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domingo, 18 de outubro de 2026

As eleições 2026 e o vespeiro polonês - ou da Polônia enquanto Cristo da Europa (parte I)

 

Foto – Dominik Tarczyński ao lado de 03 (direita).

O eurodeputado Dominik Tarczyński[1], do partido Pis (Pravo i Spravedliwość; Lei e Justiça, na sigla em polonês), acionou e ameaçou deportar duas brasileiras que não só votaram no Lula no primeiro turno das eleições 2026, como também postaram nas redes sociais fotos fazendo o L e mostrando a estrela petista estampada na camisa em outra em redes sociais.

O que dizer dessa história? Primeiro de tudo, que é ridículo (para não dizer absurdo) dizer que o PT é comunista. O PT nunca foi, não é e nunca será comunista. Começa pelo fato de que o Partido dos Trabalhadores, em sua gênese, rejeitava não só as experiências socialistas vistas em países como a União Soviética, a Mongólia, a China, a Coréia do Norte, o Vietnã e a Líbia, como também a tradição trabalhista (que também passava longe de comunismo) de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. Isso a tal ponto que à época Darcy Ribeiro e Brizola classificavam o PT por adjetivos como “UDN de macacão”, “esquerda que a direita gosta” e “galinha que cacareja pela esquerda e bota ovos pela direita”.

Tanto é verdade que ainda no começo dos anos 1980 o PT era simpático à causa do sindicato Solidarność (em polonês Solidariedade) na Polônia, ao passo que outros partidos da esquerda brasileira, como o PCB, olhavam o mesmo Solidarność como contra-revolucionário. Isso a tal ponto que o PT convocou manifestações de rua em apoio ao Solidarność. Ou seja, é até bizarro de se pensar que naquela época o PT, Plínio Correa de Oliveira (intelectual católico e fundador da TFP[2] no Brasil, o mesmo que dá nome ao IPCO [3]) e o pessoal que depois fundou o PiS, o partido de extrema-direita que hoje governa a Polônia e com o qual a família Bolsonaro tem suas ligações, estavam do mesmo lado da barricada, lutando contra o regime da República Popular da Polônia encabeçado pelo marechal Wojciech Jaruzelski [4].

O fato é que historicamente a práxis política do Partido dos Trabalhadores esteve bem mais próxima daquela de partidos social-democratas como o Partido Democrata dos Estados Unidos, o Partido Trabalhista da Inglaterra e o SPD alemão (a chamada terceira via) que dos países do chamado socialismo real.

Brizola, do alto de sua sabedoria e argúcia, disse na entrevista ao Roda Viva, em 1994, o seguinte: que Lula é a espuma da história, que a mente dele está dentro do sistema tal qual Fernando Henrique e as equipes econômicas do tucano e do petista se acotovelavam para executar o mesmo programa econômico, neoliberal. Com FHC vindo por cima e Lula por baixo. Desdobramentos posteriores, como a carta aos brasileiros de 2002 e toda a política econômica dos governos Lula e Dilma, apenas confirmam o diagnóstico de Brizola.

Brizola era um homem que enxergava longe, e já naquela época ele vislumbrou o que viria a ser o petucanismo se formando no horizonte: petistas e tucanos se revezando no poder, administrando a ordem capitalista no Brasil e executando no essencial o mesmo programa econômico (baseado no chamado tripê macroeconômico – metas fiscais de superávit primário, metas fiscais de inflação e câmbio flutuante).

Pode-se dizer que ali o velho caudilho também vislumbrou o papel que o PT teria dentro da governabilidade petucana – o bombeiro do sistema ao qual os donos do poder vão recorrer em tempos de crise, a hora em que a política levada adiante pelos representantes orgânicos deles (como o PSDB e o PMDB) chegar ao seu limite e o perigo de convulsão social massiva estiver no ar (como foi o caso de 2002). A típica manobra de abrir mão dos anéis para preservar os dedos.

Foto – petucanismo: os dois bandos brigando para ver quem melhor serve aos donos do poder. Charge de Latuff datada de 2012.

