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domingo, 12 de abril de 2026

O iceberg do PL 1424/2026 e a real natureza do sionismo.

 

Foto – Tabata Amaral.

Recentemente, entrou em tramitação na Câmara dos Deputados o projeto de lei 1424/2026, de autoria de Tabata Amaral (PSB-SP), Gilberto Abramo (Republicanos-MG), Geovania de Sá (PSDB-SC), Kim Kataguiri (Missão-SP), Heloísa Helena (Rede-RJ), Paulinho da Força (Solidari-SP), Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP), Eduardo Pazuello (PL-RJ), entre outros políticos de diversas colorações partidárias.

O projeto foi apresentado em 26 de março do presente ano e em sua ementa propõe “define anti-semitismo (ou seja, o ódio, antipatia em relação aos judeus) com a finalidade de instruir as políticas públicas nacionais”. Ainda segundo a proposta do PL, o anti-semitismo vai passar a ser equiparado ao crime de racismo, com pena de reclusão de 2 a 5 anos e multa, não podendo ter prescrição e nem fiança.

Também de acordo com o projeto, um ato é considerado como anti-semita quando os alvos dos ataques (quer sejam pessoas ou bens) são escolhidos porque são judaicos ou associados aos judeus, incluindo associações comunitárias e instalações religiosas.

No papel, tudo parece muito bonito. A própria Tabata Amaral nega que o projeto em questão limite a liberdade de expressão. Mas, como diz o velho ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Leis como essa são que nem a recém-aprovada Lei Felca (vulgo Felipe Neto 2.0), por exemplo. Leis como o PL 1424/2026, a lei Felca (também conhecida como ECA Digital, prevê normas para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais) e a lei da proibição de veiculação de publicidade infantil na TV aberta brasileira de 2014 são como um iceberg flutuando no mar.

Na superfície, vemos as boas intenções das mesmas, a retórica bonita daqueles que propõem a lei. Tudo muito bonitinho e etc. Boas intenções e retórica bonita essas que na verdade escondem a parte do iceberg oculta sobre o mar. E é aí onde está o perigo por trás do PL 1424/2026.

Primeiro de tudo, o que a lei em questão define por anti-semitismo do ponto de vista jurídico? Só para começo de conversa, os parâmetros desta lei são baseados nos da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Definições essas que são objetos de crítica por juristas e relatores da ONU por seu caráter aberto.

Uma das coisas que me estranha muito nesse PL é o timing do mesmo. Bem no momento em que Estados Unidos e Israel, no afã de desviar a atenção dos desdobramentos do caso Epstein (no qual a nata da política americana, assim como figurões da política israelense e da realeza europeia, está envolvida até o pescoço), movem uma guerra contra a República Islâmica do Irã.

E outra coisa que também me chama e muito a atenção sobre o PL 1424/2026 é que um dos que o apoiam é a patética e ignóbil figura de Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, deputado federal pelo Partido Liberal por São Paulo e descendente da família real brasileira, deposta em 1889 por conta do golpe republicano liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca.

Surpresa zero o nome dele estar associado a esse PL. Visto que o deputado príncipe, em 10 de novembro do ano passado, publicou na Gazetado Povo a coluna “O Brasil e a próxima Guerra Santa”, onde ele discorre sobre riscos associados ao que ele chama de civilização ocidental advindos da migração islâmica e uma possível imposição da lei da šariah, advogando que o Brasil se posicione em uma espécie de nova cruzada travada na esfera política para proteção contra essa ameaça. Ou seja, ele quer trazer ao Brasil problemas que nem são nossos como toda essa histeria anti-islâmica vinda de círculos de extrema direita da Europa e dos Estados Unidos (para ver como até nisso a nossa direita, assim como a esquerda, adora copiar o que há de pior na gringa).  Como consequência, a coluna recebeu críticas do Grupo de Diálogo Inter-religioso de Londrina, que a considerou promotora de intolerância religiosa e generalizações contra muçulmanos. Em resposta ao artigo do Deputado Príncipe, Mansur Peixoto, do canal História Islâmica, postou um vídeo de reação rebatendo às ilações dele.

O Deputado Príncipe é uma das muitas figuras da direita católica que bem no momento da guerra Epstein contra o Irã embarcaram em campanhas de ódio contra o Islã, junto com o Centro Dom Bosco e outras tantas. A mesma gente que não raro também demonstra ódio rábico pela Rússia, a ponto de evocar o Terceiro Segredo de Fátima bem no momento em que a Rússia lançou a Operação Militar Especial contra a Ucrânia a partir de 2022 com toda aquela lorota de que a nação de Gogol, Puškin e Prokofiev iria espalhar seus erros pelo mundo. Pelo visto, eles odeiam a Rússia quer seja como Império tzarista, quer seja como União Soviética, quer seja como República Federativa.

