sábado, 6 de agosto de 2016

Resumo do golpe na Turquia



De Akira K, traduzido por Lucas Novaes

Oficiais de defesa americanos acusados por alegações de golpe

Um advogado turco arquivou uma queixa criminal alegando que três oficiais da defesa dos Estados Unidos – presidente do Joint Chiefs de Statt Gen, Joseph Dunford, o comandante da GENTCOM, Joseph Votel, e o diretor de Inteligência Nacional James Clapper – estavam envolvidos no golpe fracassado de 15 de julho na Turquia. A queixa afirma que os oficiais americanos conspiraram e apoiaram os golpistas na base aérea de Incirlik[1], onde jatos que apoiaram o golpe estavam localizados. A queixa irá proceder para promotores turcos que irão decidir se a queixa deve seguir adiante ou não. Teorias da conspiração sobre o envolvimento dos EUA no golpe foram reportadas na mídia turca e estão sendo amplamente acreditados pelo público turco.  

Erdogan quer ‘esmagar o exército secreto da OTAN’ após saber do suposto envolvimento no Golpe.

Teorias da conspiração sobre o envolvimento estrangeiro no Golpe tem sido abastecidas pela mídia turca, com alguns afirmando que Mr Gulen é um membro do exército secreto da OTAN. A ‘Operação Gladio’ foi o codinome para uma operação clandestina da OTAN na Itália durante a Guerra Fria com o fim de preparar resistência armada em caso de uma invasão e conquista do Pacto de Varsóvia. O jornalista turco Ozcan Tikit escreveu em um jornal Haberturk: “Se alguém quer criar novamente relações de confiança com as instituições ocidentais, Gladio na Turquia deve ser eliminado como já foi em diversos países do Ocidente.”

Aplicativo ‘amador’ usado por golpistas na Turquia ajudou a desvendar sua rede de operações

Autoridades turcas foram capazes de rastrear centenas de pessoas acusadas de participar em uma rede underground relacionada ao golpe fracassado do mês passado por meio de uma quebra dos sistemas de segurança de um aplicativo de mensagens presente em um smartphone pouco conhecido.

Um soldado sênior da Turquia disse que a inteligência turca foi capaz de usar o aplicativo e rastrear centenas de membros de um movimento religioso que o governo culpa pelo golpe fracassado do mês passado.

Membros do grupo pararam de usar o aplicativo a vários meses depois de perceber que o mesmo foi comprometido, mas o aplicativo ainda tornou fácil purgação de centenas de professores, policiais, soldados e oficiais da justiça logo após a tentativa de golpe.

$ 2 BILHÕES: O VALOR QUE A CIA PAGOU PELO GOLPE NA TURQUIA

Os Estados Unidos proveram pelo menos $ 2 bilhões por todas as despesas. Os fundos vindos de bancos africanos foram distribuídos por Campbell. Em troca de ajuda, os golpistas prometeram autorizar os Estados Unidos a abrir uma nova base militar na fronteira entre a Turquia e a Síria, equipada com as últimas tecnologias. Também, entre os acordos estava o crescimento da pressão militar e econômica contra a Rússia, o que mudaria seriamente a balança de poder na região.

Erdogan disse que o script do Golpe na Turquia foi escrito no ‘exterior’

Em um discurso combativo em seu palácio em Ankara, Edogan disse na terça-feira que colégios financiados pelo governo americano eram a principal fonte de renda para a rede de operações do homem de negócios Fethullah Gulen, a qual ele acusa de planejar o sangrento golpe do dia 15 de julho.

“Eu estou avisando os Estados Unidos: que tipo de parceiros estratégicos somos nós quando você ainda pode hospedar alguém cuja extradição eu pedi? ”, disse Erdogan em um discurso para representantes locais de firmas multinacionais operando na Turquia.

“Essa tentativa de golpe possui atores dentro da Turquia, mas o script foi escrito no exterior. Infelizmente o ocidente está apoiando terrorismo e apoia planejadores de golpes, ” disse ele em comentários que receberam aplausos e foram transmitidos ao vivo.

