segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Escola sem Partido - do que se trata? Parte 5




Foto – Logo do Escola sem Partido.
Na primeira parte da série de artigos a respeito do Escola sem Partido, falamos a respeito da ligação entre o crescimento da proposta do advogado Miguel Nagib (que existe desde 2004) e a falência político-ideológica do petismo e a onda conservadora que o país vive  no presente momento (a ponto de ter hoje aquilo que muitos chamam de “O Congresso mais conservador desde 1964”). Na segunda parte, falamos sobre a questão econômica envolvida e a repercussão que os comentários de Leandro Karnal sobre o Escola sem Partido teve. Na terceira parte, falamos a respeito da questão do partidarismo da mídia de massa e do Projeto de Lei 5921/2001, de autoria de Luís Carlos Hauly (PSDB-PR), que gerou grande polêmica em 2014, quando a questão da publicidade infantil foi tema do ENEM daquele ano. Na quarta parte, falamos a respeito da questão do partidarismo dos tribunais e da Operação Lava Jato. Afinal, se os partidários do Escola sem Partido (tanto da ala socialdemocrata quanto da ala neoconservadora) fazem tanta questão de exigir isenção ideológica da parte dos professores de esquerda em sala de aula, por que não fazer o mesmo também com a mídia de massa e os tribunais, que são tão ou mais partidários quanto os primeiros? E agora na quinta parte falaremos a respeito daquilo que Nildo Ouriques e Waldir Rampinelli Júnior chamam de o sistema de produção mundial de conhecimento.
Como já mencionado nos artigos anteriores a respeito do Escola sem Partido, os elementos mais raivosos da direita (entre eles Maro Filósofo, Nando Moura, Paula Marisa e tantos outros), vivem se queixando de que nas escolas e universidades brasileiras existe um predomínio esquerdista devido ao fato de que grande parte de seus docentes terem um direcionamento ideológico mais voltado à esquerda e não a direita. Entretanto, eles, tacanhos do jeito que são, não percebem que, muito embora existam de fato esses professores de esquerda que de vez em quando fazem sua pregação ideológica, o mesmo não se verifica com a produção de conhecimento científico nas mesmas, que por sua vez está inserido e ordenado dentro da lógica de acumulação capitalista.
Para começo de conversa, o que consiste esse sistema mundial de produção de conhecimento e o que ele faz? De acordo com um trecho do texto “Ciência e Pós-Graduação na Universidade Brasileira”, trata-se de uma articulação entre o Estado nacional de um país central da engrenagem capitalista mundial, universidade e empresa multinacional, com a intenção de manter sob o controle capitalista o desenvolvimento e a aplicação tecnológica da ciência. E qual será que é a bandeira partidária desse sistema de produção de conhecimento? O partido do status quo dos grandes capitalistas, já que esse sistema, junto com outros órgãos como a mídia de massa faz parte de seu aparato de poder ideológico e que cuja produção científica de forma alguma questiona a lógica de acumulação capitalista. Assim como o fato de que as descobertas científicas que são produzidas por esse sistema posteriormente aparecem no mercado sob a forma de produtos vendidos por empresas multinacionais.
A simples existência dessa fuga de cérebros para os países centrais é extremamente danosa para os países de origem desses cientistas, podendo ser tão ou mais nocivo quanto guerras ou mesmo catástrofes naturais como furacões, terremotos, enchentes devastadoras, crises de fome ou epidemias. Mas, se esse sistema de atuação global, que visa acima de tudo perpetuar o poder das nações centrais sobre as nações periféricas, é tão danoso para as segundas, por que será que sua máscara ainda não caiu perante o mundo? Simplesmente porque os grandes meios de comunicação, que também estão a serviço do capital e seus agentes, escamoteia essa realidade a todos nós, o apresentando não como ele realmente é e suas consequências nefastas, e sim como um estímulo à meritocracia (a mesma meritocracia que a direita raivosa tanto fala em suas ilações costumeiras contra o Estado) e algo que propiciará aos cientistas das nações periféricas o acesso a tudo que há de mais moderno em termos de tecnologia e ciência. Além disso, há também aqueles que se beneficiam desse sistema, entre eles o professor individual que dele participa e o programa de pós-graduação que é avaliado pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior) e seu sistema de pontuação. Até hoje, o único que eu vi falando sobre esse assunto é o Nildo Ouriques em alguns textos e palestras.
