terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Refutando Marcelo Andrade - verdades e mentiras sobre a Venezuela.

 

Foto – Professor Marcelo Andrade.

No dia 7 de janeiro do presente ano o professor Marcelo Andrade postou em seu canal no You Tube a seguinte mensagem a respeito da Venezuela, na sequência da queda do então presidente Nicolás Maduro. Um texto que, como veremos, até diz algumas verdades, mas que ao mesmo tempo omite detalhes e informações muito importantes a respeito da história recente da Venezuela.

Em 2017, escrevemos nesse mesmo blog uma resposta a Nando Moura sobre o mesmo assunto:

Resistência terceiro-mundista: As imprecisões de Nando Moura, parte 6 - A verdade não será televisionada.

A Venezuela já foi o país mais rico da América Latina

Nos anos 50, o país tinha o 4º maior PIB per capita do mundo. Superava países europeus em renda e desenvolvimento.

Até que o socialismo chegou...”

Primeiro de tudo, é impossível entender como que o Hugo Chávez chegou aonde chegou sem entender o que era de fato a Venezuela nos anos que antecedem à sua ascensão ao poder. E, como veremos, não era o paraíso que se quer vender.

Deixa-me te perguntar uma coisa, Marcelo Andrade: como que essa renda era distribuída entre os habitantes da nação caribenha? A Venezuela de antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder, ocorrida em 1998, na verdade não era uma espécie de Noruega ou Suíça tropical como você quer vender. Na verdade, se tratava de uma espécie de emirado petroleiro latino-americano. Em outras palavras, estava muito mais próxima de um Qatar, um Emirados Árabes Unidos ou uma Arábia Saudita.

Haja vista que a parte do leão da renda do petróleo venezuelano ficava concentrada nas mãos de uma restrita elite local e de petroleiras gringas (em especial americanas) que exploravam o petróleo. A maioria da população vivia em uma situação de penúria, e favelas conhecidas como ranchos pululavam pela paisagem urbana das cidades venezuelanas, incluindo a capital Caracas.

Foto – Rancho venezuelano. Qualquer semelhança com as favelas cariocas (não) é mera coincidência.

E deixe eu lhe fazer mais uma pergunta, Marcelo Andrade: acaso essa riqueza toda fazia da Venezuela um país de indústria forte e economia diversificada e pujante? Não, não fazia. Bem longe disso. A Venezuela nunca teve uma indústria forte tal qual, por exemplo, o Brasil, o México e a Argentina. O país vivia de exportar petróleo cru para o exterior (em especial para os Estados Unidos) de tal modo que era um país cujo desempenho econômico era ditado pelo preço do barril do petróleo no mercado internacional. Em outras palavras, trata-se de um país que até os dias hodiernos padece do mal econômico conhecido como a “doença holandesa”.

A dependência da Venezuela para com a riqueza advindo do petróleo era tal (e ainda é) que o país tinha que importar tudo de fora, incluindo comida, papel higiênico, sabonete e outros itens básicos. Tudo vai bem nos tempos de bonança, mas quando chega o período de escassez (ou seja, quando o preço do barril do petróleo no mercado internacional baixa) a situação aperta e a grana advinda do petróleo seca, o país se via em sérios problemas, incluindo hiperinflação e crise econômica. Foi assim, durante os choques do petróleo nos anos 1980 e 1990, que reverberaram profundamente na Venezuela.

O volume 24 da Enciclopédia Larousse Cultural, publicada pela finada editora Nova Cultural em 1998 (ou seja, antes mesmo de Hugo Chávez se tornar presidente da nação caribenha), mostra que muitos dos problemas estruturais que afligem a economia venezuelana hoje em dia já existiam na época da Quarta República.

