quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O que era o Irã antes da revolução de 1979? (parte 2)

 

Foto – Bandeira da República Islâmica do Irã (imagem ilustrativa).

E agora, trago aqui um texto que eu mesmo encontrei no grupo do Facebook “Em defesa da República Islâmica do Irã”, de autoria de Rhainer Fernandes, sobre a hipocrisia de certos elementos da direita brasileira em torno do Irã (e por tabela também da Venezuela, da Coréia do Norte e tantos outros países). E mais comentários meus:

“O conservador liberal adora apontar o dedo para o Irã chamando-o de ‘ditadura islâmica’, como se estivesse fazendo uma defesa moral da civilização. Mas essa indignação acaba exatamente onde começa o alinhamento geopolítico com os EUA, porque a moral dele tem fronteira, tem aliado e conveniência.

O Irã é condenado não porque aplica leis religiosas, mas porque não é submisso. Porque não aceita ser americanizado. Porque insiste em ter um projeto próprio de Estado, mesmo que isso desagrade ao Ocidente. Já as verdadeiras ditaduras islâmicas, aquelas onde o salafismo é religião oficial e base jurídica do Estado, passam ilesas pelo radar moral do conservador liberal. Arábia Saudita e Catar não incomodam. Pelo contrário, são tratados como parceiros estratégicos. E isso é curioso, porque as leis nesses países são objetivamente mais rigorosas do que no Irã.

Na Arábia Saudita não existem eleições nacionais. Partidos políticos são proibidos; a tutela masculina sobre mulheres é ilimitada; a liberdade religiosa é praticamente inexistente fora do salafismo; execuções públicas continuam sendo prática do Estado; a sharia salafista é aplicada de forma literal, sem espaço para pluralismo interno.

No Catar, a conversão religiosa é criminalizada; a liberdade de expressão é severamente limitada; trabalhadores estrangeiros vivem sob regimes de exploração; a legislação moral é rígida e controlada diretamente pelo Estado.

Ainda assim, nenhum desses países desperta a fúria moral do conservador liberal. Nenhum vira símbolo do ‘atraso islâmico’. Nenhum vira alvo de campanhas por ‘libertação do povo’.

Isso acontece porque o conservador liberal não defende valores conservadores. Ele defende alinhamento geopolítico. Ele não julga regimes pelo que fazem internamente, mas por quem obedecem externamente. Se é aliado dos EUA, a ditadura vira ‘complexa’. Se é adversário, vira ‘tirania’.

Esse mesmo conservador, que vive discursando contra o progressismo e o wokismo, vira subitamente defensor dos direitos humanos quando países como Irã ou China aplicam leis de defesa moral ou civilizacional. Aí ele reproduz a linguagem da ONU, das ONGs e do globalismo. Ele só é conservador enquanto isso não entra em conflito com a hegemonia ocidental.

Valores, para ele, só são aceitáveis se forem homologados por Washington. Se os EUA fazem, é ‘liberdade’. Se um país soberano faz, é ‘opressão’.

O curioso é que os próprios EUA não são exemplos de moralidade pública, nem de coesão social, nem de defesa da família ou da tradição. Ainda assim, o conservador liberal aceita esse modelo como padrão civilizacional.

A hipocrisia atinge o auge quando esse mesmo personagem defende a derrubada do regime iraniano para resgatar o modelo do Xá Reza Pahlavi, ou melhor, do seu herdeiro. Um período marcado por submissão total ao Ocidente, drogas liberadas em festas elitizadas, bairros de prostituição institucionalizados e alienação cultural inspirada na libertinagem do Ocidente. Ou seja, ele quer restaurar um passado que jamais foi conservador, mas que servia bem aos interesses externos culturalmente libertinos.

O conservador liberal não é contra ditaduras. Se fosse, pediria intervenção nas monarquias salafistas do Golfo. Ele é contra regimes contra-hegemônicos. Contra qualquer povo que se recuse a aceitar o liberalismo, não apenas como economia, mas como filosofia de vida obrigatória.

Ele é conservador no discurso, liberal na submissão e progressista na repressão, desde que o alvo seja alguém resistindo à ordem liberal global. Por isso, o conservador liberal não é apenas contraditório, ele é uma piada, uma anomalia do próprio liberalismo.

Abaixo, fotos do bairro da luz vermelha, em Teerã nos anos 70, onde a prostituição era legalizada e o consumo de drogas era liberado em clubes noturnos antes da Revolução Islâmica”.








MEUS COMENTÁRIOS

Esse é um texto bem interessante, que mata a charada sobre a postura hipócrita desse pessoal da direita neocon (simpática aos EUA e Israel, em especial quando estes países são governados por políticos do Partido Republicano e do Likud, respectivamente) a respeito não só do Irã, como também de outros países como a Venezuela, Cuba, Coréia do Norte e outros tantos.

E o mais curioso de tudo é o ponto de convergência entre os esquerda e direita a despeito de discordâncias aqui e ali: se a esquerda alinhada com o Partido Democrata (representada no Brasil por partidos como o PSOL e o PT) acha lindo em nome da agenda político-ideológica deles quando países contra-hegemônicos são invadidos e bombardeados pelo Ocidente “livre e democrático” e em situações de revolução colorida gritam “fora Maduro”, “Assad tem que cair” e mantras afins quando determinado regime se fecha por uma questão de sobrevivência, a direita neocon (representada no Brasil por figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro) também pensa o mesmo em nome da agenda político-ideológica deles. Nisso, os dois blocos políticos hoje hegemônicos no Brasil, que fazem da política brasileira hodierna um puxadinho da política estadunidense, no essencial estão de acordo. Eles se completam um ao outro e formam uma unidade contraditória. O yin e o yang, o alfa e o ômega, Kami Sama e Piccolo Daimaō. As duas faces do deus Janus contrapostas entre si, no fim das contas.

Foto – as duas faces de Janus: diagrama de Venn sobre as convergências e divergências entre democratas e os republicanos nos EUA. No essencial, os dois bandos estão de acordo.

Para esses caras, como é dito no texto acima, o que importa é alinhamento com Estados Unidos e Israel e nada mais. O que é feito dentro de cada um por seus respectivos regimes, não importa. E, parafraseando o saudoso Paulo Henrique Amorim (que Deus o tenha), as ditaduras salafistas do Golfo Pérsico não vem ao caso para esses caras. Afinal, os monarcas desses países são amiguinhos de EUA e Israel. Assim como eram, por exemplo, os presidentes da Venezuela na época da República de Punto Fijo da qual eles também demonstram saudosismo, a ponto de achar que a nação caribenha vinha bem naquela época. Até mesmo a Cuba de antes da revolução de 1959 eles idealizam.

Em 1990, foi lançado nos Estados Unidos pela Eclipses Enterprise uma coleção de cartas chamada “Friendly Dictators”. Com ilustrações de Bill Sienkiewicz, o jogo contem 36 cartas ao todo, sendo uma carta de apresentação do jogo e mais 35 apresentando diversos ditadores que foram amigos dos Estados Unidos da América (tanto com republicanos quanto com democratas na presidência da república), de diversas partes do globo. E entre esses ditadores, o xá Reza Pahlevi.

No jogo em questão, Reza Pahlevi aparece junto de nomes como o imperador etíope Haile Selassie (o mesmo que era cultuado como se fosse uma espécie de divindade messiânica pelo movimento rastafari, ao qual Bob Marley dedicou em 1976 a música “Jah Live”), o boliviano Hugo Banzer, o alemão Adolf Hitler (por conta dos negócios de companhias americanas com os nazistas tanto antes quanto durante a guerra), os haitianos Papa Doc e Baby Doc, o zairense Mobutu Sese Seko, o chileno Augusto Pinochet, o cubano Fulgencio Batista, o argentino Jorge Videla, o brasileiro Humberto Castelo Branco, o espanhol Francisco Franco, o dominicano Rafael Trujillo, entre muitos outros.

Aliás, falando em Haile Selassie, vale lembrar que o último imperador etíope marcou presença na festa de 2500 anos de fundação do Império Persa, organizada pelo próprio xá Reza Pahlevi nas ruínas de Persépolis, a capital do Império Persa no período Aquemênida. E que Selassie foi deposto antes mesmo do xá, em 1974. Dessa forma, podemos dizer que a festa de 2500 anos de fundação do Império Persa foi a festa de despedida de coroa não apenas de uma, mas de duas monarquias: a etíope e a iraniana, ambas derrubadas por processos revolucionários nos anos 1970.