Foto – Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, o deputado príncipe.

Vejam só o paradoxo: o mesmo deputado príncipe que faz histeria anti-islâmica e até mesmo advoga novas cruzadas contra o Islã, apoia um projeto de lei que (ao menos na ementa) diz que combater o anti-semitismo (ou seja, a secular antipatia contra os judeus).

O que mosta por A+B que, no fim das contas, a Tabata Amaral não passa de um chamariz, a parte visível da coisa toda. Quando vemos que por baixo do mar se escondem figuras venais como Heloísa Helena, Paulinho da Força, Pazuello e o deputado príncipe, além do apoio que recebe de organizações como a StandwithUs (um dos principais grupos que atuam em defesa de Israel pelo mundo, cujo presidente aqui no Brasil é André Lajst – o mesmo André Lajst que recentemente travou com debate com Mansur Peixoto), vemos que há bem mais coisas em jogo por trás do PL 1424/2026. E também vemos quão patética e inexpressiva a Tabata Amaral é.

E conhecendo a índole de muitos desses que apoiam o PL, é razoável supor que este PL na verdade vai se transformar em uma grande ratoeira, um meio para criminalizar toda e qualquer crítica que se possa fazer ao estado de Israel sob o pretexto do combate ao anti-semitismo. É um iceberg que inexoravelmente irá se chocar contra nós, assim como o iceberg que se chocou com o navio Titanic em 1912 e o jogou para dentro das gélidas águas do Atlântico Norte.

E o que me espanta é também o fato de que esse PL não veio de um sionista de carteirinha como o Jair Bolsonaro ou seus filhos (que já desfilaram pelas ruas de Israel com camisa da IDF e do Mossad), e sim de uma figura dita de esquerda, que começou sua carreira política pelo PDT, o mesmo PDT de Brizola e Darcy Ribeiro, e que hoje é filiada ao PSB (Partido Socialista Brasileiro). Certamente o velho caudilho e Darcy Ribeiro devem estar se revirando em seus respectivos túmulos.

Foto – Eduardo e Carlos Bolsonaro desfilando pelas ruas de Israel com camisetas da IDF e do Mossad.

Não é de hoje que círculos sionistas usam como carteirada para calar seus críticos a equiparação de anti-sionismo a anti-semitismo. E não raro usam citações do Reverendo Martin Luther King, uma das grandes lideranças do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, para legitimar tal posição.

Que fique bem claro uma coisa: quando falarmos em sionismo, há de se ter em mente o seguinte. Que nem todo judeu é sionista, assim como nem todo sionista é judeu. Vide exemplos como o dos judeus ortodoxos da Neturei Karta, ou de Norman Gary Filkenstein, autor do livro "A indústria do Holocausto", nem um pouco simpáticos ao sionismo. E no sentido contrário o apoio que a causa sionista recebe de expressivos setores de denominações neopentecostais, o chamado sionismo cristão.

A respeito da relação entre sionismo e anti-semitismo, o que a história em realidade mostra é o contrário do que certos grupos sionistas ventilam por aí. Os sionistas, tanto antes quanto depois da fundação do estado de Israel, nunca tiveram o menor pudor em colaborar com a nata do anti-semitismo europeu, desde a época do caso Dreyfus e dos pogroms da Rússia Imperial tardia.

O próprio fundador do movimento sionista, Theodor Herzl, que à época do caso Dreyfus serviu como correspondente de um jornal vienense em Paris, esteve em contato com os principais anti-semitas da época. Segundo Ernst Pawel em sua biografia sobre Herzl, “Labirinto do Exílio”, os mesmos que financiaram e editaram o periódico “La Libre Parole”, que advogava uma plataforma de “defesa da França Católica contra ateus, republicanos, franco-maçons e judeus”, periodicamente convidada Herzl para suas residências.

Em 1896, Herzl lançou o livro “Der Judenstaat” (“O Estado judeu”, em alemão). À época, o livro de Herzl foi amplamente depreciado pelas lideranças judaicas da época, as quais viam a si mesmas como cidadãos franceses, alemães, ingleses, austríacos ou italianos de origem e religião judaica. Mas o mesmo não pode ser dito a respeito dos anti-semitas de sua época. Estes elogiaram o trabalho de Herzl. Uma das primeiras revisões do livro de Herzl apareceu no “Westungarischer Grenzbote” (em alemão “Mensageiro fronteiriço da Hungria Ocidental”), jornal anti-semita de Bratislava publicado por Ivan von Simonyi, membro da dieta húngara, o qual não apenas elogiou o livro de Herzl, como também pagou ao próprio Herzl uma visita pessoal.

