Foto – Dominik Tarczyński ao lado de 03 (direita).
O eurodeputado Dominik Tarczyński[1], do partido Pis (Pravo i Spravedliwość; Lei e Justiça, na sigla em polonês), acionou e ameaçou deportar duas brasileiras que não só votaram no Lula no primeiro turno das eleições 2026, como também postaram nas redes sociais fotos fazendo o L e mostrando a estrela petista estampada na camisa em outra em redes sociais.
O que dizer dessa história? Primeiro de tudo, que é ridículo (para não dizer absurdo) dizer que o PT é comunista. O PT nunca foi, não é e nunca será comunista. Começa pelo fato de que o Partido dos Trabalhadores, em sua gênese, rejeitava não só as experiências socialistas vistas em países como a União Soviética, a Mongólia, a China, a Coréia do Norte, o Vietnã e a Líbia, como também a tradição trabalhista (que também passava longe de comunismo) de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. Isso a tal ponto que à época Darcy Ribeiro e Brizola classificavam o PT por adjetivos como “UDN de macacão”, “esquerda que a direita gosta” e “galinha que cacareja pela esquerda e bota ovos pela direita”.
Tanto é verdade que ainda no começo dos anos 1980 o PT era
simpático à causa do sindicato Solidarność (em polonês Solidariedade) na
Polônia, ao passo que outros partidos da esquerda brasileira, como o PCB,
olhavam o mesmo Solidarność como contra-revolucionário. Isso a tal ponto que o
PT convocou manifestações de rua em apoio ao Solidarność. Ou seja, é até
bizarro de se pensar que naquela época o PT, Plínio Correa de Oliveira
(intelectual católico e fundador da TFP[2]
no Brasil, o mesmo que dá nome ao IPCO [3])
e o pessoal que depois fundou o PiS, o partido de extrema-direita que hoje
governa a Polônia e com o qual a família Bolsonaro tem suas ligações, estavam
do mesmo lado da barricada, lutando contra o regime da República Popular da
Polônia encabeçado pelo marechal Wojciech Jaruzelski [4].
O fato é que historicamente a práxis política do Partido dos
Trabalhadores esteve bem mais próxima daquela de partidos social-democratas
como o Partido Democrata dos Estados Unidos, o Partido Trabalhista da
Inglaterra e o SPD alemão (a chamada terceira via) que dos países do chamado
socialismo real.
Brizola, do alto de sua sabedoria e argúcia, disse na
entrevista ao Roda Viva, em 1994, o seguinte: que Lula é a espuma da história,
que a mente dele está dentro do sistema tal qual Fernando Henrique e as equipes
econômicas do tucano e do petista se acotovelavam para executar o mesmo
programa econômico, neoliberal. Com FHC vindo por cima e Lula por baixo.
Desdobramentos posteriores, como a carta aos brasileiros de 2002 e toda a
política econômica dos governos Lula e Dilma, apenas confirmam o diagnóstico de
Brizola.
Brizola era um homem que enxergava longe, e já naquela época ele vislumbrou o que viria a ser o petucanismo se formando no horizonte: petistas e tucanos se revezando no poder, administrando a ordem capitalista no Brasil e executando no essencial o mesmo programa econômico (baseado no chamado tripê macroeconômico – metas fiscais de superávit primário, metas fiscais de inflação e câmbio flutuante).
Pode-se dizer que ali o velho caudilho também vislumbrou o
papel que o PT teria dentro da governabilidade petucana – o bombeiro do sistema
ao qual os donos do poder vão recorrer em tempos de crise, a hora em que a
política levada adiante pelos representantes orgânicos deles (como o PSDB e o
PMDB) chegar ao seu limite e o perigo de convulsão social massiva estiver no ar
(como foi o caso de 2002). A típica manobra de abrir mão dos anéis para
preservar os dedos.
Foto – petucanismo: os dois bandos brigando para ver quem melhor serve aos donos do poder. Charge de Latuff datada de 2012.