E na política institucional, antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder vigorava a República de Punto Fijo (também conhecida como Quarta República Venezuelana), estabelecida em 1958 e por meio da qual dois partidos se alternavam no poder: a Ação Democrática e o Copei (Comitê de Organização Política Eleitoral Independente). Figuras como Rafael Caldera, Carlos Andrés Perez e Romulo Bettancourt ocuparam o palácio de Miraflores nesse período. Ou seja, era como se fosse uma espécie de política do Café com Leite à moda caribenha, tal como havia aqui no Brasil na época da Primeira República (1889 – 1930). Ou se quisermos usar um exemplo mais recente, o petucanismo aqui no Brasil com a alternância entre PT e PSDB no Palácio do Planalto, e com o PT no essencial mantendo a mesma política macroeconômica instituída nos anos 1990, quando o Plano Real foi instituído e o pacto de classes dele advindo.

Enquanto ditaduras se espalhavam pelo continente, a Venezuela recebia milhares de imigrantes: espanhóis, chilenos, argentinos, brasileiros…

O jornal El País chegou a dizer:

‘Na Venezuela se vive uma liberdade genuína.’”

A Venezuela podia ser a nível político-institucional uma democracia, mas isso não quer dizer nada. Tal como em outras partes da América Ibérica os protestos contra políticas neoliberais na Venezuela também foram tratados com base na bala. E o Caracazo, ocorrido em 27 de fevereiro de 1989, manda lembranças.

Foto – Caracazo.

Na ocasião, o então presidente Carlos Andrés Pérez (à época em seu segundo mandato) passou um pacote de medidas neoliberais, que incluía, entre outras coisas, o aumento do preço dos combustíveis. E por tabela, isso também implicou em um aumento no preço das passagens de ônibus. Como resultado, protestos surgiram em várias partes do país, sendo Caracas o epicentro. Para poder contornar a crise, o exército foi convocado e a repressão foi brutal. Grande morticínio se seguiu ao evento: calcula-se que possam ter morrido entre 277 (estatísticas oficiais) a mais de 3000 pessoas (estatísticas independentes) no Caracazo, sem contar ainda com feridos.

E é a partir deste momento que o nome de Hugo Chávez, então coronel do exército e líder do movimento MR-200, começa a se projetar no cenário político venezuelano. Em 1992 ele tentou assumir o poder por meio de um golpe de estado, mas não logrou sucesso. Apenas em 1998 é que ele, dessa vez pela via eleitoral, logrou se tornar presidente da Venezuela. E uma vez presidente da Venezuela, uma das primeiras coisas que ele fez foi enterrar a Quarta República Venezuelana e fundar uma nova República, a Quinta República Venezuelana, também conhecida como República Bolivariana da Venezuelana.

Você, Marcelo Andrade, fala de um jeito como se o Caracazo nunca tivesse existido. E como se a Venezuela pré-Chávez fosse um mundo idílico e paradisíaco, perfeito, que foi destruído pelo malvado Chávez e sua camarilha. Sendo que isso passa bem longe da realidade. A insatisfação popular era generalizada e Hugo Chávez soube captar tal sentimento, propondo uma alternativa ao arranjo até então existente no país. E no fim a República de Punto Fijo caiu sob o peso de suas contradições.

Os salários impressionavam o mundo. Um professor recém-chegado ao país na década de 70 relatou ter ganhado US$ 1.700 em seu primeiro mês, o suficiente para comprar um carro novo.

Em Miami, os venezuelanos ficaram conhecidos como os "dame dos" ("me dá dois"), de tanto que consumiam.

Em 1914, o país descobriu o petróleo e pelas 6 décadas seguintes seria chamado de ‘Venezuela saudita’, em referência à Arábia Saudita, maior produtora de petróleo do mundo.

Na capital, Caracas, os prédios eram altos e modernos para a época. As rodovias, largas. Os hotéis eram considerados um ‘luxo em um paraíso tropical’. E os venezuelanos tinham o título de maiores consumidores de uísque do mundo”.

Essa é uma parte da história, mas e a outra parte da história que você não mostra? O outro lado da moeda, a outra face do deus Janus?

