sexta-feira, 22 de julho de 2016

Escola sem Partido - Do que se Trata? Parte 2


Foto – Logo do Escola sem Partido.
No primeiro artigo a respeito do Escola sem Partido, explicamos esse fenômeno pelo prisma da questão ideológica envolvendo o crescimento a nova direita brasileira de matiz ideológico neoconservador (cujos gurus são nomes como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano e Olavo de Carvalho, entre outros) e a relação disso com o crescimento dessas propostas, buscando fazer um complemento ao vídeo do Pirula sobre o assunto. Agora, na segunda parte, trataremos de algumas outras questões não abordadas na primeira parte, como a questão econômica nele envolta, assim como rebater algumas abobrinhas ditas pelos partidários do Escola sem Partido e iniciativas afins.
Em sua entrevista ao programa Roda Viva que teve lugar no dia 4 de julho de 2016, Leandro Karnal (atualmente professor da Unicamp em História da América) teceu algumas considerações a respeito do Escola sem Partido. Afirmou que a iniciativa fundada por Miguel Nagib em 2004, entre outras coisas, é uma “asneira sem tamanho, é uma bobagem conservadora, é coisa de gente que não é formada na área e que decide ter uma ideia absurda, que é substituir o que eles imaginam que seja uma ideologia em sala de aula por outra ideologia, que é uma ideologia conservadora” e que é “uma crença de uma direita delirante e absurdamente estúpida de que a escola põe na cabeça das pessoas de que esses jovens saem líderes sindicais”. Tais declarações foram endossadas pelo Senador paranaense Roberto Requião (PMDB). Requião disse que “Escola sem Partido é coisa de filho da puta”, grande canalhice, que escola sem opinião é algo inexistente e que o movimento em questão é a opinião de alguns imbecis.
Respostas a esses comentários logo apareceram, a exemplo do deputado federal gaúcho Marcel van Hattem (Partido Progressista), Maro Filósofo e o filosofo e ativista pró-pedofilia Paulo Ghiraldelli. O primeiro disse, entre outras coisas, que Karnal perdeu a diplomacia por ter dito o que disse sobre o Escola sem Partido, que a ideia do Escola sem Partido não tem intenção de fazer substituição ideológica alguma, e sim fazer o contrário, ou seja, estimular o debate nas escolas. Ele ainda diz que Karnal está errado ao afirmar que mesmo diante de um professor de esquerda uma criança ou um jovem pode tirar suas próprias conclusões pelo fato de serem ainda pessoas em fase de formação intelectual, e mais adiante cita exemplos de alunos que supostamente estiveram submetidos à pregação ideológica de professores de esquerda. Ao final de sua resposta a Leandro Karnal, Van Hattem propõe que os pais dos alunos e os professores por ele visto como bons tenham um canal de comunicação com a secretaria de educação, o ministério público e outras autoridades competentes para que eles possam avaliar e garantir a melhor educação para os alunos, pois se continuar assim, afirma ele, a qualidade da educação brasileira decairá cada vez mais.
Maro Filósofo, ao longo de seu vídeo, se queixou do fato de os cursos de disciplinas de humanas como História, Geografia e Letras serem dominados por docentes de esquerda e de existir um suposto silêncio nas escolas quanto ao que ele chama de autores conservadores (que nada mais são que a outra face da moeda dos autores que os professores esquerdistas liberais divulgam em suas aulas), entre eles Olavo de Carvalho (vulgo Sidi Muhammad Ibrahim). Disse que a universidade brasileira não está preocupada em conservar noções básicas e elementares de civilidade, que ela é revolucionária e que não forma pensadores, e sim doutrinadores que trabalham pela inversão de valores e incapazes de analisar a realidade brasileira. Também fala que está ocorrendo nos meios acadêmicos uma distorção da realidade nacional em favor de teorias esquerdistas vindas principalmente da Europa e dos Estados Unidos, acusando autores de esquerda de serem destruidores de referências e que a escola trabalha pela inversão de valores.
Pelo que os comentários de ambos nos sugerem, eles ignoram por completo o fato de que o sistema capitalista possui toda uma superestrutura de poder que ajuda a perpetuá-lo e a mantê-lo, e para isso se valendo de diversas correias de transmissão tais como a mídia de massa, o judiciário (haja vista como a maneira seletiva como a equipe da Operação Lava Jato tem se comportado desde o início das investigações e os golpes perpetrados contra Manuel Zelaya em Honduras e contra Fernando Lugo no Paraguai), o poder econômico, a produção mundial de conhecimento (organizado através de uma articulação entre estado, empresa privada multinacional e universidade de um país capitalista central, cujo objetivo é manter sob controle do capital o desenvolvimento científico e a aplicação tecnológica da ciência) e outras. Assim sendo, o que é o professorzinho de esquerda que dá aulas em uma escola ou em uma faculdade e que eventualmente faz pregação diante de toda essa engrenagem que os grandes capitalistas têm ao seu lado? É a mesma coisa que comparar uma formiga ou uma barata a um elefante. Portanto, se esses elementos tanta questão fazem de falar em escola sem partidário, por que não também exigir, por exemplo, um judiciário sem partido, uma mídia sem partido, um estado sem partido (em outras palavras, que o estado deixe de ser o balcão de negócios dos grandes capitalistas que Karl Marx descreveu em o Manifesto do Partido Comunista), entre outros tantos exemplos? E o que é, por exemplo, o sujeito de classe média que tem horror a pobre e tanto sonha em se tornar alguém da classe dominante? Nada menos que alguém que passou anos sob a alienação da superestrutura de poder capitalista e suas diversas correntes de transmissão. E se é lavagem cerebral às cabeças de crianças e jovens o que a pregação de certos professores esquerdistas fazem o que dizer do que os grandes capitalistas fazem incentivando o consumismo entre as mesmas através de artifícios como propagandas de brinquedos na televisão e em outdoors? Ou o que a televisão faz na cabeça das pessoas vendendo suas fantasias (ou seja, aquilo que o falecido marxista venezuelano Ludovico Silva chamava de mais valia ideológica)? Assim sendo, diferente do que alguém como Van Hattem pensa, na democracia burguesa da qual ele e o clã Bolsonaro são partidários também há coerção de cima para baixo, que muitas vezes se dá através de mecanismos mais sutis de dominação que em outros sistemas. Na teoria, a proposta de Van Hattem é muito bonita, mas na prática não passa de um grande engodo que pode muito bem justificar uma caça às bruxas de caráter macarthista nas escolas, já que ele demonstra ignorar (quer seja por ingenuidade, quer seja por mau-caratismo) que o tribunal também tem suas inclinações partidárias, geralmente reacionárias. Quando as denúncias forem enviadas aos órgãos competentes, diante de juízes e promotores tão ou mais reacionários quanto o Sérgio Moro, esses fatalmente passarão a mão na cabeça dos professores que eventualmente fizerem pregação ideológica direitista, enquanto que aqueles que fizerem pregação ideológica com sinal invertido serão punidos com todo o rigor da lei.
A respeito dos comentários de Maro Filósofo no vídeo “Escola sem Partido e Leandro Karnal”, pelo visto ele ignora que, se nas escolas e universidades brasileiras há um silêncio quanto a autores conservadores, o que falar sobre o ostracismo que autores de esquerda como Álvaro Vieira Pinto, Alberto Guerreiro Ramos e Ruy Mauro Marini foram submetidos em 1964 e se arrasta até hoje? Haja vista que Ruy Mauro Marini, um dos grandes próceres da teoria marxista da dependência junto com nomes como André Gunder Frank, Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos, teve que esperar 43 anos para ter sua obra “Subdesenvolvimento e Revolução” publicada no Brasil, o que foi feito em 2012 pela editora catarinense Insular e passados já 15 anos de seu falecimento e dessa mesma obra ter sido publicada em vários idiomas. Ou seja, o silêncio e o ostracismo em torno de Ruy Mauro Marini, Alberto Guerreiro Ramos e outros se manteve mesmo após o término da ditadura civil-militar (o que contradiz certas abobrinhas que Maro Filósofo diz ao longo do vídeo). Além disso, se nas escolas e universidades pululam docentes de esquerda, o que dizer, por exemplo, dos reitores que geralmente são de classe dominante? Quanto à questão da importação desses modismos vindos da Europa e dos EUA, os atuais docentes universitários de esquerda não foram os primeiros a fazer isso: a universidade brasileira tem toda uma tradição daquilo que Nildo Ouriques chama de “figurino francês” que remonta à criação da USP em 1934 (que foi criada pela elite paulista vencida dois anos antes para criar um contraponto ao pensamento nacionalista varguista) e a influência cultural francesa nas elites brasileiras no século XIX e primeira metade do século XX.
Com a ditadura civil-militar de 1964, o modelo uspiano, caracterizado por seu cosmopolitismo, foi turbinado e se difundiu para todo o Brasil, ao mesmo tempo em que houve a extinção do carioca ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e a castração da UNB (Universidade de Brasília) sob os auspícios do campineiro Zeferino Vaz, e assim fazendo o centro da vida intelectual e cultural brasileira transferir-se do Rio de Janeiro para São Paulo. Ou seja, o que esses professores de esquerda fazem nada mais é que continuar essa tradição de figurino francês iniciada pela elite paulista quando criou a USP (que na ocasião em questão trouxe uma “missão francesa”, composta por figuras como Fernand Braudel[1], Roger Bastide, Jean Maugüé e Claude Lévi-Strauss). E essa esquerda universitária que padece do figurino francês e não discute a problemática da dependência é interessante ao sistema que ai está, já que não toca em suas mazelas. Em outras palavras, o miserável sistema universitário brasileiro é uma herança da mesma ditadura que ele mesmo defendeu em vídeos anteriores (sobre os quais tratamos nos artigos “As imprecisões de Maro Filósofo, parte 1 – A verdadeira história e o real caráter do regime civil-militar brasileiro [1964 – 1985]” e “As imprecisões de Maro, Filósofo, parte 2 – A verdadeira história e o real caráter do regime civil militar brasileiro [1964 – 1985], parte 2”). Essas questões e outras o professor catarinense Nildo Ouriques trata em seu livro “O colapso do figurino francês”. E a respeito da destruição de referências, e a Rede Globo e outros veículos da grande mídia privada, como ficam? O verdadeiro destruidor de referências não são esses professores de esquerda, e sim o capital.

