugiu do Irã e morreu no Egito
em 1981, vítima de câncer.
Para termos noção da importância
do processo liderado pelo aiatolá Khomeini em 1979, um texto datado de 2010 no
blog Arcana Coelestia Universalia traz a seguinte passagem:
“A meu juízo, a Revolução
Islâmica salvou o Irã não apenas da tenebrosa ditadura de Reza Pahlevi, mas,
sobretudo, d’algo infinitamente pior: o mergulho no báratro da desagregação
espiritual e cultural d’uma civilização milenar. Pahlevi estava simplesmente
DESTRUINDO a própria essência primordial da nação iraniana, assim como antes,
por exemplo, Kemal Atatürk arrasara séculos de tradição otomana na Turquia;
destarte, a Revolução Islâmica não apenas ‘resgatou’ política e socialmente o
Irã, mas efetivamente RESSUSCITOU a alma de toda uma nação”.
E o resto é história.
Foto – capa da revista
Manchete datada de 1979 com o aiatolá Khomeini na capa.
Para fechar o presente texto e
saltando para os dias hodiernos, gostaria de fazer uma pergunta a esses
sujeitos que em redes sociais como o Facebook, o Instagram e o X (antigo
Twitter) clamam pela queda do regime iraniano e até mesmo para que EUA e Israel
lá intervenham militarmente: acaso caindo o regime dos aiatolás a situação do
Irã (que há muito tempo sofre com problemas decorrentes de sanções econômicas e
crise hídrica) vai melhorar? Eu acho que não, e é só olhar para o que virou,
por exemplo, o Iraque após a queda de Saddam Hussein em 2003 após a invasão
anglo-americana. O que virou a Líbia depois da queda de Muammar al-Kadaffi em
2011, após o país ser invadido por EUA, França e Inglaterra. O que a Síria
virou desde que Bašar al-Assad foi deposto do poder em 2024. O que viraram
países como a Tunísia e a Egito desde o início da primavera árabe (vulgo
pesadelo árabe). Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando.
É isso que vocês querem para o
Irã? Que o Irã vire um estado falido tal qual aconteceu com os citados países?
E nisso criando um efeito domínio sobre a região da Ásia Média, fazendo com que
esta última entre em uma espiral de instabilidade, caos e destruição? Da Ásia
Média para essa onda se alastrar por China, Índia, Paquistão, Rússia e até
mesmo a Europa é praticamente um pulo. Ou será que no fim das contas o que
vocês querem mesmo é ver o sonho molhado de vocês se tornar realidade: Israel
virar o Grande Israel se estendendo do Nilo ao Eufrates, e com o aval do
Ocidente “livre e democrático”?
E para quem clama pela volta da
monarquia iraniana: vocês não percebem que a monarquia iraniana, caso volte,
não passará de um regime títere, um governo Quisling a serviço de Israel e dos
EUA? Tal como o regime do xá foi lá atrás, antes da revolução de 1979 liderada
pelo aiatolá Khomeini? Ou será que isso não vem ao caso a vocês?
Acho que não dá para esperar
muito dessa gente. No fim das contas, essa gente que idealiza o regime do xá e
quer a volta da monarquia para o Irã é em essência a mesma gente que acha, por
exemplo, que a Venezuela era um paraíso na época da putrefata e corrupta
República de Punto Fijo, derrubada pelo comandante Chávez em 1998. Que Cuba de
antes da revolução de 1959 liderada por Fidel Castro também era uma maravilha.
Como também a Líbia de antes da revolução de 1969, o Egito de antes da
revolução de 1952, entre tantos outros exemplos que podem ser citados.
Ao fim e a cabo, tanto a dinastia
Pahlevi no Irã quanto a República de Punto Fijo na Venezuela, o regime de
Fulgencio Batista em Cuba, entre outros, foram derrubados antes de tudo por
conta do peso de suas contradições internas. E não por que veio do nada malvadões
revolucionários como Nasser, Kadaffi, Fidel Castro, Khomeini e Hugo Chávez e
acabou com tudo.
Foto – comparativo entre o Irã
atual e o Irã da época do xá Reza Pahlevi.
No dia 7 de janeiro do presente ano o professor Marcelo
Andrade postou em seu canal no You Tube a seguinte mensagem a respeito da
Venezuela, na sequência da queda do então presidente Nicolás Maduro. Um texto
que, como veremos, até diz algumas verdades, mas que ao mesmo tempo omite
detalhes e informações muito importantes a respeito da história recente da
Venezuela.
Em 2017, escrevemos nesse mesmo blog uma resposta a Nando
Moura sobre o mesmo assunto:
“A Venezuela já foi o país mais rico da América Latina
Nos anos 50, o país tinha o 4º maior PIB per capita do
mundo. Superava países europeus em renda e desenvolvimento.
