quinta-feira, 21 de setembro de 2023

A russofobia barata e as omissões históricas de Lorenzo Lazzarotto (parte II)

Foto - Lorenzo Lazzarotto.

PARTE II – DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS: A LÓGICA (OU A FALTA DE) DA PARTE DE LAZZAROTTO. INQUISIÇÃO PROTESTANTE E XINTOÍSTA.

E agora com vocês, a segunda parte da minha resposta a Lazzarotto.

Lazzarotto acusa a Rússia de ser anti-católica por conta de todo um histórico de perseguições às Igrejas Greco-Católicas da Ucrânia e de Belarus tanto no período imperial quanto no período soviético. Até chega ao ponto de dizer o disparate de que o católico que se diz simpático à Rússia cospe na memória dos mártires greco-católicos sobre os quais ele falou no vídeo dele. Será que isso procede, ou não passa de uma falácia da parte dele?

Se formos pensar dessa maneira, de que a Rússia é anti-católica por conta de todo esse histórico de perseguição aos Uniatas da Ucrânia e de Belarus a partir do reinado de Catarina a Grande (r. 1762 – 1796), então por essa mesma lógica o Japão também é um país anti-católico, visto que a Nação do Sol Nascente, primeiro sob Hideyoši Toyomi (o mesmo Toyotomi que invadiu a Coréia duas vezes nos anos 1590) e depois no período Tokugawa (1600 – 1867), empreendeu uma feroz perseguição aos cristãos nipônicos. Apenas no período Meidži (1867 – 1912) que a perseguição ao cristianismo no Japão cessou.

O cristianismo foi introduzido no Japão pelos portugueses, quando estes chegaram à nação insular em 1543. A introdução do cristianismo no Japão é atribuída ao jesuíta Francisco Xavier, e graças ao contato do Japão com Portugal nessa mesma época o idioma japonês ganhou vários vocábulos de origem lusitana, a exemplo de palavras como arukoru (álcool), pan (pão), bateren (padre), botan (botão), koppu (copo), tabako (tabaco), tempura (tempero) e outras.

Graças à atividade missionária por parte das ordens franciscana, jesuítica e dominicana, houve várias conversões de nativos japoneses ao cristianismo, incluindo grandes senhores feudais da região sul. Nagasaki e Hirošima se tornaram dois dos principais redutos católicos do Japão. A primeira chegou a ser chamada de “A Roma do Oriente”. Calcula-se que o Japão chegou a ter certa de 100 mil convertidos ao cristianismo, incluindo muitos daimyos (grandes senhores feudais) em Kyušu.

As autoridades nipônicas em um primeiro momento mostraram-se receptivas à atividade missionária católica e à difusão do cristianismo por meio da atividade missionária (em especial no período de Oda Nobunaga), acreditando que a fé monoteísta não apenas poderia reduzir o poder dos monges budistas, como também auxiliar no comércio com Espanha e Portugal.

Entretanto, ao final do reinado do sucessor de Oda Nobunaga, Hideyoši Toyotomi, a atitude das autoridades japonesas para com o cristianismo começa a mudar. Era um período no qual o Japão passava por um processo de unificação política, e os japoneses, cientes não apenas das conquistas espanholas na América e nas Filipinas (a qual foi conquistada por meio da conversão da população nativa ao cristianismo), passaram a ver o cristianismo como uma ameaça à unidade nacional, com os fiéis da religião monoteísta sendo vistos como mais fiéis a Jesus que ao Xogunato então vigente e como uma espécie de quinta coluna que poderia vir em auxílio dos espanhóis, caso estes viessem a invadir o Japão militarmente tal como os mongóis fizeram em duas ocasiões três séculos antes (1274 e 1281).

Dessa forma, o imperador Ogimači publicou editos de banimento do catolicismo em 1565 e 1568, com pouco efeito prático. As perseguições começam de fato em 1587 com o banimento da atividade jesuíta por Hideyoši Toyotomi, e por fim o Xogunato Tokugawa colocou o cristianismo na ilegalidade em 1614.

Foto – Hideyoši Toyotomi, o iniciador das perseguições aos cristãos nipônicos.

A profissão aberta do cristianismo é proibida após o levante campesino de Šimabara, liderado pelo jovem samurai cristão Širo Amakusa Tokisada, entre 1637 a 1638. Famosos samurais, entre eles Miyamoto Musaši, participaram da repressão a esse levante. Com a ajuda da Companhia das Índias Orientais Holandesas, o levante foi reprimido e dali em diante os cristãos japoneses tiveram de levar uma vida clandestina, só podendo professar sua fé em segredo (kakure kirišitan). E nem assim as autoridades japoneses davam trégua a eles.

Um dos meios pelos quais as autoridades japonesas da época usaram para descobrir e perseguir os cristãos japoneses foi o fumi-ê. O fumi-ê consistia de uma imagem entalhada, geralmente em painéis de madeira, nas quais Jesus Cristo ou a Virgem Maria eram retratados. Por meio do fumi-ê, o suspeito de ser cristão pelas autoridades deveria pisar em uma imagem de Jesus ou da Virgem Maria para provar que não era um cristão.

O uso do fumi-ê se iniciou a partir de 1629, com as perseguições aos cristãos em Nagasaki. Os suspeitos de serem cristãos tinham de se submeter a tal escrutínio anualmente, todo oitavo dia do primeiro ano.

Ante as perseguições das autoridades do Xogunato, os cristãos tiveram que professar sua fé em segredo, e uma das formas que eles encontraram para driblar as autoridades foi utilizar-se estátuas da Virgem Maria disfarçadas para se parecerem com uma estátua de Kannon (chinês Guan Yin), a deusa da misericórdia no budismo chinês, contendo um símbolo cristão oculto na superfície ou dentro da estátua. No que deu origem à “Maria Kannon”.

Foto – Maria Kannon. Sincretismo religioso entre budismo e cristianismo que os cristãos japoneses encontraram como forma de poderem cultuar a Virgem Maria sem serem molestados pelas autoridades japonesas.

A proibição à profissão do cristianismo em solo japonês é parcialmente relaxada em 1856 nos portos abertos ao comércio com nações estrangeiras no contexto do fim da política de Sakoku (país acorrentado) e em 1873 (ou seja, no ano 6 da Era Meidži) em todo o país.

Foto – Fumi-ê: imagem entalhada em painéis de madeira de Jesus Cristo ou da Virgem Maria usada durante o período Tokugawa como forma de descobrir cristãos ocultos (os quais por sua vez tinham de pisar em tais imagens, do contrário seriam mortos e/ou submetidos a terríveis torturas).

Na cultura pop nipônica, a perseguição aos cristãos nipônicos durante o período Tokugawa é citada no episódio 2 do famoso seriado tokusatsu japonês Jiraya, de 1988, em uma conversa entre o Barão Owl e o vilão Dokusai, na qual o primeiro diz que queria ter para si a inscrição de Pako como forma de rezar pelas vidas dos cristãos japoneses perseguidos durante o período Tokugawa e assim obter o descanso eterno das almas deles. A questão dos cristãos japoneses também serviu de pano de fundo para trama da saga dos cristãos de Samurai X, a primeira das sagas exclusivas do primeiro anime após a saga de Kyoto, que vai dos episódios 67 a 78 e na qual Kenšin e seus amigos vão a Šimabara enfrentar Šogo Amakusa, espadachim cristão que, tomado pela raiva e pelo ódio, quer se vingar do Japão por conta das perseguições que o cristianismo sofreu no Japão durante quase 300 anos. O filme de 2016 Silêncio, dirigido por Martin Scorcese, também fala a respeito das perseguições que os cristãos nipônicos sofreram no período Tokugawa.

Pela lógica de Lazzarotto, se a Rússia é anti-católica por conta do histórico de perseguições aos fiéis da Igreja Greco-Católica Ucraniana e o fiel católico ao ser simpático à nação de Gogol, Puškin e Prokofiev cospe na memória dos greco-católicos que sofreram perseguições desde o século XVIII, então por essa mesma lógica o Japão também é tão ou mais anti-católico por conta do histórico de perseguições aos católicos nipônicos que se estendeu por quase 300 anos. E que o fiel católico que se diz simpático ao Japão também cospe na memória dos católicos perseguidos pelo Japão e que tiveram que se submeter ao fumi-ê e outras formas de humilhação e torturas diante das autoridades do Xogunato Tokugawa. E dessa forma não pode gostar nem de animes, mangás, seriados tokusatsu, j-pop, j-rock, nem nada que venha do país de Akira Toriyama, Osamu Tezuka e Šotaro Išinomori.

Se o fiel católico que se diz simpático à Rússia cospe na memória de Slepoj e dos outros mártires que ele menciona no último dele então, então pela lógica de Lazzarotto o fiel católico que se diz simpático ao Japão faz coisa análoga com os mártires que comeram o pão que o diabo amassou nas mãos dos inquisidores japoneses. Incluindo os 26 mártires crucificados e mortos em Nagasaki por ordens de Hideyoši Toyotomi em 1597 (beatificados pelo Papa Urbano VIII em 1627 e canonizados em 1862 pelo Papa Pio IX), os 205 mártires executados entre 1617 a 1632 executados por sua própria fé (beatificados pelo Papa Pio IX em 1867), os 16 mártires executados entre 1633 a 1637 (beatificados em 1981 pelo Papa João Paulo II e santificados seis anos mais tarde pelo mesmo Papa), os 188 mártires mortos e executados entre 1603 a 1639 (beatificados em 24 de novembro de 2008 pelo Papa Bento XVI) e os cristãos mortos no levante de Šimabara entre 1637 a 1638.

Foto – Os 26 mártires de Nagasaki, 1597.

E a coisa não se limita apenas à Nação do Sol Nascente. Os países europeus que aderiram à Reforma Protestante a partir do século XVI, entre eles a Inglaterra, a Holanda, os principados do norte da Alemanha (à época parte do Sacro Império Romano-Germânico) e as nações escandinavas, também promoveram políticas e perseguições aos fiéis católicos que se mantiveram fiéis à Santa Sé. Para designar essas perseguições aos católicos nas áreas da Europa que aderiram à Reforma a partir do século XVI utiliza-se o termo “Inquisição Protestante” por uma questão de conveniência historiográfica. Citemos alguns desses casos.