Foto – Ruy Mauro Marini (1932 – 1997).
Já Paulo Ghiraldelli, por seu turno, disse que Karnal não fez uma reflexão sobre o tema, e sim sobre o que ele justamente condena ao ter uma opinião taxativa, que ele como historiador deveria colocar em um contexto histórico a proposta do Escola sem Partido e relatando ainda a existência de uma parcela significativa da população que acha que, por causa de uma herança positivista que remonta ao século retrasado, é possível construir conhecimento que pretende não ter direcionamento ideológico algum e que deveria haver um debate sobre o tema. Pelo visto, ele ignora que o problema está muito mais embaixo, para além do que é ensinado nas salas de aula. Muitos políticos reacionários (tanto de matiz ideológico socialdemocrata quanto de matiz neoconservador) são favoráveis a essa proposta, e obviamente possuem seus interesses particulares em sua implantação.
Os comentários de Roberto Requião sobre o Escola sem Partido também tiveram repercussão. O deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN) disse na Câmara dos Deputados que as palavras do senador paranaense sobre o Escola sem Partido foram uma diarreia verbal, que ele atacou de forma esdrúxula quem pensa diferente dele, que Requião defende uma escola doutrinária e ao final o chamando de fascista. Alexandre Frota também respondeu aos comentários de Requião sobre o Escola sem Partido, que chamou Requião de corrupto, traiçoeiro, que só faz o que lhe interessa, que tem feito muito mal ao povo brasileiro e que deveria rever suas atitudes. Disse que o Escola sem Partido luta por uma escola livre escolha e de doutrinação marxista e que ele, Karnal e outros são uns canalhas.
Em comum todos eles acusam o projeto esquerdista de ser o responsável pela atual situação lastimável da educação brasileira, a ponto de tratar o professor (o qual independentemente de sua preferência ideológica muitas vezes é alienado pelo já mencionado sistema mundial de produção de conhecimento e que muitas vezes apenas conhece o básico sobre Marx) que eventualmente faz pregação de esquerda em sala de aula como um verdadeiro bode expiatório do problema. Mas e o sucateamento da educação nesses anos todos decorrente de fatores como a falta de investimentos na área (haja vista que o estado brasileiro hoje em dia destina quase metade de seu orçamento para pagar os juros e amortizações do serviço das dívidas interna e externa, no que apenas enche os bolsos de um punhado de rentistas ligados a esse negócio), como fica? E a privatização da educação que remonta ao período da ditadura e o acordo MEC/USAID (1968), inserindo-a em uma lógica de acumulação do capital em mãos privadas? A verborragia de gente como Marcel Van Hattem e Maro Filósofo não passam de subterfúgio e cortina de fumaça para justificar a implantação de uma cartilha ideológica de direita nas escolas, além de esconder as mazelas decorrentes da privatização do ensino. Eu mesmo, quando eu era estudante, tive alguns professores de esquerda, e mesmo assim todos eles ensinaram a mim e a meus colegas o que tinha que ser ensinado independentemente de suas preferências ideológicas. Quando tive aula de sociologia na faculdade, por exemplo, aprendi tanto sobre Durkheim, Comte e Weber quanto sobre Marx e Engels[2] (ao passo que só vim a ter conhecimento sobre Ruy Mauro Marini, Alberto Guerreiro Ramos e outros representantes do pensamento crítico latino-americano depois de pós-graduado. Em “O colapso do figurino do francês”, Nildo Ouriques relata que só conheceu a obra de Alberto Guerreiro Ramos muito tempo após sua pós-graduação).
Como mencionado no final da primeira parte, temos visto a importação de uma série de celeumas ideológicas vindos dos Estados Unidos para cá nos últimos anos. E o que aquilo que alguns chamam de apostilamento do conhecimento que o Escola sem Partido advoga é também uma delas. Segundo Nildo Ouriques em seu livro “O colapso do figurino francês”, isso é uma forma de desviar a atenção da problemática do subdesenvolvimento como tarefa intelectual de primeira grandeza. E algo que igualmente é interessantíssimo para a classe dominante nacional, que desde os tempos da ditadura civil-militar tem feito esforços para castrar e silenciar o pensamento crítico nas escolas brasileiras e assim ajudar a perpetuar seu status quo privilegiado ad eternum. Diga-se de passagem, políticos como o pesecista Jair Bolsonaro e seus filhos, o tucano Izalci Lucas Ferreira (que é empresário da área da educação e que no ano retrasado teve sua campanha eleitoral financiada por empresas do ramo educacional como a DeVry Educacional e a Rede Laureate, ligada ao maior conglomerado educacional do planeta, a Kroton/Anhangüera) e o pepebista Van Hattem nada mais são que representantes dessa classe.
E, segundo o artigo do Esquerda Diário “Quem lucra com o Escola sem Partido?”, publicado em 22 de junho de 2016, existe no Brasil uma disputa de interesses entre gigantes do mercado de material didático para ver quem vai vender seu conteúdo para as escolas e que a concorrência vai além do MEC. Um dos objetivos do Escola sem Partido seria justamente esse: garantir o lucro das empresas privadas do ramo. E quais são os bois? Um deles é o Grupo Abril, o mesmo de revistas como Veja, Caras, Exame, Capricho e outras, que atende com seus serviços a mais de 130 mil escolas e a cerca de 35 milhões de alunos em todos os estados da federação. A editoria dos Civita vende material escolar para sistemas de ensino como Anglo e Red Baloon e no ano passado, através de fusão com a editora Saraiva criou um truste no mercado educacional, o grupo Somos, que obteve receita líquida de mais de R$ 1 bilhão. Outro deles é o Objetivo, que fornece material didático para mais de 100 mil alunos em todo o Brasil. Outros bois incluem as já citadas DeVry Educacional e a Kroton/Anhangüera. Portanto, há um poderoso lobby educacional que a qual interessa não a criação de cidadãos que pensem a realidade de forma crítica, e sim na formação de uma massa alienada e abobada que nada mais é que um mero mercado consumidor de seus produtos. E o que é pior esses materiais serão vendidos no mercado como se fossem neutros e isentos de ideologia alguma. Sendo que em verdade carregarão consigo uma carga ideologia conservadora enrustida e favorável ao capitalismo que em momento alguma tocará nas mazelas do sistema. E isso nada mais é que dar continuidade à repressão ao pensamento crítico que a classe dominante nacional e seus sequazes (que nada mais são que os operadores dos esquemas desses grupos empresariais) fazem desde o golpe civil-militar de 1964. E o mais grave de tudo é que, diferente do que aconteceu há meio século, essa repressão ao que ainda resta de pensamento crítico nas escolas e universidades brasileiras terá todo um amparo judicial e legal para sua efetivação.