A respeito de Ivan von Simonyi, Herzl diz as seguintes palavras em seu diário:

“Meu estranho seguidor, o anti-semita de Bratislava Ivan von Simonyi veio me ver. Um sexagenário hipervivo, hiperfalante com uma estranha simpatia pelos judeus. Balança para frente e para trás entre fala perfeitamente racional e total absurdo, acredita no libelo de sangue e ao mesmo tempo vem com as mais sensíveis ideias modernas. Me ama”.

O próximo passo de Herzl foi se encontrar com o ministro do interior russo, Vjačeslav Konstantinovič Plehve. Plehve foi um dos principais incitadores de pogroms da Rússia Imperial tardia, nos quais judeus eram linchados, feridos e por vezes mortos pelo populacho e milícias leais ao poder tzarista, entre eles cossacos e o movimento centúrias negras. Um desses pogroms teve lugar na cidade de Kišinev (atual Moldávia), em abril de 1901, no qual 48 judeus foram mortos e mais centenas de feridos.

O líder cultural judaico Chaim Žitlovskij ficou furioso com Herzl por ter negociado com Plehve. A Žitlovskij, Herzl respondeu da seguinte maneira: “Eu tenho uma promessa vinculativa de Plehve de que ele irá adquirir uma carta pela Palestina por nós em 15 anos no exterior. Há uma condição, entretanto, os revolucionários devem parar sua luta contra o governo russo”.

Em agosto de 1903, Plehve e Herzl se encontraram em São Petersburgo e discutiram o estabelecimento de sociedades sionistas na Rússia. O próprio Plehve propôs um requerimento por parte do governo russo ao Império Otomano para obter um alvará para a colonização judaica na Palestina. Um ano depois, tanto Herzl quanto Plehve vieram a óbito. O primeiro por complicações decorrentes de uma pneumonia, e o segundo assassinado por meio de um atentado a bomba em São Petersburgo.

E o colaboracionismo do sionismo com a Rússia Imperial não para por aí. O chefe da Okhrana (a polícia secreta tzarista) em Moscou na época do reinado de Nicolau II (r. 1894 – 1917), Sergej Vasil’evič Zubatov, era simpático ao sionismo como uma forma de calar a oposição judaica ao regime tzarista. Zubatov e outros anti-semitas de seu tempo ficaram encantados com o sionismo, visto que havia uma convergência de interesses entre as duas partes: por meio do sionismo e a emigração à Palestina Zubatov e sua laia se livravam dos judeus em território russo, e os sionistas por meio da imigração à Palestina visando a criação de um estado judaico iam embora da Rússia. Dessa forma, nem um e nem outro almejavam resolver a situação de miséria e desespero que os judeus russos passavam à época.

Os sionistas serviram a Zubatov como espiões e subversores do Bund (um dos principais grupos de oposição judaica ao poder tzarista), e assim o Bund e outros grupos opositores eram exterminados com o sinal verde dos sionistas.

Após a queda do regime imperial na Rússia, o líder sionista revisionista Vladimir Žabotinskij fez acordos com o líder reacionário ucraniano Simon Petljura. As forças de Pletjura aniquilaram as vidas de cerca de 100 mil judeus no período de 1918 a 1921.

Mas a cereja do bolo ainda estava por vir. Em 1933, sobe ao poder na Alemanha Adolf Hitler.

Quando Hitler subiu ao poder na Alemanha, um boicote econômico mundial à Alemanha foi conclamado por organizações judaicas. E lá estava a organização sionista da Alemanha para furar o boicote. Em 1935, os sionistas, no Congresso Sionista Mundial, decidiram por meio da empresa Hanotea importar bens de origem alemã e exportar seus próprios bens ao país, ao mesmo tempo em que também transferiam judeus da Alemanha para a Palestina por meio do Tratado Ha’avara.

Os conchavos entre nazistas e sionistas não apenas ajudaram à Alemanha hitlerista a escapar de sanções internacionais (com o acordo de transferência Ha’avara sendo celebrado através de uma moeda comemorativa que estampa a suástica em um dos lados e a Estrela de David de outro), como também armas alemãs (entre elas metralhadoras e pistolas Mauser) passaram a abastecer milícias sionistas na Palestina como o Irgun e o Haganah. Uma vez em mãos de milícias como o Irgun e o Haganah, estes passaram as armas de origem alemã para promover limpezas étnicas da população de origem árabe-palestina.

