segunda-feira, 11 de setembro de 2023

As imprecisões de Mansur Peixoto: Poitiers, Lepanto e a lenda negra espanhola

 

Foto – Mansur Peixoto.

Em 22 de agosto de 2023, Mansur Peixoto, dono do site e do canal do You Tube História Islâmica, postou um vídeo no qual responde a algumas assertivas do vídeo sobre as cruzadas do canal Impérios AD, do professor Thiago Braga, e datado de 6 de outubro de 2019. O mesmo Thiago Braga com o qual Mansur Peixoto travou uma polêmica no começo do ano, em um debate que girou em torno dos temas conquista islâmica da Ibéria e os anos de domínio islâmico sobre a maior parte da Ibéria.

Assim como em outro vídeo anterior, Mansur Peixoto rechaça a ideia de que as Cruzadas salvaram a Europa de ser conquistada por hostes islâmicas. Assino embaixo com ele nesse ponto, visto que no século XI, como ele mesmo disse várias vezes, o poder islâmico na Europa estava em uma situação de recuo: após quase uma centúria de existência o emirado do Fraxinetum no sul da França foi riscado do mapa após a vitória dos provençais lideradas por Guilherme I de Provença sobre os sarracenos na batalha de Tourtour, em 973 (ou seja, mais de 100 anos antes da convocação da Primeira Cruzada, em 1095); os normandos tomaram os reinos advindos da fragmentação do emirado da Sicília entre 1061 e 1091; e na Ibéria o califado de Córdoba se fragmentou nos reinos taifa em 1031, com os reinos cristãos se aproveitando da situação para avançar e tomar praças fortes até então sob o domínio islâmico, a exemplo de Toledo, capital do reino visigótico eliminado pelos mouros no século VIII, em 1085.

E não apenas isso: os enfrentamentos entre muçulmanos e cristãos nas cruzadas em sua maioria se deram no Oriente Médio, na região entre a Palestina e o Levante. Houve sim cruzadas que tiveram lugar na Europa, mas a maioria delas não foi direcionada contra poderes islâmicos, e sim contra outros cristãos, como no caso da Cruzada Albigense na França entre 1209 a 1244 contra a seita dos cátaros e a Quarta Cruzada contra o Império Bizantino (que terminou com o saque de Constantinopla, em 1204), assim como as cruzadas do Norte contra os povos pagãos da região do Mar Báltico levadas a cabo por ordens militares como os Cavaleiros Teutônicos e Livonianos. Durante anos a Lituânia, nos primórdios de sua história, teve que enfrentá-los, e várias vezes eles tentaram invadir as terras russas, entre elas a República de Novgorod.

Antes mesmo da vinda dos mongóis às terras russas pelo leste os cruzados ocidentais, uma vez estabelecidos nas atuais Estônia e Letônia, já vinham promovendo suas invasões sobre principados russos do norte como a República de Novgorod e Pskov (vide cruzadas suecas ainda no século XII e enfrentamentos em Tartu em 1215 e 1224 contra a Ordem dos Irmãos Livonianos da Espada).

O grão-príncipe Alexandre Nevskij os venceu duas vezes: venceu os suecos na batalha do rio Neva (tratada próxima à atual São Petersburgo) em 1240 e os cavaleiros livonianos em 1242, na batalha do lago Čudskoe (também conhecida como a batalha sobre o gelo). No período soviético, mais precisamente em 1938, um filme a respeito da vida de Alexandre Nevskij foi produzido sob a direção de Sergej Eisenstein e com o compositor Sergej Prokofiev à frente da trilha sonora. Este filme foi produzido no contexto da iminente invasão nazista à União Soviética, e dá ênfase especial ao episódio da batalha de 1242.

Outros ataques de cavaleiros ocidentais contra Novgorod e outros principados russos do norte se seguiram nos anos seguintes, como em 1262 (segundo cerco de Juriev – atual Tartu, Estônia) e 1268 (batalha de Rakovor). E isso em parte ajudou a levar o príncipe de Novgorod Alexandre Nevskij a buscar uma aliança com a Horda Dourada (um dos quatro khanatos que emergiram com a fragmentação do Império Mongol a partir de 1260), visto que esta se limitava a cobrar tributos dos principados russos e não estabeleceu ocupação direita sobre as terras russas.

Foto – Batalha do Lago Čudskoe, 1242. Miniatura da crônica ilustrada de Ivã o Terrível, segunda metade do século XVI.

Também concordo com ele que por vezes se atribui um significado um tanto quanto exagerado a batalhas como Poitiers, Lepanto e os dois cercos turcos a Viena. Não dá para saber ao certo se as hostes islâmicas dariam continuidade à marcha conquistadora (quer seja por uma questão de limite logístico, quer seja por uma eventual derrota em enfrentamentos posteriores) caso as batalhas em questão fossem por elas vencidas. Porém, com algumas ressalvas, visto que dentro dos enfrentamentos entre potentados islâmicos e cristãos ao longo de séculos ainda assim elas tiveram sua importância.

Foto – Batalha de Poitiers (732), por Charles de Steuben (1788 – 1856).

A respeito da batalha de Potieirs, ocorrida em 732 entre as hostes do califado Omíada e do reino franco sob a liderança de Carlos Martel, diz Mansur Peixoto (citando outros historiadores) que a força invasora não tinha a intenção de conquistar o Reino Franco, e sim de pilhar e saquear as áreas ao norte dos Pirineus. E a despeito das derrotas para os francos, chegaram a estabelecer domínio sobre algumas regiões do sul da França, em especial sobre a região da Septimânia (onde se encontra cidades como Narbonne, Perpignan e Carcassone). Até 737 mantiveram controle sobre Avignon e Nimes (quando ambas as cidades foram tomadas por Carlos Martel em dois cercos), e apenas em 759 que os muçulmanos viriam a ser expulsos da Septimânia com a tomada de Narbonne.

O que Mansur Peixoto não percebe é o seguinte. Nas invasões à Gália as hostes islâmicas chegaram ao norte até Autun e Sens em 725 e até o vale do Loire em 732. Ou seja, avançaram até o coração da França. Chegaram a pontos não muito distantes de Paris (Sens está a 120 quilômetros ao sul da capital francesa). No que constituíram os avanços mais ao norte de hostes islâmicas sob o Califado Omíada (661 – 750).

Mesmo que a hoste islâmica vencida na batalha de Poitiers tenha tido a intenção de pilhar a Gália, e não conquistá-la (quer seja para estabelecer um domínio direto e estabelecer guarnições nas cidades francesas, quer seja para estabelecer uma vassalagem tributária sobre as regiões ao norte dos Pirineus), quem não me garante que uma vez vitoriosa e percebendo a fraqueza do Reino Franco não iria em seguida organizar de fato uma campanha de conquista do mesmo?

Foto – Mapa da marcha da invasão islâmica à Gália nos anos 720 e 730.

Na história da Rússia há um episódio similar, ocorrido nos anos de 1571 e 1572, durante o reinado de Ivan IV o Terrível. De tempos em tempos o khanato da Criméia (um dos estados sucessores da Horda Dourada que surgiu na metade do século XV, cuja capital era a cidade de Bakhčisaray) promovia incursões de pilhagem e de captura de cativos (os quais por sua vez eram enviados ao porto de Kaffa [atual Feodosija] na Criméia e de lá vendidos como escravos a outros pontos do Império Otomano) sobre as terras russas e até mesmo sobre a Polônia-Lituânia. Um desses vários ataques teve lugar em 1571 (ou seja, no mesmo ano da batalha de Lepanto no Mar Mediterrâneo), no qual uma hoste tártara pilhou e incendiou Moscou.

Embalados pelo sucesso no ano anterior e se aproveitando do fato de que as fronteiras meridionais da Rússia estavam desprotegidas por esta estar ocupada com a guerra da Livônia contra a Suécia no Báltico, os tártaros voltaram no ano seguinte com a intenção de conquistar a Rússia Moscovita (que anos antes, mais precisamente entre 1552 e 1556, tomou os khanatos islâmicos da bacia do Rio Volga – Kazan e Astrakhan, algo que repercutiu bem negativamente no mundo turco; além disso, fez malograr a tentativa turco-tártara de tomar Astrakhan em 1569) e reestabelecer o jugo tributário exercido pela Horda Dourada até 1480 sobre as terras russas.

Uma hoste de cerca de 40 mil a 60 mil homens (incluindo janízaros fornecidos pela Sublime Porta) foi enviada à Rússia. Só que dessa vez os russos, com um exército de cerca de 23 a 25 mil homens, se preparam para a nova invasão e ao contrário do ano anterior, venceram os tártaros da Crimeia na batalha de Molodi, travada entre 29 de julho e três de agosto em um ponto a cerca de 50 quilômetros ao sul de Moscou. Sob a liderança dos príncipes Mikhail Vorotynskij e Dmitrij Khvorostinin, os russos utilizaram com grande eficácia a artilharia e as fortalezas móveis guljaj gorod (cirílico гуляй город) neutralizaram a retaguarda adversária. O khan da Criméia, Devlet I Giray, que esteve pessoalmente presente no campo de batalha, perdeu nessa batalha os filhos, o neto e o genro e fugiu do campo de batalha para não ser morto.

A vitória sobre a hoste turco-tártara em Molodi foi tão severa tanto para Constantinopla quanto para Bakhčisaray, visto que depois disso nunca mais planejaram conquistar a Rússia. A influência outrora exercida por Constantinopla e seu vassalo peninsular sobre a bacia do rio do Volga igualmente foi rompida. Para Moscou a vitória em Molodi igualmente teve grande importância geopolítica, visto que permitiu a manutenção e a defesa dos feitos dos 100 anos anteriores, tais como independência, unidade e controle sobre Kazan e Astrakhan. Nos anos e séculos seguintes, a Rússia tornar-se-ia um dos principais adversários do Império Otomano e tomou da Sublime Porta regiões como a Criméia e as áreas ao norte do Mar Negro durante o reinado de Catarina a Grande (r. 1762 – 1796) e a Bessarábia (atual Moldávia) em 1812, já no reinado de Alexandre I (r. 1801 – 1825).

Foto – Pedra fundamental em memória da Batalha de Molodi, na cidade homônima situada na oblast de Moscou.

Além disso, outra afirmação um tanto quanto problemática da parte dele foi dizer a batalha de Poitiers não parou o avanço islâmico sobre a Gália visto que anos mais tarde, mais precisamente em 889, na região da Provença, foi estabelecido o emirado do Fraxinetum por um grupo de piratas e aventureiros vindos do califado de Córdoba.