Foto – Meme sobre a hipocrisia de Marcel Van Hattem. Crédito: Anarcomiguxos V.
Fontes:
Alexandre Frota responde a Requião após ofensa – “Você sim é um filho da p. corrupto”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FLaQ1Zjx7WQ
“As raízes intelectuais do consórcio PTucano”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Cvi_Jxijcw8
Dep. Rogério Marinho cala a “diarreia mental” de Roberto Requião sobre projeto Escola sem Partido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PG9brWVrbb8
Escola sem Partido é coisa de filho da puta, diz Roberto Requião. Disponível em:
Escola sem Partido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=z5sosoph1T4
Escola sem Partido – Leandro Karnal no Roda Viva. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mA4ZWzF0m0s
“Escola sem Partido” – Os segredos por trás da nomenclatura. Disponível em: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/07/escola-sem-partido-os-segredos-por-tras-da-nomenclatura.html
Leandro Karnal e Escola sem Partido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zCtKJxIoX2E
Nildo Ouriques – A universidade brasileira e o atraso do Brasil. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PQlENnkh5Rw
Ouriques, Nildo. O colapso do figurino francês: crítica às ciências sociais no Brasil. 3. ed. Florianópolis: Insular, 2015.
Quem lucra com o Escola sem Partido? Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/spip.php?page=gacetilla-articulo&id_article=7191
Resposta ao professor Leandro Karnal sobre o Escola sem Partido – Marcel van Hattem. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=W66pmP5x1io
Roberto Requião – o neo-anticomunismo neo-conviente às velhas elites. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XtB-Txf-LcI
Roda Viva – Leandro Karnal (04/07/2016). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JmMDX42jOoE
O colapso do figurino francês. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cJiK_1gtj3M


NOTAS:

[1] Leia-se “Brodel”, pois no francês a partícula au tem valor de o.
[2] Leia-se “Enguels”, pois no alemão, assim como em idiomas como o russo, o polonês, o servo-croata, o mongol e o japonês, o som da partícula g não muda em função da vogal seguinte tal qual nas línguas latinas e no inglês.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Jean Wyllys e seu acessório de sandices.