No norte da Alemanha, houve o caso do massacre dos monges da Abadia de São Bernardo de Bremen, em 1528, os quais foram assassinados e esfolados e em seguida pendurado no campanário por bandos protestantes (mas não sem antes de passarem sal na carne viva deles). No mesmo ano, em Augsburg, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do poder protestante.

Na Suíça calvinista, a missa foi prescrita em 1525, e a isso se seguiu a queima de mosteiros e destruição em massa de templos, no que forçou os bispos de Constança, Basiléia, Lausanne e Genebra a abandonar suas cidades. Em Zurique, foi ordenada a retirada de todas as imagens religiosas e enfeites das Igrejas. Até mesmo os órgãos foram proibidos. Católicos não apenas foram proibidos de ocupar cargos públicos, como também o comparecimento aos sermões católicos implicava em penas e castigos físicos. A posse de imagens e quadros religiosos em suas casas foi proscrita sob a ordem de “severas penas”. Na mesma época, os anabatistas também foram objeto de perseguição religiosa por parte de Zwinglio.

Miguel Servet, o descobridor da circulação sanguínea, foi queimado vivo em Genebra por decisão de um tribunal eclesiástico comandado por Calvino, em 1553. No distrito de Thorgau, um missionário zwingliano liderou um bando protestante que saqueou e destruiu o mosteiro local. Junto com o mosteiro também foram destruídos a biblioteca e o acervo artístico-cultural do mesmo.

Foto – Miguel Servet, médico espanhol condenado à morte por heresia por ordens de Calvino.

Na Inglaterra, a perseguição aos católicos começa com os “Atos de Supremacia” de Henrique VIII de 1534, os quais o elevaram à posição de chefe absoluto da Igreja na Inglaterra e declarou traidores todos aqueles simpáticos ao Papa Romano (com o qual o próprio monarca inglês rompeu). Com o rompimento do monarca inglês com o Papa, todas as propriedades até então em posse da Igreja passaram às mãos do rei.

Para levar adiante a perseguição, tribunais religiosos foram montados em todo o país. Padres e bispos fiéis a Roma foram presos e decapitados, Igrejas e mosteiros arrasados, milhares de mortes católicas. Seis monges cartuxos e o bispo de Rochester foram enforcados em 1535. O monarca também ordenou queimar milhares de católicos e anabatistas na mesma época.

A perseguição aos católicos também foi estendida à Irlanda: dos mais de mil monges dominicanos que existiam na Irlanda, apenas dois deles lograram sobreviver à perseguição. Na era Cromwell, novos episódios de matanças de católicos na Irlanda. Após o término da guerra, as melhores terras irlandesas foram entregues aos ingleses protestantes e os católicos irlandeses remanescentes forçados a migrar para o sul (episódio esse que criou não apenas a divisão da Irlanda em duas partes, como também as raízes do atual conflito entre irlandeses católicos e ingleses anglicanos que se arrasta até hoje).

Além disso, centenas de mulheres foram mortas acusadas de bruxaria tanto na Inglaterra quanto nas colônias norte-americanas (vide o episódio das “bruxas de Salem”, ocorrido em Massachusetts entre 1693 e 1694).

Na Escócia, após a adesão ao presbiterianismo, o poder civil obrigou a todos a adesão à Igreja “calvinista presbiteriana”. Sob ordens do líder religioso John Knox, a missa foi proibida sob pena de confisco de bens e açoites públicos. Católicos foram submetidos a perseguições e mortes violentas, igrejas e mosteiros arrasados e livros católicos queimados. Tal como na Inglaterra, tribunais religiosos foram criados especialmente para dar cabo dos católicos clandestinos.

A Holanda, por seu turno, não apenas perseguiu católicos em casa a partir do momento em que o catolicismo foi prescrito por ordem das câmaras dos Estados Gerais (muitos sacerdotes, leigos e religiosos foram mortos e martirizados, os bens da Igreja confiscados pelas autoridades), como também estendeu essas perseguições às colônias, incluindo as partes do Brasil sob o domínio batavo.

Em 1645, nos municípios de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante (Rio Grande do Norte) cerca de uma centena de católicos foi morta (incluindo dois padres, mulheres, velhos e crianças) porque estes se recusaram a abandonar o catolicismo em detrimento do calvinismo, a religião dos invasores. Posteriormente beatificados como mártires.

Na Escandinávia a situação não foi nem um pouco diferente. A Dinamarca-Noruega (lembrando que até 1814 a Noruega foi parte da Dinamarca, com os dois países formando a monarquia unida Dano-Norueguesa) aderiu à Reforma Protestante sob o rei Cristiano II (r. 1513 – 1523), que entrou para a  história com a alcunha de “Nero do Norte”. O monarca encarcerou bispos, confiscou bens eclesiásticos, expulsou religiosos fiéis à Santa Sé e proclamou-se chefe absoluto da Igreja Evangélica Dinamarquesa.  Em 1569 publicou 25 artigos segundo os quais todos os cidadãos e estrangeiros eram obrigados a assinar aderindo à doutrina luterana. Ainda em 1789 os sacerdotes católicos que tivessem a ousadia de pisar em solo dinamarquês eram sujeitos à pena de morte por decreto real.

Na Suécia o rei Gustavo da dinastia Vasa (r. 1521 – 1560) suprime por lei o catolicismo. Alguns bispos, entre eles Jacopson e Knut, foram decapitados. Outros foram obrigados a fugir do país junto com padres, diáconos e outros religiosos. Seminários foram fechados, enquanto que igrejas e mosteiros foram reduzidos a farelo. Indignados com a repressão ao catolicismo, amplos setores da população pegaram em armas e saíram em defesa de sua fé. O rei sueco tratou de afogar em sangue esta reivindicação.

Muita da legislação anti-católica vigente na Europa protestante só veio a ser relaxada a partir do século XIX. E levando em conta todo o histórico de perseguições a católicos nos países europeus que aderiram à Reforma Protestante a partir do século XVI, pela lógica que Lazzarotto aplica em relação à Rússia o fiel católico também não pode ter simpatia alguma por esses países e não pode gostar de bandas de viking metal, nem apreciar a literatura de grandes escritores como Hans Christian Andersen, Goethe e Shakespeare, nem a música de grandes compositores como Wagner, Bach e Edvard Grieg, nem torcer para os selecionados desses países na Eurocopa ou na Copa do Mundo. Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando.

E pela mesma lógica de Lazzarotto, se o fiel católico simpático à Rússia cospe na memória dos mártires por ele citados, então pela mesma lógica o fiel católico simpático a países como Inglaterra, Alemanha, Suíça, Holanda e os países escandinavos igualmente cospe na memória dos fiéis católicos que foram torturados e mortos por ordens de líderes religiosos reformistas tais como Lutero, Calvino, John Knox, Melanchthon e Zwinglio e de monarcas europeus que aderiram à Reforma tais como Henrique VIII, Cristiano II, Gustavo Vasa e Elizabeth I.

Antes que alguém diga que eu estou querendo justificar as perseguições aos greco-católicos empreendidas pela Rússia tanto no período imperial quanto no período soviético ao falar das perseguições que os católicos sofreram no Japão e na Europa protestante, saibam de uma coisa: vocês estão muito enganados. O que eu quero é mostrar o quão a lógica de Lazzarotto que ele aplica para com a Rússia é absurda e não faz sentido, e aonde que tal linha de raciocínio leva. Além do claro e evidente cherry-picking que ele faz ao demonizar a nação de Gogol, Prokofiev e Mussogorskij e ao mesmo tempo esquecer-se de outros países que fizeram coisas piores. Nada mais que isso. Entenderam, ou precisa desenhar?

sábado, 16 de setembro de 2023

A russofobia barata e as omissões históricas de Lorenzo Lazzarotto (parte I).

 

Foto – Lorenzo Lazzarotto.

PARTE I – GRANDE GUERRA PATRIÓTICA E COLABORACIONISMO UCRANIANO COM OS NAZISTAS.

No dia 28 de junho do presente ano, Lorenzo Lazzarotto, do canal do You Tube “História e fé Católica”, postou o vídeo “A história da Igreja Católica Ucraniana – perseguida por comunistas e ortodoxos!”, de 1467 segundos de duração ao todo.

É um vídeo de embrulhar o estômago, no qual Lazzarotto não apenas destila uma russofobia barata e cretina, como também omite fatos muito importantes a respeito da história da questão envolvendo Rússia e Ucrânia. E essa, diga-se de passagem, não foi a primeira vez que ele destilou tal russofobia nos vídeos por ele publicados no You Tube.

Até concordo com Lazzarotto em outras questões sobre as quais não entrarei em detalhe no presente momento, mas esse definitivamente não é o caso das falas dele a respeito da Rússia. Falas essas que serão respondidas em cinco partes.

Pelo que se pode ver nesse e em outros vídeos anteriores dele sobre o mesmo tema, ele justifica posicionamentos em favor da Ucrânia na presente guerra por conta, entre outras coisas, do histórico de perseguições da Rússia (tanto imperial quanto soviética) para com as denominações religiosas surgidas com a União de Brest (1596), em especial a Igreja Greco-Católica Ucraniana. E que por causa de todo esse histórico de perseguições da Rússia um católico não pode se posicionar a favor da Rússia, nem ser simpático à nação de Gogol, Puškin e Prokofiev.

Pelo que eu vejo, muitos desses ditos “influenciadores” cristãos do You Tube (entre eles o Lucas Lancaster e o próprio Lazzarotto) parecem reproduzir discursos neoconservadores, bem ao estilo da direita de matiz olavista, quando se trata de temas como a Rússia e o Mundo Muçulmano. E infelizmente, muitos incautos caem na ladainha deles.

Vamos começar pela Segunda Guerra Mundial. Ou como ela é chamada na historiografia russa, Grande Guerra Patriótica (em russo Velikaja Otečestvennaja vojna/Великая отечественная война).