Segundo o professor Jessé Souza em sua obra “A classe média
no espelho”, o que Fernando Henrique Cardoso operou na economia brasileira foi uma
espécie de recriação da Primeira República Brasileira (1889 – 1930): em seu afã
de “enterrar a era Vargas”, o uspiano fez do estado brasileiro um mero orçamento a
ser dividido pela elite do dinheiro, elevou a taxa SELIC a 45%, o real passou a
valer o mesmo que o dólar, as funções sociais do Estado foram encolhidas, uso
do orçamento para turbinar o setor financeiro com o dinheiro de todos, o
endividamento do estado dispara, o processo de desindustrialização do país tem
início. O estado brasileiro literalmente se torna o balcão de negócios da Faria
Lima, parafraseado Marx.
Consequentemente, surgiram esquemas de corrupção como a
Privataria Tucana (estatais como a Companhia Siderúrgica Nacional e a Vale Rio
Doce entregues a preço de banana a investidores e especuladores internacionais),
Banestado (o maior esquema de evasão de divisas da história do Brasil, por meio
do qual cerca de R$ 124 bilhões [valores da época] foram enviados a contas no
exterior via contas CC5), mensalão mineiro, Dersa, Rodoanel, Alstom, trensalão,
entre outros. Assim como personagens das sombras tais como os doleiros Dario
Messer, Nelma Kodama e Alberto Yousseff, Geraldo Brindeiro (engavetador-geral
da República da era FHC) e operadores de esquemas como Marcos Valério
(inicialmente operador de esquemas do PSDB em Minas Gerais), Paulo Preto e o
finado Manfred von Richthofen (morto pela própria filha em 2002).
E, uma vez chegando à presidência da República, o que os
governos Lula e Dilma fazem? Mantêm no essencial o funcionamento dessa
engrenagem, os fundamentos estabelecidos lá atrás no Plano Real: metas de
inflação, superávit primário e câmbio flutuante. A reforma agrária (pauta
histórica do PT) congela e o agronegócio não só expande sua fronteira agrícola,
como também o próprio governo petista se vale de sucessivos Planos Safra para
investir e irrigar as contas do mesmo. Usa a verba publicitária para irrigar as
contas de canais televisivos como a Globo, o SBT e a Record. Os bancos privados
continuam lucrando horrores por meio do pagamento de juros e amortizações da
dívida pública, que consome cerca de metade do orçamento da união anualmente. O
BNDES se torna uma plataforma por meio do qual o governo brasileiro financia obras
de empreiteiras como a Odebrecht, a OAS e a Camargo Correa em países como
Venezuela, Cuba e Líbia (ao passo que, a despeito de toda a histeria de setores
da direita brasileira e dos meios de comunicação, no essencial, a política
externa brasileira continua tendo como parceiros estratégicos países como
Estados Unidos e França). Um bolsa família aqui e acolá acaba se tornando
medida de contingenciamento para impedir que o país pegue fogo. Perto do que o
país gasta pagando por ano só de juros e amortizações da dívida pública (o que
alguns chamam de bolsa banqueiro), o bolsa família não passa de troco de pinga.
Foto – Gastos da União em 2014.
E isso não passou despercebido nem por políticos e nem por analistas políticos – em 2003 (ou seja, ainda no primeiro ano do primeiro governo Lula), Brizola rompeu com Lula por, entre outras coisas, manter a mesma política econômica de FHC e se afastar das pautas históricas da classe trabalhadora e da esquerda. Em 2004, o Doutor Enéas diz em programa eleitoral que não há diferença básica entre o governo do PSDB e o do PT.
E em 2006, durante a eleição para governador do estado de São Paulo, em debate com Aloísio Mercadante, Plínio de Arruda Sampaio mostrou por A+B que o PT, no essencial, aplicava a mesma agenda econômica que o PSDB aplicava antes.
Analistas políticos como Gilberto Felisberto Vasconcellos (colunista da finada revista Caros Amigos) e Nildo Ouriques criaram o petucanismo para designar esse fenômeno. Ou seja, políticos e analistas de diferentes visões ideológicas observando o mesmo fenômeno e convergindo para a mesma conclusão.
Sobre o ato das brasileiras em si em Varsóvia, elas, ao fazerem o L e postarem foto em redes sociais com estrela petista, involuntariamente, mexeram em um vespeiro. Mais precisamente, o vespeiro da direita polonesa e de todo o ideário que a própria Polônia vem cultivando e que remonta aos tempos da conversão da nação de Copérnico e Chopin ao cristianismo, ainda no século X.