Impressões digitais da OTAN no golpe da Turquia

Os mesmos participantes do golpe estacionados na Força Aérea turca, eram majoritariamente estruturas das forças armadas turcas integradas a OTAN, e isso deu aos observadores a primeira evidência do envolvimento da NATO no golpe militar. A base aérea de Incirlik, onde o exército americano era baseado foi usado pelos golpistas para lançar ataques aéreos no parlamento turco. A base é usada conjuntamente pelos Estados Unidos e forças aéreas turcas. Depois da tentativa de golpe, a base foi reprimida pelo comandante da base. General Bekir Ercan Van foi preso pelas tropas leais a Erdogan. Van pediu asilo dos Estados Unidos, mas o pedido foi negado. No rescaldo do golpe, a energia elétrica externa da Turquia foi cortada e uma ordem Turquia impedindo vôos foi colocada em efeito para a aviação americana na área. No dia 30 de julho, a base foi bloqueada por tropas turcas devido a informações de uma segunda tentativa de golpe.

Turquia vê rápida vistoria da agência de inteligência, gendarmaria depois do Golpe

A Turquia irá finalizar uma vistoria de sua agência de inteligência e fazer novos apontamentos para sua gendarmaria na medida em que tenta livrar seu aparato de segurança de seguidores de um mandamento americano culpado pela tentativa de golpe, disseram oficiais na quarta-feira. O presidente Tayyip Erdogan disse que os novos apontamentos na gendarmaria, responsável pela segurança em áreas rurais e chave na luta contra forças dos militantes curdos viriam em 48 horas. O ministro do interior Efkan Ala disse que o trabalho na restruturação na agência de inteligência MIT estava em andamento e que “não deveria demorar muito”.

Mais de 60 mil pessoas no exército, judiciário, serviço civil e educação foram detidas, suspensos ou colocados sob investigação após a tentativa de golpe no dia 15 de julho, aumentando medos entre os aliados ocidentais e grupos de direitos que Erdogan está perseguindo e usando os eventos recentes como pretexto para tal.



REFERÊNCIAS:










NOTA:

[1] Leia-se Indjirlik, pois no turco a partícula c tem valor de dj.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Escola sem Partido - do que se trata? Parte 4




Foto – Slogan do Escola sem Partido.
No dia 31 de julho de 2016 várias manifestações tiveram lugar em vários pontos do Brasil, tanto a favor quanto contra a volta de Dilma ao Palácio do Planalto. E, como era de se esperar, mais uma vez a turba da direita raivosa, do alto de sua típica tacanhice, veio pedir “fora Dilma” e fazer suas loas ao juiz Moro e a República de Curitiba. Nessas manifestações também houve aqueles que pediam a implantação do Escola sem Partido, entre elas uma manifestante de Porto Alegre que carregou papéis com os dizeres “Escola sem Partido já” e “Professor não é educador”. A quarta parte de nossa série de artigos sobre o Escola sem Partido falará a respeito de mais uma frente onde se manifesta a hipocrisia dos partidários do Escola sem Partido e dos coxinhas de modo geral, desta vez relacionada à questão do judiciário e da Operação Lava Jato (operação essa que recentemente foi denunciada pelo ex-presidente Lula na Comissão de direitos humanos da ONU, o qual alegou que as apurações tem sido feitas com “clara falta de imparcialidade”).
Da mesma forma com que até hoje nunca vi nenhum dos partidários do Escola sem Partido pedir isenção ideológica da parte da grande mídia e muito menos a aprovação do PL 5921/2001 (já que alguns de seus partidários usam argumentos similares às dos partidários da lei proposta por Luís Carlos Hauly em 2001 para justificar a necessidade de sua implantação), também nunca os vi pedir isenção ideológica da parte da República de Curitiba (vulgo República do Galeão 2.0) e de seu capitão-mor, o juiz Sérgio Moro, nas investigações da Operação Lava Jato. Operação essa que, depois de inúmeras fases, não está se mostrando um real combate ao problema da corrupção na política brasileira como os coxinhas pensam, e sim um conluio midiático-judicial-policial que executa uma operação de caráter político cujo objetivo primordial é inviabilizar a candidatura de Lula para o pleito presidencial de 2018 e o prender (além de entregar o pré-sal e a Petrobrás às grandes petroleiras internacionais). O combate à corrupção, pelo que as ações do juiz paranaense têm demonstrado, não passa de uma cortina de fumaça, um subterfúgio para esconder à população seus reais objetivos com a Operação Lava Jato.
Roberto Requião pontuou em sua entrevista recente ao Diário do Centro do Mundo que a seletividade da Operação Lava Jato se deve à formação dos juízes que dela fazem parte, os quais ainda carregam aquela mentalidade reacionária oriunda da Guerra Fria e do golpe civil-militar de 1964. Isso ao ponto deles verem qualquer sujeito progressista como uma ameaça (ainda que o progressismo do sujeito em questão seja algo bem limitado e que ofereça pouca ou nenhuma ameaça efetiva a seu status quo). Bem diferente do que muitos incautos pensam (em especial os coxinhas da classe média para cima alienados pelo veneno que a grande mídia vende e que pensam que o juiz Sérgio Moro é um herói do Brasil), o tribunal, tal qual a mídia de massa, também tem partido, como Nildo Ouriques pontuou em uma de suas falas no seminário “Crise e Democracia”, que aconteceu na UFBA (Universidade Federal da Bahia) em oito de abril de 2016.

