Foto – Jeffrey Epstein.
“Ashrah: a sua Hollywood está cheia de mal.
Johnny Cage: não precisa da Kris[1]
para sacar”
Fala de início de luta entre Johnny Cage e Ashrah, Mortal
Kombat 1.
Como já dito no preâmbulo da primeira parte, e é muito
importante frisar: o caso Epstein não é uma anomalia, um caso isolado, muito
menos surge do nada. Quem assim pensa assina atestado de estupidez. Muito pelo
contrário, o caso Epstein surge dentro de um contexto no qual uma série de
escândalos no mundo do showbusiness vem à tona. E que mostram ao mundo a
extensão da podridão do reino da Dinamarca. O quão profunda a coisa é.
Dando continuidade à série de artigos, agora abordaremos o
caso Dan Schneider (vulgo Dan Alfaiate[2]).
A título de registro, o título da segunda parte da presente
série de artigos é uma alusão ao episódio “verde de raiva” (originalmente
“green with evil”), da primeira temporada de Power Rangers, o primeiro de um
arco de cinco episódios (se estende do episódio 17 ao 21) que marca a estréia
do personagem Tommy Oliver (interpretado pelo finado Jason David Frank e
dublado no Brasil por Reinaldo Buzzoni nas duas primeiras temporadas e Jorge
Lucas nas temporadas subsequentes) no seriado.
Mas antes de entrarmos em maiores detalhes sobre o caso Dan
Schneider, um pouco sobre a história da Nickelodeon para melhor
contextualização da história.
A história da Nickelodeon começa ainda nos anos 1970, mais
precisamente no dia 1º de dezembro de 1977. Em um primeiro momento a
Nickelodeon foi parte da grade de programação da Qube Network, um dos primeiros
sistemas de televisão a cabo resultado de parceria entre as empresas Warner
Communications e a American Express, disponível para 600 mil assinantes da
cidade de Columbus (Ohio). Seus primeiros programas, voltados ao público
infanto-juvenil, eram desenhos como Video Comic Book, America Goes Bananaz,
Nickel Flicks e By the Way, os quais faziam parte do Pinwheel (nome inicial do
canal), show apresentado por um homem e várias marionetes.
Entretanto, apenas no dia 1º de abril de 1979 é que a
Nickelodeon virou um canal próprio e disponível em outras partes dos Estados
Unidos. Fundada pela educadora e executiva de televisão Vivian Horner, a
Nickelodeon à época era o único canal a cabo com programação totalmente voltada
ao público infanto-juvenil.
Nos anos subsequentes, a Nickelodeon não apenas passa a
distribuir seu sinal para outras partes do globo (incluindo o Brasil a partir
de 1996), como também passa a se destacar na produção de desenhos animados e
sitcons. Entre eles desenhos famosos como a vida moderna de Rocko, Doug, Hey
Arnold!, Ren e Stimpy, os Padrinhos Mágicos, Rugrats (lançado no Brasil com o
título de Os anjinhos), Rocket Power, Os Thornberrys, Ginger e Bob Esponja e
sitcons como Clarissa sabe tudo (originalmente Clarissa Explains it All), Kenan
e Kel, show da Amanda, Manual de Sobrevivência escolar do Ned e tantos outros,
os quais obtiveram grande sucesso nos anos 1990 e 2000.
Foto – Vivian Horner (1934 – 2022), a fundadora da Nickelodeon.
Uma das marcas registradas dos
programas da Nickelodeon, incluindo até mesmo premiações como o Kids Choice
Award e o Meus Prêmios Nick, é a presença periódica de um líquido verde e
viscoso chamado slime. O slime é feito a partir de uma mistura de pudim de baunilha,
purê de maçã, corante alimentício verde e um pouco de aveia. Apareceu pela
primeira vez no programa “You can’t do that on Television”, nos idos de 1979.
Geralmente, o banho de slime se dava
em programas de game show como forma de “punição divertida” e em premiações nas
quais celebridades, geralmente vencedores de um prêmio, eram “meladas”. E com o
tempo, o slime se tornou parte da identidade do canal.
Foto – banho de slime no programa “You can’t do that on Television”.