O fio dessa história remonta ao ano de 966, quando a Polônia
se converte ao cristianismo sob o rei Mieszko I. Junto com a Hungria, convertida
ao cristianismo no ano 1000 sob o rei Estevão (este último posteriormente
canonizado como Santo Estevão), a Polônia se torna a fronteira oriental da
cristandade latina. Nisso, desenvolveram conceitos como o da Antemurale
Christianitatis (Muralha da Cristandade em latim), e da Polônia como Cristo da
Europa.
Com o cisma do Oriente em 1054 e a divisão dentro do mundo
cristão dela decorrente entre leste e oeste e ainda mais a partir do século
XIII com as invasões mongóis, a Polônia passa a desempenhar, junto com a
Hungria, o papel de sentinela das fronteiras orientais da cristandade latina.
Em 1241, os mongóis, liderados por Batu Khan e o general
Subotai (um dos principais comandantes militares do Império Mongol inicial),
invadem a Hungria e a Polônia simultaneamente, com a intenção de impedir que
poloneses, tchecos e cavaleiros germânicos viessem em auxílio do Reino Húngaro,
sabendo de antemão a respeito das ligações dinásticas entre as aristocracias
húngara e polonesa.
Baidar, Orda (irmão de Batu) e Khadan [5]
comandam as divisões do flanco norte do exército mongol. Depois de passar e
devastar cidades como Lublin, Zawichost, Sandomir, Cracóvia e Wrocław, em 9 de
abril daquele ano os mongóis infligem uma derrota esmagadora ao exército
polaco-germânico liderado pelo duque Henrique o piedoso da Silésia, na batalha
de Legnica [6].
O duque é morto em combate.
Dois dias depois, é a vez do rei húngaro Béla IV ser vencido
pelos mongóis na batalha de Mohi. A derrota foi tal que o rei húngaro teve que
fugir para não ser capturado e morto pelos invasores. Batedores mongóis chegam
às cercanias de Viena e Udine. Por conta da morte do grande khan Ôgôdėi em
Karakorum e levantes dos cumanos nas estepes do sul da Rússia a campanha
europeia chega ao fim. Os mongóis recuam e se retiram da Hungria, devastando a Sérvia
e a Bulgária no caminho de volta às estepes.
Foto – Batalha de Legnica, 1241.
No inverno de 1259/1260, nova invasão mongol à Polônia se
segue, sob o comando de Burundai, depois de ter invadido o Grão-Ducado da
Lituânia e o Principado da Galícia-Volínia. Cidades como Lublin, Zawichost,
Sandomir e Cracóvia são devastadas e pilhadas pelos invasores. Em Sandomir, o
beato Sadok e 48 frades dominicanos são levados ao martírio pelos invasores
vindos do leste na Igreja de Santiago.
Foto – O martírio do beato Sadok e dos 48 frades dominicanos durante o saque de Sandomir em 1260. Pintura do século XVII.
A terceira e última dessas invasões ocorre no inverno de 1287/1288,
sob a liderança de Nogai (à época o homem-forte da Horda Dourada, a divisão
noroeste do Império Mongol) e Talabuga. Os dois vinham de um fracasso na
Hungria em 1285/1286. O primeiro veio pelo sul, na direção de Cracóvia, e o
segundo pelo norte, na direção de Sandomir. Mas dessa vez os poloneses, assim
como os húngaros, estavam melhor preparados para enfrentar os invasores, já
dispondo de uma rede de castelos e fortificações e evitando combates em campo
aberto em um primeiro momento, e o sucesso das invasões anteriores não se
repetiu. Nogai foi batido nas muralhas de Cracóvia e Talabuga nas muralhas de Sandomir.
Nos séculos seguintes, a Polônia, sob a égide de reis como
Casimiro o Grande (r. 1333 – 1370) se expande ao leste, firma uma aliança
dinástica com a Lituânia em 1386 (União de Krewo) que em 1569 evoluiu para a
Comunidade Polaco-Lituano (União de Lublin, 1569) e conquista grande parte do
que hoje é Ucrânia e Belarus. A Comunidade Polaco-Lituana veio a desempenhar
papel importante em conflitos contra o Império Otomano (vide o episódio do
cerco otomano a Viena em 1683, no qual o rei polonês Jan Sobieski III veio em
auxílio dos austríacos e ajudou a derrotar o cerco otomano), contra os
cavaleiros teutônicos (batalha de Grunwald, 1410), contra a Suécia (o episódio
do dilúvio de 1655 a 1660) e contra o crescente poder da Rússia moscovita.