Só que entre a batalha de Poitiers e o estabelecimento do Fraxinetum passaram-se 157 anos. E entre a retirada islâmica da região da Septimânia (759) e o estabelecimento do Fraxinetum, passaram-se 130 anos.

E que no meio desses eventos houve o Império de Carlos Magno, que não só manteve relações com o Califado Abássida, como também avançou sobre território islâmico na Ibéria (vide a famosa batalha de Roncesvales, ocorrida em 778, na qual a retaguarda do exército franco foi dizimada pelos bascos e que serviu de inspiração para o épico medieval A Canção de Rolando) e lá estabeleceu a Marca Hispânica no que hoje é a região da Catalunha no nordeste da Espanha. Marca essa que serviu de embrião para o surgimento do reino de Aragão, um dos reinos que séculos mais tarde desempenhou papel significativo não apenas no processo da Reconquista, como também da formação do Estado nacional espanhol, com o casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os reis católicos, em 1469.

O estabelecimento do Fraxinetum se dá em uma época em que o poder central no Reino Franco (dividido em 843 em três partes por meio do Tratado de Verdun) estava bem enfraquecido, e dessa forma este passou a ser alvo de invasões não só de piratas sarracenos pela costa sul, como também de piratas normandos (também chamados de vikings) nas regiões costeiras e mesmo no interior (Paris foi duas vezes atacadas por bandos vikings) e de magiares no leste. Dessa forma, a autoridade central do reino franco já não podia mais responder com a mesma eficácia de antes às investidas.

Sob o Fraxinetum as hostes islâmicas avançaram a regiões antes intocadas por elas, entre elas o Piemonte no noroeste da Itália e o mosteiro de San Gallo na Suíça. Só que nenhuma das incursões islâmicas pós-Poitiers chegou tão ao norte na França quanto, visto que estes se limitaram a incursionar sobre regiões do sul da França. Ou seja, depois de Poitiers o expansionismo islâmico sobre a Gália nunca mais se repetiu com o mesmo ímpeto de antes, a ponto de exercer uma séria ameaça à existência do reino franco enquanto entidade política.

As invasões de piratas sarracenos sobre o sul da França e outras partes do Mediterrâneo ocidental continuam até a primeira metade do século XIX, e só após a conquista francesa da Argélia em 1830 que ela chega ao fim.

Foto – Batalha de Lepanto (1571), por Giorgio Vasari (1511 – 1574).

Sobre Lepanto, ele diz que depois da batalha de Lepanto houve avanços das hostes do Império Otomano sobre partes da Europa e do norte da África, incluindo a retomada da Tunísia em 1574 e ataques de corsários a serviço da Sublime Porta às áreas costeiras da Itália, da França, da Espanha, da Inglaterra, da Irlanda, da Suécia e até da Islândia nos séculos XVII e XVIII (vide o ataque à Islândia em 1627).

É fato que o poder otomano sobre a Europa só vai sofrer perdas expressivas a partir da segunda metade do século XVII, em decorrência da derrota no segundo cerco à Viena e a subsequente conquista austríaca da Hungria, Croácia, Transilvânia e Eslavônia nos anos 1690, ratificada por meio do Tratado de Karlowitz (1699). Entretanto, a despeito desses avanços islâmicos posteriores, a batalha de Lepanto, além de confirmar a divisão do Mediterrâneo em uma esfera oriental sob o controle otomano e uma metade ocidental sob o controle dos Habsburgos e seus aliados italianos, também exerceu importante impacto psicológico, ao mostrar que os turcos, antes imparáveis, podiam ser derrotados pelos poderes cristãos europeus.

Foto – Enfrentamento entre Aleksandr Peresvet, campeão da hoste russa, e Čelubej, campeão da hoste tártara, durante a batalha do campo de Kulikovo (1380). Por Viktor Mikhailovič Vasnecov (1848 – 1926).

Na história da Rússia há outro episódio similar: em 1380, os russos sob a liderança de Dmitrij Donskoj vencem as hostes tártaras, sob a liderança do general Mamaj, à época o homem-forte da Horda Dourada, na batalha do campo de Kulikovo. Dois anos depois, Tokhtamyš, à época apoiado por Tamerlão, reimpõe o jugo tártaro às terras russas ao invadir e pilhar cidades como Moscou e outras. Após a guerra contra Tamerlão, a Horda Dourada, sob a liderança de Temur Khutlug e Edigu, venceu a Lituânia na batalha do rio Vorskla em 1399 e após a vitória contra os lituanos sitiou Kiev (à época sob o domínio polaco-lituano) no mesmo ano.

Em 1408 o emir Edigu voltou a invadir as terras russas (Moscou inclusa) em 1408. Edigu também sitiou e pilhou Kiev em 1416. Depois de 1416 outras incursões punitivas tártaras vindas da Horda Dourada (à época às voltas com o processo de fragmentação territorial que levou à sua destruição final em 1502) seriam lançadas contra as terras russas até 1472 (vide batalha em Aleksin), a maioria delas sem o mesmo sucesso de antes.

Dessa forma, a batalha de Kulikovo não colocou fim ao jugo tributário tártaro-mongol sobre as terras russas, mas ainda assim exerceu efeito psicológico importante ao mostrar aos russos (sob a liderança do Principado de Moscou) que sim, eles eram sim capazes de vencer os tártaros no campo de batalha. Apenas em 1480 que o jugo da Horda Dourada sobre as terras russas chegaria ao fim. Sob a liderança do grão-príncipe de Moscou Ivan III o Grande (o qual se casou em segundas núpcias com Sofia Paleóloga, sobrinha do último imperador bizantino), os russos venceram os já bem enfraquecidos tártaros na grande espera sobre o Rio Ugra. E ainda assim, mesmo após a espera sobre o Rio Ugra, a Rússia teve que lidar com as incursões de pilhagem tártaras vindas do khanato da Criméia até a segunda metade do século XVIII. Até Catarina a Grande destruir o khanato da Criméia em 1783.

E por último, a parte mais importante. Voltando ao debate anterior dele com Thiago Braga em torno do tema Al-Andalus e a conquista islâmica da Ibéria na primeira metade do século VIII.

A meu ver a questão principal em torno desse tema sobre a qual nenhum dos dois falou não é se Al-Andalus, em especial a Al-Andalus do período de maior poderio e esplendor, no caso a Al-Andalus do período omíada (756 – 1031; emirado até 929, em seguida califado), era ou não era o paraíso romantizado que é apresentado ou se era ou não um lugar opressivo onde cristãos e judeus eram perseguidos.

Se lá tinha ou não tinha conflitos e contradições internas, as quais inclusive levaram ao estilhaçamento do califado de Córdoba nos reinos de taifa em 1031 e o posterior e gradativo deslocamento da balança de poder na Ibéria do sul islâmico para o norte cristão a partir desta data (diga-se de passagem, é interessante notar que o califado de Córdoba foi reduzido a farelo e escombros menos de 30 anos após a morte do comandante militar Al-Mansur, notório por suas numerosas campanhas vitoriosas contra os reinos cristãos do norte no final do século X – vide o ataque a Santiago de Compostela de 997, no qual os sinos da Igreja foram tirados da Igreja de Compostela e em seguida enviados a Córdoba nos ombros de prisioneiros cristãos, e só sendo enviados de volta à Compostela com a conquista de Córdoba pelos cristãos em 1236).

A questão é como que essa questão da Al-Andalus romantizada entra na lenda negra espanhola. Em outras palavras, como que a Al-Andalus das três culturas e idealizada como um período no qual judeus, muçulmanos e cristãos conviviam de maneira harmoniosa e pacífica (sem levar em conta que a história do poder islâmico na Ibéria se estendeu por quase 800 anos e que nesse ínterim mudanças dinásticas ocorreram, e que a Al-Andalus do século XV não é a coisa que a Al-Andalus do século VIII ou do X) e, dentro de uma visão liberal anacrônica que não leva em consideração as particularidades e especificidades daquele período, sendo tratada e apresentada como se fosse um paraíso multicultural e um oásis de tolerância religiosa no mundo medieval (sendo que a própria história da experiência islâmica na Ibéria registra episódios de perseguições religiosas, vide o motim de Granada de 1066 e as perseguições contra cristãos e judeus nos períodos almorávida e almoada), alimenta a lenda negra espanhola.

Foto – Estátua de Al-Mansur, comandante militar e homem forte do califado de Córdoba (c. 939 – 1002) no final do século X e começo do século XI, em Algericas. Erguida em 2002 por conta dos mil anos de seu falecimento.

Para quem não sabe, a lenda negra espanhola é um mito criado por holandeses e ingleses na sequência da conquista espanhola das Américas no século XVI. Um mito que na Holanda surge no contexto da luta de libertação da Holanda do jugo espanhol, a chamada Guerra dos oitenta anos (1568 – 1648), e na Inglaterra no contexto do rompimento da Inglaterra com o Papa de Roma em decorrência da reforma anglicana do reinado de Henrique VIII e as guerras entre ingleses e espanhóis nos séculos XVI e XVII (vide o episódio da invencível armada de 1588, destroçada por uma tempestade marítima).

Para criar este mito, os holandeses e ingleses se utilizaram da obra do frei e cronista espanhol Bartolomé de las Casas, “O paraíso destruído: brevíssima relação da destruição das Índias ocidentais” e a traduziram. A Lenda Negra criada por holandeses e ingleses a partir do século XVI e que gira em torno principalmente de dois temas: a Inquisição Espanhola e a Conquista da América. Mito esse que, com o passar do tempo, logrou criar uma imagem bem negativa não só da Espanha como também de Portugal e quem vem sendo replicado em diversos meios, e sem que a devida crítica seja feita.

Foto – Bartolomé de Las Casas (1484 – 1566).

E as consequências da lenda negra (ou se preferirem, das lendas negras) que surgiu a partir do século XVI chegam até os dias de hoje. Dentro da política espanhola hodierna, a lenda negra não só ajuda a alimentar o separatismo em regiões como a Catalunha e o País Basco, como também ajuda a criar um fosso entre a Espanha e suas ex-colônias americanas. E em última análise, alimentam nos países sul-americanos não apenas depredações de monumentos a personagens ligados ao passado colonial espanhol (vide casos o ocorrido na cidade chilena de La Serena em 2019), como também separatismo mapuche em países como a Argentina e o Chile. E é essa a tônica da lenda negra que pode ser vista, por exemplo, na ideologia indigenista que o pessoal do IELA (Instituto de Estudos Latinos Americanos) parece professar aqui no Brasil.

