quarta-feira, 18 de maio de 2016

À espera de um "milagre" (econômico) - Uma luz na escuridão.


Figura 1 – Nesta foto dos anos 1920, podemos observar uma mulher alemã alimentando um fogão com lenha para a queima de cédulas desvalorizadas. O problema é que esse processo acaba sendo mais custoso do que a velocidade da queima pode alcançar para compensá-lo.

Por Marcus Valerio XR (com adaptações)
Em meio ao constrangedor festival de imoralidade, hipocrisia e estupidez que nossa classe política tem demonstrado nos últimos meses, eis que surge um discurso que, sozinho, quase é capaz de reestabelecer o equilíbrio entre as infindáveis hordas da miséria intelectual e os poucos luminares que permitem alguma compreensão da realidade.
Ao proferir seu voto em 12/05/16, o senador Roberto Requião (PMDB-PR), expõe a completa impostura do atual processo parlamentar, inclusive a desonestidade de seu próprio partido, e dá uma breve mas preciosa aula de história e economia.1 O discurso merece ser visto na íntegra, e é esclarecedor e poderoso por si próprio tanto para as mentes mais humildes quanto para as mais exigentes, excetuando aquelas que preferem rejeitá-lo a priori devido a um compromisso obtuso com os dogmas liberais atuais.
Muitos libertários e anarcocapitalistas, por exemplo, paralisam a própria cognição ante qualquer menção do termo ‘neoliberalismo’, convictos de que sua doutrina, ao definir de forma distinta o conceito, faz desaparecer a realidade por trás da definição de seus adversários. Como se as políticas de desregulamentação de capitais, isenção de impostos das grandes fortunas ou privatizações típicas do Consenso de Washington inexistissem porque o termo aplicado a elas não seria perfeitamente adequado.2
Mas o que há no discurso de Requião de mais profundo, preciso, e até mesmo espantoso devido a ousadia, nem é o que foi mais amplamente exposto, mas sim os poucos comentários que apenas apontaram para um fato histórico que ele fez por bem em não expor demais, ou seu discurso já teria entrado no noticiário como algo absolutamente diferente do que de fato é, tendo seu verdadeiro sentido obscurecido por completo.
Ao defender que deveríamos aplicar políticas econômicas anticíclicas ao invés de repetir pela enésima vez o mesmíssimo veneno neoliberal que destrói as economias de países inteiros enquanto multiplica a fortuna das oligarquias que o financiam, Requião lembra discretamente a República de Weimar, citando o economista Hjalmar Schacht, e até mesmo lembrando que estamos a falar de uma abordagem que adentrou a Alemanha de Hitler, eliminou em tempo recorde uma depressão econômica devastadora que a maioria dos brasileiros jamais poderia imaginar, e levou o país da ruína à condição de maior potência mundial.
Ante isso, a reação da maioria é travar o raciocínio e invocar os horrores do Nazismo, rejeitando em bloco tudo o que esteja associado a esse tempo local como inerentemente maligno e bloqueando maniqueisticamente a possibilidade de entendimento. Afinal, todos nós estamos a nossa vida inteira sendo doutrinados a fazer isso.
Mas quem se atreve a pensar em como foi possível um regime ter atingido tamanho poder? Como Hitler conseguiu a fidelidade irrestrita de praticamente todo o povo alemão disposto a segui-lo até a morte? O que o Terceiro Reich fez para garantir tamanho apoio das massas?
O MILAGRE ECONÔMICO ALEMÃO
Após a Primeira Grande Guerra, à derrotada Alemanha foi imposta uma dívida em condições nitidamente insuperáveis, jogando o país numa bancarrota aparentemente irreversível. Os maiores credores da dívida eram o grande sistema bancário que, no caso, era quase totalmente judaico, o que deve ser lembrado para mostrar que o extremismo antissemitismo nazista teve, na realidade, origem na questão da exploração econômica.
O banqueiro e político alemão Hjalmar Horace Greeley Schacht3, foi dos principais responsáveis pela recuperação do país, começando seu trabalho desde a época da República de Weimar, quando conteve a hiperinflação, e continuando após ascensão do Nazismo, a convite do próprio Hitler, combatendo o desemprego e gerando desenvolvimento em infraestrutura. Apenas quando a Alemanha passou a concentrar seus esforços no sentido bélico, Schacht, que era contrário aos planos expansionistas e militares nazistas, foi colocado em funções secundárias desvinculadas da economia. Até se opor ao regime nazista inclusive apoiando esforços de derrubar Hitler.