Foto – Manifestação em Porto Alegre do dia 31 de julho de 2016.
E qual é o partido dos tribunais? Se há algo que a Operação Lava Jato escancarou a todos nós (principalmente aos brasileiros que não vivem do senso comum que gente como Raquel Sheherazade, Marco Antônio Villa, Miriam Leitão, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor e outros vendem) é que o tribunal, além de partidário, é um órgão notadamente reacionário e que zela acima de tudo pelos interesses da classe dominante da qual gente como Sérgio Moro são representantes.  No que ajuda a explicar o motivo pelo qual os integrantes da República de Curitiba nutrem uma simpatia muito maior por partidos como o PSDB e um ranço enorme para cima de partidos como o PT, pois enquanto o primeiro é um partido de caráter elitista e burguês por excelência, o segundo, a despeito de ter nesses anos todos governado muito mais para as classes dominantes que para as classes subalternas e ter feito uma política social que não mexeu em seus privilégios, é um partido de massas e com todo um histórico de lutas ligadas às classes menos favorecidas. Dessa forma, essa classe e suas distintas frações sentem-se muito mais a vontade com o tucanato no poder que com Lula e sua turma, já que os primeiros fazem parte do seu círculo social e os segundos não. Darcy Ribeiro, em entrevista concedida ao programa Roda Viva concedida em 20 de junho de 1988, classificou a classe dominante brasileira com adjetivos tais como azeda, razinza, medíocre e cobiçosa e afirmou ainda que ela é a grande responsável pelo atraso brasileiro em relação às grandes potências. Mesmo passados 127 anos da lei Áurea, tal classe ainda tem um pendor escravocrata que remonta aos tempos coloniais, além de seu histórico entreguismo.
Algo igualmente digno de nota são os salários nababescos que esses juízes recebem mensalmente: segundo matéria do jornal Gazeta do Povo, em dezembro do ano passado o salário médio dos juízes paranaenses foi de R$ 103,6 mil. E, de acordo com o que o deputado petista carioca Wadih Damous disse em um pronunciamento no dia 28 de agosto de 2015, o juiz Moro ganha por mês cerca de R$ 77 mil e que, portanto a limpeza do Brasil deveria começar pelos salários altíssimos e mordomias que essa gente recebe. E isso ao mesmo tempo em que um professor da rede pública não ganha nem R$ 2.500,00 (ou seja, uma quantia bem abaixo do salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas, calculado pelo DIEESE[1] em R$ 3.942,24) e de brinde ainda tem que lidar com as péssimas condições de trabalho aos quais são submetidos, entre eles escolas caindo aos pedaços, alunos extremamente indisciplinados e periódicas demissões de seus cargos. Serão justamente esses juízes e promotores, tão ou mais reacionários quanto Sérgio Moro que, caso propostas como a de Marcel Van Hattem venham a ser aprovadas e implantadas, julgarão as denúncias de alunos enviadas aos órgãos competentes e fatalmente ao mesmo em que punirão com todo o rigor da lei os professores que fizerem pregação ideológica de esquerda, farão vistas grossas aos professores que fizerem pregação ideológica de direita (certamente sob o argumento de que “isso não vêm ao caso”). Dois pesos, duas medidas.