No caso brasileiro, lendas negras em torno da colonização portuguesa sobre a América Portuguesa ajudam não só a alimentar o ranço idiota e estúpido que muitos brasileiros têm para com Portugal (a ponto de achar que teria sido melhor para o desenvolvimento ulterior do país uma colonização inglesa, holandesa ou mesmo francesa), como também separatismo indígena em várias partes do país (vide a questão da atuação de ONGs internacionais na Amazônia) e episódios lamentáveis como depredações e queimas de estátuas como a de Borba Gato e a de Pedro Álvares Cabral.

O fato é que por vezes Al-Andalus é apresentada como se fosse uma espécie de paraíso perdido, um oásis de tolerância no mundo medieval no qual havia a convivência entre três culturas, como se fosse a antítese da Espanha intolerante, violenta e truculenta por natureza (sendo que aqueles que criaram a Lenda Negra também promoveram ferozes perseguições contra católicos que se mantiveram fiéis a Roma e queimaram bruxas a rodo).

Uma deputada do partido espanhol Podemos, Isabel Franco, em 2021 disse que em Al-Andalus havia a convivência entre judeus, muçulmanos e cristãos e que a monarquia espanhola promoveu uma invasão, um genocídio e uma ocultação. 

Sendo que a mesma Al-Andalus foi estabelecida por meio de uma invasão que destruiu o poder visigótico na Ibéria (que por sua vez também entraram na mesma Ibéria como conquistadores no século V desalojando os romanos). E que Al-Andalus, antes de tudo, foi destruída por conta de suas contradições e conflitos internos cujos soberanos não souberam administrar, a começar pela fitna (guerra civil) no Califado de Córdoba a partir de 1009 que leva à ruína do mesmo e ao surgimento dos reinos taifas. Os reis católicos espanhóis apenas deram o golpe de misericórdia que no que restava do combalido poder islâmico na Ibéria em 1492, quando tomaram a cidade de Granada. Da mesma forma que Odoacro fez o mesmo com o Império Romano do Ocidente em 476 ao tomar Roma e o sultão Mehmet II fez o mesmo com o Império Romano do Oriente ao tomar Constantinopla (atual Istanbul) em 1453.

Ou seja, pode-se dizer que nesse ponto a visão romantizada sobre Al-Andalus é usada por alguns políticos espanhóis como forma de justificar agendas como uma abertura ainda maior do país à imigração vinda de fora da Europa e implantação de agenda multiculturalista e politicamente correta em solo espanhol.

A ideia é clara: pintar as nações ibéricas nas piores cores possíveis e mostrar que elas, de nascença (ou seja, no processo de formação das monarquias ibéricas), já eram uma coisa ruim por natureza. Como se fossem uma espécie de Galactus que destrói tudo por onde passa, deixando para trás nada além de destruição, desolação e iniquidade.

O fato é que do ponto de vista político a lenda negra age como se fosse uma espécie de punhal a ser fincado no ventre das nações ibéricas. Se a Espanha vem aceitando passivamente há tempos a história que ingleses e holandeses criaram sobre o período de maior poderio e esplendor dela, não será nenhuma surpresa se daqui um tempo aceitar passivamente que o país se fragmente em vários pedaços e a Catalunha, o País Basco, a Andaluzia, a Galiza e outras regiões formem suas taifas.  Ou mesmo a Argentina e o Chile aceitarem passivamente que a Patagônia e a Terra do Fogo se tornem um grande Mapuchistão e o Brasil aceite passivamente a perda da Amazônia para as ONGs internacionais que lá atuam, sob o pretexto da proteção e da preservação étnica e cultural das populações indígenas que lá vivem.

Fontes:

A lenda negra da conquista espanhola. Disponível em: A Lenda Negra da Conquista Espanhola: Ingrediente do Imperialismo Cultural Anglo-Americano | Nova Resistência (novaresistencia.org)

Битва при Молодях (em russo). Disponível em: Битва при Молодях — Википедия (wikipedia.org)

Leyenda Negra. Disponível em: Leyenda Negra - Curiosidades - InfoEscola

Leyenda Negra e Leyenda Branca. Disponível em: Leyenda Negra e Leyenda Branca | ANPHLAC

Capitulos para una historia mentida (X): Otros mitos de la leyenda negra (em espanhol). Disponível em: Capítulos para una historia mentida (X): Otros mitos de la Leyenda Negra (linkedin.com)

Осада Киева (1399 – em russo). Disponível em: Осада Киева (1399) — Википедия (wikipedia.org)

Северные крестовые походы (em russo). Disponível em: Северные крестовые походы — Википедия (wikipedia.org)

Ukrainian nationalism and his roots (em inglês). Disponível em: Ukrainian nationalism – its roots and nature | The Vineyard of the Saker

sábado, 19 de agosto de 2023

As imprecisões de Thiago Braga: ou da falsa dicotomia entre revoluções políticas e saltos tecnológicos

 

Foto – Thiago Braga

No dia 28 de maio de 2023 o professor Thiago Braga (dono dos canais do You Tube Impérios AD e Brasão de Armas) postou um vídeo sobre o tema Revolução Industrial no canal Impérios AD. 

O vídeo em questão, de 12 minutos e 35 segundos ao todo, gerou uma polêmica com o professor esquerdista Gustavo Nassar Gaiofato, do canal História Cabeluda, no qual este respondeu com um vídeo de 32 minutos no qual reage e responde às assertivas do professor direitista.

Dias depois veio a resposta de Thiago Braga. 

Na sequência, a réplica de duas horas de Gaiofato. 

E por fim, a tréplica de Thiago Braga, de duas horas de duração. 

Depois da tréplica, Gaiofato não fez mais questão de responder Braga.

Foto – Gustavo Nassar Gaiofato.

E esta, diga-se de passagem, não foi a primeira vez em que Thiago Braga se envolve em polêmicas similares no You Tube: ainda no começo do presente ano, ele lançou no canal Brasão de Armas um vídeo sobre os mitos da história do Islã. 

Eu mesmo, quando vi o vídeo em questão pela primeira vez, pensei comigo mesmo que seria questão de tempo o Mansur Peixoto, do canal História Islâmica, postar um vídeo respondendo ao professor direitista. E não deu outra. Mansur Peixoto postou um vídeo respondendo a Thiago Braga, seguido de réplica e tréplica de ambas as partes. 


O debate girou em torno dos temas conquista islâmica da Península Ibérica nos anos 710 e o subsequente domínio islâmico sobre grande parte da Ibéria no período entre 711 a 1492 (e pelo visto a parte dois da polêmica entre os dois é questão de tempo, visto que Mansur Peixoto já escreveu artigo no site dele rebatendo o último vídeo de Thiago Braga, a respeito da batalha de Ourique, ocorrida em 1139 entre o Condado Portucalense e o Califado Almorávida).


Sabendo dessa última polêmica e de toda a repercussão que ela gerou (visto que ela foi muito comentada em vários canais de direitistas do You Tube, e a própria plataforma indicou a mim vídeos relacionados a essa polêmica), resolvi ver o vídeo em questão, o ponto zero da polêmica entre Thiago Braga e Gustavo Gaiofato.

Nos vários vídeos do You Tube, vê-se o pessoal dizendo que Thiago Braga triturou Gaiofato (com direito a direitistas reagindo aos vídeos da polêmica entre os dois, geralmente favoráveis ao primeiro). Sim, de fato, Braga triturou Gaiofato. Só que, por outro lado, eles não notaram um pequeno detalhe. Mais precisamente, um misto de esperteza e malandragem da parte de Braga: ele fez com que Gaiofato caísse na arapuca que ele mesmo criou. E isso é o que torna ainda mais patética a atuação de Gaiofato no debate.

O que era para ser um debate a respeito do tema Revolução Industrial, no fim das contas acabou virando um debate sobre os temas da Revolução Cubana e do desenvolvimento econômico e social de Cuba após a revolução de 1959.

Na primeira resposta a Gaiofato, aproveitando-se de uma fala de cerca de dois minutos sobre Cuba e o processo revolucionário liderado por Fidel Castro e Che Guevara, Thiago Braga fez um cherry-picking (expressão da língua inglesa que significa escolher algo a dedo) e jogando nos erros de Gaiofato respondeu falando praticamente que o tempo todo sobre Cuba e não disse uma única palavra sobre o que ele depois falou sobre o tema Revolução Industrial. Em outras palavras, ao ver que Gaiofato falou ainda que por cerca de dois minutos sobre Cuba, Braga aproveitou-se do “deslize” dele para direcionar o debate na direção por ele desejada. E ao direcionar o debate na direção por ele desejada, literalmente destroçou Gaiofato. Como se Gaiofato fosse um animal atolado na lama e debatendo-se, tentando sair da lama e quanto mais ele tentava sair da lama mais ele se atolava.

Para além de um anticomunismo barato e tosco (ou seja, a típica tática de jogar para a torcida), as falas de Thiago Braga de modo geral me passam a impressão de que a Revolução Industrial brotou do nada, do zero. Como se fosse uma espécie de deus ex machina que veio dos céus e tão logo se consumou se tornou realidade mudou radicalmente a vida das pessoas de uma hora para a outra. Sendo que, como veremos mais abaixo, isso está muito longe de ser verdade.

E o que é pior: ele aponta o dedo para as revoluções socialistas do século XX por conta do custo humano das mesmas (muito em decorrência de conflitos internos e externos e de disputas de poder), sendo que a Revolução Industrial também teve o custo humano dela (o qual ele cita bem pelo alto, para ser justo com ele). Vide todo o desemprego tecnológico por ela gerado por conta da invenção de máquinas como o tear mecânico (no que a médio e longo prazo fez com que os operários se organizassem em movimentos como o ludismo e o cartismo, notórios por suas depredações de maquinário industrial). O êxodo do campo para as cidades causado pelos cercamentos das terras comunais dos camponeses ingleses, algo que já ocorria desde o fim da Idade Média, mas que se intensificou a partir do século XVII e que não apenas dificultou a sobrevivência de grande parte da população camponesa como também provocou uma tensão social muito sentida na primeira metade do século XVII, a qual gerou um grande de fluxo de migração para as colônias britânicas na América do Norte. E mais as extenuantes jornadas de trabalho que chegavam a 14 horas e na qual havia até trabalho infantil. Não eram raros casos nos quais trabalhadores ficavam aleijados por conta de acidentes com as máquinas e até morriam de exaustão. Nas colônias, por conta da concorrência com a produção inglesa baseada em manufaturas houve a destruição e desarticulação da indústria têxtil indiana, baseada no artesanato, no que gerou muita miséria e desemprego na Índia (à época parcialmente sob o controle inglês). Segundo Marcelo Andrade, professor de direita que fez vídeos reagindo e comentando sobre a polêmica entre Gaiofato e Braga, a revolução industrial ceifou as vidas de cerca de meio milhão de ingleses só por conta das condições de trabalho.