Até que o socialismo chegou...”
Primeiro de tudo, é impossível entender como que o Hugo
Chávez chegou aonde chegou sem entender o que era de fato a Venezuela nos anos
que antecedem à sua ascensão ao poder. E, como veremos, não era o paraíso que
se quer vender.
Deixa-me te perguntar uma coisa, Marcelo Andrade: como que
essa renda era distribuída entre os habitantes da nação caribenha? A Venezuela
de antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder, ocorrida em 1998, na verdade não
era uma espécie de Noruega ou Suíça tropical como você quer vender. Na verdade,
se tratava de uma espécie de emirado petroleiro latino-americano. Em outras
palavras, estava muito mais próxima de um Qatar, um Emirados Árabes Unidos ou
uma Arábia Saudita.
Haja vista que a parte do leão da renda do petróleo
venezuelano ficava concentrada nas mãos de uma restrita elite local e de
petroleiras gringas (em especial americanas) que exploravam o petróleo. A
maioria da população vivia em uma situação de penúria, e favelas conhecidas
como ranchos pululavam pela paisagem urbana das cidades venezuelanas, incluindo
a capital Caracas.
Foto – Rancho venezuelano. Qualquer semelhança com as
favelas cariocas (não) é mera coincidência.
E deixe eu lhe fazer mais uma pergunta, Marcelo Andrade: acaso
essa riqueza toda fazia da Venezuela um país de indústria forte e economia
diversificada e pujante? Não, não fazia. Bem longe disso. A Venezuela nunca
teve uma indústria forte tal qual, por exemplo, o Brasil, o México e a
Argentina. O país vivia de exportar petróleo cru para o exterior (em especial
para os Estados Unidos) de tal modo que era um país cujo desempenho econômico
era ditado pelo preço do barril do petróleo no mercado internacional. Em outras
palavras, trata-se de um país que até os dias hodiernos padece do mal econômico
conhecido como a “doença holandesa”.
A dependência da Venezuela para com a riqueza advindo do petróleo
era tal (e ainda é) que o país tinha que importar tudo de fora, incluindo
comida, papel higiênico, sabonete e outros itens básicos. Tudo vai bem nos
tempos de bonança, mas quando chega o período de escassez (ou seja, quando o
preço do barril do petróleo no mercado internacional baixa) a situação aperta e
a grana advinda do petróleo seca, o país se via em sérios problemas, incluindo
hiperinflação e crise econômica. Foi assim, durante os choques do petróleo nos
anos 1980 e 1990, que reverberaram profundamente na Venezuela.
O volume 24 da Enciclopédia Larousse Cultural, publicada
pela finada editora Nova Cultural em 1998 (ou seja, antes mesmo de Hugo Chávez
se tornar presidente da nação caribenha), mostra que muitos dos problemas
estruturais que afligem a economia venezuelana hoje em dia já existiam na época
da Quarta República.
E na política institucional, antes da ascensão de Hugo
Chávez ao poder vigorava a República de Punto Fijo (também conhecida como
Quarta República Venezuelana), estabelecida em 1958 e por meio da qual dois
partidos se alternavam no poder: a Ação Democrática e o Copei (Comitê de
Organização Política Eleitoral Independente). Figuras como Rafael Caldera,
Carlos Andrés Perez e Romulo Bettancourt ocuparam o palácio de Miraflores nesse
período. Ou seja, era como se fosse uma espécie de política do Café com Leite à
moda caribenha, tal como havia aqui no Brasil na época da Primeira República
(1889 – 1930). Ou se quisermos usar um exemplo mais recente, o petucanismo aqui
no Brasil com a alternância entre PT e PSDB no Palácio do Planalto, e com o PT
no essencial mantendo a mesma política macroeconômica instituída nos anos 1990,
quando o Plano Real foi instituído e o pacto de classes dele advindo.
“Enquanto ditaduras se espalhavam pelo continente, a
Venezuela recebia milhares de imigrantes: espanhóis, chilenos, argentinos,
brasileiros…
O jornal El País chegou a dizer:
‘Na Venezuela se vive uma liberdade genuína.’”
A Venezuela podia ser a nível político-institucional uma
democracia, mas isso não quer dizer nada. Tal como em outras partes da América
Ibérica os protestos contra políticas neoliberais na Venezuela também foram
tratados com base na bala. E o Caracazo, ocorrido em 27 de fevereiro de 1989,
manda lembranças.
Foto – Caracazo.
Na ocasião, o então presidente Carlos Andrés Pérez (à época
em seu segundo mandato) passou um pacote de medidas neoliberais, que incluía,
entre outras coisas, o aumento do preço dos combustíveis. E por tabela, isso
também implicou em um aumento no preço das passagens de ônibus. Como resultado,
protestos surgiram em várias partes do país, sendo Caracas o epicentro. Para
poder contornar a crise, o exército foi convocado e a repressão foi brutal.