Você não mostra no teu texto, certamente por conveniência de momento, quais venezuelanos tinham acesso a tal padrão de consumo. De fato, era comum as elites venezuelanas à época fazerem suas compras de supermercado em Miami, e não em supermercados venezuelanos. E que a linha aérea Miami-Caracas era uma das mais movimentadas do mundo.

Sem contar ainda que a influência cultural norte-americana no país era gigantesca. Tanto que se assistirmos aos seriados que o Carlos Villagrán fez depois que saiu do elenco de Chaves e Chapolin, terá a impressão de que se está assistindo a um sitcom americano. O que ajuda a causar um estranhamento ainda maior para com tais produções, para além do fato de o Kiko estar fora de seu habitat natural, a vila do Chaves. Seriados esses que foram produzidos e veiculados pela RCTV (a mesma emissora que em 2007 não teve sua concessão renovada pelo governo chavista) e exibidos no Brasil no começo dos anos 1990 pela Rede Bandeirantes, e dublados pelo mesmo estúdio que fez a dublagem dos seriados de Chespirito, a finada Maga.

Apenas as altas classes venezuelanas é que tinham acesso a tal padrão de consumo. Com o povão que vivia em ranchos como o de Caracas a história era totalmente outra. Calcula-se que nos governos anteriores a Hugo Chávez a pobreza extrema atingia 40% da população do país, e mais 70% abaixo da linha da pobreza, a subnutrição flagelava 21% da população, apenas 7 a cada 10 crianças concluíam o ensino primário (no que fazia da educação um privilégio dos ricos) e o acesso às universidades era algo restrito às elites e à pequena classe média. Apenas 387 mil idosos eram contemplados pela previdência venezuelana.

Tanto que uma das coisas que o Hugo Chávez fez ao se tornar presidente da nação caribenha é usar a renda do petróleo para programas sociais, visando melhorar as condições sociais das populações mais carentes do país. Sob Chávez a desigualdade social (medida pelo índice de Gini) diminuiu em 54%. A pobreza despencou de 70,8% em 1996 para 21% em 2010, ao passo que a extrema pobreza caiu de 40% em 1996 para 7,3% em 2010. A desnutrição foi reduzida a 5% e a desnutrição infantil, a 2,9%. A mortalidade infantil diminuiu de 25 por mil em 1990 para apenas 13 por mil em 2010. Em 2005, o país foi declarado livre do analfabetismo pela UNESCO. Entre outros feitos.

Foto – Hugo Chávez Rafael Frias (1954 – 2013).

Chávez também usou a renda do petróleo para investir no futebol, esporte até então secundário na Venezuela, visto que antes dele o esporte mais popular da nação caribenha era o beisebol, muito em função da influência cultural norte-americana por lá. A Venezuela (cuja seleção é apelidada de “Vinotinto”) até hoje nunca participou de uma Copa do Mundo, e durante muito tempo, quando enfrentava seleções como o Brasil ou a Argentina, vivia tomando goleada. Vide o exemplo do jogo entre Brasil e Venezuela da Copa América de 1999, ocorrida no Paraguai, no qual a Venezuela tomou de 7 a 0 do Brasil, naquele que foi o jogo de estreia do Ronaldinho Gaúcho pela seleção canarinho (à época treinada por Wanderley Luxemburgo) em competições oficiais.

O investimento chavista no futebol foi tal que a Venezuela não só aumentou a competividade no futebol, como também sediou a Copa América em 2007, passou a se classificar com mais frequência para a fase eliminatória da Copa América (chegou a ser quarta colocada na Copa América de 2011) e mais recentemente vemos que países como o Brasil e a Argentina já não têm a mesma facilidade de antes quando enfrentam a Venezuela. Vide o empate sem gols entre Brasil e Venezuela na Copa América de 2019. Talvez, seja questão de tempo um dia vermos a Vinotinto em uma Copa do Mundo, ainda mais agora que 48 times se classificam para a competição máxima do futebol mundial.

Entre 1959 e 1983, o desemprego no país se manteve na marca de 10%. No mesmo período, o crescimento médio do país foi de 4,3% por ano, a inflação também era menor do que a registrada em outros países da América Latina”.