Mas esse não é o principal ponto. O ponto principal, nevrálgico da questão é que Thiago Braga tratou a Revolução Industrial do século XVIII como se não houvesse todo um processo político que propiciou ao surgimento e à viabilização da mesma (não falou uma única palavra sobre isso). Mais precisamente, do processo político que a Inglaterra viveu na segunda metade do século XVII e primeira metade do século XVIII, processo esse que inclusive foi marcado por duas revoluções políticas: a Revolução Puritana (1643) e a Revolução Gloriosa (1688). Ou se quisermos recuar ainda mais para trás, desde que a Inglaterra, sob Henrique VIII, rompeu com o Papa de Roma, aderiu à Reforma Protestante e fundou sua própria Igreja, a Igreja Anglicana (no que implicou em uma centralização ainda maior do poder nas mãos do rei).

É um processo que envolveu não apenas duas revoluções políticas, como também guerras civis, abolição e posterior restauração da monarquia britânica, expansão colonial inglesa a outras partes do globo (incluindo as Américas e a Índia) e até mesmo uma invasão vinda de fora. E que ao seu desfecho marcou não apenas a ascensão social e política da burguesia inglesa como também a consolidação da monarquia parlamentar na nação insular.

Dessa forma, pode-se dizer que dentro da história da Inglaterra as Revoluções Puritana e Gloriosa foram tão ou mais importantes quanto a Revolução Industrial e todo o processo de desenvolvimento econômico que elas desencadearam. Talvez sem as duas primeiras a terceira não teria ocorrido (pelo menos não da maneira como ocorreu).

Foto – Oliver Cromwell (1599 – 1658), o principal líder da única experiência republicana na Inglaterra,

O reinado de Carlos I Stuart (r. 1625 – 1649) foi marcado por disputas acirradas pelo poder entre o rei e o Parlamento. O monarca sustentava que os reis eram designados por Deus e sozinhos deveriam governar a nação, sem o auxílio de câmaras parlamentárias. As desavenças entre o monarca e o Parlamento inglês (dissolvido três vezes em um período de quatro anos) levaram à formação de um exército parlamentar e à eclosão de uma guerra civil entre monarca e Parlamento que se arrastou por dois decênios.

A Inglaterra dividiu-se em dois grupos: de um lado os realistas (também chamados de cavaleiros), partidários do monarca, e de outro os cabeças-redondas, partidários do Parlamento. Em 1649 Carlos I é vencido em combate pelas forças leais ao Parlamento, lideradas por Oliver Cromwell. Uma vez vencido, o monarca caído foi julgado como traidor pelo Parlamento e executado no palácio de Whitehall. Até os dias hodiernos, Carlos I foi o único monarca inglês que foi submetido a tal penalidade.

Embora tenha sido vencido e apesar da instabilidade interna de seu reinado, Carlos I em seu reinado tentou modernizar o país: construiu estradas, aterrou pântanos, criou um serviço postal e instituiu um serviço de ajuda à busca do trabalho. Como também foi patrono das artes e da arquitetura. Trouxe pintores como o holandês Rubens para decorar seus palácios em Londres.

Em 1649 a monarquia é abolida e em seu lugar instituída a República sob a liderança de Oliver Cromwell. Durante nove anos Cromwell governou a Inglaterra com mãos de ferro e ao assumir o governo instaurou a República (Commonwealth), no que foi a única experiência republicana na história da Inglaterra até hoje.

No plano econômico Cromwell tomou medidas para beneficiar os grupos sociais que lhe deram suporte (notadamente a burguesia). Entre essas se destacam os Atos de Navegação de 1651, direcionados prioritariamente contra a Holanda e que determinavam que os produtos ingleses deveriam ser transportados somente por navios de bandeira inglesa. Medida essa que além de dispensar os navios de outras nacionalidades ajudou a fomentar o fortalecimento e o desenvolvimento da indústria naval interna e do comércio exterior inglês. Na área da política externa travou uma guerra contra a Holanda entre 1652 e 1654, na qual a Inglaterra saiu-se vencedora.

Em 1658 Cromwell morre e é sucedido por seu filho, Richard Cromwell. Não tendo o mesmo prestígio do pai, ele se mostra incapaz de governar e dois anos depois, sob o convite do exército inglês, Carlos II, filho de Carlos I, é convocado para assumir o trono inglês e assim restabelecendo a monarquia depois de um breve interlúdio republicano, a única experiência republicana que a Inglaterra até hoje teve ao longo de sua história milenar.

Foto – Jaime II Stuart (r. 1685 – 1688), o último monarca católico da Inglaterra.

Entretanto, a restauração Stuart não significou o fim dos problemas religiosos e políticos na Inglaterra. Pelo contrário. Enquanto que Carlos II (r. 1660 – 1685) era abertamente favorável a uma política de tolerância religiosa, o Parlamento, dominado por protestantes não compartilhava de sua posição. O rei também assinou leis que favoreceu a Igreja Anglicana em detrimento de outras correntes protestantes e da Igreja Católica. A disputa se agrava quando é descoberto que o irmão de Carlos II, James, era católico. Duas correntes se formam na política inglesa, até hoje existentes na nação insular – os Whigs e os Tories. Os primeiros queriam excluir o irmão do rei da linha de sucessão ao trono, ao passo que os segundos não compartilhavam desse mesmo desejo.

Carlos é sucedido por seu irmão Jaime II, o qual sempre foi visto com desconfiança, visto que ele ao assumir o trono reuniu conselheiros católicos e partidários do absolutismo em sua corte, com a ideia de submeter o Parlamento e os governos locais. No fim, isolado e sem apoio, Jaime II é deposto em 1688 e foge para a França. O holandês Guilherme de Orange-Nassau, casado com Maria, filha do rei deposto, assume o trono inglês e o casal é aclamado como reis da Inglaterra. Sob a determinação dos burgueses ingleses, o novo rei assinou a declaração de direitos de 1689 (Bill of Rights).

A assim chamada Revolução Gloriosa não só sepultou de uma vez por todas com o absolutismo até então vigente na Inglaterra, como também instituiu a monarquia parlamentarista na qual o poder do rei foi consideravelmente limitado.

E o que pouco é falado a respeito da Revolução de 1688 é que esta depôs um rei católico, James II Stuart, um rei inclinado à abertura religiosa na Inglaterra (lembrando que desde que Henrique VIII rompeu com o Papa no século XVI a Inglaterra viu vários episódios de perseguições aos católicos romanos, assim como a outras denominações religiosas) e que houve uma invasão vinda da Holanda liderada por Guilherme de Orange-Nassau que contou com o apoio de setores da nobreza inglesa insatisfeitos com a política do então monarca inglês. Ou seja, algo não muito diferente da invasão de Guilherme da Normandia seis séculos antes, em 1066, que criou sua própria dinastia na Inglaterra, a casa da Normandia.

Foto – Guilherme de Orange-Nassau (r. 1689 – 1702)

O pulo do gato (ou talvez do tigre) entre as revoluções do século XVII e a revolução industrial é que a partir de 1688, com o fim do absolutismo na Inglaterra e a consequente limitação do poder do rei, a burguesia se consolida no poder na Inglaterra e passa a haver uma espécie de simbiose entre a burguesia e a nobreza da nação insular. Dessa forma a burguesia inglesa pôde investir em seu desenvolvimento econômico (obviamente que visando atender aos próprios interesses comerciais e econômicos da mesma). No longo prazo, isso transformou a Inglaterra em uma potência comercial.

As falas de Thiago Braga a respeito da Revolução Industrial também passam a impressão de que a Inglaterra não tinha toda uma estrutura de explorações coloniais em locais como a América e a Ásia e acordos comerciais com outras nações que deu todo um aporte de capital que no longo prazo viabilizou a Revolução Industrial. Foi assim, por exemplo, que uma quantia considerável de ouro de origem brasileira entrou nos cofres ingleses por intermédio de Portugal para poder cobrir os rombos advindos do Tratado de Methuen (também conhecido como Tratado de panos e vinhos), firmado entre ingleses e portugueses em 1703. Isso para não falar do fato de que a Inglaterra, junto com a Holanda, não só era uma das campeãs do tráfico de escravos e que mais lucraram com o mesmo, como também promovia atividades de corsários (piratas a serviço do soberano de alguma nação) contra a Espanha e outras nações rivais.

E o que é pior: parece que para ele revoluções políticas e saltos tecnológicos não têm relações entre si. Sendo que o que a história mostra é o contrário, que eles na verdade andam lado a lado. E o caso da Inglaterra nos séculos XVII e XVIII não foi o único: os Estados Unidos tiveram seu salto tecnológico e industrial na segunda metade do século XIX após a vitória das forças da União sobre a Confederação na Guerra de Secessão durante o governo de Abraham Lincoln; a França teve seu salto industrial e tecnológico logo após a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas, que sepultaram a estrutura feudal herdada do absolutismo francês; o Japão teve seu salto tecnológico e industrial também no século XIX, após a Revolução Meidži de 1867, que depois de longos anos de guerra civil (o famoso Bakumatsu), não só sepultou o sistema feudal até então vigente na Terra do Sol Nascente, como também eliminou os samurais enquanto classe e aboliu a política de isolamento (Sakoku) vigente no Japão no período Edo (1603 – 1867); na Alemanha, esse mesmo processo se dá no contexto das guerras de unificação, concluídas em 1871 após a vitória germânica na Guerra Franco-Prussiana e o estabelecimento do Segundo Reich (1871 – 1918), com o último dando continuidade ao processo; na Rússia, depois da Revolução de 1917 que destruiu o poder tzarista e toda a estrutura do mesmo e que em menos de meio século tirou a Rússia do arado e levou à era da energia atômica; no Brasil, depois da Revolução de 1930, que sob a liderança de Getúlio Vargas sepultou a Primeira República (1889 – 1930); a China dá o salto industrial e tecnológico dela depois da Revolução de 1949, que colocou fim à situação de instabilidade interna, guerras civis e intervenções estrangeiras que o país vivia desde o século XIX. Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando.