Em outras palavras, isso que os países centrais fazem com os países periféricos (e com a anuência de seus governantes, diga-se de passagem) nada mais é que reproduzir a mesma lógica presente em acordos comerciais desiguais como o de Methuen entre Portugal e Inglaterra (1703), o de Eden-Rayneval entre França e Inglaterra (1786) e os tratados desiguais que a China foi submetida no decorrer do século XIX, só que aplicada para a produção científica. Nesses acordos, o país de economia mais fraca concedia a um país de economia mais forte matérias primas baratas (vulgo commodities), e em troca recebia do país de economia mais forte produtos industrializados com valor agregado muito maior. Obviamente que o país de economia mais forte saia-se beneficiado em detrimento do país de economia mais fraca, que por sua vez acumula déficits e mais déficits em sua balança comercial.
No caso específico do tratado de Methuen (também conhecido como o tratado de panos e vinhos), Portugal vendia à Inglaterra seus vinhos e em troca recebia os tecidos manufaturados britânicos (os mesmos tecidos manufaturados que mais ou menos na mesma época ajudaram a arruinar com a produção têxtil indiana), e com o tempo os rombos na balança comercial advindos desse tratado foram se acumulando para o lado de Portugal (já que os tecidos ingleses tinham um valor agregado muito maior que os vinhos portugueses), e para cobri-los a coroa lusitana utilizou-se do ouro extraído no Brasil. Isso também destruiu com as poucas fábricas existentes em solo lusitano e impediu uma diversificação da economia portuguesa, ao mesmo tempo em que grande parte das terras cultiváveis portuguesas era destinada à atividade vinicultora. Durante o reinado de Dom José I (1750 – 1777), o marquês de Pombal tentou reverter essa situação, mas seu intento não contou com o apoio da aristocracia lusitana (que era ligada à atividade vinicultora), e ao final do século XVIII, com o esgotamento do ouro no Brasil, a economia portuguesa voltou a ser assolada por uma grave crise econômica. Com o ouro vindo do Brasil através de Portugal, a Inglaterra, por sua vez, pode viabilizar sua Revolução Industrial e ainda financiar suas guerras da segunda metade do século XVIII e primeira metade do século XIX. No fim das contas, o ouro e o vinho não geraram um processo de industrialização e modernização da economia portuguesa, já que não houve o devido protecionismo ao mercado interno lusitano e os investimentos na estrutura produtiva do país. Ao final do mesmo século, houve ainda a versão francesa do tratado de Methuen, o tratado de Eden-Rayneval, o qual destruiu com a indústria francesa e através de suas consequências nefastas ajudou a preparar o terreno para a Revolução de 1789.

Foto – A negociação do Tratado de Methuen em quadrinhos.
De forma análoga ao que aconteceu no intercâmbio comercial anglo-lusitano no decorrer do século XVIII, esse sistema promove um intercâmbio científico extremamente desigual entre os países periféricos e os países centrais da engrenagem capitalista global. Os cientistas e pesquisadores de nações periféricas, do alto de sua ingenuidade, publicam seus artigos (também conhecidos como papers) em uma revista estrangeira (que não raro são chamadas de revistas internacionais, sendo que em realidade não passam de revistas de universidades dos países centrais). Todo esse conhecimento é recolhido pela já mencionada articulação entre estado, universidade e empresa multinacional. Desse trabalho se origina um produto que é vendido por uma multinacional nas farmácias da periferia capitalista e que agrega consigo uma patente onde em seu preço de mercado estão embutidos royalties. E quando esse mesmo pesquisador tem um problema como uma gripe ou uma dor de cabeça, compra na farmácia esse mesmo produto que ele ajudou a criar ao mesmo tempo em que paga royalties para o exterior. Em outras palavras, trata-se de mais uma modalidade daquilo que o finado Leonel Brizola chamava de “perdas internacionais”. O fato é que quanto mais a produção científica brasileira se internacionalizou e produziu papers em revistas estrangeiras, mais royalties o país pagou para o exterior (valor esse que subiu de R$ 260 milhões em 1994 para R$ 4 bilhões em 2014), e assim ajudando a aumentar ainda mais a sangria anual de dinheiro para o exterior, que já é enorme devido às altas taxas de juros com que se pagam o serviço das dívidas interna e externa (e para variar a gritaria em torno disso é nula, enquanto que a gritaria em torno de um político de uma cidade qualquer pego em algum escândalo de corrupção é enorme). Exemplo disso é o caso da copaíba, uma planta sul-americana com propriedades anticancerígenas e analgésicas, sobre o qual o então ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil, Aloísio Mercadante, falou em palestra na 63ª reunião da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em 2011. Cerca de 80% das publicações sobre o óleo de copaíba são feitas por pesquisadores brasileiros, mas ao mesmo tempo o Brasil não tem nenhuma patente, já que essas publicações em sua grande maioria são feitas em papers publicados nas ditas revistas internacionais. Isso ao mesmo tempo em que os Estados Unidos possuem 17 delas, a Inglaterra sete e a China três. Se o tratado de Methuen é também chamado de o tratado de panos e vinhos, esse intercâmbio científico desigual entre nações também pode ser muito bem chamado de o intercâmbio de papers e royalties.