Segundo o jogo de cartas colecionáveis em questão, o xá Reza Pahlevi é apresentado da seguinte forma (tradução feita por mim):

“Mohammad Reza Pahlevi

Xá do Irã, Rei dos Reis

1953 foi um ano agitado para Allen Dulles. Mesmo enquanto ele preparava a CIA para um golpe na Guatemala (veja carta 9), seus agentes estavam derrubando o governo liberal-esquerdista de Dr. Mohammad Mossadeq e pavimentando o caminho para o xá do Irã. Com o incentivo de Dulles, o xá fez ao povo iraniano uma oferta que eles não podiam recusar – aderir a sua causa ou ir à cadeia. Milhares que se recusaram a ceder foram presos ou assassinados. Durante as eleições regionais em 1954, os agentes do xá atacaram uma escola religiosa e atiraram centenas de estudantes para a morte do telhado. Seu regime recebeu 100% da votação naquele ano, em uma eleição na qual foram registrados mais votos que votantes.

A subsequente consolidação do poder do xá levou a um governo de punho de ferro imposto por medo e tortura. Sua agência de polícia secreta, a SAVAK, foi criada em 1957 e operado pela CIA em todos os níveis de operação diária, incluindo a escolha e organização de pessoal, seleção e operação de equipamento, e gerenciamento de agentes. Os métodos de tortura da SAVAK incluíam choques elétricos, açoitamento, espancamentos, inserção de vidro quebrado e despejo de água fervente no reto, amarração de pesos aos testículos, e a extração de dentes e unhas.

O Irã sob o xá virou um aliado devoto dos EUA e uma base de operações de espionagem na fronteira com a União Soviética. Mas eventualmente o xá foi deposto em 1978 por uma revolução popular autóctone que se manteve no poder até que o líder religioso fundamentalista aiatolá Khomeini voltou ao Irã do exílio e reafirmou seu poder durante a crise dos reféns americanos de 1979”.

E, diga-se de passagem, essa prática dos “ditadores amigos” não é exclusividade dos Estados Unidos. Outros países do Ocidente tão “livre e democrático” como a Inglaterra, a França e Israel também tem suas relações espúrias com seus ditadores amigos. Vide as relações da França com ditaduras em suas ex-colônias na África (como com a dinastia Bongo no Gabão, Paul Biya em Camarões e Blaise Campaoré em Burkina Fasso), ou de Israel com o próprio Irã na época do xá e com a África do Sul na época do apartheid.

Algo digno de nota é a carta de desculpas de Jair Bolsonaro ao embaixador de Israel no Brasil em 2014, depois que Dilma condenou as ações de Israel na Faixa de Gaza.

Foto – A carta de desculpas de Bolsonaro ao embaixador de Israel, datada de 25 de julho de 2014.

Vejam que interessante e até irônico. Nessa carta, Bolsonaro, à época deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, condena no penúltimo parágrafo as relações do Brasil durante as administrações petistas com países como Coréia do Norte, Irã, Cuba, Líbia, Venezuela, Bolívia, China, Rússia, Síria, Zimbábue e Belarus, ao embaixador de um país que era aliado da África do Sul no tempo do apartheid, do Irã na época do xá Reza Pahlevi (e sem contar que na guerra Irã-Iraque Israel apoiou o Irã por meio do esquema Irã-Contras, quando a nação persa já era governado pela atual república islâmica), da Nicarágua na época da dinastia Somoza, regimes cívico-militares na América Latina, entre outros. Ou seja, Israel também tem seu histórico de ditadores amigos pelo mundo. Paradoxal, não?


E nem vou entrar no mérito da questão do terrorismo, sobre a qual abordei em textos anteriores. Como se vê, coerência não é o forte dessa gente.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O que era o Irã antes da Revolução de 1979?

 

Foto – aiatolá Ali Khamenei.

Recentemente, o Irã foi sacudido por protestos em várias partes do país, objetivando a derrubada do regime vigente por lá desde 1979, data da revolução islâmica que derrubou o regime do xá Reza Pahlevi. E o apoio do Ocidente “livre e democrático” aos mesmos é bem evidente.

Não vou entrar no mérito das motivações iniciais dos protestos, nem da evolução ulterior deles. Mas o fato é que, nesse ínterim, andei vendo umas coisas bem, digamos, bizarros no feed de notícias da minha conta no Facebook (o qual parece apoiar uma mudança de regime no Irã favorável ao Ocidente “livre e democrático”) e no You Tube. Como não poderia deixar de ser, elementos ligados à direita, do alto da tacanhice e estupidez bem típica deles, apoiam o motim colorido em curso no Irã. Também tive o desprezar de ver postagens de André Lajst, embaixador do exército israelense no Brasil, apoiando a queda do regime iraniano e lembrando da amizade que outrora havia entre Irã e Israel na época do xá.

Como também vi alguns esquisitões monarquistas, entre eles o Luiz Phillipe de Orleans e Bragança (herdeiro da família real brasileira e deputado federal pelo Partido Liberal; vulgo príncipe sem reino), defendendo a queda do regime iraniano (como também a do regime bolivariano na Venezuela). Em outros textos, este figurão adota um discurso de matiz neocon claramente de ódio para o Islã. De tal forma que se Dom Pedro II os lesse, teria vergonha de seu descendente. O mesmo Dom Pedro II que visitou o Egito, a Palestina, a Síria e o Líbano (à época partes do Império Otomano) em 1871 e 1876-77, era fluente em árabe, abriu as portas do Brasil à imigração de origem árabe e até traduziu para o português o clássico da literatura árabe “As mil e uma noites”.

Tais partidários da monarquia, obviamente, advogam para o Irã a volta da monarquia e da dinastia que lá reinava até 1979, os Pahlevi, sob a alegação de que a derrubada do poder deles não tirou a legitimidade do trono deles. Já que eles acham que o Irã com os Pahlevi no poder era uma maravilha, gostaria de lembrar neste texto a essas pessoas o que era Irã na época do xá. Assim como eu fiz no texto passado em relação àqueles que acham que a Venezuela da Quarta República (1958 – 1999) era uma maravilha, entre eles o Marcelo Andrade.

A história começa no ano de 1951. Naquele mesmo ano, Mohammad Mossadegh é designado como Primeiro-Ministro do Irã, e uma vez Primeiro-Ministro ele, entre outras coisas, nacionaliza no dia 15 de março (data essa que após a revolução de 1979 foi transformada em feriado nacional no Irã) daquele ano com aprovação do parlamento iraniano a produção de petróleo iraniano, à época explorado por companhias estrangeiras, em especial inglesas e norte-americanas. A companhia Anglo-Iranian Oil Company (posteriormente rebatizada de British Petroleum), é extinta e a exploração de petróleo passa para as mãos do Estado iraniano.

Isso levou a um conflito inexorável com o Reino Unido e os Estados Unidos. Mossadegh despediu todos os especialistas e conselheiros ingleses, e em outubro de 1952 rompeu relações diplomáticas com o Reino Unido. Em resposta, EUA e Reino Unido declararam boicote ao petróleo iraniano e começaram a preparar um golpe de Estado no Irã.

A Operação Ajax, encabeçada pela CIA, é iniciada com vistas à deposição de Mossadegh. No Irã, monumentos ao xá (àquela altura rompido com Mossadegh) foram derrubados e este fugiu para Bagdá e em seguida para Roma. Ao fim, Mossadegh foi deposto em 19 de agosto e em seu lugar entra o general Fazlollah Zahedi, que cancelou as reformas de Mossadegh e devolveu as concessões de exploração de petróleo às companhias inglesas e estadunidenses e restabeleceu relações diplomáticas com os dois países.

Mossadegh, por seu turno, ao ser deposto foi também condenado por traição estatal e sentenciado a três anos de prisão. Passou seus últimos anos de vida em prisão domiciliar até falecer no dia 5 de março de 1967, em Ahmedabad (cidade próxima a Teerã).

Foto – Mohammed Mossadegh (1882 – 1967).

Uma vez deposto Mossadegh, o xá volta ao Irã e o poder da monarquia iraniana cresce de forma exponencial. Um regime pró-Ocidente e visceralmente anti-comunista e de terror de estado é implementado no Irã, com este se tornando um dos principais aliados de EUA e Inglaterra na região da Ásia Ocidental.

Aliás, é bem interessante notar que certos elementos da direita brasileira (que tendem a apoiar os Estados Unidos e Israel, em especial quando ambos os países são governados por políticos do Partido Republicano e do Likud) se queixam de que o atual regime iraniano é repressivo sobre opositores políticos, sendo que o regime do xá que eles querem de volta ao Irã fazia exatamente a mesmíssima coisa. Era um regime de terror de estado em nada diferente, por exemplo, das ditaduras cívico-militares no Cone Sul, do Haiti na época da dinastia Duvalier (Papa Doc e seu filho Baby Doc), da Indonésia na época de Suharto, do Zaire na época de Mobutu, da Bolívia na época de Hugo Banzer, das Filipinas na época de Ferdinando Marcos ou mesmo da Colômbia sob governos como o de Álvaro Uribe.

