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segunda-feira, 24 de junho de 2024

A carta do futuro primeiro-ministro de Israel para Hitler (texto da página História Islâmica + comentários meus)

 

“Em 1941, Yitzhak Shamir (que viria a ser o sétimo primeiro-ministro de Israel) cometeu ‘um crime imperdoável do ponto de vista moral: ele pregou uma aliança com H17l3r, com a Alemanha N4z1st4, contra a Grã-Bretanha’. Enquanto ainda se consideravam parte do Irgun, os Sternistas (membros do Lehi) enviaram uma proposta de aliança aos n4zist4s.

‘O estabelecimento do histórico estado judeu numa base nacional e totalitária, e vinculado por um tratado com o Reich Alemão’, o documento dos sternistas dizia, ‘oferece ser parte ativa na guerra pelo lado Alemão’. E adiciona que o NMO [Irgun] é intimamente ligado aos movimentos totalitários da Europa em sua ideologia e estrutura (“The Stern Gang: Ideology, Politics, and Terror 1940-1949” por Joseph Heller, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém).

Yitzhak Yzernitsky – que mais tarde se chamaria de Yitzhak Shamir, um dos primeiros-ministros que mais longevos no cargo do Estado de Israel, se tornou o comandante das operações da Gangue Stern após Avraham Stern ser morto pelo Exército Britânico em fevereiro de 1942. Sob a liderança de Shamir, foram tentados 14 assassinatos contra oficiais britânicos, com 2 deles sendo bem-sucedidos, a do Lorde Moyne, o Ministro Britânico residente no Oriente Médio, que estava no Cairo, e o representante da ONU para a Palestina, Conde Folke Bernadotte, que levou três tiros no coração de acordo com as ordens do comandante de operações da Gangue Stern, Yitzhak Shamir.

O Conde Folke Bernadotte reconhecia direitos humanos universais e defendia o direito palestino de retornar às suas terras e propriedades das quais foram despossuídos e etnicamente limpos pelos sionistas naquela época.

No início de 1948, forças paramilitares judias começaram a sitiar mais terras na Palestina. Ao fim de julho, mais de 400 mil palestinos já tinham sido obrigados a deixar suas casas, e sua situação como refugiados apenas começava.

Em maio daquele ano, o diplomata sueco Conde Folke Bernadotte foi escolhido como mediador da ONU na Palestina. Sua missão era chegar a um acordo pacífico. O Conde pesquisou aldeias palestinas devastadas e visitou campos de refugiados na Palestina e na Jordânia. A escala o desastre humanitário se tornou evidente quando testemunhou as péssimas condições de vida, longas filas para obter alimentos básicos e escassa ajuda médica.

O Conde Bernadotte não era estranho ao desastre humano; com a Cruz Vermelha, resgatou mais de 30 mil prisioneiros de guerra dos campos de concentração n4z1st4s. Agora, ele defendia o direito dos palestinos de voltar para suas casas.

No primeiro Relatório de Progresso de 16 de setembro de 1948, apresentado pelo Mediador para a Palestina nomeado pela ONU, Conde Folke Bernadotte, reconheceu-se o direito de regresso como a chave para a resolução do conflito na Palestina. Bernadotte escreveu:

‘Nenhum acordo pode ser justo e completo se o reconhecimento não for do direito do refugiado árabe de retornar ao seu lar do qual foi despejado. Seria uma ofensa contra os princípios da justiça elementar que estas vítimas inocentes do conflito fossem negadas do Direito de Retorno às suas casas enquanto os imigrantes judeus fluem para a Palestina, e, de fato, ao menos oferecem a ameaça da substituição permanente dos refugiados árabes que se enraizaram a terra por séculos’.

A primeira proposta do Conde pedia por fronteiras fixas através da negociação, uma união econômica entre os dois estados e o retorno dos refugiados palestinos – a proposta foi negada.

Em 17 de setembro, um dia depois de seu relatório para a ONU, a carreata do Conde Bernadotte foi emboscada em Jerusalém. Ele foi alvejado e liquidado pelos terroristas da Gangue Stern. O assassinato foi aprovado pelos três homens ‘centrais’ do Lehi: Yitzhak Yezernitsky (o futuro primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Shamir), Nathan Friedmann (também chamado de Natan Yellin-Mor) e Yisrael Eldad (também conhecido Scheib). Menachem Begin, fundador do Likud, o sexto primeiro-ministro de Israel e um dos líderes do grupo terrorista sionista, o Irgun, honrou Stern ao colocar seu retrato num selo postal. A Carta da Gangue Stern, ou, mais apropriadamente, os princípios promulgados por Stern, incluíam o estabelecimento de um Estado Judeu do ‘Nilo ao Eufrates’, a "transferência dos árabes palestinos para regiões fora do Estado Judeu, e a construção do Terceiro Templo de Jerusalém". Eles mantinham escritórios fora do Oriente Médio, incluindo Varsóvia, Paris, Londres e Nova Iorque, esta última chefiada por Benzion Netanyahu, pai de Benjamin Netanyahu.

Stern é reverenciado em Israel até hoje, e há um assentamento nomeado em sua honra, bem como um selo postal.

Quando Yitzhak Shamir, o futuro primeiro-ministro de Israel na década de 1980 foi questionado sobre sua colaboração com os fascistas, ele disse: ‘O inimigo do meu inimigo é meu amigo.’ (Tom Segev, One Palestine Complete, p. 464).

Jabotinsky colaborou com o fascista italiano Benito Mussolini e ambos apoiaram a ideologia do outro. De fato, uma academia naval na Itália Fascista foi estabelecida para treinar milícias sionistas. Foi a Academia Naval de Betar, e foi construída e operada com as bênçãos dos fascistas. Muitos dos futuros comandantes da marinha israelense treinaram neste lugar, sob supervisão fascista. Os cadetes nesta academia apoiavam o regime de Mussolini, além de apoiar as guerras coloniais de expansão italiana na África, sobretudo a Segunda Guerra Ítalo-Etíope.

Referências:

HELLER, Joseph. The Stern Gang: Ideology, Politics, and Terror 1940-1949. Psychology Press, 1995.

VADASARIA, Shaira. 1948 to 1951: The racial politics of humanitarianism and return in Palestine. Oñati Socio-Legal Series, [s. l.], v. 10, ed. 6, p. 1242–1269, 2018”.

Fonte: https://www.youtube.com/post/UgkxUQ7YtSSB8lGhhKGFVYknyKFmv-Zd1f8j

MEUS COMENTÁRIOS:

Este é mais um texto do canal do You Tube da página História Islâmica que trago para cá a respeito da questão do passado terrorista de altos figurões da política israelense. No ano passado, trouxe alguns destes textos para cá, adicionados de comentários meus. Abaixo, os links:

A tragédia e a farsa - quem chocou o ovo da serpente chamada Hamas?

A reabilitação do terrorismo em Israel

Também trouxe em 2018 textos que eu trouxe do site Radio Islam, a respeito do histórico de conchavos e colaboração dos sionistas com a fina flor do antissemitismo europeu, desde os tempos do caso Dreyfus e dos pogroms da Rússia Imperial tardia. Nazistas inclusos, obviamente.

A história dos líderes do terrorismo sionista-israelense - o que se sabe sobre os líderes israelenses?

Sionismo e antissemitismo: uma estranha aliança ao longo da história

Sionismo e Terceiro Reich

Para não ficar repetitivo, mas resumindo a ópera: Bolsonaro pai, assim como os filhos e partidários dele, são uns leões para falar do passado do italiano Cesare Battisti no tempo em que este foi membro do grupo PAC (Proletari Armati per el Comunismo, na  sigla em italiano), durante os anos de chumbo da Itália (anos 1970 e 1980). Também volta e meia falam do passado de altos figurões do Partido dos Trabalhadores e outros partidos da esquerda brasileira durante a ditadura-civil brasileira, tais como José Dirceu, José Genoíno, Carlos Minc, Diógenes do PT e Dilma Rousseff, por conta da atuação deles em grupos como o VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), Colina (Comando de Libertação Nacional), o VAR-Palmares, e mais a atuação em episódios como a guerrilha do Araguaia (tanto que em 2005, quando José Genoíno foi depor na CPI do mensalão, Bolsonaro pai trouxe à audiência o coronel Lício Maciel, captor de Genoíno no Araguaia, com claro fim de constrangimento do petista). Também chegou a falar em alguns momento a respeito do tal dinheiro que Leonel Brizola teria recebido de Fidel Castro para financiar guerrilha na serra do Caparaó, no Rio Grande do Sul, contra a ditadura civil-militar da qual Bolsonaro é apoiador.

Na arena internacional, eles também enchem a boca para falar em terrorismo de grupos como o Hamas e o Hezbollah, e do alto da verborragia e demagogia tão típica deles, ainda por cima tentam ligar os grupos em questão ao PT em particular e à esquerda de modo geral. E só irmos às redes dos filhos de Bolsonaro e mesmo de aliados deles para vermos postagens com esse tom de verborragia.

Primeiro que, como Mansur Peixoto muito bem pontua em um dos textos sobre o assunto, foi precisamente a vanguarda sionista que introduziu e difundiu no Oriente Médio o conceito de guerra urbana via atentados terroristas e até mesmo de grupos terroristas paramilitares.

E segundo e mais importante de fato: o mesmo Bolsonaro se cala a respeito de passado análogo das primeiras lideranças israelenses. Os filhos dele igualmente se calam a esse respeito. Há uma foto de dois dos filhos de Jair Bolsonaro, Carlos (vulgo 02) e Eduardo (vulgo 03), desfilando pelas ruas de Israel com camisetas do Mossad e da IDF (Israel Defense Force, na sigla em inglês), respectivamente. Os quais surgiram precisamente a partir dos grupos paramilitares sionistas que atuavam na Palestina sob o mandato britânico. Em outras palavras, estamos falando de uma época da qual o PT nem ao menos sonhava em nascer.

