domingo, 19 de abril de 2026

O alerta de Brizola e a campanha de ódio da direita católica contra o Islã

 

Foto – Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004).

No rastro da guerra que Estados Unidos e Israel movem no presente momento contra o Irã, com a clara intenção de desviar a atenção do caso Epstein, temos visto círculos de direita católica, como é o caso do Centro Dom Bosco, Luiz Phillipe de Orléans e Bragança (vulgo Deputado Príncipe), Bernardo Küster, Lorenzo Lazzarotto, Edmílson Cruz e outros afins, postando em seus respectivos canais conteúdos contrários ao Islamismo.

O centro Dom Bosco chegou a ponto de lançar por meio de sua editora seis livros críticos ao Islamismo. O mesmo centro Dom Bosco que antes de embarcar de cabeça na campanha contra o Islamismo fez postagens exaltando a figura de Francisco Franco, ditador da Espanha entre 1936 a 1975.

Mal devem saber eles que o mesmo Franco teve no exército espanhol uma unidade de soldados de origem marroquina, a Guarda Moura, a qual lutou do lado franquista em episódios como a guerra civil espanhola (1936 – 1939) e exercia a função de guarda pessoal do próprio Franco. Franco também recebeu visitas de lideranças do mundo muçulmano, como é o caso de Gamal Abdel Nasser, do Egito, em 1960.

Um ano antes de vir a óbito, em dezembro de 1974, Franco recebeu em Madrid Saddam Hussein, então vice-presidente do Iraque e homem-forte do regime iraquiano, e o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica em Madrid. Em sua primeira viagem à Espanha Saddam também visitou Toledo, Córdoba e Granada. Um ano depois Saddam também compareceu ao velório de Franco. Após as visitas à Espanha, Saddam veio a visitar outros países falantes de espanhol, como a Venezuela em 2000 3e Cuba em 2001. Franco também manteve relações cordiais com Fidel Castro, a despeito de diferenças ideológicas entre os dois.

Foto – Francisco Franco e Gamal Abdel Nasser. Por volta de 1960.

O conteúdo desse pessoal de direita católica, entretanto, não se limita à críticas de ordem teológica a religião fundada pelo profeta Maomé no século VII. É conteúdo de incitação de ódio ao Islamismo sob alegações e pretextos como a de que há um suposto “perigo islâmico” ao Brasil e que se nada for feito a lei da sharia tomará conta do Brasil, e para isso usando exemplos como o da Europa e dos Estados Unidos.

E, como não poderia deixar de ser, Mansur Peixoto, da página História Islâmica, nos últimos dias lançou vídeos em seu canal no You Tube rebatendo os argumentos desses caras, tal qual fez com Thiago Braga em 2023.


A pergunta que fica é a seguinte: haverá alguma articulação internacional por trás desses grupos de extrema direita católica? Estaria essa gente ligada a think thanks e grupos de extrema direita internacionais, de países como a Polônia, a Hungria, a França, ou mesmo os Estados Unidos?

Eles falam que o Islamismo tem um projeto de tomar conta do Brasil no longo prazo, por meio do fator demográfico, tanto através de imigração vinda de países muçulmanos quanto por meio da taxa de natalidade.

O governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas (o mesmo Tarcísio de Freitas que na Marcha para Jesus do ano passado apareceu com a bandeira de Israel enrolada em suas costas), tem sido objeto de críticas por parte desse pessoal por ter tomado em parceria com a FAMBRAS (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil) uma série de medidas visando o aumento do fluxo de visitantes e atração de investimentos vindos do mundo muçulmano, incluindo medidas para adaptar hotéis e restaurantes para receber turistas muçulmanos. Entre elas oferta de alimentação halal (permitida pela lei islâmica), ambientes sem álcool e espaço e espaços adequados para as orações diárias em direção à Meca, uma das cidades sagradas do Islã.

Nada me tira da cabeça que, por trás de toda a verborragia e ataques ao Islamismo por parte desses católicos reacionários, quem de fato têm um projeto de poder e de longo prazo é precisamente essa gente. E isso não é nenhuma novidade na história do Brasil. Visto que em seus últimos anos de vida, Leonel de Moura Brizola mostrou-se preocupado quanto ao crescimento da influência de pastores ligados a denominações neopentecostais na política do estado do Rio de Janeiro.

Em 2000, o político gaúcho, à época presidente nacional do PDT, chegou a pedir ao então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, para colocar fim à influência dos pastores protestantes no governo estadual. “O governo tem de ser mais discreto, está vivendo um protestantismo exagerado”, Brizola disse à época.