Nesse e em um vídeo anterior Lazzarotto em momento algum fala, por exemplo, do colaboracionismo ucraniano (o qual foi mais forte na parte ocidental da nação eslava) para com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Nada sobre Roman Šukhevič, Andrej Melnyk, Jaroslav Stetsko ou Stepan Bandera, nada sobre OUN-UPA, nada sobre a divisão galiciana da Waffen SS ou sobre o batalhão Nachtigall, nada sobre massacres perpetrados por essa gente durante a guerra. Nada, nada. Um verdadeiro cherry-picking. Se, talvez ele mencionasse, ainda que pelo alto, o colaboracionismo ucraniano com os nazistas no curso da Segunda Guerra Mundial, a narrativa que ele apresenta nesse e em outros vídeos no qual ele destila a russofobia dele iria por água abaixo.

As falas dele inclusive passam a impressão de que os nazistas agiram sozinhos nesse tempo todo e não tiveram vários colaboradores das mais diversas nacionalidades no curso da guerra. Colaboradores esses que não raro formavam batalhões e unidades especiais dentro da Waffen SS. Em outras palavras, de que não houve colaboracionismo com os nazistas nem na Ucrânia, nem em outras partes da Europa ocupada pelos nazistas no período de 1939 a 1945.

Diga-se de passagem, durante a Segunda Guerra Mundial a Alemanha nazista, em seu esforço de guerra, para além do Japão e da Itália também teve outros aliados menores, geralmente governados por regimes alinhados politica e ideologicamente a Roma e a Berlim (tanto é que quando o Brasil declarou guerra às potências do Eixo, em1942, não houve declaração de guerra contra as potências menores do bloco, apenas contra as três principais). E, da mesma forma que na Ásia o Japão estabeleceu regimes fantoches como o Mandžukuo na Manchúria e o Mengdžiang na atual Mongólia Interior, na Europa a Alemanha nazista fez o mesmo ao estabelecer regimes tais como a República de Vichy na França, o regime de Vidkun Quisling na Noruega e a República de Lokot no noroeste da Rússia.

E isso não se resumiu às alianças com outros países e ao estabelecimento de regimes de ocupação favoráveis a Berlim: no curso da guerra vários colaboradores, das mais diversas nacionalidades, aderiram aos nazistas.

E um bom exemplo disso se deu durante a invasão à União Soviética, iniciada em 1941. Para invadir a União Soviética (que antes do início da guerra na Europa teve enfrentamentos menores contra o Japão no Extremo Oriente, nos quais se saiu vencedora), Hitler não apenas contou com o auxílio da Itália e de seus aliados menores (entre eles a Romênia, a Hungria, a Finlândia, a Croácia e a Eslováquia), como também reuniu tropas de toda a Europa para tamanha empreitada, tal qual Napoleão Bonaparte antes dele na Guerra Patriótica de 1812. Divisões especiais da Waffen SS de tropas francesas (divisão Carlos Magno), norueguesas, suecas, dinamarquesas, finlandesas, belgas, holandesas (divisão Wiking), espanholas (divisão azul), romenas, húngaras e até mesmo bósnias (divisão Handžar) foram formadas no curso da guerra. Os próprios nazistas, diga-se de passagem, recorriam ao elemento colaboracionista para administrar os campos de concentração (não raro judeus), e muitas vezes eram estes elementos que sujavam a mão nos massacres e limpezas étnicas.

Tanto é que à época houve alguns pôsteres de propaganda nazista, destinados ao recrutamento de voluntários para a Operação Barba-Rossa, no qual esta é apresentada como se fosse um grande levantamento da Europa unida contra o “bolchevismo judaico”, e até mesmo como se fosse uma grande cruzada.

Foto – Pôsteres de propaganda nazista em holandês e em francês, destinados ao recrutamento de voluntários em várias partes da Europa para a Operação Barba-Rossa.

E não só isso: no curso da invasão nazista à União Soviética, em várias partes da própria União Soviética os nazistas encontraram vários colaboradores que se juntaram a eles e até os receberam como libertadores. Na Rússia, esse foi o caso do general Andrej Vlasov e do Exército de Libertação da Rússia, assim como de cossacos e outros elementos advindos do movimento branco que se exilaram na Europa após a vitória bolchevique na guerra civil russa. Em Belarus e nos países bálticos se juntaram aos nazistas figuras como Michas Vituška e Radoslav Ostrovskij. Batalhões e divisões tais como a Guarda Doméstica Bielorrussa e a 30ª divisão de granadeiros da Waffen SS foram formados, além do estabelecimento de entidades político-administrativas como a Rada Central Bielorrussa.

E na Ucrânia, o colaboracionismo foi muito forte na região ocidental do país (região essa que no passado, até a Primeira Guerra Mundial, teve considerável população russófila – assunto que será abordado e aprofundado em um dos próximos itens). Como em outros lugares da Europa, os nazistas como libertadores foram recebidos.  E um dos principais nomes do colaboracionismo ucraniano com os nazistas foi Stepan Bandera e a organização OUN-UPA (a qual por sua vez tinha duas alas: a OUN-M, sob o comando de Andrej Melnyk, e a OUN-B, sob o comando do próprio Bandera).

Foto – Nazistas sendo recebidos como libertadores na Ucrânia ocidental.

Antes mesmo de a guerra na Europa começar, Bandera foi preso pelas autoridades polonesas por conta de suas atividades e no período de 1936 a 1939 esteve preso em diversas prisões. Com a queda da Polônia em 1939 em decorrência da invasão alemã daquele ano, muitos prisioneiros sob custódia polonesa foram soltos. E um desses é precisamente Bandera, à época preso na fortaleza de Brest (atual Belarus). Uma vez liberto, Bandera retornou à Ucrânia ocidental, com a OUN atuando de forma clandestina sob o poder soviético.

No curso da guerra, os colaboradores ucranianos estiveram envolvidos em terríveis pogroms, massacres e limpezas étnicas, tais como o terrível pogrom de Lvov, ocorrido em 1941, no qual os judeus locais foram capturados, espancados e assediados nas ruas da cidade, e em seguida fuzilados. Calcula-se em 4 mil os mortos de tal chacina.

Outro massacre famoso no qual os colaboradores ucranianos dos nazistas estiveram envolvidos foi o incêndio da Igreja da aldeia de Khatyn’, em Belarus, na qual a Igreja local foi incendiada por uma turba de ucranianos colaboracionistas com os fiéis dentro. 152 habitantes da aldeia foram trancafiados em uma Igreja, entre eles crianças entre sete semanas de vida e 15 anos, sendo lá queimados vivos. Poucos que lograram sair da Igreja em chamas e sobreviver, a maioria foi al alvejada por tiros de metralhadora.  O ancião Josif Kominskij encontrou o cadáver queimado do filho dele e o ergueu nos braços. Cena essa que é retratada no monumento erguido em Belarus dedicado às vítimas desse massacre.

Foto – Memorial de Khatyn em Belarus.

Também cabe aqui citar o massacre de Volyn, ocorrido entre 1942 e 1943, no qual os colaboracionistas ucranianos, atuando como unidades de Polícia do Exército Alemão, teriam ceifado a vida de até 200 mil poloneses na Volínia e na Galícia oriental (segundo variadas estimativas de historiadores poloneses). Também eram submetidos a tais chacinas tchecos e ucranianos que não queriam tomar parte em tais ações.

Foto – Outro pôster de propaganda nazista referente à Operação Barba-Rossa e a apresentando como uma frente unida da Europa contra o “bolchevismo judaico”.

Com o tempo, a sorte da guerra foi mudando e os aliados viraram o jogo sobre as potências do Eixo. Uma a uma elas foram se rendendo, até chegar à rendição da Alemanha na Europa em oito de maio de 1945 e do Japão na Ásia em 14 de agosto do mesmo ano.

Após a guerra, parte desses colaboradores lograram fugir da União Soviética (incluindo Bandera) e se estabeleceram em países como a Alemanha Ocidental e o Canadá, formando diáspora nesses países. Nos Cárpatos, a luta do poder soviético contra os últimos remanescentes dos colaboradores ucranianos dos nazistas, sob a denominação “Conselho Supremo de Libertação da Ucrânia” e se organizando em forma de células guerrilheiras que vai se arrastar até o começo dos anos 1950. Coube a NKVD o combate e a repressão à guerrilha banderista. No exílio, Bandera foi morto pela inteligência soviética em Munique em 1959.

Foto – Pôster da divisão galiciana da Waffen SS que insta os ucranianos a lutarem por Hitler.

Com o fim da União Soviética e a independência da Ucrânia, não apenas alguns desses ucranianos voltaram ao país natal, como também a figura de Bandera passou por um processo de reabilitação que começa após a Revolução Laranja de 2004 e o governo de Vyktor Juŝenko. Não apenas Bandera é reabilitado e transformado em herói (decisão essa que polarizou a Ucrânia por dentro entre aqueles a favor e contra tal decisão), como também outras figuras como o líder cossaco Ivan Mazepa (o qual durante a Grande Guerra do Norte, no começo do século XVIII, aliou-se à Suécia em detrimento da Rússia) também foram reabilitadas.

Também data dessa mesma época a promoção da narrativa de que os russos teriam feito uma fome com intenções genocidas contra o povo ucraniano em 1932/1933 (ou seja, a indústria do Holodomor), e tal qual nos países bálticos foi passada uma lei de criminalização simultânea do nazismo e do comunismo, em 2015. Lei essa que o Eduardo Bolsonaro (vulgo 03) tentou trazer para o Brasil por meio do PL 4425/2020 e que na prática usa os nazistas como bois de piranha para proteger e ocultar os colaboradores locais dos mesmos nazistas.

Na crise de 2013/2014 que levou ao Euromaidan (apoiado pelo megaespeculador George Soros) e ao golpe de Estado que depôs o então Presidente da Ucrânia Vyktor Janukovič, imagens com retratos de Bandera apareceram aos montes nas ruas ucranianas. Grupos neonazistas, tais como o Setor de Direita e o Batalhão Azov, saem de suas tocas. E um detalhe curioso sobre esses grupos é que oligarcas judeus, entre eles Igor Kolomojskij, os apoiam. Claro, aproveitando-se do ódio rábico que eles sentem em relação à Rússia para usá-los como peões em um grande jogo de xadrez. E descartá-los como se fossem lixo lá na frente, no momento em que estes cães raivosos deixarem de ser úteis a eles.