Nos meios científicos brasileiros, principalmente do governo FHC em diante, a publicação de papers de pesquisadores brasileiros nas famigeradas “revistas internacionais” tornou-se muito comum, ao ponto de no sistema de pontuação da CAPES valer mais pontos para um pesquisador publicar um artigo em língua estrangeira em revistas de países como Estados Unidos, França, Reino Unido e Alemanha que em uma revista nacional. Tal sistema, que alguns chamam de “publicar ou perecer”, foi imposto pelo Banco Mundial e instituído por Paulo Renato Souza (Ministro da Educação do Brasil no governo FHC, falecido em 2011). De acordo com suas regras, a vitalidade de um pesquisador é dada não pela qualidade de seus trabalhos publicados, e sim pela quantidade de artigos/papers que publica em revistas. E ao escolher publicar nessas revistas gringas em detrimento de revistas nacionais, o professor brasileiro, além de fazer o papel de mais um operário em sua linha de produção, enfraquece o ambiente em que efetivamente trabalha, sabota o dialogo com grupos nacionais de pesquisa, debilita revistas nacionais indispensáveis em algumas áreas e não se dá conta de que agindo dessa forma está apenas fortalecendo a produção científica dos países centrais. Assim como ajuda a perpetuar a situação de atraso, raquitismo e dependência tecnológica do país em relação às grandes potências, tal qual o tratado de Methuen fez com a economia portuguesa no século XVIII e o tratado de Eden-Rayneval fez com a economia francesa às vésperas da Revolução de 1789.

Foto – Paulo Renato Souza (1945 – 2011).
Esse mesmo professor, que não raro tem o título de mestre e/ou de doutor e pensa que universidades como Harvard, Sorbonne, Yale e Cambridge são internacionais (sendo que em realidade estão a serviço dos interesses de seus respectivos países), depois fica se vangloriando perante o mundo de ter publicado artigo em revista estrangeira, em realidade é tão ou mais alienado quanto o operário que trabalha horas a fio no chão de uma fábrica de uma empresa multinacional. A única diferença entre os dois é que o professor em questão é um alienado gourmet, gerado em grande medida pela glamourização que esse sistema recebe dos grandes meios de comunicação. Em outras palavras, tais profissionais agem como se fossem parte do proletariado externo científico das nações capitalistas centrais, parafraseando Darcy Ribeiro, e o desenvolvimento da ciência brasileira do governo FHC em diante tem sido em realidade um desenvolvimento de seu subdesenvolvimento, parafraseando André Gunder Frank, na medida em que se voltou muito mais para atender às demandas vindas de fora que aos interesses reais da nação.
E a universidade brasileira, onde ela entra nessa história toda? Historicamente, a universidade brasileira sempre teve uma vocação colonial que remonta à fundação da USP em 1934 e que se agravou a partir do golpe civil-militar de 1964 com a difusão do modelo cosmopolita uspiano para todo o país e a extinção do carioca ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e a castração da UNB (Universidade de Brasília) sob os auspícios de Zeferino Vaz, no que fez o centro da vida intelectual brasileira transferir-se do Rio de Janeiro para São Paulo. Tal tradição cosmopolita seguiu adiante após o fim da ditadura, e mesmo os petistas no governo não reverteram esse quadro. Pelo contrário, foi sob a gestão petista que o Programa Ciência sem Fronteiras foi instituído, que sob o pretexto de promover a consolidação e a expansão da ciência brasileira através do intercâmbio internacional tem promovido uma fuga de cérebros para o exterior que nós mesmos financiamos. Tanto os Estados Unidos quanto a Europa, devido a suas baixas taxas de natalidade, não produzem todos os cientistas e técnicos nos vários campos do conhecimento de que necessitam para a manutenção de suas respectivas máquinas científicas, e para suprir essa carência recorrem a programas destinados a atrair professores e estudantes dos países periféricos. E é ai que entram os programas que universidades como Harvard fazem (com a carta branca de nossas universidades) em cidades como São Paulo, onde se selecionam estudantes para as mais diversas carreiras universitárias.