Um dos principais ideólogos do nazismo, Alfred Rosenberg, autor do livro “O mito do século XX”, também se mostrou simpático ao sionismo, com as seguintes palavras:

“O sionismo deve ser vigorosamente apoiado para que um certo número de judeus alemães seja transportado anualmente à Palestina, ou pelo menos forçados a deixar o país”.

Já na época da guerra, grupos sionistas que operavam na Palestina, como é o caso do Lehi, tentaram se aproximar da Alemanha em busca de apoio contra a Inglaterra, que à época começou a impor restrições à imigração judaica à Palestina. Para isso, Yitzhak Šamir, futuro primeiro-ministro de Israel, chegou a enviar uma carta a Hitler.

Foto – “Um nazista viaja à Palestina e fala sobre isso em ataque“. Moeda da época da Alemanha nazista, com a estrela de David de um lado e de outro a suástica nazista, datada de 1934.

E mais recentemente, grupos de extrema direita europeus como o alemão AfD e os ucranianos Setor de Direita e Batalhão Azov tiveram seus contatos com autoridades israelenses.

Dessa forma, levando em consideração a história do sionismo desde seus primórdios, não só podemos dizer que não faz sentido algum categorizar anti-sionismo como equivalente de anti-semitismo, como podemos ir mais além: na verdade, há uma relação dialética entre sionismo e anti-semitismo. Um retroalimenta o outro e vice-versa a ponto de um não existe sem o outro.

Dessa forma, parafraseando o que o velho Brizola e Darcy Ribeiro diziam sobre o PT ainda nos anos 1980 e 1990, o sionista é o judeu que o anti-semita gosta. E o exemplo histórico da admiração que Ivan von Simonyi tinha por Herzl e a colaboração dos sionistas russos com o aparato repressivo tzarista na figura de Zubatov são exemplos cabais e ilustrativos disso.

No fim, anti-semitismo e sionismo são como, por exemplo, as faces do deus Janus na mitologia romana, o yin e o yang no taoísmo ou os personagens Piccolo e Kami Sama em Dragon Ball. Uma grande unidade contraditória, em que um completa o outro. Resumindo a ópera: o sionismo, ao invés de resolver os problemas que afligem aos judeus, na verdade vive destes mesmos problemas e ainda por cima os agrava.

Em 2018, publiquei neste espaço alguns textos do portal Radio Islam sobre a história dos conchavos entre sionistas e anti-semitas, dentro do contexto da eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República, e que eu mesmo traduzi do espanhol e do inglês para o português. 

Sionismo e anti-semitismo - uma estranha aliança ao longo da história

Sionismo e Terceiro Reich

O mito do anti-fascismo sionista

À época, cheguei a ficar preocupado com o fato de que críticas ao estado de Israel pudessem ser criminalizadas legalmente. Pelo visto, isto está para acontecer, mas não vindo de Bolsonaro pai ou seus filhos, ou qualquer outro representante da direita filo-sionista brasileira, e sim de uma deputada que foi do PDT e hoje é do PSB. E mais um detalhe: isso pode vir a acontecer sob as asas de um governo dito de esquerda, o governo Lula 3.0.

E se um dia esse PL virar lei, é capaz que até mesmo a abordagem do passado sombrio dos sionistas e todos os conchavos que eles fizeram com a nata do anti-semitismo europeu, incluindo incitadores de pogroms como Plehve, Zubatov e Petljura, ou mesmo o acordo Ha’avara que os sionistas alemães fizeram com o Terceiro Reich, os elogios que o próprio movimento sionista recebeu de importantes anti-semitas europeus do final do século XIX e primeira metade do século XX, também será sujeita à mordaça sob o pretexto do combate ao anti-semitismo. Até mesmo a abordagem da questão do colaboracionismo judaico com a Alemanha nazista e o fato de que muitos dos kapos dos campos de concentração nazistas eram eles mesmos judeus, também passará pelo mesmo escrutínio.

Como também o fato de que foi a vanguarda sionista que introduziu no Oriente Médio o conceito de guerra urbana via atentados terroristas e organização de grupos paramilitares. E que importantes figuras da política israelense tais como Yitzhak Šamir, David Ben Gurion e Menachem Begin estiveram envolvidos em grupos como o Irgun, o Haganah e o Stern antes mesmo da fundação do estado de Israel, tendo tomado parte em episódios como o massacre de Deir Yasin, o atentado ao hotel King David e o assassinato do conde sueco Folke Bernadotte (algo sobre o qual Bolsonaro e seus filhos se calam). A questão da indústria ideológica em torno do Holocausto que surgiu após o fim da guerra e que justifica o projeto sionista no Oriente Médio, similar à indústria em torno do Holodomor que a Ucrânia criou após o fim da União Soviética. Será que até isso estará submetido à mordaça?