Por Marcus Valerio XR


Em notícia do assassinato de uma transexual (fisicamente homem, psicologicamente mulher) de 19 anos, no estado do RS, o delegado que investigou o caso declarou: ["Não enxergo crime de homofobia, até porque todos estavam envolvidos numa relação homossexual."]
O deputado Jean Wyllys, sem qualquer conhecimento direto além da mera reportagem do UOL sobre o crime (que já foi solucionado pelo delegado tendo os acusados já sido identificados e só não estando presos por serem menores de idade) e sem qualquer consideração pelo trabalho de quem já fez sua parte para impedir que mais um homicídio fique em solução, simplesmente decidiu ofender o profissional: ["É muita burrice numa frase só."] Além de, na sequência, estender sua crítica e acusações de "Xfobias" a todo o corpo policial e a toda a sociedade.
Em seu Facebook, utilizou dois argumentos, um de baixíssimo nível, e outro mais interessante e que merece maior detalhamento. O primeiro: ["Vamos, por enquanto, deixar de lado a confusão entre homofobia e transfobia (...). Em primeiro lugar, devemos esclarecer que a relação entre esses jovens e a Nickolle não foi ‘homossexual’, já que eles têm uma identidade de gênero masculina e ela, feminina. Quando um homem faz sexo com uma mulher, seja ela cisgênero ou transgênero, essa relação é heterossexual."] O que confirma, pela enésima vez, o que venho dizendo há anos. Que o movimento LGBTT, que é apenas um braço do Feminismo, está mais interessado na absoluta falsificação da realidade do que numa real defesa de segmentos sociais marginalizados.
Primeiro, que a relação sexual é classificada de acordo com os sexos físicos do envolvidos. Se os dois envolvidos são de sexos diferentes, a relação é hétero, se são do mesmo sexo, é homo! O que poderia ser mais simples, direto, e objetivo do que isso? É assim que podemos classificar também como homossexuais relações entre animais, e é assim que podemos ter um fundamento material racional para qualquer efeito. Havendo uma relação homossexual masculina saberemos de antemão, por exemplo, que não existe risco de gravidez, que não pode ter havido sexo vaginal, e que ambas as partes estão aptas a promover a penetração bem como inevitavelmente terá havido sexo anal e/ou felação.
Mas a realidade objetiva pouco importa para Jean Wyllys e seus "transrealistas" que tentam substituir a materialidade concreta por seus delírios esquizofrênicos. Tão pouco importa a realidade subjetiva da esmagadora maioria da humanidade, na qual o impulso sexual é primordialmente direcionado ao corpo, e secundariamente à mente. Principalmente entre os homens. Os heterossexuais sentirão atração imediata por um corpo feminino atraente mesmo que não façam a menor ideia de qual seria a identidade de gênero em questão. E se é verdade que um comportamento excessivamente masculino pode prejudicar ou mesmo matar essa atração inicial, isso ocorre justo porque tal comportamento irá emular características típicas da maioria esmagadora das pessoas de sexo oposto. O inverso ocorre entre os homossexuais, só havendo uma flexibilidade maior nos bissexuais.
Para no mínimo 90% das pessoas, noutra pessoa do mesmo sexo uma mente do gênero oposto não terá eficácia alguma em lhes despertar apetite sexual! E mesmo o evidente fato de muitos transgêneros, como a vítima do crime em questão, emularem ao máximo possível a aparência do sexo oposto, pode ter mais a ver com o desejo de simular o sexo que desejaria ter do que uma real esperança de obter um relacionamento com homens heterossexuais.
O fato é que os rapazes em questão promoveram uma relação homossexual, sendo então, no mínimo, bissexuais. Mas definitivamente não são heterossexuais. Pois nem mesmo a melhor simulação de feminilidade seria suficiente para convencer um homem heterossexual a levar adiante uma relação sexual se a realidade física de outro homem se revelar no momento em que acabar a eficácia da emulação.
Voltando a relacionar a questão física, lembremos que existem os bigêneros, que são pessoas que podem assumir características mentais de ambos os gêneros quer simultânea, quer alternadamente. E se é possível num determinado momento um deles mudar sua identidade de gênero, evidentemente não pode mudar seu sexo físico.
É exatamente pelo fato do sexo ser o dado concreto e objetivo, que não pode ser negado tal como pode sê-lo o dado mental subjetivo sobre o qual jamais teremos plena certeza de ser um fenômeno real ou forjado, que não tem o menor cabimento basearmos nossa percepção e conceituação da realidade nos dados duvidosos. Por isso definimos a separação de banheiros pelo sexo, e não pelo gênero. Por isso apelamos à realidade palpável, a única estável e confiável, exatamente o que o Feminismo LGBTT quer destruir, substituindo por uma narrativa debiloide cuja completa ausência de fundamentação demanda que somente uma autoridade política ideológica determine a realidade por decreto.
Mas apesar dessa grotesca afirmação de Jean Wyllys, seu segundo argumento na justificação de sua ofensa ao delegado merece maior respeito.
["Mesmo se a vítima fosse um homem gay e esses jovens, que têm uma vida social heterossexual, tivessem mantido relações sexuais ocasionais com ele (...), a violência posterior poderia ter sido motivada por homofobia sim. Esse tipo de crimes acontece com bastante frequência. O assassinato (...) de um parceiro sexual ocasional por parte de alguém que leva uma vida social heterossexual é uma forma de "expiação" do pecado, de "purificação" doentia motivada pela homofobia social internalizada pelo agressor."]
É verdade. E o que torna a afirmação mais sensata é o "poderia" que previne a derrubada da proposição pelo simples apontar que embora tal fato possa ocorrer, seria necessária uma devida investigação sobre as motivações subjetivas do crime. Que por sinal, só podem ser feitas efetivamente por quem está lidando diretamente com ele, como o delegado em questão.
O problema é que apesar de isoladamente esse argumento ser válido e apontar para uma realidade plausível, que é o potencial criminoso de fortes impulsos psíquicos reprimidos, ele simplesmente é contradito pelo próprio Jean Wyllys, que em seu primeiro argumento declarou que a relação em questão NÃO FOI homossexual, e sim hétero!
Mas então como raios isso poderia ser um crime de "homofobia"!? Seria antes um de misoginia! Visto que segundo a doutrina inquebrantável LGBTT, o que determina a realidade é a volição subjetiva da transexual. Se a vítima se sentia uma mulher, logo, pelo Feminismo de Gênero, ela o era objetivamente! E assim não teria podido haver uma relação homossexual e tão pouco um crime de motivação homofóbica, visto que os criminosos teriam matado uma mulher, e não um homossexual!
E como se vê mais adiante, a provável intuição do deputado de que entrou em contradição inspirou uma aparente tentativa de prevenir a percepção desse fato, ao declarar: ["O preconceito transfóbico não diferencia identidade de gênero com orientação sexual e vê nessa relação uma relação homossexual, que envergonha quem cedeu à tentação de experimentá-la. A violência brutal contra as pessoas trans quer muitas vezes matar, com elas, o desejo que provocam."]
Mas então se eles viam uma relação homossexual, a percepção subjetiva deles não deveria validar o fato de que houve então exatamente isso?!
Jean Wyllys teria que se decidir: Ou houve de fato uma relação homossexual, e que poderia validar a tese de um crime de motivação homofóbica e derrubaria a primeira afirmação do deputado, ou houve uma relação heterossexual conforme ele sustentou e então derrubaria sua segunda afirmação de ter havido um crime "homofóbico".