Isso tudo desmonta ideias errôneas e falsas de que a universidade brasileira é uma instituição revolucionária (assim Maro Filósofo a caracterizou em seu vídeo a respeito dos comentários de Leandro Karnal sobre o Escola sem Partido). Afinal, como chamar a universidade brasileira de revolucionária sendo que ela, para começa de conversa, demonstra um silêncio tumular quanto a figuras como Ruy Mauro Marini, Alberto Guerreiro Ramos, André Gunder Frank, Álvaro Viera Pinto e outros próceres do pensamento crítico latino-americano (silêncio esse que começou a partir do golpe de 1964 e que se arrasta até hoje), além de ter sua carga colonial que remonta aos seus primórdios e da qual não se livrou até hoje, assim como o fato de estar envolvida dentro desse sistema de atuação global? Pelo visto esses neocons de plantão só têm olhares para o que se passa nos escalões mais baixos das escolas e universidades brasileiras. Ao passo que o mesmo não se verifica com o que se passa nos escalões mais altos. Sendo que problemas como a perda anual através dos pagamentos de royalties e a fuga de cérebros para o exterior são muito mais graves que a pregação ideológica de um professor de esquerda em sala de aula. Só espero que um dia a máscara desse sistema caia, de forma a fazer com que a comunidade científica não só do Brasil como também de todos países da periferia capitalista tomem a vergonha necessária e deixe de fazer o papelão ridículo (no caso específico brasileiro, desde no mínimo 1994). Assim como que todos aqueles responsáveis por essa tragédia científica (o que infelizmente não vai ser possível com Paulo Renato) sejam devidamente submetidos a julgamento público e punidos.

Foto – Charge ironizando a suposta isenção ideológica do Escola sem Partido.
Fontes:
A copaíba não é nossa. Disponível em: http://pesquisastecnologicas.com.br/site/?p=254
A falência do sistema ptucano. Entrevista especial com Nildo Ouriques. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/541200-a-falencia-do-sistema-politico-ptucano-entrevista-especial-com-nildo-ouriques
A Universidade Necessária: reforma curricular e utilidade da história – Nildo Ouriques (ENEH 2013). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qIAbNxrN8Fs
André Gunder Frank. Disponível em: http://resistir.info/mreview/gunder_frank.html
Ciência e Pós-Graduação na Universidade Brasileira – Nildo Ouriques. Disponível em: http://pt.slideshare.net/AfonsoHRAlves/cincia-e-ps-graduao-na-universidade-brasileira-nildo-ouriques
Datas inglórias e “Tratado de Methuen”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aQA-AedR6Hg
Leandro Karnal e Escola sem Partido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zCtKJxIoX2E
Nildo Ouriques – colonialismo mental e universidade brasileira. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KrknBXm3MvA
Nildo Ouriques – O intelectual “cosmopolita” da periferia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OqItyJR3tso
O Brasil como problema. Disponível em: http://www.casadobruxo.com.br/ilustres/darcy_prob.htm
Sobre a universidade nacional. Disponível em: https://issuu.com/ayrtoncruz/docs/subtr__picos_n001/12
Tempos, espaços e protagonistas. Disponível em: http://susanahistoriab.blogspot.com.br/2010/12/tratado-de-methuen.html
Tratado de Methuen. Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/historiag/tratado-methuen.htm

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Considerações sobre o Dia Internacional de Orações pelos Cristãos perseguidos no Oriente Médio.




Foto – Cartaz da Campanha “Oração pelos Cristãos perseguidos no Oriente Médio” de 2016.
No dia 6 de agosto de 2016 se completaram dois anos da fuga de milhares de cristãos do norte do Iraque ante a ofensiva de grupos radicais islâmicos como o Estado Islâmico. Tal fuga aconteceu durante à noite, com milhares de pessoas caminhando pelas estradas em direção às cidades curdas de Erbil e Dohuk. Tal como foi feito no ano passado, a AIS (Ajuda à Igreja que sofre), com o apoio da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promoveu o Dia Internacional de Oração pelos Cristãos Perseguidos no Oriente Médio, o qual teve início ainda no dia 5 de agosto com uma celebração na Catedral da Sé em São Paulo presidida por Dom Odilo Scherer.