Grande morticínio se seguiu ao evento: calcula-se que possam ter morrido entre
277 (estatísticas oficiais) a mais de 3000 pessoas (estatísticas independentes)
no Caracazo, sem contar ainda com feridos.
E é a partir deste momento que o nome de Hugo Chávez, então
coronel do exército e líder do movimento MR-200, começa a se projetar no
cenário político venezuelano. Em 1992 ele tentou assumir o poder por meio de um
golpe de estado, mas não logrou sucesso. Apenas em 1998 é que ele, dessa vez
pela via eleitoral, logrou se tornar presidente da Venezuela. E uma vez
presidente da Venezuela, uma das primeiras coisas que ele fez foi enterrar a
Quarta República Venezuelana e fundar uma nova República, a Quinta República
Venezuelana, também conhecida como República Bolivariana da Venezuelana.
Você, Marcelo Andrade, fala de um jeito como se o Caracazo
nunca tivesse existido. E como se a Venezuela pré-Chávez fosse um mundo idílico
e paradisíaco, perfeito, que foi destruído pelo malvado Chávez e sua camarilha.
Sendo que isso passa bem longe da realidade. A insatisfação popular era
generalizada e Hugo Chávez soube captar tal sentimento, propondo uma
alternativa ao arranjo até então existente no país. E no fim a República de
Punto Fijo caiu sob o peso de suas contradições.
“Os salários impressionavam o mundo. Um professor
recém-chegado ao país na década de 70 relatou ter ganhado US$ 1.700 em seu
primeiro mês, o suficiente para comprar um carro novo.
Em Miami, os venezuelanos ficaram conhecidos como os
"dame dos" ("me dá dois"), de tanto que consumiam.
Em 1914, o país descobriu o petróleo e pelas 6 décadas
seguintes seria chamado de ‘Venezuela saudita’, em referência à Arábia Saudita,
maior produtora de petróleo do mundo.
Na capital, Caracas, os prédios eram altos e modernos
para a época. As rodovias, largas. Os hotéis eram considerados um ‘luxo em um
paraíso tropical’. E os venezuelanos tinham o título de maiores consumidores de
uísque do mundo”.
Essa é uma parte da história, mas e a outra parte da
história que você não mostra? O outro lado da moeda, a outra face do deus
Janus?
Você não mostra no teu texto, certamente por conveniência de
momento, quais venezuelanos tinham acesso a tal padrão de consumo. De fato, era
comum as elites venezuelanas à época fazerem suas compras de supermercado em
Miami, e não em supermercados venezuelanos. E que a linha aérea Miami-Caracas
era uma das mais movimentadas do mundo.
Sem contar ainda que a influência cultural norte-americana no
país era gigantesca. Tanto que se assistirmos aos seriados que o Carlos
Villagrán fez depois que saiu do elenco de Chaves e Chapolin, terá a impressão
de que se está assistindo a um sitcom americano. O que ajuda a causar um
estranhamento ainda maior para com tais produções, para além do fato de o Kiko
estar fora de seu habitat natural, a vila do Chaves. Seriados esses que foram
produzidos e veiculados pela RCTV (a mesma emissora que em 2007 não teve sua
concessão renovada pelo governo chavista) e exibidos no Brasil no começo dos
anos 1990 pela Rede Bandeirantes, e dublados pelo mesmo estúdio que fez a dublagem
dos seriados de Chespirito, a finada Maga.
Apenas as altas classes venezuelanas é que tinham acesso a
tal padrão de consumo. Com o povão que vivia em ranchos como o de Caracas a
história era totalmente outra. Calcula-se que nos governos anteriores a Hugo
Chávez a pobreza extrema atingia 40% da população do país, e mais 70% abaixo da
linha da pobreza, a subnutrição flagelava 21% da população, apenas 7 a cada 10
crianças concluíam o ensino primário (no que fazia da educação um privilégio
dos ricos) e o acesso às universidades era algo restrito às elites e à pequena
classe média. Apenas 387 mil idosos eram contemplados pela previdência
venezuelana.
Tanto que uma das coisas que o Hugo Chávez fez ao se tornar
presidente da nação caribenha é usar a renda do petróleo para programas
sociais, visando melhorar as condições sociais das populações mais carentes do
país. Sob Chávez a desigualdade social (medida pelo índice de Gini) diminuiu em
54%. A pobreza despencou de 70,8% em 1996 para 21% em 2010, ao passo que a
extrema pobreza caiu de 40% em 1996 para 7,3% em 2010. A desnutrição foi
reduzida a 5% e a desnutrição infantil, a 2,9%. A mortalidade infantil diminuiu
de 25 por mil em 1990 para apenas 13 por mil em 2010. Em 2005, o país foi
declarado livre do analfabetismo pela UNESCO. Entre outros feitos.