A mente sã e honesta teria que abrir mão de uma das afirmações ou no mínimo reformular o discurso na tentativa de conciliá-las por alguma terceira via. E sequer entrou na temática da "transfobia", que na realidade deveria ser a real motivação alegada pela ideologia LGBTT.
Obviamente, eu recomendaria derrubar o surrealismo inicial e insistir na tese de um crime "homofóbico" cedendo à confusão, que o próprio deputado aceitou por um momento, entre "homofobia" e "transfobia". Isso ao menos permitiria um argumento que respeita minimamente a realidade física para ser averiguado, contestando a afirmação do delegado que o simples fato de um homossexual ter sido morto por outro homossexual não necessariamente excluiria a classificação de "homofóbico" ao crime.
Aliás por ter antes falado em prevenir detecções de imposturas intelectual, acrescento que Jean Wyllys também já parece estar se prevenindo para uma possível confrontação com um fato inevitável. ["Trata-se de um tipo específico de crime de ódio motivado por transfobia e/ou homofobia que, embora não possamos generalizar (porque a maioria das vezes o agressor não tem relações coma vítima), não é incomum."]
A afirmação, porém, é falsa. Na maioria das vezes o agressor tem sim relação, afetiva e ou sexual, com a vítima. Assim como a maioria dos homens é assassinado por outros homens, e dentro deste grupo a maioria expressiva das vítimas sendo homens negros também é assassinada por outros homens negros, a maioria dos homossexuais também é assassinada por outros homossexuais (ao menos no mundo ocidental). Até porque uma coisa dita por Wyllys, e frequentemente repetida por outros ativistas, tem um notável fundo de verdade. Grande parte, se não a maioria, das motivações de violência contra homossexuais provêm de uma homossexualidade reprimida no todo ou em parte.
Com isso a afirmação de que tais assassinatos sejam motivados por "homofobia" demanda uma melhor explicação, que o deputado curiosamente antecipou, de modo que seria bem-vinda num debate deste tema, onde poderia ser melhor examinada. E adianto que possivelmente apenas mudaria o foco de uma "homofobia" social para a homofobia no seu sentido original, isto é, o medo íntimo de ser, si próprio, um homossexual. Mas foi usada apenas como um recurso de embasamento na tentativa de desqualificar e humilhar um profissional que cumpriu exemplarmente seu papel na investigação do assassinato de uma transmulher, o que nos lembra, mais uma vez, que isso é menos importante para o movimento LGBTT do que falsificar a realidade.
O delegado chegou a protestar no post de Jean Wyllys, com uma extrema polidez, humildade e cortesia que o deputado simplesmente não merecia, e ainda fazendo várias concessões à causa LGBTT bem como à própria figura do parlamentar, que foi elogiado enquanto o delegado se defendia de um modo elegante, mas excessivamente submisso.
E isso lembra outro fato que também já cansei de dizer principalmente aos críticos do neoesquerdismo: NÃO SE PODE DEMONSTRAR FRAQUEZA E HUMILDADE PERANTE A MILITÂNCIA FEMINISTA E LGBTT!!!
A resposta do deputado ao delegado foi ainda mais grosseira, agressiva e intransigente. E isso porque ele sequer contestou as afirmações do modo que fiz aqui. Apenas protestou por ter sido ofendido e explicou porque tirou a conclusão de não ter havido "homofobia" envolvida no caso, devido aos fatos que apurou.
A resposta de Jean Wyllys provocou desaprovação até mesmo em muitos de seus apoiadores, que suplicaram por um tratamento mais amigável ao delegado. Ao mesmo tempo, entre os vários comentários em favor do delegado, os comentários que o atacaram também estupida e intolerantemente deixam claríssima a marca registrada do pensamento ideológico em questão, se prontificando inclusive a replicar a infindável lista de fraudes estatísticas, falsificações de fatos e sofismas torpes na tentativa de "esclarecê-lo", leia-se, doutriná-lo.
O próprio Wyllys, como de costume em militantes de sua laia, mandou o delegado "ir estudar", entenda-se: Faça em você mesmo a lavagem cerebral que não conseguimos fazer em você! Recomendando inclusive a consulta a grupos LGBTT para ajudar na "solução" do caso, traduz-se: submeta o processo investigativo e pericial à doutrina ideológica e transforme o crime em mais munição para a patifaria farsesca que utilizamos na tentativa de lesar definitivamente a sociedade.
Ainda que tudo o que o deputado disse fosse a mais pura e clara verdade, o delegado teria cometido, no máximo, um simplismo de senso comum, merecendo, como muitos dos apoiadores do próprio Jean Wyllys sugeriram, ter sido instruído de forma amigável.
Mas na realidade quase nada do que disse é correto. E é daí que provêm a agressividade.
Mesmo quando se vê a vitória da mentira, a farsa manipulando o discurso e todo o poder nas mãos dos hipócritas, dos falsários e dos golpistas, a mente honesta e bem-intencionada que não se submete à massiva fraude à sua volta ainda tem o refúgio da própria verdade. Existe um efeito pacificador em ter dentro de si a clareza que falta ao mundo que o cerca, que costuma resultar num sentimento de serenidade que lhe dá forças para persistir. Estando habituada com a falsidade dominante, no fundo tem uma sensação de vitória por saber que a perversidade do mundo não a dominou, por mais trágico que seja a derrota externa da sociedade.
Mas quando se investe pesado na mentira com todo apoio dos poderosos, quando se deposita a vida na disseminação da fraude em conluio com hordas de alienados, quando se derrama tempo e dinheiro na falsificação ostensiva da realidade e se dedica de corpo e alma a corromper a realidade, e ainda assim não se consegue dominar, sequestrar e controlar completamente o pensamento da sociedade, tudo que resta ao farsante é o ódio! Uma intolerância quase desesperada por não conseguir fazer valer para todos aquilo que, no fundo, talvez ele próprio saiba ser uma fraude.
Ninguém se ofende mais em ter suas alegações contestadas do que o falsário.
Ou talvez não. Talvez não seja o caso de falar apenas em falsidade e perversidade, mas sim no produto final da investida desses vícios que contam com o massivo apoio do setor financeiro e consequentemente do aparato estatal. Talvez já seja a pura e simples insanidade plenamente manifestada. A loucura instituída por meio da mentira sistemática oficial.
O assédio do Feminismo, no caso de Segunda Onda da qual a Terceira é derivação espontânea e a doutrina LGBTT é mera expressão da Ideologia de Gênero, pode ter conseguido retumbante sucesso em sua corrupção da estrutura familiar social. Extremo êxito em monopolizar os grandes meios de comunicação e se impor à quase totalidade dos governos por meio do poder financeiro e do puro e simples vitimismo oportunista sempre efetivo às pessoas sensíveis e desinformadas.
Mas ainda assim não conseguiu doutrinar as massas. Ainda enfrenta resistência inviolável daqueles que a ele se opõem tendo a seu favor apenas a simples liberdade de pensamento e o acesso puro e direto a realidade, sem os filtros alienatórios das ideologias nefastas.
E diante disso, as massas já corrompidas na totalidade por essa insanidade instituída de cima para baixo pelos mais poderosos, só podem se torturar em ódio diante daquilo que para eles é sentido como uma derrota completa mesmo que seja uma simples ilha de lucidez cercada por um oceano de psicopatia generalizada.