Um dos principais produtores de
conteúdo da Nickelodeon em sua época áurea (ou seja, anos 1990 e 2000) é Dan
Schneider.
Nascido em Memphis no dia 14 de
janeiro de 1966, Dan Schneider (nascido Daniel James Schneider) cresceu em Nova
York, no bairro do Queens, após ser adotado por uma família de classe
baixa-média. Em 1980, Schneider inicia sua carreira, com participações em
filmes como Making the Grade, Better Off Dead e The Big Picture (lançado como A
Grande Comédia no Brasil). Em 1994 começa a trabalhar para a Nickelodeon, não
como ator, mas como roteirista e produtor de seriados.
Durante muito tempo Dan Schneider
trabalhou para a Nickelodeon por meio de sua empresa associada Schneider’s
Bakery, e foi a mente por trás de muitos dos sitcons de sucesso do canal, entre
eles Kenan e Kel, o show da Amanda, Drake e Josh, Zoey 101, iCarly, Victorious
(lançado como Brilhante Vitória no Brasil), Sam e Cat (spin-off de iCarly e
Victorious) e Henry Danger.
Foto – Dan Schneider (ao centro).
Os anos 1990 e 2000 foi a época na qual Disney e Nickelodeon
travaram uma intensa briga pela audiência infanto-juvenil norte-americana. Cada
uma com diferentes abordagens. Enquanto que a Disney adotava um estilo mais
focado em emoção, fantasia e magia, uma coisa mais família, a Nickelodeon já
tinha um estilo mais, digamos, caótico e cômico, voltado para situações
absurdas.
A Disney com desenhos animados como Phineas e Ferb, sitcons como
Zack e Cody, as visões da Raven, Lizzie McGuire, Hannah Montana e os
feiticeiros de Waverly Place e filmes de sucesso como High School Musical e
Camp Rock, lançou estrelas como Raven Simoné, Hillary Duff, Miley Cyrus, Demi
Lovato e Selena Gomez. E a Nickelodeon idem, lançou estrelas tais como Amanda Bynes,
Miranda Cosgrove, Victoria Justice, Ariana Grande, Daniella Monet e tantas
outras. Dessas, apenas Ariana Grande (a qual participou primeiro de Victorious
e depois de Sam e Cat) teve grande sucesso no mundo do showbusiness após o fim
de sua passagem pela Nickelodeon (ao passo que as estrelas da Disney se saíram
bem melhor nesse quesito).
Não raro, as duas empresas trocavam alfinetadas entre si por
meio dos programas. Vide o episódio de iCarly “iTake on Dingo”, o episódio 21 da
segunda temporada. No episódio em questão, Carly e Sam descobrem que o programa
Totalmente Teri, do Dingo Channel, está plagiando as ideias do iCarly. A
dupla vai a Hollywood para tentar convencer os produtores do programa a pararem
com o plágio, enquanto que Freddy e Spencer decidem provar a veracidade da história
de que a cabeça do fundador do canal, Charles Dingo, está congelada nos fundos
do estúdio (clara alusão à lenda urbana de que Walt Disney foi congelado
criogenicamente na Disneylândia debaixo de uma das atrações). O canal em
questão é uma clara paródia do Disney Channel, e Totalmente Teri é
claramente uma alusão a Sunny entre estrelas (originalmente Sunny with a
choice), sitcom da Disney estrelado por Demi Lovato produzido entre 2009 a 2011
e que aproveitou a ideia original do iCarly, de uma garota que passa a
apresentar seu programa televisivo favorito (depois modificada para um web
show).
Há um ditado que diz que onde há luz há escuridão, e Dan
Schneider não era a exceção que confirma a regra. Embora fosse um roteirista
talentoso e tenha emplacado sucessos um atrás do outro como produtor, Dan
Schneider tinha seu lado problemático nos bastidores. O que veio à tona em
massa principalmente a partir de 2018, durante a explosão do movimento #MeToo.
Polêmicas e controvérsias envolvendo Dan Schneider e o ambiente de trabalho dos
sitcons que ele mesmo escreveu emergiram.