Quanto a essa iniciativa da AIS e da CNBB, a achei muito oportuna tendo em vista a situação em que se encontram os cristãos de alguns lugares do Oriente Médio e do norte da África. Situação essa que, diga-se de passagem, nada mais é que uma repetição do sofrimento que os cristãos sérvios sofreram na década retrasada durante o processo de desintegração da Iugoslávia nas mãos dos mujaheddins liderados por Alija Izetbegović[1] na Bósnia e em Kosovo nas mãos do Exército de Libertação de Kosovo e os cristãos russos nas mãos de grupos terroristas como o Emirado do Cáucaso em locais como as Repúblicas da Chechênia, da Ossétia do Norte e do Daguestão no norte do Cáucaso (vide incidentes como o dos reféns da escola de Beslan em 2004) e mesmo em grandes centros como Moscou (vide a crise dos reféns no teatro Dubrovka em 2002 e o ataque ao metrô da capital russa em 2010).
E o que todos esses casos têm em comum? Além de prestar aqui minha solidariedade para com os cristãos do Oriente Médio diante da situação em que se encontram, quero aqui também tocar em uma ferida. Uma ferida que a grande mídia corporativa ocidental não ousa em tocar, que costuma esconder por debaixo do tapete e da qual o martírio dos cristãos da região está ligado de forma umbilical e da qual penso eu que esses movimentos em solidariedade aos cristãos do Oriente Médio e do Norte da África deveriam também fazer. Muitos ocidentais médios ficam horrorizados com a atual situação dos cristãos sírios, iraquianos e líbios nas mãos desses grupos islâmicos radicais, mas muitas vezes se esquecem de que seu martírio (assim como o martírio dos cristãos sérvios e russos anteriormente) é fruto (tanto direta quanto indiretamente) de políticas irresponsáveis de países como os Estados Unidos, a Inglaterra e a França (em outras palavras, do dito “mundo livre e democrático” que muitos elementos reacionários da direita brasileira e latino-americana [tanto da ala neoconservadora quanto da ala socialdemocrata] olham como exemplos de desenvolvimento político e econômico a serem seguidos e ao qual a política externa do país deveria se focar. Alguns elementos dessa mesma direita como o colunista da Revista Veja Ricardo Setti, o político Jair Bolsonaro e os pastores evangélicos Silas Malafaia e Marcos Feliciano, entre outros, chegaram a acusar do alto de sua tacanhice costumeira a presidente Dilma de defender o Estado Islâmico em seu discurso na 69ª assembleia da ONU [que em minha opinião não passou de um discurso fraco que não toca na raiz do problema] quando os EUA atacaram instalações do grupo radical islâmico em setembro do ano passado) não só no Oriente Médio como também na Europa Oriental e outras partes do globo desde no mínimo a década de 1980. Haja vista, por exemplo, que durante invasão soviética ao Afeganistão (1979 – 1989) os Estados Unidos (através da CIA) armaram, treinaram e financiaram os mujaheddins[2], e desse núcleo nasceu a Al Qaeda e seu líder Osama Bin Laden, assim como o Taliban que governaria o Afeganistão anos mais tarde.

Foto – “Estes cavalheiros são os equivalentes morais dos Pais Fundadores da América”. Assim Ronald Reagan descreveu os mujaheddins afegãos com os quais se encontrou na Casa Branca em 1985.
Na década seguinte, o mesmo Ocidente também apoiou a escalada de fundamentalismo islâmico na Bósnia e em Kosovo (incluindo o famigerado bombardeio à Sérvia por parte da OTAN entre março a junho de 1999, do qual Bill Clinton usou para desviar a atenção do povo estadunidense quanto ao escândalo Monica Lewinsky, que quase o levou a impeachment na mesma época) e o separatismo checheno no norte do Cáucaso contra a Rússia. Mais recentemente, dentro do contexto da “Guerra ao Terrorismo” (guerra essa que, a despeito de seu slogan, a meu ver não quer de forma alguma resolver com o problema do qual se propõe combater, pois com o fim do terrorismo o Ocidente não teria mais justificativa alguma para continuar mantendo forças de ocupação em países como o Iraque e o Afeganistão) promovida pelo Ocidente, houve as invasões ao Iraque e a Líbia que derrubaram os governos de Saddam Hussein e Muammar al-Kadaffi e a tentativa de se derrubar Bashar al-Assad na Síria que se arrasta desde 2011.

 Foto – Osama Bin Laden segundo o jornal estadunidense The Independent em 1993.
E o pior de tudo é a dupla moral do Ocidente no tocante a questão do terrorismo de matiz salafista-wahhabita-takfirista[3]: enquanto eles atacam os inimigos do Ocidente, esses elementos são vistos como “lutadores pela liberdade” (ou em inglês “freedom fighters”), “gente do bem” e discursos similares. Mas, quando a cobra resolve picar seu criador, as coisas mudam completamente de figura. Eles passam a ser vistos como “bárbaros”, “terroristas”, “pessoas que odeiam a democracia e os valores ocidentais” e discursos similares. Haja vista, por exemplo, a repercussão dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono em 11 de setembro de 2001 e mais recentemente os ataques à redação da revista satírica Charlie Hebdo em janeiro de 2015 e a boate Le Bataclan em novembro de 2015 em Paris.