Foto – Sérgio Moro ao lado do político tucano paulista João Dória Júnior.
Outra prova latente do partidarismo do juiz de Maringá que é o fato de que ele periodicamente faz palestras para tucanos ilustres, entre eles João Dória Júnior, o provável candidato do PSDB para a eleição municipal da cidade de São Paulo desse ano. E, como a própria Operação Lava Jato se mostrou, mesmo com políticos tucanos tais como Aécio Neves sendo citados em várias delações, nunca os investigou. Vale aqui citar também o fato de que no dia 4 de agosto Moro irá participar de uma audiência pública na comissão especial de combate à corrupção da Câmara, bem no mesmo dia em que a Comissão Especial de Impeachment no Senado votará a saída definitiva de Dilma Rousseff. E o que ele e Deltan Dallagnol[2] (que no dia 9 comparecerá à Comissão Especial da Câmara, bem no mesmo dia em que está marcada a votação prévia do impeachment no plenário do Senado) querem com isso? É óbvio que eles querem influenciar o resultado da votação em favor da impugnação de Dilma Rousseff. Ou seja, querem botar mais lenha na fogueira do caso. Portanto, eles estão agindo da forma mais partidária possível, tanto quanto o professor de esquerda que periodicamente faz sua pregação ideológica em sala de aula, mas com o sinal invertido. Tal como agiram, por exemplo, no episódio da condução coercitiva de Lula no dia 4 de março para que ele prestasse depoimento (constrangimento esse em nada diferente daqueles que a República do Galeão submeteu Getúlio Vargas e sua família logo após o ataque de falsa bandeira da Rua Tonelero e que agiu de forma tão ou mais partidária quanto a República de Curitiba hoje) e quando, de forma ilegal, quebrou o sigilo telefônico das conversas telefônicas entre Dilma e Lula logo após o anúncio de que o ex-presidente seria nomeado para o cargo de ministro da Casa Civil.
E essa não é a primeira vez na história que o aparato judicial foi utilizado para perpetrar um golpe de Estado: golpes similares aconteceram em 2009 em Honduras e em 2012 no Paraguai, os quais derrubaram Manuel Zelaya e Fernando Lugo, respectivamente. Recentemente o ex-presidente turco Recep[3] Erdoǧan, o qual foi alvo de uma tentativa de golpe de estado, disse que “a Turquia não é um país da América Latina... eu estou me referindo àqueles que tentam derrubar o governo e voltam a seus quartéis”, fazendo referência aos velhos golpes de estado em países latino-americanos executados por militares reacionários. Pelo visto essa fala de Erdoǧan nos sugere que ele está por fora do fato de que na América Latina esse tipo de golpe está saindo de moda. Agora a nova moda são golpes de estado executados não mais por militares e tanques nas ruas, e sim através de manobras palacianas perpetradas por juízes e parlamentares, tão ou mais reacionários quanto suas contrapartes de quartel. Mas que, tal qual acontecia com os golpes militares de outrora, também são amparados e feitos em conluio com a mídia de massa que, agindo da forma mais descaradamente partidária possível, promove uma guerra de informação que desgasta e arruína a imagem do governo em questão diante da população (expediente esse que Lima Barreto, ainda na década de 1900, mencionou em algumas passagens de Recordações do Escrivão Isaías Caminhão).
Mas enfim, por que será que a direita raivosa de modo geral pensa que a pregação do professor de esquerda nas salas das escolas e universidades tem direcionamento ideológico, enquanto que o mesmo não se verifica com as ações de juízes como Sérgio Moro e Deltan Dallagnol? Em outras palavras, cobram como se fossem uns leões isenção ideológica dos primeiros, mas não fazem o mesmo com os segundos? Talvez porque eles não queiram mexer com quem tem muito mais poder que eles, e assim acabam usando os professores de esquerda (tanto da rede pública quanto da rede privada) de bode expiatório dos problemas que flagelam a educação brasileira. Segundo porque os partidários do Escola sem Partido, de modo geral, se mostram favoráveis às ações da República de Curitiba. E, enquanto Moro e sua equipe batem apenas no PT e seus aliados, para eles está ótimo. Talvez, pedindo isenção ideológica da parte da República de Curitiba eles poderiam se dar mal, muito mal. E isso para não falar do fato de que nunca vi nenhum deles cobrar que a República de Curitiba investigue, por exemplo, as falcatruas das privatizações do governo FHC (algumas das quais apuradas por Amaury Ribeiro Júnior no livro “A Privataria Tucana”), ou mesmo os grandes banqueiros e rentistas do país, que fazem fortuna com o super-endividamento do estado brasileiro através de expedientes como especular em cima dos títulos das dívidas interna e externa, muito menos uma auditoria dessa mesma dívida como a que foi feita no Equador em 2007 (esse tipo de postura talvez se dê devido à lógica advinda do pensamento de John Locke mencionada na terceira parte, onde é despótico todo governo que atenta contra a liberdade dos homens de negócio). Perto dessa gente, os políticos e empresários investigados pela República de Curitiba não passam de trombadinhas.