Segundo o professor Jessé Souza em sua obra “A classe média no espelho”, o que Fernando Henrique Cardoso operou na economia brasileira foi uma espécie de recriação da Primeira República Brasileira (1889 – 1930): em seu afã de “enterrar a era Vargas”, o uspiano fez do estado brasileiro um mero orçamento a ser dividido pela elite do dinheiro, elevou a taxa SELIC a 45%, o real passou a valer o mesmo que o dólar, as funções sociais do Estado foram encolhidas, uso do orçamento para turbinar o setor financeiro com o dinheiro de todos, o endividamento do estado dispara, o processo de desindustrialização do país tem início. O estado brasileiro literalmente se torna o balcão de negócios da Faria Lima, parafraseado Marx.

Consequentemente, surgiram esquemas de corrupção como a Privataria Tucana (estatais como a Companhia Siderúrgica Nacional e a Vale Rio Doce entregues a preço de banana a investidores e especuladores internacionais), Banestado (o maior esquema de evasão de divisas da história do Brasil, por meio do qual cerca de R$ 124 bilhões [valores da época] foram enviados a contas no exterior via contas CC5), mensalão mineiro, Dersa, Rodoanel, Alstom, trensalão, entre outros. Assim como personagens das sombras tais como os doleiros Dario Messer, Nelma Kodama e Alberto Yousseff, Geraldo Brindeiro (engavetador-geral da República da era FHC) e operadores de esquemas como Marcos Valério (inicialmente operador de esquemas do PSDB em Minas Gerais), Paulo Preto e o finado Manfred von Richthofen (morto pela própria filha em 2002).

E, uma vez chegando à presidência da República, o que os governos Lula e Dilma fazem? Mantêm no essencial o funcionamento dessa engrenagem, os fundamentos estabelecidos lá atrás no Plano Real: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante. A reforma agrária (pauta histórica do PT) congela e o agronegócio não só expande sua fronteira agrícola, como também o próprio governo petista se vale de sucessivos Planos Safra para investir e irrigar as contas do mesmo. Usa a verba publicitária para irrigar as contas de canais televisivos como a Globo, o SBT e a Record. Os bancos privados continuam lucrando horrores por meio do pagamento de juros e amortizações da dívida pública, que consome cerca de metade do orçamento da união anualmente. O BNDES se torna uma plataforma por meio do qual o governo brasileiro financia obras de empreiteiras como a Odebrecht, a OAS e a Camargo Correa em países como Venezuela, Cuba e Líbia (ao passo que, a despeito de toda a histeria de setores da direita brasileira e dos meios de comunicação, no essencial, a política externa brasileira continua tendo como parceiros estratégicos países como Estados Unidos e França). Um bolsa família aqui e acolá acaba se tornando medida de contingenciamento para impedir que o país pegue fogo. Perto do que o país gasta pagando por ano só de juros e amortizações da dívida pública (o que alguns chamam de bolsa banqueiro), o bolsa família não passa de troco de pinga.

Foto – Gastos da União em 2014.

E isso não passou despercebido nem por políticos e nem por analistas políticos – em 2003 (ou seja, ainda no primeiro ano do primeiro governo Lula), Brizola rompeu com Lula por, entre outras coisas, manter a mesma política econômica de FHC e se afastar das pautas históricas da classe trabalhadora e da esquerda. Em 2004, o Doutor Enéas diz em programa eleitoral que não há diferença básica entre o governo do PSDB e o do PT. 

E em 2006, durante a eleição para governador do estado de São Paulo, em debate com Aloísio Mercadante, Plínio de Arruda Sampaio mostrou por A+B que o PT, no essencial, aplicava a mesma agenda econômica que o PSDB aplicava antes. 

Analistas políticos como Gilberto Felisberto Vasconcellos (colunista da finada revista Caros Amigos) e Nildo Ouriques criaram o petucanismo para designar esse fenômeno. Ou seja, políticos e analistas de diferentes visões ideológicas observando o mesmo fenômeno e convergindo para a mesma conclusão.

Sobre o ato das brasileiras em si em Varsóvia, elas, ao fazerem o L e postarem foto em redes sociais com estrela petista, involuntariamente, mexeram em um vespeiro. Mais precisamente, o vespeiro da direita polonesa e de todo o ideário que a própria Polônia vem cultivando e que remonta aos tempos da conversão da nação de Copérnico e Chopin ao cristianismo, ainda no século X.