REFERÊNCIAS:

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Recordar é viver, parte 2 - Revolução Industrial ontem e hoje.


Foto – Cena do filme “Modern Times” (Tempos Modernos no Brasil), estrelado por Charlie Chaplin (1889 – 1977).
O atual presidente da Confederação Brasileira da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, falou em “flexibilização das leis trabalhistas” e até mesmo na possibilidade de aumentar a jornada semanal de trabalho de 44 para 80 horas. Ele afirmou que o governo deve promover “medidas muito duras” na Previdência Social e nas leis trabalhistas para equilibrar as contas públicas, citando como exemplo o caso da França. Caso isso venha a se concretizar, a jornada semanal do trabalhador brasileiro será aumentada em cerca de 82% (ou seja, quase o dobro). Em média, o trabalhador brasileiro no máximo trabalha 8 horas por dia (ou seja, uma jornada de trabalho que ocupa um terço do dia). Para alcançar tal carga horária, o trabalhador brasileiro teria que trabalhar por dia ao redor de 16 horas (ou seja, duplicar a carga horária diária do trabalhador brasileiro). Sob uma carga horária de 80 horas semanais, isso significaria que o trabalhador brasileiro teria que passar cerca de metade de seu tempo semanal no chão da fábrica, e assim em casa ele praticamente só teria tempo para dormir e comer.
Primeiro de tudo, não é a primeira vez que vemos representantes da elite brasileira soltando comentários desse tipo. Lembremos que Benjamin Steinbruch, presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), queixou-se no programa da web TV Poder e Política em 25 de setembro de 2014 da quantidade de direitos trabalhistas e do fato de o operário brasileiro ter uma hora de almoço e que nos Estados Unidos, ao mesmo em tempo em o operário come um sanduíche com a mão esquerda ele com a mão direita opera uma máquina.
Segundo, evidencia o caráter de classe do estado moderno não apenas no Brasil como também no mundo em que vivemos, o qual foi definido por Karl Marx em o Manifesto do Partido Comunista (1848) como o comitê de negócios da burguesia. E o que Marx quis dizer com isso? Que os grandes capitalistas fazem do estado uma espécie de balcão de negócios para administrar e levar adiante seus negócios particulares, de forma a fazer com que as políticas desse mesmo estado lhes favoreçam (haja vista que sob os governos Lula e Dilma ao mesmo tempo em que programas sociais como o Bolsa Família ajudaram a tirar milhões da linha da pobreza os banqueiros e outros rentistas tiveram ganhos bilionários). Assim sendo, ao contrário do que muitos ingênuos pensam, o estado tem seu caráter de classe e não é uma entidade abstrata que está acima dos conflitos de classes. E isso mesmo o Brasil tendo passado 13 anos sob o governo do Partido dos Trabalhadores, um partido de corte popular e de massas. Portanto, independentemente de quem esteja ocupando a chefia de uma nação, quem detêm o poder de fato são os grandes capitalistas e não o fulano que ocupa a cadeira presidencial (que por sua vez quando explode uma crise em que seu mandato é ameaçado é comumente feito de bode expiatório perante a população. Assim, governos de diferentes partidos entram e saem, mas aqueles que mandam por trás das cortinas continuam os mesmos).
E terceiro, essas declarações mais uma vez escancaram a nós que tipo de classe dominante o Brasil tem. É uma classe que não tem o menor pudor em se valer dos mais abjetos artifícios para conseguir seus objetivos (nem que para isso tenham que revogar a lei Áurea) e que se não é herdeira biológica dos senhores de engenho dos períodos colonial e imperial e/ou dos barões do café da República Velha, ao menos carrega a mesma mentalidade deles, onde o escravo negro (e posteriormente também o trabalhador europeu origem imigrante) era tratado como se fosse um carvão para ser queimado da forma mais descartável possível em suas plantações. Essa mesma classe dominante, historicamente, sempre se caracterizou por sua visão de mundo cosmopolita, além de tratar a questão social como “caso de polícia” e de em 1964 ter sido o braço civil do golpe civil-militar daquele ano.
Essas declarações, obviamente, estão inseridas dentro da situação de crise econômica que o país (e a economia mundial como um todo) se encontra. O trabalhador brasileiro, assim como o trabalhador latino-americano e das demais regiões periféricas do sistema capitalista, está submetido àquilo que o finado sociólogo brasileiro Ruy Mauro Marini (1932 – 1997) chamava de super-exploração[1] da força de trabalho. Assim sendo, carrega sobre suas costas um fardo ainda maior que o trabalhador dos países centrais carrega. Igualmente nesse contexto está inserido o projeto de lei 4330/2004, de autoria de Sandro Mabel (PL-GO), que sob o pretexto de regulamentar a terceirização no país, retira os direitos dos trabalhadores tais como seguridade social e outros (além de reduzir salários). Isso significa nada menos que sacrificar ainda mais o trabalhador para garantir os lucros dos super-ricos brasileiros nesse período de crise e ao mesmo tempo resolver o problema da situação econômica do país sem tocar em seus privilégios (entre eles o de não pagar impostos ao fisco), muito menos nos lucros astronômicos dos banqueiros e outros rentistas através do super-endividamento do estado brasileiro e das altas taxas de juros com que se pagam o serviço das dívidas interna e externa (ou seja, aquilo que Brizola em vida chamava de “perdas internacionais”), assim como no constante assalto que essa gente promove ao estado brasileiro. Ou seja, para a classe dominante nacional, quem tem que pagar o ônus a crise que eles mesmos criam é o povo e não eles. É a velha lógica de ganhos concentrados para poucos e prejuízos socializados para todos (menos eles, obviamente).
Essas propostas no mínimo esdrúxulas da parte do presidente da CNI é uma verdadeira volta ao passado, mais precisamente para a Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, que a época passou pela Revolução Industrial. Ao mesmo tempo em que a Revolução Industrial trouxe muita riqueza para a burguesia inglesa e um grande avanço tecnológico para a humanidade (tais como locomotivas, barcos a vapor, telégrafo, teares mecânicos, entre outros), ela também teve seu lado sombrio. Os operários que trabalhavam nas fábricas comumente trabalhavam debaixo de péssimas condições de iluminação e ventilação, tinham uma vida extremamente miserável, moravam em condições precárias onde o convívio com a falta de higiene era diário e eram comuns jornadas de trabalho que se arrastavam por até 16 horas (ou seja, o trabalhador passava cerca de 2/3 de seu dia na fábrica, tendo de folga praticamente só tempo para dormir) e onde até mesmo mulheres e crianças trabalhavam (para as primeiras a jornada de trabalho variava entre 14 a 16 horas e para as segundas, entre 10 a 12 horas por dia. E ainda assim ganhavam um salário bem miserável). O fantasma do desemprego e da miséria igualmente rondava a massa trabalhadora inglesa, que na época não tinha nem direito a férias e a dias de descanso. Também era uma constante para os trabalhadores ingleses da época acidentes de trabalho decorrentes de explosões nas máquinas que comumente deixavam seus corpos aleijados e/ou mutilados, já que trabalhavam sem equipamento de segurança. E para piorar ainda mais a situação eles não tinham nem mesmo direito a assistência médica e seguridade social.