Brizola também se mostrou preocupado a respeito da presença excessiva de pastores no gabinete de Benedita da Silva, com as seguintes palavras: “Qual a legitimidade de tantos pastores no governo? Quem são esses pastores da Benedita? Por que esse pastor Everaldo tem o controle sobre a distribuição dos cheques? O cheque do pastor é dinheiro público”, disse Brizola à época, o qual também aconselhou Garotinho a fazer uma ampla reforma no secretariado.

Segundo as notícias da época, um dos objetos de denúncias por parte do velho caudilho foi a Cehab (Companhia Estadual de Habitação), cujo presidente à época era Eduardo Cunha. O mesmo Eduardo Cunha que anos mais tarde veio a ser o grande articulador do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016.

Brizola também se mostrou descontente com a atuação do então subsecretário do Gabinete Civil, pastor Everaldo Dias Ferreira. À época ligado politicamente à então vice-governadora Benedita da Silva (PT), em 2016 o mesmo pastor Everaldo batizou o então deputado federal pelo Rio de Janeiro Jair Messias Bolsonaro nas águas do Rio Jordão.

Foto – Bolsonaro nas águas do Rio Jordão, abençoado pelo pastor Everaldo.

Em 23 de agosto do mesmo ano Brizola, em entrevista à Revista Veja, disse as seguintes palavras: “Esses pastores querem é estação de rádio e dinheiro. São adoradores do bezerro de ouro”.

Brizola era um homem arguto, de uma inteligência ímpar e que enxergava longe. Sabia muito bem sobre o que estava falando. Ele fez esse alerta em 2000 (ou seja, quatro anos antes de nos deixar), e o alerta se mantem atual. De lá para cá, muita coisa aconteceu. Visto que em favelas no Rio de Janeiro, narcotraficantes imbuídos de uma visão religiosa fundamentalista neopentecostal formaram o Complexo de Israel a partir de 2020. No qual pode-se ver bandeiras de Israel e estrelas de Davi estampadas nos muros em diversos pontos. Facções criminosas não apenas atacam praticantes de religiões de matriz africana, como também constrangem cultos católicos no local. E na política, temos visto o surgimento de fenômenos como a bancada da Bíblia, composta por políticos que não raro exercem a função de pastores.

Uma dessas pastoras, Ana Paula Valadão, cantora de música gospel e pastora da igreja Diante do Trono, disse a seguinte pérola a respeito da guerra no Irã: “tô emocionada, tão emocionada, a gente ora tanto pela igreja perseguida, nós cristãos, falando do nosso povo, e o Irã sofrendo tanto na lista de países de maior perseguição. Se não me engano, esse ano, na lista de países de maior perseguição o Irã estava em nono lugar”.

É nítido que ela falou essas abobrinhas tendo interesses em mente, com vistas que uma eventual queda do regime dos aiatolás no Irã possa abrir as portas para que a Igreja dela possa atuar abertamente e a realizar atividade missionária na nação persa. Algo que o atual regime iraniano, dada a vinculação dessas igrejas neopentecostais com os interesses dos Estados Unidos e toda a simpatia que elas nutrem por Israel, não permite. Daí que vem as histórias falaciosas como a de que o Irã persegue cristãos, sendo que o que o Irã na verdade faz é colocar limites e regulamentações na atividade religiosa.

Entretanto, o mais assombroso disso tudo é que a atualidade da fala de Brizola não para por aí. Ela também se aplica muito bem aos setores tradicionalistas e reacionários da Igreja Católica dos dias hodiernos, representados por grupos como Centro Dom Bosco, Arautos do Evangelho, Partido dos Cristeros, Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), Instituto Plínio Correa de Oliveira (IPCO), Instituto Estudos Nacionais Regina Milites (IENRN) e afins.

Tais grupos demonstram insatisfação para com os rumos que a Igreja Católica vem tomando desde o Concílio Vaticano II, a ponto de parte deles, os chamados sedevacantistas, considerarem que desde a morte de Pio XII em 1958 o trono de São Pedro em Roma está vago. Ou seja, todos os papas a partir de João XXIII para parte deles não são papas legítimos.

Como não poderia deixar de ser, também são críticos da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e de sacerdotes ligados à Teologia da Libertação. Frequentemente, os acusam de ser comunistas e afins. Costumam criticar as campanhas da fraternidade que a CNBB lança todo ano (em que pese alguns erros verdadeiros e desatinos por parte do pessoal que hoje comanda a CNBB).