Um desses grupos, o Setor de Direita, usa como estandarte a mesma bandeira rubro-negra outrora usada pela OUN-UPA, só que com o tridente ucraniano no meio (bandeira essa que inclusive apareceu em manifestações no Brasil, onde alguns manifestantes queriam que o Brasil seguisse o exemplo ucraniano).

Foto – Monumento erguido a Stepan Bandera em Lvov, Ucrânia ocidental.

E ainda a respeito da Grande Guerra Patriótica, por volta de 7:30 ele diz que a vitória soviética na guerra se deu por conta da ajuda que os russos receberam dos Estados Unidos por meio do programa Land Lease. Sim, é verdade que a União Soviética recebeu uma substancial ajuda vinda dos Estados Unidos por meio do Land Lease.

Só que há outro lado da história. A Alemanha hitlerista também recebeu maciça ajuda vinda dos EUA, tanto antes quanto durante a guerra. Grandes magnatas e empresas norte-americanas fizeram altos negócios com os nazistas, entre eles a Ford, a Standard Oil da família Rockefeller, a General Motors e a ITT. Assim como magnatas tais como Friedrich Koch (pai dos irmãos Koch), Prescott Bush (pai do Bush I e avô paterno do Bush II – os mesmos Bush que após a guerra se envolvem com o regime saudita, incluindo com a família Bin Laden) e outros.

Foto – Prescott Bush (1895 – 1972), o Bush vô.

Na invasão à União Soviética a Wehrmacht foi equipada com diversos caminhões Ford. A ITT, a mesma ITT que anos depois teve sua filial gaúcha encampada por Leonel de Moura Brizola no tempo em que o velho caudilho foi governador do Estado do Rio Grande do Sul e apoiou o golpe contra Salvador Allende no Chile, em 1973, participou dos projetos secretos de criação de mísseis do Terceiro Reich. Estamos falando dos mísseis que aterrorizaram Londres e outras cidades britânicas. Empresas como a Ford e a Standard Oil tinham fábricas nas áreas da Europa ocupadas pelos nazistas. Entre tantos outros exemplos que podem ser citados. Ao que tudo indica, o velho Brizola deixou este mundo sem saber a respeito do envolvimento pregresso da ITT com os nazistas e o projeto de criação de mísseis balísticos deles.

Este é um jogo duplo que os Estados Unidos repetem anos mais tarde na Guerra Irã-Iraque, entre 1980 a 1988, na qual apoiaram o Iraque de Saddam Hussein oficialmente e o Irã do aiatolá Khomeini por baixo dos panos por meio do esquema Irã-Contras (no qual o dinheiro das armas vendidas ao Irã foi usado para financiar a guerrilha dos contras na Nicarágua).

Além disso, os Estados Unidos não foram os únicos países a prestar ajuda à União Soviética no curso da Grande Guerra Patriótica. Também ajudou muito a União Soviética na área logística, por meio do envio de itens como cavalos, casacos, alimentos e até mesmo soldados que se destacaram e receberam medalhas (cerca de 300 ao todo) a República Popular da Mongólia. A própria Mongólia também financiou a formação de unidades tais como a brigada de tanques “Mongólia revolucionária” e a esquadrilha aérea “Arat”. A Mongólia, à época governada por Khorloogijn Čojbalsan, alcunhado de “o Stalin da Mongólia”, inclusive foi o primeiro país a se posicionar a favor da União Soviética após o início da Operação Barba-Rossa, ainda em 1941.

Foto – “Do povo mongol ao front!”: vagão de trem com cavalos destinado a ajudar a União Soviética na Grande Guerra Patriótica.

E Lazzarotto, se você faz tanta questão de falar da ligação da Igreja Ortodoxa Russa com o Estado Russo tanto no período imperial quanto no período soviético, então eu vou lhe mostrar uma foto, digamos, inusitada. É uma foto datada de 18 de julho de 1943, na qual sacerdotes da Igreja Greco-Católica ucraniana agraciam membros da já formada divisão galiciana da Waffen SS. E detalhe: com estandartes da Waffen SS e do Partido Nacional-Socialista ao lado (suástica inclusa).

Foto – Sacerdotes greco-católicos ucranianos abençoando membros da divisão galiciana da Waffen SS. Lvov, 18 de julho de 1943.

E então, eu fico por aqui, ou você quer que eu mostre mais coisas? Fica por tua conta. Você é quem decide.

É bom que saiba de uma coisa: da mesma forma que a União Soviética, após a guerra, uma guerra que para ela foi uma questão de vida ou morte, puniu severamente outros elementos colaboracionistas (quer seja com a morte por fuzilamento ou enforcamento, quer seja com o envio ao gulag), entre eles os cossacos de Lienz (julgados e executados na prisão de Lefortovo em 1947. Anos mais tarde, essa história é citada no filme 007 vs Goldeneye, o primeiro da era Pierce Brosnan e o primeiro produzido após o fim da União Soviética, e usada como pano de fundo para a vingança do antagonista Alec Trevelyan contra a Inglaterra e que tinham entre suas fileiras o pai e o avô paterno de um dos torturadores do Pinochet) e o general Andrej Vlassov (julgado e enforcado por crime de traição ao final da guerra), com o clero uniata que esteve de mãos dadas com o banderismo no mesmo período não seria diferente.

E, diga-se de passagem, executar e punir severamente elementos colaboracionistas com as potências do Eixo na guerra não foi exclusividade da União Soviética: a França condenou o general Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial que esteve à frente da França de Vichy, foi preso após o fim da guerra e lá ficou até vir a óbito em 1951. Joseph Darnand, soldado francês que também se destacou na Primeira Guerra Mundial e que jurou lealdade à Hitler na Segunda Guerra Mundial, foi executado pelos franceses por um pelotão de fuzilamento. Vidkun Quisling, por seu turno, não apenas foi julgado como traidor e executado na fortaleza de Akershurs pelos próprios noruegueses, como também o nome dele se tornou sinônimo de traidor colaboracionista em vários idiomas. Entre tantos outros exemplos.

Uma das poucas exceções, talvez uma exceção à regra, foi o caso de Pu Yi na China. Pu Yi quando criança foi o último imperador da China e anos após a queda da monarquia chinesa, em 1912, foi entronado pelos japoneses como o chefe do estado fantoche Mandžukuo. Por sorte, ele, depois de ter sido capturado pelo Exército Vermelho em 1945, não foi executado após o fim da guerra e após ter sido entregue aos chineses em 1949 viveu os últimos anos de vida dele como um jardineiro e como bibliotecário em Pequim, até morrer em 1967.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

As imprecisões de Mansur Peixoto: Poitiers, Lepanto e a lenda negra espanhola

 

Foto – Mansur Peixoto.

Em 22 de agosto de 2023, Mansur Peixoto, dono do site e do canal do You Tube História Islâmica, postou um vídeo no qual responde a algumas assertivas do vídeo sobre as cruzadas do canal Impérios AD, do professor Thiago Braga, e datado de 6 de outubro de 2019. O mesmo Thiago Braga com o qual Mansur Peixoto travou uma polêmica no começo do ano, em um debate que girou em torno dos temas conquista islâmica da Ibéria e os anos de domínio islâmico sobre a maior parte da Ibéria.

Assim como em outro vídeo anterior, Mansur Peixoto rechaça a ideia de que as Cruzadas salvaram a Europa de ser conquistada por hostes islâmicas. Assino embaixo com ele nesse ponto, visto que no século XI, como ele mesmo disse várias vezes, o poder islâmico na Europa estava em uma situação de recuo: após quase uma centúria de existência o emirado do Fraxinetum no sul da França foi riscado do mapa após a vitória dos provençais lideradas por Guilherme I de Provença sobre os sarracenos na batalha de Tourtour, em 973 (ou seja, mais de 100 anos antes da convocação da Primeira Cruzada, em 1095); os normandos tomaram os reinos advindos da fragmentação do emirado da Sicília entre 1061 e 1091; e na Ibéria o califado de Córdoba se fragmentou nos reinos taifa em 1031, com os reinos cristãos se aproveitando da situação para avançar e tomar praças fortes até então sob o domínio islâmico, a exemplo de Toledo, capital do reino visigótico eliminado pelos mouros no século VIII, em 1085.

E não apenas isso: os enfrentamentos entre muçulmanos e cristãos nas cruzadas em sua maioria se deram no Oriente Médio, na região entre a Palestina e o Levante. Houve sim cruzadas que tiveram lugar na Europa, mas a maioria delas não foi direcionada contra poderes islâmicos, e sim contra outros cristãos, como no caso da Cruzada Albigense na França entre 1209 a 1244 contra a seita dos cátaros e a Quarta Cruzada contra o Império Bizantino (que terminou com o saque de Constantinopla, em 1204), assim como as cruzadas do Norte contra os povos pagãos da região do Mar Báltico levadas a cabo por ordens militares como os Cavaleiros Teutônicos e Livonianos. Durante anos a Lituânia, nos primórdios de sua história, teve que enfrentá-los, e várias vezes eles tentaram invadir as terras russas, entre elas a República de Novgorod.

Antes mesmo da vinda dos mongóis às terras russas pelo leste os cruzados ocidentais, uma vez estabelecidos nas atuais Estônia e Letônia, já vinham promovendo suas invasões sobre principados russos do norte como a República de Novgorod e Pskov (vide cruzadas suecas ainda no século XII e enfrentamentos em Tartu em 1215 e 1224 contra a Ordem dos Irmãos Livonianos da Espada).

