quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O que era o Irã antes da revolução de 1979? (parte 2)

 

Foto – Bandeira da República Islâmica do Irã (imagem ilustrativa).

E agora, trago aqui um texto que eu mesmo encontrei no grupo do Facebook “Em defesa da República Islâmica do Irã”, de autoria de Rhainer Fernandes, sobre a hipocrisia de certos elementos da direita brasileira em torno do Irã (e por tabela também da Venezuela, da Coréia do Norte e tantos outros países). E mais comentários meus:

“O conservador liberal adora apontar o dedo para o Irã chamando-o de ‘ditadura islâmica’, como se estivesse fazendo uma defesa moral da civilização. Mas essa indignação acaba exatamente onde começa o alinhamento geopolítico com os EUA, porque a moral dele tem fronteira, tem aliado e conveniência.

O Irã é condenado não porque aplica leis religiosas, mas porque não é submisso. Porque não aceita ser americanizado. Porque insiste em ter um projeto próprio de Estado, mesmo que isso desagrade ao Ocidente. Já as verdadeiras ditaduras islâmicas, aquelas onde o salafismo é religião oficial e base jurídica do Estado, passam ilesas pelo radar moral do conservador liberal. Arábia Saudita e Catar não incomodam. Pelo contrário, são tratados como parceiros estratégicos. E isso é curioso, porque as leis nesses países são objetivamente mais rigorosas do que no Irã.

Na Arábia Saudita não existem eleições nacionais. Partidos políticos são proibidos; a tutela masculina sobre mulheres é ilimitada; a liberdade religiosa é praticamente inexistente fora do salafismo; execuções públicas continuam sendo prática do Estado; a sharia salafista é aplicada de forma literal, sem espaço para pluralismo interno.

No Catar, a conversão religiosa é criminalizada; a liberdade de expressão é severamente limitada; trabalhadores estrangeiros vivem sob regimes de exploração; a legislação moral é rígida e controlada diretamente pelo Estado.

Ainda assim, nenhum desses países desperta a fúria moral do conservador liberal. Nenhum vira símbolo do ‘atraso islâmico’. Nenhum vira alvo de campanhas por ‘libertação do povo’.

Isso acontece porque o conservador liberal não defende valores conservadores. Ele defende alinhamento geopolítico. Ele não julga regimes pelo que fazem internamente, mas por quem obedecem externamente. Se é aliado dos EUA, a ditadura vira ‘complexa’. Se é adversário, vira ‘tirania’.

Esse mesmo conservador, que vive discursando contra o progressismo e o wokismo, vira subitamente defensor dos direitos humanos quando países como Irã ou China aplicam leis de defesa moral ou civilizacional. Aí ele reproduz a linguagem da ONU, das ONGs e do globalismo. Ele só é conservador enquanto isso não entra em conflito com a hegemonia ocidental.

Valores, para ele, só são aceitáveis se forem homologados por Washington. Se os EUA fazem, é ‘liberdade’. Se um país soberano faz, é ‘opressão’.

O curioso é que os próprios EUA não são exemplos de moralidade pública, nem de coesão social, nem de defesa da família ou da tradição. Ainda assim, o conservador liberal aceita esse modelo como padrão civilizacional.

A hipocrisia atinge o auge quando esse mesmo personagem defende a derrubada do regime iraniano para resgatar o modelo do Xá Reza Pahlavi, ou melhor, do seu herdeiro. Um período marcado por submissão total ao Ocidente, drogas liberadas em festas elitizadas, bairros de prostituição institucionalizados e alienação cultural inspirada na libertinagem do Ocidente. Ou seja, ele quer restaurar um passado que jamais foi conservador, mas que servia bem aos interesses externos culturalmente libertinos.

O conservador liberal não é contra ditaduras. Se fosse, pediria intervenção nas monarquias salafistas do Golfo. Ele é contra regimes contra-hegemônicos. Contra qualquer povo que se recuse a aceitar o liberalismo, não apenas como economia, mas como filosofia de vida obrigatória.