Fontes:

Conteúdos islamofóbicos no Brasil por católicos. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/conteudos-islamofobicos-por-catolicos-no-brasil/

Israel na visão de Martin Luther King. Disponível em: https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/2973224/jewish/Israel-na-viso-de-Martin-Luther-King.htm

Não há comparação mais justa do que a feita entre Israel e nazismo. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/nao-ha-comparacao-mais-justa-do-que-a-feita-entre-israel-e-o-nazismo/

Luiz Phillipe de Orlenas e Bragança. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Philippe_de_Orl%C3%A9ans_e_Bragan%C3%A7a

PL 1424/2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2612333

Projeto equipara anti-semitismo a crime de racismo. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1261955-projeto-equipara-antissemitismo-a-crime-de-racismo/

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

A fala de Lula, a indústria do Holocausto e Hitler enquanto o grande boi de piranha da história

 

Foto – Luís Ignácio Lula da Silva.

Durante encontro da União Africana ocorrido na Etiópia em 18 do presente mês, Lula proferiu uma fala que gerou grande polêmica, a ponto de gerar um incidente diplomático entre Brasil e Israel: ele comparou a atual situação que os palestinos vivem na Faixa de Gaza com o que os nazistas fizeram com os judeus no período entre 1933 a 1945.

A fala de Lula gerou polêmica tal que o político pernambucano foi declarado “persona non grata” em Israel. E, como não poderia deixar de ser políticos direitistas e pastores neopentecostais, adeptos do sionismo cristão, tais como Marco Feliciano, Silas Malafaia, Marcel van Hattem, Zé Trovão, Nikolas Ferreira e tantos outros, saíram em suas redes em defesa do Estado de Israel. 



A coisa chegou a tal que no presente momento até falam em entrar com pedido de impeachment do petista.

Foto – Norman Gary Filkenstein.

Mas, por que será que a fala de Lula gerou tamanha polêmica, a ponto de gerar um incidente diplomático entre Brasil e Israel e de até falarem em impeachment contra o Presidente? Em minha humilde opinião, isso se deve pelo fato de que Lula, de forma despretensiosa e como se não quisesse nada, ao fazer tal comparação tocou na ferida de Israel: o Holocausto e o que Israel vem fazendo com o mesmo desde sua fundação, em 1948. Em outras, trata-se daquilo que Norman Gary Filkenstein, judeu sobrevivente dos campos de concentração nazistas, chama de “A indústria do Holocausto”.

Pode-se dizer que para Israel o Holocausto é o que o Holodomor é para a Ucrânia atual. Pois da mesma forma que a Ucrânia, desde a Revolução Laranja de 2004, vem utilizando o famigerado Holodomor, ocorrido entre 1932 e 1933, para justificar o estabelecimento de um estado etnicamente unitário em uma nação etnicamente diversa, a reabilitação de figuras antes execradas tanto sob a Rússia Imperial quanto sob a União Soviética (incluindo os colaboradores ucranianos dos nazistas na Segunda Guerra Mundial), afastamento em relação à Rússia e aproximação em relação à Europa na área da política externa e em última instância a guerra que o Estado Ucraniano vem movendo desde 2014 e o massacre das populações russas do sul e do leste do país (para depois estas áreas serem repovoadas por colonos vindos do norte e do oeste da Ucrânia), Israel usa-se do Holocausto de forma análoga para justificar o projeto sionista no Oriente Médio.

Projeto esse que, entre outras coisas, inclui as várias guerras internas e externas que Israel vem movendo desde sua fundação, a conquista de territórios como a Cisjordânia e a Faixa de Gaza e o estabelecimento de colonos judeus em áreas até então povoadas por árabes palestinos. Inclui também a discriminação intra-judaica existente em Israel, dos judeus de origem europeia sobre os judeus de outras procedências étnicas, incluindo judeus originários do mundo árabe e da Etiópia.

Pois bem. Eu fico imaginando com os meus botões o seguinte: se Lula tivesse, no lugar do Holocausto nazista, comparado a atual situação que os palestinos da Faixa de Gaza vivenciam com, por exemplo, a fome das batatas na Irlanda nos anos 1840, as fomes que flagelaram a Índia durante o período colonial britânico (incluindo a fome de Bengala em 1943 – ou seja, contemporânea do holocausto nazista), os massacres que a França perpetrou na Argélia no período entre 1830 a 1962, os massacres feitos pela Bélgica no Congo no tempo em que este foi propriedade particular do rei Leopoldo II (cuja dinastia até hoje reina na Bélgica, diga-se de passagem) ou o que os Estados Unidos fez na conquista do Oeste no século XIX ou o que vêm fazendo no Iraque desde 1991, ou o que vem sendo feito na Líbia desde 2011 pelas grandes potências imperialistas, não teria tido toda a repercussão que teve. A fala de Lula passaria batida e ninguém daria importância alguma à mesma. Algo anedótico e sem importância alguma.