Foto – Hugo Chávez Rafael Frias (1954 – 2013).
Chávez também usou a renda do petróleo para investir no futebol,
esporte até então secundário na Venezuela, visto que antes dele o esporte mais
popular da nação caribenha era o beisebol, muito em função da influência
cultural norte-americana por lá. A Venezuela (cuja seleção é apelidada de
“Vinotinto”) até hoje nunca participou de uma Copa do Mundo, e durante muito
tempo, quando enfrentava seleções como o Brasil ou a Argentina, vivia tomando
goleada. Vide o exemplo do jogo entre Brasil e Venezuela da Copa América de
1999, ocorrida no Paraguai, no qual a Venezuela tomou de 7 a 0 do Brasil,
naquele que foi o jogo de estreia do Ronaldinho Gaúcho pela seleção canarinho
(à época treinada por Wanderley Luxemburgo) em competições oficiais.
O investimento chavista no futebol foi tal que a Venezuela não
só aumentou a competividade no futebol, como também sediou a Copa América em
2007, passou a se classificar com mais frequência para a fase eliminatória da
Copa América (chegou a ser quarta colocada na Copa América de 2011) e mais
recentemente vemos que países como o Brasil e a Argentina já não têm a mesma
facilidade de antes quando enfrentam a Venezuela. Vide o empate sem gols entre
Brasil e Venezuela na Copa América de 2019. Talvez, seja questão de tempo um
dia vermos a Vinotinto em uma Copa do Mundo, ainda mais agora que 48 times se
classificam para a competição máxima do futebol mundial.
Entre 1959 e 1983, o desemprego no país se manteve na
marca de 10%. No mesmo período, o crescimento médio do país foi de 4,3% por
ano, a inflação também era menor do que a registrada em outros países da
América Latina”.
E aí, cadê o período de 1983 a 1998, hein Marcelo Andrade?
Pois o que aconteceu nesse meio tempo desmonta toda a narrativa que você quer
vender. Cadê o Caracazo, cadê as políticas neoliberais da presidência de Carlos
Andrés Pérez, cadê o corrupto sistema advindo do pacto de Punto Fijo em colapso
em sua fase tardia?
No fim das contas, é um cherry-picking dos mais cretinos e
vagais, bem típico de figuras como você e o Thiago Braga.
“Até que em 1998, o povo elegeu o tenente-coronel Hugo
Chávez, que já havia sido preso após uma tentativa de golpe de Estado. E
iniciou o que chamou de ‘revolução bolivariana’.
Desde então, mesmo com as maiores reservas de petróleo do
planeta, a Venezuela sofre com escassez de combustível. Sem comida, sem
remédios e com milhões de refugiados, o país virou um retrato do fracasso
socialista”.
E aí, vai chamar a Quarta República Venezuelana de
socialista? Pois muitos dos problemas econômicos dos quais a Venezuela hoje
padece já existiam antes mesmo de Hugo Chávez se tornar presidente da nação
caribenha.
“Segundo a ONU, 5,1 milhões de venezuelanos não têm o
suficiente para comer. O PIB do país encolheu 73% na última década. E mais de
94% de venezuelanos vivem na extrema pobreza”.
“A Venezuela já foi uma grande nação, mas o que o
socialismo entregou foi o maior desastre da história moderna da América do Sul.
A lição é clara: o socialismo nunca resultará em nada
além de miséria”.
Por um acaso um país vira socialista só por que institui
políticas sociais e de redistribuição de renda? Não, isso não quer dizer nada.
Um país pode muito bem ter política sociais mantendo o funcionamento já
existente da economia. Acaso, por exemplo, as políticas de redistribuição de
renda que existem em países como a Alemanha, a Holanda, o Reino Unido e as
nações escandinavas tonam essas nações socialistas? Não. Passa bem longe disso.
E acaso o Bolsa Família ou o SUS fizeram do Brasil um país socialista? Também
não. Haja vista que mesmo com tais programas sociais os superricos do Brasil
(muitos deles mancomunados com o PT inclusive) continuam enchendo as burras de
dinheiro.
Vai chamar de socialismo um regime que nunca mudou de forma
profunda a estrutura econômica do país? Um país que antes vivia de exportar
petróleo cru para fora do país e que sob os ditos socialistas Hugo Chávez e
Nicolás Maduro continuou vivendo da mesma forma como vivia antes deles? A
Venezuela, sob Chávez e Maduro, continuou se organizando sob bases
capitalistas. Tanto que grandes capitalistas como o conglomerado alimentício
Polar e o grupo de mídia Cisneros continuaram a operar em solo venezuelano,
mesmo na era chavista.