Foto – O juiz Sérgio Moro e suas vinculações midiático-partidárias.
Fontes:
“A Turquia não é um país da América Latina para ter golpe de Estado”. Disponível em: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/07/a-turquia-nao-e-um-pais-da-america-latina-para-ter-golpe-de-estado.html
A Privataria Tucana. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-9mflDtyue0
Darcy Ribeiro, sobre a elite brasileira. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SX5O-IAyO38
Deputado Wadih Damous faz críticas ao juiz Sérgio Moro por recebimento de salário acima do teto. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wn2Gam6KQxM
Jornal português chama Moro de golpista e partidário. Disponível em: http://plantaobrasil.net/news.asp?nID=93446
Juiz Moro: quem sai aos seus não degenera. Disponível em: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2015/01/20/juiz-moro-quem-sai-aos-seus-nao-degenera
Moreira: a mídia e a justiça. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VFPJvpzn6P4
Moro jura que não é tucano, mas só faz palestra para tucano. Por quê? Disponível em: http://www.esmaelmorais.com.br/2016/03/moro-jura-que-nao-e-tucano-mas-so-faz-palestra-pra-tucano-por-que/
Moro vai ao Congresso durante votação de impeachment. Disponível em: http://nossapolitica.net/2016/07/moro-votacao-impeachment/
Não há crise econômica para juízes e desembargadores: meritíssimos ganham aumento de 41% no salário. Disponível em: http://www.ocafezinho.com/2016/07/21/nao-ha-crise-economica-para-juizes-e-desembargadores-meritissimos-ganham-aumento-de-41-no-salario/
Nildo Ouriques – Operação Lava Jato. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1IfLkKvPGYg
Nildo Ouriques – os três níveis da corrupção. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xbgVmPeVn08
Roberto Requião – o neo-anticomunismo neo-conviente às velhas elites. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XtB-Txf-LcI
Salário mínimo nominal e necessário. Disponível em: http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html
NOTAS:

[1] Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos.
[2] Procurador do Ministério Público Federal e integrante da força tarefa da Operação Lava Jato.
[3] Leia-se “Redjep”, pois no turco a partícula c tem valor de dj.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Escola sem Partido - Do que se trata? Parte 3




