sexta-feira, 24 de julho de 2026

Considerações sobre o bicampeonato espanhol e as comparações entre Pelé e Messi.

 

Foto – Espanha campeã da Copa do Mundo 2026.

Enfim a Copa do Mundo 2026 chegou ao fim. E a grande vencedora foi a Espanha. A equipe comandada por jogadores como Lamini Yamal, Fernan Torres, Rodri e companhia limitada e pelo técnico Luis de la Fuente Castillo venceu a Argentina por 1 a 0 (gol marcado por Fernan Torres na prorrogação – e não esquecendo que a Espanha teve um gol legítimo anulado pelo VAR minutos antes, marcado por Nico Williams), e assim conquistou sua segunda copa do mundo (a primeira foi em 2010, após vencer a Holanda, também na prorrogação).

E eu, particularmente, fiquei feliz com esse resultado. Nas quartas-de-final, torci para que a Noruega de Erling Haaland fosse a grande campeã, para ver um campeão de Copa do Mundo inédito e diferente. Mas, com a derrota do time escandinavo para a Inglaterra por 2 a 1, passei a torcer para a Espanha. Estava torcendo pela vitória da Espanha, e não por causa de racismo por parte dos argentinos ou coisa do tipo como muitos por aí fizeram. Para mim atitudes de torcedores, sejam elas vindas de quem quer que seja, é o menor dos problemas. Estava é torcendo pelo ponto fora da curva.

Mas, de fato. A questão do racismo na Argentina existe sim e é um problema de longa data na nação platina, tendo em vista todo o histórico de racismo e discriminação contra minorias étnicas que vem desde o século XIX, desde que a Argentina se tornou independente da Espanha e se formou enquanto estado nacional, com todo o processo de branqueamento de sua população levado adiante pelos sucessivos governos por meio da massiva vinda de imigrantes europeus à Argentina. Ao passo que grande parte da população negra local foi exterminada em decorrência de massacres em guerras e epidemias em cidades como Buenos Aires.

Isso a tal ponto que se formos vermos novelas argentinas recentes como Violetta, Sou Luna e Kally’s Mashup (as duas primeiras produzidas pela Disney e a terceira pela Nickelodeon em parceria com estúdios locais), perceberá a ausência de diversidade étnica nessas novelas. Na verdade, até há diversidade étnica, visto que em Violetta e Sou Luna só há um negro, que é interpretado por um ator brasileiro (Samuel Nascimento), e em Sou Luna o único personagem com traços claramente indígenas é interpretado por um ator mexicano (Michael Ronda, que na novela faz o Simón). Só que é, digamos, a diversidade étnica para gringo ver. As tramas dessas novelas se passam em Buenos Aires, e geralmente em bairros e colégios da alta sociedade portenha. Nada muito diferente das novelas brasileiras que se passam em ambientes da alta sociedade carioca ou paulistana, diga-se de passagem.

Foto – Elenco de Violetta.

Ao passo que a Argentina profunda pode ser vista, por exemplo, nos programas do pescador e naturalista inglês Jeremy Wade, como Monstros do Rio (originalmente River Monsters), o qual em alguns episódios visitou as províncias do norte do país como Corrientes, Misiones e Jujuy. Ou seja, temos a situação paradoxal na qual um gringo mostra mais da Argentina e suas regiões interioranas que os próprios argentinos, do alto do pensamento deles de se acharem europeus perdidos no meio da América.

Foto – Jeremy Wade na Argentina.

E, para adicionar mais uma camada de paradoxo, a própria seleção argentina de futebol é etnicamente mais europeia que seleções europeias como França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Espanha e Portugal, com alguns jogadores filhos ou netos de imigrantes geralmente vindos de ex-colônias desses países. Aliás, no desenho francês Miraculous: as aventuras de Lady Bug, vemos bem mais diversidade étnica que nas novelas argentinas em questão, a começar pelo fato de que a protagonista do desenho é mestiça de pai francês com mãe chinesa.

Mas o ponto nevrálgico da questão, o elefante na sala é outro, como veremos.