E mais: falando em socialismo, acaso o François Hollande,
presidente da França entre 2012 a 2017, ser de um partido que se diz socialista
(Partido Socialista) fez da França um país socialista? Não, não fez. E antes
dele, a França teve outro presidente desse mesmo partido, o François Miterrand,
que foi presidente de 1981 até sua morte em 1996. Miterrand também não fez da
França um partido socialista. Entre tantos outros exemplos que posso ficar
citando. No fim das contas, siglas partidárias muitas vezes não passam de
siglas partidárias.
Fontes:
As imprecisões de Nando Moura, parte 6 – A verdade não será
televisionada. Disponível em:
Foto – Rei Vegeta no
meio, com o jovem Vegeta à esquerda, Nappa e mais três guerreiros saiyanos à
direita.
E com vocês a parte XII da série de artigos Freeza e Rei
Vegeta. E o assunto da vez é a visão distorcida da história que grande parte da
direita brasileira, geralmente identificada com a figura do ex-presidente Jair
Bolsonaro e outros políticos reacionários, manifesta em relação a episódios
históricos como a conquista islâmica do norte da África e da Ibéria e as
cruzadas.
Como vemos, mudaremos de lado dentro do espectro político. Deixaremos
de falar do pessoal da esquerda pós-moderna e a idealização que eles fazem do
passado de certos povos e vamos falar sobre as ilações que o pessoal da direita
faz a respeito de eventos como as Cruzadas levantinas strictu sensu e as relações entre o mundo cristão europeu e o mundo
muçulmano ao longo dos séculos latu sensu.
Em outras palavras, dos chamados “zé cruzadinhas”. Afinal, como já dito em
outras oportunidades, essa gente de direita mais reacionária e tacanha é a cara
metade político-ideológica desse pessoal da esquerda pós-moderna.
Originalmente, Zé Cruzadinha era um personagem que aparece
em algumas histórias da Turma da Mônica, criadas por Maurício de Souza. Amigo
do Cebolinha, ele é um menino de cabelos espetados meio maluco que gosta muito
de resolver revistas de palavras cruzadas e usa óculos circulares (fundo de
garrafa), camisa amarela, bermuda preta e tênis lilás (ou marrom) com meias.
Ele surgiu em 1963, nas tiras do Cebolinha, e desde então tem sido personagem
recorrente nas histórias da Turma da Mônica.
Foto – Zé Cruzadinha.
Mais recentemente, o nome do personagem da Turma da Mônica ganhou
um novo significado. Ele passou a designar, de forma pejorativa, certos tipos
que vemos na Internet e em redes sociais, geralmente direitistas, que bradam
por ai frases como “Deus Vult” (“Deus o quer”, em latim) e afins.
Em linhas gerais, tais tipos geralmente explicam que as
Cruzadas na Terra Santa foram uma guerra de resposta tardia por conta de
séculos de invasões de califados e sultanatos islâmicos a regiões outrora sob domínio
cristão, incluindo Síria, Palestina, Egito, noroeste da África, Península
Ibérica, França e Itália. E ainda chegam ao ponto de dizer que “as cruzadas
salvaram a Europa de se tornar islâmica” e conversas similares.
Este tipo de explicação pode ser encontrado até mesmo no
vídeo de Thiago Braga sobre o tema no canal Brasão de Armas, como também por
parte de figuras de extrema direita católica como Marcelo Andrade e Raphael
Tonon.
Só que há um buraco BEM grande na explicação que eles dão. Primeiro
de tudo que as cruzadas começam em 1095, passados já quase 400 anos da
conquista islâmica da Ibéria sob o califado omíada de Damasco e quase 500 anos
das conquistas islâmicas iniciais na Síria, no Levante e no Egito ainda sob os
primeiros califas. Como explicar eventos ocorridos entre os séculos XI a XIII
por conta de eventos ocorridos meio milênio antes? Para mim não faz sentido
algum. A conta não fecha.
E segundo que o contexto europeu e mediterrânico da segunda
metade do século XI era bem diferente daquele dos séculos VII a IX, que é
quando o grosso dessas invasões e conquistas se dá.
O contexto do Medievo inicial era o da Europa pós-romana, no
qual o Império Romano do Ocidente deixou de existir e em seu lugar surgiu uma
miríade de reinos bárbaros, entre eles os reinos visigodo e suevo na Ibéria,
reino ostrogodo na Itália, reinos franco e burgúndio na Gália (atual França), reino
alamano na Germânia, reino vândalo no norte da África, reinos anglo-saxônicos
nas ilhas britânicas, reino frísio na atual Holanda e outros, todos eles
oriundos da grande migração de povos (em alemão Volkerwanderung) da Antiguidade
Tardia e Medievo inicial.
Era um contexto de fragilidade política e social que
eventualmente acabou sendo explorado por terceiros. E os muçulmanos não foram
os primeiros e nem os únicos a se aproveitarem dessa situação.