O fio dessa história remonta ao ano de 966, quando a Polônia se converte ao cristianismo sob o rei Mieszko I. Junto com a Hungria, convertida ao cristianismo no ano 1000 sob o rei Estevão (este último posteriormente canonizado como Santo Estevão), a Polônia se torna a fronteira oriental da cristandade latina. Nisso, desenvolveram conceitos como o da Antemurale Christianitatis (Muralha da Cristandade em latim), e da Polônia como Cristo da Europa.

Com o cisma do Oriente em 1054 e a divisão dentro do mundo cristão dela decorrente entre leste e oeste e ainda mais a partir do século XIII com as invasões mongóis, a Polônia passa a desempenhar, junto com a Hungria, o papel de sentinela das fronteiras orientais da cristandade latina.

Em 1241, os mongóis, liderados por Batu Khan e o general Subotai (um dos principais comandantes militares do Império Mongol inicial), invadem a Hungria e a Polônia simultaneamente, com a intenção de impedir que poloneses, tchecos e cavaleiros germânicos viessem em auxílio do Reino Húngaro, sabendo de antemão a respeito das ligações dinásticas entre as aristocracias húngara e polonesa.

Baidar, Orda (irmão de Batu) e Khadan [5] comandam as divisões do flanco norte do exército mongol. Depois de passar e devastar cidades como Lublin, Zawichost, Sandomir, Cracóvia e Wrocław, em 9 de abril daquele ano os mongóis infligem uma derrota esmagadora ao exército polaco-germânico liderado pelo duque Henrique o piedoso da Silésia, na batalha de Legnica [6]. O duque é morto em combate.

Dois dias depois, é a vez do rei húngaro Béla IV ser vencido pelos mongóis na batalha de Mohi. A derrota foi tal que o rei húngaro teve que fugir para não ser capturado e morto pelos invasores. Batedores mongóis chegam às cercanias de Viena e Udine. Por conta da morte do grande khan Ôgôdėi em Karakorum e levantes dos cumanos nas estepes do sul da Rússia a campanha europeia chega ao fim. Os mongóis recuam e se retiram da Hungria, devastando a Sérvia e a Bulgária no caminho de volta às estepes.

Foto – Batalha de Legnica, 1241.

No inverno de 1259/1260, nova invasão mongol à Polônia se segue, sob o comando de Burundai, depois de ter invadido o Grão-Ducado da Lituânia e o Principado da Galícia-Volínia. Cidades como Lublin, Zawichost, Sandomir e Cracóvia são devastadas e pilhadas pelos invasores. Em Sandomir, o beato Sadok e 48 frades dominicanos são levados ao martírio pelos invasores vindos do leste na Igreja de Santiago.

Foto – O martírio do beato Sadok e dos 48 frades dominicanos durante o saque de Sandomir em 1260. Pintura do século XVII.

A terceira e última dessas invasões ocorre no inverno de 1287/1288, sob a liderança de Nogai (à época o homem-forte da Horda Dourada, a divisão noroeste do Império Mongol) e Talabuga. Os dois vinham de um fracasso na Hungria em 1285/1286. O primeiro veio pelo sul, na direção de Cracóvia, e o segundo pelo norte, na direção de Sandomir. Mas dessa vez os poloneses, assim como os húngaros, estavam melhor preparados para enfrentar os invasores, já dispondo de uma rede de castelos e fortificações e evitando combates em campo aberto em um primeiro momento, e o sucesso das invasões anteriores não se repetiu. Nogai foi batido nas muralhas de Cracóvia e Talabuga nas muralhas de Sandomir.

Nos séculos seguintes, a Polônia, sob a égide de reis como Casimiro o Grande (r. 1333 – 1370) se expande ao leste, firma uma aliança dinástica com a Lituânia em 1386 (União de Krewo) que em 1569 evoluiu para a Comunidade Polaco-Lituano (União de Lublin, 1569) e conquista grande parte do que hoje é Ucrânia e Belarus. A Comunidade Polaco-Lituana veio a desempenhar papel importante em conflitos contra o Império Otomano (vide o episódio do cerco otomano a Viena em 1683, no qual o rei polonês Jan Sobieski III veio em auxílio dos austríacos e ajudou a derrotar o cerco otomano), contra os cavaleiros teutônicos (batalha de Grunwald, 1410), contra a Suécia (o episódio do dilúvio de 1655 a 1660) e contra o crescente poder da Rússia moscovita.