O grão-príncipe Alexandre Nevskij os venceu duas vezes: venceu os suecos na batalha do rio Neva (tratada próxima à atual São Petersburgo) em 1240 e os cavaleiros livonianos em 1242, na batalha do lago Čudskoe (também conhecida como a batalha sobre o gelo). No período soviético, mais precisamente em 1938, um filme a respeito da vida de Alexandre Nevskij foi produzido sob a direção de Sergej Eisenstein e com o compositor Sergej Prokofiev à frente da trilha sonora. Este filme foi produzido no contexto da iminente invasão nazista à União Soviética, e dá ênfase especial ao episódio da batalha de 1242.

Outros ataques de cavaleiros ocidentais contra Novgorod e outros principados russos do norte se seguiram nos anos seguintes, como em 1262 (segundo cerco de Juriev – atual Tartu, Estônia) e 1268 (batalha de Rakovor). E isso em parte ajudou a levar o príncipe de Novgorod Alexandre Nevskij a buscar uma aliança com a Horda Dourada (um dos quatro khanatos que emergiram com a fragmentação do Império Mongol a partir de 1260), visto que esta se limitava a cobrar tributos dos principados russos e não estabeleceu ocupação direita sobre as terras russas.

Foto – Batalha do Lago Čudskoe, 1242. Miniatura da crônica ilustrada de Ivã o Terrível, segunda metade do século XVI.

Também concordo com ele que por vezes se atribui um significado um tanto quanto exagerado a batalhas como Poitiers, Lepanto e os dois cercos turcos a Viena. Não dá para saber ao certo se as hostes islâmicas dariam continuidade à marcha conquistadora (quer seja por uma questão de limite logístico, quer seja por uma eventual derrota em enfrentamentos posteriores) caso as batalhas em questão fossem por elas vencidas. Porém, com algumas ressalvas, visto que dentro dos enfrentamentos entre potentados islâmicos e cristãos ao longo de séculos ainda assim elas tiveram sua importância.

Foto – Batalha de Poitiers (732), por Charles de Steuben (1788 – 1856).

A respeito da batalha de Potieirs, ocorrida em 732 entre as hostes do califado Omíada e do reino franco sob a liderança de Carlos Martel, diz Mansur Peixoto (citando outros historiadores) que a força invasora não tinha a intenção de conquistar o Reino Franco, e sim de pilhar e saquear as áreas ao norte dos Pirineus. E a despeito das derrotas para os francos, chegaram a estabelecer domínio sobre algumas regiões do sul da França, em especial sobre a região da Septimânia (onde se encontra cidades como Narbonne, Perpignan e Carcassone). Até 737 mantiveram controle sobre Avignon e Nimes (quando ambas as cidades foram tomadas por Carlos Martel em dois cercos), e apenas em 759 que os muçulmanos viriam a ser expulsos da Septimânia com a tomada de Narbonne.

O que Mansur Peixoto não percebe é o seguinte. Nas invasões à Gália as hostes islâmicas chegaram ao norte até Autun e Sens em 725 e até o vale do Loire em 732. Ou seja, avançaram até o coração da França. Chegaram a pontos não muito distantes de Paris (Sens está a 120 quilômetros ao sul da capital francesa). No que constituíram os avanços mais ao norte de hostes islâmicas sob o Califado Omíada (661 – 750).

Mesmo que a hoste islâmica vencida na batalha de Poitiers tenha tido a intenção de pilhar a Gália, e não conquistá-la (quer seja para estabelecer um domínio direto e estabelecer guarnições nas cidades francesas, quer seja para estabelecer uma vassalagem tributária sobre as regiões ao norte dos Pirineus), quem não me garante que uma vez vitoriosa e percebendo a fraqueza do Reino Franco não iria em seguida organizar de fato uma campanha de conquista do mesmo?

Foto – Mapa da marcha da invasão islâmica à Gália nos anos 720 e 730.

Na história da Rússia há um episódio similar, ocorrido nos anos de 1571 e 1572, durante o reinado de Ivan IV o Terrível. De tempos em tempos o khanato da Criméia (um dos estados sucessores da Horda Dourada que surgiu na metade do século XV, cuja capital era a cidade de Bakhčisaray) promovia incursões de pilhagem e de captura de cativos (os quais por sua vez eram enviados ao porto de Kaffa [atual Feodosija] na Criméia e de lá vendidos como escravos a outros pontos do Império Otomano) sobre as terras russas e até mesmo sobre a Polônia-Lituânia. Um desses vários ataques teve lugar em 1571 (ou seja, no mesmo ano da batalha de Lepanto no Mar Mediterrâneo), no qual uma hoste tártara pilhou e incendiou Moscou.

Embalados pelo sucesso no ano anterior e se aproveitando do fato de que as fronteiras meridionais da Rússia estavam desprotegidas por esta estar ocupada com a guerra da Livônia contra a Suécia no Báltico, os tártaros voltaram no ano seguinte com a intenção de conquistar a Rússia Moscovita (que anos antes, mais precisamente entre 1552 e 1556, tomou os khanatos islâmicos da bacia do Rio Volga – Kazan e Astrakhan, algo que repercutiu bem negativamente no mundo turco; além disso, fez malograr a tentativa turco-tártara de tomar Astrakhan em 1569) e reestabelecer o jugo tributário exercido pela Horda Dourada até 1480 sobre as terras russas.

Uma hoste de cerca de 40 mil a 60 mil homens (incluindo janízaros fornecidos pela Sublime Porta) foi enviada à Rússia. Só que dessa vez os russos, com um exército de cerca de 23 a 25 mil homens, se preparam para a nova invasão e ao contrário do ano anterior, venceram os tártaros da Crimeia na batalha de Molodi, travada entre 29 de julho e três de agosto em um ponto a cerca de 50 quilômetros ao sul de Moscou. Sob a liderança dos príncipes Mikhail Vorotynskij e Dmitrij Khvorostinin, os russos utilizaram com grande eficácia a artilharia e as fortalezas móveis guljaj gorod (cirílico гуляй город) neutralizaram a retaguarda adversária. O khan da Criméia, Devlet I Giray, que esteve pessoalmente presente no campo de batalha, perdeu nessa batalha os filhos, o neto e o genro e fugiu do campo de batalha para não ser morto.

A vitória sobre a hoste turco-tártara em Molodi foi tão severa tanto para Constantinopla quanto para Bakhčisaray, visto que depois disso nunca mais planejaram conquistar a Rússia. A influência outrora exercida por Constantinopla e seu vassalo peninsular sobre a bacia do rio do Volga igualmente foi rompida. Para Moscou a vitória em Molodi igualmente teve grande importância geopolítica, visto que permitiu a manutenção e a defesa dos feitos dos 100 anos anteriores, tais como independência, unidade e controle sobre Kazan e Astrakhan. Nos anos e séculos seguintes, a Rússia tornar-se-ia um dos principais adversários do Império Otomano e tomou da Sublime Porta regiões como a Criméia e as áreas ao norte do Mar Negro durante o reinado de Catarina a Grande (r. 1762 – 1796) e a Bessarábia (atual Moldávia) em 1812, já no reinado de Alexandre I (r. 1801 – 1825).

Foto – Pedra fundamental em memória da Batalha de Molodi, na cidade homônima situada na oblast de Moscou.

Além disso, outra afirmação um tanto quanto problemática da parte dele foi dizer a batalha de Poitiers não parou o avanço islâmico sobre a Gália visto que anos mais tarde, mais precisamente em 889, na região da Provença, foi estabelecido o emirado do Fraxinetum por um grupo de piratas e aventureiros vindos do califado de Córdoba.

Só que entre a batalha de Poitiers e o estabelecimento do Fraxinetum passaram-se 157 anos. E entre a retirada islâmica da região da Septimânia (759) e o estabelecimento do Fraxinetum, passaram-se 130 anos.

E que no meio desses eventos houve o Império de Carlos Magno, que não só manteve relações com o Califado Abássida, como também avançou sobre território islâmico na Ibéria (vide a famosa batalha de Roncesvales, ocorrida em 778, na qual a retaguarda do exército franco foi dizimada pelos bascos e que serviu de inspiração para o épico medieval A Canção de Rolando) e lá estabeleceu a Marca Hispânica no que hoje é a região da Catalunha no nordeste da Espanha. Marca essa que serviu de embrião para o surgimento do reino de Aragão, um dos reinos que séculos mais tarde desempenhou papel significativo não apenas no processo da Reconquista, como também da formação do Estado nacional espanhol, com o casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os reis católicos, em 1469.

O estabelecimento do Fraxinetum se dá em uma época em que o poder central no Reino Franco (dividido em 843 em três partes por meio do Tratado de Verdun) estava bem enfraquecido, e dessa forma este passou a ser alvo de invasões não só de piratas sarracenos pela costa sul, como também de piratas normandos (também chamados de vikings) nas regiões costeiras e mesmo no interior (Paris foi duas vezes atacadas por bandos vikings) e de magiares no leste. Dessa forma, a autoridade central do reino franco já não podia mais responder com a mesma eficácia de antes às investidas.

Sob o Fraxinetum as hostes islâmicas avançaram a regiões antes intocadas por elas, entre elas o Piemonte no noroeste da Itália e o mosteiro de San Gallo na Suíça. Só que nenhuma das incursões islâmicas pós-Poitiers chegou tão ao norte na França quanto, visto que estes se limitaram a incursionar sobre regiões do sul da França. Ou seja, depois de Poitiers o expansionismo islâmico sobre a Gália nunca mais se repetiu com o mesmo ímpeto de antes, a ponto de exercer uma séria ameaça à existência do reino franco enquanto entidade política.

As invasões de piratas sarracenos sobre o sul da França e outras partes do Mediterrâneo ocidental continuam até a primeira metade do século XIX, e só após a conquista francesa da Argélia em 1830 que ela chega ao fim.

Foto – Batalha de Lepanto (1571), por Giorgio Vasari (1511 – 1574).

Sobre Lepanto, ele diz que depois da batalha de Lepanto houve avanços das hostes do Império Otomano sobre partes da Europa e do norte da África, incluindo a retomada da Tunísia em 1574 e ataques de corsários a serviço da Sublime Porta às áreas costeiras da Itália, da França, da Espanha, da Inglaterra, da Irlanda, da Suécia e até da Islândia nos séculos XVII e XVIII (vide o ataque à Islândia em 1627).