Ainda no século VI houve as invasões dos ávaros, povo das estepes
ao norte do Mar Negro, provavelmente oriundo dos Žužan (os quais de suas bases
na atual Mongólia e sul da Sibéria causaram problemas aos chineses entre os
séculos IV a VI).
Sob a liderança de Bayan (r. 562 – 602), os ávaros se
estabeleceram na Panônia (atual Hungria) por volta de 562 e assim preencheram o
vazio deixado pela debacle do Império Huno um século antes, após a morte de
Atila. De suas bases na Panônia os ávaros lançaram invasões à Itália, Gália,
Turíngia e Península Balcânica na segunda metade do século VI e começo do
século VII. Em 626 os ávaros sitiaram Constantinopla junto com a Pérsia Sassânida.
O poder ávaro na Panônia só veio a ser destruído no começo do século IX por
Carlos Magno.
Também no século VI o Império Bizantino, durante o reinado
de Justiniano I, lançou suas guerras de conquista sobre partes da Europa
Ocidental pós-romana, vide a guerra vândala de 533/534 contra o reino vândalo
no norte da África, a guerra gótica de 535 a 554 contra o reino ostrogodo na
Itália e a conquista de parte da Ibéria visigótica em 552.
E os zé cruzadinhas que choram as pitangas pelo Império
Bizantino por conta das conquistas islâmicas do século VII em momento algum
falam sobre os dias de conquistadores do mesmo. Conquistas essas que se deram à
custa de outros estados cristãos (ainda que da vertente ariana) e que tiveram
lugar antes mesmo de o profeta Maomé nascer.
Foto – Império
Bizantino por volta de 555, após as conquistas do reinado de Justiniano I (r.
527 – 565).
Mais adiante, já nos séculos VIII e IX, em especial após a morte
de Carlos Magno (r. 768 – 814) e a subsequente fragmentação de seu império em
três partes, junto com as invasões árabes pelo sul também temos as invasões
vikings pelo norte e magiares pelo leste. Os vikings, oriundos das atuais
Dinamarca, Noruega e Suécia, promoveram a partir de 793 (ataque ao mosteiro de
Lindsfarne na Inglaterra) incursões de pirataria às Ilhas Britânicas, à França
e até mesmo a partes da Ibéria, do norte da África e da Itália. Chegaram a
estabelecer seu senhorio sobre partes da atual Inglaterra, o chamado Danelaw
(c. 878 – 954), e com a anuência do rei francês Carlos o simples (r. 898 – 922)
alguns deles se estabeleceram na França em regiões como a Normandia e a
Bretanha, mediante conversão ao cristianismo.
Já os magiares, antes vassalos dos khazares, após migrarem
das estepes ao norte do Mar Negro e se estabelecerem no atual território
húngaro a partir de 896 sob a liderança do chefe Arpád Álmos e assim preencher
o vácuo de poder deixado na Panônia com o fim do poder ávaro, concentraram seus
esforços no leste, na França, Germânia e Itália. Em 942 hostes magiares
avançaram a oeste até a Ibéria islâmica.
Foto – invasões
árabes, vikings e magiares na Europa entre os séculos VII a X.
A partir dos séculos X e XI tais invasões não apenas chegam ao
fim, como também nórdicos e magiares passam a fazer parte do mundo cristão
europeu.
Os magiares são vencidos em 955 pelo imperador germânico
Otto II na batalha de Lechfeld e por volta do ano 1000 a Hungria se converte ao
cristianismo sob o rei São Estevão I (r. 997 – 1038). Junto com a Polônia, a
Hungria se tornou o bastião oriental da cristandade ocidental.
Já os vikings se convertem ao cristianismo primeiro nas
regiões colonizadas por eles como as ilhas britânicas e a Normandia (vide a
conversão do chefe viking Rollon em 911), depois, dentro dos marcos da formação
das monarquias nacionais escandinavas, houve a conversão das nações escandinavas
sob a liderança de monarcas como o dinamarquês Harald dente azul (r. 958 – 986)
e os noruegueses Olaf Tryggvasson (r. 995 – 1000) e Olaf II (r. 1015 – 1028), o
segundo posteriormente canonizado pela Igreja Católica como Santo Olavo.
A integração de nórdicos e magiares ao mundo cristão
medieval foi tal que monarcas escandinavos e húngaros participaram de cruzadas
na Terra Santa, vide a cruzada de peregrinação do rei norueguês Sigurd I (r.
1103 – 1130) entre 1107 a 1111 e a participação do príncipe húngaro Geza na
terceira cruzada (1189 – 1192) e do rei húngaro André II (r.1205 – 1235) na
quinta cruzada (1217 – 1221). Além disso, as monarquias escandinavas, junto com
ordens militares germânicas como os Cavaleiros Teutônicos e os Cavaleiros
Livonianos da Espada, lançaram suas próprias cruzadas dentro da própria Europa,
as cruzadas do norte, contra os povos ainda pagãos do Báltico oriental, entre
eles os vendos, os prussianos e os lituanos, e até mesmo contra estados
cristãos ortodoxos oriundos da fragmentação da Rus de Kiev a partir de 1054 como
a República de Novgorod.