O fato é que vemos tais grupos de direita católica não apenas se organizando por meio de entidades e centros, como também ocupando espaços em redes sociais (as quais eram inexistentes, no máximo bem rudimentares, quando Brizola deu seu alerta), onde eles não raro costumam vender seus cursos. Eles já começam a eleger políticos (como é o caso do já citado Deputado Príncipe) e até se organizando em institutos e partidos políticos, como é o caso do já citado Partido dos Cristeros (que advoga para o Brasil a instauração de um estado confessional católico).

Já dá para imaginar o que esses católicos reacionários têm em mente na esfera política – formar uma espécie de versão católica da Bancada da Bíblia, além de fornecer apoio a políticos a eles identificados, tais como Jair Bolsonaro e afins, contra políticos de esquerda. Ir ocupando espaços, pouco a pouco, e influenciar a política brasileira em favor da agenda deles.

Tal pessoal demonstra odiar de forma rábica não só o Islã, como também odeia a Rússia, e para justificar o ódio deles pela nação de Gogol, Puškin e Prokofiev usam o Terceiro Segredo de Fátima e toda aquela lorota de que a Rússia iria espalhar seus erros pelo mundo como pretexto. Eles odeiam a Rússia seja como Império, seja como União Soviética, seja como República Federativa. A China então, nem se fala.

Eles odeiam tanto o Islã que se esquecem, por exemplo, que em 2019, quando o Porta dos Fundos fez aquele especial no qual Jesus Cristo (interpretado pelo ator Gregório Duvivier) foi retratado de uma forma bem indecente, uma associação islâmica, a Associação Nacional dos Juristas Islâmicas (ANAJI), repudiou a atitude do Porta dos Fundos.

Por essas e outras que penso eu que países como a China, a Rússia, o Irã, o Vietnã e a Coreia do Norte certos estão em colocar condições para a atuação religiosa e não permitir a entrada de certas denominações religiosas. Em outras palavras, para que não floresçam como ervas daninhas pastores politiqueiros (muitos dos quais lá atrás apoiavam o Partido dos Trabalhadores e hoje apoiam Bolsonaro) como Valdomiro Santiago, Marco Feliciano, Edir Macedo, Flordelis (vulgo Queturiene) e afins, fanáticos religiosos católicos como o Deputado Príncipe e associações e entidades como o Partido dos Cristeros e o Centro Dom Bosco.

Diante do que estamos vendo, uma pergunta fica: será que daqui um tempo, após ganharem musculatura, veremos tais grupos religiosos de direita católica enfim mostrarem suas garras insidiosas e organizarem uma espécie de versão brasileira da rebelião Taiping, revolta de caráter messiânico cujo líder, Hong Xiuquan, se dizia irmão de Jesus Cristo e que trouxe grande prejuízo e morticínio à China durante um decênio e meio (de 1850 a 1864)? Será que não está na hora de as autoridades brasileiras darem a devida atenção a essa gente?

Que fique bem claro uma coisa: ao tratar do presente tema, não estamos falando da religião enquanto escolha pessoal do indivíduo. E sim do uso da mesma para finalidades politiqueiras, com vistas a projetos de poder. E isso independente da denominação religiosa. Quer seja por parte de católicos, evangélicos, luteranos, anglicanos, ortodoxos, muçulmanos xiitas ou sunitas, budistas, judeus, hinduístas, xintoístas, taoístas, pagãos das mais diversas vertentes, entre outros.

Fontes:

Brizola pede fim de influência religiosa. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3103200026.htm

Complexo de Israel. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_de_Israel

Estudos nacionais. Disponível em:

https://www.estudosnacionais.com/

Guardia Mora (em espanhol). Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Guardia_Mora

Juristas islâmicos repudiam vídeo de Porta dos Fundos. Disponível em: https://pleno.news/fe/juristas-islamicos-repudiam-video-do-porta-dos-fundos.html

Leonel Brizola. Disponível em: https://pt.wikiquote.org/wiki/Leonel_Brizola

List of international trips made by Saddam Hussein (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_international_trips_made_by_Saddam_Hussein

Los moros de Franco (em espanhol). Disponível em: https://serhistorico.net/2018/09/15/los-moros-de-franco/

Partido dos Cristeros. Disponível em:

https://partidodoscristeros.com.br/

Tarcísio humilhou comunidade árabe ao usar bandeira de Israel, diz ministro. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/06/20/marcio-franca-humilhar-arabes-tarcisio-israel-marcha-para-jesus.htm

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