 Foto – E o mesmo Bin Laden segundo o jornal The Examiner, na época de seu falecimento (2011).
Muitos ocidentais médios que vivem do senso comum que a grande mídia corporativa vende erroneamente pensam que esses grupos radicais islâmicos que matam cristãos e outros grupos não-islâmicos (e até mesmo grupos islâmicos que não comungam com sua agenda político-ideológica) e destroem monumentos antigos (a exemplo da destruição da estátua do leão de Alat em Palmira por parte do Estado Islâmico no ano passado) que a grande mídia corporativa mundial tanto enche a bola surgem do nada, como se fosse de geração espontânea. Quando na verdade essa narrativa que é vendida ao mundo é falsa e mentirosa (já que o Estado Islâmico, assim como a Al Qaeda, é uma cria do Ocidente “livre e democrático” em conluio com as monarquias do Golfo Pérsico).

Foto – Estátua do leão de Alat antes de ser destruída pelo Estado Islâmico. Na Bíblia Sagrada, o livro sagrado do cristianismo, o leão é citado cerca de 130 vezes, incluindo episódios como o de Daniel na cova dos leões. E junto com a destruição desse monumento histórico que remonta ao primeiro século antes de Cristo, também foi destruído um testemunho da presença do leão no Oriente Médio. Hoje em dia fora da África subsaariana o único lugar onde ainda existem leões selvagens é na floresta de Gir[4] no noroeste da Índia. Em tempos antigos e medievais estes elusivos animais viviam também na Península Balcânica (incluindo Grécia, Macedônia e Bulgária), norte da África, Oriente Médio (Turquia, Síria e Palestina inclusos), Iraque, Irã, Cáucaso e norte do subcontinente indiano. Também existiram na Hungria e no sul da antiga União Soviética no Neolítico.
E igualmente mentirosa é a narrativa vendida ao mundo de que há uma luta civilizacional entre Ocidente x Oriente dentro dos conflitos no Mundo Islâmico (uma retórica bem ao estilo do “choque de civilizações” de Samuel Huntington), aonde dá-se a dar a impressão de que o conflito em questão é dos “árabes e persas islâmicos malvados, fundamentalistas e bárbaros x Israel e o Ocidente livre, democrático e civilizado”, quando na verdade as monarquias do Golfo Pérsico como a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar são aliados do Ocidente e até mesmo de Israel. E isso para não falar da hipocrisia do mesmo Ocidente no que tange a regimes como o Irã e a Síria de um lado e de outro as monarquias do Golfo Pérsico e os interesses do mundo corporativo ocidental (que é o real governo em países como Estados Unidos e Europa) na exploração das matérias primas e no petróleo da região por trás dos conflitos.

Foto – A dupla moral de países como a França e os EUA na questão do terrorismo.
O que muitos não entendem é que governos como os de Saddam Hussein, de Muammar al-Kadaffi e de Bashar al-Assad protegiam os cristãos e até mesmo os deixavam participar de seus respectivos governos (haja vista que Tariq Aziz, falecido no ano passado e ministro das relações exteriores de Saddam Hussein, era cristão caldeu). Assim como o fato de os três colocavam essa gente em seu devido lugar e eram fatores de estabilidade dentro do Mundo Islâmico. E que grupos como o Estado Islâmico no Iraque conseguiram o poder e a projeção que tem graças ao fato de que Saddam Hussein foi derrubado do poder e agora não há mais um poder central no país para controla-los e colocá-los em seu devido lugar. Em outras palavras, o Ocidente derrubar Saddam e Kadaffi em seus respectivos países foi como na mitologia grega Pandora abrir a caixa que continha todos os males do mundo. E me pergunto às vezes se essa situação de anarquia e instabilidade política na região é o que as pessoas por trás dessas políticas do Ocidente no Mundo Islâmico almejam. Até porque fica muito mais fácil para o Ocidente explorar o petróleo e outras riquezas minerais da região em uma situação de anarquia ou com governos fracos e pusilânimes do que com governos fortes, centralizadores e que usem suas riquezas para seu próprio desenvolvimento e não para alimentar as indústrias dos países centrais do capitalismo. Em outras palavras, que não façam de seus povos um proletário externo das nações capitalistas centrais, parafraseando Darcy Ribeiro.