O seguinte texto, extraído da página do Facebook “Patria Grande Latinoamericana” e por mim traduzido do espanhol, mostra bem o que foi a SAVAK (sigla para Sāzemān-e Ettalā’āt va Amiyat-e Kešvar; em português Organização de Segurança e Inteligência Nacional), a polícia secreta do regime do xá:

“SAVAK, a brutal polícia secreta do xá com selo ocidental

A história da repressão no Irã durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlevi pode soar bastante familiar para as vítimas das ditaduras latino-americanas e todas elas têm algo em comum: foram criadas com apoio do Ocidente.

▪️ Vigente de 1957 a 1979, os agentes da polícia secreta do SAVAK – serviço de inteligência e segurança interior do Irã – semearam o terror na população, torturaram e assassinaram a milhares de pessoas sem julgamento.

▪️ A SAVAK foi estabelecida oficialmente em 20 de março de 1957. Entretanto, o núcleo desta estrutura, sob a direção de especialistas estadunidenses, se formou vários vários anos antes.

▪️ O primeiro chefe da Polícia secreta do xá foi Teymur Bakhtiyar, durante o golpe de Estado de 19 de agosto de 1953, comandou uma brigada blindada que participou na execução dos manifestantes anti-xá em Teerã.

▪️ Os oficiais da SAVAK foram treinados pelos serviços especiais dos EUA, do Reino Unido e de Israel; inclusive foi ensinado a eles a torturar ‘corretamente’.

▪️ A revista Time em fevereiro de 1979, durante o derrocamento do xá, descreveu a SAVAK como ‘a instituição mais odiada e perigosa do Irã’ que ‘tortura e matou a milhares de oponentes do xá’.

▪️ Em Teerã havia duas prisões da SAVAK: no distrito Evin e o centro de detenção preventiva, no coração da capital. Ambos construídas por arquitetos alemães e apoio israelense.

▪️ As instalações do centro de detenção preventiva foram criadas para levar ao máximo o terror: as câmaras de torturas estavam orientadas de tal modo que os gritos dos torturadores iam direto às celas dos detidos.

▪️ As celas eram estreitas, sem ventilação, cadeiras, mesas e muito menos camas. Os detidos dormiam amontoados no concreto frio.

▪️ A partir de 1972, este centro de tortura foi administrado por um dos departamentos da SAVAK: o Comitê Conjunto contra Sabotagem. Era a estrutura mais perversa da Polícia secreta, onde serviram investigadores e torturadores profissionais treinados por especialistas do Serviço de Segurança interna israelense Shabak.

▪️ Os prisioneiros eram açoitados com cabos elétricos, pendurados pelas mãos ou pés, afogados, torturados com eletricidade, vidros quebrados, água fervendo, submetidos a espancamentos para quebrar os ossos, lhes arrancavam os dentes, unhas. Uma das formas mais sádicas de intimidação era cortar o crânio de uma pessoa viva. O centro Evin tinha tubulações especialmente conectadas às celas, através das quais era possível fornecer ar excessivamente frio ou demasiadamente quente.

▪️ As salas de interrogatório contavam com pequenas jaulas de metal onde os detidos eram colocados em seu interior e se ligava a eletricidade a qualquer momento durante longas seções de tortura.

▪️ De 1972 a 1979, as cifras mais conservadoras falam de mais de 8 mil pessoas torturadas no Centro de Detenção Preventiva, entre elas o atual líder espiritual do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Entretanto, a cifra pode ser ainda maior, afinal, ali se levaram a cabo milhares de execuções sem julgamento: as pessoas eram simplesmente levadas para lá e nunca mais se soube delas.

▪️ Nos calabouços, além dos homens, havia mulheres e crianças. Nem todos tinham relação com a oposição, intelectuais foram presos simplesmente porque ‘sabiam ler livros’.

🇮🇷 Um pouco de história sobre EUA, Irã e o xá da Pérsia

Os EUA sempre quiseram a ‘democracia’ para o Irã, por isso em 1953 organizou um golpe de Estado para derrubar a Mohammad Mossadegh, que àquela altura era o primeiro ministro eleito democraticamente pelo povo persa.

Mossadegh, eleito em 1951, foi muito popular e seu governo se caracterizou por suas mudanças profundas na sociedade iraniana. Seu ‘pecado’ foi a nacionalização do petróleo explorado por BP (British Petroleum).

Após o golpe de Estado organizado e financiado pela CIA e encorajado pelo MI6 britânico, se estabeleceu uma ditadura com o xá Mohammad Reza Pahlavi à frente.

Este ditador ordenou a prisão de Mossadegh, primeiro na cela e depois domiciliar até sua morte, enterrando-o no pátio de sua casa por sua popularidade e para evitar excessos.

E para os que falam sobre o quão bom a monarquia de Pahlevi era, os convidamos a ler um artigo nosso sobre a SAVAK, a brutal polícia secreta do xá com selo ocidental.

O XÁ e Mossadegh condenado à perpétua”.



Foto – Emblema da Savak.

Segundo publicação da revista Time datada de 19 de fevereiro de 1979, a Savak tinha cerca de 5 mil membros. A Savak operou de 1957 até 1979, quando foi dissolvida por Šapur Bakhtiyar[1], o último primeiro-ministro iraniano. Em seu lugar, foi instituído o atual ministério de inteligência da República Islâmica do Irã, em operação desde 1983.

Algo igualmente digno de nota é o que o regime do xá fez em 1971, mais precisamente entre entre os dias 12 a 16 de outubro, durante as festividades da comemoração dos 2500 anos da fundação do Império Persa Aquemênida.

A área escolhida para as celebrações foi a cidade de Persépolis, capital do Império Persa à época da dinastia Aquemênida (550 – 330 a. C.), hoje ruínas no meio de um deserto situado a 70 quilômetros a nordeste da cidade de Shiraz (província de Fars).

Para o evento em questão, o aeroporto de Shiraz foi ampliado e renovado e uma rodovia foi construída ligado Shiraz a Persépolis, além de outra para ligar Persépolis à capital Teerã. Como forma de amenizar o clima árido do local, foram importadas e plantadas 15 mil árvores da França, aviões carregados de pesticidas derramaram produtos químicos num raio de 30 quilômetros para matar cobras, escorpiões e outros animais perigosos. Um campo de golfe também foi preparado.

Tendas luxuosas inspiradas nas tendas luxuosas em que Henrique VIII esteve quando foi hóspede de Francisco I da França, no século XVI, foram erguidas para os convidados de fora. Tais tendas foram construídas de material específico resistente ao calor e ao frio e equipadas com aparelhos como telefones e ares condicionados.

Ao centro uma enorme fonte d’água central foi erigida, na qual desembocavam todas as tendas. Cerca de 50 mil pássaros canoros foram importados, com vistas a dar mais “naturalidade” a esse oásis artificial (a maioria deles morreu em questão de poucos dias por conta do clima extremo da região).

Convidados de várias partes do mundo vieram às festividades. Entre eles o vice-presidente estadunidense Spiro Agnew, o premiê da França Jacques Chaban-Delmas, o cardeal Maximilien von Fürstenberg, o imperador da Etiópia Haile Selassie (o qual veio a ser deposto do trono etíope em 1974) acompanhado de sua esposa e cachorro de estimação, o rei do Nepal, rei Hussein da Jordânia, o sultão do Omã, rei da Malásia, reis e rainhas da Suécia, Dinamarca, Países Baixos e Bélgica, o ditador das Filipinas Ferdinando Marcos e sua esposa, o líder iugoslavo Josip Broz Tito, entre muitos outros convidados. O Brasil enviou à festividade o então presidente Emilio Garrastazu Médici. A rainha da Inglaterra, Elizabeth II, se ausentou do evento, no que quase causou uma crise diplomática entre o Reino Unido e o Irã. A situação foi resolvida por meio do envio do Príncipe Phillip e da Princesa Anne.

Para alimentar toda essa gama de ilustres convidados, foi contratado o time do Restaurante Maxim, de Paris, à época considerado o melhor do mundo. Foram enviadas ao local do evento 18 toneladas de comida, sendo 2700 quilos de bife, porco e cordeiro, 1280 quilos de aves diversas, e apenas 150 quilos de caviar, o único prato iraniano no cardápio do evento. Também foram trazidos ao local garrafas diversas de vinhos, conhaques e outras bebidas alcoólicas.