Foto – Operários ingleses quebrando máquinas de indústrias no período do ludismo.
A situação chegou a tal ponto que os trabalhadores ingleses começaram a se organizar em movimentos, a fazerem greves, criarem sindicatos (chamados nos países de língua inglesa de trade unions) e a lutar por seus direitos. Um deles foi o ludismo, muito forte e ativo na primeira metade da década de 1810 e formado por grupos de trabalhadores que invadiam as fábricas e quebravam as máquinas das indústrias (por eles vistas como a causa da ruína de suas vidas). O ludismo surgiu no contexto das dificuldades econômicas decorrentes das Guerras Napoleônicas e eles conseguiram alguns êxitos, a ponto de fazerem alguns patrões não reduzirem seus salários com receio de futuras revoltas. Para conter esse movimento, as autoridades inglesas recorreram à repressão e a leis que tornavam crime a destruição de máquinas, como a “Frame Breaking Act” e a “Malicious Damage Act” (Lei da quebra de sistemas e Lei dos danos maliciosos, respectivamente). Em 1802 foi promulgada na Inglaterra por iniciativa do então Primeiro Ministro Robert Peel aquela que é considerada a primeira lei trabalhista, a “Moral and Health Act” (Lei da Moral e da Saúde), que estipulava a proibição do trabalho noturno e o máximo de 12 horas para o trabalho infantil. Mas isso não foi o suficiente para conter a insatisfação das massas quanto a sua situação nas fábricas. Em 1830, surgiu o movimento cartista na Inglaterra, que redigiu um documento chamado “Carta ao Povo” e o enviaram ao Parlamento Inglês, reivindicando, entre outras coisas, o sufrágio universal masculino (ou seja, todos os homens teriam direito ao voto). Entretanto, isso só foi conquistado em 1867.

Foto – Jornada de trabalho: CLT atual x Plano Temer.
No decorrer do século XIX, a Revolução Industrial se espalhou para outras partes do globo, alcançando países como França, Alemanha, Estados Unidos, Japão, Rússia e outros. E junto com a difusão da Revolução Industrial, também se difundiram os movimentos em defesa das massas operárias ante a exploração que era submetida no chão das fábricas. A questão dos direitos dos operários foi pela primeira vez discutida em 1848 por Karl Marx e Friedrich[2] Engels[3] em “O Manifesto do Partido Comunista”. Mas foi apenas em 1881 que uma legislação específica para a questão da segurança do trabalhador foi criada. Isso aconteceu na Alemanha, durante o governo de Otto von[4] Bismarck. De acordo com essa legislação, as empresas eram obrigadas a subscreverem apólices de seguros contra acidentes de trabalho, incapacidade, velhice e doenças, assim como o reconhecimento dos sindicatos. Isso abriu o precedente para a criação da responsabilidade social de Estado, seguida por muitos países no decorrer do século XX. Mas foi apenas em 1917 que a jornada de 8 horas por dia, assim como a regulamentação do trabalho feminino e infantil, férias remuneradas e proteção do direito à maternidade foi prevista por lei, foi prevista por lei, pela Constituição do México, que a época passava por um processo revolucionário. Dois anos depois, esses mesmos direitos passaram a ser previstos pelas constituições de países europeus.
No Brasil, as primeiras discussões a respeito de leis trabalhistas no final do Segundo Reinado (1840 – 1889), especialmente após a abolição da escravidão em 1888. As primeiras normas de trabalho surgem em 1891 com o decreto nº 1313, que regulamentou o trabalho dos menores de 12 a 18 anos. Nessa mesma época, surgem as primeiras organizações de trabalhadores e sindicatos em território brasileiro. Mas é apenas depois da criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio da parte de por Getúlio Vargas que a legislação trabalhista tupiniquim toma forma, com a constituição de 1934 sendo a primeira a tratar do tema e assegurando liberdade sindical, salário mínimo, jornada de oito horas, repouso semanal, férias anuais remuneradas, proteção do trabalho feminino e infantil e isonomia salarial. Essa legislação foi mantida na Carta de 1937 e depois transformada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criada em 1943. Mais ou menos nessa mesma época, também nasceram os primeiros sindicatos rurais.
Entretanto, após a era Vargas, os trabalhadores brasileiros enfrentaram uma série de reveses. Durante o governo Castelo Branco (1964 – 1967), já sob o regime civil-militar (que se originou de um golpe de caráter essencialmente patronal), foi implantado o decreto nº 4330, conhecido como a lei anti-greve, que na prática as proibiu devido às muitas regras impostas para sua realização. Na década de 1970, surge no Brasil um novo sindicalismo, cujo núcleo é o ABC paulista. Em 1978, os operários de São Bernardo do Campo (SP) fizeram uma grande que desafiou o regime civil-militar. Ao término da ditadura em 1985, as conquistas dos trabalhadores foram restabelecidas, entre elas o direito à greve e a livre associação sindical e profissional através da lei nº 7783/89. E foi desse sindicalismo nasceu a figura de Lula e do Partido dos Trabalhadores.
Resumindo a ópera: se propostas como a do presidente da CNI vierem a ser aprovadas, toda a história de lutas da classe trabalhadora brasileira será jogada no lixo da forma mais descartável possível. E isso em nome da acumulação do capital e da manutenção dos privilégios dessa gente. E o que é pior: isso, caso venha a se consumar, será a concretização do sonho de Fernando Henrique Cardoso, do alto de sua arrogância e petulância, que ele exprimiu em seu discurso de despedida do cargo de senador em 14 de dezembro de 1994, onde disse que a era Vargas e seu legado era uma página que deveria ser enterrada da história do Brasil. Em outras palavras, a continuação e a intensificação da infame privataria[5] iniciada por Collor e FHC no decênio retrasado. Deixo aqui meus parabéns aos imbecis que, do alto de seu antipetismo raivoso e acéfalo, bateram panela e foram às passeatas de rua pedindo a queda de Dilma e a consumação do golpe judiciário-midiático. Que não reclamem de agora terem de trabalhar durante dois terços de um dia inteiro e que agora aguentem os mandos e desmandos do governo Temer e patota limitada.