E, para piorar ainda mais as coisas para o lado dele, em
2024 saiu o documentário “Quiet on Set: the Dark Side of Kids TV (Calado no
set: o lado sombrio da TV infantil)”, pelo canal Discovery ID, com cinco
episódios ao todo e que contou com a participação de artistas e funcionários
que participaram dos sitcons, entre eles Drake Bell (o Drake de Drake e Josh) e
Alexa Nikolas (a Nicole de Zoey 101).
Nesse documentário, notou-se uma série de vídeos virais que
mostram cenas inadequadas de programas produzidos por Dan Schneider. Entre
elas, cenas de mensagens subliminares envolvendo podolatria (fetiche por pés),
práticas sugestivas à ejaculação e até mesmo assédio sexual nos programas de
Schneider. Boa parte dessas cenas envolvem Ariana Grande, entre elas cenas do
episódio “Sobrevivendo ao calor” (originalmente “Survival of the Hottest” - título bem sugestivo e de duplo sentido, a propósito, que a dublagem brasileira do sitcom tratou de dar uma alterada, e com razão), o
oitavo episódio da primeira temporada de Victorious, que se passa em uma das
praias de Los Angeles. Detalhe: quando Victorious começou, nos idos de 2010,
Ariana Grande tinha apenas 17 anos.
Além disso, Schneider dava festas na piscina de sua casa e chamava as atrizes dos programas, à época menores de idade, sem o consentimento dos pais delas.
Uma das controvérsias envolvendo o nome de Dan Schneider
gira em torna de Jamie Lynn Spears, irmã mais nova de Britney Spears. Jamie foi
a protagonista de um dos sitcons da Nickelodeon da época, Zoey 101, produzido
entre 2005 a 2008. Em 2007, já no final da produção do sitcom, Jamie anunciou
que estava grávida de uma menina. Detalhe: ela tinha apenas 16 anos de idade à
época. Jamie sempre sustentou que o pai de sua filha, que ganhou o nome de
Maddie Briann, é o namorado dela da época. Mas há quem acredite que o pai do
filho de Jamie Lynn seja na verdade o próprio Dan Schneider.
Foto – Jamie Lynn Spears.
Antes mesmo do caso envolvendo Jamie Lynn Spears, houve o
caso envolvendo a atriz Amanda Bynes. Amanda Bynes foi a protagonista do sitcom
que leva seu próprio nome, o Show da Amanda, produzido entre 1999 a 2002, além
de ter feito participações no seriado All That na mesma época. Quando o show da
Amanda, um dos programas de maior audiência da Nickelodeon à época, teve
início, ela ainda tinha apenas 13 anos.
Circulam vídeos nos quais pode-se ver uma Amanda Bynes em trajes de banho ainda
bem novinha dividindo uma jacuzzi com Dan Schneider totalmente vestido. Algo no
mínimo bem inapropriado, diga-se de passagem, um homem já adulto (e ainda por
cima obeso) tendo esse tipo de relação com uma menor de idade.
Após o fim da série, ela se afastou da Nickelodeon, passou a fazer filmes voltados ao público infanto-juvenil, até encerrar a carreira em 2010. Passou a enfrentar problemas com drogas e álcool, a está irreconhecível em relação ao começo de sua carreira e lida com questões de saúde mental.
Foto – Amanda Bynes ontem (esquerda) e hoje (direita).
Outro ponto polêmico envolvendo Dan Schneider diz respeito à
atriz Jenette Faye McCurdy, que interpretou a Sam Puckett em iCarly e Sam e Cat.
A personagem de McCurdy fez muito sucesso no seriado, virou uma das favoritas
do público. A tal ponto que boa parte do fandom do sitcom “shippa” a Sam (que no
Brasil ganhou a voz de Ana Lúcia Menezes, finada em 2021) com o Freddy (interpretado
por Nathan Kress e dublado no Brasil por Luciano Amaral), o cameraman do
sitcom.
Em 2021, bem no meio da pandemia de Covid, saiu o revival de
iCarly. Todo o elenco original voltou para o seriado. Novas temporadas foram
feitas, agora mostrando os personagens mais velhos. Bom, na verdade, quase todo
o elenco voltou. McCurdy não participou do revival de iCarly.