Ele é conservador no discurso, liberal na submissão e progressista na repressão, desde que o alvo seja alguém resistindo à ordem liberal global. Por isso, o conservador liberal não é apenas contraditório, ele é uma piada, uma anomalia do próprio liberalismo.

Abaixo, fotos do bairro da luz vermelha, em Teerã nos anos 70, onde a prostituição era legalizada e o consumo de drogas era liberado em clubes noturnos antes da Revolução Islâmica”.








MEUS COMENTÁRIOS

Esse é um texto bem interessante, que mata a charada sobre a postura hipócrita desse pessoal da direita neocon (simpática aos EUA e Israel, em especial quando estes países são governados por políticos do Partido Republicano e do Likud, respectivamente) a respeito não só do Irã, como também de outros países como a Venezuela, Cuba, Coréia do Norte e outros tantos.

E o mais curioso de tudo é o ponto de convergência entre os esquerda e direita a despeito de discordâncias aqui e ali: se a esquerda alinhada com o Partido Democrata (representada no Brasil por partidos como o PSOL e o PT) acha lindo em nome da agenda político-ideológica deles quando países contra-hegemônicos são invadidos e bombardeados pelo Ocidente “livre e democrático” e em situações de revolução colorida gritam “fora Maduro”, “Assad tem que cair” e mantras afins quando determinado regime se fecha por uma questão de sobrevivência, a direita neocon (representada no Brasil por figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro) também pensa o mesmo em nome da agenda político-ideológica deles. Nisso, os dois blocos políticos hoje hegemônicos no Brasil, que fazem da política brasileira hodierna um puxadinho da política estadunidense, no essencial estão de acordo. Eles se completam um ao outro e formam uma unidade contraditória. O yin e o yang, o alfa e o ômega, Kami Sama e Piccolo Daimaō. As duas faces do deus Janus contrapostas entre si, no fim das contas.

Foto – as duas faces de Janus: diagrama de Venn sobre as convergências e divergências entre democratas e os republicanos nos EUA. No essencial, os dois bandos estão de acordo.

Para esses caras, como é dito no texto acima, o que importa é alinhamento com Estados Unidos e Israel e nada mais. O que é feito dentro de cada um por seus respectivos regimes, não importa. E, parafraseando o saudoso Paulo Henrique Amorim (que Deus o tenha), as ditaduras salafistas do Golfo Pérsico não vem ao caso para esses caras. Afinal, os monarcas desses países são amiguinhos de EUA e Israel. Assim como eram, por exemplo, os presidentes da Venezuela na época da República de Punto Fijo da qual eles também demonstram saudosismo, a ponto de achar que a nação caribenha vinha bem naquela época. Até mesmo a Cuba de antes da revolução de 1959 eles idealizam.

Em 1990, foi lançado nos Estados Unidos pela Eclipses Enterprise uma coleção de cartas chamada “Friendly Dictators”. Com ilustrações de Bill Sienkiewicz, o jogo contem 36 cartas ao todo, sendo uma carta de apresentação do jogo e mais 35 apresentando diversos ditadores que foram amigos dos Estados Unidos da América (tanto com republicanos quanto com democratas na presidência da república), de diversas partes do globo. E entre esses ditadores, o xá Reza Pahlevi.

No jogo em questão, Reza Pahlevi aparece junto de nomes como o imperador etíope Haile Selassie (o mesmo que era cultuado como se fosse uma espécie de divindade messiânica pelo movimento rastafari, ao qual Bob Marley dedicou em 1976 a música “Jah Live”), o boliviano Hugo Banzer, o alemão Adolf Hitler (por conta dos negócios de companhias americanas com os nazistas tanto antes quanto durante a guerra), os haitianos Papa Doc e Baby Doc, o zairense Mobutu Sese Seko, o chileno Augusto Pinochet, o cubano Fulgencio Batista, o argentino Jorge Videla, o brasileiro Humberto Castelo Branco, o espanhol Francisco Franco, o dominicano Rafael Trujillo, entre muitos outros.