Foto – Robson Braga de Andrade, atual presidente da CNI. Crédito: Avante.
Fontes:
As fábricas e os trabalhadores. Disponível em: http://revolucao-industrial.info/as-fabricas-e-os-trabalhadores.html
Com o fim da escravidão, jornada de trabalho de 80 horas. Disponível em: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/com-o-fim-da-escravidao-jornada-de-trabalho-de-80-horas
Darcy Ribeiro, sobre a elite. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SX5O-IAyO38
FHC decreta o fim da Era Vargas. Quá, quá, quá!! Disponível em: http://www.conversaafiada.com.br/politica/2014/08/24/fhc-decreta-o-fim-da-era-vargas-qua-qua-qua
Luddite (em inglês). Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Luddite
Nildo Ouriques – onde é gasto o dinheiro público? Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jXfobSEsY0I
Nildo Ouriques – os três níveis da corrupção. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xbgVmPeVn08
Pela jornada de 80 horas para quem vestiu camisa verde e amarela. Disponível em: http://www.blogdacidadania.com.br/2016/07/pela-jornada-de-80-horas-para-quem-vestiu-camiseta-amarela/
Presidente da CNI fala em mudar lei trabalhista e cita jornada de 80 horas. Disponível em: http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/07/cni-elogia-meta-fiscal-de-2017-mas-se-diz-contra-aumento-impostos.html
Privatización y Privatería (em espanhol). Disponível em:
Documentário: Ruy Mauro Marini e a dialética da dependência. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ww4_HoY-UYA
Ruy Mauro Marini. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ruy_Mauro_Marini
Super-exploração do trabalho. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Superexplora%C3%A7%C3%A3o_do_trabalho

NOTAS:

[1] De acordo com Ruy Mauro Marini, o conceito de super-exploração da força de trabalho, abordado pela primeira vez em sua obra Subdesarrollo y revolución (1968), é a combinação da mais-valia absoluta com a mais-valia relativa através da intensificação na exploração da mão-de-obra. Tal conceito, que é a base da teoria marxista da dependência, consiste dos mecanismos que a burguesia de um país periférico dentro da engrenagem capitalista mundial utiliza para aumentar ainda mais a mais-valia extraída das massas trabalhadoras, já que essa mesma burguesia, por sua condição de sócia minoritária do capital transnacional, tem que reparti-la com seus sócios estrangeiros. O resultado prático disso seria a realimentação da situação de dependência em relação aos países centrais da engrenagem capitalista mundial e a manutenção do subdesenvolvimento, mesmo com a existência de uma industrialização interna.
[2] Leia-se “Friedrirr”, pois no alemão a partícula ch tem o mesmo valor do h no inglês, do j e do g quando sucedido por e ou i no espanhol e o kh no russo: r aspirado.
[3] Leia-se “Enguels”, pois no alemão, assim como em idiomas como o russo, o mongol, o japonês, o polonês e outros, o som da partícula g não muda conforme a vogal seguinte tal qual nas línguas latinas e no inglês.
[4] Leia-se “Fon”, pois no alemão a partícula v tem som de f.
[5] O termo privataria é um neologismo que une as palavras privatização e pirataria. Foi criado pelo jornalista brasileiro Hélio Gaspari e popularizado pelo também jornalista Amaury Ribeiro (autor do livro “A Privataria Tucana”, sobre as falcatruas do processo de privatização no Brasil durante o governo Fernando Henrique Cardoso [1995 – 2002]).

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Após os atentados em Dallas, policiais prendem pessoas devido a críticas no Facebook e no Twitter.

Por Naomi LeChance

Tradução por Lucas Novaes

Quatro homens em Detroit foram presos na última semana devido a postagens na mídia social categorizadas como ameaçadoras pelo chefe de polícia. Um tweet que resultou em prisão dizia que Micah Johnson, o homem que atirou nos oficiais da polícia em Dallas na última semana, era um herói.
"Eu sei que essa é uma questão nova, mas eu quero que essas pessoas sejam acusadas de crimes,", disse o chefe da polícia James Craig. "Eu direcionei meus oficiais à prepararem mandados para esses quatro indivíduos, e nós veremos qual instância é a melhor para prosseguir os processos", ele acrescentou.
Quatro oficiais da polícia foram mortos nos tiroteios em Dallas, constituindo o maior número de casualidades policiais em um ataque desde o 11 de Setembro. E como resultado disso, agentes da lei por toda parte estão mais sensíveis a ameaças contra suas vidas.
Mas um resultado desse comportamento por parte dos policiais foi que diversos departamentos de polícia em todo o país prenderam indivíduos por postagens em contas nas mídias sociais, geralmente vindos de cidadãos - o que resultou em preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.
"Prender pessoas por discursos é algo no qual devemos tomar muito cuidado," Bruce Schneier; tecnólogo de segurança do Centro para Internet & Sociedade Klein Center na Universidade de Harvard, disse The Intercept (publicação on-line estadunidense).
No último final de semana em Connecticut, a polícia prendeu Kurt Vanzuuk após comentários do mesmo no Facebook que exaltavam Johnson como um herói e pediam morte aos policiais. Ele foi processado por incitar injúria à pessoas ou propriedade.
Uma mulher de Illinois, Jenesis Reynolds, foi presa por escrever em um post no Facebook que ela atiraria em um oficial que a abordasse de maneira agressiva. "Eu não me importaria em atirar em um policial por uma parada simples no tráfico porque eles não se importam em fazer o mesmo comigo," ela escreveu, de acordo com a investigação policial. Ela foi processada por conduta desordeira.
Em Nova Jersey, Rolando Medina foi preso e processado por assédio virtual. Ele supostamente teria postado em uma rede social não identificada que ele iria destruir a sede da polícia local. Em Louisiana, Kemote Gilmore foi preso por um vídeo online em que ele supostamente teria ameaçado um oficial da polícia. Ele foi processado por intimidação pública.
"Certamente, postar aquele tipo de conteúdo em mídias sociais é um pensamento ruim," disse Larry Dublim, professor da Universidade de Detroit, ao Detroit News. "Mas ter um pensamento ruim não é necessariamente um crime"
O policiamento de ameaças online não é uma questão nova. A Suprema Corte americana marcou um precedente no ano passado quando ordenou que promotores procurando comunicar ameaças necessitam provar tanto que que pessoas racionais enxergariam as afirmações como ameaça como que o objetivo era de ameaçar. O caso "Elonis v. Estados Unidos" lidou com um homem que postou letras violentas de rap sobre sua distante esposa; a corte reverteu sua condenação.
"Após o incidente em Dallas, ameaças parecem ser mais ameaçadores aos oficiais da polícia espalhados pelo país," disse Daniel Medwed, professor de direito da Universidade do Nordeste. "Nós estamos vendo mais prisões agora porque a polícia irá interpretar que eles possuem um motivo provável para realizar a prisão," ele disse. "Mas isso não significa que isso irá resultar em condenações," adicionou.
Schneier pediu que a aplicação da lei seja cautelosa. "Isso é complicado," ele disse. "Nós não sabemos como fazer isso - nós estamos fazendo isso muito mal e precisamos melhorar"
Mas ele disse que isso era um sinal dos tempos. Atualmente, quase todas as comunicações são gravadas de alguma forma. "Esse novo mundo onde coisas não são esquecidas será diferente," Schneier disse. "E você está presenciando uma manifestação disso em comentários casuais que estão resultando em prisão."

Texto original em inglês:

https://theintercept.com/2016/07/12/after-dallas-shootings-police-arrest-people-for-criticizing-cops-on-facebook-and-twitter/