A dicotomia que Thiago Braga tenta criar nas pessoas por meio de publicações como o vídeo sobre a Revolução Industrial não é só burra, como também falsa e enganadora. A típica dicotomia entre Estado e mercado que certos tipos vendem na qual o primeiro é satanizado e mostrado como se fosse uma espécie de leviatã que destrói tudo por onde passa ao passo que o segundo é exaltado e exibido como o baluarte das virtudes, sendo que o próprio exemplo do desenvolvimento econômico e industrial da Inglaterra nos séculos XVI a XVIII por meio de medidas como os Atos de Navegação mostra o contrário. E em outros países a situação não foi diferente.

Fontes:

Atlas da História do Mundo. Folha de São Paulo: São Paulo, 1995.

Cherry-Pick | O que significa esta expressão. Disponível em: Cherry-Pick | O que significa esta expressão? (mairovergara.com)

Cuadernillo: la revolución gloriosa (em espanhol). Disponível em: | Historia por Fin-Cuadernillos de historia y más

Enciclopédia ilustrada do estudante. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1995. v. 5.

La emancipación de los católicos ingleses (em espanhol). Disponível em: La emancipación de los católicos ingleses - Alfa y Omega

La manera inglesa de contar la historia (em espanhol). Disponível em: La manera inglesa de contar la historia - José Luis Fiori | Sin Permiso

Revolução Industrial. Disponível em: Revolução Industrial: resumo, causas, consequências - História do Mundo (historiadomundo.com.br)

Revolução Inglesa. Disponível em: Revolução Inglesa: resumo, antecedentes e fases - História do Mundo (historiadomundo.com.br)

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

A morte da influenciadora russa vegana e a agenda 2030

 

Foto – Famosa frase do pensador e ensaísta inglês G. K. Chesteton (1874 – 1936), sobre a relação entre adoração a animais e sacrifícios humanos.

No último dia 21 de julho faleceu na Tailândia aos 39 anos de idade a influenciadora vegana russa radicada na Malásia Žanna Samsonova. Também conhecida nas redes sociais como Žanna D’Art, ela adotou uma dieta restritiva baseada em frutas exóticas e cruas da Malásia. Sua dieta consistia de apenas vegetais crus, frutas, sementes de girassol e sucos. Ainda de acordo com o tabloide inglês Daily Mail, ela não bebia água há mais de seis anos, visto que se hidratava com os sucos das frutas. A fraqueza dela é visível em fotos da influenciadora digital, que mostram seu corpo em um estado esquelético, fraco e bem debilitado.

Segundo palavras de amigos dela, nos últimos meses de vida dela os hábitos alimentares da influenciadora começaram a preocupar, e veio a óbito por conta de uma “infecção de cólera” agravada por “esgotamento do organismo em decorrência da dieta vegana”, informou a mãe dela Vera Samsonova. Uma amiga dela contou que a viu faz alguns meses no Sri Lanka “com aspecto abatido”.

Não há como não observar o triste e o lamentável falecimento dela e não se lembrar da seguinte frase de Chesterton em um trecho de sua obra “Os usos da diversidade” (1920): “onde quer que haja adoração a animais, ali haverá sacrifício humano”.

No caso em questão a vítima foi a própria Žanna Samsonova. Ela foi vítima da presente adoração aos animais que vemos nos dias de hoje ao sacrificar a si mesma ao entrar em uma dieta extremamente restrita na qual praticamente só comia frutas, sementes de girassol e vegetais crus, além de se hidratar apenas com sucos. Uma vítima cujo corpo foi levado ao altar de sacrifícios em holocausto, em um sacrifício bem ao estilo dos sangrentos rituais de sacrifícios humanos astecas ou dos sacrifícios de crianças feitos em Cartago dedicados ao deus Ba’al Hammon.

Foto – Žanna Samsonova (1984 – 2023).

Ao observar fotos da recém-finada Samsonova, percebe-se o aspecto esquelético, anoréxico, praticamente que cadavérico, dela. Até parece que ela teve sua força vital drenada pelo Šang Tsung, um dos principais vilões da famosa série de jogos de luta Mortal Kombat, e sua habilidade de absorver almas alheias, restando apenas o bagaço dela depois que o feiticeiro maligno tirou tudo o que queria tirar dela (e com direito à icônica frase “sua alma é minha!”). Ou que ela foi picada pelo ferrão do Cell (ainda na primeira forma) e reduzida a um cadáver vivo (ou se preferirem a uma casca vazia e oca). Ou talvez que ela saiu de algum campo de concentração nazista ou de algum lugar bem pobre e famélico da África que vive sob uma severa situação de privação alimentar (seja ela causada por fatores naturais ou humanos).

Mas não. É uma influenciadora digital russa radicada na Malásia que padecia de um distúrbio alimentar chamado ortorexia (transtorno que causa na pessoa uma preocupação excessiva com alimentação saudável, de modo que ela consuma apenas alimentos puros e de baixo índice glicêmico, de gordura e açúcar) e que se submeteu por vontade própria a uma dieta extrema, feita sem acompanhamento médico. E o que é pior: ela em vida tinha vários seguidores e como tal influenciou muita gente a adotar esse tipo de dieta.

E é a mesma Žanna Samsonova (que pesava 41 quilos pouco antes de vir a óbito) que quando mais nova, ainda na faixa dos 20 anos e antes de embarcar nessa dieta extremamente restrita, era uma jovem garota linda, sorridente e saudável que aspirava a ser uma modelo de sucesso.

Foto – Žanna Samsonova mais nova, em Moscou. Reparem como ela era linda à época.

Algo digno de nota é que no You Tube veganos como o Fábio Chaves vieram tirar a dieta vegana da reta e culpar apenas os transtornos alimentares dela pela morte dela. Como se a dieta vegana, uma dieta que por si só priva a pessoa de uma série de nutrientes essenciais à pessoa, não tivesse agravado e exacerbado a já precária situação de saúde dela.

É fato que muitos embarcam nessa história de veganismo por compaixão ou por solidariedade aos animais. Ou talvez como uma mera sinalização de virtude perante as pessoas (algo comum entre famosos, diga-se de passagem – vide casos como o do piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton e do chef de cozinha britânico Jamie Oliver, que pessoalmente nem é vegano, mas aderiu à tendência e incluiu opções de pratos veganos nos restaurantes dele. O que não impediu um dos restaurantes italianos dele em Brighton ser atacado por fanáticos animalistas em 2019). Uma compaixão, diga-se de passagem, bem hipócrita e falsa. Mal sabem eles, por exemplo, que a agricultura que produz as verduras e as frutas que eles consomem não só causa considerável destruição ambiental, como também mata animais (ainda que por meios indiretos – imaginem só o tanto de animais como esquilos e outros que são mortos para manter os campos agrícolas intactos, o tanto de insetos que não são mortos por defensivos agrícolas).

E a coisa não para por isso: não obstante isso há também donos de animais veganos que chegam ao ponto de impor uma alimentação vegana a animais como cachorros e gatos (exemplo disso é o já citado piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton). E, para piorar ainda mais as coisas, existe o caso de um santuário brasileiro administrado por um grupo de veganos chamado Rancho dos Gnomos. Esse rancho chega ao ponto de alimentar leões e tigres com comida vegetal. Se eles fazem tanta questão de os animais deles também serem vegetarianos, não faz mais sentido eles criarem animais herbívoros tais como coelhos, porquinhos-da-índia, iguanas, hamsters e chinchilas ao invés de animais carnívoros como cães e gatos?

Uma coisa é certa: se dependesse dessas pessoas que chegam ao ponto de alimentar até mesmo animais como leões e tigres, animais carnívoros do topo da cadeia alimentar que nos lugares onde naturalmente ocorrem exercem um papel muito importante de controlar as populações de animais herbívoros, o mundo seria um grande deserto.

Para ter noção do que estou falando é só lembrar o que era, por exemplo, o parque nacional de Yellowstone nos Estados Unidos antes de os lobos lá serem reintroduzidos, em 1995 – nas sete décadas em que os lobos estiveram ausentes de Yellowstone, por conta da sobrepastoreio de cervos e outros animais herbívoros a paisagem do parque virou uma verdadeira terra arrasada, e foi precisamente após a reintrodução dos lobos que em questão de anos a paisagem do parque ganhou uma cara nova, visto que eles não só matavam certo número de cervos, como também faziam com que eles evitassem certas áreas para não serem atacados. No fim das contas, essa gente vegana coloca a ideologia deles acima de tudo. Até parece uma seita, na qual os animais são tratados como entidades que estão acima dos homens e sendo vistos como se fossem bons selvagens dos dias de hoje. Ou talvez até como deuses que de tempos em tempos precisam de oferendas e sacrifícios (de preferência humanos) para ser apaziguados.

Foto – O antes e o depois da reintrodução dos lobos no parque nacional de Yellowstone em 1995.

Que fique bem claro uma coisa: não estou aqui para discutir a fundo e nem entrar no mérito das opções individuais das pessoas quanto à dieta que segue ou deixa de seguir. Até porque esse não é o foco principal desse ensaio. Quero aproveitar o recente ocorrido não só para refletir, como também para discutir algo que está muito acima do que as vãs mentes dessa gente podem supor. Estou aqui para falar de engenharia social dos donos do poder mundial. Em outras palavras, de agenda 2030 e de Grande Reset e como que a promoção do veganismo  nos últimos anos está inserida dentro desse esquema todo.

Hoje em dia, há algo que venho reparando no setor de carnes de vários supermercados por ai: que já podem ser vistas as famigeradas carnes vegetais. É isso mesmo que vocês estão lendo. Carnes vegetais, que emulam o sabor e a textura da carne de origem animal, mas que são feitas de ingredientes vegetais. Obviamente, feitas para o público que se recusa a comer alimentos de origem animal.

Vocês se lembram daquele episódio do Chaves (mais precisamente, um episódio duplo da temporada 1977 do seriado humorístico mexicano) no qual ele tinha uma banca de venda de sucos e que ele vendia refrescos tais como o suco de limão que parece tamarindo mas que tinha gosto de groselha? Pois essas ditas carnes vegetais funcionam de maneira análoga (para não dizer idêntica).

Foto – Esquemática dos refrescos do Chaves no episódio duplo da temporada 1977 “Nem todos os bons negócios são negócios da China” (originalmente “la tienda del Chavo”).