É fato que o poder otomano sobre a Europa só vai sofrer perdas expressivas a partir da segunda metade do século XVII, em decorrência da derrota no segundo cerco à Viena e a subsequente conquista austríaca da Hungria, Croácia, Transilvânia e Eslavônia nos anos 1690, ratificada por meio do Tratado de Karlowitz (1699). Entretanto, a despeito desses avanços islâmicos posteriores, a batalha de Lepanto, além de confirmar a divisão do Mediterrâneo em uma esfera oriental sob o controle otomano e uma metade ocidental sob o controle dos Habsburgos e seus aliados italianos, também exerceu importante impacto psicológico, ao mostrar que os turcos, antes imparáveis, podiam ser derrotados pelos poderes cristãos europeus.

Foto – Enfrentamento entre Aleksandr Peresvet, campeão da hoste russa, e Čelubej, campeão da hoste tártara, durante a batalha do campo de Kulikovo (1380). Por Viktor Mikhailovič Vasnecov (1848 – 1926).

Na história da Rússia há outro episódio similar: em 1380, os russos sob a liderança de Dmitrij Donskoj vencem as hostes tártaras, sob a liderança do general Mamaj, à época o homem-forte da Horda Dourada, na batalha do campo de Kulikovo. Dois anos depois, Tokhtamyš, à época apoiado por Tamerlão, reimpõe o jugo tártaro às terras russas ao invadir e pilhar cidades como Moscou e outras. Após a guerra contra Tamerlão, a Horda Dourada, sob a liderança de Temur Khutlug e Edigu, venceu a Lituânia na batalha do rio Vorskla em 1399 e após a vitória contra os lituanos sitiou Kiev (à época sob o domínio polaco-lituano) no mesmo ano.

Em 1408 o emir Edigu voltou a invadir as terras russas (Moscou inclusa) em 1408. Edigu também sitiou e pilhou Kiev em 1416. Depois de 1416 outras incursões punitivas tártaras vindas da Horda Dourada (à época às voltas com o processo de fragmentação territorial que levou à sua destruição final em 1502) seriam lançadas contra as terras russas até 1472 (vide batalha em Aleksin), a maioria delas sem o mesmo sucesso de antes.

Dessa forma, a batalha de Kulikovo não colocou fim ao jugo tributário tártaro-mongol sobre as terras russas, mas ainda assim exerceu efeito psicológico importante ao mostrar aos russos (sob a liderança do Principado de Moscou) que sim, eles eram sim capazes de vencer os tártaros no campo de batalha. Apenas em 1480 que o jugo da Horda Dourada sobre as terras russas chegaria ao fim. Sob a liderança do grão-príncipe de Moscou Ivan III o Grande (o qual se casou em segundas núpcias com Sofia Paleóloga, sobrinha do último imperador bizantino), os russos venceram os já bem enfraquecidos tártaros na grande espera sobre o Rio Ugra. E ainda assim, mesmo após a espera sobre o Rio Ugra, a Rússia teve que lidar com as incursões de pilhagem tártaras vindas do khanato da Criméia até a segunda metade do século XVIII. Até Catarina a Grande destruir o khanato da Criméia em 1783.

E por último, a parte mais importante. Voltando ao debate anterior dele com Thiago Braga em torno do tema Al-Andalus e a conquista islâmica da Ibéria na primeira metade do século VIII.

A meu ver a questão principal em torno desse tema sobre a qual nenhum dos dois falou não é se Al-Andalus, em especial a Al-Andalus do período de maior poderio e esplendor, no caso a Al-Andalus do período omíada (756 – 1031; emirado até 929, em seguida califado), era ou não era o paraíso romantizado que é apresentado ou se era ou não um lugar opressivo onde cristãos e judeus eram perseguidos.

Se lá tinha ou não tinha conflitos e contradições internas, as quais inclusive levaram ao estilhaçamento do califado de Córdoba nos reinos de taifa em 1031 e o posterior e gradativo deslocamento da balança de poder na Ibéria do sul islâmico para o norte cristão a partir desta data (diga-se de passagem, é interessante notar que o califado de Córdoba foi reduzido a farelo e escombros menos de 30 anos após a morte do comandante militar Al-Mansur, notório por suas numerosas campanhas vitoriosas contra os reinos cristãos do norte no final do século X – vide o ataque a Santiago de Compostela de 997, no qual os sinos da Igreja foram tirados da Igreja de Compostela e em seguida enviados a Córdoba nos ombros de prisioneiros cristãos, e só sendo enviados de volta à Compostela com a conquista de Córdoba pelos cristãos em 1236).

A questão é como que essa questão da Al-Andalus romantizada entra na lenda negra espanhola. Em outras palavras, como que a Al-Andalus das três culturas e idealizada como um período no qual judeus, muçulmanos e cristãos conviviam de maneira harmoniosa e pacífica (sem levar em conta que a história do poder islâmico na Ibéria se estendeu por quase 800 anos e que nesse ínterim mudanças dinásticas ocorreram, e que a Al-Andalus do século XV não é a coisa que a Al-Andalus do século VIII ou do X) e, dentro de uma visão liberal anacrônica que não leva em consideração as particularidades e especificidades daquele período, sendo tratada e apresentada como se fosse um paraíso multicultural e um oásis de tolerância religiosa no mundo medieval (sendo que a própria história da experiência islâmica na Ibéria registra episódios de perseguições religiosas, vide o motim de Granada de 1066 e as perseguições contra cristãos e judeus nos períodos almorávida e almoada), alimenta a lenda negra espanhola.

Foto – Estátua de Al-Mansur, comandante militar e homem forte do califado de Córdoba (c. 939 – 1002) no final do século X e começo do século XI, em Algericas. Erguida em 2002 por conta dos mil anos de seu falecimento.

Para quem não sabe, a lenda negra espanhola é um mito criado por holandeses e ingleses na sequência da conquista espanhola das Américas no século XVI. Um mito que na Holanda surge no contexto da luta de libertação da Holanda do jugo espanhol, a chamada Guerra dos oitenta anos (1568 – 1648), e na Inglaterra no contexto do rompimento da Inglaterra com o Papa de Roma em decorrência da reforma anglicana do reinado de Henrique VIII e as guerras entre ingleses e espanhóis nos séculos XVI e XVII (vide o episódio da invencível armada de 1588, destroçada por uma tempestade marítima).

Para criar este mito, os holandeses e ingleses se utilizaram da obra do frei e cronista espanhol Bartolomé de las Casas, “O paraíso destruído: brevíssima relação da destruição das Índias ocidentais” e a traduziram. A Lenda Negra criada por holandeses e ingleses a partir do século XVI e que gira em torno principalmente de dois temas: a Inquisição Espanhola e a Conquista da América. Mito esse que, com o passar do tempo, logrou criar uma imagem bem negativa não só da Espanha como também de Portugal e quem vem sendo replicado em diversos meios, e sem que a devida crítica seja feita.

Foto – Bartolomé de Las Casas (1484 – 1566).

E as consequências da lenda negra (ou se preferirem, das lendas negras) que surgiu a partir do século XVI chegam até os dias de hoje. Dentro da política espanhola hodierna, a lenda negra não só ajuda a alimentar o separatismo em regiões como a Catalunha e o País Basco, como também ajuda a criar um fosso entre a Espanha e suas ex-colônias americanas. E em última análise, alimentam nos países sul-americanos não apenas depredações de monumentos a personagens ligados ao passado colonial espanhol (vide casos o ocorrido na cidade chilena de La Serena em 2019), como também separatismo mapuche em países como a Argentina e o Chile. E é essa a tônica da lenda negra que pode ser vista, por exemplo, na ideologia indigenista que o pessoal do IELA (Instituto de Estudos Latinos Americanos) parece professar aqui no Brasil.

No caso brasileiro, lendas negras em torno da colonização portuguesa sobre a América Portuguesa ajudam não só a alimentar o ranço idiota e estúpido que muitos brasileiros têm para com Portugal (a ponto de achar que teria sido melhor para o desenvolvimento ulterior do país uma colonização inglesa, holandesa ou mesmo francesa), como também separatismo indígena em várias partes do país (vide a questão da atuação de ONGs internacionais na Amazônia) e episódios lamentáveis como depredações e queimas de estátuas como a de Borba Gato e a de Pedro Álvares Cabral.

O fato é que por vezes Al-Andalus é apresentada como se fosse uma espécie de paraíso perdido, um oásis de tolerância no mundo medieval no qual havia a convivência entre três culturas, como se fosse a antítese da Espanha intolerante, violenta e truculenta por natureza (sendo que aqueles que criaram a Lenda Negra também promoveram ferozes perseguições contra católicos que se mantiveram fiéis a Roma e queimaram bruxas a rodo).

Uma deputada do partido espanhol Podemos, Isabel Franco, em 2021 disse que em Al-Andalus havia a convivência entre judeus, muçulmanos e cristãos e que a monarquia espanhola promoveu uma invasão, um genocídio e uma ocultação. 

Sendo que a mesma Al-Andalus foi estabelecida por meio de uma invasão que destruiu o poder visigótico na Ibéria (que por sua vez também entraram na mesma Ibéria como conquistadores no século V desalojando os romanos). E que Al-Andalus, antes de tudo, foi destruída por conta de suas contradições e conflitos internos cujos soberanos não souberam administrar, a começar pela fitna (guerra civil) no Califado de Córdoba a partir de 1009 que leva à ruína do mesmo e ao surgimento dos reinos taifas. Os reis católicos espanhóis apenas deram o golpe de misericórdia que no que restava do combalido poder islâmico na Ibéria em 1492, quando tomaram a cidade de Granada. Da mesma forma que Odoacro fez o mesmo com o Império Romano do Ocidente em 476 ao tomar Roma e o sultão Mehmet II fez o mesmo com o Império Romano do Oriente ao tomar Constantinopla (atual Istanbul) em 1453.

Ou seja, pode-se dizer que nesse ponto a visão romantizada sobre Al-Andalus é usada por alguns políticos espanhóis como forma de justificar agendas como uma abertura ainda maior do país à imigração vinda de fora da Europa e implantação de agenda multiculturalista e politicamente correta em solo espanhol.