Em 1610, o rei polonês Sigismundo III Vasa, aproveitando-se da situação de instabilidade interna dentro da Rússia após a morte do tzar Fëdor I (1598) e a crise dinástica dela decorrente, ocupa Moscou e tenta instalar no trono russo um rei católico alinhado a Varsóvia. O Kremlin de Moscou fica dois anos ocupado por guarnições polonesas e mercenários europeus. Graças à insurreição popular e religiosa encabeçada por Kuzma Minin e pelo príncipe Dmitrij Požarskij, um exército é formado em Nižnij Novgorod e Moscou é libertada em 1612 da ocupação polaco-lituana. No ano seguinte Mikhail Romanov é eleito como novo tzar da Rússia, dando início a 304 anos de dinastia Romanov.

Foto – Comunidade Polaco-Lituana em sua máxima extensão territorial, por volta de 1648.

A partir da segunda metade do século XVII a Polônia-Lituânia entra em decadência, começa a perder territórios no leste para a Rússia (incluindo Kiev) e ao fim é riscada do mapa no século XVIII nas três partilhas da Polônia entre Rússia, Prússia e Áustria (1772, 1793 e 1795). No século XIX tentativas de restaurar a independência polonesa e a velha Comunidade Polaco-Lituana nas fronteiras de 1772 ocorrem em 1830-1831 (levante de novembro) e 1863-1864 (levante de janeiro), ambas esmagadas e suprimidas pelo Império Russo tzarista.

Enquanto a Polônia esteve riscada do mapa, surge a ideia da Polônia como o Cristo da Europa, concebida por figuras como o poeta romântico Adam Mickiewicz.

Na visão de Mickiewicz, a perseguição e sofrimento dos poloneses servia para trazer salvação a outras nações oprimidas e perseguidas, da mesma forma que a morte de Cristo (crucificado por seus vizinhos) trouxe redenção à humanidade. Assim surgiu a frase “Polska Chrystusem naradów” (Polônia, o Cristo das nações, na tradução do polonês).

Foto – Adam Mickiewicz (1798 – 1855).

A Polônia só volta a surgir no mapa europeu em 1918, após o fim da Primeira Guerra Mundial e a queda dos impérios Austro-Húngaro, Russo e Alemão. Ressurge como a Segunda República Polonesa, a qual em 1920, sob a liderança do marechal Jozéf Piłsudski, vence o exército vermelho na batalha de Varsóvia. A vitória polonesa em Varsóvia entra para a história como o milagre sobre o Vístula. Dessa forma, todo esse ideário da Polônia como a muralha da cristandade latina e Cristo da Europa ressurge, dessa vez contra o comunismo soviético ateu e contra o nazismo (em particular o primeiro).

Algo digno de nota é que em 24 de setembro de 1939 Plínio Correa de Oliveira publica no Legionário o texto “As tradições religiosas da Polônia”, no qual se solidariza com a Polônia contra aquilo que ele chama de “invasão totalitária da extrema direita e da extrema esquerda” e evoca toda esse ideário a respeito da Polônia de muralha da cristandade. Em um dos trechos desse texto ele diz o seguinte:

“Deus sempre ouviu a Polônia, que, durante um milênio de existência, jamais tomou das armas para empreender guerras de opressão mas, pelo contrário, sempre fê-lo em prol de justas causas”.

Resumindo a ópera, quando Dominik Tarczyński aciona a lei contra o comunismo e o nazismo para justificar uma eventual deportação das duas brasileiras que fizeram o L, o que ele está fazendo é nada mais que acionar todo esse arcabouço político-ideológico que a Polônia, na condição de nação fronteiriça da cristandade latina, construiu desde a época de sua conversão ao cristianismo. Da nação muralha da cristandade que luta e dá o sangue para impedir que as mazelas vindas do sul, do leste e do norte cheguem ao coração da cristandade latina. Ou seja, a cidades como Roma, Viena, Munique, Paris e Avignon.

NOTAS:

[1] Leia-se "Tartchinski".

[2] Tradição, Família e Propriedade.

[3] Instituto Plínio Correa de Oliveira.

[4] Leia-se “Voitsierr Iaruzelski”.

[5] Leia-se “Rratan”.

[6] Leia-se “Legnitsa”.