E aí, cadê o período de 1983 a 1998, hein Marcelo Andrade? Pois o que aconteceu nesse meio tempo desmonta toda a narrativa que você quer vender. Cadê o Caracazo, cadê as políticas neoliberais da presidência de Carlos Andrés Pérez, cadê o corrupto sistema advindo do pacto de Punto Fijo em colapso em sua fase tardia?

No fim das contas, é um cherry-picking dos mais cretinos e vagais, bem típico de figuras como você e o Thiago Braga.

Até que em 1998, o povo elegeu o tenente-coronel Hugo Chávez, que já havia sido preso após uma tentativa de golpe de Estado. E iniciou o que chamou de ‘revolução bolivariana’.

Desde então, mesmo com as maiores reservas de petróleo do planeta, a Venezuela sofre com escassez de combustível. Sem comida, sem remédios e com milhões de refugiados, o país virou um retrato do fracasso socialista”.

E aí, vai chamar a Quarta República Venezuelana de socialista? Pois muitos dos problemas econômicos dos quais a Venezuela hoje padece já existiam antes mesmo de Hugo Chávez se tornar presidente da nação caribenha.

Segundo a ONU, 5,1 milhões de venezuelanos não têm o suficiente para comer. O PIB do país encolheu 73% na última década. E mais de 94% de venezuelanos vivem na extrema pobreza”.

A Venezuela já foi uma grande nação, mas o que o socialismo entregou foi o maior desastre da história moderna da América do Sul.

A lição é clara: o socialismo nunca resultará em nada além de miséria”.

Por um acaso um país vira socialista só por que institui políticas sociais e de redistribuição de renda? Não, isso não quer dizer nada. Um país pode muito bem ter política sociais mantendo o funcionamento já existente da economia. Acaso, por exemplo, as políticas de redistribuição de renda que existem em países como a Alemanha, a Holanda, o Reino Unido e as nações escandinavas tonam essas nações socialistas? Não. Passa bem longe disso. E acaso o Bolsa Família ou o SUS fizeram do Brasil um país socialista? Também não. Haja vista que mesmo com tais programas sociais os superricos do Brasil (muitos deles mancomunados com o PT inclusive) continuam enchendo as burras de dinheiro.

Vai chamar de socialismo um regime que nunca mudou de forma profunda a estrutura econômica do país? Um país que antes vivia de exportar petróleo cru para fora do país e que sob os ditos socialistas Hugo Chávez e Nicolás Maduro continuou vivendo da mesma forma como vivia antes deles? A Venezuela, sob Chávez e Maduro, continuou se organizando sob bases capitalistas. Tanto que grandes capitalistas como o conglomerado alimentício Polar e o grupo de mídia Cisneros continuaram a operar em solo venezuelano, mesmo na era chavista.

E mais: falando em socialismo, acaso o François Hollande, presidente da França entre 2012 a 2017, ser de um partido que se diz socialista (Partido Socialista) fez da França um país socialista? Não, não fez. E antes dele, a França teve outro presidente desse mesmo partido, o François Miterrand, que foi presidente de 1981 até sua morte em 1996. Miterrand também não fez da França um partido socialista. Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando. No fim das contas, siglas partidárias muitas vezes não passam de siglas partidárias.

Fontes:

As imprecisões de Nando Moura, parte 6 – A verdade não será televisionada. Disponível em:

https://resistenciaterceiromundista.blogspot.com/2017/08/os-imprecisoes-de-nando-moura-parte-6.html

Asentamientos irregulares en Venezuela (em espanhol). Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Asentamientos_irregulares_en_Venezuela

Grande Enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo: 1998. v. 24. p. 5907 – 5910.

Hugo Chávez e o futebol na Venezuela. Disponível em: https://trivela.com.br/america-do-sul/hugo-chavez-e-o-futebol-na-venezuela/#:~:text=Foram%20investidos%20cerca%20de%20US,grande%20renova%C3%A7%C3%A3o%20em%20outros%20seis.

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