Se voltássemos ao passado uns 20 ou 30 anos e fossemos a um supermercado qualquer, uma coisa é certa: essas carnes vegetais dos dias de hoje não estariam lá nas prateleiras dos mesmos. Seria inclusive algo impensável para a época. O que nos leva ao seguinte ponto: quem acha que por trás de toda a promoção do veganismo ao longo desses anos não houve um grande e massivo esquema de engenharia social por trás é no mínimo muito ingênuo e tapado (assim como, por exemplo, no caso da tauromaquia em Portugal e nos países de língua espanhola – que vem perdendo cada vez mais popularidade nos últimos anos, principalmente entre as gerações mais novas).

Para essa engenharia social ser promovida e levada adiante, histórias com alguns pequenos grãos de verdade, mas recheadas de muitas mentiras no meio, tais como a de que o peido da vaca aquece o planeta por meio da emissão de gases como o metano são ventiladas e repetidas em todo lugar. E de tanto serem repetidas são tomadas como verdades. E o povão acredita nessas histórias, sem se dar conta do que há por trás desses contos da carochinha.

E isso me faz pensar no seguinte: será que essa história de veganismo na verdade é um balão de ensaio para que lá na frente os arautos do Grande Reset e da Agenda 2030 não imponham algo ainda mais draconiano e terrível a nós em matéria de alimentação? Em outras palavras, de o veganismo ser um estágio intermediário para que lá na frente nos seja imposto uma espécie de ração de humana, como aquela que o Dória tentou introduzir em São Paulo recentemente? E quem até sabe comidas sintéticas feitas em laboratório não entrem na jogada?

Foto – Ração humana do Dória.

Para ver como a corda estica e não para mais: em um primeiro momento, sob o pretexto da solidariedade e da compaixão para com o sofrimento dos animais e da proteção ao meio ambiente, as pessoas abdicam do consumo de carne. E junto à renúncia ao consumo da carne você está abdicando do consumo de proteínas e outros nutrientes que são encontrados apenas no alimento de origem animal. Depois disso a corda irá esticar também aos alimentos de origem vegetal, sejam eles legumes, frutas ou verduras. Inexoravelmente. Sob a alegação de que os vegetais também são seres vivos e têm até consciência, além de eventuais danos que a agricultura também causa ao meio ambiente. Pronto. Ai está aberto os portões do inferno para que os donos do poder mundial nos entupam com a comida sintética feita nos laboratórios deles.

Em outras palavras, de que o veganismo é na verdade um teste, um balão de ensaio para que lá na frente a corda seja esticada ainda mais e os donos do poder do mundial dobrem ou tripliquem as apostas deles. Entenderam, ou precisa desenhar? E será que por trás dessas histórias de que “o pum da vaca aquece o planeta” não está um ataque à atividade pecuária global e um grande esquema de acaparamento de terras?

A propósito, faz algum tempo que soube de uma notícia de 2018 na qual diz que a Holanda quer se tornar o primeiro país vegano até 2030. Ao ler a notícia em questão, cheguei à conclusão de que a Holanda (a mesma Holanda que nos últimos anos vem se mostrando muito liberal quanto a questões como liberação de prostituição e narcóticos) deixou de ser um país para se tornar um laboratório de engenharia social a serviço dos donos do poder mundial. A cidade de Haarlem, a capital da província da Holanda do Norte, foi a primeira cidade no mundo a proibir a propaganda relacionada à carne. A proibição entrará em vigor no ano que vem. Se isso não é um balão de ensaio para mais adiante o consumo de carne entre a população também ser proscrito, não sei mais o que é.

E é a mesma Holanda que no ano passado foi o epicentro de protestos de agricultores insatisfeitos com certas medidas que vêm sendo tomadas por lá. Eles estavam insatisfeitos por conta de uma política ambiental para toda a União Europeia sobre redução da emissão de gases como dióxido de nitrogênio. Nessa brincadeira toda, o país teria de reduzir pela metade as emissões do gás, no que implicaria em redução no uso de fertilizantes que usam nitrogênio, o que afeta o setor pecuário local. Além disso, o país tem um plano de transformar 25% da agricultura do país em agricultura orgânico, no que elevaria ainda mais os custos para os produtores batavos.

Da Holanda, as revoltas se espalharam para outros países europeus. Uma das principais ONGs ambientalistas da atualidade, o Greenpeace, tem a sua sede no país que em Copas do Mundo sempre nada, nada, nada e no fim morre ao chegar à praia (e já repararam que a Holanda na competição máxima do futebol mundial quase sempre é despachada por times latinos? – vide Suíça em 1934, Argentina em 1978, 2014 e 2022, Brasil em 1994 e 1998, Portugal em 2006 e Espanha em 2010). Coincidência pura, ou nesse angu tem algum caroço bem grande?

Foto – Protesto agrícola na Holanda, 2022.

E o que é pior, esses que embarcam nessa história de veganismo em nome dos animais e do meio ambiente (isso para não falar dos famosos que embarcam nessa para sinalizar virtude ao público) não se dão conta de que o abatedouro é logo ali.

No fim das contas, nós, plebeus, teremos de nos contentar com as rações sintéticas feitas em laboratório que os donos do poder mundial, encarnados em pessoas como Bill Gates e Klaus Schwab, irão nos oferecer. Ao passo que eles comerão do bom e do melhor dos alimentos de origem animal e vegetal e todos os nutrientes essenciais à saúde humana que eles oferecem.


Foto – “Você não terá nada e será feliz sobre isso”, assim disse Klaus Schwab, um dos profetas da Agenda 2030 e do Grande Reset.

Fontes:

‘Agressive’ animal rights activists removed by police after storming Jamie Oliver restaurant (em inglês). Disponível em: 'Aggressive' animal rights activists removed by police after storming Jamie Oliver restaurant | London Evening Standard | Evening Standard

A confusão do veganismo. Disponível em: A confusão do veganismo – por Claudio Bertonatti (beefpoint.com.br)

Holanda quer se tornar o primeiro país vegano do mundo até 2030. Disponível em: Holanda quer se tornar primeiro país vegano do mundo até 2030 (beefpoint.com.br)

Cidade holandesa é a primeira do mundo a proibir propaganda de carne. Disponível em: Cidade holandesa é a primeira do mundo a proibir propaganda de carne - BBC News Brasil

Influenciadora que morreu de ‘fome’ não bebia água há mais de seis anos, diz jornal. Disponível em: Influenciadora que morreu de 'fome' não bebia água há mais de seis anos, diz jornal - Mundo - Diário do Nordeste (verdesmares.com.br)

‘Journey of death’ – How tragic Žanna Samsonova went from aspiring model to vegan influencer who ‘starved to death’ (em inglês). Disponível em: How tragic Zhanna Samsonova went from aspiring model to Vegan influencer who ‘starved to death’ | The Sun

Morre, aos 39 anos, influenciadora russa conhecida por dieta radical. Disponível em: Morre, aos 39 anos, influenciadora russa conhecida por dieta radical | Donna (clicrbs.com.br)

Ortorexia: o que é, sintomas e tratamento. Disponível em: Ortorexia: o que é, sintomas e tratamento (tuasaude.com)

Protestos de agricultores na Europa podem ter reflexos no Brasil. Disponível em: Protestos De Agricultores Na Europa Podem Refletir No Brasil (planetacampo.com.br)

Rancho tenta alimentar leões com ração vegetariana. Disponível em: Rancho tenta alimentar leões com ração vegetariana | Jusbrasil

Весила 41 кг: российская блогер-сыроед умерла от истощения после экстремальной диеты (фото) (em russo). Disponível em: Весила 41 кг: российская блогер-сыроед умерла от истощения после экстремальной диеты (фото) (focus.ua)

sábado, 5 de agosto de 2023

Alemanha pré-guerra como incubadora de Sodoma (texto traduzido do russo)

Foto: Prostitutas-travestis sentam de joelhos junto a gays em um bar gay popular berlinense.

Começando a partir dos anos 20 do último século até a chegada de Hitler ao poder em 1933, praticamente em cada grande cidade da Alemanha havia bares e clubes para homossexuais. Todo um espectro de jornais e revistas para homossexuais e lésbicas era livremente disponível em bancas de revistas. A tiragem de algumas delas alcançava até 150 mil exemplares ao mês. Berlim era um foco liberal de Sodoma, aonde afluíam todos os pervertidos da Europa. Na cidade floresceu a prostituição masculina, o crossdressing, e precisamente lá foi conduzida a primeira mudança cirúrgica para transformação de homem em “mulher”. Abaixo o publicitário Vladimir Maslov conta sobre a “Liga Mundial das reformas sexuais”, criada em 1921 por Magnus Hirschfeld, e sobre o olhar de Friedrich Engels no problema político da pederastia.

Conclusões principais:

1 – A Segunda Guerra Mundial, e nomeadamente, o desejo de eliminar a URSS suspendeu a realização do plano dos globalistas para redução da população.

2 – A política demográfica conduzida no Terceiro Reich contribuiu para o deslocamento de portadores da ideia da normalização do homossexualismo nos EUA.

3 – Para hoje o plano da Liga Mundial pelas reformas sexuais considera cumprido e até mesmo supercomprido.

Em 1921 o “mais influente” pesquisador-teórico da “homossexualidade” do começo do século XX, o sodomita Magnus Hirschfeld cria a “Liga Mundial pelas Reformas Sexuais”, que representa para si uma reunião de feministas famosas naquela época, “sexólogos”, pederastas, escritores liberais e outros reformadores. Entre eles havia dois nomes bem conhecidos ao homem contemporâneo – Bernard Shaw e Bertrand Russell (ambos laureados com o Nobel). Embora Albert Einstein não tenha falado nos Congressos, manteve contato com a organização.

O programa político da “Liga Mundial pelas reformas sexuais” consistia de 10 pontos. Todos eles levam à eliminação da família e redução da natalidade. Olhando para o mundo atual você entende que com a exclusão do ponto nº4 o programa pode-se considerar realizado (entre aspas aos pontos minha explicação).