Foto – Dois pesos e duas medidas: de um lado, o atual ministro das relações exteriores da França Laurent Fabius elogiando a ação da Frente Al-Nusra na Síria em 2012. Nunca foi punido por isso. E de outro o comediante franco-camaronês Dieudonné[5] M’Bala M’Bala, que foi condenado a dois meses de prisão após dizer “Je me sens Charlie Coulibaly[6]” (em português “Eu me sinto Charlie Coulibaly”) em sua conta no Twitter logo após o atentado de falsa bandeira ao Charlie Hebdo.
Por isso que nós, que vivemos em um país majoritariamente cristão, na questão síria devemos se posicionar a favor do presidente Assad ante a ofensiva das milícias de fundamentalistas islâmicos e seus patronos ocidentais. E se na Líbia (país esse que hoje está sendo assolado por uma crise humanitária que tem levado muitas pessoas a procurarem asilo na Europa, não raro atravessando o Mediterrâneo em embarcações precárias para isso) Kadaffi estivesse até hoje resistindo contra esses elementos também deveríamos posicionar-se de seu lado pelos mesmos motivos. Se Assad cai na Síria o país sucumbirá a mesma situação de anarquia se abateu sobre a Líbia e o Iraque e consequentemente não haverá nenhuma autoridade central para controlar o Estado Islâmico, a Frente al-Nusra e outros grupelhos radicais islâmicos, e estes farão uma chacina a todo e qualquer grupo não-islâmico sunita (e nisso incluindo cristãos, muçulmanos xiitas, drusos, judeus e outros tantos). Chacina essa em que nada será diferente da que foi feita contra os sérvios pelo Exército de Libertação de Kosovo a partir de 1999 (Kosovo que desde então teve sua população sérvia dizimada por tais elementos sob os auspícios da OTAN) e do que o Exército Ucraniano e os batalhões de Extrema Direita financiados pelos oligarcas corruptos fazem com os cristãos ortodoxos russos que vivem no sul e do leste da Ucrânia. E o pior de tudo é que quem apoia e financia esses grupos que chacinam os cristãos do Oriente Médio são países cristãos (ao menos em teoria) em conluio com as monarquias do Golfo Pérsico.
De acordo com o professor Ramez Maalouf em artigo publicado no jornal Correio da Cidadania, essa comunhão de interesses entre o Ocidente (primeiro a aliança com a Inglaterra no século XIX, e depois com os EUA a partir de 1945) e as monarquias do Golfo Pérsico (em especial a Arábia Saudita) seria uma forma de controle da região da parte do poder anglo-americano através do extremismo religioso em detrimento do nascente nacionalismo árabe, assim como um ataque às tradições de convivência, coexistência e sincretismo do Islã tradicional. Tal aliança e comunhão de interesses entre anglo-saxões e sauditas, principalmente entre suas respectivas elites governantes, repousa sobre uma série de afinidades e semelhanças culturais entre os dois blocos, que inclui, entre outras coisas, o culto às armas e às mitologias da liberdade dos cowboys e dos beduínos, o puritanismo religioso, individualismo, apreço pelos negócios, segregacionismo e exclusivismo étnico-religioso, assim como o culto ao luxo, ao consumismo e hedonismo. Ou seja, tanto o protestantismo anglo-saxão de matiz calvinista quanto o wahabismo saudita advogam aquilo que eu, parafraseando Alain Soral, chamo de a “direita dos valores sem a esquerda do trabalho”. Ataca os sintomas do problema da decadência moral dos dias de hoje, mas não a doença em si, que atende pelo nome de capitalismo.

Foto – O senador republicano pelo Arizona John McCain (o mesmo John McCain que foi o candidato republicano na eleição presidencial dos EUA de 2008, tendo sido vencido pelo atual presidente Barack Obama) ao lado de integrantes do ISIS na Síria. Muitos elementos da direita reacionária brasileira de matiz neocon como Jair Bolsonaro e outros como também da direita socialdemocrata como José Serra volta e meia se queixam das relações do Brasil com países como Cuba, Venezuela, Irã e Rússia, taxando os países em questão de “regimes ditatoriais” e achando que o país deveria focar e priorizar suas relações exteriores com o dito “mundo livre e democrático” (ou seja, países como os Estados Unidos, União Europeia e Japão). Só que esses mesmos países ao longo de sua história nunca tiveram o menor pudor em se relacionar com regimes ditatoriais e grupos fundamentalistas islâmicos dos mais abjetos e retrógrados, a exemplo do ISIS e da Al Qaeda, entre tantos outros.