Ao final dos três dias, muito da comida sobrou, indo a maior parte direto para o lixo. O xá tinha planos para fazer do local uma atração turística, com vistas a hospedar turistas que fossem visitar Persépolis. Só que a situação foi tal que foi impossível o plano ir adiante, visto que a cidade-tenda agora estava suja, inóspita, verde findando, lotada de pássaros mortos e numa localização nada agradável.

O clero xiita islâmico do Irã logo reagiu, e de forma contundente: o evento foi chamado de “A festa do demônio”. E entre os líderes que criticaram o evento estava o aiatolá Khomeini.

No fim das contas, o evento, inicialmente planejado para ser usado como propaganda para promover o regime do xá, gerou o efeito contrário. Visto que a comemoração foi extremamente impopular entre a população iraniana que ficou de fora do mesmo (excetuando-se funcionários, militares, membros do governo e a família real). Calcula-se que o evento tenha custado aos cofres iranianos entre 12 a 150 milhões de dólares (segundo estimativas variadas).

No fim das contas, a festa que celebrou os 2500 anos de fundação do Império Persa Aquemênida acabou ajudando a selar o destino ulterior da monarquia iraniana, anos mais tarde. Uma festa na qual se esbanjou e ostentou muito luxo enquanto que a maioria da população iraniana vivia em situação precária, flagelada por problemas como pobreza, analfabetismo e fome. O xá e sua família de costas para o Irã profundo, e de frente para o Ocidente “livre e democrático”. No melhor estilo “They don’t care about us”.

Pode-se até dizer que o xá, em sua ânsia por projetar o Irã no mundo por meio de um evento dessa magnitude, no longo prazo cavou sua sepultura política. Podemos também dizer que o evento em questão foi (guardadas as devidas proporções) para a monarquia iraniana o que o baile da ilha fiscal em 1889 foi para a monarquia brasileira.

Foto – Festa de 2500 anos da monarquia persa, 1971.

Não custa lembrar também que na época do xá em cidades como Teerã havia bairros da luz vermelha e consumo de drogas em casas noturnas, entre outros flagelos. Tal como na Venezuela da época da República de Punto Fijo, o dinheiro da exploração do petróleo apenas enriquecia uma pequena elite local e petroleiras gringas, ao passo que grande parte da população vivia em situação precária. E soma-se a isso a questão da crescente ocidentalização do Irã apoiada pelo regime do xá, na qual o uso de vestimentas como o hidžab foi proibido.

Toda essa situação de insatisfação popular com o que vinha acontecendo no Irã (terror de estado, pobreza, decadência moral, ingerência estrangeira, aculturação da nação), à época levou à queda da monarquia iraniana e à Revolução que instaurou a República Islâmica do Irã. O xá, por seu turno, fugiu do Irã e morreu no Egito em 1981, vítima de câncer.

Para termos noção da importância do processo liderado pelo aiatolá Khomeini em 1979, um texto datado de 2010 no blog Arcana Coelestia Universalia traz a seguinte passagem:

“A meu juízo, a Revolução Islâmica salvou o Irã não apenas da tenebrosa ditadura de Reza Pahlevi, mas, sobretudo, d’algo infinitamente pior: o mergulho no báratro da desagregação espiritual e cultural d’uma civilização milenar. Pahlevi estava simplesmente DESTRUINDO a própria essência primordial da nação iraniana, assim como antes, por exemplo, Kemal Atatürk arrasara séculos de tradição otomana na Turquia; destarte, a Revolução Islâmica não apenas ‘resgatou’ política e socialmente o Irã, mas efetivamente RESSUSCITOU a alma de toda uma nação”.

E o resto é história.

Foto – capa da revista Manchete datada de 1979 com o aiatolá Khomeini na capa.

Para fechar o presente texto e saltando para os dias hodiernos, gostaria de fazer uma pergunta a esses sujeitos que em redes sociais como o Facebook, o Instagram e o X (antigo Twitter) clamam pela queda do regime iraniano e até mesmo para que EUA e Israel lá intervenham militarmente: acaso caindo o regime dos aiatolás a situação do Irã (que há muito tempo sofre com problemas decorrentes de sanções econômicas e crise hídrica) vai melhorar? Eu acho que não, e é só olhar para o que virou, por exemplo, o Iraque após a queda de Saddam Hussein em 2003 após a invasão anglo-americana. O que virou a Líbia depois da queda de Muammar al-Kadaffi em 2011, após o país ser invadido por EUA, França e Inglaterra. O que a Síria virou desde que Bašar al-Assad foi deposto do poder em 2024. O que viraram países como a Tunísia e a Egito desde o início da primavera árabe (vulgo pesadelo árabe). Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando.

É isso que vocês querem para o Irã? Que o Irã vire um estado falido tal qual aconteceu com os citados países? E nisso criando um efeito domínio sobre a região da Ásia Média, fazendo com que esta última entre em uma espiral de instabilidade, caos e destruição? Da Ásia Média para essa onda se alastrar por China, Índia, Paquistão, Rússia e até mesmo a Europa é praticamente um pulo. Ou será que no fim das contas o que vocês querem mesmo é ver o sonho molhado de vocês se tornar realidade: Israel virar o Grande Israel se estendendo do Nilo ao Eufrates, e com o aval do Ocidente “livre e democrático”?

E para quem clama pela volta da monarquia iraniana: vocês não percebem que a monarquia iraniana, caso volte, não passará de um regime títere, um governo Quisling a serviço de Israel e dos EUA? Tal como o regime do xá foi lá atrás, antes da revolução de 1979 liderada pelo aiatolá Khomeini? Ou será que isso não vem ao caso a vocês?

Acho que não dá para esperar muito dessa gente. No fim das contas, essa gente que idealiza o regime do xá e quer a volta da monarquia para o Irã é em essência a mesma gente que acha, por exemplo, que a Venezuela era um paraíso na época da putrefata e corrupta República de Punto Fijo, derrubada pelo comandante Chávez em 1998. Que Cuba de antes da revolução de 1959 liderada por Fidel Castro também era uma maravilha. Como também a Líbia de antes da revolução de 1969, o Egito de antes da revolução de 1952, entre tantos outros exemplos que podem ser citados.

Ao fim e a cabo, tanto a dinastia Pahlevi no Irã quanto a República de Punto Fijo na Venezuela, o regime de Fulgencio Batista em Cuba, entre outros, foram derrubados antes de tudo por conta do peso de suas contradições internas. E não por que veio do nada malvadões revolucionários como Nasser, Kadaffi, Fidel Castro, Khomeini e Hugo Chávez e acabou com tudo.

Foto – comparativo entre o Irã atual e o Irã da época do xá Reza Pahlevi.

Fontes:

“A festa de Satã” – o 2500º aniversário de fundação do Império Persa e a extravagância do xá. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/a-festa-de-sata-do-xa/

A propósito das ideias políticas de Khomeini. Disponível em: https://worden.blogspot.com/2010/04/proposito-das-ideias-politicas-de.html

Celebração dos 2500 anos do Império Persa. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Celebra%C3%A7%C3%A3o_dos_2.500_Anos_do_Imp%C3%A9rio_Persa

D. Pedro II no Líbano. Disponível em: https://academiafriburguensedeletras.blogspot.com/2016/01/d-pedro-ii-no-libano.html

Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir obra do árabe, diz pesquisa. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/noticias/dom-pedro-ii-foi-1-a-traduzir-obra-do-arabe-diz-pesquisa/575605545

Friendly dictators (em inglês). Disponível em: Friendly Dictators

Mohammed Mossadegh. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mohammed_Mossadegh

Savak. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/SAVAK

NOTA:

[1][1] Leia-se “Barrtiyar”. No farsi o dígrafo kh tem som de r aspirado forte.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Refutando Marcelo Andrade - verdades e mentiras sobre a Venezuela.

 

Foto – Professor Marcelo Andrade.

No dia 7 de janeiro do presente ano o professor Marcelo Andrade postou em seu canal no You Tube a seguinte mensagem a respeito da Venezuela, na sequência da queda do então presidente Nicolás Maduro. Um texto que, como veremos, até diz algumas verdades, mas que ao mesmo tempo omite detalhes e informações muito importantes a respeito da história recente da Venezuela.

Em 2017, escrevemos nesse mesmo blog uma resposta a Nando Moura sobre o mesmo assunto:

Resistência terceiro-mundista: As imprecisões de Nando Moura, parte 6 - A verdade não será televisionada.

A Venezuela já foi o país mais rico da América Latina

Nos anos 50, o país tinha o 4º maior PIB per capita do mundo. Superava países europeus em renda e desenvolvimento.