Foto – 02 e 03 desfilando pelas ruas de Israel com camisetas dos órgãos de inteligência israelenses.

E penso eu que se formos pesquisar, por exemplo, os políticos de escalão mais baixo e os ministros dos gabinetes dos premiês de Israel, encontraremos mais gente envolvida com tais grupos paramilitares. Para não ficarmos presos apenas aos premiês de Israel com passado de atuação em grupos de terrorismo paramilitar como o Irgun, o Haganah e o Stern.

sábado, 9 de dezembro de 2023

Deir Yassin: 66 anos de limpeza étnica e genocídio dos palestinos e a fundação de Israel (texto de Ramez Maalouf + comentários meus)

 

Foto – Aldeia de Deir Yassin em ruínas.

Há 66 anos atrás, 9 de abril de 1948, os judeus sionistas instalados na Palestina deram início ao processo de limpeza étnica e de genocídio do povo árabe palestino, por meio do massacre da aldeia de Deir Yassin, quando cerca de 254 pessoas (homens, mulheres e crianças) foram assassinadas por dois grupos terroristas sionistas: Irgun (do qual faziam parte os futuros primeiros-ministros israelenses Menachem Begin e Yitzhak Shamir) e a Gang Stern, sob ordens do Hagannah (defesa em hebraico), a maior milícia terrorista sionista em combate. O Massacre de Deir Yassin, como ficou tristemente conhecido, não foi resultado do “calor dos combates” e nem da “sede de vingança” da guerra civil entre sionistas e palestinos travada para a fundação de um Estado na Palestina, como a historiografia oficial israelense (muito bem aceita no Ocidente e até mesmo no Brasil) insiste em afirmar.

A aldeia de Deir Yassin estava localizada próxima a Jerusalém (al-Qods, em árabe), não tinha qualquer valor estratégico e sua população árabe palestina, na época da eclosão da guerra civil, em novembro de 1947, havia assinado um pacto de não agressão com a vizinha “colônia” judia de Giv’at Shaul, reconhecido pelo Hagannah. Como visto o grupo terrorista não respeitou o pacto e ordenou a matança generalizada dos habitantes e a expulsão dos sobreviventes. Quais seriam as motivações deste massacre?

Balcanização, prática europeia, em andamento.

Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovara a resolução 181 favorável à “Partilha” da Palestina entre judeus e “árabes” (os palestinos). Legitimava-se internacionalmente, desta forma, uma prática europeia, racista, portanto, liberal, contra os povos árabes submetidos ao poder do imperialismo: a balcanização. Legitimação internacional da agressão europeia à Grande Síria, já dividida territorialmente entre Líbano, Síria, Jordânia, Palestina, Iraque e Kuwait, que criou as condições geográficas para a implosão do nacionalismo árabe.

Um século antes, entre 1839 e 1843, Inglaterra, Áustria, Prússia, Rússia e a Igreja Católica (indiretamente) se uniram para barrar o expansionismo do paxá do Egito (apoiado pela França), o reformista e modernizador Mohammed Ali, que ameaçava o poder do Império Otomano, cuja fragmentação alimentaria os apetites expansionistas dos impérios europeus, algo muito desagradável para os ingleses. O líder dos egípcios era apoiado pelo também reformista e modernizador emir das Montanhas do Líbano Bachir Chehab II. Tropas e frotas anglo-austro-otomanas chegaram a bombardear intensamente Beirute, entre 11 e 14 de setembro de 1840, por terra e mar, matando milhares de pessoas.

Em 1843, em consequência da derrota egípcia, visando submeter o interior da Síria, Inglaterra, Áustria e a Igreja Católica propuseram pela primeira vez na História um programa de balcanização, ou seja, a divisão territorial em bases étnicas e/ou confessionais do Monte Líbano. Desprezando mais de oito séculos de convivência e coexistência mesclada no emirado entre árabes-sírios cristãos maronitas e drusos (uma comunidade heterodoxa do islã), foi proposta a divisão do Monte Líbano entre dois distritos sob bases religiosas, sendo o norte, dominado pelos cristãos maronitas, e o sul, pelos drusos.

A separação de duas comunidades religiosas que conviviam entrelaçadas entre si há quase um milênio só poderia ocorrer por meio da força, da violência, da limpeza étnica e o genocídio destas comunidades. Isto foi a centelha para as guerras, massacres e limpeza confessional (de cristãos, drusos e muçulmanos), que sangraram a Síria histórica por duas décadas até que a invasão francesa de 1861 fez criar um território sob hegemonia cristã maronita, mas administrada por um conselho confessional, em substituição aos dois distritos confessionais no Monte Líbano. Como resultado da criação deste município, os cristãos maronitas começaram a emigrar primeiramente para o litoral sírio (Beirute, Sidon, Tiro, Trípoli) e o Egito e, posteriormente, para as Américas. Neste ínterim, os ingleses vislumbram a implantação de uma comunidade religiosa que lhes pudesse oferecer o apoio às suas ambições imperiais naquela região tão estratégica: os judeus.

Exclusivismo comunitário x pluralismo étnico e confessional

A fundação de uma entidade territorial fundamentada no exclusivismo comunitário, só poderia se chocar violentamente com a resistência do pluralismo étnico e confessional no Oriente Médio. Os conflitos no Monte Líbano, entre 1840 e 1861, provaram isto. Portanto, não surpreende a feroz resistência dos árabes palestinos à “partilha” da Palestina para dar origem a um Estado exclusivamente judeu, sendo este apoiado com armas e dinheiro pelos EUA, Inglaterra, França e as antigas União Soviética (URSS) e Tchecoslováquia.

Com a aprovação da resolução 181 pela ONU, em 1947, os árabes palestinos (cristãos e muçulmanos) combateram (mal armados e decapitados de suas principais lideranças e de seus melhores guerrilheiros pela brutal repressão inglesa à revolta palestina de 1936-39) as milícias sionistas, que eram mais bem treinadas, armadas e financiadas. Com uma comunidade com cerca de 600 mil pessoas implantadas na Palestina por força da Inglaterra e pelas aquisições das terras de proprietários árabes, os judeus sionistas contavam com um exército que chegou a alcançar a inacreditável cifra de 35 mil milicianos no início da guerra civil, em novembro de 1947. Quando os exércitos regulares árabes intervieram na Palestina, somavam, ao lado dos combatentes palestinos e voluntários árabes, apenas 28 mil homens armados, em maio de 1948, enquanto o contingente do exército israelense alcançava a cifra de 41 mil soldados, e no final da guerra, no inverno de 1949, chegaram aos 115 mil militares. Ainda assim, no início dos confrontos em 1947, os palestinos com seus parcos 9 mil combatentes mantiveram equilíbrio nos confrontos com os milicianos sionistas. Até meados de março de 1948, a vitória sionista não era de modo algum perceptível. Foram as intervenções da então URSS e dos EUA no conflito que mudaram os rumos da guerra civil na Palestina.

EUA, Rússia, Israel e a balcanização da Palestina.

Os soviéticos enviaram armas para os sionistas, reiterando o voto favorável à balcanização da Palestina, por acreditarem que os governos árabes eram por demais “reacionários”, “feudais” e “pró-imperialistas” (na época, significava ser aliados da Inglaterra e da França), propaganda útil aos sionistas até a Guerra dos Seis Dias (1967). Para a URSS, Israel seria a “cunha anti-imperialista” no Oriente Médio. A intervenção soviética na guerra alarmou os EUA, que prontamente demandaram a suspensão da “partilha” da Palestina no Conselho de Segurança da ONU, em 19 de março de 1948. Este, por sua vez, convocou uma Assembleia para debater a proposta ianque, em 1º de abril de 1948.

De imediato, David Ben-Gurion, a principal liderança sionista percebeu que os EUA poderiam não apenas encerrar a guerra, mas também impedir a balcanização da Palestina e a fundação do Estado judeu. Ele deu início ao Plano D (Dalet em hebraico, uma vez que os planos A, B e C já haviam sucedido). Este plano consistia numa conquista militar total da Palestina, no que implicaria na anexação de todos os territórios destinados aos palestinos, assim como a expulsão destes do que seria o futuro Estado judeu erguido sobre todo o país. Era a limpeza étnica e Ben-Gurion já tinha em mente o confronto com os exércitos regulares árabes.

A indecisão dos EUA para com a divisão do país levantino só fez as forças sionistas se tornarem mais sistemáticas e objetivas em seus propósitos. Por isto, o Plano D, isto é, a limpeza étnica dos palestinos, era urgente para os sionistas. Afinal, o futuro Estado judeu deveria ser “100% judeu”, apartado e, sobretudo, “limpo” da multimilenar presença árabe na região. Assim sendo, a aldeia de Deir Yassin foi escolhida para ser a primeira das mais de 200 cidades, vilarejos e aldeias a terem a existência árabe-palestina erradicada pelos sionistas, segundo o historiador israelense Ilan Pappé, exilado em Londres, após sofrer ameaças de morte em Israel após publicar o livro A Limpeza étnica na Palestina, em 2007.

Limpeza Étnica da Palestina e a racionalização do genocídio.

Quando os ingleses se retiraram definitivamente da Palestina, em 14 de maio de 1948, abolindo mandato sobre o país, a limpeza étnica perpetrada pelos grupos terroristas sionistas Irgun, Gang Stern e o Hagannah havia provocado, de março do mesmo ano até então, a expulsão de 250 mil a 300 mil palestinos, segundo o historiador israelense ultra-direitista-liberal Benny Morris. Cifra que alcançaria a marca de 370 mil palestinos expulsos em 1º de junho de 1948. Estes refugiados palestinos entraram maciçamente nos territórios dos países árabes vizinhos, causando incômodo aos governos autocráticos árabes, clientes do Ocidente, à exceção do governo democrático da Síria.

Foi para impedir a expulsão dos palestinos pelas milícias sionistas, que os exércitos árabes invadiram a Palestina (não atingindo os territórios destinados aos judeus pela ONU) em 15 de maio de 1948. O alvo da intervenção das tropas do Egito, Transjordânia e Líbano não era Israel, exceto para os sírios, os únicos a não serem derrotados no campo de batalha pelas forças sionistas. Talvez, este tenha sido um motivo a mais para o golpe militar patrocinado pelos EUA para derrubar o governo democrático de Chuckri al-Kuwatli, em Damasco, em março de 1949, que instalou uma ditadura militar. Ao tomar o poder em Damasco, o ditador sírio coronel Hosni Zaim, apoiado pelos EUA, expulsou para o Líbano o líder nacionalista árabe-sírio Antoun Saadeh, arqui-inimigo de Israel e do colonialismo europeu, e ainda propôs secretamente a paz ao líder sionista Ben-Gurion, ainda durante a guerra na Palestina, aceitando receber mais de 300 mil refugiados palestinos em troca do acesso às águas do Lago Tiberíades.

Outro ditador árabe a propor negociações secretas com os sionistas foi o emir da Transjordânia, Abdullah al-Hachemi, antes do início da guerra civil entre palestinos e judeus, em novembro de 1947. Neste acordo secreto e verbal, o monarca hachemita, cliente dos ingleses, aceitou a proposta sionista de aceitar a anexação da Cisjordânia em troca do reconhecimento do futuro Estado judeu. Ainda no curso da guerra, os sionistas propuseram ao Egito “ceder” a Faixa de Gaza e o Negev, territórios destinados aos palestinos pela ONU, em troca do reconhecimento de Israel. O rei Faruk, autocrata cliente da Inglaterra, aceitou a oferta sionista, mas Ben-Gurion acabou não “cedendo” o Negev. É preciso ressaltar que as negociações secretas árabe-sionistas não encerravam os combates, pois, os limites entre os Estados árabes e o futuro Estado judeu não estavam definidos, uma vez que o Estado árabe-palestino deveria desaparecer.

Tais acordos secretos entre lideranças árabes antidemocráticas e pró-Ocidente (contrárias à opinião pública árabe majoritariamente favorável aos palestinos) e sionistas acabariam selando o destino dos palestinos antes, durante e após a guerra da Palestina (1947-49), que levaria não apenas à fundação de Israel, mas o não retorno dos refugiados à sua terra natal. Isto contrariava e desafiava a resolução 194 da ONU, de 1948, que demandava o imediato regresso das populações expulsas. Desta forma, Israel consolidou-se como um Estado de maioria judaica, com uma população de 1,1 milhão de judeus e 160 mil árabes-palestinos, sobre a expulsão de mais de 900 mil palestinos de sua pátria.

A campanha de limpeza étnica, iniciada com o Massacre de Deir Yassin, havia dado resultados favoráveis aos israelenses. Estabeleceu-se um padrão de conduta para a liderança sionista, racista, o uso de extrema violência contra populações árabes para provocar “choque e pavor” e a expulsão das mesmas.

Tal padrão bem-sucedido seria repetido em inúmeros massacres promovidos por Israel, como em Khan Yunis (1956), Qibyia (1956), Kafr Qasim (1956), Bahr el-Baqar (1970), os incessantes ataques ao sul do Líbano a partir de 1968 até os dias de hoje, atingindo o ponto alto com os Massacres de Sabra e Chatila (1982) e de Gaza (2008-2009), demonstrando uma espécie de “racionalização do genocídio” sem enfrentar qualquer forma de censura internacional mais veemente. Impunidade garantida a Israel com a cumplicidade de governos antidemocráticos no mundo árabe, submissos ao poder dos EUA.

Ramez Philippe Maalouf, nascido no Rio de Janeiro em 1970, bacharel e licenciado em História (UERJ – 2005), especialista em História das Relações Internacionais (UERJ – 2005) e mestre em Geografia Humana (USP – 2011) e doutorando em Geografia Humana (USP)

Fonte: Deir Yassin: 66 anos limpeza étnica e genocídio dos palestinos e a fundação de Israel ← ORIENTE mídia (orientemidia.org)

MEUS COMENTÁRIOS

Este é um texto escrito em 2014 pelo professor Ramez Maalouf a respeito do massacre de Deir Yassin, ocorrido na aldeia de mesmo nome em 1948. Este texto está disponível não apenas no Oriente Mídia, como também no site do Correio da Cidadania, do qual Ramez Maalouf também é um dos colunistas. Um texto que, a despeito de ter sido escrito há nove anos, não perde a atualidade. Ainda mais tendo em vista os eventos que vêm se desenrolando no Oriente Médio desde o dia sete de outubro do presente ano.

Como a história mostra Deir Yassin não foi o primeiro, e nem o último dos massacres e limpezas étnicas que os sionistas, quer seja por meio de grupos armados paramilitares antes da criação de Israel, quer seja por meio da ação do exército e das forças de defesa após a criação de Israel, promoveram na Palestina. E o mérito deste texto é mostrar que mostra que a narrativa (para não dizer verborragia) que certos elementos da direita neocon brasileira (em especial a família Bolsonaro), que como nós sabemos são ardorosos defensores de Israel, vendem a respeito da questão palestina é cheia de omissões e meias-verdades, para não dizer de lorotas. É uma verdadeira torta a ser jogada na cara destes elementos.

Tais elementos batem muito na tecla do terrorismo por parte de grupos extremistas como o Hamas, e ao mesmo tempo se calam sobre o passado de terrorismo por parte dos sionistas de antes mesmo do Estado de Israel ser fundado, em 1948. Nenhuma palavra sobre Irgun, nada sobre Haganah, Stern, Lehi, nada, nada. Verdadeiro silêncio de cemitério. Até parece que para essa gente esses grupelhos terroristas (de cujos quadros saíram políticos eminentes e premiês de Israel, entre eles David Ben Gurion, Menachem Begin e Itzhak Šamir) nunca existiram. E que massacres como Deir Yassin e Qibla nunca aconteceram. Pela narrativa deles, parece que só há terrorismo quando este vem da população árabe-palestina, nunca é o judeu de origem europeia que começou a imigrar à Palestina a partir do final do século XIX.

E a questão não se limita apenas à Palestina: estes mesmos elementos também batem muito tecla do passado de membros históricos do Partido dos Trabalhadores e outros partidos de esquerda, entre José Dirceu, José Genoíno, Dilma Rousseff, Carlos Minc, Diógenes do PT e outros, de quando eles foram membros de grupos paramilitares de luta armada tais como o Colina, o VAR-Palmares e outros, além de alguns deles (como foi o caso de Genoíno) terem participado do episódio da Guerrilha do Araguaia no atual Tocantins (1967 – 1974), durante o período da ditadura civil-militar brasileira (algo digno de nota é que em 2005, durante a CPI do mensalão, no depoimento de José Genoíno, Bolsonaro lá trouxe o coronel Lício Maciel, o mesmo Lício Maciel que capturou Genoíno no Araguaia, com a clara intenção de constranger o petista)  Como também batem na tecla do passado de Cesare Battisti, ex-membro do PAC (Proletari Armati per il Comunismo, na sigla em italiano) que após passagens pela França e pelo México se refugiou no Brasil e ser enviado de volta à Itália após uma breve passagem pela Bolívia, nos anos de chumbo da Itália, e os quatro crimes a ele atribuídos (os quais ele admitiu após ter sido enviado de volta à Itália e preso).

E falando na direita neocon brasileira hodierna, nada me tira da cabeça, por exemplo, que os filhos 02 e 03 do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, estiveram de alguma forma envolvidos na operação Trapiche (operação conjunta da PF com o Mossad, no qual sob o pretexto de combater atividades terroristas do Hezbollah em solo brasileiro prendeu dois suspeitos de planejarem atos terroristas – posteriormente soltos), como também exercem o papel de embaixadores da inteligência israelense no Brasil. Ainda mais tendo em vista a foto na qual eles estão desfilando pelas ruas de Israel com camisetas do Mossad e da IDF (e mais o fato de que 02 procurou programas israelenses para criar uma rede de espionagem dentro e fora do governo Bolsonaro).

Foto – 02 com camisa do Mossad e 03 com camisa da IDF.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

A reabilitação do terrorismo em Israel (texto da página História Islâmica + comentários meus)

“Antes da criação do Estado de Israel em 1948 e o estabelecimento de suas forças armadas oficiais (as Forças de Defesa de Israel, comumente referidas como IDF), os grupos estabelecidos no território da Palestina durante o Mandato Britânico, a partir da década de 1920, haviam criado milícias paramilitares irregulares visando a proteção de seus assentamentos e o enfrentamento de habitantes palestinos e ocupantes britânicos.

A Haganá foi criada em 1920 por membros dos assentamentos judaicos e era adepta do Sionismo Socialista, influenciado pela esquerda e que visava criar um Estado judeu limitado pelo rio Jordão, conforme estabeleciam alguns documentos britânicos. Combinavam ação diplomática e militar.

O Irgun foi fundado em 1931 como dissidência da Haganá. Em 1940, foi fundado o Lehi, uma dissidência do grupo anterior. Ambos eram adeptos do Sionismo Revisionista, que pretendia um Estado judeu abarcando os dois lados do rio Jordão.

O Irgun e Lehi eram nacionalistas radicais, o primeiro de tendência à direita e o segundo de esquerda. O nacionalismo destes dois grupos pregava uma supremacia racial judaica, influenciando o desenvolvimento de uma mentalidade de limpeza étnica contra a população árabe-palestina. Enquanto a Haganá possuía um discurso mais defensivo e antiterrorista, o Irgun e o Lehi defendiam abertamente o terrorismo e a guerra de agressão. Apesar das diferenças de discursos e métodos, os três grupos cooperaram em ações terroristas na década de 1940, sendo seus crimes mais famosos a explosão no King David Hotel, em Jerusalém (1946) e o massacre do povoado palestino de Deir Yassin (1948).

A Haganá, o Irgun e o Lehi foram classificados como grupos terroristas pela administração colonial britânica e pelos grupos palestinos. A classificação do Irgun e Lehi como organizações terroristas também foi feita pela Organização das Nações Unidas, o Congresso Sionista Mundial e o Estado de Israel (inicialmente) bem como órgãos das forças armadas americanas. Alguns famosos intelectuais judeus como Albert Einstein e Hannah Arendt condenaram publicamente o terrorismo praticado pelo Irgun e pelo Lehi.

Após a criação do Estado de Israel em 1948 os grupos paramilitares foram incorporados ao exército regular, as Forças de Defesa de Israel (IDF). A maioria de seus membros foi anistiada após 1949 e muitos participaram da política e foram condecorados. Alguns desses políticos famosos foram primeiros-ministros, como David Ben Gurion (ligado anteriormente à Haganá) entre 1948-1953 e 1955-1962, Menachem Begin (ex-Irgun) entre 1977-1983 e Ytzhak Shamir (ex-Lehi) entre 1983-1984 e 1986-1992.

Como Israel era uma nação jovem, era necessária a consolidação de uma identidade nacional. Além da criação de símbolos como bandeira, brasão e hino nacional, os dirigentes do novo Estado precisavam formar a sua versão da própria história, com a criação de datas comemorativas, monumentos e heróis nacionais. A imprensa e historiografia israelense reescreveram a história da ocupação sionista, ocultando as práticas terroristas e transformando os líderes paramilitares em heróis nacionais. Em 1980, Israel instituiu a “Fita Lehi”, uma condecoração para ex-membros do Lehi e foram criados museus para preservação da memória histórica do Irgun e Lehi.

A mentalidade dos antigos grupos paramilitares – de que os fins justificavam os meios para o estabelecimento do Estado judeu – ainda hoje influencia a mentalidade israelense com a prática de assentamentos ilegais na Cisjordânia, prisões arbitrárias e tortura de palestinos por agentes do Estado de Israel e ataques a alvos civis por parte da IDF.

Bibliografia:

ADERETM Ofer. Assassinations, Terror Attacks and Even Castration - the Hidden Actions of Israel's Pre-state Militia. Haaretz, 13 jun. 2020.

ARAB HIGHER COMMITTE DELEGATION FOR PALESTINE. The Black Paper on the Jewish agency and Zionist Terrorism. Memorandum to the Unites Nations. New York, 1948.

BELL, J. Bowyer. Terror out of Zion: Irgun Zvai Leumi, Lehi, and the Palestine underground, 1929-1949.New York: Avon Books, 1977.

BRAM, Shir Aharon. When the Irgun Decided to Be Judge, Jury and Executioner. The Librarians, 11 jan. 2023. CELIK, Ahmed Husrev. Analysis - Fundamentalist Jewish terror in Palestine dates back more than a century. AA - Anadolu Ajansi, 25 maio 2021.

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Fonte: História Islâmica - YouTube

MEUS COMENTÁRIOS

Este é um texto que encontrei na comunidade do You Tube da página História Islâmica, de Mansur Peixoto, e que trata a respeito dos dias de terrorismo paramilitar dos sionistas de ANTES da fundação do Estado de Israel, em 1948.

Uma das coisas que mais me interessam a respeito da presente questão envolvendo Israel e Palestina é como que essa questão ajuda a alimentar a guerra política que hoje vemos no Brasil entre esquerda e direita (principalmente a direita bolsonarista).

De um lado, vemos setores de esquerda declarar apoio à causa palestina. O PCO (Partido da Causa Operária) está fechado com o Hamas nessa questão, ao passo que outros partidos de esquerda também se manifestam favoráveis à causa palestina.

De outro, vemos a direita, em especial a direita de matiz ideológico bolsonarista, em muito influenciada pelo ideário neoconservador do Partido Republicano dos Estados Unidos (ao passo que em determinados setores da esquerda brasileira também a influência da outra grande agremiação política norte-americana, o Partido Democrata, é clara e nítida) e que tem como seus principais porta-vozes o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (ele mesmo apoiador de Israel de longa data), se mostra simpática à Israel. Nessa onda, também vemos casos de pastores e líderes religiosos como Rodrigo Mocellin e Leandro Ruschel chegando ao ponto de destilar islamofobia barata em vídeos no You Tube (os quais receberam respostas da parte de Mansur Peixoto).

Nessa guerra ideológica entre esquerda e direita neocon a respeito da questão entre Israel e Palestina na esteira da repercussão do ataque de sete de outubro do presente ano, vemos a segunda por todos os meios querer associar a esquerda ao Hamas e ao terrorismo, com vistas a acusar os esquerdistas de cumplicidade com o terrorismo não só do Hamas, como também de outros grupos similares. Ao passo que eles, ao prestarem apoio ao Estado de Israel, é que estão do lado certo da questão. E exemplo disso é a seguinte postagem de Carlos Bolsonaro (vulgo 02), o segundo filho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro:

Foto – Postagem na comunidade no canal do You Tube de Carlos Bolsonaro, datada de 18 de setembro do presente ano. Percebam a tônica do discurso do segundo filho do ex-presidente Bolsonaro.

O irmão mais novo dele, Eduardo Bolsonaro, o 03, na semana retrasada postou a seguinte mensagem na comunidade do canal dele do You Tube:

“O que seriam dos grupos terroristas sem seus braços políticos, com voz na imprensa, para suavizar seus ataques brutais? Não pense ser coincidência que PT, PSOL, PCdoB e toda escória política chamarem 8/JAN de "terrorismo", mas não usarem esta palavra para se referir ao Hamas e seus comparsas. Quem domina a linguagem controla a narrativa. Não apoie quem apóia matança e sequestro de mulheres, crianças e idosos”.

Foto – Foto de postagem de 03 no You Tube, no qual ele claramente tenta colar a pecha de “cúmplices do terrorismo” na esquerda brasileira.

E o curioso é que há uma foto de 2016 na qual tanto 02 quanto 03 estão andando pelas ruas de Israel com camisas do Mossad e do IDF.


Foto – Carlos Bolsonaro (esquerda) e Eduardo Bolsonaro (direita) andando pelas ruas de Israel com camisas da IDF e do Mossad. Foto de 2016.

Vejam só o grande paradoxo. Carluxo e Dudu Bananinha acusam partidos de esquerda como o PT, o PSOL, o PCdoB e outros de defender o Hamas e até de serem “irmãos de almas”. Isso ao mesmo tempo em que ele e o irmão mais novo dele já foram fotografados nas ruas de Israel trajando a camisa de órgãos de inteligência que foram formados a partir dos grupos terroristas que atuavam na Palestina sob o mandato britânico, tais como o Haganah, o Irgun, o Stern, o Lehi e o Palmach. Grupos esses que foram inclusive considerados como terroristas pelo governo britânico na época de atividade deles. Se isso não é um verdadeiro soco nos nossos estômagos, não sei mais o que é.

E os paradoxos não param por ai. Vocês se lembram da carta que em 2014, durante a crise na Faixa de Gaza daquele ano, que o então deputado federal pelo PP Jair Messias Bolsonaro enviou ao embaixador de Israel no Brasil, fazendo um pedido de desculpas a Israel em nome do povo brasileiro por conta das atitudes da então Presidente?

Foto – Carta de Jair Messias Bolsonaro ao embaixador de Israel de 2014.

Pois bem. O que impressiona a respeito dessa carta é que Bolsonaro começa falando sobre o passado da então presidente Dilma Vana Rousseff como membra de grupos como o VAR-Palmares e o Colina ao embaixador de Israel no período de 1964 a 1985. Logo ao embaixador de uma nação que foi forjada sob o signo do terrorismo paramilitar e que cujos primeiros premiês foram membros de grupos terroristas como o Haganah, o Lehi, o Stern, o Palmach e o Irgun.

Vide o caso do já citado David Ben Gurion, egresso do Haganah e premiê de Israel entre 1948 a 1953 e de 1955 a 1962. Ou seja, Ben Gurion foi premiê de Israel em uma época na qual o Partido dos Trabalhadores nem sonhava em existir. Alguns dos membros do PT (tanto atuais quanto históricos, incluindo aqueles que participaram da luta armada no período de 1964 a 1985 e que chegaram a fazer treinamento de guerrilha em Cuba à época, entre eles José Genoíno e José Dirceu) inclusive nem eram nascidos à época, ou eram muito pequenos.

O que mostra que o processo que Mansur Peixoto em postagem anterior no mesmo canal chamou de “transformação de terroristas em políticos oficiais” em Israel antecede em 31 anos à fundação do PT, em 54 anos à primeira eleição de Lula e em 63 anos à chegada de Dilma Rousseff ao poder no Brasil.

Também digno de nota é o fato de que naquele mesmo ano Jair Bolsonaro travou um bate-boca com Jandira Feghali, deputada federal do PCdoB pelo estado do Rio de Janeiro, envolvendo a questão palestina. No qual Bolsonaro respondeu às posições pró-Palestina de Feghali com palavras de ordem como “chega de terrorismo” e “comunismo matou milhões”.

Voltando mais alguns anos no passado, o mesmo Bolsonaro nos idos de 2009 e 2010 se posicionou contra a presença de Cesare Battisti em solo brasileiro por conta do passado dele como membro do PAC (Proletários Armados pelo terrorismo), durante os anos de chumbo da Itália e os quatro crimes atribuídos a ele (os quais ele veio a admitir após ser preso e extraditado de volta à Itália). 

E que na mesma época também dizia que a mesma Dilma não poderia ter sido presidente da República por conta de seu passado como membra de grupos de luta armada no período entre 1964 a 1985 (até chegou a fazer uma leitura da ficha de Dilma na época da ditadura civil-militar brasileira). 

Por essa mesma lógica, muitos dos primeiros premiês de Israel, entre eles David Ben Gurion, Itzhak Šamir e Menachem Begin, não poderiam ter ocupado os cargos que ocuparam em vida por conta do passado deles como membros de organizações paramilitares como o Irgun, o Lehi e o Haganah.

Foto – 01, 02 e 03 em Israel. Vejam a bandeira israelense atrás deles. Foto de 2016.

E voltando ao Carluxo. Segundo notícias do ano retrasado, Carluxo andou procurando equipamentos israelenses para fins de espionagem de rivais políticos, tanto dentro quanto fora do governo comandado por seu pai. Entre eles os programas Pegasus (da desenvolvedora NSO Group) e Sherlock. O primeiro é voltado para hackear celulares, ao passo que o segundo serve para espionagem de computadores e laptops.

Com o primeiro, Carluxo iria criar uma espécie de Abin paralela, a qual por sua vez seria alimentada com informações externas extraídas de computadores e laptops não apenas de rivais políticos, como também de jornalistas, ativistas e outros desafetos políticos dele. Já com o segundo Carluxo pretendia monitorar o governo de dentro.

No fim das contas, o clã Bolsonaro, o mesmo clã Bolsonaro sobre o qual pairam suspeitas de ligações com as milícias do Rio de Janeiro, vive acusando a esquerda de ser favorável ao Hamas e outros grupos afins, de ser cúmplice com o terrorismo desses grupos, mas eles pelo visto também têm os terroristas de estimação deles. Em outras palavras, aqueles que para eles são os “terroristas do bem”.

domingo, 22 de outubro de 2023

A tragédia e a farsa - quem chocou o ovo da serpente chamada Hamas?

 


Foto – 02 e 03 andando pelas ruas de Israel com camisas do Mossad e da IDF.

Nos últimos dias, vi diversas publicações de figuras da direita brasileira de matiz neocon, ao comentar a atual questão entre Israel e o grupo Hamas na sequência do atentado do dia sete do presente mês. Entre eles pessoas como o pastor Rodrigo Mocellin, Leandro Ruschel, Thiago Braga e os filhos mafiosos do ex-presidente Jair Bolsonaro, além de publicações de canais como o Brasil Paralelo.

Uma das teclas que eles mais batem é que o pessoal da esquerda, em especial os petistas, não reconhecem o Hamas enquanto grupo terrorista. Com a clara intenção de querer associar a esquerda (em especial o Partido dos Trabalhadores) ao terrorismo.

Algo que me salta aos olhos depois de ler tantas publicações e comentários do pessoal dessa direita de matiz neocon é que em momento algum eles falam sobre a seguinte questão: quem chocou o ovo da serpente chamada Hamas? Apenas ficam batendo na tecla de que o Hamas é um grupo terrorista, que a esquerda não reconhece o Hamas enquanto grupo terrorista e tal. O tipo da narrativa que no fim das contas serve de cortina de fumaça.

Foto – Publicação de Carlos Bolsonaro no You Tube, em que ele claramente tenta associar Lula e os petistas com o Hamas.

Nos últimos dias, na esteira dos recentes ocorridos na Faixa de Gaza, também vi um show de islamofobia barata e cretina. Um dos que postaram vídeos nessa linha é Thiago Braga. Ao ver o vídeo dele percebe-se que ele está procurando polêmicas não só com pessoal de esquerda, como também com pessoal islâmico.

Que fique bem claro uma coisa a respeito de Thiago Braga: isso que ele está fazendo não é nada de novo. É basicamente o mesmo expediente que lá atrás tanto os irmãos Neto quanto o Nando Moura se utilizaram para se promoverem no You Tube. Entrar em polêmicas com determinadas pessoas de forma a gerar engajamento e repercussão.

Quando deu seus primeiros passos no You Tube, em 2010, Felipe Neto, por meio do quadro “Não faz sentido”, produziu vídeos nos quais criticou figuras como Fiuk, Justin Bieber, colírios da revista Capricho, bandas coloridas e outros (até chegou ao ponto de ofender pessoas de esquerda que apoiavam o Partido dos Trabalhadores em 2014). Depois de um tempo e após fazer seu pé de meia, Felipe Neto fez uma espécie de branqueamento dele mesmo, jogou o personagem de óculos e camisas escuras que ele encarnava no “Não faz sentido” para debaixo do tapete e passou não apenas a produzir conteúdo “para crianças”, como também a fazer tudo o que criticava antes, incluindo pintar o cabelo de diversas cores diferentes, dizer que ama os fãs em premiações e encher os vídeos dele de indecências. Resumindo a ópera, virou a encarnação terrena da hipocrisia, do cinismo e da falsidade.

O irmão mais novo dele, Luccas Neto, era o “Hater Sincero” quando deu seus primeiros passos no You Tube, nos idos de 2014, e nessa época criticava um tipo de humor que ele classificava como “humor babaquismo”. Travou polêmicas com a Viih Tube (à época menor de idade), o Castanhari e outros. O caso com Viih Tube terminou em processo judicial (Luccas Neto teve que pagar R$ 40 mil em indenizações por danos morais à família dela). E então Luccas Neto fez o mesmo branqueamento que o irmão dele fez antes. Depois de fazer seu pé de meia, Luccas Neto aposentou o Hater Sincero e o enterrou para debaixo do tapete, branqueou a si mesmo e assumiu para si o personagem infantilóide que hoje ele encarna (a ponto de fazer vídeos ridículos como aquele no qual se chafurda em uma banheira cheia de Nutella). Em outras palavras, tornou-se o rei do “humor babaquismo”. E o que mais me espanta é o fato de que ambos os irmãos Neto hoje se comportam como se os personagens que eles encarnaram outrora nunca tivessem existido.

Por fim, Nando Moura. Quando Nando Moura começou a postar vídeos no You Tube, por volta de 2015, ele travou polêmicas com figuras já bem estabelecidas na plataforma tais como Pirulla, Kéfera, Maestro Bogs, Cauê Moura e o próprio Felipe Neto. Algumas dessas polêmicas inclusive terminaram em processos judiciais.

Nos dias hodiernos, as pessoas ficam chocadas (e com razão) com os atos de grupos terroristas como o Hamas, da mesma forma como tiveram a mesma reação quando a bola da vez eram grupos como o Estado Islâmico, o Boko Haram e a Al Qaeda. Mas será que em algum momento elas fizeram a seguinte pergunta: quem chocou o ovo dessas serpentes todas?

Recentemente, navegando pelo Facebook, encontrei este texto, datado de 2015 e publicado na sequência dos ataques ao Charlie Hebdo e à boate Le Bataclan em Paris. Um texto atualíssimo, que nem parece que foi escrito há oito anos:

“Até onde minha vista alcança, Ser ou não Ser Charlie não é a questão, ou ao menos não é a mais importante. Ao se falar de ações violentas de grupos extremistas, é sempre bom tentar saber quem criou, fomentou, armou, treinou e financia esses grupos. E três dos principais grupos extremistas hoje tem uma curiosa semelhança em sua história...

A Al-Qaeda nasceu como um subproduto da guerra entre União Soviética e Afeganistão, confronto em que muitos muçulmanos de outros países foram para o Afeganistão lutar contra os comunistas russos e receberam entusiasmado apoio, psicológico, financeiro e logístico da CIA. Segundo uma reportagem da BBC, é possível acreditar que Bin Laden recebeu pessoalmente treinamento da CIA.

O Hamas tem no seu DNA e na sua certidão de nascimento o Mossad, serviço secreto de Israel, para lutar contra e enfraquecer a OLP de Arafat e a esquerda palestina.

O famigerado Estado Islâmico, que surgiu num Iraque completamente destruído e sem instituições (talvez um excelente estudo de caso do que é o “anarco capitalismo” defendido por alguns liberais), é um filho de alguns pais. Para combater o regime sírio, principal aliado regional do Irã, EUA, França, Inglaterra, com financiamento de Arábia Saudita, Emirados Árabes e Qatar e apoio tácito de Israel forneceram armas, apoio logístico e treinamento aos extremistas do Califado. E quem está na linha de frente dos combates contra o Estado Islâmico? Os curdos ligados ao PKK, grupo nacionalista do Curdistão, historicamente ligado à causa socialista. Desestabiliza-se a Síria e luta-se contra os curdos, um “problema” bem grande para a Turquia. Dois coelhos com uma cajadada só!

Criar, fomentar, financiar, treinar grupos extremos não é novidade na política internacional dos países mais poderosos. Desde Klaus Barbie, o “açougueiro de Lyon”, um dos mais bárbaros carrascos nazistas que vivia publicamente e abertamente na Bolívia após a guerra, dando consultoria para a CIA sobre combate a grupos de esquerda na região (e tendo participado da preparação da operação que matou Che Guevara); até os Contra na Nicarágua e o apoio a todas as ditaduras da América do Sul. E tampouco é novidade na política interna, que o diga o COINTELPRO (Counter-Intelligence Program) do FBI que nos anos 70 foi criado com o objetivo de destruir movimentos sociais, especialmente o Panteras Negras e movimentos indígenas, mas também algumas organizações estudantis e sindicais. O Cointelpro criou células extremistas para desacreditar a esquerda, financiou organizações criminosas que introduziram tráfico de drogas em comunidades em que os Panteras Negras eram fortes, e por aí vai.

Esse monstro extremista que hoje ataca “o Ocidente” foi criado justamente por este, para diminuir, combater ou acabar grupos ou movimentos nacionalistas, de esquerda ou que sequer eram de esquerdas, mas tinham posições independentes em relação aos EUA e seus aliados.

O ataque ao Charlie Hebdo é uma tragédia imensa, independente de suas publicações serem de gosto questionável ou não. Agora, EUA, França, Inglaterra, Israel e seus aliados no Oriente Médio (Arábia Saudita, Emirados Àrabes e Qatar, notadamente) lançam as cortinas de fumaça dos jargões belos, valiosos e vagos: ‘liberdade, liberdade de expressão, democracia’.

Lançam essa cortina de fumaça para esconder que, no fim do dia, o sangue das vítimas dessa semana está na mão deles assim como está nas mãos dos dois irmãos Kouachi”.

Diga-se de passagem, a estratégia que Israel usou para conter grupos mais moderados da oposição palestina como o Fatah e a OLP de Yasser Arafat por meio da criação e da promoção do Hamas é uma estratégia similar àquela que, segundo algumas línguas, a ditadura civil-militar brasileira, na figura do general Golbery do Couto e Silva, teria se utilizado ao criar e promover a figura de Lula e do Partido dos Trabalhadores como forma de conter Brizola dentro do contexto da redemocratização e abertura política do Brasil.

“Crie corvos e eles comerão teus olhos”, assim diz um velho ditado espanhol. Assim o foi com a Al Qaeda, com o Boko Haram, com o Hamas, o Estado Islâmico e tantos outros grupos afins criados pelo “mundo livre e democrático” que depois de picar e destilar veneno nos inimigos destes, se voltaram contra seus criadores e passaram a causar problemas a estes.

Na introdução do 18 Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx diz que a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa. Os nomes dos personagens e dos grupos envolvidos podem variar ao longo do tempo, mas uma coisa é certa: as pessoas nunca aprendem e continuam se comportando como se fosse gado bestializado diante de tais eventos. Lá atrás, os espectadores da tragédia diziam “eu sou Charlie” e lemas similares. E até chegaram ao ponto de colorir seus avatares no Facebook e outras redes sociais com as cores da bandeira da França após o incidente da boate Le Bataclan. E hoje, os espectadores da farsa repetem o mesmo padrão de comportamento, com alguns dizendo “Hamas é terrorista”, “eu sou Israel” e lemas similares, e ainda por cima com alguns deles colorindo seus avatares em redes sociais com as cores da bandeira de Israel. E algumas pessoas até destilando islamofobia barata e cretina visando se promover e gerar engajamento, vendo o público que tem.

Há outro ditado que diz que a vida imita a arte. Tudo isso me faz lembrar alguns personagens do mundo dos animes, mangás e seriados tokusatsu, que também são cobras criadas que em determinado momento de suas trajetórias se voltaram contra seus antigos mestres e passaram a causar dores de cabeça aos mesmos.

Um deles é Šinobu Sensui, o vilão principal do segundo arco do anime e mangá Yu Yu Hakušo, de Yošihiro Togaši, anime que fez considerável sucesso no Brasil nos anos 1990 e 2000, quando foi veiculado primeiro pela Rede Manchete em 1997 e depois pelo Cartoon Network, em 2004. Posteriormente, teve seu mangá publicado pela editora JBC.

Foto – Šinobu Sensui (vulgo Anjo Negro).

Segundo a trama de Yu Yu Hakušo, Sensui foi ninguém menos que o antecessor do protagonista, Yusuke Urameši no posto de detetive espiritual.

Em seus dias de detetive espiritual, Sensui tinha a alcunha de “O Anjo Negro”, dado que ele era considerado um ser puro e sem pecados. Além disso, ele tinha um senso de justiça inflexível e um ódio absurdo em relação ao mal. Em especial, Sensui abominava os youkais que durante a juventude dele lhe causaram grandes problemas. Ele os eliminava em suas missões a serviço do Mundo Espiritual. Todos eles, exceto um chamado Itsuki, que por ele foi poupado e passou a ser seu companheiro de missões.

Até que certa vez, ele foi incumbido de investigar a organização Black Black Club (a mesma organização que no primeiro arco organizou o sequestro da garota Yukina e o torneio das trevas), que pretendia abrir um túnel de ligação entre o Plano Terreno (mundo dos humanos) e o Submundo (mundo dos youkais), com a intenção de contrabandear youkais e depois prendê-los e vendê-los a preços muito altos por humanos abastados.

Após encurralar e vencer todos os inimigos da missão, Sensui deu de cara com uma cena dantesca na qual transcorria um banquete no qual seres humanos faziam toda sorte de maldades com os youkais, mostrando toda a podridão que um ser humano poderia possuir e manifestar. No fim das contas Sensui matou todos os humanos lá presentes.

Ver tal cena dantesca, uma cena que era o oposto de todos os valores que ele cultivou desde tenra idade, foi um choque para Sensui, um verdadeiro divisor de águas na vida dele. Tudo o que ele acreditava e protegia, no fim das contas, era uma farsa.

A partir de então ele, de possa da fita Capítulo Negro, passou a sentir que a existência dos seres humanos era um mal a ser extirpado. Após desaparecer, Sensui, ironicamente, passou a planejar a extinção da humanidade por meio da abertura de um grande buraco negro que permitiria que milhares de youkais entrassem no plano terreno e promovessem uma grande carnificina de seres humanos.

Para poder deter Sensui, o mesmo Sensui que um dia esteve a serviço do Mundo Espiritual, Koenma chama ninguém menos que o sucessor de Sensui no posto de detetive espiritual, Yusuke Urameši e seus amigos. E o resto é história.

Outra dessas cobras criadas do mundo dos animes e mangás é o antagonista-mor do segundo arco de Samurai X (originalmente Rurouni Kenšin), Makoto Šišio.

Foto  - Makoto Šišio.

No tempo do Bakumatsu (guerra civil japonesa que teve lugar entre 1853 a 1869 entre os partidários do Xogunato Tokugawa e os monarquistas), Makoto Šišio foi um retalhador a serviço dos monarquistas. Sucedeu ao protagonista da obra, Kenšin Himura, na condição de assassino das sombras a serviço de seus superiores.

Enquanto exerceu sua função de assassino das sombras, Šišio tornou-se um homem que sabia de muitos segredos dos monarquistas, segredos comprometedores que uma vez tornados públicos deixariam seus superiores em uma posição bem delicada. Além disso, os monarquistas também notaram que Šišio era um homem sedento por poder, e para poder se livrar de um elemento incômodo montaram uma operação de queima de arquivo. Os monarquistas armaram uma tocaia para cima de Šišio, e este não apenas foi baleado, como também gasolina foi despejada sobre seu corpo.

Šišio foi queimado vivo, mas por um milagre do destino sobreviveu à tocaia. Entretanto, a um alto custo físico: por conta das sequelas advindas da tocaia a qual foi submetido, teve suas glândulas sudoríparas destruídas, o que o impossibilita de lutar por mais de 15 minutos. Além disso, passou a ter que andar enrolado por faixas que lhe dão um aspecto similar a uma múmia.

Não apenas Šišio sobreviveu como também sua sede por poder continuou intacta. O espadachim mumificado, agindo sob o lema da lei do mais forte (os fortes sobrevivem e prosperam, os fracos morrem e perecem), passou a almejar a derrubada do governo Meidži, o mesmo governo Meidži que foi constituído por aqueles que um dia o empregaram como assassino das sombras. Para isso constituiu um grupo, o Džuppongatana, que em seu apogeu chegou a dominar alguns vilarejos e povoados do interior do Japão onde a autoridade do governo não se mostrava presente.

Para poder deter Šišio, o governo Meidži, na figura do ministro do interior Tošimiči Ookubo (que anos antes foi um dos principais artificies da Restauração Meidži), resolve recorrer ao antecessor de Šišio como retalhador das sombras, Kenšin Himura, para poder detê-lo. E este vai a Kyoto para poder detê-lo, antes que o Japão venha a ser engolido por mais uma guerra civil.

E a grande ironia do destino é que o espadachim mumificado foi vencido por Kenšin e seus amigos em vida, mas virou o jogo postumamente quando o Japão, ao final do século XIX, adotou como política de Estado precisamente sua filosofia, por meio do lema “Fukoku Kyohei” (País rico, exército forte). Ou seja, o que Šišio em vida queria no fim das contas acabou conseguindo postumamente, sem precisar derrubar o governo encabeçado por aqueles que um dia o empregaram e o queimaram vivo.

Outra dessas cobras criadas é Naraku (cujo nome em japonês significa abismo, inferno), o primeiro e único vilão-mor de Inuyaša, uma das principais obras da renomada mangaká japonesa Rumiko Takahaši.

Foto – Naraku.

Naraku (Narak na dublagem brasileira do anime) se originou de um bandido chamado Onigumo. Certa vez, Onigumo foi submetido a uma tocaia, queimado vivo e jogado em uma caverna para agonizar até a morte. Até que certa vez a sacerdotisa Kikyou, a protetora do artefato mágica Jóia de Quatro Almas, passou a cuidar dele, e com o tempo o imóvel e inerte Onigumo passou a nutrir sentimentos de amor em relação à sua cuidadora. Ele, após tomar conhecimento a respeito da relação de Kikyou com o meio-youkai Inuyaša, se deixou ser devorado por centenas de youkais e dessa fusão nasceu Naraku, que tal como Inuyaša também é um meio-youkai.

Desejoso de ver a Jóia de Quatro Almas corrompida pelo mal, uma das primeiras coisas que Naraku faz após a transformação é armar uma tocaia para cima de Kikyou passando-se por ninguém menos que Inuyaša. Como resultado Kikyou ficou gravemente ferida no ombro direito. Em seguida ele, se passando pela sacerdotisa, devolve a jóia ao vilarejo e ataca Inuyaša. Uma saraivada de flechas é jogada contra o meio-youkai de cabelos prateados. Kikyou se depara com Inuyaša fugindo com a Jóia de quatro almas, pensando que ele sempre a enganou e o lacra em uma árvore com uma flecha de selamento. Logo em seguida Kikyou morre e é cremada junto com a Jóia mágica. Ao passo que Inuyaša fica nessa situação por meio século, até que uma garota vinda do futuro, Kagome Higuraši, ninguém menos que a reencarnação futura de Kikyou, liberta Inuyaša de seu lacre. E o resto é história.

Por fim, falemos sobre um personagem dos seriados tokusatsu que fizeram muito sucesso no Brasil no final dos anos 1980 e primeira metade dos anos 1990, quando tais seriados foram veiculados por emissoras como a finada Manchete e em menor medida por outras emissoras como a Bandeirantes, a Globo e a Record.

Talvez o personagem desses seriados que melhor se encaixa no quesito cobra criada que se levanta contra seus criadores é Ley Barak, que aparece nos episódios 17 a 19 de Flashman, o seriado Super Sentai do ano de 1986.

Foto – Ley Barak.

Barak foi criado pelo Doutor Keflen por meio do sintetizador biomolecular do geneticista do Cruzador Imperial Mess. Certa vez, por volta de 1886, Barak enfrentou Deus Titan (Hero Titan no original), o herói do Planeta Flash, e este não apenas o venceu em combate, como também o poupou. Mess então arma uma tocaia para matar os dois, e Deus Titan, debilitado por conta do efeito Flash Negativo e à beira da morte, o encarregou de entregar o Titan Flash aos heróis terrenos vindouros que, segundo a profecia de Deus Titan, haveriam de enfrentar o Cruzador Imperial Mess. Esses guerreiros são os Flashman. Quinteto de heróis coloridos de origem terrena que foram raptados por Kaura e seu bando ainda pequenos, mas que por milagre do destino foram salvos pelo povo do Planeta Flash.

Um século após a morte de Deus Titan, os Flashman tiveram seu primeiro robô, o Flash King, destruído em combate contra a dupla de monstros Za Skonder. Graças à intervenção de Barak, os heróis ganharam um segundo robô, o Titan Júnior. Barak também tinha outro segredo a contar aos heróis coloridos, o que não foi possível devido à sua morte decorrente dos graves ferimentos que o caçador Kaura lhe infligiu por meio de seu chicote elétrico.

Resumindo a ópera: cobras são criadas, e em determinado momento começam a causar problemas até mesmo àqueles que as criaram no passado. As pessoas ficam horrorizadas quando estas mesmas cobras começam a destilar o veneno e a picar terceiros e até mesmo aqueles que a criaram, sem se dar conta e nem ao menos se perguntar de que ovo elas vieram e quem chocou o ovo de onde elas vieram. Assim o foi com a Al Qaeda, com o Taliban, o Hamas, o Boko Haram, o Estado Islâmico, e talvez assim também o seja com as próximas bolas da vez. É um grande círculo vicioso que vem se repetindo ao longo do tempo, e que certas narrativas que não apenas os grandes meios de comunicação, como também muitos dos comunicadores da direita neocon brasileira em plataformas de vídeo e redes sociais ajudam a perpetuar.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Freeza e Rei Vegeta, parte IX

 

Foto – Freeza e Rei Vegeta III (episódio 78 de Dragon Ball Z).

E com vocês, depois de um grande hiato, trago a nona parte da série de artigos Freeza e Rei Vegeta, iniciada no ano retrasado. Só que dessa vez, ao invés de tratar sobre questões relativas aos povos indígenas das Américas como nos artigos anteriores, no presente artigo irei falar a respeito da escalada de tensões no Oriente Médio entre Israel e Palestina. Um problema que se arrasta desde a criação do Estado de Israel, em 1948, e a nakba (tragédia) da população palestina que fez com que muitos árabes palestinos fossem expulsos de suas terras e deslocados para países vizinhos como Síria, Egito, Jordânia e Líbano.

Nos últimos dias, a situação na Palestina vem passando por uma escalada de tensões por conta de ataques do grupo Hamas à Israel no dia sete de outubro do presente ano. Como não poderia deixar de ser, esse ataque ensejou uma declaração de guerra da parte do premiê de Israel, Benjamin Netanyahu.

Ao que tudo indica, trata-se de uma operação de false flag da parte dos israelenses, talvez até uma armadilha preparada pela própria inteligência israelense na qual os atacantes no fim das contas ajudaram a armar a arapuca que depois será usada para apanhá-los. Um ataque do qual até se tinha conhecimento prévio e do qual nada foi feito para impedi-lo, com vistas a eventuais ganhos e dividendos da parte de Netanyahu e as forças políticas a ele ligadas com vistas a justificar, por exemplo, anexações de mais territórios por parte de Israel e estabelecimentos de colônias judaicas em terras palestinas. Tudo o que ele precisava para sair do lamaçal no qual se debatia e posar perante a população como o salvador da pátria. Mas este não é o ponto sobre o qual pretendo discorrer no presente artigo.

O que mais me chama a atenção a respeito de toda a repercussão do recente ocorrido no Oriente Médio é a maneira como muitas pessoas olham a questão do terrorismo, quando chamam grupos como o Hamas e outros afins de terroristas. Em especial os grupos e políticos da direita neocon brasileira, os quais se aproveitaram da situação para querer vincular Lula ao Hamas, principalmente depois que o petista se manifestou a respeito dos ataques com as seguintes palavras: “Fiquei chocado com os ataques terroristas realizados hoje contra civis em Israel, que causaram numerosas vítimas. Ao expressar minhas condolências aos familiares das vítimas, reafirmo meu repúdio ao terrorismo em qualquer de suas formas”, ele disse. Lula também endossou que para a solução do conflito deve ser buscada uma solução na qual “garanta a existência de um Estado Palestino economicamente viável, convivendo pacificamente com Israel dentro de fronteiras seguras para ambos os lados”.

Entre esses políticos, Eduardo Bolsonaro, o 03 (vulgo Dudu Bananinha), lembrou o fato de que o Hamas felicitou Lula pela vitória nas eleições presidencial do ano passado. Sendo que o político pernambucano também recebeu felicitações de muitos outros políticos e chefes de Estado, entre eles o francês Emmanuel Macron, a italiana Giorgia Meloni, o inglês Riši Sunak, o alemão Olaf Scholtz, o estadunidense Joe Biden, o russo Vladimir Putin, o ucraniano Volodymyr Zelenskij, o português Antônio Costa, o canadense Justin Trudeau, o mexicano Andrés Manuel Lopes Obrador, o húngaro Viktor Órban, o chinês Xi Jinping, entre tantos outros.

Também é digno de nota o bate-boca recente entre Lindbergh Farias (PT – RJ) e Carla Zambelli (PL – SP), na qual a antiga membra do Femen acusa o petista de não responder se o Hamas é ou não é terrorista e de complacência de setores da esquerda brasileiro com o terrorismo de grupos islâmicos como o Hamas.

Nikolas Ferreira também postou vídeo sobre os últimos ocorridos, no qual do alto da demagogia tão típica de elementos como ele acusa a esquerda brasileira como um todo de ser cúmplice do terrorismo do Hamas.

E de cereja do bolo, o pronunciamento do ex-presidente Bolsonaro em marcha contra o aborto em Belo Horizonte, com as seguintes palavras: “Quando se fala de terroristas, nós nos lembramos do que aconteceu no dia de ontem em Israel. Lá sim, não aconteceu uma tentativa de golpe de Estado, mas um ataque terrorista patrocinado pelo Hamas, que são aliados do PT e de Lula aqui no Brasil”. No X (antigo Twitter), o ex-presidente também se lembrou dos elogios do Hamas a Lula após a vitória dele no pleito eleitoral do ano passado ser anunciada.

Pelo que eu estou vendo, esse pessoal da direita que tanto fala em terrorismo do Hamas e palavras de ordens afins não sabe que antes da criação do Estado de Israel em 1948 os sionistas também se organizaram em grupos de guerrilha e luta armada tais como o Haganah, o Irgun, o Palmach, o Lehi (grupo esse que chegou a propor uma aliança militar com o Terceiro Reich) e o Stern. Em outras palavras, Israel é um Estado que foi fundado sob o signo do terrorismo.

Um dos poucos que vi falar sobre os dias de terroristas dos sionistas foi o dono da página História Islâmica, Mansur Peixoto. O qual postou a seguinte mensagem na comunidade de sua página no You Tube:

“Quem introduziu e disseminou no Oriente Médio o conceito da guerra urbana via atentados terroristas e mesmo grupos terroristas foi a própria vanguarda sionista. Organizações terroristas sionistas como o Irgun, Lehi, Haganah e o Palmach, visando pressionar as autoridades britânicas para que não mediassem mais a vinda de imigrantes judeus europeus, bem como para aterrorizar árabes palestinos a fugirem, fizeram dezenas de atentados e massacres em todo território do Mandato Britânico da Palestina após a tomada do território otomano na Primeira Guerra Mundial, atiçando ainda mais a revolta árabe com a crescente presença sionista na região. Inúmeros soldados e oficiais britânicos, membros das Nações Unidas, combatentes e civis árabes foram vítimas dessas ações terroristas sanguinárias.

Após a criação do Estado de Israel em 1948, diversas lideranças desses grupos terroristas passaram a formar a chefia do governo israelense, podendo agora dar continuidade aos massacres de árabes e tomada de território palestino sem a condenação pública por terrorismo, já que este fora transferido para a autoridade estatal sionista, reconhecida e apoiada internacionalmente, e claro, sob o pretexto de combater o Hamas (grupo militante originalmente criado por Israel para minar o poder de Yasser Arafat, e terem uma justificativa para continuas ''retaliações'' coordenadas). Talvez o exemplo mais famoso desta transformação de "terroristas em políticos oficiais'' seja o caso de Ytzhak Shamir, antigo líder do grupo Lehí, responsável não só pela morte de centenas de árabes em ataques terroristas, como também de membros da ONU, que após a criação do Estado de Israel se tornou Primeiro Ministro”.

Foto – Em cima: treinamento de radicais do grupo Irgun em 1947 (esquerda), escombros do Hotel King David após o atentado que ceifou a vida de 91 pessoas em 1946 (direita). Abaixo: oficiais britânicos enforcados por militantes do Irgun. Créditos: Comunidade da Página História Islâmica no You Tube.

E o que eu quero é aqui é isso, lembrar às pessoas que os sionistas que hoje se queixam do terrorismo do Hamas também tiveram os dias de terroristas deles.

Em 2018 postei aqui mesmo alguns textos que eu mesmo traduzi do inglês e do espanhol a respeito desse assunto, textos não apenas sobre o passado dos sionistas e das primeiras lideranças do Estado de Israel como membros de grupos terroristas paramilitares, como também sobre o histórico de conchavos e colaboração dos sionistas desde os tempos de Theodor Herzl com a fina flor do antissemitismo europeu. Do caso Dreyfuss na França e dos pogroms da Rússia Imperial tardia aos nazistas (e até mesmo um pouco mais além). Textos estes publicados dentro do contexto da vitória eleitoral de Jair Bolsonaro.

Voltemos a Bolsonaro pai. Nos idos de 2009 e 2010, Jair Messias Bolsonaro (PP-RJ), então o deputado federal do baixo clero que ele durante muito tempo foi, disse em pronunciamentos que Dilma Rousseff, à época candidata petista para a Presidência da República, não poderia se tornar Presidente da República por conta do passado dela como membra de grupos de guerrilha e luta armada no período do regime civil-militar brasileiro (1964 – 1985), entre eles o Colina e o VAR-Palmares. Até chegou a fazer uma leitura da ficha corrida dela em um desses pronunciamentos. 

Uma ficha que inclui atos tais como o assalto à residência de Adhemar de Barros (então governador de São Paulo) e assassinatos em decorrência de ações armadas como o do oficial do exército brasileiro Mário Kozel Filho e o do capitão norte-americano Charles Rodney Chandler, ambos ocorridos em 1968.

Não só ela, como também muitos outros futuros membros do Partido dos Trabalhadores participaram de tais grupos à época, entre eles José Dirceu, Franklin Martins, Carlos Minc, Diógenes de Oliveira e José Genoíno, e até fizeram treinamento de guerrilha em Cuba. Grupos esses que estiveram envolvidos em sequestros de embaixadores, assassinatos de militares estrangeiros (como foi o caso do major alemão Edward von Westernhagen, assassinado em 1968 pelo grupo COLINA depois de ter sido confundido com Gary Prado, o responsável pela captura e morte de Che Guevara na Bolívia um ano antes), assaltos a bancos para financiar grupos armados e outros. Além de terem participado de episódios como a Guerrilha do Araguaia.

Nessa mesma época, Bolsonaro também se posicionou a favor da extradição (a qual veio a se concretizar anos mais tarde, em 2019) de Cesare Battisti, membro do grupo armado italiano PAC (Proletários Armados pelo Comunismo) nos anos 1970 que depois de passagens pela França e pelo México recebeu asilo político no Brasil em 2009 por decisão do então ministro da justiça Tarso Genro, de volta à Itália com uma retórica bem similar, batendo na tecla do passado dele nos anos de chumbo da história da Itália (nos quais também atuavam grupos de extrema direita egressos do fascismo tais como o Terza Posizione, o Ordine Nuovo e a Vanguarda Nacional) e os quatro crimes imputados a ele (os quais ele veio a admitir depois de ser enfim preso e extraditado).

Como nós sabemos muito bem, Bolsonaro é um notório apoiador do Estado de Israel, e no tempo de baixo clero dele periodicamente tecia críticas à política externa dos governos petistas por conta dos relacionamentos destes com países como Cuba, Venezuela, Bolívia, Líbia, Irã e outros (sendo que nos governos petistas o Brasil nunca deixou de se relacionar com as democracias ocidentais, como os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, a Alemanha e outras. E que estas nunca tiveram o menor pudor em se relacionar com as mais abjetas ditaduras e regimes repressivos mundo afora, tais como o Zaire de Mobutu, o Haiti da Dinastia Duvalier, as Filipinas de Ferdinando Marcos, a África do Sul no tempo do apartheid e o Irã do xá Reza Pahlevi). Há uma foto de dois dos filhos dele, Carlos e Eduardo (vulgo 02 e 03), andando pelas ruas de Jerusalém com camisas do Mossad e da IDF.

Foto – 02 e 03 nas ruas de Jerusalém com camisas do Mossad e da IDF.

Depois que Dilma tornou-se Presidente da República, em 2014 a política gaúcha condenou as ações de Israel na Faixa de Gaza após mais uma crise na conturbada região, lá estava Jair Messias Bolsonaro para escrever e enviar uma nota para o então embaixador de Israel no Brasil em 25 de julho do mesmo ano. Na nota em questão, Bolsonaro prestou solidariedade e apoio moral a Israel e comparou a luta que Israel vem travando com o Hamas (grupo esse que na verdade foi uma criação do próprio Estado de Israel, como forma de criar uma oposição controlada pelo sistema e ao mesmo tempo criar dentro dos palestinos um contraponto a Yasser Arafat – uma estratégia similar a que a ditadura civil-militar brasileira, na figura do general Golbery do Couto e Silva, teria usado em seu ocaso para conter Brizola dentro da esquerda ao promover e criar a figura de Lula) com a luta que o regime civil-militar em seu apogeu travou contra grupos guerrilheiros de esquerda. E pede desculpas ao povo israelense por aquilo que classificou como “manifestação destrambelhada, inoportuna, hipócrita e covarde manifestação do Governo Brasileiro”.

Foto – Carta de Bolsonaro ao então embaixador de Israel. 25 de julho de 2014.

Ainda em 2014, mais precisamente em 15 de julho, Bolsonaro teve um breve bate-boca com a deputada Jandira Feghali (PCdoB – RJ) a respeito da questão Israel x Palestina. A esquerdista manifestou-se contrária às políticas de Israel, ao lado de outros deputados com pequenos cartazes escritos “Palestina Livre”, quando eis que foi cortada por Jair Bolsonaro com gritos de ordem como “abaixo o terrorismo na Palestina” e “chega de terrorismo”.

Dois anos depois disso, o mesmo Bolsonaro dedicou seu voto favorável ao impeachment de Dilma em memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da ditadura civil-militar finado um ano antes disso. Também em 2016 Bolsonaro foi batizado pelo Pastor Everaldo no Rio Jordão, quando o processo de impeachment de Dilma ainda corria no senado.

E o mais curioso de todo é que o mesmo Bolsonaro não aplica essa mesma lógica para com os primeiros líderes de Israel. Pois pela lógica que Bolsonaro aplicou para com Dilma antes da petista tornar-se Presidente da República, figuras como Menachem Begin, Ariel Šaron e Itzhak Šamir, os quais foram membros de grupos como o Lehi e o Irgun, também não deveriam ter sido premiês de Israel (sendo que aquilo que Mansur Peixoto classifica como “transformação de terroristas em políticos oficiais” em Israel se deu inclusive antes mesmo da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1979). Dois e pesos e duas medidas? Cherry picking? Ou será que no fundo toda essa verborragia da parte de Bolsonaro e companhia limitada esconde o fato de que eles na verdade têm os terroristas de estimação deles? Em outras palavras, aqueles que, na visão deles, são os terroristas do bem. Os terroristas que, ao que tudo indica, não vêm ao caso para eles.

Que fique bem claro uma coisa: ao falar sobre os dias de terroristas dos sionistas não estou aqui para justificar nada do que o Hamas faz ou deixa de fazer. Atentados, matanças, nada disso. Não é esse o meu propósito, passa bem longe disso. E sim mostrar a hipocrisia (com uma pitada de cherry picking) da direita neocon brasileira (em especial Bolsonaro e seu clã mafioso) na questão do terrorismo. Por que eles se mostram uns leões quando falam não apenas do Hamas e do Hezbollah, como também dos grupos de luta armada no tempo da ditadura civil-militar brasileira como os já citados Colina e VAR-Palmares, do Cesare Battisti (hoje preso na Sardenha) e sua participação no PAC durante os anos de chumbo da Itália, do alemão Baader-Meinhof, das Farc na Colômbia, do Exército Zapatista de Libertação Nacional no México e outros similares, mas ao mesmo tempo se calam não só sobre Irgun, Stern, Haganah, Palmach e Lehi na Palestina sob o mandato colonial britânico, como também sobre Patria y Libertad no Chile durante o governo Allende (1970 – 1973), Triple A na Argentina pré-golpe de 1976, os grupos de extrema direita atuantes na Itália e na Alemanha nos anos 1970 e 1980, Batalhão Azov e Setor de Direita (cuja bandeira apareceu em manifestações pró-Bolsonaro no Brasil) na Ucrânia atual, os perpetradores do fracassado atentado do Riocentro em 1981 (um dos muitos episódios de terrorismo de extrema direita no Brasil entre 1964 a 1985), entre tantos outros que podem ser listados.

Aliás, o próprio Bolsonaro, à época paraquedista do Exército, chegou a elaborar um plano para explodir bombas-relógio em unidades militares do Rio de Janeiro em reinvindicação por melhores salários para sua tropa. Ele até enviou uma cópia do plano do atentado à revista Veja um ano depois à revelia de seus superiores (letra essa que segundo laudo da Polícia Federal é do próprio Bolsonaro). Por conta disso foi afastado e exonerado do Exército. Em decorrência dessa brincadeira, Bolsonaro foi preso por 15 dias.

Foto – Cereja do bolo: o plano do atentado de 1986, segundo a revista Veja.

Fontes:

Bolsonaro diz que Hamas é aliado de Lula e do PT. Disponível em: Bolsonaro e mídia ligam Lula e PT ao Hamas - Eduardo Guimarães - Brasil 247

Bolsonaro e mídia ligam o PT ao Hamas. Disponível em: Bolsonaro e mídia ligam Lula e PT ao Hamas - Eduardo Guimarães - Brasil 247

Bolsonaro foi preso por 15 dias na década de 1980 após artigo para Veja. Disponível em: Bolsonaro já foi preso; entenda o motivo (uol.com.br)

Líderes internacionais dão parabéns a Lula por vitória na eleição. Disponível em: Líderes internacionais dão parabéns a Lula por vitória na eleição (poder360.com.br)