A ideia é clara: pintar as nações ibéricas nas piores cores possíveis e mostrar que elas, de nascença (ou seja, no processo de formação das monarquias ibéricas), já eram uma coisa ruim por natureza. Como se fossem uma espécie de Galactus que destrói tudo por onde passa, deixando para trás nada além de destruição, desolação e iniquidade.

O fato é que do ponto de vista político a lenda negra age como se fosse uma espécie de punhal a ser fincado no ventre das nações ibéricas. Se a Espanha vem aceitando passivamente há tempos a história que ingleses e holandeses criaram sobre o período de maior poderio e esplendor dela, não será nenhuma surpresa se daqui um tempo aceitar passivamente que o país se fragmente em vários pedaços e a Catalunha, o País Basco, a Andaluzia, a Galiza e outras regiões formem suas taifas.  Ou mesmo a Argentina e o Chile aceitarem passivamente que a Patagônia e a Terra do Fogo se tornem um grande Mapuchistão e o Brasil aceite passivamente a perda da Amazônia para as ONGs internacionais que lá atuam, sob o pretexto da proteção e da preservação étnica e cultural das populações indígenas que lá vivem.

Fontes:

A lenda negra da conquista espanhola. Disponível em: A Lenda Negra da Conquista Espanhola: Ingrediente do Imperialismo Cultural Anglo-Americano | Nova Resistência (novaresistencia.org)

Битва при Молодях (em russo). Disponível em: Битва при Молодях — Википедия (wikipedia.org)

Leyenda Negra. Disponível em: Leyenda Negra - Curiosidades - InfoEscola

Leyenda Negra e Leyenda Branca. Disponível em: Leyenda Negra e Leyenda Branca | ANPHLAC

Capitulos para una historia mentida (X): Otros mitos de la leyenda negra (em espanhol). Disponível em: Capítulos para una historia mentida (X): Otros mitos de la Leyenda Negra (linkedin.com)

Осада Киева (1399 – em russo). Disponível em: Осада Киева (1399) — Википедия (wikipedia.org)

Северные крестовые походы (em russo). Disponível em: Северные крестовые походы — Википедия (wikipedia.org)

Ukrainian nationalism and his roots (em inglês). Disponível em: Ukrainian nationalism – its roots and nature | The Vineyard of the Saker

sábado, 19 de agosto de 2023

As imprecisões de Thiago Braga: ou da falsa dicotomia entre revoluções políticas e saltos tecnológicos

 

Foto – Thiago Braga

No dia 28 de maio de 2023 o professor Thiago Braga (dono dos canais do You Tube Impérios AD e Brasão de Armas) postou um vídeo sobre o tema Revolução Industrial no canal Impérios AD. 

O vídeo em questão, de 12 minutos e 35 segundos ao todo, gerou uma polêmica com o professor esquerdista Gustavo Nassar Gaiofato, do canal História Cabeluda, no qual este respondeu com um vídeo de 32 minutos no qual reage e responde às assertivas do professor direitista.

Dias depois veio a resposta de Thiago Braga. 

Na sequência, a réplica de duas horas de Gaiofato. 

E por fim, a tréplica de Thiago Braga, de duas horas de duração. 

Depois da tréplica, Gaiofato não fez mais questão de responder Braga.

Foto – Gustavo Nassar Gaiofato.

E esta, diga-se de passagem, não foi a primeira vez em que Thiago Braga se envolve em polêmicas similares no You Tube: ainda no começo do presente ano, ele lançou no canal Brasão de Armas um vídeo sobre os mitos da história do Islã. 

Eu mesmo, quando vi o vídeo em questão pela primeira vez, pensei comigo mesmo que seria questão de tempo o Mansur Peixoto, do canal História Islâmica, postar um vídeo respondendo ao professor direitista. E não deu outra. Mansur Peixoto postou um vídeo respondendo a Thiago Braga, seguido de réplica e tréplica de ambas as partes. 


O debate girou em torno dos temas conquista islâmica da Península Ibérica nos anos 710 e o subsequente domínio islâmico sobre grande parte da Ibéria no período entre 711 a 1492 (e pelo visto a parte dois da polêmica entre os dois é questão de tempo, visto que Mansur Peixoto já escreveu artigo no site dele rebatendo o último vídeo de Thiago Braga, a respeito da batalha de Ourique, ocorrida em 1139 entre o Condado Portucalense e o Califado Almorávida).


Sabendo dessa última polêmica e de toda a repercussão que ela gerou (visto que ela foi muito comentada em vários canais de direitistas do You Tube, e a própria plataforma indicou a mim vídeos relacionados a essa polêmica), resolvi ver o vídeo em questão, o ponto zero da polêmica entre Thiago Braga e Gustavo Gaiofato.

Nos vários vídeos do You Tube, vê-se o pessoal dizendo que Thiago Braga triturou Gaiofato (com direito a direitistas reagindo aos vídeos da polêmica entre os dois, geralmente favoráveis ao primeiro). Sim, de fato, Braga triturou Gaiofato. Só que, por outro lado, eles não notaram um pequeno detalhe. Mais precisamente, um misto de esperteza e malandragem da parte de Braga: ele fez com que Gaiofato caísse na arapuca que ele mesmo criou. E isso é o que torna ainda mais patética a atuação de Gaiofato no debate.

O que era para ser um debate a respeito do tema Revolução Industrial, no fim das contas acabou virando um debate sobre os temas da Revolução Cubana e do desenvolvimento econômico e social de Cuba após a revolução de 1959.

Na primeira resposta a Gaiofato, aproveitando-se de uma fala de cerca de dois minutos sobre Cuba e o processo revolucionário liderado por Fidel Castro e Che Guevara, Thiago Braga fez um cherry-picking (expressão da língua inglesa que significa escolher algo a dedo) e jogando nos erros de Gaiofato respondeu falando praticamente que o tempo todo sobre Cuba e não disse uma única palavra sobre o que ele depois falou sobre o tema Revolução Industrial. Em outras palavras, ao ver que Gaiofato falou ainda que por cerca de dois minutos sobre Cuba, Braga aproveitou-se do “deslize” dele para direcionar o debate na direção por ele desejada. E ao direcionar o debate na direção por ele desejada, literalmente destroçou Gaiofato. Como se Gaiofato fosse um animal atolado na lama e debatendo-se, tentando sair da lama e quanto mais ele tentava sair da lama mais ele se atolava.

Para além de um anticomunismo barato e tosco (ou seja, a típica tática de jogar para a torcida), as falas de Thiago Braga de modo geral me passam a impressão de que a Revolução Industrial brotou do nada, do zero. Como se fosse uma espécie de deus ex machina que veio dos céus e tão logo se consumou se tornou realidade mudou radicalmente a vida das pessoas de uma hora para a outra. Sendo que, como veremos mais abaixo, isso está muito longe de ser verdade.

E o que é pior: ele aponta o dedo para as revoluções socialistas do século XX por conta do custo humano das mesmas (muito em decorrência de conflitos internos e externos e de disputas de poder), sendo que a Revolução Industrial também teve o custo humano dela (o qual ele cita bem pelo alto, para ser justo com ele). Vide todo o desemprego tecnológico por ela gerado por conta da invenção de máquinas como o tear mecânico (no que a médio e longo prazo fez com que os operários se organizassem em movimentos como o ludismo e o cartismo, notórios por suas depredações de maquinário industrial). O êxodo do campo para as cidades causado pelos cercamentos das terras comunais dos camponeses ingleses, algo que já ocorria desde o fim da Idade Média, mas que se intensificou a partir do século XVII e que não apenas dificultou a sobrevivência de grande parte da população camponesa como também provocou uma tensão social muito sentida na primeira metade do século XVII, a qual gerou um grande de fluxo de migração para as colônias britânicas na América do Norte. E mais as extenuantes jornadas de trabalho que chegavam a 14 horas e na qual havia até trabalho infantil. Não eram raros casos nos quais trabalhadores ficavam aleijados por conta de acidentes com as máquinas e até morriam de exaustão. Nas colônias, por conta da concorrência com a produção inglesa baseada em manufaturas houve a destruição e desarticulação da indústria têxtil indiana, baseada no artesanato, no que gerou muita miséria e desemprego na Índia (à época parcialmente sob o controle inglês). Segundo Marcelo Andrade, professor de direita que fez vídeos reagindo e comentando sobre a polêmica entre Gaiofato e Braga, a revolução industrial ceifou as vidas de cerca de meio milhão de ingleses só por conta das condições de trabalho.

Mas esse não é o principal ponto. O ponto principal, nevrálgico da questão é que Thiago Braga tratou a Revolução Industrial do século XVIII como se não houvesse todo um processo político que propiciou ao surgimento e à viabilização da mesma (não falou uma única palavra sobre isso). Mais precisamente, do processo político que a Inglaterra viveu na segunda metade do século XVII e primeira metade do século XVIII, processo esse que inclusive foi marcado por duas revoluções políticas: a Revolução Puritana (1643) e a Revolução Gloriosa (1688). Ou se quisermos recuar ainda mais para trás, desde que a Inglaterra, sob Henrique VIII, rompeu com o Papa de Roma, aderiu à Reforma Protestante e fundou sua própria Igreja, a Igreja Anglicana (no que implicou em uma centralização ainda maior do poder nas mãos do rei).

É um processo que envolveu não apenas duas revoluções políticas, como também guerras civis, abolição e posterior restauração da monarquia britânica, expansão colonial inglesa a outras partes do globo (incluindo as Américas e a Índia) e até mesmo uma invasão vinda de fora. E que ao seu desfecho marcou não apenas a ascensão social e política da burguesia inglesa como também a consolidação da monarquia parlamentar na nação insular.

Dessa forma, pode-se dizer que dentro da história da Inglaterra as Revoluções Puritana e Gloriosa foram tão ou mais importantes quanto a Revolução Industrial e todo o processo de desenvolvimento econômico que elas desencadearam. Talvez sem as duas primeiras a terceira não teria ocorrido (pelo menos não da maneira como ocorreu).

