terça-feira, 30 de junho de 2020

Petucanismo: o PSDB dentro do PT. Ou as limitações ideológicas do PT, parte II (Resumo do livro "O colapso do figurino francês", de Nildo Ouriques, 3/5).


Foto – Um petucano.
- A vitória da chapa Lula-Alencar em 2002 não abriu as portas para um debate sobre o socialismo. Pelo contrário, liquidou com qualquer vestígio de luta anticapitalista. Destarte, representou uma adesão da parte do polo operário à ordem burguesa sem constrangimentos (página 54 e 55).
- O petucanismo, do ponto de vista político, seria o reino onde as divergências políticas são apenas cosméticas, com o objetivo de criar uma nação democrática e moderna, com “inserção soberana” na ordem global (página 56).
- Em sua tese “La teoria marxista de la dependencia”, publicada na UNAM em 1995, Nildo Ouriques diz que a esquerda petista radical mantem uma interpretação teórica sobre o capitalismo periférico e como o Brasil nela se insere que no essencial coincide com os postulados de FHC (página 56).
- Lá ele diz que as divergências partidárias entre os grandes partidos não representavam problema algum para que ambos os partidos se entendessem no essencial (página 56).
- A administração petista da ordem instaurada pelo tucanato foi consequência necessária da comunhão teórica entre os dois blocos. Concomitantemente, o debata nas ciências sociais é com FHC hegemonizado em São Paulo (página 57).
- Na ausência de divergências teóricas de fundo, sobra a disputa partidária para iludir e enganar o público e ocupar parte do mundo universitário com quinquilharias ideológicas e divergências a respeito de questões secundárias. A tal ponto que o debate sobre “economia política” é reduzido a opções de política econômica (página 57).
Reflexão VII – Sobre a adesão do PT à ordem vigente a partir de 2002 com a primeira eleição de Lula, em meu entendimento isso tem mais haver com pactos de bastidores tais como a carta aos brasileiros e os compromissos deles decorrentes, sobre os quais Rui Costa Pimenta falou em algumas ocasiões. Segundo o dirigente do PCO (Partido da Causa Operária), a elite brasileira aceitou a vitória de Lula em 2002 com a intenção de impedir que as agitações sociais que à época ocorreram em países como a Venezuela, Bolívia e Argentina chegassem ao Brasil (cuja situação social já era potencialmente explosiva dado que 57 milhões de pessoas passavam fome nos últimos anos do governo FHC). E assim, Lula poderia fazer Bolsa Família e outros programas sociais enquanto que não mexeria em certos pontos sensíveis. Ou seja, a típica manobra de abandonar os anéis para preservar os dedos. Algo ao qual a elite brasileira poderia se dar ao luxo na época, dada a conjuntura econômica mundial pré-crise de 2008.

Reflexão VIII – Em suas obras, Jessé Souza diz que FHC recriou a República Velha (1889 – 1930), a ponto de fazer do Estado brasileiro um mero orçamento a ser dividido pela elite dos proprietários do dinheiro, no qual a taxa SELIC chegou a ser elevada a 45%. Daí que surgiram esquemas de corrupção como Privataria Tucana, Banestado, mensalão mineiro e tantos outros. Esquemas esses que movimentaram um montante de dinheiro muito maior que qualquer “mensalão” do PT. E é esse Estado que o PT assume a partir de 2002, no qual a fração financeira do capital é quem comanda o processo econômico. Diante de tal situação, o PT adota uma política de caminhar pelas brechas do sistema, que deu certo até certo ponto. Mais precisamente, até 2015.
Reflexão IX – A respeito da comunhão teórica entre petistas e tucanos, não seria uma situação cujas condições para concretização já estavam postas há muito tempo, quiçá desde antes da chegada do PT à Presidência da República, e se acentuando após o PT chegar ao poder? Ainda mais quando lembramos que em vida Brizola e Darcy Ribeiro chamavam o PT de “esquerda que a direita gosta” e “galinha que cacareja pela esquerda e bota ovos pela direita” e que os referenciais teóricos de tucanos e petistas são os mesmos (Raymundo Faoro, Sérgio Buarque, etc...)? O mesmo Brizola que uma vez disse que tucanos e petistas têm suas cabeças inseridas dentro do sistema neoliberal.

Reflexão X – Obviamente que em grande medida FHC hegemonizou o debate nas ciências sociais devido ao fato de que nomes da CEPAL, do ISEB e da teoria da dependência como Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra, Alberto Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto, André Gunder Frank e outros foram silenciados e exilados pela ditadura. A tal ponto que Marini teve algumas obras publicadas no Brasil depois de mais de 40 anos (isso passados mais de 20 anos depois de seu falecimento, ocorrido em 1997), além do fato de que o silêncio que paira sobre os nomes deles continuou mesmo depois do fim da ditadura cívico-militar (e para isso foi instrumental a polêmica que FHC e Serra travaram com Ruy Mauro Marini em 1978).
Reflexão XI – Falando em questões secundárias, as diferenças entre Republicanos e Democratas nos EUA, Socialistas e Republicanos na França, Trabalhistas e Conservadores na Inglaterra e SPD e Democracia Cristã na Alemanha também não são secundárias, estando de acordo no essencial estipulado pela estrutura de poder que comanda os quatro países em questão por trás das cortinas?
Reflexão XII – E teria sido esse debate sobre “política econômica” condicionado pelos pactos de bastidores que o PT teve que assinar com a elite brasileira, de modo a não em pontos sensíveis como a dívida do país (tanto interna quanto externa), Bolsa Banqueiro e outras mamatas dos donos do poder financeiro?

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