1. A igualdade econômica, política e sexual éntre homens e mulheres (triunfo do feminismo ou da feminocracia);  

2. Afastamento da influência da religião na instituição da família, mudança de leis que dizem respeito ao casamento e divórcios (violação das bases religiosas da família, leis nos interesses das feministas);

3. Regulação da natalidade pelos princípios da voluntariedade e da responsabilidade (hoje é a estratégia global sob a denominação “planejamento familiar”, abortos, contracepção e etc...);

4. Abordagem eugênica em relação à natalidade (castração violenta, esterilização, abortos junto a grupos “defeituosos” da população e outros encantos da eugenia, que foi muito popular na Europa e nos EUA, atualmente Israel usou esterilização forçada*);

5. Proteção social de mães solteiras e filhos ilegítimos (criação de condições favoráveis para “famílias” defeituosas, provocação de divórcios);

6. Entendimento racional do homossexualismo (normalização da sodomia em todas as esferas da atividade vital);

7. Educação sexual onipresente (propaganda do onanismo, da pornografia, das relações sexuais precoces e outras alegrias do “projeto sexual” entre crianças e jovens);

8. As reformas destinadas a proteger a prostituição (difusão da prostituição e a legalização dela).

9. Legalização dos desvios sexuais do ponto de vista médica, e não como “crime, vício ou pecado” (conduzir todas as formas de sodomia exclusivamente à esfera médica, e em seguida despatologizar);

10. Reconhecimento de quaisquer contatos sexuais junto a adultos, se eles foram por consentimento mútuo, ao contrário, pena criminal por atos de estupro ou sem consentimento em relação a crianças e deficientes mentais (legalização de todas as formas de sodomia).

Indubitavelmente, os “Hirschfelds” não surgiram do nada, simplesmente eles vieram à tona depois de uma longa permanência na clandestinidade. A ameaça política vinda dos sodomitas muito bem entenderam Karl Marx e Friedrich Engels, eles falaram sobre eles ainda na metade do século XIX. Da carta de Engels a Marx:

“O livro ‘O Pederasta’, que você me enviou, é o cúmulo da curiosidade. Os pederastas começam a contar suas fileiras e acreditam que eles constituem uma força no Estado. A eles apenas faltava organização, mas julgando por estas informações, ela, ao que parece, já existe secretamente. E já que eles estão presentes em todos os partidos antigos e mesmo nos novos, de Rosing a Schweizer, pessoas tão eminentes, então a vitória deles é inevitável. A sorte ainda é que nós pessoalmente somos bem velhos para temer que na vitória deste partido vão nos obrigar a pagar com seu corpo o tributo aos vencedores. Mas jovem geração! Por outro lado isso só é possível na Alemanha, para que tal bom companheiro transformasse imundice em teoria e proclamou: juntem-se a nós e etc.., pobres pessoas, que se acostumaram a seguir adiante, com nossa inclinação infantil às mulheres, então vai ser muito ruim”.

Os herdeiros de Hirschfeld e Ulrichs muito bem sabem sobre esta carta, além disso, o líder da mais poderosa estrutura sodomita na Rússia rede LGBT Igor Kočetkov consideram o autor da carta “um gênio”, já que ele previu o futuro do movimento LGBT e o caminho do desenvolvimento dele. “Através da criação de uma organização, através da influência, incluindo nos partidos políticos, este movimento chegará à vitória”, - acredita Kočetkov.

Mas o principal da previsão de Engels é que os atuais sodomitas realmente aproximaram-se com cautela de nossos corpos. Por exemplo, a propaganda do transsexualismo força as crianças e adultos a mutilar seus corpos – alguns órgãos são retirados, e a aparência de outros é artificialmente criada. Como resultado o homem se transforma em um monstro. Quanto à expressão literal “obrigam com seu corpo a pagar o tributo aos vencedores”, então está tudo nos planos e pensamentos deles.

Mais: https://vk.com/wall-190521224_17

MEUS COMENTÁRIOS:

Esse é mais um texto que eu vi na Internet e resolvi traduzi do russo.

Por essas informações nesse texto apresentadas podemos ter uma boa noção do buraco no qual a Alemanha estava no período entre 1918 e 1933. Em todos os sentidos. Não só pela questão das humilhações pelas quais o país teve de passar em decorrência da derrota na Primeira Guerra Mundial e do Tratado de Versalhes (ou como os alemães o chamavam, diktat). O país não só perdeu territórios (incluindo as colônias ultramarinas na África, na Ásia e no Pacífico) e o poder que antes tinha como também passou por uma severa crise não só econômica (vide a inflação galopante que forçava as pessoas a terem de levar pilhas inteiras de dinheiro só para poderem comprar pão) como também moral e cultural.

Sem ter em mente o que se passava na Alemanha à época nas mais diversas esferas, é impossível entender como que Adolf Hitler chegou aonde chegou. Da mesma que, por exemplo, é impossível entender a ascensão de Hugo Chávez ao poder na Venezuela sem entender o que foi o Caracazo e os últimos anos da Quarta República Venezuelana. Em outras palavras, o que foram os anos de neoliberalismo no país caribenho.

A respeito da citada propaganda de desvios sexuais como onanismo e sodomia citado no meio do texto, talvez por causa disso que existem predadores sexuais como o finado Marcos Kitano Matsunaga. Um homem de grande apetite sexual cujo habitat natural era o mundo da prostituição e que tinha (segundo contra o livro escrito pelo jornalista Ullisses Campbell a respeito de sua segunda esposa, Elize Araújo Kitano Matsunaga) entre seus fetiches forçar prostitutas que não faziam sodomia a forçá-las a se sodomizarem a ele, e não raro ameaçando-as com armas de fogo para isso. Mensagens dele em um fórum no qual avaliava prostitutas mostram que ele (sob o pseudônimo Hore Rider – apelido dele no mundo do meretrício) achava que mulher que não se sodomizava não era mulher. Claro, com ele sendo o arsenokoitai (sodomita ativo) e a mulher sendo a malakoi (sodomita passivo) da história. Talvez não à toa que o tio Yoki teve o destino macabro que teve em 2012.

Também é muito interessante ver que Karl Marx e Friedrich Engels, os fundadores do Socialismo Científico, no tempo deles não tinham simpatia alguma pelo movimento uranista, encabeçado por figuras como Ulrichs e Hirschfeld. Não só não tinham simpatia alguma pela ideologia dos sodomitas da época, como também a viam como algo perigoso no longo prazo. Uma bela de uma tortada na cara dessa direita neocon olavete que vive associando marxismo com as degenerações morais do tempo presente promovidas pela cultura woke. “Pagar o tributo com o corpo aos vencedores”, talvez essa seja a sina de nosso tempo ante a questão do politicamente correto. E a corda vai esticando, esticando, esticando a tal ponto que talvez até com nossas almas tal pagamento seja feito.

Pelo que eu percebo o que esses movimentos de cultura woke de modo geral fazem é a seguinte operação: eles transformam aquilo que eles chamam de minorias como se fossem os bons selvagens dos dias de hoje. Em outras palavras, como se fossem os Na’vis do filme Avatar (2009), de James Cameron.

O bom selvagem é um personagem arquetípico que surgiu na literatura europeia no século XVI, na sequência das viagens de descobrimentos e dos primeiros contatos com os povos americanos e depois popularizado no Iluminismo por filósofos como Rousseau, ao qual é atribuído a ele uma natureza boa, ingênua e que seria corrompida por um processo civilizatório. É um personagem que foi criado para se contrapor à figura do conquistador europeu das Américas e tudo o que ela representa.

De forma análoga, a cultura woke da atualidade resgata o mito do bom selvagem e o adapta aos dias de hoje. Ao adaptar o mito do bom selvagem aos dias hodiernos, ela usa essas minorias todas como uma forma de fazer um ataque à figura do homem branco, cristão, heterossexual e tantos outros adjetivos que invocam coisas ruins (na visão deles, obviamente). Em outras palavras, o homem que é a encarnação terrena do mal absoluto.

E ao mesmo tempo as minorias dos dias de hoje são vistas como se fossem indivíduos ilibados, dotados das mais elevadas e sublimes virtudes e de inerente bondade. E, portanto, que não podem ser criticados sob hipótese alguma. Nessa lista de intocáveis do politicamente correto dos dias de hoje estão inclusos grupos como homossexuais, transexuais, negros, índios e outros tantos. A menor crítica a eles feita já é motivo para você ser cancelado sumariamente nos tribunais ambulantes de redes sociais e em seguida jogado nas masmorras de alguma prisão de segurança máxima. E ficar lá pelo resto de toda a tua vida, de preferência.

E não obstante à criação de uma imagem idealizada das minorias por eles vistas como bons selvagens dos dias de hoje, até criam uma espécie de novilíngua a la 1984 para se referir aos citados grupos. Dessa forma, o negro vira afrodescendente, o índio vira povo originário, a favela vira comunidade, palavras como denegrir e criado mudo e expressões como samba do crioulo doido passam a ser proscritas, entre tantos outros malabarismos linguísticos.

O que mostra a todos nós que o tributo aos vencedores não é pago apenas com o corpo. Também é feito o mesmo com a alma, a maneira como você fala e se expressa, consciência, tudo, tudo mais o que você possa imaginar. Algo que Marx e Engels no século XIX não previram. “Você não terá nada e será feliz sobre isso”, assim disse um dos profetas da Agenda 2030 e do Grande Reset, Klaus Schwab.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

As mazelas do mundo 4.0 e a questão da dublagem

 

Foto – Dublagem vs Inteligência Artificial.

Recentemente, o dublador Wendell Bezerra (voz de personagens como o Bob Esponja no desenho homônimo, o Goku em Dragon Ball, o Fenrir de Alioth e o Baian de Cavalo Marinho em Cavaleiros do Zodíaco, o Jackie Chan em As Aventuras de Jackie Chan, entre outros personagens) publicou um vídeo em que trata a respeito da questão do impacto que o uso da Inteligência Artificial poderá ter na arte da dublagem. O dublador já se manifestou a respeito desse assunto em outras oportunidades.