Alguns perguntar-me-ão – por que nesse momento citar massacres coloniais anteriores a Hitler? Primeiro que muitos daqueles que repudiaram a fala de Lula disseram que nada na história da humanidade se compara com o que ocorreu aos judeus no Holocausto nazista. E segundo que Hitler e o ideário nazista não surgiram do nada, e muito menos os desígnios imperiais dele.

Em lugares como o Pantanal e a Amazônia, para atravessar um rio cheio de piranhas, os boiadeiros locais se utilizam do seguinte expediente: pegam um boi velho e/ou doente, o abatem e, este, sangrando, é entregue para ser devorado pelas piranhas, enquanto que o resto da boiada atravessa o rio, incólume. E com Hitler ocorre algo parecido, para não dizer análogo, como veremos. Não à toa, o cineasta norte-americano Oliver Stone em 2010 disse que Hitler foi um “bode expiatório fácil” ao longo da história. E não há como discordar dele nesse ponto.

É sabido que Hitler e os nazistas, em seus desígnios e ambições imperiais de fazer da Europa Oriental o “Lebensraum” germânico, buscaram inspiração no que o Império Britânico e os Estados Unidos já vinham a muito fazendo em locais como a Índia, a África, a Austrália e o Oeste Americano. Eles queriam fazer nas terras a leste dos Montes Cárpatos e ao norte do Mar Negro (ou seja, na então União Soviética) a mesma coisa que a Inglaterra fez na Índia e os Estados Unidos fizeram no Oeste Americano. Como ressalta Egor Jakovlev em sua obra “Vojna na uničtoženie: tretij rejkh i genocid sovetskogo naroda (война на уничтожение: третий рейх и геноцид советского народа, sem tradução para o português)”, Hitler, ao lançar a Operação Barbarossa, almejava promover uma verdadeira guerra de extermínio físico sobre os povos da União Soviética a partir de 1941 se espelhando naquilo que os EUA fizeram no Oeste Americano e a Inglaterra na Austrália. Guerra essa que ele não levou adiante sozinho: assim como Napoleão em 1812, Hitler mobilizou tropas de toda a Europa para invadir a União Soviética (que antes mesmo do início na guerra da Europa travou escaramuças fronteiriças com o Japão, nas quais se saiu vencedora) junto com países como Hungria, Itália, Finlândia, Eslováquia, Romênia e Croácia, além de batalhões compostos por efetivos das várias áreas sob o domínio nazista, incluindo Noruega, França, Dinamarca, Bélgica e Holanda. E a própria propaganda nazista comumente apresentava a invasão alemã à União Soviética como o levante da Europa unida contra o “bolchevismo judaico”, como pode ser visto em vários cartazes da época.

Foto – Cartazes de propaganda nazista de recrutamento para a guerra no Front Oriental. E detalhe: cartazes escritos em francês e holandês.

Como vemos a propaganda nazista sobre a Operação Barbarossa até evoca as cruzadas. Talvez, não foi à toa que durante o curso da invasão nazista a propaganda soviética muito evocou a figura de Aleksandr Nevskij, príncipe da República de Novgorod do século XIII que se opôs aos avanços dos cruzados do norte sobre as terras russas (lembrando que nem todas as cruzadas foram contra os poderes islâmicos no Levante) e saiu-se vitorioso sobre os suecos na batalha do rio Neva em 1240 e os cavaleiros teutônicos na batalha do lago Čudskoe em 1242. Um filme a respeito dele até foi feito em 1938 sob a direção de Sergej Einsenstein e trilha sonora de Serej Prokofiev.

Foto – “Golpeamos, golpeamos e vamos golpear!” – Pôster soviético de 1942 fazendo alusão à vitória de Aleksandr Nevskij sobre os cavaleiros germânicos na batalha do lago Čudskoe.

Durante a Operação Barbarossa, cabe aqui mencionar o episódio do cerco a São Petersburgo (então Leningrado), que se arrastou por 872 dias: de oito de setembro de 1941 a 27 de janeiro de 1944. A situação em Leningrado chegou a tal ponto que casos canibalismo foram observados, e as consequências de tal operação até hoje afetam a população da antiga capital russa. Além disso, também remonta ao cerco a Leningrado o sumiço da câmara de âmbar, obra no estilo barroco do século XVIII que por conta de sua beleza e esplendor foi considerada a oitava maravilha do mundo. 

