domingo, 15 de março de 2020

Bandido bom é bandido morto, exceto se for um dos meus - a hipocrisia bolsonarista (e da esquerda pequeno-burguesa também) no caso Suzy-Dráuzio Varella



Foto – Fotos de Bozo pai e de Carlos Bolsonaro (vulgo Pavão Misterioso) com o professor de artes marciais Josinaldo Lucas Freitas, o Djaca (preso em 2019 depois de jogar ao mar armas que teriam sido usadas no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes), e o ex-PM Élcio de Queiroz (suspeito de envolvimento no caso Marielle).
Recentemente, vimos o episódio do abraço do médico Dráuzio Varella (figura essa a qual nós não nutrimos grande simpatia, tendo em vista tratar-se de um defensor de pautas como liberação de narcóticos e aborto) ao detento transexual Suzy (preso depois de ter assassinado, estuprado e ocultado o cadáver de um menino de nove anos) veiculado pela TV Globo no jornal do Fantástico causar grande estardalhaço (fato esse não mencionado durante a reportagem em questão). Muitas vozes se levantaram em favor da atitude do médico, assim como reações contrárias. Não vamos aqui julgar a respeito da atitude do doutor Dráuzio Varella, se ele sabia ou não do crime do indivíduo em questão ou se ele foi lá para desempenhar o papel de médico ou de juiz, até pelo fato de que esse não é nosso papel e não me pretendo a tal no presente texto. Pois esse caso e a repercussão por ele gerada é paradigmática, pois diz muito sobre quem é não apenas que esquerda nós temos e as bandeiras que vem defendendo há tempos, como também que direita nós temos e sua retórica hipócrita no que tange à bandidagem. A respeito do Doutor Dráuzio Varella em si, pouco ou nada em si diz respeito.
Primeiro, uma breve consideração a respeito da Rede Globo e o papelão feito por ela nesse caso. Nós não temos nenhuma solidariedade em relação à emissora da família Marinho. Não apenas em relação à Globo, como também a todos esses veículos de comunicação que agiram da forma mais cretina possível nos últimos anos e hoje estão “surpresos” de que hoje temos um troglodita que não serve nem para ser síndico de prédio na Presidência da República. Eles chocaram o ovo da serpente durante esse tempo todo conspirando a favor do impeachment de Dilma e da prisão de Lula, e hoje essa mesma serpente os pica e neles inocula seu veneno. Bem feito para a emissora da família Marinho. Segurem que o filho é de vocês.
Segundo, que é graças a uma esquerda como essa que hoje temos um miliciano como Presidente da República, como também proliferam mundo afora os chamados populistas de direita, entre eles Matteo Salvini, Viktor Órban, Marine Le Pen, Geert Wilders, Boris Johnson, Donald Trump, AfD, Pegida e tantos outros do movimento internacional puxado por Steve Bannon. Se um dia o Brasil virar o Milicianistão que o nosso Presidente imbecil tanto quer, com milicianos em toda parte agindo de forma análoga aos Tonton Macoute do Haiti dos tempos da dinastia Duvalier, uma coisa é certa: essa esquerda liberal que mais se preocupa se o gay e o travesti podem casar ou não na Igreja que com as necessidades da população terá grande culpa no cartório (embora não a única, obviamente).
É por causa de uma esquerda como essa que prefere defender determinados tipos de pessoas, não raro só por causa de sua orientação sexual não-tradicional e/ou por pertencer a algum outro grupo social minoritário e que por meio do politicamente correto diz que é errado chamar favela de favela, que vemos, por exemplo, o cidadão comum francês hoje ver-se muito mais representado pela Marine Le Pen que pelo Hollande ou pelo Mélenchon. Na Alemanha o SPD (Sozialdemokratische Partiei Deutschlands; em alemão Partido Socialdemocrata da Alemanha) está fora do poder há 15 anos e gradativamente perdendo sua posição como segunda força política do país de Goethe e Richard Wagner para o AfD (Alternative für Deutschland; em português Alternativa para a Alemanha). Na Inglaterra, devido às vacilações de Jeremy Corbin em relação a temas como o Brexit, os trabalhistas sofreram uma acachapante derrota para Boris Johnson até mesmo em lugares como as Midlands (região da Inglaterra central, tradicional reduto de movimentos e partidos esquerdistas). Na Itália a esquerda imponente diante de partidos e movimentos como o Cinco Estrelas e o Lega Nord. Ou mesmo o fato de que enquanto que na Hungria o atual premiê Viktor Órban toma medidas contra a presença de George Soros (o mesmo Soros que segundo o Doutor Enéas em discurso de 1998 era maior narcotraficante do planeta) em seu país (incluindo a proibição do funcionamento de ONGs financiadas pelo multibilionário judaico-húngaro), esse mesmo sujeito, que patrocinou o fim do bloco soviético financiando movimentos como o Solidariedade na Polônia e depois revoluções coloridas no espaço pós-soviético como a Revolução Bulldozer na Sérvia em 2000, Revolução Laranja na Ucrânia em 2004 e o Euromaidan na mesma Ucrânia em 2014, é defendido por setores dessa mesma esquerda quando atacado por determinados grupos de direita (como é o caso de Henry Bugalho).
Se essa esquerda não rever logo tais posicionamentos (algo que precisa ser feito para ontem, quiçá para o mês passado, diga-se de passagem), o nosso Presidente imbecil e sua familícia se perpetuarão no poder mesmo com o dólar a 20 reais e todo mundo ou trabalhando de Uber, iFood e serviços afins ou envolvido com milícia, tamanha é a mediocridade dessa esquerda, que não se dá conta de que não passa de uma bucha de canhão de grandes investidores internacionais como George Soros e seu projeto de Sociedade Aberta.

Foto – A abissal diferença entre a esquerda clássica e a new left.
E por fim, terceiro e mais importante de tudo, esse episódio mostra que a retórica da parte dos bolsonaristas de que bandido bom é sinônimo de bandido morto é mais falsa que nota de três reais. Algo que já começa com o fato de o atual Presidente da República (que soltou uma postagem em sua conta no Twitter a respeito do caso), durante a sessão de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, dedicou seu voto à memória de um dos mais famosos torturadores e carrascos da ditadura civil-militar brasileira, o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Nas palavras do próprio Bozo, Ustra em vida foi o “pavor de Dilma Rousseff”. Além do Coronel Ustra, Bolsonaro tem entre seus “heróis” o coronel Lício Maciel, notável por ter prendido José Genoíno na guerrilha do Araguaia, contra o qual foi movida uma ação civil pública por prisão ilícita, tortura e homicídio de quatro militantes do MOLIPO (Movimento de Libertação Popular), atuante no Tocantins no tempo da ditadura. O mesmo Lício Maciel que mais tarde veio a se reencontrar com Genoíno em 2005, quando o petista foi prestar depoimento na CPI da mensalão. E isso graças a Bolsonaro, que o convidou para a seção a ponto de pagar a passagem de avião dele.