Foto – Slogan do Escola sem Partido.
Na terceira parte da minha série de artigos sobre o Escola sem Partido quero falar sobre a dupla moral de ao menos parte expressiva da direita brasileira, que se comporta como uns leões ante a pregação ideológica que o professor de esquerda faz em sala de aula, mas ao mesmo tempo fecha os olhos quando o assédio ideológico não vem do professor de esquerda que eles tanto satanizam e chegam até a culpar como o responsável pela lastimável situação em que o ensino brasileiro se encontra, e sim do capital.
Em 12 de dezembro de 2001, Luís Carlos Hauly, deputado do PSDB pelo estado do Paraná, apresentou o projeto de lei 5921/2001 no Plenário da Câmara Federal. Essa lei acrescenta parágrafo ao artigo 37 da lei número 8078 de 11 de setembro de 1990, que criou o Código de Defesa do Consumidor (CDC), e em sua explicação o projeto de lei em questão proíbe a publicidade e a propaganda para a venda de produtos infantis. Em 2008 foi aprovado um texto substitutivo na Comissão de Defesa do Consumidor (CDC) e outro texto no ano seguinte na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio (CDEIC) e em 2013 na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI). De acordo com o Instituto Alana, o texto aprovado em 2008, de autoria da então deputada Maria do Carmo Lara (PT-MG), é o que melhor protege a criança brasileira, e prevê a regulação de qualquer comunicação com finalidade mercadológica dirigida ao público com menos de 12 anos de idade. No presente momento, o PL 5921/2001 se encontra pronta para pauta no Plenário. A questão da veiculação da publicidade infantil também serviu de tema para a redação da prova do ENEM 2014. E como não poderia deixar de ser essa questão na ocasião dividiu opiniões, com argumentos tanto a favor quanto contra a medida, tal qual acontece com o Escola sem Partido atualmente.
Um dos argumentos utilizado pelos partidários dessa lei para justificar sua implantação é a de que a criança, por ser uma pessoa ainda em formação, deve ser protegida das tentações oferecidas pelas propagandas veiculadas na mídia de massa. E o curioso é que Marcel van Hattem (o mesmo Van Hattem que em 10 de novembro de 2014 postou uma mensagem em sua página no Facebook dizendo que o ENEM é o teste para avaliar a situação da doutrinação de esquerda nas escolas) utilizou argumentação similar (só que não aplicada às tentações do capital, e sim à pregação do professor de esquerda em sala de aula) para justificar a necessidade da implantação do Escola sem Partido em seu vídeo-resposta à Leandro Karnal.
Entre os refratários dessa lei, muitos diziam que isso inviabilizaria a vida de programas infantis (entre eles cartoons e animes) nos canais de televisões brasileiros e até mesmo impediriam e inviabilizaria o surgimento de grandes estúdios de animação em solo tupiniquim. O site odezinformado descreveu a lei em questão como “uma lei que pode salvar as crianças do consumismo, mas tirar uma das melhores partes da infância, que é o desenho animado”.
Um dos que se posicionaram contra essa lei na ocasião foi Rodrigo Constantino. Segundo o economista e desafeto de Olavo de Carvalho (vulgo Sidi Muhammad Ibrahim), a lei 5921/2001 é o ovo da serpente de uma medida extremamente perigosa para a liberdade das pessoas e que a lei ignora que a criança tem pai e mãe, os responsáveis por sua criação, e que assim estaria transferindo para o estado a educação das crianças, assim como classificou os partidários da medida como “filhotes de Rousseau”. É o mesmo Constantino que hoje em dia é favorável ao Escola sem Partido, sob a alegação de conversas verborrágicas tais como o combate a uma suposta doutrinação de esquerda nas escolas e universidades e que muitos dos docentes de esquerda são em realidade militantes disfarçados que querem fazer pregação ideológica em seus alunos. Dois pesos, duas medidas. Na primeira situação, ele se demonstra contrário à implantação de uma lei, algo que obrigatoriamente necessita da ação estatal, para resolver determinado problema e que a resolução do problema em questão é de responsabilidade dos indivíduos. E na segunda situação, a conversa é totalmente diferente, afinal o programa ideológico do Escola sem Partido, para sua implementação, também necessitará obrigatoriamente de uma ação do Estado que liberais como ele tanto demonizam. E agora, cadê a liberdade das pessoas para resolver seus próprios problemas? Cadê o respeito às liberdades individuais dos professores se expressarem da forma que quiserem em sala de aula para alguém que tanto preza na defesa das liberdades individuais diante do poder do Estado? Os professores e as escolas também não poderiam resolver por si mesmos esse problema? Por que será que a ação do Estado é válida em um caso e inválida no outro?