Até que o socialismo chegou...”

Primeiro de tudo, é impossível entender como que o Hugo Chávez chegou aonde chegou sem entender o que era de fato a Venezuela nos anos que antecedem à sua ascensão ao poder. E, como veremos, não era o paraíso que se quer vender.

Deixa-me te perguntar uma coisa, Marcelo Andrade: como que essa renda era distribuída entre os habitantes da nação caribenha? A Venezuela de antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder, ocorrida em 1998, na verdade não era uma espécie de Noruega ou Suíça tropical como você quer vender. Na verdade, se tratava de uma espécie de emirado petroleiro latino-americano. Em outras palavras, estava muito mais próxima de um Qatar, um Emirados Árabes Unidos ou uma Arábia Saudita.

Haja vista que a parte do leão da renda do petróleo venezuelano ficava concentrada nas mãos de uma restrita elite local e de petroleiras gringas (em especial americanas) que exploravam o petróleo. A maioria da população vivia em uma situação de penúria, e favelas conhecidas como ranchos pululavam pela paisagem urbana das cidades venezuelanas, incluindo a capital Caracas.

Foto – Rancho venezuelano. Qualquer semelhança com as favelas cariocas (não) é mera coincidência.

E deixe eu lhe fazer mais uma pergunta, Marcelo Andrade: acaso essa riqueza toda fazia da Venezuela um país de indústria forte e economia diversificada e pujante? Não, não fazia. Bem longe disso. A Venezuela nunca teve uma indústria forte tal qual, por exemplo, o Brasil, o México e a Argentina. O país vivia de exportar petróleo cru para o exterior (em especial para os Estados Unidos) de tal modo que era um país cujo desempenho econômico era ditado pelo preço do barril do petróleo no mercado internacional. Em outras palavras, trata-se de um país que até os dias hodiernos padece do mal econômico conhecido como a “doença holandesa”.

A dependência da Venezuela para com a riqueza advindo do petróleo era tal (e ainda é) que o país tinha que importar tudo de fora, incluindo comida, papel higiênico, sabonete e outros itens básicos. Tudo vai bem nos tempos de bonança, mas quando chega o período de escassez (ou seja, quando o preço do barril do petróleo no mercado internacional baixa) a situação aperta e a grana advinda do petróleo seca, o país se via em sérios problemas, incluindo hiperinflação e crise econômica. Foi assim, durante os choques do petróleo nos anos 1980 e 1990, que reverberaram profundamente na Venezuela.

O volume 24 da Enciclopédia Larousse Cultural, publicada pela finada editora Nova Cultural em 1998 (ou seja, antes mesmo de Hugo Chávez se tornar presidente da nação caribenha), mostra que muitos dos problemas estruturais que afligem a economia venezuelana hoje em dia já existiam na época da Quarta República.

E na política institucional, antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder vigorava a República de Punto Fijo (também conhecida como Quarta República Venezuelana), estabelecida em 1958 e por meio da qual dois partidos se alternavam no poder: a Ação Democrática e o Copei (Comitê de Organização Política Eleitoral Independente). Figuras como Rafael Caldera, Carlos Andrés Perez e Romulo Bettancourt ocuparam o palácio de Miraflores nesse período. Ou seja, era como se fosse uma espécie de política do Café com Leite à moda caribenha, tal como havia aqui no Brasil na época da Primeira República (1889 – 1930). Ou se quisermos usar um exemplo mais recente, o petucanismo aqui no Brasil com a alternância entre PT e PSDB no Palácio do Planalto, e com o PT no essencial mantendo a mesma política macroeconômica instituída nos anos 1990, quando o Plano Real foi instituído e o pacto de classes dele advindo.

Enquanto ditaduras se espalhavam pelo continente, a Venezuela recebia milhares de imigrantes: espanhóis, chilenos, argentinos, brasileiros…

O jornal El País chegou a dizer:

‘Na Venezuela se vive uma liberdade genuína.’”

A Venezuela podia ser a nível político-institucional uma democracia, mas isso não quer dizer nada. Tal como em outras partes da América Ibérica os protestos contra políticas neoliberais na Venezuela também foram tratados com base na bala. E o Caracazo, ocorrido em 27 de fevereiro de 1989, manda lembranças.

Foto – Caracazo.

Na ocasião, o então presidente Carlos Andrés Pérez (à época em seu segundo mandato) passou um pacote de medidas neoliberais, que incluía, entre outras coisas, o aumento do preço dos combustíveis. E por tabela, isso também implicou em um aumento no preço das passagens de ônibus. Como resultado, protestos surgiram em várias partes do país, sendo Caracas o epicentro. Para poder contornar a crise, o exército foi convocado e a repressão foi brutal. Grande morticínio se seguiu ao evento: calcula-se que possam ter morrido entre 277 (estatísticas oficiais) a mais de 3000 pessoas (estatísticas independentes) no Caracazo, sem contar ainda com feridos.

E é a partir deste momento que o nome de Hugo Chávez, então coronel do exército e líder do movimento MR-200, começa a se projetar no cenário político venezuelano. Em 1992 ele tentou assumir o poder por meio de um golpe de estado, mas não logrou sucesso. Apenas em 1998 é que ele, dessa vez pela via eleitoral, logrou se tornar presidente da Venezuela. E uma vez presidente da Venezuela, uma das primeiras coisas que ele fez foi enterrar a Quarta República Venezuelana e fundar uma nova República, a Quinta República Venezuelana, também conhecida como República Bolivariana da Venezuelana.

Você, Marcelo Andrade, fala de um jeito como se o Caracazo nunca tivesse existido. E como se a Venezuela pré-Chávez fosse um mundo idílico e paradisíaco, perfeito, que foi destruído pelo malvado Chávez e sua camarilha. Sendo que isso passa bem longe da realidade. A insatisfação popular era generalizada e Hugo Chávez soube captar tal sentimento, propondo uma alternativa ao arranjo até então existente no país. E no fim a República de Punto Fijo caiu sob o peso de suas contradições.

Os salários impressionavam o mundo. Um professor recém-chegado ao país na década de 70 relatou ter ganhado US$ 1.700 em seu primeiro mês, o suficiente para comprar um carro novo.

Em Miami, os venezuelanos ficaram conhecidos como os "dame dos" ("me dá dois"), de tanto que consumiam.

Em 1914, o país descobriu o petróleo e pelas 6 décadas seguintes seria chamado de ‘Venezuela saudita’, em referência à Arábia Saudita, maior produtora de petróleo do mundo.

Na capital, Caracas, os prédios eram altos e modernos para a época. As rodovias, largas. Os hotéis eram considerados um ‘luxo em um paraíso tropical’. E os venezuelanos tinham o título de maiores consumidores de uísque do mundo”.

Essa é uma parte da história, mas e a outra parte da história que você não mostra? O outro lado da moeda, a outra face do deus Janus?

Você não mostra no teu texto, certamente por conveniência de momento, quais venezuelanos tinham acesso a tal padrão de consumo. De fato, era comum as elites venezuelanas à época fazerem suas compras de supermercado em Miami, e não em supermercados venezuelanos. E que a linha aérea Miami-Caracas era uma das mais movimentadas do mundo.

Sem contar ainda que a influência cultural norte-americana no país era gigantesca. Tanto que se assistirmos aos seriados que o Carlos Villagrán fez depois que saiu do elenco de Chaves e Chapolin, terá a impressão de que se está assistindo a um sitcom americano. O que ajuda a causar um estranhamento ainda maior para com tais produções, para além do fato de o Kiko estar fora de seu habitat natural, a vila do Chaves. Seriados esses que foram produzidos e veiculados pela RCTV (a mesma emissora que em 2007 não teve sua concessão renovada pelo governo chavista) e exibidos no Brasil no começo dos anos 1990 pela Rede Bandeirantes, e dublados pelo mesmo estúdio que fez a dublagem dos seriados de Chespirito, a finada Maga.

Apenas as altas classes venezuelanas é que tinham acesso a tal padrão de consumo. Com o povão que vivia em ranchos como o de Caracas a história era totalmente outra. Calcula-se que nos governos anteriores a Hugo Chávez a pobreza extrema atingia 40% da população do país, e mais 70% abaixo da linha da pobreza, a subnutrição flagelava 21% da população, apenas 7 a cada 10 crianças concluíam o ensino primário (no que fazia da educação um privilégio dos ricos) e o acesso às universidades era algo restrito às elites e à pequena classe média. Apenas 387 mil idosos eram contemplados pela previdência venezuelana.