Durante o cerco a câmara de âmbar foi roubada e pilhada pelos nazistas e enviada a Königsberg (atual Kaliningrado) para reconstrução e exibição, e o destino da peça original é até hoje desconhecido, e a peça que hoje tem em São Petersburgo na verdade é uma reconstrução feita entre 1979 a 2003 com base em pinturas e fotos antigas.

Foto – Salão de Âmbar, São Petersburgo.

No fim das contas, o plano dos nazistas de transformar a União Soviética em uma versão germânica da Índia britânica ou do Oeste Americano, a despeito de sucessos iniciais, foi por água abaixo e o Exército Vermelho hasteou a bandeira vermelha no Reichstag, mas a um preço humano bem salgado: calcula-se que 27 milhões de pessoas morreram nessa brincadeira toda. Morticínio esse sobre o qual tipos como Marco Feliciano e outros em momento algum citam quando se posicionaram contra a fala de Lula.

Hitler era um admirador do Império Britânico, de tal modo que queria que a Inglaterra lutasse ao seu lado contra a União Soviética e para articular não apenas tal aliança enviou Rudolf Hess à Inglaterra (e lembrando que na própria nobreza inglesa havia simpatizantes do Terceiro Reich). Só que o tiro saiu pela culatra, Hess foi capturado e passou todo o resto de sua vida na prisão de Spandau e no fim tal aliança anglo-germânica tão acalentada por Hitler contra o “bolchevismo judaico” não se consumou.

O uso de campos de concentração que se notabilizou com os nazistas na Segunda Guerra Mundial na verdade não começou com eles. Começou com os ingleses na guerra dos bôeres, ocorrida na África do Sul entre 1899 a 1902, e chegou à Europa na Primeira Guerra Mundial, quando o Império Austro-Húngaro criou os campos de Thalerhof (situado próximo a Graz, na Áustria oriental) e Terezin (situado próximo a Praga, na República Tcheca) e lá internou e prendeu grande parte da população russófila da Ucrânia Ocidental. Além disso, fala-se muito na historiografia a respeito dos campos de concentração que os nazistas construíram na Polônia a partir de 1939, como Auschwitz, Treblinka, Sobibor e Majdanek. Só que o que é pouco falado é que já havia campos de concentração na Polônia antes de 1939. Visto que após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Polônia de Pilsudski (a mesma Polônia do entre-guerras com a qual a Alemanha hitlerista não apenas fez acordos de cooperação antes do início da guerra, como também partilhou em conjunto a Tchecoslováquia em 1938) enviou prisioneiros alemães, russos, ucranianos, bielorrussos e outros a campos como Szczypiorno, Stralkowo, Bereza-Kartuska e Brest-Litowsk. Além disso, a primeira execução por câmara de gás ocorreu nos Estados Unidos, mais precisamente em Nevada, no ano de 1924.

Foto – Campo de concentração de Thalerhof, Primeira Guerra Mundial.

E a coisa não para por ai: Hitler não apenas elogiava as legislações segregacionistas existentes nos Estados Unidos que restringiam a entrada de imigrantes asiáticos, latinos e outros, como também segundo o historiador norte-americano James Whitman em sua obra “Hitler’s American Model”, de 2017, os nazistas buscaram inspiração precisamente nas leis de Jim Crow que existiam nos Estados Unidos desde a segunda metade do século XIX para conceber as leis de Nuremberg (as quais privaram os judeus germânicos de cidadania).

Aliás, vale lembrar que as políticas de segregação racial que existiram tanto na Austrália quanto no sul dos Estados Unidos, ambas já existiam antes mesmo de os nazistas chegarem ao poder na Alemanha e continuaram a existir depois da morte do político austríaco e da queda do Terceiro Reich. Visto que nos Estados Unidos, as leis de Jim Crow surgiram em 1876, logo após o fim da Guerra de Secessão do governo Lincoln e o período de reconstrução que a sucedeu, e só foram abolidas em 1965 (ou seja, na mesma época em que a banda afro-americana Jackson 5 já começava a despontar no cenário musical estadunidense). A política da Austrália branca, que restringia a entrada de imigrantes não-europeus à nação insular, foi instituída em 1901 e só foi abolida em 1975.

E, do ponto de vista ideológico, noções de superioridade anglo-saxônica sobre os demais povos também em muito antecedem a Hitler. Também antecedem a Hitler teorias como a eugenia, o racismo científico e o darwinismo social, advogadas por figuras como Gobineau (1816 – 1882), Galton (1822 – 1911) e Spencer (1820 – 1903), tendo aparecido ainda no século XIX. Ou seja, a ideologia de Hitler e dos nazistas do nada não surgiu.