Aliás, falando em Haile Selassie, vale lembrar que o último imperador etíope marcou presença na festa de 2500 anos de fundação do Império Persa, organizada pelo próprio xá Reza Pahlevi nas ruínas de Persépolis, a capital do Império Persa no período Aquemênida. E que Selassie foi deposto antes mesmo do xá, em 1974. Dessa forma, podemos dizer que a festa de 2500 anos de fundação do Império Persa foi a festa de despedida de coroa não apenas de uma, mas de duas monarquias: a etíope e a iraniana, ambas derrubadas por processos revolucionários nos anos 1970.

Segundo o jogo de cartas colecionáveis em questão, o xá Reza Pahlevi é apresentado da seguinte forma (tradução feita por mim):

“Mohammad Reza Pahlevi

Xá do Irã, Rei dos Reis

1953 foi um ano agitado para Allen Dulles. Mesmo enquanto ele preparava a CIA para um golpe na Guatemala (veja carta 9), seus agentes estavam derrubando o governo liberal-esquerdista de Dr. Mohammad Mossadeq e pavimentando o caminho para o xá do Irã. Com o incentivo de Dulles, o xá fez ao povo iraniano uma oferta que eles não podiam recusar – aderir a sua causa ou ir à cadeia. Milhares que se recusaram a ceder foram presos ou assassinados. Durante as eleições regionais em 1954, os agentes do xá atacaram uma escola religiosa e atiraram centenas de estudantes para a morte do telhado. Seu regime recebeu 100% da votação naquele ano, em uma eleição na qual foram registrados mais votos que votantes.

A subsequente consolidação do poder do xá levou a um governo de punho de ferro imposto por medo e tortura. Sua agência de polícia secreta, a SAVAK, foi criada em 1957 e operado pela CIA em todos os níveis de operação diária, incluindo a escolha e organização de pessoal, seleção e operação de equipamento, e gerenciamento de agentes. Os métodos de tortura da SAVAK incluíam choques elétricos, açoitamento, espancamentos, inserção de vidro quebrado e despejo de água fervente no reto, amarração de pesos aos testículos, e a extração de dentes e unhas.

O Irã sob o xá virou um aliado devoto dos EUA e uma base de operações de espionagem na fronteira com a União Soviética. Mas eventualmente o xá foi deposto em 1978 por uma revolução popular autóctone que se manteve no poder até que o líder religioso fundamentalista aiatolá Khomeini voltou ao Irã do exílio e reafirmou seu poder durante a crise dos reféns americanos de 1979”.

E, diga-se de passagem, essa prática dos “ditadores amigos” não é exclusividade dos Estados Unidos. Outros países do Ocidente tão “livre e democrático” como a Inglaterra, a França e Israel também tem suas relações espúrias com seus ditadores amigos. Vide as relações da França com ditaduras em suas ex-colônias na África (como com a dinastia Bongo no Gabão, Paul Biya em Camarões e Blaise Campaoré em Burkina Fasso), ou de Israel com o próprio Irã na época do xá e com a África do Sul na época do apartheid.

Algo digno de nota é a carta de desculpas de Jair Bolsonaro ao embaixador de Israel no Brasil em 2014, depois que Dilma condenou as ações de Israel na Faixa de Gaza.

Foto – A carta de desculpas de Bolsonaro ao embaixador de Israel, datada de 25 de julho de 2014.

Vejam que interessante e até irônico. Nessa carta, Bolsonaro, à época deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, condena no penúltimo parágrafo as relações do Brasil durante as administrações petistas com países como Coréia do Norte, Irã, Cuba, Líbia, Venezuela, Bolívia, China, Rússia, Síria, Zimbábue e Belarus, ao embaixador de um país que era aliado da África do Sul no tempo do apartheid, do Irã na época do xá Reza Pahlevi (e sem contar que na guerra Irã-Iraque Israel apoiou o Irã por meio do esquema Irã-Contras, quando a nação persa já era governado pela atual república islâmica), da Nicarágua na época da dinastia Somoza, regimes cívico-militares na América Latina, entre outros. Ou seja, Israel também tem seu histórico de ditadores amigos pelo mundo. Paradoxal, não?


E nem vou entrar no mérito da questão do terrorismo, sobre a qual abordei em textos anteriores. Como se vê, coerência não é o forte dessa gente.

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