terça-feira, 7 de novembro de 2023

A ratoeira de Tarcísio de Freitas sobre a esquerda e a indústria do holocausto.

 

Foto – Tarcísio de Freitas, atual governador do Estado de São Paulo.

Em 30 de outubro do presente ano, a lei 17.817/2023, de autoria do ex-deputado Heni Ozi Cukier (Novo) e do deputado federal Gilmaci Santos (Republicanos), foi aprovada pela Alesp (Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo) e em seguida sancionada pelo governador do Estado de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Em sua ementa, a lei institui “a proibição do ensino ou abordagem disciplinar do Holocausto sob os prismas do negacionismo ou revisionismo histórico, no âmbito do Sistema Estadual de Educação Básica do Estado de São Paulo”. A lei foi sancionada e aprovada por Tarcísio de Freitas, tendo sido publicada no Diário Oficial em 30 de outubro do presente ano.

A proposta também obriga o estado a munir os alunos “com as ferramentas necessárias para a identificação de discursos de ódio em nossa vida contemporânea, de modo a estarem mais preparados para exercer responsavelmente sua cidadania”. O texto vale para as escolas públicas do Estado de São Paulo, mas não para a rede particular.

E essa iniciativa não é a única: no Rio Grande do Sul o deputado Rodrigo Lorenzoni (Partido Liberal), apresentou um projeto similar no dia 1º do presente mês na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Segundo a proposta de Lorenzoni, o holocausto e o sionismo, dentro do currículo educacional, não poderão ser ensinados ou ter abordagem disciplinar sob os prismas do negacionismo ou do revisionismo histórico.

Ambas as leis surgem dentro do contexto do que vem se passando na Faixa de Gaza desde os ataques do grupo Hamas a Israel em sete de outubro do presente ano. Segundo Lorenzoni, o holocausto é um evento inegável que não deve ser interpretado de maneira distorcida. Nas palavras dele, “Temos acompanhado estarrecidos manifestações da esquerda que igualam os recentes ataques premeditados do grupo terrorista Hamas à ação militar do exército israelense. Assim como no Holocausto, não há relativização possível para o que está acontecendo. Essa régua que iguala terrorista que ataca para matar – com uma crueldade insana – e quem se defende para não morrer já está chegando às salas de aula. Esse projeto é um freio à tentativa de doutrinação dos alunos”.

O que podemos dizer a respeito dessas leis? Para quem acha que esse tipo de lei é algo positivo e que irá eventualmente colocar filonazistas na cadeia por questionar narrativas sobre o Holocausto ou sobre o Sionismo, sinto muito, mas pode tirar o cavalinho da chuva. Ainda mais quem é de esquerda e aplaude esse tipo de coisa. Quem é de esquerda e aplaude esse tipo de coisa está é assinando um atestado de estupidez.

Primeiro de tudo: assim como no caso das leis contra as famigeradas notícias falsas, quem vai definir o que é ou não é discurso de ódio ou negacionismo, segundo a nova lei? E o mais importante: QUEM IRÁ DEFINIR o que é ou não é discurso de ódio?

Porque esse tipo de lei nada mais é que um balão de ensaio. Um balão de ensaio para depois a corda esticar e a coisa ser estendida para outros temas e assuntos, como veremos mais abaixo. E tudo sob o pretexto do combate ao negacionismo do Holocausto e daquilo que eles chamam de “discurso de ódio”.

Também se pode dizer que se trata de uma censura, uma mordaça, de modo que certos detalhes a respeito do próprio Holocausto nazista não possam ser discutidos em sala de aula. E um desses detalhes é sobre a colaboração judaica com o regime nazista no período de 1933 a 1945.

É sabido e muito bem documentado que da mesma forma que o Japão Imperial teve seus colaboradores chineses e coreanos (os quais ganharam as alcunhas pejorativas de handzian e činilpa, respectivamente), na Europa ocupada os nazistas tiveram vários colaboradores, das mais diversas nacionalidades. Esses colaboradores chegaram a formar divisões especiais dentro da própria Waffen SS, tais como a divisão Carlos Magno (franceses e belgas), Wiking (escandinavos, belgas, suíços e holandeses), Handžar (bósnios, albaneses e croatas) e Galícia (ucranianos). Também havia divisões de voluntários que serviam diretamente ao Exército Alemão, entre elas a Divisão Azul (voluntários espanhóis que lutaram no front oriental) e o Exército Russo de Libertação (voluntários russos). Geralmente, eram estes elementos que sujavam as mãos nas matanças e limpezas étnicas, e não os próprios alemães. Regimes fantoches, entre eles o regime de Vichy sob a liderança do general Pétain, o regime de Vidkun Quisling na Noruega, a Rada Central Bielorrussa em Belarus e a República de Lokot na Rússia, foram instalados em diversas partes da Europa.