Certa vez, Jorge Kajuru, em entrevista, disse o seguinte – que jogos de futebol são decididos 60% fora de campo e os outros 40% dentro de campo. Na presente copa claramente havia um interesse por parte principalmente da FIFA, atualmente comandada por Gianni Infantino, para que a Argentina fosse mais uma vez campeã do mundo, de preferência enfrentando um time como a França na final.


Mas, por mais que nesse e em outros jogos a arbitragem tenha claramente ajudado o time platino (vide o exemplo do jogo contra o Egito, nas oitavas-de-final; diga-se de passagem, o time do Messi ser eliminado por um time árabe seria um péssimo negócio para Infantino e companhia limitada), na grande final a Argentina não fez a parte dela em campo (mal viu a cor da bola na final, no fim das contas) e no fim tiveram que engolir o merecido título da Espanha. Paradigmático disso é a atitude que os argentinos tiveram tão logo o jogo acabou – os espanhóis parabenizaram os argentinos quando estes receberam a medalha de prata, ao passo que os argentinos não devolveram a gentileza quando os espanhóis receberam a medalha de ouro e deram as costas aos vencedores. Claramente mostrando ao mundo que eles não passam de maus perdedores.

Fica evidente que há um claro interesse por parte das pessoas que comandam o futebol mundial hoje em dia em promover o Messi como o novo rei do futebol, no lugar do Pelé. Em outras palavras, o favorecimento é não para a Argentina em específico, e sim para o Messi.

Afinal, Messi, embora seja argentino de nascença, é um jogador que jogou a carreira toda dele na Europa, em times como o Barcelona e o Paris Saint-Germain, e só mais no final foi jogar nos Estados Unidos pelo Inter Miami. E, na contramão de Maradona, é um sujeito que não costuma se manifestar politicamente. Limpinho, cheirosinho, carreira quase toda na Europa, o produto ideal para os senhores do futebol mundial promoverem como novo rei do futebol. E aí é só ligarmos os pontos.

Foto – Messi (esquerda), Infantino (meio) e Trump (direita).

Entenderam, ou precisa desenhar? A questão aqui é apontar o processo sórdido e canalha que há por trás da promoção do Messi como novo rei do futebol, com a clara intenção de em médio e longo prazo transformar o Pelé, um homem negro que jogou toda a sua carreira no Brasil e só no final foi jogar nos Estados Unidos, em um jogador comum para as próximas gerações que não o viram jogar, no máximo ouviram as histórias sobre ele. Em última instância, apagar a memória do Pelé. Ainda mais agora que o próprio Pelé já não está mais conosco, assim como a maioria do pessoal com o qual ele jogou, e a geração que viu o rei do futebol jogar indo embora.

E o que é pior, o próprio Messi, ao que tudo indica, se prestando a tal papel ridículo. Mas uma coisa é certa nisso tudo – a história cobrará caro o jogador argentino no futuro por isso.

Não há como comparar Messi com Pelé. Para além do fato de ambos terem jogado em épocas bem diferentes um do outro, o seguinte fato é mais que o suficiente: Pelé ganhou 3 das 4 copas do mundo que disputou, em 1958, 1962 e 1970. Em 1966, não passou nem da primeira fase dada a eliminação precoce da seleção brasileira. Ou seja, aproveitamento de 75% (e não me venham com essa de que em 1962 ele só jogou dois jogos – ele estava no time e isso é o que importa). Como jogador, ninguém conseguiu tal feito na história das Copas do Mundo. Ao passo que Messi só ganhou uma das 6 copas que disputou, a de 2022 (ou seja, 16,6% de aproveitamento). De resto foi quartas-de-final em 2006 e 2010, vice-campeão em 2014, oitavas-de-final em 2018 e agora mais uma vez vice-campeão.

E não esquecendo que outro brasileiro também tem três copas em seu currículo, Mário Jorge Lobo Zagallo. Três não, quatro. Visto que o velho lobo ganhou duas copas como jogador, mais uma como técnico e mais uma como auxiliar técnico. Um feito a meu ver ainda mais impressionante que o de Pelé, visto que além de Zagallo apenas o alemão Franz Beckenbauer e o francês Didier Deschamps ganharam a competição máxima do futebol mundial tanto como jogador quanto como técnico.

