quarta-feira, 11 de março de 2026

A podridão do reino da Dinamarca, parte I: o general Combs e a guerra das costas


 Foto – Jeffrey Epstein (1953 – 2019).

Uma sombra paira sobre a Casa Branca. E essa sombra tem nome: o finado Jeffrey Epstein.

O caso Epstein envolve políticos graúdos dos Estados Unidos, e tanto Republicanos quanto Democratas nele estão envolvidos até o pescoço. E se pensam que a coisa se resume aos Estados Unidos, muito enganados estão. Altos figurões da política israelense e da realeza europeia também tiveram seus envolvimentos com Epstein, finado desde 2019 e cuja morte até hoje é objeto de controvérsia. Teria ele de fato tirado a própria vida, ou fizeram uma operação de queima de arquivo para cima dele?

O fato é que no presente momento os EUA movem uma guerra contra o Irã em parceria com Israel. Por conta dos bombardeios, veio a óbito o aiatolá Ali Khamenei, presidente da República Islâmica do Irã entre 1981 a 1989 e desde 1989 líder espiritual da nação persa, assim como outros membros de sua família, incluindo a esposa, filhos, . O filho de Ali Khamenei, Modžtaba Hosseini Khamenei, foi eleito para suceder o pai no posto de líder espiritual do Irã. Além disso, a nação persa desistiu de participar da Copa do Mundo do presente ano.

Dado o timing dos eventos, a guerra contra o Irã está sendo claramente usada para desviar a atenção do caso Epstein, da mesma forma que em 1999 Bill Clinton (talvez, não por acaso, um dos muitos políticos hoje envolvidos no caso Epstein) usou a guerra de 78 dias contra a Iugoslávia para desviar a atenção do caso Monica Lewinsky. Dessa forma podemos muito bem chamar a atual guerra contra o Irã de a guerra Epstein.

Entretanto, algo muito importante deve ser dito: o caso Epstein não surgiu do nada. Pelo contrário, ele surge em um contexto maior de falência moral do mundo político e artístico norte-americano, junto com outros casos similares. Sobre os quais iremos falar mais adiante.

Historicamente, se tem um meio pelo qual os Estados Unidos têm se utilizado para se projetar para o resto do mundo é o cinema de Hollywood. Da mesma forma que, por exemplo, a França fazia o mesmo por meio da moda e da literatura, o México por meio das novelas e programas humorísticos, Hong Kong por meio dos filmes de artes marciais (estrelados por figuras como Bruce Lee, Jet Li e Jackie Chan), o Japão por meio dos animes, mangás e seriados tokusatsu, o Brasil por meio do futebol e das novelas, e mais recentemente a Turquia por meio das novelas e a Coréia do Sul por meio dos doramas e k-pop. É o chamado soft power, algo sobre o qual Ariano Suassuna explica em uma palestra datada dos anos 2000.

Toda a fantasia, todo o glamour que Hollywood e o mundo do show business vendem, tudo isso está ruindo por conta de uma série de escândalos, entre eles os casos Jeffrey Epstein e Puff Daddy. O véu de Maya foi rasgado. É o reino da Dinamarca mostrando as suas vísceras em alto grau de apodrecimento, parafraseando Shakespeare em sua obra Hamlet.

Comecemos pelo caso Puff Daddy.

O caso em questão estourou no segundo semestre de 2023, e diz respeito ao rapper e produtor musical novaiorquino Sean Combs, também conhecido pelas alcunhas de Puff Daddy e P.Diddy. Ou simplesmente Diddy.

Foto – Sean Combs, vulgo Puff Daddy/P.Diddy.

Recapitulemos um pouco da história de Combs. Oriundo do Harlem, tradicional bairro novaiorquino cuja história remonta aos tempos da Nova Amsterdam, Combs tem uma longa história não só como organizador de eventos, como também dentro do mundo da música.

Sua história como organizador de eventos começa no dia 28 de dezembro de 1991, quando ele organizou um jogo de basquete beneficente no City College de Nova York em parceria com Heavy D. O ginásio tinha capacidade máxima para 2730 pessoas. Só que algo deu muito errado nisso: cerca de 5000 pessoas tentaram entrar no local, no que ocasionou uma debandada que terminou com 9 mortos e 29 feridos.

Em 1993 Puff funda a gravadora Bad Boy Records, e por meio da Bad Boy Records lançou artistas como Usher, Mary J. Blige e Christopher George Latore Wallace, este último também conhecido como Biggie Smalls e The Notorious B. I. G. Nessa mesma época, o mundo do rap foi sacudido pela crescente rivalidade entre as costas leste e oeste. Mais precisamente entre Califórnia e Nova York, os principais cenários do rap e hip hop nos EUA à época.

Foto – Costa Leste x Costa Oeste.

À frente dessa guerra estavam duas gravadoras: a Bad Boy Records, liderada por Sean Combs e sediada em Nova York, e a Death Row Records, encabeçada por Suge Knight e sediada em Los Angeles. Episódio emblemático dessa contenda foi a premiação do Source Music Awards, ocorrida em Nova York no Paramount Theather, no dia 3 de agosto de 1995. No qual os artistas da costa oeste, entre eles Suge Knight e Snoop Dog, foram vaiados pela plateia.

Um dos principais artistas, se não o principal, da Death Row Records à época era Tupac Shakur (vulgo Lesane Parish Crooks). Novaiorquino de nascença, Tupac Shakur (também conhecido 2Pac) em um primeiro momento era amigo de Biggie Smalls. Sempre que ia à Califórnia Biggie dormia no sofá da casa de Tupac (à época já um cantor de certo renome e já tendo atuado em alguns filmes), e Tupac, por seu turno, quando ia a Nova York ia se encontrar com Biggie. Para Biggie, Tupac exerceu um papel de mentor musical à época.  

Mas um incidente veio a azedar de forma irremediável a relação entre os dois: o incidente no estúdio Quad, ocorrido no dia 30 de novembro de 1994. Tupac foi emboscado e baleado, e em fevereiro de 1995 foi preso por conta do incidente de abuso sexual envolvendo Ayanna Jackson dois anos antes. Apenas em outubro do mesmo ano que Tupac saiu da cadeia mediante fiança paga por Suge Knight.

Foto – Suge Knight.

Tupac passou a acreditar que Biggie e Puff tiveram alguma relação com o incidente, que eles sabiam de algo e não fizeram nada para impedir o ocorrido, e para jogar ainda mais lenha na fogueira Biggie lança em 1995 a música “Who Shot Ya?”. Dado o timing infeliz, Tupac achou que a música em questão era para ele, zombando dele por ele ter sido baleado e em seguida preso.

Em resposta, Tupac lançou a música “Hit em’ Up”, uma diss track (tipo de música feita para insultar e/ou expor outro artista) destinada especialmente a Biggie e Puff Daddy. No clipe de Hit em’ Up Biggie e Puff são interpretados por sósias (prática muito comum do rap da época). 

Tupac também caçoa de Biggie e Puff na música “2 of Americaz most wanted”, do álbum “All eyez on me”, em parceria com Snoop Dog. No clipe dessa música também vemos Biggie e Puff sendo vividos por sósias.

A tensão entre as costas com o passar do tempo foi se elevando, e era questão de tempo uma tragédia ocorrer.

No dia 7 de setembro de 1996, após voltar de uma luta de Mike Tyson (amigo pessoal de Tupac) no MGM Grand Arena, Tupac, acompanhado de Suge Knight, foi baleado nas ruas de Las Vegas. Os tiros vieram de um carro que o seguiu. Tupac tomou quatro tiros, foi hospitalizado, mas dada a gravidade de seus ferimentos veio a óbito seis dias depois. A mãe dele, a ex-militante do movimento dos Panteras Negras Afeni Shakur, vendo que estava diante de uma batalha perdida, resolveu por desligar os aparelhos que o mantinham vivo. Como não poderia deixar de ser, suspeitas e especulações de que Puff estivesse envolvido de alguma forma com a morte de Tupac surgiram.

Na madrugada do dia 9 de março do ano seguinte, foi a vez de Biggie (o qual estava para lançar seu segundo disco, Life After Death) nos deixar. Após voltar de uma festa organizada pela revista Vibe no Petersen Automotive Museum, ele foi baleado nas ruas de Los Angeles, quando o carro em que Biggie estava parou em um semáforo e tiros saíram de um carro Chevrolet Impala SS. Biggie tomou quatro tiros, foi levado às pressas ao hospital, e meia hora após ser hospitalizado foi declarado morto. E assim as duas maiores lendas da história do rap nos deixaram, de forma inglória e trágica, antes mesmo de completarem 30 anos de idade.

Foto – Tupac Shakur (direita) e Biggie Smalls (esquerda).