E a coisa não para por ai. De suas bases na Normandia no
noroeste da França, os normandos, descendentes cristianizados dos vikings,
lançaram-se no século XI à conquista de territórios como a Inglaterra, Gales,
Malta e sul da Itália, incluindo o emirado da Sicília entre 1061 a 1091. Participaram
ativamente das cruzadas levantinas e no século XII, mais precisamente entre
1146 a 1160, a Sicília normanda chegou a estender seu domínio sobre partes do
norte da África, sobre a atual Tunísia e noroeste da Líbia, até perder a região
para os almoadas.
Foto – conquistas
normandas entre os séculos XI a XV.
Como podemos muito bem ver, na segunda metade do século XI o
contexto já era totalmente diferente daquele do Medievo inicial. As invasões
que os reinos cristãos europeus sofriam antes por parte de povos como árabes, nórdicos
e magiares já era coisa do passado. O máximo que houve ao final do século XI
foram as invasões dos cumanos a partes dos domínios do estado Rus de Kiev (vide
os ataques cumanos a Kiev em 1096, 1097, 1105 e 1107) e os atritos dos reinos
cristãos ibéricos com o califado almorávida. Ou seja, atritos localizados nas
fronteiras dos reinos que estavam bem longe de representar a mesma ameaça aos reinos
cristãos europeus que as invasões das centúrias anteriores.
As fronteiras do mundo cristão medieval europeu eram outras.
Se por volta de 700 as fronteiras desta não passavam do Reno e do Danúbio, por
volta de 1100 essas fronteiras, por contas das sucessivas de conversões de
nações e reinos europeus tais como Polônia, Rus de Kiev, Hungria, Noruega,
Suécia e Dinamarca, agora se estendem das margens do Oceano Ártico ao norte às
ilhas gregas e Itália ao sul e das ilhas britânicas ao oeste às fronteiras
orientais da Rus de Kiev (a essa altura já fragmentada em vários principados)
ao leste. E isso a despeito da divisão entre Igreja Católica Romana e Igreja
Ortodoxa Bizantina advinda do cisma do oriente de 1054.
E a situação dos potentados islâmicos na Europa também era
outra. De todos os potentados que os muçulmanos, em sucessivas ondas de conquista,
estabeleceram na Europa nos séculos VIII e IX só restava o sul da Ibéria sob a
jurisdição de estados muçulmanos na virada do século XI para o XII. Os emirados
de Bari e Taranto na Itália continental foram riscados do mapa em 871 e 883,
respectivamente. O Fraxinetum no sul da França deixou de existir em 973 após 85
anos de existência. O emirado de Creta na Grécia foi conquistado pelo Império
Bizantino em 961. O emirado da Sicília foi conquistado pelos normandos entre
1061 a 1091. Em 1091 os normandos também expulsam os muçulmanos de Malta.
Foto – A expansão do
Islã sob os primeiros califas e depois sob a dinastia omíada (661 – 750), em
alemão.
E mesmo na Ibéria o outrora poderoso califado omíada de
Córdoba (929 – 1031) se estilhaçou nos reinos de taifas em 1031 por conta de
uma série de guerras intestinas iniciadas ainda em 1009 (fitna de Al-Andalus) e
importantes praças já estavam sob a jurisdição dos reinos cristãos do norte,
incluindo Toledo, a antiga capital visigótica, tomada em 1085 pelo rei de
Castela Afonso VI. Ante essa situação, os soberanos dos reinos taifas pedem
auxílio aos almorávidas do noroeste da África.
Apenas no século XIII com as invasões mongóis e mais adiante
com o Império Otomano a partir do final do século XIV é que novas ondas de
invasões extracontinentais em larga escala a reinos europeus ocorrem.
Ao escutar falas como a de que as cruzadas foram uma
resposta tardia aos avanços de hostes islâmicas dos séculos VIII a X passa-se a
impressão de que antes das cruzadas os reinos europeus nunca reagiram aos avanços
dos invasores vindos do sul. Em outras palavras, passa-se a impressão de que batalhas
tão celebradas por eles, como a batalha de Poitiers na qual Carlos Martel
venceu os muçulmanos em 732, não ocorreu. Muito menos, por exemplo, a batalha
de Tourtour que colocou fim à existência do Fraxinetum em 973. Ou mesmo os
avanços de Carlos Magno sobre o norte da Ibéria ainda no final do século VIII,
onde ele estabeleceu no que hoje é o nordeste da Espanha a marca hispânica.