E, de cereja do bolo, não custa lembrar que a Inglaterra e a França, antes do início da guerra na Europa, não apenas fizeram acordos com os nazistas, como também permitiram que Hitler se apoderasse da região dos sudetos (atual República Tcheca) em 1938 por meio dos acordos de Munique (obviamente, almejando um futuro enfrentamento entre soviéticos e alemães no qual os ambos os lados se destruíssem mutuamente). E sem esquecer também do fato de que altos figurões do mundo corporativo americano, tais como Prescott Bush (o Bush vô), Henry Ford e corporações como a ITT, a Standard Oil e a General Motors, fizeram negócios com os nazistas.

Só que, aos olhos dos imperialistas ingleses e franceses, Hitler cometeu um pecado mortal: tentou replicar no coração da Europa a mesma lógica que eles mesmos já aplicavam há muito em outras partes do mundo. E assim ele mostrou ao mundo que o rei está nu. De que toda a ideologia que eles vendiam de que a Europa era o farol da civilização, aquela que deveria civilizar as outras partes do globo, que tinha como fardo civilizar o resto do mundo, todo o arcabouço ideológico que legitimou a expansão colonial europeia do século XIX, era uma grande farsa. Conversa para boi dormir, em outras palavras.

Dai que vem muito da demonização em cima da figura de Hitler e da Alemanha nazista. É como se os imperialistas ingleses, franceses e americanos olhassem a imagem de Hitler refletida no espelho, e este, no íntimo deles, dissesse a eles as seguintes palavras: “eu sou você, e você sou eu”. E os primeiros assustados com o que acabaram de ver no espelho. E nisso passam a tratar Hitler e o regime por ele erigido na Alemanha como uma anomalia, uma aberração histórica que do nada surgiu e que nada tem relação com eles e o que eles fizeram ao longo da história.

Também pensei no seguinte após o comentário de Lula: se ele tivesse mencionado alguma outra tragédia que os judeus viveram ao longo da história, incluindo a expulsão da Península Ibérica nos anos 1490 (na Espanha em 1492 sob os reis católicos através do édito de Alhambra e em Portugal cinco anos depois, sob Dom Manuel I), ou os pogroms da Rússia Imperial tardia (durante os reinados de Alexandre III e Nicolau II), a fala de Lula também passaria batida e ninguém daria importância alguma à mesma. Talvez, no máximo, emitiriam uma nota de repúdio à declaração de Lula e vida que segue. A situação não teria chegado ao ponto em que chegou.

E o que me faz pensar isso é que na cinematografia hollywoodiana vemos uma abundância de filmes a respeito da temática do holocausto. Mas, ao mesmo tempo, pelo que eu vejo a mesma Hollywood não produziu a mesma abundância de filmes falando a respeito de perseguições mais antigas e menos conhecidas que os judeus sofreram ao longo da história.

Fontes:

Câmara de Âmbar. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2mara_de_%C3%82mbar

Concentration camp (em inglês). Disponível em: https://parksfacts.blogspot.com/2011/01/concentration-camp.html

Fala do Presidente Lula sobre ação de Israel na Faixa de Gaza repercute no Plenário da Câmara. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1037144-fala-do-presidente-lula-sobre-acao-de-israel-na-faixa-de-gaza-repercute-no-plenario-da-camara

“Hitler é bode expiatório”, diz Oliver Stone. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/cultura/2010/01/100111_stonehitlerml

How american racism influenced Hitler (em inglês). Disponível em: https://www.newyorker.com/magazine/2018/04/30/how-american-racism-influenced-hitler

MUNDO: semelhanças entre o regime nazista e o norte-americano. Disponível em: https://apaginavermelha.blogspot.com/2012/07/mundo-semelhancas-entre-o-regime.html

Nazi Germany’s Race Laws, the United States, and American Indians (em inglês). Disponível em:  https://scholarship.law.stjohns.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=7173&context=lawreview

O genocídio na Galícia e o nascimento do nazismo ucraniano. Disponível em: https://causaoperaria.org.br/2023/o-genocidio-na-galicia-e-o-nascimento-do-nazismo-ucraniano/#google_vignette

Os esquecidos carinhos entre a família real britânica e os nazistas. Disponível em: https://traduagindo.com/2022/09/08/os-esquecidos-carinhos-entre-a-familia-real-britanica-e-os-nazistas/

The Thalerhof intermnent camp and his legacy for the Rusyns of Eastern Europs (em inglês). Disponível em: https://neweasterneurope.eu/2021/09/15/the-thalerhof-internment-camp-and-its-legacy-for-the-rusyns-of-eastern-europe/

Война на уничтожение (em russo). Disponível em: https://dzen.ru/a/ZZm47ciprDdV8WKD