Tupac e Biggie deixaram este mundo, assim como tantos outros rappers que vieram a morrer em circunstâncias similares nos anos seguintes, tais como Fat Pat, Big L, DJ Uncle Al, Big Hawk (irmão mais velho de Fat Pat) e tantos outros (ainda que em situações sem relação direta com a guerra das costas). Assim como os casos de Tupac e Biggie, muitos desses casos continuam sem solução até hoje.

A Death Row Records faliu em 2008 e Suge Knight, por seu turno, foi preso em 2018 por homicídio culposo voluntário em um atropelamento fatal ocorrido três anos antes. Foi sentenciado a 28 anos de prisão e apenas em 2034 terá direito à liberdade condicional.

A mãe de Tupac, Afeni Shakur, nos deixou em 2016, sem que o caso da morte do filho fosse solucionado. A mãe de Biggie, Voletta Wallace, nos deixou em 2025, também sem ver solução alguma para o caso da morte do filho.

A cena de rap nos Estados Unidos, nos anos subsequentes, viu a primazia das costas leste e oeste ser questionada por meio da ascensão de novas cenas de rap, entre elas a costa sul.

Já Puff, ou se preferirem, o general Combs, no fim das contas, emergiu como o grande vitorioso da guerra das costas. Ele começou ainda nos anos 1990 a organizar festas que reuniam a nata do mundo do show business. Mais precisamente, a partir de 1998.

Entre 1998 a 2009, Puff foi o anfitrião de uma série de festas conhecidas como as festas brancas. É um tipo de festa, muito comum em Hollywood, nas quais os presentes vestem trajes brancos, dessa forma não sendo exclusividade do rapper.

As festas de Puff aconteceram na casa do rapper e produtor musical em East Hampton, Nova York, ao passo que a festa de 2006 aconteceu em Saint-Tropez no sul da França e a de 2009, a última delas, em Beverly Hills na Califórnia. Tais festas geralmente começavam de dia e duravam até as primeiras horas do dia seguinte, sendo patrocinados por marcas importantes que distribuíam mercadorias e produtos. Importantes celebridades, entre elas Paris Hilton, Justin Bieber, Mariah Carey, Usher, Leonardo di Caprio, Rihanna, Nick Minaj, as irmãs Kardashian, Ashton Kutcher, Will Smith, Naomi Campbell, Kanye West, Jay-Z e Beyoncé compareceram a tais festas. Jornalistas como Oprah Winfrey, atletas como Lebron James e Tiger Woods, políticos graúdos como Barack Obama, Hillary Clinton e Donald Trump e membros da realeza como o príncipe Harry também marcaram presença nessas festas.

Festa – Foto da primeira festa branca de Puff, datada de 1998. Leonardo di Caprio no centro.

Só que as festas de Puff Daddy, por trás de todo o luxo e o glamour por ele vendido, também tinham seu lado sombrio.

Narcóticos rolavam soltos nelas, assim como violência física, intercursos sexuais sem consentimento de uma das partes. Tudo isso regado a uma substância conhecida como óleo de bebê. Cerca de 1000 frascos dessa substância foram encontrados em uma batida policial feita na mansão de Puff em 2024. Em outras palavras, as festas de Puff Daddy era um verdadeiro bacanal. E a coisa não para por aí: filmagens eram feitas dos atuais sexuais que ocorriam nas festas. E com essas filmagens em mãos, Puff tinha um meio de chantagem em mãos, verdadeira carta na manga muito útil para eventuais complicações judiciais.

A fama das festas organizadas por Puff era tal que não passava despercebida. Haja vista, por exemplo, o filme “As branquelas” (originalmente White Chicks), estrelado pelos irmãos Shawn e Marlon Wayans. Há uma cena na qual o personagem de Marlon Wayans, se passando por uma mulher chamada Tiffany Wilson, é leiloado e diz que não ir a um encontro com um homem chamado Buff Daddy. Lembrando, a propósito, que no clipe da música “2 of Americaz most wanted” Tupac chama Puff de Buff, Biggie de Piggie e Faith Evans (esposa de Biggie e mãe dos dois filhos dele) de Paith.

Há um episódio de South Park, o episódio 11 da temporada 10, “Inferno na Terra 2006”, em que as festas dele são citadas. Nesse mesmo episódio, Biggie aparece como espécie de alma penada que é invocada sempre que o nome dele é dito três vezes em frente a um espelho.

As festas de Puff Daddy também aparecem em um episódio de Simpsons, o episódio 12 da temporada 28, intitulado “O grande Phatsby” e lançado em 2017. Phatsby é uma clara alusão ao personagem literário Gatsby, da obra “O grande Gatsby”, escrita por Francis Scott Fitzgerald e lançada em 1925. Na obra Gatsby é um bilionário conhecido por suas festas animadas e extravagantes que ele mesmo dava em sua mansão em Long Island. Ou seja, tudo a ver com Puff Daddy. Posteriormente, a obra de Fitzgerald ganhou várias adaptações para cinema, incluindo os filmes de 1926, 1949, 1974, 2000 e 2013 (este último com participação de Leonardo DiCaprio).

Foto – Mariah Carey (esquerda) e Puff Daddy (direita).

Em 2003, Puff adquire propriedades em Star Island em Miami, e 11 anos depois propriedade em Los Angeles. Mais precisamente, uma mansão em Holmby Hills, avaliada à época em US$ 40 milhões. Isso à primeira vista pode parecer algo anedótico e até irrelevante, sendo que na verdade possui grande significado do ponto de vista simbólico. Visto que Puff passou a morar na mesma Los Angeles na qual Biggie foi morto 17 anos antes e que era a sede da já finada Death Row na época da guerra das costas. Era como se Puff, como um general vencedor de uma guerra, tivesse hasteado seus estandartes no território do inimigo vencido, ainda que um tanto quanto tardiamente. E tão logo marcou terreno em Los Angeles, começou a dar festas em sua nova propriedade, algo certamente impensável nos anos 1990.

Só que chegou 2023 e o general Combs viria a enfrentar uma nova guerra. Uma guerra bem diferente daquela que ele estava acostumado. Se nos anos 1990 o general Combs comandou as hostes da Bad Boy Records em batalhas campais contra um adversário bem definido, no caso as hostes da Death Row Records, agora ele se viu diante de um novo tipo de guerra, a guerra de tribunal. Uma guerra de caráter assimétrico na qual teria de enfrentar juízes, promotores, advogados de acusação, acusadora e de brinde a justiça dos homens. A narrativa já não está mais do seu lado e o cerco estava definitivamente se fechando contra Puff. O jogo virou – o conquistador de outrora agora precisa defender suas conquistas.

No final de 2023 a cantora Cassie Ventura, namorada de Combs por muitos anos, o denunciou à justiça. Ela formalizou acusações de agressão sexual contra o produtor musical e rapper. Ventura também acusou Puff de forçá-la a ter relações com outros homens durante vários anos. Batidas policiais foram feitas nas propriedades de Puff em Nova York, Miami e Los Angeles.

Em maio de 2024, um vídeo que mostrava Puff agredindo a cantora foi divulgado, o que levou a um processo resolvido fora do tribunal. Entretanto, essa situação desencadeou uma série de novas denúncias de agressão sexual, gerando assim investigações adicionais sobre Puff.

Em 16 de setembro de 2024 Puff foi preso, e sobre ele pesaram acusações graves: tráfico sexual, extorsão, conspiração e transporte para fins de prostituição. Diddy declarou-se inocente, mas teve pedido de fiança negado. Visto que o tribunal destacou seu histórico de abuso de substâncias e acessos de fúria como riscos à sociedade.

No julgamento que se seguiu, Puff foi inocentado das acusações mais graves de sexual e racketeering (ser o chefe de uma associação criminosa), mas foi condenado por transporte para engajamento em prostituição. Ao fim do processo foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão. Hoje amarga prisão no Metropolitan Detetion Center, em Nova York.

Triste fim de Puff Daddy. Teve um começo humilde no Harlem, em Nova York. Ascendeu socialmente, tornou-se um dos homens mais bem relacionados do mundo do show business, lançou vários artistas, tornou-se anfitrião de festas extravagantes, mas ao ascender socialmente parece-me que ele se esqueceu de onde veio. E é bem razoável supor que os grão-finos do mundo do showbusiness certamente não o aceitavam no círculo deles, no máximo o toleravam e o olhavam com desdém e de cima para baixo por conta da origem humilde e por ele mesmo ser negro em um dos países mais racistas do mundo. E agora está preso na mesma Nova York de onde veio.

Puff Daddy foi preso. E uma série de perguntas fica no ar: e as celebridades que nesse tempo todo estiveram envolvidas com o rapper, como será que ficam? Elas vão sofrer alguma represália ou será que Puff no fim das contas vai virar o boi de piranha conveniente ao sistema? E será que Puff, assim como Epstein, na verdade era apenas a ponta do iceberg do sistema em questão, ou seja, a face visível do mesmo?

Foto – Puff Daddy (direita) e Cassie Ventura (esquerda).

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