Foto – Meme ironizando a típica hipocrisia dos liberais no que tange ao Estado.
O ranço que essa gente demonstra em relação ao Estado, diga-se de passagem, nada mais é que uma roupagem moderna do discurso do pensador britânico do século XVII John Locke, que em seu livro “Dois tratados sobre o governo” definia como despótico todo e qualquer governo que atenta contra a propriedade privada, e dessa forma, a liberdade dos homens de negócio. Assim sendo, na concepção de Locke, esses tem todo o direito de castigar da forma mais brutal possível seus opositores. Esse é o discurso liberal por excelência, onde o mercado é mostrado como o espaço das virtudes por excelência, ao passo que o Estado é o espaço das mazelas, no que dá margem a muitas pessoas pensarem que só existe corrupção no segundo. De acordo com o professor Ramez Maalouf, essa mesma lógica oriunda do pensamento de John Locke da qual os liberais bebem esteve presente nas invasões anglo-americanas que o Iraque sofreu em 1991 e 2003, que sob o pretexto de levar a democracia para a nação mesopotâmica depôs Saddam Hussein e a levou a ruína e o caos dos quais até hoje nunca se recuperou.
A publicidade infantil, como todo e qualquer tipo de publicidade, é um negócio que se encontra dentro do contexto e da lógica de acumulação capitalista. Assim sendo, na condição de negócio multimilionário, zela pelos interesses de classe dos grandes capitalistas ligados ao negócio. Em outras palavras, a publicidade infantil tem seu partido e sua orientação ideológica (muito embora aparente neutralidade quanto a esse assunto). Quando, por exemplo, uma empresa que vende brinquedos divulga seus produtos na televisão, no rádio, na Internet, em outdoors ou qualquer outro lugar sua principal finalidade não é outra senão vender seus produtos e, portanto ganhar dinheiro com isso, ainda mais levando em consideração que vivemos em mundo cuja economia é movida justamente pelo consumo de massa (vulgo consumismo). Fenômeno esse que Karl Marx previu ainda em 1867 em sua obra “O Capital” com as seguintes palavras: “os donos do capital incentivarão a classe trabalhadora a adquirir, cada vez mais, bens caros, casas e tecnologia, impulsionando-as cada vez mais ao caro endividamento, até que sua dívida se torne insuportável”.
Foto – A profecia de Karl Marx sobre o consumismo em “O Capital” (1867).
Como já foi mencionado no artigo “A farsa do conservadorismo da Rede Globo”, existe outra modalidade de exploração que os grandes capitalistas promovem, que o marxista venezuelano Ludovico Silva chamava de mais valia ideológica, que é a extensão da exploração que o trabalhador sofre na fábrica em casa e que é levada a cabo pela mídia de massa (a mesma mídia de massa que veicula a maior parte dos anúncios envolvendo publicidade infantil). Portanto, isso que os grandes capitalistas fazem através de sua máquina de propaganda não se configura como assédio ideológico? Pois pelo que as falas dos partidários do Escola sem Partido sugerem, assédio ideológico é apenas a pregação do professor de esquerda em sala de aula (profissional esse que muitas vezes trabalha sob péssimas condições de trabalho e ganha um salário miserável, geralmente não mais que R$ 2415,89, ou seja, muito abaixo do salário mínimo necessário segundo o DIEESE[1] para sustentar uma família de quatro pessoas, que em junho de 2016 foi calculado em R$ 3940,24).
Já os grandes capitalistas, por seu turno, possuem do seu lado órgãos como a mídia de massa, que muitos chamam de o quarto poder (assim Lima Barreto, em Memórias do Escrivão Isaías Caminha, descreveu a imprensa na década de 1900) e que ajudam a perpetuar e a manter seu status quo privilegiado. E os professores de esquerda, por um acaso tem aparato similar do seu lado? Não, não tem e nunca tiveram. Ou seja, o poder que o professor de esquerda tem de produzir alienação e assédio ideológico nas pessoas é infinitamente inferior ao que os grandes capitalistas possuem. E o curioso é que até hoje nunca vi nenhum partidário do Escola sem Partido cobrar isenção ideológica, por exemplo, da mídia de massa e da República de Curitiba e seu capitão-mor Sérgio Moro nas investigações da Operação Lava Jato (que como todos nós sabemos se mostraram extremamente seletivas e partidárias ao atacar apenas os políticos ligados ao PT e partidos da base).
E para piorar ainda mais a situação, esses elementos da direita raivosa, como de praxe, ignora o fato de que no mundo em que vivemos quem de fato dá as cartas na política das nações (em especial no Ocidente) não são os presidentes e primeiros-ministros, e sim os grandes capitalistas que através de seu poder econômico mandam por trás das cortinas do poder. Os presidentes e primeiros-ministros não passam de gerentes que governam em nome dos grandes capitalistas e que cujo poder real muitas vezes é praticamente nulo. Como Marx disse em um trecho do Manifesto do Partido Comunista (1848), o estado moderno é o comitê de negócios da burguesia. Ou seja, atende acima de tudo aos interesses de classe dos grandes capitalistas. E a esse fato gente como Marcel Van Hattem e Rodrigo Constantino fecham os olhos da forma mais rasteira possível.
Por que será que gente como Van Hattem, Constantino e outros pensam e agem assim? Primeiro, percebe-se que a dupla moral com que eles tratam essas questões exala a já citada concepção de John Locke (consciente ou inconscientemente). Assim sendo, como bons liberais que são, não tem interesse algum em mudar o status quo vigente. Segundo, talvez porque não querem mexer com gente que tem muito mais poder que eles, e assim acabam fazendo os professores (tanto da rede pública quanto da rede privada) de bode expiatório dos problemas que a educação brasileira enfrenta. Terceiro talvez por ignorância e/ou má fé (o que acho bem improvável).
No fim, o que se percebe é que eles não querem resolver de fato com os problemas da educação brasileira, e sim impor sua cartilha político-ideológica em sala de aula sob o pretexto de combater a alegada doutrinação marxista nas escolas, ainda mais agora que a correlação de forças na política nacional está em seu favor. Resumo da ópera: pela lógica de gente como Marcel van Hattem e Rodrigo Constantino, se o Escola sem Partido tem de ser implantando, então a lei 5921/2001 também tem que ser implantada, já que ela também se propõe a proteger as crianças de um assédio ideológico, no caso o assédio ideológico do capital. Assédio esse que no mundo em que vivemos é muito mais forte e insidioso que o assédio de um professor de esquerda.