E a coisa não para por ai: os nazistas também tiveram seus colaboradores judaicos. Sim, é isso do que estou falando. Começa pelo fato de que no próprio exército alemão houve soldados de origem de judaica, os chamados mischling (mestiços) e que, da mesma forma que os aliciadores de imigrantes da fronteira entre EUA e México geralmente são latinos (os chamados coiotes) e no Brasil colônia não raro negros alforriados adquiriam escravos e até se tornavam eles mesmos traficantes de escravos na África, os kapos dos campos de concentração geralmente eram judeus (e que estes formavam uma força policial para controle de levantes dentro dos mesmos, forças essas organizadas por conselhos judaicos locais).

E de cereja do bolo, a colaboração entre nazistas e sionistas (a saída que o Terceiro Reich encontrou como forma de driblar o boicote judaico mundial iniciado ainda em 1933, tão logo Hitler tornou-se chanceler da Alemanha) e o acordo de transferência Ha’avara decorrente dessa colaboração.

Foto – Frente e verso de uma moeda prateada nazi-sionista (cerca de 1934).

Como isso tudo vai ficar na equação? Será que não vão usar a nova lei como ratoeira para apanhar professores que eventualmente tratarem desses temas (ainda que pelo alto) sob o pretexto do combate ao negacionismo e ao discurso de ódio? Será que estamos diante de mais uma lei de mordaça e a esquerda não se dá conta disso?

E no caso em particular da história do movimento sionista como no caso da lei gaúcha, como ficará, por exemplo, todo o histórico de colaboração dos sionistas com a fina flor do anti-semitismo europeu desde a aurora do movimento? Como ficarão, por exemplo, Theodor Herzl e Plehve (ministro do interior da Rússia entre 1902 a 1904, um dos principais incitadores de pogroms da Rússia Imperial tardia)? Žabotinskij (sionista revisionista, do qual o partido Likud é herdeiro ideológico direto) e Petljura (que à frente da República Popular da Ucrânia perpetrou terríveis pogroms contra judeus na Ucrânia – e ele mesmo assassinado em Paris pelo anarquista judeu Samuel Schwartzbard, no ano de 1926)? Será que sob o mesmo pretexto também serão apanhados na ratoeira os professores que tratarem (ainda que pelo alto) sobre o histórico de colaboração dos sionistas com a fina flor do anti-semitismo europeu?

E a coisa não para por ai: Recentemente, saiu uma matéria no DCO (Diário da Causa Operária), ligado ao PCO (Partido da Causa Operária), falando a respeito de ligações entre partidos de extrema direita da Europa, alguns dos quais abertamente anti-semitas, entre eles o AUR da Romênia e o AfD da Alemanha, com o Estado de Israel. O último chegou ao ponto de lançar campanha entusiástica para que Jerusalém fosse reconhecida como capital de Israel em abril de 2018. Isso para não falar das relações de Israel com o regime ucraniano advindo do golpe do Euromaidan de 2014. Como isso vai ficar na equação?

Além disso, como já dito em artigos anteriores, na reação de muitos direitistas aos eventos que vem acontecendo na Faixa de Gaza desde o último sete de outubro, o que me chama mais a atenção é o fato de que eles falam muito em terrorismo do Hamas e de outros grupos afins (além de encher a boca a respeito do passado da ex-presidente Dilma e outros petistas de quando eram membros de grupos de luta armada no período da ditadura civil-militar brasileira), e em momento falam que ANTES da fundação do Estado de Israel, os sionistas também tiveram seus dias de terroristas, tendo se organizado em grupos como o Haganah, o Irgun, o Stern, o Lehi e o Palmach. Estes grupos estiveram envolvidos em terríveis atentados como o do Hotel King David e em massacres e limpezas étnicas como o de Deir Yassin. Inclusive graças a tais grupos que foi introduzido no Mundo Islâmico o conceito de guerra urbana por meio de atentados e atividades de grupos terroristas.

E de cereja do bolo, quadros egressos desses grupos se tornaram políticos eminentes e até mesmo premiês de Israel, entre eles David Ben Gurion (ex-Haganah), Itzhak Šamir (ex-Lehi) e Menachem Begin (ex-Irgun). É um processo que Mansur Peixoto, do site “História Islâmica”, chama de “transformação de terroristas em políticos oficiais”. Como que isso vai ficar na equação? Será que o professor que resolver tocar nesses assuntos ao tratar do tema sionismo e da questão palestina, mesmo que por cima, também vai sofrer sanções legais sob o pretexto de disseminação de discurso de ódio?

Por esse prisma, pode-se dizer que HOC, Gilmaci Santos e Tarcísio nada mais fazem que trazer para o estado de São Paulo uma lei similar àquela existente na Polônia desde 2018. Uma lei aprovada no Senado polonês e sancionada pelo presidente Andrzej Duda, segundo a qual todo aquele que ao falar do Holocausto ouse tocar no tema da participação de colaboradores poloneses no Holocausto sofrerá sanções penais. Uma lei que, no fim das contas, acoberta e protege os colaboradores poloneses dos nazistas ao mesmo tempo em que os nazistas são feitos de bois de piranha.

Mas a coisa não para por ai. Como dito antes, essa é uma ratoeira que visa em última instância apanhar não eventuais filonazistas, e sim esquerdistas, além de fazer valer as narrativas da direita neocon brasileira (à qual não apenas Tarcísio de Freitas, como também o professor HOC são ligados) sobre determinados fatos históricos. E dessa forma direcionar o debate a respeito desses temas na direção por eles desejada.

Sob o mesmo pretexto do combate ao que eles chamam de discurso de ódio e negacionismo, a corda inevitavelmente será esticada e também serão penalizados sob os mesmos pretextos professores de esquerda que eventualmente, ao tratar do tema da crise de fome ocorrida na Ucrânia nos anos de 1932 e 1933, resolvam questionar a narrativa do Holodomor, de que a União Soviética, sob a liderança de Stalin, teria empreendido uma fome-genocídio com vistas a promover um genocídio do povo ucraniano.

No chamado Holodomor fotos de fomes anteriores, entre elas a fome do Volga de 1921 (ocorrida dentro do contexto da Guerra Civil Russa), foram atribuídas como sendo da fome ucraniana de 1932 e 1933. Em 1932 e 1933 também foram afetadas pela crise de fome outras regiões da União Soviética tais como a bacia do rio Volga, o sul de Belarus, o norte do Cáucaso e o Cazaquistão. E a fome (fruto de fatores naturais como secas e epidemias de tifo, colheitas ruins, mais a reorganização do campo decorrente das políticas de coletivização da URSS e sabotagens por parte dos kulaks) não ficou restrita à União Soviética, visto que afetou até mesmo países como Polônia e Romênia. Mesmo nos EUA, desastres climáticos como secas severas foram observados nessa mesma época em regiões como o baixo Mississipi e o Oeste.

Foto – Capa de jornal de Hearst sobre a “fome soviética” na Ucrânia.

E mais paradoxal de tudo é que essa narrativa da fome-genocídio do poder soviético sobre o povo ucraniano durante nos anos de 1932 e 1933 é uma narrativa de origem nazista. Uma narrativa que foi originalmente promovida pela imprensa nazista (com vistas a preparar o terreno para a conquista das regiões ao norte do Mar Negro por parte da Alemanha hitlerista e justificar as ações ulteriores da mesma) e pelo magnata da imprensa marrom William Randolph Hearst, um dos muitos bacanas do mundo dos negócios americano que no período de 1933 a 1945 fez negócios com os nazistas.

Depois da guerra, a diáspora ucraniana no Ocidente (em especial no Canadá), composta pelos filhos e netos daqueles que colaboraram com os nazistas na Segunda Guerra Mundial, retomaram essa narrativa dentro do contexto da Guerra Fria. Em 1987 foi produzido o filme “Colheita do desespero”, sobre os eventos da fome na Ucrânia de 1932/1933. O filme em questão foi financiado por nacionalistas ucranianos, principalmente do Canadá. Na mesma época, a diáspora colaboracionista ucraniana também tentou incluir no currículo canadense de história para o ensino médio a narrativa da fome-genocídio. A fraude foi logo exposta por Douglas Tottle, por meio do livro “Fraud, Famine and Fascism”.

E a coisa não para por ai. Mesmo com o fim da União Soviética, a narrativa do Holodomor continua viva e desde a independência da Ucrânia em 1991 vem sendo usada por determinados grupos políticos para justificar políticas de aproximação da Ucrânia com o Ocidente e até de hostilidades contra a Rússia. Dessa forma, pode-se dizer que na Ucrânia atual há uma indústria do assim chamado Holodomor similar à do Holocausto. Como também de que a narrativa da fome-genocídio sobre o povo ucraniano é uma das principais alimentadoras do sentimento anti-Rússia mundo afora, algo que a Operação Militar Especial deixou bem evidente.

Algo digno de nota é que no Brasil, na trilha da Operação Militar Especial da Rússia na Ucrânia, surgiram algumas iniciativas de políticos como Álvaro Dias (Podemos – PR), que lançou um projeto de lei, o PL 423/2022, que propõe instituir no Brasil o dia de memória do Holodomor. Disso para se proibir por lei o questionamento da narrativa criada nos anos 1930 pelos nazistas, por Hearst e depois requentada pelo governo Reagan, por Robert Conquest e pela diáspora colaboracionista ucraniana no Canadá (e mais recentemente pelo Thiago Braga nos vídeos dele no You Tube) é praticamente que um pulo.

Foto – William Randolph Hearst, magnata da imprensa marrom dos EUA, ao lado de oficiais nazistas.

E depois disso, será que esse tipo de coisa não será estendido a professores que resolvam questionar narrativas como a de que, por exemplo, o Saddam Hussein não apenas massacrava curdos e xiitas, como também durante a guerra Irã-Iraque, teria supostamente gaseado os curdos no episódio de Halabdža?

A verdade dos fatos é que o próprio Saddam Hussein (à época o homem-forte do regime iraquiano) em 1970 não apenas reconheceu uma das línguas curdas como idioma oficial do Iraque, como também a bi-nacionalidade árabe-curda do Estado iraquiano. Com isso, os curdos ganharam parlamento próprio e ministros em Bagdá.

Que fique bem claro uma coisa: é verdade que em determinados momentos Saddam Hussein utilizou-se da força não apenas contra insurgências encabeçadas por facções xiitas e curdas, da mesma forma que a União Soviética utilizou-se do mesmo expediente para eliminar o nacionalismo ucraniano (incluindo até mesmo enviar agentes ao exterior para eliminar as principais lideranças do mesmo, entre eles Evgenij Konovalec, Lev Rebet e Stepan Bandera). O que é preciso ter em mente é o seguinte: que os enfrentamentos que o regime baathista iraquiano teve para com os curdos e os xiitas (incluindo os que tiveram lugar em 1991 após a Primeira Guerra do Golfo, no norte e no sul do Iraque), assim como os da União Soviética contra a OUN-UPA na Ucrânia ocidental no pós-guerra, não foi de natureza sectária, e sim política, com vistas ao esmagamento de movimentos separatistas que ameaçassem a integridade territorial de ambos os estados e a impedir o surgimento de estados reacionários baseados no sectarismo étnico-religioso.

Segundo o professor Ramez Maalouf, o que aconteceu em Halabdža foi o seguinte: na verdade o ataque em questão foi feito não pelo Iraque, e sim pelo Irã, o qual por sua vez cometeu um erro durante a batalha pela cidade de Halabdža, onde ambos os lados da contenda usavam armas químicas. A população local foi atingida por uma onda de gás cianeto, o gás usado pelo Irã na guerra, e não o gás que o Iraque usava. No caso o gás mostarda.

O primeiro a acusar Saddam Hussein de utilizar armas químicas contra os curdos foi o então secretário de Estado dos EUA George Schultz. Com base nessa acusação, o Senado dos EUA aprovou sanções contra o Iraque de forma unânime. Entretanto, essa mesma acusação foi desmascarada pelo ex-analista da CIA Stephen Pelletiere por meio de um artigo desmentindo as acusações de Schultz.

A CIA averiguou o fato, e como as provas apresentadas por Pelletiere eram irrefutáveis os grandes veículos de mídia ocidentais literalmente o jogaram para debaixo do tapete e passaram a ignorá-lo. Ao passo que a acusação de Schultz foi aceita até mesma por setores de esquerda como uma verdade incontestável de que o regime baathista do Iraque oprimia os curdos.

O fato é que a acusação de Schultz contra o Iraque serviu de base para que o Iraque fosse destruído. Segundo Ramez Maalouf, “a acusação de Schultz contra Saddam Hussein foi brandida como a grande prova incomensurável da brutalidade, sadismo e selvageria de como o líder iraquiano tratava sua própria população. Ela serviu como o mais forte pretexto para as invasões ianques do Iraque em 1991 e até mesmo em 2003”.

Podemos muito bem dizer que a lorota de Schultz foi o ponto zero, o momento no qual o ovo da serpente foi chocado. Mas não foi a única dessas, e outras lorotas ainda estavam por vir. Para justificar a primeira operação militar da dinastia Bush sobre o Iraque, outras mentiras foram ventiladas e utilizadas que ajudaram a jogar ainda mais lenha na fogueira (e aceitas de forma acrítica até por esquerdistas).

Quando o Iraque lançou a invasão ao Kuwait ainda em 1990, surgiu nos noticiários uma garota de 15 anos chamada Nayirah. Esta, com lágrimas nos olhos, lançou um testemunho em um comitê de Direitos Humanos do Congresso dos Estados Unidos, em 14 de outubro de 1990, no qual alegou que o exército iraquiano, entre outras coisas, invadia hospitais, arrancava bebês de suas famílias ainda nas incubadoras e os deixava para morrer no chão frio. O testemunho dela foi retransmitido em todo o território estadunidense.

Foto – Nayirah, a garota mentirosa do Kuwait cujo depoimento ajudou a empurrar os Estados Unidos para a Guerra do Golfo.

Posteriormente, revelou-se tratar-se de uma grande farsa. Revelou-se que seu sobrenome era Al-Sabah e que ela era filha do embaixador do Kuwait em Washington, Saud Nasser al-Sabah (o qual estava presente na audiência da filha). E mais do que isso: segundo algumas fontes, ela foi treinada por Michael Deaver, ex-assessor de comunicação do governo Reagan. E que a associação Citizens for a Free Kuwait, ligada ao governo do Kuwait no exílio, encomendou esta campanha à empresa de relações públicas Hill & Knowlton, no valor de cerca de US$ 10 milhões.

Com o tempo, revelou-se que as declarações da jovem garota eram um amontoado de lorotas, visto que não foram confirmadas por nenhum grupo de direitos humanos ou meios de comunicação. Mas, no fim das contas, o estrago já estava feito. Três meses após o depoimento de Nayirah, Bush I primeiro lançou a invasão ao Iraque. E ainda por cima usando como justificativa para sua aventura militar o testemunho de Nayirah.

E se acham que a coisa acabou com o falso testemunho de Nayirah, ai é que vocês se enganam. Anos mais tarde outras lorotas surgiram. Mais precisamente, as lorotas que justificaram a invasão do Iraque de 2003, agora sob o comando de George W. Bush, o Bush II. Como a de que o Iraque esteve envolvido nos atentados do 11/09/2001 (sendo que dos sequestradores desses atentados nenhum deles era iraquiano), das armas de destruição em massa e a de que o Iraque, segundo Bush II, formava um eixo do mal junto de Irã e Coréia do Norte (sendo que depois de 1979 Irã e Iraque nunca se entenderam, e após a queda de Saddam Hussein o Irã estabeleceu uma espécie de condomínio com os EUA na nação mesopotâmica), ainda em 2002, antes mesmo de a guerra ser iniciada.

Algo também digno de nota é o fato de que antes mesmo de Bush II tornar-se Presidente dos EUA, ainda durante o governo Clinton nos EUA, Madeleine Albright, então secretária de Estado dos EUA, disse em entrevista que as mortes decorrentes das sanções impostas ao Iraque à época valiam a pena em nome de uma eventual mudança de regime em Bagdá.

No fim das contas, o Iraque, que um dia foi um dos países mais ricos e desenvolvidos do assim chamado Terceiro Mundo e erradicou de seu território mazelas como o analfabetismo e outras, depois de sobreviver a oito anos de guerra contra o Irã, invasão ianque de 1991 e anos seguidos de embargos e sanções econômicas, após a queda do regime baathista encabeçado por Saddam Hussein virou um estado falido. E é nesse contexto de falência estatal e guerras intestinas não só no Iraque como também na Síria, na Líbia e em outros países do mundo islâmico que o Estado Islâmico surgiu e se proliferou como erva daninha.

Diante desses fatos, uma pergunta: um queijinho está sendo oferecido à esquerda, e este queijinho leva diretamente a uma ratoeira. Entenderam esquerdistas, ou precisa desenhar? Com isso, narrativas como a da fome-genocídio da União Soviética sobre a Ucrânia em 1932 e 1933, da opressão do regime baathista iraquiano sobre os curdos e o gaseamento dos mesmos no episódio de Halabdža, de que os sérvios provocaram o massacre de Srebrenica em 1992, de que na Líbia Kadaffi bombardeou a própria população em 2011 e de que na Síria Bašar al-Assad utilizou armas contra o próprio povo em 2012, do massacre russo em Buča, nada disso poderá ser questionado. E o mesmo valerá para as lorotas das Nayirahs e Schultz da vida.

Em tempo: segundo notícia do Diário da Causa Operária, ligado ao PCO (Partido da Causa Operária) datada do dia dois de novembro do presente ano, de que um professor da rede privada de Porto Alegre (RS) está sendo investigado por ter dito que o Hamas é um grupo político, e não um grupo terrorista (e detalhe: o Hamas não é considerado grupo terrorista nem pelo governo brasileiro e nem pela ONU).

Em tempo (parte II): há quem diga que os serviços de inteligência de Israel tinham conhecimento do fato de que o Hamas estava para fazer o ataque que fez, e que Netanyahu, às voltas com problemas políticos em Israel e na iminência de ser preso, deixou que as coisas ocorressem da forma como ocorreram para justificar o que ele vem fazendo em Gaza. Será que vão querer censurar sob o pretexto do combate ao “negacionismo” e ao “discurso de ódio” professores de esquerda que eventualmente resolvam questionar as narrativas de Netanyahu e do partido Likud sobre o que vem ocorrendo em Gaza desde o dia sete de outubro do presente ano?

E esse tipo de manobra não é nada de novo, diga-se de passagem: ele está fazendo de Gaza o mesmo que Leopoldo Galtieri tentou fazer ao lançar a desastrosa Guerra das Malvinas em 1982, como forma de afastar a crise que se avolumava para o lado da junta militar argentina e que levou ao fim da mesma um ano mais tarde. Resumindo a ópera, Gaza é as Malvinas de Netanyahu.

Fontes:

A influência BRASILEIRA na colonização da ÁFRICA PORTUGUESA. Disponível em: A influência BRASILEIRA na colonização da ÁFRICA PORTUGUESA - YouTube

La mentira de Nayirah, el montaje en el Congresso de EEUU que sirvió para justificar la primera guerra de Irak (em espanhol). Disponível em: La mentira de Nayirah, el montaje en el Congreso de EEUU que sirvió para justificar la primera guerra de Irak (eldiario.es)

Lei 17.817/2023. Disponível em: Lei nº 17.817, de 27/10/2023 ( Lei 17817/2023 ) (al.sp.gov.br)

Os sete mitos criados pela mídia ocidental para destruir o Iraque (2). Disponível em: Os sete mitos criados pela mídia ocidental que ajudaram a destruir o Iraque (2) (correiocidadania.com.br)

Os sete mitos criados pela mídia ocidental para destruir o Iraque (3). Disponível em: Os sete mitos criados pela mídia ocidental que ajudaram a destruir o Iraque (3) (correiocidadania.com.br)

Polônia aprova polêmica lei que impede vincular o país aos crimes do Holocausto. Disponível em: Polônia aprova polêmica lei que impede vincular o país aos crimes do Holocausto | Internacional | EL PAÍS Brasil (elpais.com)

Professor é perseguido por dizer que Hamas não é terrorista. Disponível em: Professor é perseguido por dizer que Hamas não é terrorista • Diário Causa Operária (causaoperaria.org.br)

Rodrigo Lorenzoni apresenta projeto que veda revisionismo histórico do Holocausto nas escolas. Disponível em: Rodrigo Lorenzoni apresenta projeto que veda revisionismo histórico do Holocausto nas escolas | Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul

Silvered bronze medal, undated (1934) (em inglês). Disponível em: Silvered bronze medal, undated (1934) (kuenker.de)

Sionismo e nazismo: duas faces da mesma moeda do fascismo. Disponível em: Sionismo e nazismo: duas faces da mesma moeda do fascismo • Diário Causa Operária (causaoperaria.org.br)

Tarcísio sanciona lei que proíbe professores de ensinarem Holocausto de um ponto de vista negacionista. Disponível em: Tarcísio sanciona lei que proíbe professores de ensinarem Holocausto de um ponto de vista negacionista (terra.com.br)

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