Em 1610, o rei polonês Sigismundo III Vasa, aproveitando-se
da situação de instabilidade interna dentro da Rússia após a morte do tzar
Fëdor I (1598) e a crise dinástica dela decorrente, ocupa Moscou e tenta
instalar no trono russo um rei católico alinhado a Varsóvia. O Kremlin de
Moscou fica dois anos ocupado por guarnições polonesas e mercenários europeus.
Graças à insurreição popular e religiosa encabeçada por Kuzma Minin e pelo
príncipe Dmitrij Požarskij, um exército é formado em Nižnij Novgorod e Moscou é
libertada em 1612 da ocupação polaco-lituana. No ano seguinte Mikhail Romanov é
eleito como novo tzar da Rússia, dando início a 304 anos de dinastia Romanov.
Foto – Comunidade Polaco-Lituana em sua máxima extensão territorial, por volta de 1648.
A partir da segunda metade do século XVII a Polônia-Lituânia
entra em decadência, começa a perder territórios no leste para a Rússia
(incluindo Kiev) e ao fim é riscada do mapa no século XVIII nas três partilhas
da Polônia entre Rússia, Prússia e Áustria (1772, 1793 e 1795). No século XIX
tentativas de restaurar a independência polonesa e a velha Comunidade
Polaco-Lituana nas fronteiras de 1772 ocorrem em 1830-1831 (levante de
novembro) e 1863-1864 (levante de janeiro), ambas esmagadas e suprimidas pelo
Império Russo tzarista.
Enquanto a Polônia esteve riscada do mapa, surge a ideia da
Polônia como o Cristo da Europa, concebida por figuras como o poeta romântico
Adam Mickiewicz.
Na visão de Mickiewicz, a perseguição e sofrimento dos
poloneses servia para trazer salvação a outras nações oprimidas e perseguidas,
da mesma forma que a morte de Cristo (crucificado por seus vizinhos) trouxe
redenção à humanidade. Assim surgiu a frase “Polska Chrystusem naradów”
(Polônia, o Cristo das nações, na tradução do polonês).
Foto – Adam Mickiewicz (1798 – 1855).
A Polônia só volta a surgir no mapa europeu em 1918, após o
fim da Primeira Guerra Mundial e a queda dos impérios Austro-Húngaro, Russo e
Alemão. Ressurge como a Segunda República Polonesa, a qual em 1920, sob a
liderança do marechal Jozéf Piłsudski, vence o exército vermelho na batalha de
Varsóvia. A vitória polonesa em Varsóvia entra para a história como o milagre
sobre o Vístula. Dessa forma, todo esse ideário da Polônia como a muralha da
cristandade latina e Cristo da Europa ressurge, dessa vez contra o comunismo
soviético ateu e contra o nazismo (em particular o primeiro).
Algo digno de nota é que em 24 de setembro de 1939 Plínio
Correa de Oliveira publica no Legionário o texto “As tradições religiosas da Polônia”, no qual se solidariza com a Polônia contra aquilo que ele chama de
“invasão totalitária da extrema direita e da extrema esquerda” e evoca toda
esse ideário a respeito da Polônia de muralha da cristandade. Em um dos trechos
desse texto ele diz o seguinte:
“Deus sempre ouviu a Polônia, que, durante um milênio de
existência, jamais tomou das armas para empreender guerras de opressão mas,
pelo contrário, sempre fê-lo em prol de justas causas”.
Resumindo a ópera, quando Dominik Tarczyński aciona a lei
contra o comunismo e o nazismo para justificar uma eventual deportação das duas
brasileiras que fizeram o L, o que ele está fazendo é nada mais que acionar
todo esse arcabouço político-ideológico que a Polônia, na condição de nação
fronteiriça da cristandade latina, construiu desde a época de sua conversão ao
cristianismo. Da nação muralha da cristandade que luta e dá o sangue para
impedir que as mazelas vindas do sul, do leste e do norte cheguem ao coração da
cristandade latina. Ou seja, a cidades como Roma, Viena, Munique, Paris e
Avignon.
[3]
Instituto Plínio Correa de Oliveira.
[4]
Leia-se “Voitsierr Iaruzelski”.
[5]
Leia-se “Rratan”.
[6] Leia-se “Legnitsa”.