Por fim, o próprio presidente Assad disse em entrevista a um jornal alemão em 2013 que um dia a Europa pagará muito caro se continuar a armar os rebeldes sírios, pois isso acarretará futuramente em uma expansão do terrorismo de matiz salafista em solo europeu, na medida em que chegarão a Europa terroristas com experiência de combate e ideologias extremistas que fatalmente vão tirar proveito da situação de marginalização social que as populações islâmicas da Europa se encontram (marginalização essa que é feita para criar um foco permanente de tensão com a população nativa e criar mais e mais divisões na classe trabalhadora europeia, e assim a bomba acaba não explodindo nas mãos das mesmas elites [que são as que menos querem a integração deles na sociedade europeia] que trazem esses mesmos muçulmanos para a Europa). Assim sendo, o martírio dos cristãos sérvios, russos, sírios, iraquianos, líbios e de outras tantas nacionalidades nas mãos de grupos como o Exército de Libertação de Kosovo, o Emirado do Cáucaso, o Exército Livre Sírio, o Conselho Nacional de Transição, a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico vai se repetir e desta vez não será no Oriente Médio, no norte da África ou em algum rincão periférico da Europa, e sim em grandes metrópoles do coração da Europa como Berlim, Paris, Hamburgo, Hannover, Londres, Copenhagen, Amsterdã, Oslo, Turim, Milão, Berna, Zurique, Estocolmo, Helsinque, Trondheim, Viena, Munique, Nice, Manchester, Eindhoven, Dortmund, Estrasburgo, Liverpool, Barcelona, Marselha e outras tantas. E isso fatalmente será o fim da Europa cristã como a conhecemos. Tudo por causa dessas políticas irresponsáveis das elites político-econômicas ocidentais no Mundo Islâmico (a exemplo do envolvimento de países europeus como a França e a Inglaterra em guerras a reboque dos EUA na região), da qual a recente crise de refugiados é consequência direta. E diante dessa saia-justa eu quero ver como que os governos ocidentais vão se sentir tendo que lidar em seu próprio solo com os monstros que eles criaram e armaram no passado.

Foto – Mapa do Oriente Médio com a Síria e o Iraque em destaque.
Fontes:
A lion’s share of attention: archaeozoology and the historical record (em Inglês). Disponível em:
A postura de Dilma diante do terror bárbaro do chamado Estado Islâmico é uma vergonha para os brasileiros de bem. Disponível em:
AIS promove dia de oração pelos cristãos perseguidos. Disponível em: http://noticias.cancaonova.com/mundo/ais-promove-dia-de-oracao-pelos-cristaos-perseguidos/
American newspaper interviews Osama Bin Laden a decade before 9/11 (em Inglês). Disponível em:
Assad diz que Europa vai pagar caro se armar rebeldes. Disponível em:
Como o Ocidente está manufaturando o terrorismo islâmico. Disponível em:
Daniel James Spaudling – A Fraude sem fim: ISIS. Disponível em:
Dieudo condamné pour “apologie du terrorisme”. Trop c’est trop! (em francês). Disponível em:
Dilma e Estado Islâmico. Disponível em:
Dilma insensata vai a ONU para defender terroristas do Estado Islâmico. Disponível em:
Kosovo, limpeza étnica. Disponível em:
O Brasil como problema. Disponível em: http://www.casadobruxo.com.br/ilustres/darcy_prob.htm
O que é o Wahabismo (ideologia da Arábia Saudita e do ISIS). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6YbGsa1NJwE
Ocidente é cúmplice do fundamentalismo no Médio Oriente. Disponível em:
Osama Bin Laden dead: newspaper covers from around the world (em Inglês). Disponível em:
Pr. Silas Malafaia denuncia, Dilma apoia terroristas do Estado Islâmico. Disponível em:
Takfirismo, Salafismo e Wahabismo. Mas o que é isso? Disponível em:
http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=5822&id_coluna=25


[1] Leia-se Aliia Izetbegovitch, pois no bósnio, assim como no servo-croata, no esloveno e tantos outros idiomas da Europa centro-oriental, a partícula j tem valor de i e a partícula ć tem valor de tch.
[2] Leia-se Mudjarredin, pois no árabe a partícula j tem valor de dj.
[3] Termos que designam correntes político-ideológicas dentro do Mundo Islâmico.
[4] Leia-se “Guir”, pois na língua indiana, assim como em idiomas como o alemão e o russo, o g não muda seu som independente da vogal que a segue.
[5] Leia-se Diodonnê, pois no francês a partícula eu tem valor de o e o é tem o mesmo valor do ê no português.
[6] Leia-se Culibaly, pois no francês a partícula ou tem valor de u.