Foto – Tweet do Presidente Bolsonaro a respeito da atitude de Dráuzio Varella, destilando sua típica hipocrisia e falso moralismo.
E não para por ai. Bolsonaro também é admirador de figuras históricas como o ex-presidente peruano Alberto Fujimori, o ditador chileno Augusto Pinochet (que dispensa comentários) e o ditador paraguaio Alfredo Stroessner, notório pedófilo, o qual recebeu elogios da parte de Bolsonaro em visita ao Paraguai em fevereiro do ano passado. Stroessner, que governou o Paraguai entre 1954 a 1989, tinha como esporte o estupro de meninas virgens e exigia da parte de seus assessores o constante fornecimento de garotas virgens para seu uso pessoal e sob cujo governo o Paraguai se tornou redes de contrabando do mundo, no qual as Forças Armadas participavam diretamente do tráfico de narcóticos. E isso ao mesmo tempo em que chama os regimes cubano e venezuelano de ditaduras. Tutti buona genti, como dizem na Itália.
Isso sem contar com ligações dele e dos filhos dele de longa data com as milícias do Rio de Janeiro, entre eles o Escritório do Crime, envolvido na morte de Marielle Franco em 2018. Voltemos ao longínquo ano de 2003, quando grupos de extermínio tocavam o terror na Bahia, sob a liderança de policiais e ex-policiais civis e militares. Centenas de jovens negros da periferia foram assassinados por esses grupos em retaliação por supostos crimes. Bolsonaro fez um discurso no plenário da Câmara defendendo tais elementos. Bozo pai voltaria a defender elementos desse naipe cinco anos mais tarde, na CPI das Milícias.
Bolsonaro mora no mesmo condomínio de milicianos pertencentes à milícia Escritório do Crime como Ronnie Lessa (cuja filha durante certo tempo namorou o quarto filho de Bozo pai), na Barra da Tijuca, um dos bairros mais nobres do Rio de Janeiro, e já tirou fotos ao lado de outras figuras desse quilate. Tudo indica que pelo andar da carruagem das investigações do caso Marielle Franco que há envolvimento de alguém da família Bolsonaro, ao menos indireto, na morte dela e do motorista do carro (mais provavelmente, seu segundo filho, com o qual havia um verdadeiro clima de guerra pouco antes do falecimento da política carioca).

Foto – Adriano da Nóbrega (m. 2020).
Mas o mais emblemático caso dessa relação da familícia Bolsonaro e as milícias cariocas é a relação com o miliciano e ex-BOPE Adriano da Nóbrega, recentemente falecido em decorrência de uma operação policial na Bahia. Em 2005, não apenas Bozo pai, como também Flávio Bolsonaro (que dois anos antes concedeu moção honrosa a Ronald Paulo Alves, quando este era investigado como um dos executores de cinco jovens e que em 2007 quis legalizar as milícias) não apenas visitou como também homenageou com a medalha Tiradentes (a maior honraria que um policial pode receber) o ex-BOPE, na época preso por assassinato. Também veio a empregar mãe e esposa de Adriano da Nóbrega em seu gabinete. 

Cinco anos mais tarde, o mesmo 01 recusou essa mesma medalha ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) em discussão na ALERJ com o deputado Paulo Ramos, então do PDT, por causa de supostas ligações do movimento social pela reforma agrária com criminosos. Também se opôs a uma moção de louvor a Carlos Marighella no ano seguinte na mesma ALERJ. 


Abaixo, as várias coincidências entre as milícias e a família Bolsonaro desde 2003 (no mínimo), em texto que pode ser encontrado em redes sociais como o Facebook e aqui reproduzido:
“Segue abaixo as coincidências:
2003 - Jair defende milicias
2007 – Flávio quer legalizar milicias
2011 – A juíza Patricia Acioli é assassinada por milicianos, Flávio a difama.
2015 – De 70 deputados da ALERJ, Flávio é o único a votar contra CPI q investigara policiais.
2018 – Já em campanha, Jair defende milicias (de novo)
2018 – Flávio faz campanha com família ligada ao jogo do bicho (muitos bicheiros viraram milicianos)
2018 – Marielle é assassinada (silêncio dos Bolsonaros)
2018 – Dois PM's são presos, acusados de serem milicianos, os dois são irmãos da tesoureira e assessora do PSL
2018 – Dois candidatos do partido do Bolsonaro quebram uma placa de homenagem a Marielle e Flávio os defende.
2018 – descobrem q uma milícia de São Gonçalo teria atuado em favor de um dos candidatos de Jair Bolsonaro à ALERJ, o coronel Fernando Salema (PSL)
2019 – COAF revela que Fabrício, ex-assessor de Flávio, fez movimentação atípica de R$ 1,233 milhão entre 2016 e janeiro de 2017. O ex PM já cometeu pelo menos 10 homicídios;
2019 – O COAF descobriu que, além do lote de 1,2 milhão de reais, passaram também pela conta corrente do assessor de Flávio 5,8 milhões de reais nos dois exercícios imediatamente anteriores.
2019 – Novo relatório do COAF aponta Flávio recebeu R$ 96 mil em 50 depósitos fracionados. Ele alega que o dinheiro vivo é fruto da venda de um imóvel;
2019 – É revelado que Queiroz, antes de ir para o Albert Einstein, se escondeu na favela de Rio das Pedras, dominada pela milícia;
2019 – Flávio empregou mãe e mulher de chefe do Escritório do Crime em seu gabinete, suspeitos de assassinarem Marielle.
2019 – Flávio foi o único parlamentar que votou contra a concessão da medalha Tiradentes à Marielle.
2019 – Carlos tenta manchar a imagem da Mangueira nas redes sociais, dizendo q a escola tem envolvimento com milícias, depois dela ter ganho o carnaval fazendo homenagem a Marielle.
12/03/2019 – Élcio e Lessa, dois ex-PMs são presos acusados do assassinato da Marielle, Lessa mora no mesmo condomínio luxuoso que Jair e só se mudou pra lá, depois da morte de Marielle.
12/03/2019 - Delegado responsável confirma que filho mais novo de Bolsonaro namorou a filha de miliciano preso hoje!
MAS É TUDO COINCIDÊNCIA!”
Tais recusas podem à primeira vista parecer algo frívolo, trivial e até irrelevante, mas mostram bem o seguinte: que para a familícia Bolsonaro bandido bom é sinônimo de bandido morto, exceto se for um dos deles. Em outras palavras, de que a retórica anti-bandidagem da parte deles é uma grande conversa para boi dormir e que quando eles falam no traveco Suzy e criminosos afins que não fazem parte do círculo deles é o sujo falando do mal lavado.