Outras manifestações de dubladores também podem ser vistas tanto no You Tube quanto em outras redes sociais. Matéria no Jornal da Band foi veiculada a respeito desse assunto:

Por meio dessa nova tecnologia, vozes de dubladores clássicos e icônicos já falecidos tais como Newton da Matta (Lion-O em Thundercats, Bruce Willis, Dustin Hoffmann), Sílvio Navas (Mum-Ra em Thundercats, Darth Vader em Star Wars, Monstro Estelar em Silverhawks, segunda voz do Bender em Futurama), Marcelo Gastaldi (Charlie Brown em Snoopy, Chaves, Chapolin), Isaac Bardavid (Wolverine em X-Men, Esqueleto em He-Man, Tigrão em Ursinho Pooh), Eleu Salvador (Doutor Brown em De volta para o futuro, Senhor Miyagi em Karatê Kid 4, Doutor Briefs em Dragon Ball Z), Mário Vilela (Seu Barriga e Nhonho em Chaves, Buba e Gyodai em Changeman, Rato de Boné em Bananas de Pijama), Helena Samara (Wilma em Flinstones, Dona Clotilde em Chaves, velha Kaede em Inuyaša), Leda Figueiró (mãe do Tohru em As aventuras de Jackie Chan, Paty em Chaves, Laurinha em Ursinhos Carinhosos), Sônia Ferreira (Rainha Marlena em He-Man, Luna em Thundercats, Doutora Blight em Capitão Planeta), Renato Master (Mitsumasa Kido em Cavaleiros do Zodíaco, Desmark em Goggle Five, Šen Long em Dragon Ball Z), Nelly Amaral (Mestra Genkai na primeira dublagem de Yu Yu Hakušo, Marge Simpson nas temporadas 9 a 13 de Simpsons, primeira voz da Muriel em Coragem: o cão covarde), Ana Lúcia Menezes (Dulce Maria na Carinha de Anjo mexicana, Tanya em Power Rangers Zeo e Turbo, Lupita em Rebelde), Paulo Flores (Mufasa em Rei Leão, Lord Zedd em Power Rangers, Taz Mania no desenho homônimo), Aldo César (Rex Harrison, primeira voz do Bender em Futurama, Doutor Gero/Androide 20 em Dragon Ball Z), Daoiz Cabezudo (primeira voz do Tohru em As aventuras de Jackie Chan, Lula Molusco em Bob Esponja, narrador de Dragon Ball Z), Waldyr Sant’anna (Homer Simpson e vovô Simpson nas temporadas 1 a 8 e 15 a 18 de Simpsons, Eddie Murphy, Danny Glover), João Batista (Rei Cutelo, Cell e Senhor Enma Daioh em Dragon Ball Z, Šendu em As aventuras de Jackie Chan, Thundarr o bárbaro no desenho homônimo), Borges de Barros (Moe Howard em Três Patetas, Doutor Smith em Perdidos no Espaço, Edin em Jaspion), Valter Santos (Camus de Aquário em Cavaleiros do Zodíaco, Dubal em Street Fighter II Victory, Ursulão e Smedley em alguns episódios de Pica Pau), Maximira Figueiredo (Kilza em Jaspion, Aracnin Morgana em Jiraya, Rainha Pandora em Spielvan), Iara Riça (Gi em Capitão Planeta, Trini em Power Rangers, Arlequina em várias produções do universo DC), Orlando Drummond Cardoso (Scooby Doo, Vingador em Caverna do Dragão, Gargamel em Smurfs), Darcy Pedrosa (Coringa em várias produções do universo DC, Chuck Norris, Higgins em Magnum), Francisco Borges (Hannibal Smith em Esquadrão Classe A, Senhor dos sonhos em A Pedra dos Sonhos, Barlock em Street Fighter II Victory), Antônio Moreno (M. Bison em Street Fighter II Victory, Baran em Fly: o pequeno guerreiro, Sorento de Sirene em Cavaleiros do Zodíaco) e tantos outros poderão ser usadas em novos filmes, desenhos e produções televisivas.

Isso à primeira vista pode parecer incrível e muito legal, poder ouvir novamente vozes clássicas de dubladores que já não estão mais conosco em um filme ou desenho novo. Mas eu particularmente sou contra esse tipo de coisa. Para além de toda a questão ética envolvida, isso inevitavelmente irá tirar os empregos e os trabalhos dos dubladores que ainda estão nesse mundo e na ativa.

Além disso, o que dizer daqueles que estão começando agora na dublagem e que tanto estudaram e fizeram cursos para chegar ao ponto em que chegaram? O balde de água fria, a facada nas costas que não vão levar por meio dessa brincadeira? E mesmo os dubladores que já estão no mercado há muitos anos, quantos não perderão os empregos de longa data, o ofício que eles gostam de trabalhar e pelo qual eles tanto se esforçaram para poder trabalhar e se consolidar no meio, e que terão de se contentar dali em diante com subempregos tais como Uber e os iFoods da vida, tal qual aconteceu com muitos engenheiros que perderam seus empregos por conta da devassa que a Operação Lava Jato fez em empresas de construção civil como a Odebrecht e a Andrade Gutierres. E no caso das dubladoras (em especial as mais jovens), quem sabe até o OnlyFans (vulgo prostituição gourmet) entre na jogada.

E mais uma coisa: nunca que aplicativos de inteligência artificial tais como ChatGPT, Alexa e outros afins conseguirão reproduzir a emoção humana e todas as suas nuances, necessária na arte de interpretação de personagens. Por mais amplo que seja o banco de dados que esses programas possam ter. Afinal, não são seres vivos, e sim máquinas. Em outras palavras, coisas.

Eu mesmo vi no Facebook manifestações de diversos dubladores (tanto de São Paulo quanto do Rio de Janeiro) se posicionando contra a substituição do trabalho deles pelo trabalho da Inteligência Artificial. E eu particularmente os apoio nisso. E é bom que eles se organizem, se unem pela defesa dos empregos deles, tal qual os peões de vaquejada fizeram em 2016, quando a atividade, típica do Nordeste Brasileiro, quase foi proibida em todo o país por conta de decisões do Supremo Tribunal Federal e foram a Brasília se manifestar contra as decisões dos togados que quase destruíram com o ofício deles (o qual gera milhares de empregos diretos e indiretos só no Nordeste Brasileiro).

Foto – Manifestação massiva de peões de vaquejada em Brasília contra a proibição da atividade por parte dos togados do Supremo Tribunal Federal, 2016.

Além disso, os dubladores precisam ter consciência e saber que o jogo é pesado e com o que e com quem estão lidando nessa história toda.

Foto – Imagem que circula em redes sociais, compartilhada por diversos dubladores que se posicionam contra a substituição do trabalho deles pela Inteligência Artificial.

O que podemos dizer a esse respeito? Só uma coisa: bem-vindos ao mundo 4.0 que os donos do poder mundial (entre eles os arautos do Grande Reset e da Agenda 2030 como Klaus Schwab, Bill Gates, Jeff Bezos e outros) estão preparando e urdindo a nós em lugares como a feira de Hannover, o vale do Silício, o clube Bilderberg e o fórum de Davos e que se aproveitam de desastres e tragédias como a pandemia da Covid-19 para levar adiante a agenda de engenharia social deles.

E falar dessa gente não é conspiracionismo barato como muitos incautos (principalmente o pessoal da esquerda colorida) podem pensar. E sim algo muito importante sobre o qual nós não nos devemos se calar. Afinal, não é uma questão de teoria da conspiração, e sim de prática da conspiração (assim como de engenharia social pesada). Pois em uma questão delicada como essa não há como não falar dos donos do poder mundial e as engenharias sociais deles.

Vamos colocar as coisas dentro de perspectiva mais ampla, dentro não só da agenda 2030 dos donos do poder mundial como também dentro de uma visão macro-histórica, de uma perspectiva de longa duração. A ameaça da inteligência artificial para com o emprego dos dubladores nada mais é que o desemprego tecnológico em sua versão 4.0. A inteligência artificial, assim como a robótica, nada mais exerce nos dias de hoje o mesmo papel que lá atrás, no século XVIII, o tear mecânico exerceu no processo da Primeira Revolução Industrial. Em outras palavras, é uma situação que na história de novo não tem nada.

À época, a adoção em massa do tear mecânico nas fábricas inglesas causou um desemprego tamanho que em reação a essa situação e vendo seus empregos virarem pó ante o surgimento da nova tecnologia que surgiram movimentos operários tais como o ludismo e o cartismo, que se posicionaram contra a substituição da mão-de-obra humana pelas máquinas (por eles vistas como demoníacas) e que se notabilizaram, entre outras coisas, por suas depredações de maquinário das fábricas inglesas nos primeiros decênios do século XIX. Também na mesma época os operários das fábricas inglesas eram submetidos a jornadas de trabalho extenuantes que chegavam a 16 horas por dia, além de salários miseráveis e viverem em moradias precárias.

Foto – Manifestação de trabalhadores vinculados a movimentos como o ludismo e o cartismo na Inglaterra do século XIX: massivas destruições e depredações de maquinário industrial.

Aliás, falando em Revolução Industrial, vale lembrar que nos anos 1980 houve uma série de documentários da Enciclopédia Britânica lançados em fitas VHS e dublados no finado estúdio paulistano Álamo (à época um dos principais estúdios de dublagem do Brasil, junto com o estúdio fluminense Herbert Richers, hoje também finado). A julgar pelo elenco de dublagem desses documentários, devem ter sido dublados na metade dos anos 1980, talvez mais ou menos na mesma época em que as dublagens dos seriados nipônicos Jaspion e Changeman e de filmes como Comando Delta foram feitas.

E entre estes documentários há um sobre a Revolução Industrial, que contou com a narração de Francisco Borges (em minha humildade opinião uma das mais belas vozes masculinas da dublagem brasileira junto com Newton da Matta e Fábio Moura, finado em 2008 aos 74 anos de idade – dublador esse que pelo que vejo não é lá muito lembrado pelos fãs da arte). Inclusive fala a respeito do custo social deixado pela Revolução Industrial:

E às vezes eu penso no seguinte: será que a dublagem, nessa história toda, não está sendo feita de balão de ensaio para que mais adiante, no momento em que a Inteligência Artificial e a Robótica estiverem em um patamar mais elevado, outras artes sofram esse mesmo tipo de ataque? Em outras palavras, de um dia vermos a corda esticar cada vez mais e mesmo a atuação de atores vivos em filmes live-action e até no teatro também seja atacada (e nisso utilizando-se de hologramas de atores icônicos já finados)? Por isso que as diversas classes artísticas devem se unir em favor dos dubladores antes que a corda estique cada vez mais e eventualmente venha a arrebentar para o lado deles.

E para fechar: se o mundo 4.0 vindouro já é bem assustador, fico imaginando o que o mundo 5.0 ou o 6.0 irá nos reservar (e a tendência é essa com o passar do tempo: de as revoluções industriais e tecnológicas acontecerem em intervalos de tempo cada vez menores). Como bem disse um dos arautos do Grande Reset e da Agenda 2030, Klaus Schwab, “você não terá nada e será feliz sobre isso”.

Foto – “Você não terá nada e será feliz sobre isso” – Klaus Schwab, um dos arautos do Grande Reset e da Agenda 2030.

FONTES:

Dubladores criam abaixo-assinado para evitar o uso de inteligência artificial por estúdios. Disponível em: Dubladores criam abaixo-assinado para evitar o uso de inteligência artificial por estúdios (manualdosgames.com)