Foto – Oliver Cromwell (1599 – 1658), o principal líder da única experiência republicana na Inglaterra,

O reinado de Carlos I Stuart (r. 1625 – 1649) foi marcado por disputas acirradas pelo poder entre o rei e o Parlamento. O monarca sustentava que os reis eram designados por Deus e sozinhos deveriam governar a nação, sem o auxílio de câmaras parlamentárias. As desavenças entre o monarca e o Parlamento inglês (dissolvido três vezes em um período de quatro anos) levaram à formação de um exército parlamentar e à eclosão de uma guerra civil entre monarca e Parlamento que se arrastou por dois decênios.

A Inglaterra dividiu-se em dois grupos: de um lado os realistas (também chamados de cavaleiros), partidários do monarca, e de outro os cabeças-redondas, partidários do Parlamento. Em 1649 Carlos I é vencido em combate pelas forças leais ao Parlamento, lideradas por Oliver Cromwell. Uma vez vencido, o monarca caído foi julgado como traidor pelo Parlamento e executado no palácio de Whitehall. Até os dias hodiernos, Carlos I foi o único monarca inglês que foi submetido a tal penalidade.

Embora tenha sido vencido e apesar da instabilidade interna de seu reinado, Carlos I em seu reinado tentou modernizar o país: construiu estradas, aterrou pântanos, criou um serviço postal e instituiu um serviço de ajuda à busca do trabalho. Como também foi patrono das artes e da arquitetura. Trouxe pintores como o holandês Rubens para decorar seus palácios em Londres.

Em 1649 a monarquia é abolida e em seu lugar instituída a República sob a liderança de Oliver Cromwell. Durante nove anos Cromwell governou a Inglaterra com mãos de ferro e ao assumir o governo instaurou a República (Commonwealth), no que foi a única experiência republicana na história da Inglaterra até hoje.

No plano econômico Cromwell tomou medidas para beneficiar os grupos sociais que lhe deram suporte (notadamente a burguesia). Entre essas se destacam os Atos de Navegação de 1651, direcionados prioritariamente contra a Holanda e que determinavam que os produtos ingleses deveriam ser transportados somente por navios de bandeira inglesa. Medida essa que além de dispensar os navios de outras nacionalidades ajudou a fomentar o fortalecimento e o desenvolvimento da indústria naval interna e do comércio exterior inglês. Na área da política externa travou uma guerra contra a Holanda entre 1652 e 1654, na qual a Inglaterra saiu-se vencedora.

Em 1658 Cromwell morre e é sucedido por seu filho, Richard Cromwell. Não tendo o mesmo prestígio do pai, ele se mostra incapaz de governar e dois anos depois, sob o convite do exército inglês, Carlos II, filho de Carlos I, é convocado para assumir o trono inglês e assim restabelecendo a monarquia depois de um breve interlúdio republicano, a única experiência republicana que a Inglaterra até hoje teve ao longo de sua história milenar.

Foto – Jaime II Stuart (r. 1685 – 1688), o último monarca católico da Inglaterra.

Entretanto, a restauração Stuart não significou o fim dos problemas religiosos e políticos na Inglaterra. Pelo contrário. Enquanto que Carlos II (r. 1660 – 1685) era abertamente favorável a uma política de tolerância religiosa, o Parlamento, dominado por protestantes não compartilhava de sua posição. O rei também assinou leis que favoreceu a Igreja Anglicana em detrimento de outras correntes protestantes e da Igreja Católica. A disputa se agrava quando é descoberto que o irmão de Carlos II, James, era católico. Duas correntes se formam na política inglesa, até hoje existentes na nação insular – os Whigs e os Tories. Os primeiros queriam excluir o irmão do rei da linha de sucessão ao trono, ao passo que os segundos não compartilhavam desse mesmo desejo.

Carlos é sucedido por seu irmão Jaime II, o qual sempre foi visto com desconfiança, visto que ele ao assumir o trono reuniu conselheiros católicos e partidários do absolutismo em sua corte, com a ideia de submeter o Parlamento e os governos locais. No fim, isolado e sem apoio, Jaime II é deposto em 1688 e foge para a França. O holandês Guilherme de Orange-Nassau, casado com Maria, filha do rei deposto, assume o trono inglês e o casal é aclamado como reis da Inglaterra. Sob a determinação dos burgueses ingleses, o novo rei assinou a declaração de direitos de 1689 (Bill of Rights).

A assim chamada Revolução Gloriosa não só sepultou de uma vez por todas com o absolutismo até então vigente na Inglaterra, como também instituiu a monarquia parlamentarista na qual o poder do rei foi consideravelmente limitado.

E o que pouco é falado a respeito da Revolução de 1688 é que esta depôs um rei católico, James II Stuart, um rei inclinado à abertura religiosa na Inglaterra (lembrando que desde que Henrique VIII rompeu com o Papa no século XVI a Inglaterra viu vários episódios de perseguições aos católicos romanos, assim como a outras denominações religiosas) e que houve uma invasão vinda da Holanda liderada por Guilherme de Orange-Nassau que contou com o apoio de setores da nobreza inglesa insatisfeitos com a política do então monarca inglês. Ou seja, algo não muito diferente da invasão de Guilherme da Normandia seis séculos antes, em 1066, que criou sua própria dinastia na Inglaterra, a casa da Normandia.

Foto – Guilherme de Orange-Nassau (r. 1689 – 1702)

O pulo do gato (ou talvez do tigre) entre as revoluções do século XVII e a revolução industrial é que a partir de 1688, com o fim do absolutismo na Inglaterra e a consequente limitação do poder do rei, a burguesia se consolida no poder na Inglaterra e passa a haver uma espécie de simbiose entre a burguesia e a nobreza da nação insular. Dessa forma a burguesia inglesa pôde investir em seu desenvolvimento econômico (obviamente que visando atender aos próprios interesses comerciais e econômicos da mesma). No longo prazo, isso transformou a Inglaterra em uma potência comercial.

As falas de Thiago Braga a respeito da Revolução Industrial também passam a impressão de que a Inglaterra não tinha toda uma estrutura de explorações coloniais em locais como a América e a Ásia e acordos comerciais com outras nações que deu todo um aporte de capital que no longo prazo viabilizou a Revolução Industrial. Foi assim, por exemplo, que uma quantia considerável de ouro de origem brasileira entrou nos cofres ingleses por intermédio de Portugal para poder cobrir os rombos advindos do Tratado de Methuen (também conhecido como Tratado de panos e vinhos), firmado entre ingleses e portugueses em 1703. Isso para não falar do fato de que a Inglaterra, junto com a Holanda, não só era uma das campeãs do tráfico de escravos e que mais lucraram com o mesmo, como também promovia atividades de corsários (piratas a serviço do soberano de alguma nação) contra a Espanha e outras nações rivais.

E o que é pior: parece que para ele revoluções políticas e saltos tecnológicos não têm relações entre si. Sendo que o que a história mostra é o contrário, que eles na verdade andam lado a lado. E o caso da Inglaterra nos séculos XVII e XVIII não foi o único: os Estados Unidos tiveram seu salto tecnológico e industrial na segunda metade do século XIX após a vitória das forças da União sobre a Confederação na Guerra de Secessão durante o governo de Abraham Lincoln; a França teve seu salto industrial e tecnológico logo após a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas, que sepultaram a estrutura feudal herdada do absolutismo francês; o Japão teve seu salto tecnológico e industrial também no século XIX, após a Revolução Meidži de 1867, que depois de longos anos de guerra civil (o famoso Bakumatsu), não só sepultou o sistema feudal até então vigente na Terra do Sol Nascente, como também eliminou os samurais enquanto classe e aboliu a política de isolamento (Sakoku) vigente no Japão no período Edo (1603 – 1867); na Alemanha, esse mesmo processo se dá no contexto das guerras de unificação, concluídas em 1871 após a vitória germânica na Guerra Franco-Prussiana e o estabelecimento do Segundo Reich (1871 – 1918), com o último dando continuidade ao processo; na Rússia, depois da Revolução de 1917 que destruiu o poder tzarista e toda a estrutura do mesmo e que em menos de meio século tirou a Rússia do arado e levou à era da energia atômica; no Brasil, depois da Revolução de 1930, que sob a liderança de Getúlio Vargas sepultou a Primeira República (1889 – 1930); a China dá o salto industrial e tecnológico dela depois da Revolução de 1949, que colocou fim à situação de instabilidade interna, guerras civis e intervenções estrangeiras que o país vivia desde o século XIX. Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando.

A dicotomia que Thiago Braga tenta criar nas pessoas por meio de publicações como o vídeo sobre a Revolução Industrial não é só burra, como também falsa e enganadora. A típica dicotomia entre Estado e mercado que certos tipos vendem na qual o primeiro é satanizado e mostrado como se fosse uma espécie de leviatã que destrói tudo por onde passa ao passo que o segundo é exaltado e exibido como o baluarte das virtudes, sendo que o próprio exemplo do desenvolvimento econômico e industrial da Inglaterra nos séculos XVI a XVIII por meio de medidas como os Atos de Navegação mostra o contrário. E em outros países a situação não foi diferente.

Fontes:

Atlas da História do Mundo. Folha de São Paulo: São Paulo, 1995.

Cherry-Pick | O que significa esta expressão. Disponível em: Cherry-Pick | O que significa esta expressão? (mairovergara.com)

Cuadernillo: la revolución gloriosa (em espanhol). Disponível em: | Historia por Fin-Cuadernillos de historia y más

Enciclopédia ilustrada do estudante. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1995. v. 5.

La emancipación de los católicos ingleses (em espanhol). Disponível em: La emancipación de los católicos ingleses - Alfa y Omega

La manera inglesa de contar la historia (em espanhol). Disponível em: La manera inglesa de contar la historia - José Luis Fiori | Sin Permiso

Revolução Industrial. Disponível em: Revolução Industrial: resumo, causas, consequências - História do Mundo (historiadomundo.com.br)

Revolução Inglesa. Disponível em: Revolução Inglesa: resumo, antecedentes e fases - História do Mundo (historiadomundo.com.br)