Mas, se o que esses zé cruzadinhas geralmente falam não tem
fundamento histórico algum, de onde vem isso? Um dos principais divulgadores da
tese que eles defendem é o ex-professor de física e escritor norte-americano
Bill Warner.
Segundo Bill Warner, houve 548 batalhas provocadas pelo Islã
contra o que ele chama de civilização cristã. Vídeos de Bill Warner no You Tube
podem ser encontrados e vistos em canais de direita, onde ele mostra um mapa
onde ele faz uma comparação entre a quantidade de batalhas daquilo que ele
convém chamar de cruzada e jihad.
Nessa comparação, Warner, entre outras coisas, faz um
verdadeiro cherry picking e não menciona, por exemplo, as já citadas cruzadas
do norte contra os povos pagãos do Báltico oriental, ou mesmo outras cruzadas contra
poderes não-islâmicos, vide a cruzada dos cátaros no sul da França entre 1209 a
1229.
Foto – Bill Warner.
Isso sem contar com os mapas cheios de erros bem crassos,
como o abaixo:
Foto – Europa e o
mundo mediterrânico entre 1900 a 1920, segundo as ilações de Bill Warner.
No mapa acima, Bill Warner, para além de apresentar o mundo
muçulmano como se fosse um bloco monolítico do ponto de vista geopolítico, ele coloca
dentro das fronteiras do Islã entre 1900 a 1920 regiões como os baixos Volga e
Ural, as margens do mar de Azov, o Cáucaso e a Ásia Média, regiões essas que
foram conquistadas pela Rússia, um império cristão ortodoxo, entre os séculos
XVI a XIX. Também coloca dentro do mundo muçulmano o subcontinente indiano, a
época sob o controle colonial britânico, e a Argélia, o Marrocos e a Tunísia, a
época sob o controle colonial francês. Sem contar ainda com o Oriente Médio, sobre
o qual França e Inglaterra estabeleceram mandatos coloniais após o fim da
Primeira Guerra Mundial por meio do acordo de Sykes-Picot.
E por que falar a esse respeito? Por que isso não é coisa de
meia dúzia de gatos pingados de Internet, como a primeira vista pode parecer.
Pelo contrário, pessoas influentes, que ocupam altos cargos em governos
ocidentais professam esse tipo de pensamento.Além disso, esse é o tipo de retórica que justifica, por exemplo, as
sucessivas intervenções do Ocidente “livre e democrático” sobre países do
muçulmano que só tem trazido instabilidade e caos a região, derrubando regimes
e em seu lugar abrindo caminho para o surgimento de grupos salafistas como o
Estado Islâmico, o Boko Haram e outros afins. E mesmo o que Israel vem fazendo
na Palestina e outras partes do mundo árabe desde 1948, incluindo a atual
guerra do governo Netanyahu contra a faixa de Gaza.
E, além disso, pode-se dizer que esses zé cruzadinhas e a
esquerda pós-moderna tem seus pontos em comum. Se a segunda cria todo um
passado idealizado de povos como os africanos e os ameríndios de antes da
chegada dos europeus e início do processo de colonização, os primeiros enxergam
a Europa medieval de maneira similar, para não dizer análoga.
Eles tratam a Europa medieval como se fosse um mundo idílico
e monolítico, onde não havia conflitos entre os diversos reinos cristãos que
surgiram após o fim do Império Romano Ocidental. Como se antes mesmo do
surgimento do Islã não houvesse episódios como as já citadas conquistas
bizantinas do reinado de Constantino II, as guerras entre os reinos franco e
visigodo entre 496 a 511, a guerra entre francos e burgúndios entre 523 a 533,
guerras entre francos e frísios nos séculos VII e VIII, a conquista do reino
suevo pelo reino visigodo em 585 e outras tantas. Ou mesmo guerras civis dentro
dos reinos, incluindo a guerra civil dentro do reino visigótico às vésperas da
conquista islâmica da Ibéria. Tanto que a conquista islâmica tanto da Ibéria
quanto da Sicília se dá com o apoio de setores da nobreza e do exército locais,
vide o caso do general bizantino Eufêmio, que movido por ambições pessoais
convidou os aglábidas do norte da África em 827 para auxiliá-lo em sua querela
com o governo imperial baseado em Constantinopla.
Assim, podemos dizer que até nisso a esquerda pós-moderna e
esses zé cruzadinhas de direita se completam um ao outro. Kami Sama e Piccolo
Daimaoh, o yin e o yang, o alfa e o ômega, as duas faces de Janus contrapostas
entre si. Podem ter certeza que se um cavaleiro dos tempos medievais visse um
desses zé cruzadinhas atuais, no mínimo ficaria envergonhado.
Foto – Cavaleiro
cruzado medieval vs zé cruzadinha dos dias hodiernos.