Tanto que uma das coisas que o Hugo Chávez fez ao se tornar presidente da nação caribenha é usar a renda do petróleo para programas sociais, visando melhorar as condições sociais das populações mais carentes do país. Sob Chávez a desigualdade social (medida pelo índice de Gini) diminuiu em 54%. A pobreza despencou de 70,8% em 1996 para 21% em 2010, ao passo que a extrema pobreza caiu de 40% em 1996 para 7,3% em 2010. A desnutrição foi reduzida a 5% e a desnutrição infantil, a 2,9%. A mortalidade infantil diminuiu de 25 por mil em 1990 para apenas 13 por mil em 2010. Em 2005, o país foi declarado livre do analfabetismo pela UNESCO. Entre outros feitos.

Foto – Hugo Chávez Rafael Frias (1954 – 2013).

Chávez também usou a renda do petróleo para investir no futebol, esporte até então secundário na Venezuela, visto que antes dele o esporte mais popular da nação caribenha era o beisebol, muito em função da influência cultural norte-americana por lá. A Venezuela (cuja seleção é apelidada de “Vinotinto”) até hoje nunca participou de uma Copa do Mundo, e durante muito tempo, quando enfrentava seleções como o Brasil ou a Argentina, vivia tomando goleada. Vide o exemplo do jogo entre Brasil e Venezuela da Copa América de 1999, ocorrida no Paraguai, no qual a Venezuela tomou de 7 a 0 do Brasil, naquele que foi o jogo de estreia do Ronaldinho Gaúcho pela seleção canarinho (à época treinada por Wanderley Luxemburgo) em competições oficiais.

O investimento chavista no futebol foi tal que a Venezuela não só aumentou a competividade no futebol, como também sediou a Copa América em 2007, passou a se classificar com mais frequência para a fase eliminatória da Copa América (chegou a ser quarta colocada na Copa América de 2011) e mais recentemente vemos que países como o Brasil e a Argentina já não têm a mesma facilidade de antes quando enfrentam a Venezuela. Vide o empate sem gols entre Brasil e Venezuela na Copa América de 2019. Talvez, seja questão de tempo um dia vermos a Vinotinto em uma Copa do Mundo, ainda mais agora que 48 times se classificam para a competição máxima do futebol mundial.

Entre 1959 e 1983, o desemprego no país se manteve na marca de 10%. No mesmo período, o crescimento médio do país foi de 4,3% por ano, a inflação também era menor do que a registrada em outros países da América Latina”.

E aí, cadê o período de 1983 a 1998, hein Marcelo Andrade? Pois o que aconteceu nesse meio tempo desmonta toda a narrativa que você quer vender. Cadê o Caracazo, cadê as políticas neoliberais da presidência de Carlos Andrés Pérez, cadê o corrupto sistema advindo do pacto de Punto Fijo em colapso em sua fase tardia?

No fim das contas, é um cherry-picking dos mais cretinos e vagais, bem típico de figuras como você e o Thiago Braga.

Até que em 1998, o povo elegeu o tenente-coronel Hugo Chávez, que já havia sido preso após uma tentativa de golpe de Estado. E iniciou o que chamou de ‘revolução bolivariana’.

Desde então, mesmo com as maiores reservas de petróleo do planeta, a Venezuela sofre com escassez de combustível. Sem comida, sem remédios e com milhões de refugiados, o país virou um retrato do fracasso socialista”.

E aí, vai chamar a Quarta República Venezuelana de socialista? Pois muitos dos problemas econômicos dos quais a Venezuela hoje padece já existiam antes mesmo de Hugo Chávez se tornar presidente da nação caribenha.

Segundo a ONU, 5,1 milhões de venezuelanos não têm o suficiente para comer. O PIB do país encolheu 73% na última década. E mais de 94% de venezuelanos vivem na extrema pobreza”.

A Venezuela já foi uma grande nação, mas o que o socialismo entregou foi o maior desastre da história moderna da América do Sul.

A lição é clara: o socialismo nunca resultará em nada além de miséria”.

Por um acaso um país vira socialista só por que institui políticas sociais e de redistribuição de renda? Não, isso não quer dizer nada. Um país pode muito bem ter política sociais mantendo o funcionamento já existente da economia. Acaso, por exemplo, as políticas de redistribuição de renda que existem em países como a Alemanha, a Holanda, o Reino Unido e as nações escandinavas tonam essas nações socialistas? Não. Passa bem longe disso. E acaso o Bolsa Família ou o SUS fizeram do Brasil um país socialista? Também não. Haja vista que mesmo com tais programas sociais os superricos do Brasil (muitos deles mancomunados com o PT inclusive) continuam enchendo as burras de dinheiro.

Vai chamar de socialismo um regime que nunca mudou de forma profunda a estrutura econômica do país? Um país que antes vivia de exportar petróleo cru para fora do país e que sob os ditos socialistas Hugo Chávez e Nicolás Maduro continuou vivendo da mesma forma como vivia antes deles? A Venezuela, sob Chávez e Maduro, continuou se organizando sob bases capitalistas. Tanto que grandes capitalistas como o conglomerado alimentício Polar e o grupo de mídia Cisneros continuaram a operar em solo venezuelano, mesmo na era chavista.

E mais: falando em socialismo, acaso o François Hollande, presidente da França entre 2012 a 2017, ser de um partido que se diz socialista (Partido Socialista) fez da França um país socialista? Não, não fez. E antes dele, a França teve outro presidente desse mesmo partido, o François Miterrand, que foi presidente de 1981 até sua morte em 1996. Miterrand também não fez da França um partido socialista. Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando. No fim das contas, siglas partidárias muitas vezes não passam de siglas partidárias.

Fontes:

As imprecisões de Nando Moura, parte 6 – A verdade não será televisionada. Disponível em:

https://resistenciaterceiromundista.blogspot.com/2017/08/os-imprecisoes-de-nando-moura-parte-6.html

Asentamientos irregulares en Venezuela (em espanhol). Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Asentamientos_irregulares_en_Venezuela

Grande Enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo: 1998. v. 24. p. 5907 – 5910.

Hugo Chávez e o futebol na Venezuela. Disponível em: https://trivela.com.br/america-do-sul/hugo-chavez-e-o-futebol-na-venezuela/#:~:text=Foram%20investidos%20cerca%20de%20US,grande%20renova%C3%A7%C3%A3o%20em%20outros%20seis.

sábado, 16 de agosto de 2025

Freeza e Rei Vegeta, parte XII

 

Foto – Rei Vegeta no meio, com o jovem Vegeta à esquerda, Nappa e mais três guerreiros saiyanos à direita.

E com vocês a parte XII da série de artigos Freeza e Rei Vegeta. E o assunto da vez é a visão distorcida da história que grande parte da direita brasileira, geralmente identificada com a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros políticos reacionários, manifesta em relação a episódios históricos como a conquista islâmica do norte da África e da Ibéria e as cruzadas.

Como vemos, mudaremos de lado dentro do espectro político. Deixaremos de falar do pessoal da esquerda pós-moderna e a idealização que eles fazem do passado de certos povos e vamos falar sobre as ilações que o pessoal da direita faz a respeito de eventos como as Cruzadas levantinas strictu sensu e as relações entre o mundo cristão europeu e o mundo muçulmano ao longo dos séculos latu sensu. Em outras palavras, dos chamados “zé cruzadinhas”. Afinal, como já dito em outras oportunidades, essa gente de direita mais reacionária e tacanha é a cara metade político-ideológica desse pessoal da esquerda pós-moderna.

Originalmente, Zé Cruzadinha era um personagem que aparece em algumas histórias da Turma da Mônica, criadas por Maurício de Souza. Amigo do Cebolinha, ele é um menino de cabelos espetados meio maluco que gosta muito de resolver revistas de palavras cruzadas e usa óculos circulares (fundo de garrafa), camisa amarela, bermuda preta e tênis lilás (ou marrom) com meias. Ele surgiu em 1963, nas tiras do Cebolinha, e desde então tem sido personagem recorrente nas histórias da Turma da Mônica.

Foto – Zé Cruzadinha.

Mais recentemente, o nome do personagem da Turma da Mônica ganhou um novo significado. Ele passou a designar, de forma pejorativa, certos tipos que vemos na Internet e em redes sociais, geralmente direitistas, que bradam por ai frases como “Deus Vult” (“Deus o quer”, em latim) e afins.

Em linhas gerais, tais tipos geralmente explicam que as Cruzadas na Terra Santa foram uma guerra de resposta tardia por conta de séculos de invasões de califados e sultanatos islâmicos a regiões outrora sob domínio cristão, incluindo Síria, Palestina, Egito, noroeste da África, Península Ibérica, França e Itália. E ainda chegam ao ponto de dizer que “as cruzadas salvaram a Europa de se tornar islâmica” e conversas similares.