Foto – Organograma das relações entre a família Bolsonaro e as milícias. Quando será que o Dallagnol (vulgo Mister PowerPoint) fará o PowerPoint das relações do Presidente com as milícias, tal como fez com o Lula, no qual o procurador paranaense o acusou de ter ligações com vários esquemas de corrupção?
Fontes:
Bolsonaro defendeu Adriano da Nóbrega na Câmara quando era Deputado. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nBlqVDlwHWU&t=3s
Caso Adriano e Flávio: Justiça já tem as provas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Hty0exUuhoc
Dr. Enéas – falando a verdade em menos de 1 minuto e meio. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Fyp78h5L6QU
Elogiado por Bolsonaro, saiba quem foi Alfredo Stroessner, ditador, nazista e pedófilo-estuprador em série. Disponível em: https://www.causaoperaria.org.br/elogiado-por-bolsonaro-saiba-quem-foi-alfredo-stroessner-ditador-nazista-e-pedofilo-estuprador-em-serie/
George Soros e seus amigos da CIA atacaram a União Soviética/Rússia em 1987. Disponível em: https://dinamicaglobal.wordpress.com/2016/01/02/george-soros-e-seus-amigos-da-cia-atacaram-a-uniao-sovieticarussia-em-1987/
George Soros: saiba toda a verdade! Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zgTfV2EFs1M
Flávio Bolsonaro (PP-RJ) impede medalha ao MST. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OmGxaWGAgyE&t=1s
Fotos dos Bolsonaro com milicianos presos reforçam necessidade de investigar laços da famiglia. Disponível em: https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/fotos-dos-bolsonaro-com-milicianos-presos-reforcam-necessidade-de-investigar-lacos-da-famiglia.html
Quais são as “coincidências” entre a família Bolsonaro, milícias cariocas e Marielle? Disponível em: https://www.justificando.com/2019/03/13/quais-sao-as-coincidencias-entre-a-familia-bolsonaro-milicias-cariocas-e-marielle/
Saiba porque Bolsonaro votou contra a medalha a Carlos Marighella. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eRgySILRuaw&t=38s
Todos os heróis de Jair Bolsonaro. Disponível em: https://theintercept.com/2019/03/03/todos-os-herois-de-jair-bolsonaro/

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Fuzilamento da família imperial: quem e por qual motivo tomaram a decisão (texto traduzido do russo para o português; por Boris Julin)



Foto – Nikolaj II e sua família em foto de 1913 colorizada.