Além disso, como que querem comparar o Pelé com o Messi, sendo que o Messi, antes da Copa de 2022, vivia tendo desempenhos pífios e apagados sempre que jogava pela albiceleste? O fato de ele ter brilhado em 2022 e tido seus bons momentos em 2026 de forma alguma apaga as péssimas atuações que ele teve antes disso. O desempenho de Messi na seleção argentina antes de 2022 era tão ruim que ele me passava a impressão de que fora do Barcelona ele era como se fosse um peixe fora d’água, diria até que o parasita do time que bem provavelmente só estava ali por pressão de patrocinadores. Talvez os mesmos patrocinadores que desejam que ele venha a ser sagrado como o novo rei do futebol.

Por sorte, a Espanha venceu a Copa de 2026, a Copa que seria para eles a sagração do Messi em caso de título da Argentina, a sagração que acabou não aconteceu. Tudo estava pronto. Só que os planos não saíram como o esperado para eles.

Essa é a verdadeira questão de racismo, o verdadeiro elefante na sala que muitos não estão vendo. E podem ter certeza que a derrota da Argentina na copa do mundo deste ano, embora tenha sido um golpe duro nos planos dessa gente, um grande revés, não significa o fim dessa agenda por parte de Infantino e companhia limitada. Muito pelo contrário, podem ter certeza que esse pessoal que hoje comanda o futebol mundial ainda não desistiu de promover um novo rei do futebol no lugar de Pelé, um Messi 2.0 que sirva aos propósitos deles.

Quem será esse novo aspirante a Messi 2.0? Apenas o tempo dirá, mas já dá para ter uma noção de quem será esse personagem e o perfil dele. Um jogador branco, formado na Europa, que jogou praticamente que a carreira toda na Europa e muito bem relacionado com o pessoal da Fifa e patrocinadores influentes. Dessa forma, podemos descartar jogadores de ascendência africana como o francês Kylian Mbappé e o espanhol Lamine Yamal. Mas podemos ter certeza de uma coisa – parafraseando Karl Marx no 18 Brumário de Luís Bonaparte, vai ser a história se repetindo primeiro como tragédia e depois como farsa.

E quanto ao futuro da Argentina em copas do mundo, anotem aí o que vou dizer – com o fim iminente da era Messi, a Argentina voltará a ser o que era antes, se não pior. O time de craques que atuam nas principais ligas europeias e que entra na Copa badalado, mas que tomba miseravelmente quando chega às oitavas ou quartas-de-final. É só lembrarmos dos desempenhos da Argentina a partir da copa de 1994: em 1994 perdeu para a Romênia nas oitavas-de-final por 3 a 2. Em 1998 tombou para a Holanda nas oitavas-de-final após derrota por 2 a 1 e o gol antológico de Bergkamp. Não passou nem da primeira fase em 2002. Em 2006 e 2010, com Messi já jogando pela seleção argentina, duas eliminações para a Alemanha nas quartas-de-final, em 2006 após empate no tempo normal por 1 a 1 e derrota nos pênaltis por 4 a 2 e em 2010 derrota por 4 a 0. E em 2018 eliminação para a França nas oitavas-de-final após derrota por 4 a 3.

E a coisa não para por aí. Desde 2018 times argentinos não mais vencem mais a Copa Libertadores, com o título do River Plate. O mesmo River Plate que no mundial do mesmo ano foi eliminado ainda nas semifinais pelo time dos Emirados Árabes Unidos Al Ain, após empatar em 2 a 2 no tempo normal e perder por 5 a 4 nos pênaltis. E a última vez em que um time argentino disputou final de Libertadores foi em 2023, na qual o Fluminense venceu o Boca Juniors por 2 a 1.

O predomínio brasileiro em Libertadores é tal que temos visto a imprensa dos países vizinhos se queixando disso. E podem ter certeza que a conta que hoje os clubes argentinos pagam logo chegará também à seleção principal em Copa do Mundo. É questão de tempo ela chegar, e quando chegar vai vir com juros e correção monetária. Quem viver, viverá para ver a Argentina começar a cair em oitavas-de-final, quem sabe até em 16 avos de final ou até mesmo em primeira fase.