Em 2022 McCurdy lançou um livro, que no Brasil foi lançado
sob o título “Estou feliz que minha mãe morreu”. No livro em questão, McCurdy relata algumas situações que viveu nos bastidores de iCarly e Sam e Cat, mas
sem citar diretamente o nome de San Schneider. Este é sempre referido como “o
criador” no livro. Ela cita uma tentativa de acordo feita pela emissora
norte-americana em receber US$ 300 mil para não contar as suas experiências e
que o próprio produtor, junto com a mãe de McCurdy (finada desde 2013 e com a qual ela tinha um relacionamento bem complicado),
incentivaram-na a comer de forma exagerada, no que a fez desenvolver uma
anorexia nervosa.
Foto – Jenette Faye McCurdy.
Há ainda outros casos, que envolvem Drake Bell, Alexa
Nikolas, Erin Sanders (a Quinn de Zoey 101) e outras figuras que trabalharam na
Nickelodeon ao longo dos anos, sobre os quais não irei me aprofundar para não
me alongar muito.
Mas nem tudo é espinhos nessa história toda. Algo digno de nota é o papel que o ator Jerry Trainor, o intérprete de Spencer em iCarly, desempenhou nos bastidores do seriado. Trainor era o único adulto do elenco principal de iCarly quando as filmagens do sitcom se iniciaram, e vídeos de bastidores mostram o intérprete de Spencer exercendo um papel de protetor para com os atores mais novos do elenco. Frequentemente rechaçando eventuais investidas de Schneider para cima dos atores mais jovens do elenco, ou mesmo pedindo para o pessoal ir embora após o fim das filmagens.
Papel análogo ao de Jerry Trainor em iCarly exerceu anos depois o ator Cooper Barnes (o Capitão Man de Henry Danger). Há um vídeo no qual ele pede para que dois dos produtores do seriado fechem os zíperes, visto que estavam trabalhando em um programa para crianças.
Atualmente, Schneider não trabalha mais para a Nickelodeon. Visto que em 2018 ele se desligou da Nickelodeon por conta das polêmicas e controvérsias em torno dele. Em sua defesa, Schneider nega as acusações a ele imputadas no documentário, embora confesse que tenha feito coisas inapropriadas enquanto trabalhou para a Nickelodeon.
Cereja do bolo: em entrevista, Orlando Brown (o qual
participou de as visões da Raven no papel de Eddie) afirmou que o verdadeiro
dono da Nickelodeon era ninguém menos que... Jeffrey Epstein! Na mesma
entrevista, Brown também afirmou que Puff Daddy era parte de um grupo ainda
maior e mais sinistro de predadores sexuais de Hollywood, os quais geralmente
voltam seus olhos a jovens artistas em ascensão.
Ao mesmo tempo, também surgiram teorias (um tanto quanto viajadas) de que o formato da ilha de Epstein é o mesmo formato do logo da Nickelodeon.
Foto – Ilha Epstein (esquerda) e logo da Nickelodeon (direita).
Se Orlando Brown disse isso em tom de piada, ou se é algo
com algum fundo de verdade, é difícil saber. Mas o fato é que isso ajuda a
mostrar, como venho ressaltando, que o caso Epstein não surge do nada e que, de
alguma forma, está relacionado com outros casos similares como o de Puff Daddy,
o da Nickelodeon, o de Harvey Weinstein, o de R. Kelly e outros tantos, nos
quais a nata da política e do mundo empresarial e artístico norte-americano
está envolvida até o pescoço.
E é bem razoável supor e imaginar, por exemplo, que Epstein
e Puff Daddy tenham tido aliciadores em comum em seus esquemas de tráfico
sexual. E ainda mais sabendo da podridão que é Hollywood, por trás de todo o
glamour, todas as premiações, todo o luxo e todos os tapetes vermelhos. Como
diz o velho ditado, onde há luz há escuridão. E é para desviar a atenção do
caso Epstein que EUA e Israel hoje movem a guerra contra a República Islâmica
do Irã.
NOTAS:








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