Hoje eu gostaria de falar sobre tal evento épico, como o fuzilamento da família imperial. Nós já analisamos o conjunto do primeiro Sovnarkom[1], ou seja, do primeiro governo soviético – para esclarecer que quando “os judeus capturaram o poder na Rússia”, verificou-se que no Sovnarkom os judeus eram exatamente um homem. Agora nós compreenderemos com o que aconteceu ao redor da família imperial.
Além disso, os eventos por si mesmos, ou seja, a prisão da família, que foi efetuada ainda no tempo do Governo Provisório, o envio desta família à Sibéria, que foi também no tempo do Governo Provisório, a ideia do próprio tribunal sobre o tzar, que também foi ainda no tempo do Governo Provisório – isso nós observar não vamos. Isso já muitas vezes é observado, muito onde é mostrado. Da mesma forma que é dito sobre quem mataram, como cruelmente mataram, - isso nós também observar não vamos, por que isso muitas vezes em todo lugar foi dito e mostrado.
Sobre o que eu quero falar – apenas sobre aquele que poderia influenciar no fuzilamento e quem tomou a decisão.
A própria ideia de falar sobre isso foi gerada por um terrível calor da mais forte propaganda antissoviética, quando se tentou renomear a estação do metrô “Vojkovskaja”, acusando Vojkov de ser o assassino da família imperial. Pela propaganda antissoviética os assassinos da família imperial já são infindáveis: é Lenin, é Sverdlov, é Vojkov, em todos os malditos bolcheviques são culpados.
Então, o que temos na verdade, se apenas tomarmos como fato: depois da Revolução de Outubro na Rússia Soviética formou-se a coalização governante, que consistia dos bolcheviques, esseritas de esquerda e anarcomunistas e anarcosindicalistas, ou seja, essa é a coalização peculiar das alas esquerdas dos maiores partidos da nação dos revolucionários. Em Moscou e Petrogrado a palavra decisiva pertencia aos bolcheviques, mas o fato é que nessa época vigorava o lema “todo o poder aos sovietes!”, ou seja, os sovietes na zona de sua competência detinham toda a plenitude do poder.
Por exemplo, a primeira decisão sobre a criação do Exército Vermelho campesino-trabalhista tomou por conta própria o soviete local, ou seja, o soviete do lado de Vyborg em São Petersburgo, ou seja, os demais sovietes, portanto apenas apoiaram essa decisão. O soviete podia na zona de seu território demitir e designar funcionários, se ocupar com a atividade econômica, ou seja, toda a atividade econômica estava nos ombros do soviete, se ocupar com a atividade administrativa e mesmo política. Ou seja, os sovietes detinham poder real nos lugares.
A família imperial se encontrava sob o controle do Soviete dos Urais. O Uralsoviet estava sob o controle principalmente dos esseritas de esquerda, além disso, lá houve várias pessoas na Preziduma do Uralsoviet dos assim denominados “bolcheviques de esquerda” – o fato é que o Partido dos bolcheviques também não tinha unidade. Os bolcheviques de esquerda – eram pessoas que eram ardorosos oponentes da paz de Brest, que se posicionaram a favor do progresso da revolução mundial, pela lenta liquidação do capital e etc. Por exemplo, o camarada Bukharin foi o mais notável de todos os bolcheviques de esquerda. Na verdade, os bolcheviques leninistas no Uralsoviet eram bem poucos, a eles pertenceu, por exemplo, o próprio Vojkov. E assim a decisão sobre o fuzilamento da família imperial tomou o Uralsoviet.
E agora no assunto de que isso foi “ordem misteriosa de Lenin”, isso foi “ordem misteriosa de Sverdlov”, isso foi de qualquer maneira uma ação astuta dos bolcheviques para esconder seus rastros. Não, os bolcheviques queriam julgar o tzar, queriam trazê-lo a Moscou e lá julgá-lo. O mais provável é que o fuzilariam – aqui não se tem certeza, o mais provável é que não fuzilariam a família, mas aqui também não se tem certeza. Nós não vamos falar sobre essas hipóteses, nós falaremos sobre o que aconteceu.
O fato é que quando falamos que os bolcheviques nesta época governavam o país, as pessoas não sabem sobre o que falam. Os eventos, ligados com o fuzilamento da família imperial, aconteceram em julho de 1918. Quais outros eventos aconteceram em julho de 1918?
Em julho de 1918 aconteceu o levante dos esseritas de esquerda, apoiado justamente pela mesma parte dos bolcheviques – pelos assim denominados bolcheviques de esquerda foi apoiado. Estes eventos célebres, ligados com o assassinato pelos esseritas de esquerda do embaixador alemão Mirbach, tentativas de frustrar a paz de Brest, ou seja, de novamente mergulhar o país na guerra com a Alemanha, e nisso os esseritas de esquerda entraram em revolta armada direta. Eles capturaram Dzeržinskij como refém, eles assumiram o controle de um conjunto de objetos em Moscou, e esse levante suprimiu-se com o uso de força armada.
Além do levante dos esseritas de esquerda em Moscou, houve ainda o levante da Guarda Branca – mas, na verdade, em união novamente, apenas com os esseritas de direitas – em Jaroslavl. Ou seja, quando em um conjunto de cidades da região norte do rio Volga, principalmente em Jaroslavl, aconteceu a deposição, afastamento do poder dos bolcheviques, os quais fuzilaram. Exatamente a mesma barcaça ilustre, na qual mantiveram prisioneiros sem comida, sem água, fuzilamentos massivos, - isso é tudo o levante de Jaroslavl. Um tal de Boris Sanikov foi um dos líderes desse levante de Jaroslavl.
E eis que naquele tempo, exatamente durante todos esses eventos de julho, o Uralsoviet, que era liderado por esseritas de esquerda e bolcheviques de esquerda, tomou a decisão sobre o fuzilamento da família imperial. Se nessa época Lenin tentasse entregar a eles uma ordem de fuzilar a família imperial, o mais provável é que o Uralsoviet, ao contrário, igualmente recusaria fazer isso. Por quê? Por que comandavam o Uralsoviet aquelas pessoas que naquele tempo eram adversárias dos bolcheviques, adversárias de Lenin, eram aquelas pessoas, que tentaram afastar os bolcheviques do poder, considerando-os insuficientemente revolucionários. E eis que essas pessoas tomaram a decisão sobre o fuzilamento da família imperial.
O mesmo Vojkov prenderam pelo que ele marcou 200 puds[2] de ácido sulfúrico por volta dessa mesma época, mas o Soviete ocupou-se com a atividade econômica, além de outras coisas, e a fim de fuzilar a família imperial, ácido sulfúrico é desnecessário. O ácido sulfúrico é necessário para a produção industrial, e isso foi um dos recursos, que se distribuíam pelo Estado nesse período, ou seja, exatamente por ordens dos sovietes locais.
Propriamente falando, o único homem que dos bolcheviques, exatamente dos bolcheviques, tem relação direta com o fuzilamento da família imperial, era Jurovskij, que, na realidade, fuzilou esta família real. Mas o fato é que a esse homem os bolcheviques não ergueram monumentos, em honra dele estações de metro e fábricas não nomearam, ao contrário do mesmo Vojkov, que heroicamente morreu, sendo embaixador na Polônia, sendo lá morto por um terrorista. Não o estudam na escola, não o estudam em institutos, e o próprio nome do homem que fuzilou a família imperial emergiu no tempo da Perestrojka, e agora sobre ele sabe todo o país, graças à propaganda soviética, porque o fuzilamento da família imperial pelo governo soviético não se considerou como um fenômeno legítimo, ou seja, não o compreendem como algo legítimo, compreendem isso como um excesso muito ruim.
Nisso eu não quero dizer nada em defesa do último tzar: a minha opinião pessoal – ele mereceu o fuzilamento por ter arruinado o país, pelo que ele fez, por como ele governou, ele de fato mereceu isso. Mas nós agora falamos não sobre o que ele mereceu, que não mereceu. Nós não falamos sobre o assassinato, mereceu ou não o fuzilamento a família imperial, eu penso que ela não mereceu e não mereceria. Ou seja, eu acho que isso foi uma crueldade injustificável. Mas nós falamos agora sobre aquele que tomou a decisão sobre o fuzilamento da família imperial, e quem responde por isso.
Então os bolcheviques quiseram o julgar o tzar, julgar publicamente, mas a decisão sobre o fuzilamento tomou o Uralsoviet, que em julho de 1918 ao governo soviético da Rússia Soviética banalmente não se submeteu e se proclamou por aquelas pessoas, companheiras de luta das quais insuflaram nesse período revolta contra os bolcheviques, ou seja, o famoso levante dos esseritas de esquerda. Isso é tudo.
Comentários meus:
101 anos completaram-se no dia 18 do último mês da tragédia que se abateu ao último tzar da Rússia e sua família (os quais posteriormente vieram a ser canonizados pela Igreja Ortodoxa em 2000 como portadores da paixão [em russo strastoterpec/страстотерпец] – segundo a teologia ortodoxa, o portador da paixão é uma pessoa que enfrenta a sua morte de forma similar a de Jesus Cristo).
Desde então, muito se comenta a respeito de uma possível ordem da parte de Lenin para o soviete dos Urais para fuzilar a família real, principalmente dos funestos anos da Perestrojka e o fim do poder soviético em diante. Dessa forma, mostrava-se interessante a aqueles que estavam no poder acusar Lenin, Stalin e outras lideranças do período soviético de tudo quanto é crime nos sete decênios e meio em que eles governaram a Rússia, como forma de legitimar o poder deles naqueles anos conturbados e funestos que o gigante nortenho viveu.
Mas os fatos aqui apresentados mostram uma história completamente diferente: Lenin é inocente das acusações a ele imputadas de que ordenou o assassinato do tzar deposto e sua família. E não apenas isso: os próprios Romanov foram depostos e depois presos e enviados para Tobol’sk e Jekaterinburg não pelos bolcheviques, mas pelo Governo Provisório que assumiu o comando do país por meio da Revolução de Fevereiro de 1917. Apenas em outubro do mesmo ano que os bolcheviques assumiram o poder, e só após o fim da guerra civil que se arrastou de 1918 a 1922 é que consolidaram sua autoridade sobre o todo o território do que veio a se constituir como a União Soviética.
Interessei-me a respeito desse assunto quando li um artigo no blog de Vitalij Lëzov (fonte: http://guiademoscu.com/?p=1162), o Guia de Moscou, no qual é dito que os verdadeiros autores do assassinato de Nikolaj II e a família dele foram justamente os esseritas (socialistas-revolucionários) de esquerda, que se desentenderam com Lenin após a assinatura da paz de Brest com a Alemanha e que queriam conduzir uma guerra revolucionária contra a mesma – a ponto de matar o embaixador Mirbach. Dai resolvi me aprofundar a respeito da verdadeira autoria do assassinato do último tzar russo em sites russos e com o tempo tive a ideia de traduzir um desses textos para o português. Ou seja, uma coisa foi puxando a outra até chegar ao ponto em que chegou.
Mas por qual motivo, razão ou circunstância trago esse assunto para cá, a ponto de traduzir um texto do russo para o português sobre algo ocorrido há 101 anos? Porque muito haver com a realidade que o Brasil vive no presente momento. Mais precisamente, no que tange à questão da indústria ideológica do anticomunismo promovida pelo governo do miliciano que hoje ocupa a presidência da República e que também foi forte na Rússia durante a era Jel’cin (sobre o qual nos debruçaremos em textos posteriores por mim traduzidos). É interessante notar, por exemplo, que essa extrema direita que hoje está no poder hoje volta e meia arrota aos quatro ventos que esquerdistas costumam defender bandidos e/ou assassinos. Sendo que, para começo de conversa, na União Soviética, como dito no texto, nunca ergueram um único monumento em homenagem à Jurovskij ou qualquer outro que tomou parte no assassinato da última família imperial russa. Ainda mais interessante é notar que seu nome só veio à tona no tempo da Perestrojka, a mesma Perestrojka que junto com a igualmente desastrosa Glasnost ajudou a abrir o caminho para o desmoronamento do colosso soviético durante a era Gorbačev. Além disso, é extremamente necessário nesse momento delicado e conturbado que o Brasil vive conhecer a verdade a respeito de episódios como esse, para que não repitam (em especial a esquerda) as mentiras contadas pela direita.

Notas:

[1] Da sigla em russo Soviet narodnykh komissarov (cirílico russo Совет народных коммиссаров). Instituição de governo formada pelo Segundo Congresso Panrusso dos Sovietes durante a Revolução de outubro de 1917 e que com o tempo converteu-se na máxima autoridade governamental do poder executivo sob o sistema soviético. Transformou-se em 1946 no Conselho de Ministros.

[2] Cirílico russo пуд. Medida russa de peso que equivale a 16,3 quilos




terça-feira, 23 de julho de 2019

Ariano Suassuna, o cavaleiro do sertão - homenagem.



Foto – Ariano Suassuna (1927 – 2014).
Hoje, 23 de julho de 2019, completam-se meio decênio que um dos grandes nomes da literatura brasileira de todos os tempos, o dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor Ariano Vilar Suassuna, nos deixou.
Nascido nas dependências do Palácio da Redenção, a sede do executivo paraibano, na atual João Pessoa (então Cidade da Parahyba) no dia 16 de junho de 1927, filho de Cássia Villar e João Suassuna. Perdeu seu pai aos três anos de idade vítima de um assassinato por motivos políticos no Rio de Janeiro na sequência da revolução de 1930 e junto com sua família mudou-se para Taperoá, onde morou entre 1933 a 1937. Lá, Ariano fez seus primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola. Isso
A partir de 1942 passou a viver no Recife (onde terminou três anos depois os estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Osvaldo Cruz), e no dia 7 de outubro de 1945 deu início a sua carreira literária por meio da publicação do poema “Noturno” no Jornal do Commercio do Recife. Dois anos mais tarde escreveu sua primeira peça, “Uma Mulher Vestida de Sol”, e a ela seguiram-se outras tais como “Cantam as Harpas de Sião” (1948) e “Auto de João da Cruz” (1950). Sua atuação no teatro também foi marcada pela fundação do Teatro do Estudante de Pernambuco junto com seu colega da Faculdade de Direito Hermilo Borba Filho (com o qual também veio a fundar em 1959 o Teatro Popular do Nordeste). Em 1950, Ariano não apenas se formou na Faculdade de Direito como também recebeu o Prêmio Martins Pena no mesmo ano por “Auto de João da Cruz”.
Em 1953, um ano após voltar a morar em Recife, escreveu “O Castigo da Soberba” e no ano seguinte “O Rico Avarento”. Mas foi o “O Auto da Compadecida” (1955), que projetou seu nome a nível nacional. A sua obra máxima sucederam-se outras como “O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna” (1958) e a “A pena e a lei” (1959). Em 1969, “A pena e a lei” veio a ser premiada no Festival Latino-Americano de Teatro. Posteriormente, outras obras viriam a ser publicadas tais como “O Romance d’A Pedra do Reino – o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (1971) e “História d’O Rei Degolado nas caatingas do Sertão” (1976). Postumamente, mais precisamente em 2017, foi lançada a obra “A Ilumiara – Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores”, cuja organização ficou a cargo de sua família reunindo os escritos que o mestre levou seus últimos três decênios de vida para escrever. Segundo as palavras do próprio Suassuna em entrevista concedida à Veja nove dias antes de deixar este mundo, tal romance foi dedicado a três pessoas: Miguel Arraes, Lula e Eduardo Campos.
Torcedor do Sport Club Recife, Ariano Suassuna também se notabilizou por ter sido o idealizador do Movimento Armorial, ao qual deu início em outubro de 1970. Tal movimento tinha como objetivo o desenvolvimento de uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do nordeste do Brasil e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Para tal o movimento procurou direcionar todas as formas de expressão artística, incluindo música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema e outras. E para tal convocou nomes expressivos da música com o intuito de procurarem uma música erudita nordestina que viesse a juntar-se ao movimento. Além de Suassuna, também se destacaram dentro do Movimento Armorial o artista plástico e ceramista pernambucano Francisco Brennard, o desenhista e pintor pernambucano Gilvan Samico, o jornalista e escritor pernambucano Raimundo Carrero, o músico compositor potiguar Antônio Madureira e o artista e músico pernambucano Antônio Nóbrega, entre outros.

Foto – Ariano Suassuna ao lado de Miguel Arraes e outros políticos.
Também atuou na política, tendo sido secretário da educação e cultura do Recife entre 1975 a 1978 e secretário de cultura do Estado de Pernambuco entre 1994 a 1998, durante o governo de Miguel Arraes. Também digno nota é o fato de que Ariano Suassuna foi o sexto ocupante da 32ª cadeira da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito no dia três de agosto de 1989 sucedendo a Genolino Amado. Na cidade pernambucana de São José do Belmonte, cidade onde ocorre a cavalgada inspirada no “Romance d’A Pedra do Reino”, Ariano Suassuna construiu um santuário ao ar livre constituído de 16 esculturas de pedra de 3,50 de altura cada (entre elas imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora e São José, o padroeiro do município) e dispostas em formato circular, representando o sagrado e o profano.
Como pode ser visto em várias de suas aulas-espetáculo disponíveis em sites de compartilhamento de vídeos como o You Tube, o Vimeo e outros, Ariano Suassuna foi um notável defensor não apenas da cultura nordestina, como também do Brasil como um todo. Haja vista, por exemplo, suas críticas a determinados setores da sociedade brasileira que chegam ao ponto de dividir pessoas entre aquelas que foram à Disney e aquelas que não foram à Disney e de modo geral sua postura de valorização da cultura brasileira diante dos modismos vindos de fora (algo que, diga-se de passagem, não começou hoje, e sim desde os tempos do Império e da Primeira República, quando a alta sociedade brasileira queria ser francesa e sonhava com os bulevares de Paris). Também nessas mesmas aulas-espetáculo, Ariano (citando Machado de Assis) disse que existem dois Brasis: o Brasil oficial e o Brasil real. O primeiro é o Brasil dos privilegiados, ou seja, daquilo que Jessé Souza chama de a elite do atraso, que manda no país desde o século XVI e seus associados. E o Brasil real é o Brasil do povo mais humilde, dos condenados da Terra. Segundo as palavras do mestre, o primeiro é burlesco e caricato, enquanto que o segundo é a parte boa do país.
No presente momento em que temos na presidência do país um sujeito ligado ao milicianato carioca que lambe as botas das grandes potências (a tal ponto que faz parecer FHC e Temer nacionalistas) e que não teve o menor pudor em ofender publicamente a região nordeste (para isso se utilizando da expressão “paraíba”, termo pejorativo para se referir a nordestinos de modo geral no Rio de Janeiro – similar ao “baiano” usado em São Paulo), é salutar homenagearmos e lembrarmos não apenas de Ariano Suassuna, como também de outros tantos próceres da cultura nordestina (incluindo também Paulo Freire, do qual Ariano Suassuna era grande amigo e que o miliciano e sua gangue querem a todo custo caçar o título de patrono da educação brasileira a ele concedido em 2012). É uma forma de lembrar não apenas o grande homem que Suassuna em vida foi e toda a contribuição cultural que a nós nos legou, mas valorizamos a cultura não apenas do Nordeste como também do Brasil como um todo, ainda mais nesse momento crítico e nos dias sombrios que o país vive.
ARIANO VILLAR SUASSUNA, PRESENTE!

Foto – Ariano ao lado de sua esposa Zélia, companheira de vida com a qual foi casado durante 57 anos.

sábado, 18 de maio de 2019

Cinco meses de Bolsonaro: um governo das minorias contra a maioria (por Lucas Novaes).

Em outubro de 2018, na reta final da campanha eleitoral presidencial do 1º turno, Bolsonaro proferiu a seguinte frase: "Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias tem que se curvar às maiorias. A lei deve existir para defender as maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem.". Essa famigerada sentença gerou um grande alvoroço tanto por parte da grande imprensa burguesa como de uma parcela significativa da mídia de esquerda, que parecem atormentadas com a possibilidade de um governo que obedeça verdadeiramente às vontades da população.
Hoje, cinco meses depois, o que se vê do governo bolsonarista é justamente o contrário: um esforço enorme para tentar impor pautas econômicas liberais contra a vontade da maioria dos brasileiros. O principal projeto que o governo vem tentando aprovar é “A Reforma da Previdência” e para isso, tem gastado milhões de reais em publicidade para essa PEC. A reforma irá impedir que os trabalhadores se aposentem exclusivamente por tempo de contribuição, ou seja: sem aposentadoria para quem tem menos de 60 anos. E para receber 100% do benefício, serão necessários 40 anos de contribuição. O fato do principal “empreendimento” do governo federal ser uma lei que vai contra os interesses dos setores não privilegiados da classe trabalhadora (a absoluta maioria, que precisa trabalhar para apenas para continuar sobrevivendo de forma razoável) já coloca Bolsonaro e seus aliados como inimigos da maioria dos brasileiros.
Outro exemplo de defesa das minorias vindo deste governo é a sua posição radical contra Nicolás Maduro, o presidente legítimo da Venezuela consagrado com quase 70% dos votos em uma eleição onde parte da oposição minoritária liberal se ausentou devido a sua covardia e fracassos em derrubar o presidente. A posição de Ernesto Araújo (ministro das relações exteriores) é o de apoiar os interesses estadunidenses, que tem um apoio minoritário no país latino-americano.

Foto – Nicolás Maduro resiste ao golpismo imperialista
E o que Bolsonaro está fazendo pela maioria cristã que o elegeu? As pautas morais parecem ter sumido completamente da agenda governista. A única coisa feita por Bolsonaro nesses cinco meses que parece ir de encontro ao populismo que o elegeu foi o seu decreto que libera a posse de armas. Entretanto, esta liberação é apenas para categorias específicas: agentes de trânsito, políticos eleitos, conselheiros tutelares. E o fato desta ação ter vindo por meio de um decreto e não de uma longa discussão e aprovação na câmara dos deputados e no senado demonstra ou uma fraqueza ou um desinteresse do governo em comprar essa briga.
Durante esses primeiros meses, a população brasileira demonstrou apatia em relação a sua perda de direitos, algo comum para governos em início de mandato. Entretanto, o recente corte de verbas que afetou universidades públicas no Brasil parece ter voltado a mobilizar os cidadãos brasileiros, que foram para as ruas protestar contra este desgoverno em números que não se viam desde que foram mobilizados pela grande mídia e o empresariado contra Dilma Rousseff. A estratégia dos direitistas e apologistas do governo é a de deslegitimar os protestos, dizendo que foram encabeçados pelo PT para soltar Lula da prisão. Qualquer um que tenha acompanhado os protestos viu que havia sim partidários petistas na manifestação (e eles tem o direito de defender suas pautas), entretanto, foram absolutamente minoritários no enorme contingente de pessoas que foram às ruas. O único consenso que havia lá era o repúdio aos ataques contra a educação pública, e, em menor grau, a oposição à reforma da previdência também estava claro.

Foto – Maiores manifestações anti-governo desde 2016
O tamanho das manifestações chegou a animar muitos brasileiros, que agora já começam a considerar a hipótese do presidente renunciar ou ser afastado do cargo por meio de um impeachment. Quanto a esta pauta, é necessário ter cautela e levar em consideração que o vice-presidente Mourão também é neoliberal e entreguista. E se houver um acordo entre a esquerda e o centrão no congresso, isso pode dar apoio ao general para passar reformas impopulares, algo que não queremos. O que as manifestações do dia 15 deixaram claro é que a população rejeita toda a ideologia neoliberal, ou seja, o governo Bolsonaro como um todo, além de qualquer partidário de idéias similares.
Fontes:


sexta-feira, 3 de maio de 2019

O passado sombrio do juiz Moro, parte I - Operação Maringá



Foto – Jairo de Moraes Gianoto, prefeito de Maringá entre 1997 a 2000.
Em sua mais recente entrevista, concedida após um ano de prisão aos jornalistas Mônica Bergamo da Folha de São Paulo e Florestan Fernandes Júnior do espanhol El País, o ex-presidente Luís Ignácio Lula da Silva afirmou, entre tantas outras coisas, que quer desmascarar Moro, Dallagnol e companhia limitada. Pois bem, gostaria de dar uma mãozinha ao ex-presidente nisso.
Como dito em artigo anterior, a prisão de Lula pessoalmente muito me enoja não tanto por causa daquele que foi jogado ao mar para ser devorado pelos tubarões ou do fato dele ter sido condenado sem provas com base em um processo no mínimo discutível e por “atos indeterminados de ofício”, mas principalmente por causa dos piratas que o jogaram ao mar para ser devorado pelos mesmos tubarões. Sensação essa que em mim ficou ainda mais exacerbada dentro de mim após não apenas ver Moro se tornar ministro da justiça do governo Bolsonaro como também tomar conhecimento a respeito das boladas bilionárias que a Farsa Jato tentou se apoderar da Petrobrás (R$ 2,5 bilhões) e da Petrobrás (R$ 6,8 bilhões) por meio de acordos de leniência. Algo que o próprio Lula chamou de “criança esperança” do Dallagnol. O que configura como um verdadeiro esquema de lavagem de dinheiro com claras intenções políticas e eleitoreiras. Chegou-se ao ponto de Gilmar Mendes chamar essa gente de quadrilha com um projeto de poder.
Em meu humilde entendimento, um dos motivos (para além da blindagem por parte dos grandes veículos da grande mídia tupiniquim e a convergência de poderosos interesses nacionais e internacionais nesse sentido) pelos quais essa gente tem a popularidade que tem (em especial nas classes médias abastadas), a ponto de poderem bancar os paladinos da moralidade perante nós, é o desconhecimento da parte deles a respeito do Moro de antes da Lava Jato. Algo que pode ser visto no artigo publicado por José Padilha, diretor dos filmes Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 e do seriado “O Mecanismo”, no artigo publicado em 16 de abril de 2019 na Folha de São Paulo, onde ele disse que Moro, até então visto pelo cineasta como uma espécie de “samurai ronin”, perdeu sua independência política ao se atrelar à família miliciana Bolsonaro. Ele, que sempre apoiou o juiz Moro e a atuação dele na Lava Jato, agora demonstra decepção em relação ao mesmo, a ponto de dizer que agora ele é uma espécie de anti-Falcone (o magistrado italiano no qual Moro diz-se inspirar, assassinado pela Cosa Nostra em 1992).
Ao que tudo indica, José Padilha, assim como muitos dos apoiadores do ex-juiz e da Farsa Jato, não conhece o Moro de antes da Lava Jato, que sempre usou de sua toga para fazer política em favor dos tucanos locais, a começar pela Operação Maringá durante o mandato do ex-prefeito Jairo Gianoto (1997 a 2000) em Maringá. Ou seja, Moro nunca foi ronin (termo usado para designar um samurai sem mestre dos tempos do Japão pré-moderno, os quais muitas vezes eram condenados a uma vida desonrosa e sem propósito), mas um samurai propriamente dito. E o que ele faz hoje ao lado da família miliciana Bolsonaro é dar continuidade ao que já fazia antes com os tucanos do Paraná. E em meu entendimento, é trazendo à luz não apenas todo esse passado de politicagem a favor do tucanato do Paraná, suas reais relações com os doleiros Alberto Yousseff e Dario Messer e esquemas de corrupção como o das APAEs do Paraná e o da indústria das delações premiadas denunciado por Rodrigo Tacla Duran que Moro e sua quadrilha serão desmascarados.
Durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso, os tucanos, segundo Jessé Souza em seu mais recente livro “a classe média no espelho”, reduziram e desmontaram o Estado brasileiro a ponto de figurar apenas como um orçamento a ser dividido pela elite dos proprietários. E nessa brincadeira toda (a nível internacional inserida dentro de um contexto de crescente empoderamento do capital financeiro na economia global) entregaram a preço de banana empresas estatais para os donos do mercado durante a privataria tucana, encolheram as funções sociais do Estado, usaram o orçamento estatal para turbinar o setor financeiro com o dinheiro de todos, elevaram a taxa SELIC à taxa estratosférica de 45% com o intuito de propiciar o saque da população inteira e transformação do Banco Central na boca de fumo da real corrupção brasileira.
Nisso surgiram inúmeros esquemas de corrupção, a começar pela privataria tucana dos anos 1990 e o caso Banestado, o maior esquema de evasão de divisas da história do Brasil (que era feito por meio das contas CC5). Essa é a gênese dos esquemas de corrupção tucanos que sempre são colocados para debaixo do tapete da tão imparcial e impoluta justiça brasileira e perante os quais os esquemas nos quais os petistas se envolveram enquanto estiveram na presidência da República e o laranjal do PSL não passam de brincadeira de criança. Nas palavras do próprio Jessé Souza, FHC, em seu anseio de “enterrar a era Vargas” que está sendo retomado por Jair Bolsonaro no presente momento, fez do Estado brasileiro um “instrumento de rapina da ínfima elite de proprietários e dos estratos superiores da classe média”. E um desses esquemas é o da Operação Maringá, que movimentou uma quantia avaliada em cerca de R$ 49 milhões (R$ 500 milhões em valores atualizados). Esquema esse do qual tomei conhecimento por meio do Osvaldo Bertolino (tanto em seu site quanto de seus vídeos no You Tube). Entre aqueles que não vão com a cara do juiz Moro e da Farsa Jato muito se fala no caso Banestado e do fato dele ter livrado a cara de tucanos de alta plumagem e empresas de mídia nele envolvidos ao mesmo tempo em que prendeu alguns funcionários do banco, mas não vejo a mesma publicidade quanto à Operação Maringá, e é por isso que gostaria de começar por ela.

Foto – Luiz Antônio Paolicchi, ministro da Fazenda da administração Jairo Gianoto em Maringá.
Os vários esquemas de corrupção da era tucana deram luz a vários personagens, e um deles é Luiz Antônio Paolicchi, o qual ocupou o cargo de ministro da fazenda de Maringá entre 1993 a 2000. Pode-se dizer que para os tucanos locais Paolicchi era uma espécie de equivalente do que o finado Manfred von Richthofen era para os tucanos de São Paulo no tempo de Mário Covas, do que Paulo Preto é hoje para os mesmos tucanos de São Paulo e do que Fabrício Queiroz é para a família Bolsonaro. Juntos, Paolicchi e Gianoto foram responsáveis por um esquema milionário de desvio de dinheiro, e com tal dinheiro compraram itens como aviões, fazendas, colheitadeiras, insumos agrícolas e carros de luxos. O dinheiro desviado desse esquema comandado por Paolicchi, entre outras coisas, irrigou as campanhas eleitorais de Álvaro Dias (PSDB) e Jaime Lerner (então PFL, hoje DEM) a senador e governador, respectivamente, em 1998. Os negócios do esquema comandado por Paolicchi também incluíam figuras como Daniel Dantas e o doleiro Alberto Youssef.
Em 27 de outubro de 2000 Gianoto, cujo mandato foi marcado por uma série de escândalos administrativos, é deposto por improbidade administrativa antes do término de seu mandato e substituído pelo pemedebista João Alves Correia. Junto com Gianoto, Paolicchi também caiu, tendo sido investigado na época pelo Ministério Público de Londrina por suas ligações com Alberto Youssef, que em dezembro do mesmo ano foi preso em Londrina por envolvimento no escândalo AMA-Conurb. Ainda em 2000 a população de Maringá elege o petista José Cláudio Pereira Neto, com quase 107 mil votos. Gianoto, por seu turno, veio a ser preso seis anos mais tarde pela Polícia Federal por desvio de dinheiro público, formação de quadrilha e sonegação fiscal. Sérgio Moro (que na ocasião trabalhava no escritório de Irivaldo Joaquim de Souza, o advogado de Gianoto) veio em socorro de Gianoto por meio de um habeas corpus. Ironicamente, o mesmo habeas corpus que anos mais tarde foi negado a Lula Moro em 2006 usou-se para livrar a cara de um tucano envolvido em esquemas de corrupção e testemunhando em favor dele. Em 2010 Gianoto foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Paraná a devolver a quantia de cerca de R$ 500 milhões aos cofres públicos.
Junto com Paolicchi e Jairo Gianoto também foram condenados nos autos nº449/2000 Jorge Aparecido Sossai (então contador), Rosimiere Castelhano Barbosa (então tesoureira), Neuza Aparecida Duarte Gianoto (esposa do ex-prefeito), José Rodrigues Borba (ex-deputado federal) e os réus Sérgio de Souza Campos, Celso de Souza Campos, Eliane Cristina Carreira, Izaias da Silva Leme, Silvana Aparecida de Souza Campos, Valdenice Ferreira de Souza Leme, Valmir Ferreira Leme, Waldemir Ronaldo Correa, Paulo Cesar Stinghen, Moacir Antônio Dalmolin, a empresário Flórida Importação e Comércio de Veículos Ltda.
Em 2011 Paolicchi é brutalmente assassinado. Seu corpo foi encontrado amarrado dentro do porta-malas de um carro que estava abandonado. Seis anos mais tarde o tribunal do júri de Maringá condenou por crime de homicídio qualificado os três réus do caso Paolicchi: Vagner Eizing Ferreira Pio (com o qual Paolicchi mantinha uma união estável), Eder Ribeiro da Costa e Valdir Ferreira Pio (pai de Vagner). O primeiro por ter sido o mentor e mandante do crime, o segundo por ter efetuado os disparos que ceifaram a vida de Paolicchi e o terceiro por participação no homicídio.
Paolicchi se foi há quase um decênio, e poucas pessoas sabem a respeito da dimensão de seu envolvimento com a corrupção tucana do Paraná. Certamente, para seu túmulo muitos segredos a esse respeito ele levou. Segredos esses que bem provavelmente envolvem muitos bacanas da alta sociedade do interior paranaense. Em termos de nebulosidade política, pode-se dizer que o caso da morte de Paolicchi é um equivalente paranaense do caso da morte de Manfred von Richthofen e sua esposa Marísia, ocorrido em 2002, nas mãos da filha do casal Suzane e dos irmãos Cravinhos. Eu particularmente imagino o tanto de bacanas (incluindo juízes, procuradores, desembargadores, altos empresários, banqueiros, empresas de mídia e outros tantos) não seriam pegos caso não apenas os esquemas operados por Paolicchi e por Manfred von Richthofen como também por outros operadores do tucanato como o próprio Paulo Preto um dia vierem à tona. Bacanas esses que certamente devem ter dado aval e até ganho comissões e gorjetas desses esquemas. Também imagino as ligações entre os vários esquemas de corrupção dos tucanos que viriam a aparecer caso isso tudo viesse à tona.
Uma coisa é certa a respeito tanto de Paolicchi quanto de Manfred von Richthofen: caso ambos fossem em vida ligados a partidos de esquerda como o PT e o PDT e não aos tucanos, ou se um homicídio similar ao que ceifou a vida de ambos acontecesse com o João Vaccari Neto ou qualquer outro operador ligado ao Partido dos Trabalhadores, isso seria literalmente o escândalo do milênio. Os grandes veículos de comunicação dedicariam milhares de páginas e horas dos telejornais ao caso, seriam feitas investigações policiais incessantes, assim como mandatos de prisão expedidos por juízes e devassas em contas bancárias. Em um ano eleitoral, usariam isso como bala de prata de forma a influenciar o resultado das eleições em favor dos candidatos preferidos do sistema. E quando o caso chegasse aos tribunais, fariam uso do artifício da teoria do domínio do fato para incriminar Lula e outras figuras da alta cúpula petista. E obviamente enviesando politicamente até a medula as investigações a respeito dos esquemas de forma a incriminar apenas os petistas e não mostrar, por exemplo, que a tecnologia advinda do próprio esquema não é de origem petista, mas tucana.
Mas, como se trata de algo que diz respeito aos impolutos tucanos, isso, como diria o próprio ex-juiz e hoje ministro da justiça Moro, “não vem ao caso”. Dessa forma, os meliantes são presos enquanto que os grandes bandidos atravessam o rio sem serem incomodados pelas piranhas.
Fontes:
Souza, Jessé. A classe média no espelho: sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2018.
Desvio de verba envolve mais de 130 pessoas. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0403200125.htm
Diretor de Tropa de Elite, Padilha admite que errou ao apoiar Moro: “trabalha para a família Bolsonaro”. Disponível em: https://www.revistaforum.com.br/diretor-de-tropa-de-elite-padilha-admite-que-errou-ao-apoiar-moro-trabalha-para-a-familia-bolsonaro/
Em Maringá, juiz Sérgio Moro se une a sacerdotes hipócritas para acobertar corrupção tucana. Disponível em: http://outroladodanoticia.com.br/2015/11/24/osvaldo-bertolino-em-maringa-juiz-sergio-moro-se-une-a-sacerdotes-hipocritas-para-acobertar-corrupcao-tucana/
Eu quero desmascarar Moro, diz Lula! Não troco minha liberdade pela minha dignidade! Folha entrevista Lula. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5W8mlg2Ix3M
Jairo Gianoto, ex-prefeito da cidade de Maringá. Disponível em: http://www.maringa.com/maringa/jairo.php
José Padilha: o ministro anti-Falcone. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/04/o-ministro-antifalcone.shtml
Lula: “estou muito mais preocupado com o que está acontecendo com o povo brasileiro”. Disponível em: https://www.causaoperaria.org.br/lula-estou-muito-mais-preocupado-com-o-que-esta-acontecendo-com-o-povo-brasileiro/
Padilha diz que projeto de Moro favorece milícias ligadas a Bolsonaro. Disponível em: https://www.brasil247.com/pt/247/cultura/390323/Padilha-diz-que-projeto-de-Moro-favorece-mil%C3%ADcias-ligadas-a-Bolsonaro.htm
Perseguição a Lula é promessa de família. Disponível em: https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/02/perseguicao-de-moro-a-lula-familia.html
Sérgio Moro e a história do desvio de R$ 500 milhões em Maringá por tucanos. Disponível em: http://outroladodanoticia.com.br/2016/11/21/sergio-moro-e-a-historia-do-desvio-de-r-500-milhoes-em-maringa-por-tucanos/