Este tipo de explicação pode ser encontrado até mesmo no vídeo de Thiago Braga sobre o tema no canal Brasão de Armas, como também por parte de figuras de extrema direita católica como Marcelo Andrade e Raphael Tonon.



Só que há um buraco BEM grande na explicação que eles dão. Primeiro de tudo que as cruzadas começam em 1095, passados já quase 400 anos da conquista islâmica da Ibéria sob o califado omíada de Damasco e quase 500 anos das conquistas islâmicas iniciais na Síria, no Levante e no Egito ainda sob os primeiros califas. Como explicar eventos ocorridos entre os séculos XI a XIII por conta de eventos ocorridos meio milênio antes? Para mim não faz sentido algum. A conta não fecha.

E segundo que o contexto europeu e mediterrânico da segunda metade do século XI era bem diferente daquele dos séculos VII a IX, que é quando o grosso dessas invasões e conquistas se dá.

O contexto do Medievo inicial era o da Europa pós-romana, no qual o Império Romano do Ocidente deixou de existir e em seu lugar surgiu uma miríade de reinos bárbaros, entre eles os reinos visigodo e suevo na Ibéria, reino ostrogodo na Itália, reinos franco e burgúndio na Gália (atual França), reino alamano na Germânia, reino vândalo no norte da África, reinos anglo-saxônicos nas ilhas britânicas, reino frísio na atual Holanda e outros, todos eles oriundos da grande migração de povos (em alemão Volkerwanderung) da Antiguidade Tardia e Medievo inicial.

Era um contexto de fragilidade política e social que eventualmente acabou sendo explorado por terceiros. E os muçulmanos não foram os primeiros e nem os únicos a se aproveitarem dessa situação.

Ainda no século VI houve as invasões dos ávaros, povo das estepes ao norte do Mar Negro, provavelmente oriundo dos Žužan (os quais de suas bases na atual Mongólia e sul da Sibéria causaram problemas aos chineses entre os séculos IV a VI).

Sob a liderança de Bayan (r. 562 – 602), os ávaros se estabeleceram na Panônia (atual Hungria) por volta de 562 e assim preencheram o vazio deixado pela debacle do Império Huno um século antes, após a morte de Atila. De suas bases na Panônia os ávaros lançaram invasões à Itália, Gália, Turíngia e Península Balcânica na segunda metade do século VI e começo do século VII. Em 626 os ávaros sitiaram Constantinopla junto com a Pérsia Sassânida. O poder ávaro na Panônia só veio a ser destruído no começo do século IX por Carlos Magno.

Também no século VI o Império Bizantino, durante o reinado de Justiniano I, lançou suas guerras de conquista sobre partes da Europa Ocidental pós-romana, vide a guerra vândala de 533/534 contra o reino vândalo no norte da África, a guerra gótica de 535 a 554 contra o reino ostrogodo na Itália e a conquista de parte da Ibéria visigótica em 552.

E os zé cruzadinhas que choram as pitangas pelo Império Bizantino por conta das conquistas islâmicas do século VII em momento algum falam sobre os dias de conquistadores do mesmo. Conquistas essas que se deram à custa de outros estados cristãos (ainda que da vertente ariana) e que tiveram lugar antes mesmo de o profeta Maomé nascer.

Foto – Império Bizantino por volta de 555, após as conquistas do reinado de Justiniano I (r. 527 – 565).

Mais adiante, já nos séculos VIII e IX, em especial após a morte de Carlos Magno (r. 768 – 814) e a subsequente fragmentação de seu império em três partes, junto com as invasões árabes pelo sul também temos as invasões vikings pelo norte e magiares pelo leste. Os vikings, oriundos das atuais Dinamarca, Noruega e Suécia, promoveram a partir de 793 (ataque ao mosteiro de Lindsfarne na Inglaterra) incursões de pirataria às Ilhas Britânicas, à França e até mesmo a partes da Ibéria, do norte da África e da Itália. Chegaram a estabelecer seu senhorio sobre partes da atual Inglaterra, o chamado Danelaw (c. 878 – 954), e com a anuência do rei francês Carlos o simples (r. 898 – 922) alguns deles se estabeleceram na França em regiões como a Normandia e a Bretanha, mediante conversão ao cristianismo.

Já os magiares, antes vassalos dos khazares, após migrarem das estepes ao norte do Mar Negro e se estabelecerem no atual território húngaro a partir de 896 sob a liderança do chefe Arpád Álmos e assim preencher o vácuo de poder deixado na Panônia com o fim do poder ávaro, concentraram seus esforços no leste, na França, Germânia e Itália. Em 942 hostes magiares avançaram a oeste até a Ibéria islâmica.

Foto – invasões árabes, vikings e magiares na Europa entre os séculos VII a X.

A partir dos séculos X e XI tais invasões não apenas chegam ao fim, como também nórdicos e magiares passam a fazer parte do mundo cristão europeu.

Os magiares são vencidos em 955 pelo imperador germânico Otto II na batalha de Lechfeld e por volta do ano 1000 a Hungria se converte ao cristianismo sob o rei São Estevão I (r. 997 – 1038). Junto com a Polônia, a Hungria se tornou o bastião oriental da cristandade ocidental.

Já os vikings se convertem ao cristianismo primeiro nas regiões colonizadas por eles como as ilhas britânicas e a Normandia (vide a conversão do chefe viking Rollon em 911), depois, dentro dos marcos da formação das monarquias nacionais escandinavas, houve a conversão das nações escandinavas sob a liderança de monarcas como o dinamarquês Harald dente azul (r. 958 – 986) e os noruegueses Olaf Tryggvasson (r. 995 – 1000) e Olaf II (r. 1015 – 1028), o segundo posteriormente canonizado pela Igreja Católica como Santo Olavo.

A integração de nórdicos e magiares ao mundo cristão medieval foi tal que monarcas escandinavos e húngaros participaram de cruzadas na Terra Santa, vide a cruzada de peregrinação do rei norueguês Sigurd I (r. 1103 – 1130) entre 1107 a 1111 e a participação do príncipe húngaro Geza na terceira cruzada (1189 – 1192) e do rei húngaro André II (r.1205 – 1235) na quinta cruzada (1217 – 1221). Além disso, as monarquias escandinavas, junto com ordens militares germânicas como os Cavaleiros Teutônicos e os Cavaleiros Livonianos da Espada, lançaram suas próprias cruzadas dentro da própria Europa, as cruzadas do norte, contra os povos ainda pagãos do Báltico oriental, entre eles os vendos, os prussianos e os lituanos, e até mesmo contra estados cristãos ortodoxos oriundos da fragmentação da Rus de Kiev a partir de 1054 como a República de Novgorod.

E a coisa não para por ai. De suas bases na Normandia no noroeste da França, os normandos, descendentes cristianizados dos vikings, lançaram-se no século XI à conquista de territórios como a Inglaterra, Gales, Malta e sul da Itália, incluindo o emirado da Sicília entre 1061 a 1091. Participaram ativamente das cruzadas levantinas e no século XII, mais precisamente entre 1146 a 1160, a Sicília normanda chegou a estender seu domínio sobre partes do norte da África, sobre a atual Tunísia e noroeste da Líbia, até perder a região para os almoadas.

Foto – conquistas normandas entre os séculos XI a XV.

Como podemos muito bem ver, na segunda metade do século XI o contexto já era totalmente diferente daquele do Medievo inicial. As invasões que os reinos cristãos europeus sofriam antes por parte de povos como árabes, nórdicos e magiares já era coisa do passado. O máximo que houve ao final do século XI foram as invasões dos cumanos a partes dos domínios do estado Rus de Kiev (vide os ataques cumanos a Kiev em 1096, 1097, 1105 e 1107) e os atritos dos reinos cristãos ibéricos com o califado almorávida. Ou seja, atritos localizados nas fronteiras dos reinos que estavam bem longe de representar a mesma ameaça aos reinos cristãos europeus que as invasões das centúrias anteriores.

As fronteiras do mundo cristão medieval europeu eram outras. Se por volta de 700 as fronteiras desta não passavam do Reno e do Danúbio, por volta de 1100 essas fronteiras, por contas das sucessivas de conversões de nações e reinos europeus tais como Polônia, Rus de Kiev, Hungria, Noruega, Suécia e Dinamarca, agora se estendem das margens do Oceano Ártico ao norte às ilhas gregas e Itália ao sul e das ilhas britânicas ao oeste às fronteiras orientais da Rus de Kiev (a essa altura já fragmentada em vários principados) ao leste. E isso a despeito da divisão entre Igreja Católica Romana e Igreja Ortodoxa Bizantina advinda do cisma do oriente de 1054.