Foto – Frase de George Orwell sobre o consumismo e seu funcionamento. Crédito: Avante.
Fontes:
E ainda tem gente que é contra o Escola sem Partido. Disponível em: http://rodrigoconstantino.com/artigos/e-ainda-tem-gente-que-e-contra-o-escola-sem-partido/
Escola com Partido ou Sem Partido? Disponível em: http://rodrigoconstantino.com/artigos/escola-com-partido-ou-sem-partido/
Maurício de Sousa lidera reação em defesa da publicidade infantil. Disponível em: http://economia.ig.com.br/empresas/2014-12-11/mauricio-de-sousa-lidera-reacao-em-defesa-da-publicidade-infantil.html
Os sete mitos criados pela mídia ocidental que ajudaram a destruir o Iraque (2). Disponível em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10102:submanchete021014&catid=80:ramez-philippe-maalouf&Itemid=203
Publicidade Infantil – Entenda o projeto de lei que cria regras claras para a publicidade dirigida a crianças de até 12 anos de idade. Disponível em: http://publicidadeinfantilnao.org.br/2015/06/07/publicidade-infantil/
Propaganda infantil – proibir ou não? Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SXSt-JtXpS4
Propaganda menos propaganda infantil = lei 5921/2001! Entenda o resultado dessa conta! Disponível em: http://odezinformado.blogspot.com.br/2014/07/propaganda-menos-programa-infantil-lei.html
Resposta ao professor Leandro Karnal sobre o Escola sem Partido – Marcel van Hattem. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=W66pmP5x1io
Roda Viva – Leandro Karnal (04/07/2016). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JmMDX42jOoE
Ruy Mauro Marini. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ruy_Mauro_Marini
Salário mínimo nominal e necessário. Disponível em: http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html
Super-exploração do trabalho. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Superexplora%C3%A7%C3%A3o_do_trabalho



[1] Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos.