quinta-feira, 21 de setembro de 2023

A russofobia barata e as omissões históricas de Lorenzo Lazzarotto (parte II)

Foto - Lorenzo Lazzarotto.

PARTE II – DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS: A LÓGICA (OU A FALTA DE) DA PARTE DE LAZZAROTTO. INQUISIÇÃO PROTESTANTE E XINTOÍSTA.

E agora com vocês, a segunda parte da minha resposta a Lazzarotto.

Lazzarotto acusa a Rússia de ser anti-católica por conta de todo um histórico de perseguições às Igrejas Greco-Católicas da Ucrânia e de Belarus tanto no período imperial quanto no período soviético. Até chega ao ponto de dizer o disparate de que o católico que se diz simpático à Rússia cospe na memória dos mártires greco-católicos sobre os quais ele falou no vídeo dele. Será que isso procede, ou não passa de uma falácia da parte dele?

Se formos pensar dessa maneira, de que a Rússia é anti-católica por conta de todo esse histórico de perseguição aos Uniatas da Ucrânia e de Belarus a partir do reinado de Catarina a Grande (r. 1762 – 1796), então por essa mesma lógica o Japão também é um país anti-católico, visto que a Nação do Sol Nascente, primeiro sob Hideyoši Toyomi (o mesmo Toyotomi que invadiu a Coréia duas vezes nos anos 1590) e depois no período Tokugawa (1600 – 1867), empreendeu uma feroz perseguição aos cristãos nipônicos. Apenas no período Meidži (1867 – 1912) que a perseguição ao cristianismo no Japão cessou.

O cristianismo foi introduzido no Japão pelos portugueses, quando estes chegaram à nação insular em 1543. A introdução do cristianismo no Japão é atribuída ao jesuíta Francisco Xavier, e graças ao contato do Japão com Portugal nessa mesma época o idioma japonês ganhou vários vocábulos de origem lusitana, a exemplo de palavras como arukoru (álcool), pan (pão), bateren (padre), botan (botão), koppu (copo), tabako (tabaco), tempura (tempero) e outras.

Graças à atividade missionária por parte das ordens franciscana, jesuítica e dominicana, houve várias conversões de nativos japoneses ao cristianismo, incluindo grandes senhores feudais da região sul. Nagasaki e Hirošima se tornaram dois dos principais redutos católicos do Japão. A primeira chegou a ser chamada de “A Roma do Oriente”. Calcula-se que o Japão chegou a ter certa de 100 mil convertidos ao cristianismo, incluindo muitos daimyos (grandes senhores feudais) em Kyušu.

As autoridades nipônicas em um primeiro momento mostraram-se receptivas à atividade missionária católica e à difusão do cristianismo por meio da atividade missionária (em especial no período de Oda Nobunaga), acreditando que a fé monoteísta não apenas poderia reduzir o poder dos monges budistas, como também auxiliar no comércio com Espanha e Portugal.

Entretanto, ao final do reinado do sucessor de Oda Nobunaga, Hideyoši Toyotomi, a atitude das autoridades japonesas para com o cristianismo começa a mudar. Era um período no qual o Japão passava por um processo de unificação política, e os japoneses, cientes não apenas das conquistas espanholas na América e nas Filipinas (a qual foi conquistada por meio da conversão da população nativa ao cristianismo), passaram a ver o cristianismo como uma ameaça à unidade nacional, com os fiéis da religião monoteísta sendo vistos como mais fiéis a Jesus que ao Xogunato então vigente e como uma espécie de quinta coluna que poderia vir em auxílio dos espanhóis, caso estes viessem a invadir o Japão militarmente tal como os mongóis fizeram em duas ocasiões três séculos antes (1274 e 1281).

Dessa forma, o imperador Ogimači publicou editos de banimento do catolicismo em 1565 e 1568, com pouco efeito prático. As perseguições começam de fato em 1587 com o banimento da atividade jesuíta por Hideyoši Toyotomi, e por fim o Xogunato Tokugawa colocou o cristianismo na ilegalidade em 1614.

Foto – Hideyoši Toyotomi, o iniciador das perseguições aos cristãos nipônicos.

A profissão aberta do cristianismo é proibida após o levante campesino de Šimabara, liderado pelo jovem samurai cristão Širo Amakusa Tokisada, entre 1637 a 1638. Famosos samurais, entre eles Miyamoto Musaši, participaram da repressão a esse levante. Com a ajuda da Companhia das Índias Orientais Holandesas, o levante foi reprimido e dali em diante os cristãos japoneses tiveram de levar uma vida clandestina, só podendo professar sua fé em segredo (kakure kirišitan). E nem assim as autoridades japoneses davam trégua a eles.

Um dos meios pelos quais as autoridades japonesas da época usaram para descobrir e perseguir os cristãos japoneses foi o fumi-ê. O fumi-ê consistia de uma imagem entalhada, geralmente em painéis de madeira, nas quais Jesus Cristo ou a Virgem Maria eram retratados. Por meio do fumi-ê, o suspeito de ser cristão pelas autoridades deveria pisar em uma imagem de Jesus ou da Virgem Maria para provar que não era um cristão.

O uso do fumi-ê se iniciou a partir de 1629, com as perseguições aos cristãos em Nagasaki. Os suspeitos de serem cristãos tinham de se submeter a tal escrutínio anualmente, todo oitavo dia do primeiro ano.

Ante as perseguições das autoridades do Xogunato, os cristãos tiveram que professar sua fé em segredo, e uma das formas que eles encontraram para driblar as autoridades foi utilizar-se estátuas da Virgem Maria disfarçadas para se parecerem com uma estátua de Kannon (chinês Guan Yin), a deusa da misericórdia no budismo chinês, contendo um símbolo cristão oculto na superfície ou dentro da estátua. No que deu origem à “Maria Kannon”.

Foto – Maria Kannon. Sincretismo religioso entre budismo e cristianismo que os cristãos japoneses encontraram como forma de poderem cultuar a Virgem Maria sem serem molestados pelas autoridades japonesas.

A proibição à profissão do cristianismo em solo japonês é parcialmente relaxada em 1856 nos portos abertos ao comércio com nações estrangeiras no contexto do fim da política de Sakoku (país acorrentado) e em 1873 (ou seja, no ano 6 da Era Meidži) em todo o país.

Foto – Fumi-ê: imagem entalhada em painéis de madeira de Jesus Cristo ou da Virgem Maria usada durante o período Tokugawa como forma de descobrir cristãos ocultos (os quais por sua vez tinham de pisar em tais imagens, do contrário seriam mortos e/ou submetidos a terríveis torturas).

Na cultura pop nipônica, a perseguição aos cristãos nipônicos durante o período Tokugawa é citada no episódio 2 do famoso seriado tokusatsu japonês Jiraya, de 1988, em uma conversa entre o Barão Owl e o vilão Dokusai, na qual o primeiro diz que queria ter para si a inscrição de Pako como forma de rezar pelas vidas dos cristãos japoneses perseguidos durante o período Tokugawa e assim obter o descanso eterno das almas deles. A questão dos cristãos japoneses também serviu de pano de fundo para trama da saga dos cristãos de Samurai X, a primeira das sagas exclusivas do primeiro anime após a saga de Kyoto, que vai dos episódios 67 a 78 e na qual Kenšin e seus amigos vão a Šimabara enfrentar Šogo Amakusa, espadachim cristão que, tomado pela raiva e pelo ódio, quer se vingar do Japão por conta das perseguições que o cristianismo sofreu no Japão durante quase 300 anos. O filme de 2016 Silêncio, dirigido por Martin Scorcese, também fala a respeito das perseguições que os cristãos nipônicos sofreram no período Tokugawa.

Pela lógica de Lazzarotto, se a Rússia é anti-católica por conta do histórico de perseguições aos fiéis da Igreja Greco-Católica Ucraniana e o fiel católico ao ser simpático à nação de Gogol, Puškin e Prokofiev cospe na memória dos greco-católicos que sofreram perseguições desde o século XVIII, então por essa mesma lógica o Japão também é tão ou mais anti-católico por conta do histórico de perseguições aos católicos nipônicos que se estendeu por quase 300 anos. E que o fiel católico que se diz simpático ao Japão também cospe na memória dos católicos perseguidos pelo Japão e que tiveram que se submeter ao fumi-ê e outras formas de humilhação e torturas diante das autoridades do Xogunato Tokugawa. E dessa forma não pode gostar nem de animes, mangás, seriados tokusatsu, j-pop, j-rock, nem nada que venha do país de Akira Toriyama, Osamu Tezuka e Šotaro Išinomori.

Se o fiel católico que se diz simpático à Rússia cospe na memória de Slepoj e dos outros mártires que ele menciona no último dele então, então pela lógica de Lazzarotto o fiel católico que se diz simpático ao Japão faz coisa análoga com os mártires que comeram o pão que o diabo amassou nas mãos dos inquisidores japoneses. Incluindo os 26 mártires crucificados e mortos em Nagasaki por ordens de Hideyoši Toyotomi em 1597 (beatificados pelo Papa Urbano VIII em 1627 e canonizados em 1862 pelo Papa Pio IX), os 205 mártires executados entre 1617 a 1632 executados por sua própria fé (beatificados pelo Papa Pio IX em 1867), os 16 mártires executados entre 1633 a 1637 (beatificados em 1981 pelo Papa João Paulo II e santificados seis anos mais tarde pelo mesmo Papa), os 188 mártires mortos e executados entre 1603 a 1639 (beatificados em 24 de novembro de 2008 pelo Papa Bento XVI) e os cristãos mortos no levante de Šimabara entre 1637 a 1638.

Foto – Os 26 mártires de Nagasaki, 1597.

E a coisa não se limita apenas à Nação do Sol Nascente. Os países europeus que aderiram à Reforma Protestante a partir do século XVI, entre eles a Inglaterra, a Holanda, os principados do norte da Alemanha (à época parte do Sacro Império Romano-Germânico) e as nações escandinavas, também promoveram políticas e perseguições aos fiéis católicos que se mantiveram fiéis à Santa Sé. Para designar essas perseguições aos católicos nas áreas da Europa que aderiram à Reforma a partir do século XVI utiliza-se o termo “Inquisição Protestante” por uma questão de conveniência historiográfica. Citemos alguns desses casos.

No norte da Alemanha, houve o caso do massacre dos monges da Abadia de São Bernardo de Bremen, em 1528, os quais foram assassinados e esfolados e em seguida pendurado no campanário por bandos protestantes (mas não sem antes de passarem sal na carne viva deles). No mesmo ano, em Augsburg, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do poder protestante.

Na Suíça calvinista, a missa foi prescrita em 1525, e a isso se seguiu a queima de mosteiros e destruição em massa de templos, no que forçou os bispos de Constança, Basiléia, Lausanne e Genebra a abandonar suas cidades. Em Zurique, foi ordenada a retirada de todas as imagens religiosas e enfeites das Igrejas. Até mesmo os órgãos foram proibidos. Católicos não apenas foram proibidos de ocupar cargos públicos, como também o comparecimento aos sermões católicos implicava em penas e castigos físicos. A posse de imagens e quadros religiosos em suas casas foi proscrita sob a ordem de “severas penas”. Na mesma época, os anabatistas também foram objeto de perseguição religiosa por parte de Zwinglio.

Miguel Servet, o descobridor da circulação sanguínea, foi queimado vivo em Genebra por decisão de um tribunal eclesiástico comandado por Calvino, em 1553. No distrito de Thorgau, um missionário zwingliano liderou um bando protestante que saqueou e destruiu o mosteiro local. Junto com o mosteiro também foram destruídos a biblioteca e o acervo artístico-cultural do mesmo.

Foto – Miguel Servet, médico espanhol condenado à morte por heresia por ordens de Calvino.

Na Inglaterra, a perseguição aos católicos começa com os “Atos de Supremacia” de Henrique VIII de 1534, os quais o elevaram à posição de chefe absoluto da Igreja na Inglaterra e declarou traidores todos aqueles simpáticos ao Papa Romano (com o qual o próprio monarca inglês rompeu). Com o rompimento do monarca inglês com o Papa, todas as propriedades até então em posse da Igreja passaram às mãos do rei.

Para levar adiante a perseguição, tribunais religiosos foram montados em todo o país. Padres e bispos fiéis a Roma foram presos e decapitados, Igrejas e mosteiros arrasados, milhares de mortes católicas. Seis monges cartuxos e o bispo de Rochester foram enforcados em 1535. O monarca também ordenou queimar milhares de católicos e anabatistas na mesma época.

A perseguição aos católicos também foi estendida à Irlanda: dos mais de mil monges dominicanos que existiam na Irlanda, apenas dois deles lograram sobreviver à perseguição. Na era Cromwell, novos episódios de matanças de católicos na Irlanda. Após o término da guerra, as melhores terras irlandesas foram entregues aos ingleses protestantes e os católicos irlandeses remanescentes forçados a migrar para o sul (episódio esse que criou não apenas a divisão da Irlanda em duas partes, como também as raízes do atual conflito entre irlandeses católicos e ingleses anglicanos que se arrasta até hoje).

Além disso, centenas de mulheres foram mortas acusadas de bruxaria tanto na Inglaterra quanto nas colônias norte-americanas (vide o episódio das “bruxas de Salem”, ocorrido em Massachusetts entre 1693 e 1694).

Na Escócia, após a adesão ao presbiterianismo, o poder civil obrigou a todos a adesão à Igreja “calvinista presbiteriana”. Sob ordens do líder religioso John Knox, a missa foi proibida sob pena de confisco de bens e açoites públicos. Católicos foram submetidos a perseguições e mortes violentas, igrejas e mosteiros arrasados e livros católicos queimados. Tal como na Inglaterra, tribunais religiosos foram criados especialmente para dar cabo dos católicos clandestinos.

A Holanda, por seu turno, não apenas perseguiu católicos em casa a partir do momento em que o catolicismo foi prescrito por ordem das câmaras dos Estados Gerais (muitos sacerdotes, leigos e religiosos foram mortos e martirizados, os bens da Igreja confiscados pelas autoridades), como também estendeu essas perseguições às colônias, incluindo as partes do Brasil sob o domínio batavo.

Em 1645, nos municípios de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante (Rio Grande do Norte) cerca de uma centena de católicos foi morta (incluindo dois padres, mulheres, velhos e crianças) porque estes se recusaram a abandonar o catolicismo em detrimento do calvinismo, a religião dos invasores. Posteriormente beatificados como mártires.

Na Escandinávia a situação não foi nem um pouco diferente. A Dinamarca-Noruega (lembrando que até 1814 a Noruega foi parte da Dinamarca, com os dois países formando a monarquia unida Dano-Norueguesa) aderiu à Reforma Protestante sob o rei Cristiano II (r. 1513 – 1523), que entrou para a  história com a alcunha de “Nero do Norte”. O monarca encarcerou bispos, confiscou bens eclesiásticos, expulsou religiosos fiéis à Santa Sé e proclamou-se chefe absoluto da Igreja Evangélica Dinamarquesa.  Em 1569 publicou 25 artigos segundo os quais todos os cidadãos e estrangeiros eram obrigados a assinar aderindo à doutrina luterana. Ainda em 1789 os sacerdotes católicos que tivessem a ousadia de pisar em solo dinamarquês eram sujeitos à pena de morte por decreto real.

Na Suécia o rei Gustavo da dinastia Vasa (r. 1521 – 1560) suprime por lei o catolicismo. Alguns bispos, entre eles Jacopson e Knut, foram decapitados. Outros foram obrigados a fugir do país junto com padres, diáconos e outros religiosos. Seminários foram fechados, enquanto que igrejas e mosteiros foram reduzidos a farelo. Indignados com a repressão ao catolicismo, amplos setores da população pegaram em armas e saíram em defesa de sua fé. O rei sueco tratou de afogar em sangue esta reivindicação.

Muita da legislação anti-católica vigente na Europa protestante só veio a ser relaxada a partir do século XIX. E levando em conta todo o histórico de perseguições a católicos nos países europeus que aderiram à Reforma Protestante a partir do século XVI, pela lógica que Lazzarotto aplica em relação à Rússia o fiel católico também não pode ter simpatia alguma por esses países e não pode gostar de bandas de viking metal, nem apreciar a literatura de grandes escritores como Hans Christian Andersen, Goethe e Shakespeare, nem a música de grandes compositores como Wagner, Bach e Edvard Grieg, nem torcer para os selecionados desses países na Eurocopa ou na Copa do Mundo. Entre tantos outros exemplos que posso ficar citando.

E pela mesma lógica de Lazzarotto, se o fiel católico simpático à Rússia cospe na memória dos mártires por ele citados, então pela mesma lógica o fiel católico simpático a países como Inglaterra, Alemanha, Suíça, Holanda e os países escandinavos igualmente cospe na memória dos fiéis católicos que foram torturados e mortos por ordens de líderes religiosos reformistas tais como Lutero, Calvino, John Knox, Melanchthon e Zwinglio e de monarcas europeus que aderiram à Reforma tais como Henrique VIII, Cristiano II, Gustavo Vasa e Elizabeth I.

Antes que alguém diga que eu estou querendo justificar as perseguições aos greco-católicos empreendidas pela Rússia tanto no período imperial quanto no período soviético ao falar das perseguições que os católicos sofreram no Japão e na Europa protestante, saibam de uma coisa: vocês estão muito enganados. O que eu quero é mostrar o quão a lógica de Lazzarotto que ele aplica para com a Rússia é absurda e não faz sentido, e aonde que tal linha de raciocínio leva. Além do claro e evidente cherry-picking que ele faz ao demonizar a nação de Gogol, Prokofiev e Mussogorskij e ao mesmo tempo esquecer-se de outros países que fizeram coisas piores. Nada mais que isso. Entenderam, ou precisa desenhar?

Um comentário:

  1. No tocante ao heavy metal, quem é cristão de verdade não deve curtir nem ouvir esse tipo de música, pois é diabólica ao extremo. Eu já deixei de ouvir esse tipo de música há muito tempo, prefiro ouvir jazz, blues, música clássica e city pop.

    No tocante às perseguições religiosas, vários povos de diversas etnias, nacionalidades e credos perseguiram e oprimiram uns aos outros. Ninguém é santo nessa história.

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