E a situação dos potentados islâmicos na Europa também era outra. De todos os potentados que os muçulmanos, em sucessivas ondas de conquista, estabeleceram na Europa nos séculos VIII e IX só restava o sul da Ibéria sob a jurisdição de estados muçulmanos na virada do século XI para o XII. Os emirados de Bari e Taranto na Itália continental foram riscados do mapa em 871 e 883, respectivamente. O Fraxinetum no sul da França deixou de existir em 973 após 85 anos de existência. O emirado de Creta na Grécia foi conquistado pelo Império Bizantino em 961. O emirado da Sicília foi conquistado pelos normandos entre 1061 a 1091. Em 1091 os normandos também expulsam os muçulmanos de Malta.

Foto – A expansão do Islã sob os primeiros califas e depois sob a dinastia omíada (661 – 750), em alemão.

E mesmo na Ibéria o outrora poderoso califado omíada de Córdoba (929 – 1031) se estilhaçou nos reinos de taifas em 1031 por conta de uma série de guerras intestinas iniciadas ainda em 1009 (fitna de Al-Andalus) e importantes praças já estavam sob a jurisdição dos reinos cristãos do norte, incluindo Toledo, a antiga capital visigótica, tomada em 1085 pelo rei de Castela Afonso VI. Ante essa situação, os soberanos dos reinos taifas pedem auxílio aos almorávidas do noroeste da África.

Apenas no século XIII com as invasões mongóis e mais adiante com o Império Otomano a partir do final do século XIV é que novas ondas de invasões extracontinentais em larga escala a reinos europeus ocorrem.

Ao escutar falas como a de que as cruzadas foram uma resposta tardia aos avanços de hostes islâmicas dos séculos VIII a X passa-se a impressão de que antes das cruzadas os reinos europeus nunca reagiram aos avanços dos invasores vindos do sul. Em outras palavras, passa-se a impressão de que batalhas tão celebradas por eles, como a batalha de Poitiers na qual Carlos Martel venceu os muçulmanos em 732, não ocorreu. Muito menos, por exemplo, a batalha de Tourtour que colocou fim à existência do Fraxinetum em 973. Ou mesmo os avanços de Carlos Magno sobre o norte da Ibéria ainda no final do século VIII, onde ele estabeleceu no que hoje é o nordeste da Espanha a marca hispânica.

Mas, se o que esses zé cruzadinhas geralmente falam não tem fundamento histórico algum, de onde vem isso? Um dos principais divulgadores da tese que eles defendem é o ex-professor de física e escritor norte-americano Bill Warner.

Segundo Bill Warner, houve 548 batalhas provocadas pelo Islã contra o que ele chama de civilização cristã. Vídeos de Bill Warner no You Tube podem ser encontrados e vistos em canais de direita, onde ele mostra um mapa onde ele faz uma comparação entre a quantidade de batalhas daquilo que ele convém chamar de cruzada e jihad.

Nessa comparação, Warner, entre outras coisas, faz um verdadeiro cherry picking e não menciona, por exemplo, as já citadas cruzadas do norte contra os povos pagãos do Báltico oriental, ou mesmo outras cruzadas contra poderes não-islâmicos, vide a cruzada dos cátaros no sul da França entre 1209 a 1229.

Foto – Bill Warner.

Isso sem contar com os mapas cheios de erros bem crassos, como o abaixo:


Foto – Europa e o mundo mediterrânico entre 1900 a 1920, segundo as ilações de Bill Warner.

No mapa acima, Bill Warner, para além de apresentar o mundo muçulmano como se fosse um bloco monolítico do ponto de vista geopolítico, ele coloca dentro das fronteiras do Islã entre 1900 a 1920 regiões como os baixos Volga e Ural, as margens do mar de Azov, o Cáucaso e a Ásia Média, regiões essas que foram conquistadas pela Rússia, um império cristão ortodoxo, entre os séculos XVI a XIX. Também coloca dentro do mundo muçulmano o subcontinente indiano, a época sob o controle colonial britânico, e a Argélia, o Marrocos e a Tunísia, a época sob o controle colonial francês. Sem contar ainda com o Oriente Médio, sobre o qual França e Inglaterra estabeleceram mandatos coloniais após o fim da Primeira Guerra Mundial por meio do acordo de Sykes-Picot.

E por que falar a esse respeito? Por que isso não é coisa de meia dúzia de gatos pingados de Internet, como a primeira vista pode parecer. Pelo contrário, pessoas influentes, que ocupam altos cargos em governos ocidentais professam esse tipo de pensamento.  Além disso, esse é o tipo de retórica que justifica, por exemplo, as sucessivas intervenções do Ocidente “livre e democrático” sobre países do muçulmano que só tem trazido instabilidade e caos a região, derrubando regimes e em seu lugar abrindo caminho para o surgimento de grupos salafistas como o Estado Islâmico, o Boko Haram e outros afins. E mesmo o que Israel vem fazendo na Palestina e outras partes do mundo árabe desde 1948, incluindo a atual guerra do governo Netanyahu contra a faixa de Gaza.

E, além disso, pode-se dizer que esses zé cruzadinhas e a esquerda pós-moderna tem seus pontos em comum. Se a segunda cria todo um passado idealizado de povos como os africanos e os ameríndios de antes da chegada dos europeus e início do processo de colonização, os primeiros enxergam a Europa medieval de maneira similar, para não dizer análoga.

Eles tratam a Europa medieval como se fosse um mundo idílico e monolítico, onde não havia conflitos entre os diversos reinos cristãos que surgiram após o fim do Império Romano Ocidental. Como se antes mesmo do surgimento do Islã não houvesse episódios como as já citadas conquistas bizantinas do reinado de Constantino II, as guerras entre os reinos franco e visigodo entre 496 a 511, a guerra entre francos e burgúndios entre 523 a 533, guerras entre francos e frísios nos séculos VII e VIII, a conquista do reino suevo pelo reino visigodo em 585 e outras tantas. Ou mesmo guerras civis dentro dos reinos, incluindo a guerra civil dentro do reino visigótico às vésperas da conquista islâmica da Ibéria. Tanto que a conquista islâmica tanto da Ibéria quanto da Sicília se dá com o apoio de setores da nobreza e do exército locais, vide o caso do general bizantino Eufêmio, que movido por ambições pessoais convidou os aglábidas do norte da África em 827 para auxiliá-lo em sua querela com o governo imperial baseado em Constantinopla.

Assim, podemos dizer que até nisso a esquerda pós-moderna e esses zé cruzadinhas de direita se completam um ao outro. Kami Sama e Piccolo Daimaoh, o yin e o yang, o alfa e o ômega, as duas faces de Janus contrapostas entre si. Podem ter certeza que se um cavaleiro dos tempos medievais visse um desses zé cruzadinhas atuais, no mínimo ficaria envergonhado.

Foto – Cavaleiro cruzado medieval vs zé cruzadinha dos dias hodiernos.

Fontes:

As cruzadas derrotaram o Islã? Disponível em: https://historiaislamica.com.br/as-cruzadas-derrotaram-o-isla-o-que-ninguem-te-contou-sobre-isso/

As cruzadas salvaram a Europa de se tornar muçulmana? Disponível em: https://historiaislamica.com.br/as-cruzadas-salvaram-a-europa-de-se-tornar-muculmana/

Jihad vs Cruzadas: quem agrediu mais, e pior? Disponível em: https://lepanto.com.br/jihad-vs-cruzadas-quem-agrediu-primeiro-mais-e-pior/

List of wars involving Francia (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_wars_involving_Francia

O fenômeno dos zé cruzadinhas da Internet. Disponível em: https://sadclaps.medium.com/o-fen%C3%B4meno-dos-z%C3%A9-cruzadinhas-da-internet-2b71734e493

Por que e como os muçulmanos tomaram a Sicília? Disponível em: https://historiaislamica.com.br/por-que-e-como-os-muculmanos-tomaram-a-sicilia/

Quando os visigodos eram os conquistadores e a reconquista ibérica era bizantina. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/quando-os-visigodos-eram-os-invasores-e-a-reconquista-iberica-era-bizantina/

Quem foi Tariq Ibn Zyiad e como ele tomou a Hispânia dos visigodos? Disponível em: https://historiaislamica.com.br/quem-foi-tariq-ibn-ziyad-e-como-ele-tomou-a-hispania-dos-visigodos/

Zé Cruzadinha. Disponível em: https://turmadamonica.fandom.com/pt-br/wiki/Z%C3%A9_Cruzadinha