Foto – Bandeira da República Islâmica do Irã (imagem ilustrativa).
E agora, trago aqui um texto que eu mesmo encontrei no grupo
do Facebook “Em defesa da República Islâmica do Irã”, de autoria de Rhainer
Fernandes, sobre a hipocrisia de certos elementos da direita brasileira em
torno do Irã (e por tabela também da Venezuela, da Coréia do Norte e tantos outros
países). E mais comentários meus:
“O conservador liberal adora apontar o dedo para o Irã
chamando-o de ‘ditadura islâmica’, como se estivesse fazendo uma defesa moral
da civilização. Mas essa indignação acaba exatamente onde começa o alinhamento
geopolítico com os EUA, porque a moral dele tem fronteira, tem aliado e
conveniência.
O Irã é condenado não porque aplica leis religiosas, mas
porque não é submisso. Porque não aceita ser americanizado. Porque insiste em
ter um projeto próprio de Estado, mesmo que isso desagrade ao Ocidente. Já as
verdadeiras ditaduras islâmicas, aquelas onde o salafismo é religião oficial e
base jurídica do Estado, passam ilesas pelo radar moral do conservador liberal.
Arábia Saudita e Catar não incomodam. Pelo contrário, são tratados como
parceiros estratégicos. E isso é curioso, porque as leis nesses países são
objetivamente mais rigorosas do que no Irã.
Na Arábia Saudita não existem eleições nacionais.
Partidos políticos são proibidos; a tutela masculina sobre mulheres é
ilimitada; a liberdade religiosa é praticamente inexistente fora do salafismo;
execuções públicas continuam sendo prática do Estado; a sharia salafista é aplicada
de forma literal, sem espaço para pluralismo interno.
No Catar, a conversão religiosa é criminalizada; a
liberdade de expressão é severamente limitada; trabalhadores estrangeiros vivem
sob regimes de exploração; a legislação moral é rígida e controlada diretamente
pelo Estado.
Ainda assim, nenhum desses países desperta a fúria moral
do conservador liberal. Nenhum vira símbolo do ‘atraso islâmico’. Nenhum vira
alvo de campanhas por ‘libertação do povo’.
Isso acontece porque o conservador liberal não defende
valores conservadores. Ele defende alinhamento geopolítico. Ele não julga
regimes pelo que fazem internamente, mas por quem obedecem externamente. Se é
aliado dos EUA, a ditadura vira ‘complexa’. Se é adversário, vira ‘tirania’.
Esse mesmo conservador, que vive discursando contra o
progressismo e o wokismo, vira subitamente defensor dos direitos humanos quando
países como Irã ou China aplicam leis de defesa moral ou civilizacional. Aí ele
reproduz a linguagem da ONU, das ONGs e do globalismo. Ele só é conservador
enquanto isso não entra em conflito com a hegemonia ocidental.
Valores, para ele, só são aceitáveis se forem homologados
por Washington. Se os EUA fazem, é ‘liberdade’. Se um país soberano faz, é ‘opressão’.
O curioso é que os próprios EUA não são exemplos de
moralidade pública, nem de coesão social, nem de defesa da família ou da
tradição. Ainda assim, o conservador liberal aceita esse modelo como padrão
civilizacional.
A hipocrisia atinge o auge quando esse mesmo personagem
defende a derrubada do regime iraniano para resgatar o modelo do Xá Reza
Pahlavi, ou melhor, do seu herdeiro. Um período marcado por submissão total ao
Ocidente, drogas liberadas em festas elitizadas, bairros de prostituição
institucionalizados e alienação cultural inspirada na libertinagem do Ocidente.
Ou seja, ele quer restaurar um passado que jamais foi conservador, mas que
servia bem aos interesses externos culturalmente libertinos.
O conservador liberal não é contra ditaduras. Se fosse,
pediria intervenção nas monarquias salafistas do Golfo. Ele é contra regimes
contra-hegemônicos. Contra qualquer povo que se recuse a aceitar o liberalismo,
não apenas como economia, mas como filosofia de vida obrigatória.
Ele é conservador no discurso, liberal na submissão e
progressista na repressão, desde que o alvo seja alguém resistindo à ordem
liberal global. Por isso, o conservador liberal não é apenas contraditório, ele
é uma piada, uma anomalia do próprio liberalismo.
Abaixo, fotos do bairro da luz vermelha, em Teerã nos
anos 70, onde a prostituição era legalizada e o consumo de drogas era liberado
em clubes noturnos antes da Revolução Islâmica”.
Esse é um texto bem interessante, que mata a charada sobre a
postura hipócrita desse pessoal da direita neocon (simpática aos EUA e Israel,
em especial quando estes países são governados por políticos do Partido
Republicano e do Likud, respectivamente) a respeito não só do Irã, como também
de outros países como a Venezuela, Cuba, Coréia do Norte e outros tantos.
E o mais curioso de tudo é o ponto de convergência entre os esquerda
e direita a despeito de discordâncias aqui e ali: se a esquerda alinhada com o
Partido Democrata (representada no Brasil por partidos como o PSOL e o PT) acha
lindo em nome da agenda político-ideológica deles quando países
contra-hegemônicos são invadidos e bombardeados pelo Ocidente “livre e
democrático” e em situações de revolução colorida gritam “fora Maduro”, “Assad
tem que cair” e mantras afins quando determinado regime se fecha por uma
questão de sobrevivência, a direita neocon (representada no Brasil por figuras
como o ex-presidente Jair Bolsonaro) também pensa o mesmo em nome da agenda
político-ideológica deles. Nisso, os dois blocos políticos hoje hegemônicos no
Brasil, que fazem da política brasileira hodierna um puxadinho da política
estadunidense, no essencial estão de acordo. Eles se completam um ao outro e
formam uma unidade contraditória. O yin e o yang, o alfa e o ômega, Kami Sama e
Piccolo Daimaō. As duas faces do deus Janus contrapostas entre si, no fim das
contas.
Foto – as duas faces de Janus: diagrama de Venn sobre as convergências e divergências entre democratas e os republicanos nos EUA. No essencial, os dois bandos estão de acordo.
Para esses caras, como é dito no texto acima, o que importa
é alinhamento com Estados Unidos e Israel e nada mais. O que é feito dentro de
cada um por seus respectivos regimes, não importa. E, parafraseando o saudoso
Paulo Henrique Amorim (que Deus o tenha), as ditaduras salafistas do Golfo
Pérsico não vem ao caso para esses caras. Afinal, os monarcas desses países são
amiguinhos de EUA e Israel. Assim como eram, por exemplo, os presidentes da
Venezuela na época da República de Punto Fijo da qual eles também demonstram
saudosismo, a ponto de achar que a nação caribenha vinha bem naquela época. Até
mesmo a Cuba de antes da revolução de 1959 eles idealizam.
Em 1990, foi lançado nos Estados Unidos pela Eclipses
Enterprise uma coleção de cartas chamada “Friendly Dictators”. Com ilustrações
de Bill Sienkiewicz, o jogo contem 36 cartas ao todo, sendo uma carta de
apresentação do jogo e mais 35 apresentando diversos ditadores que foram amigos
dos Estados Unidos da América (tanto com republicanos quanto com democratas na
presidência da república), de diversas partes do globo. E entre esses
ditadores, o xá Reza Pahlevi.
No jogo em questão, Reza Pahlevi aparece junto de nomes como
o imperador etíope Haile Selassie (o mesmo que era cultuado como se fosse uma
espécie de divindade messiânica pelo movimento rastafari, ao qual Bob Marley
dedicou em 1976 a música “Jah Live”), o boliviano Hugo Banzer, o alemão Adolf
Hitler (por conta dos negócios de companhias americanas com os nazistas tanto antes quanto durante a guerra), os haitianos Papa Doc e Baby Doc, o zairense
Mobutu Sese Seko, o chileno Augusto Pinochet, o cubano Fulgencio Batista, o
argentino Jorge Videla, o brasileiro Humberto Castelo Branco, o espanhol
Francisco Franco, o dominicano Rafael Trujillo, entre muitos outros.
Aliás, falando em Haile Selassie, vale lembrar que o último
imperador etíope marcou presença na festa de 2500 anos de fundação do Império
Persa, organizada pelo próprio xá Reza Pahlevi nas ruínas de Persépolis, a
capital do Império Persa no período Aquemênida. E que Selassie foi deposto
antes mesmo do xá, em 1974. Dessa forma, podemos dizer que a festa de 2500 anos
de fundação do Império Persa foi a festa de despedida de coroa não apenas de
uma, mas de duas monarquias: a etíope e a iraniana, ambas derrubadas por
processos revolucionários nos anos 1970.
Segundo o jogo de cartas colecionáveis em questão, o xá Reza
Pahlevi é apresentado da seguinte forma (tradução feita por mim):
“Mohammad Reza Pahlevi
Xá do Irã, Rei dos Reis
1953 foi um ano agitado para Allen Dulles. Mesmo enquanto
ele preparava a CIA para um golpe na Guatemala (veja carta 9), seus agentes
estavam derrubando o governo liberal-esquerdista de Dr. Mohammad Mossadeq e
pavimentando o caminho para o xá do Irã. Com o incentivo de Dulles, o xá fez ao
povo iraniano uma oferta que eles não podiam recusar – aderir a sua causa ou ir
à cadeia. Milhares que se recusaram a ceder foram presos ou assassinados.
Durante as eleições regionais em 1954, os agentes do xá atacaram uma escola
religiosa e atiraram centenas de estudantes para a morte do telhado. Seu regime
recebeu 100% da votação naquele ano, em uma eleição na qual foram registrados
mais votos que votantes.
A subsequente consolidação do poder do xá levou a um
governo de punho de ferro imposto por medo e tortura. Sua agência de polícia
secreta, a SAVAK, foi criada em 1957 e operado pela CIA em todos os níveis de
operação diária, incluindo a escolha e organização de pessoal, seleção e
operação de equipamento, e gerenciamento de agentes. Os métodos de tortura da
SAVAK incluíam choques elétricos, açoitamento, espancamentos, inserção de vidro
quebrado e despejo de água fervente no reto, amarração de pesos aos testículos,
e a extração de dentes e unhas.
O Irã sob o xá virou um aliado devoto dos EUA e uma base
de operações de espionagem na fronteira com a União Soviética. Mas
eventualmente o xá foi deposto em 1978 por uma revolução popular autóctone que
se manteve no poder até que o líder religioso fundamentalista aiatolá Khomeini
voltou ao Irã do exílio e reafirmou seu poder durante a crise dos reféns
americanos de 1979”.
E, diga-se de passagem, essa prática dos “ditadores amigos”
não é exclusividade dos Estados Unidos. Outros países do Ocidente tão “livre e
democrático” como a Inglaterra, a França e Israel também tem suas relações espúrias
com seus ditadores amigos. Vide as relações da França com ditaduras em suas
ex-colônias na África (como com a dinastia Bongo no Gabão, Paul Biya em
Camarões e Blaise Campaoré em Burkina Fasso), ou de Israel com o próprio Irã na
época do xá e com a África do Sul na época do apartheid.
Algo digno de nota é a carta de desculpas de Jair Bolsonaro
ao embaixador de Israel no Brasil em 2014, depois que Dilma condenou as ações
de Israel na Faixa de Gaza.
Foto – A carta de desculpas de Bolsonaro ao embaixador de
Israel, datada de 25 de julho de 2014.
Vejam que interessante e até irônico. Nessa carta,
Bolsonaro, à época deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, condena no
penúltimo parágrafo as relações do Brasil durante as administrações petistas
com países como Coréia do Norte, Irã, Cuba, Líbia, Venezuela, Bolívia, China,
Rússia, Síria, Zimbábue e Belarus, ao embaixador de um país que era aliado da
África do Sul no tempo do apartheid, do Irã na época do xá Reza Pahlevi (e sem
contar que na guerra Irã-Iraque Israel apoiou o Irã por meio do esquema
Irã-Contras, quando a nação persa já era governado pela atual república
islâmica), da Nicarágua na época da dinastia Somoza, regimes cívico-militares
na América Latina, entre outros. Ou seja, Israel também tem seu histórico de
ditadores amigos pelo mundo. Paradoxal, não?
E nem vou entrar no mérito da questão do terrorismo, sobre a qual abordei em textos anteriores. Como se vê, coerência não é o forte dessa gente.








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