E como a Alemanha conseguiu, em cerca de uma década, reerguer um país devastado pela guerra, com dívidas astronômicas impagáveis e onde o dinheiro estava tão desvalorizado que mais valia queimá-lo para obter fogo do que comprar combustível? Como superou uma inflação que, diferente de nossos planos econômicos do final do século passado que costumavam cortar 3 zeros, exigiu dos alemães que cortassem de uma só vez 12 zeros?! Sim! Pois a moeda introduzida por Schacht, o Retenmark, equivalia a 1 TRILHÃO de marcos!4
Por melhores que sejam as respostas que vemos em artigos diversos5 sobre o tema, podemos destacá-las de uma forma simples: as abordagens econômicas alemãs minimizaram drasticamente o elemento financeiro rentista parasitário! Invés de trabalhar ao quadrado para pagar taxas de juros arbitrárias, infinitas e injustificáveis, todo o esforço de recuperação alemão foi unicamente concentrado na restruturação da economia interna, emitindo moeda própria controlada diretamente pelo Banco Central alemão, minimizando os vínculos diretos com o sistema financeiro externo, o que lhes permitiu pouca vulnerabilidade à Crise Global de 1929, e fornecendo crédito a ser pago de forma concreta pelo, e para o próprio país.
Os empreendedores e a população em geral podiam solicitar empréstimos sem juros ao banco estatal que depois deveriam ser pagos na forma de incentivos à economia do país, como gerar mais empregos, investir na infraestrutura, fornecer materiais e mão de obra mais baratos para outros setores etc. Invés de simplesmente enviar quase todo o excedente de produção para exponenciar as fortunas privadas dos vampiros financistas, que é o que faz boa parte do mundo há mais de um século.
CORTANDO O PARASITA
Pode ser estranho imaginar algo tão fora da uma realidade na qual nascemos e pela qual somos bombardeados desde o berço de forma onipresente por todo nosso universo econômico circundante. Mas a verdade é que uma vez removidos os parasitas usurários do sistema financeiro, o crescimento econômico é relativamente simples, capaz de prodígios que nada seriam impressionantes não fosse o fato de serem sistematicamente ocultados, negligenciados e demonizados pela quase totalidade das forças de mídia e formação cultural que nos afligem.
Foi assim que em grau menor, a Rússia saiu de uma condição agrária atrasada a potência espacial e nuclear soviética em poucas décadas, que Cuba, mesmo isolada e embargada numa ilha, criou um dos melhores sistemas de saúde do mundo e a China está se tornando a maior potência do planeta. Coisas similares ocorreram em escala mais modesta no Irã, Síria, Venezuela, Islândia e outros exemplos, que, não por outro motivo, são constantemente ignorados ou pichados como infernos pela grande mídia e nossos pequenos liberalóides doutrinados por máquinas de lavagem cerebral financiados desde oligarquias bilionárias dos EUA.
Não que tais exemplos não tenham seus problemas, muitos deles seríssimos, ou nos sirvam exatamente de modelo. Mas o motivo primordial pelo fato de estarmos acostumados a não vê-los, ou vê-los pelo pior prisma possível é o fato de serem a prova viva de que é possível, e até mais adequado, prover crescimento econômico e desenvolvimento para um mais amplo espectro da população invés de priorizar à ganância bancária e a monstruosa máquina de criação ex-nihilo de dinheiro virtual para enriquecimento exclusivo da elite plutocrática.
Imaginemos, por exemplo, o que aconteceria se de repente deixássemos por completo de pagar a Dívida Pública, que consome praticamente metade do dinheiro de nossos impostos. De uma hora para a outra todos os preços cairiam ao mesmo tempo que todos os salários aumentariam sensivelmente. Todos os setores produtivos seriam remunerados e o dinheiro circularia de forma a incentivar ainda mais o consumo e produção.
Mas a questão que evidentemente surge é, qual seria o prejuízo da supressão de tal dívida?
DA PROTEÇÃO À EXTORSÃO
Outrora bancos guardavam metais ou pedras preciosas protegendo-as de ladrões e cobrando pelo serviço de proteção. Posteriormente passaram e emprestar valores que não eram seus, num contrato de risco e confiança que contava com a não insolvência de uma possível corrida bancária (o saque súbito de grande parte de seus valores por seus proprietários) e cobrando uma taxa de juros que poderia ser vagamente justificada por esse risco em si.6
Depois passaram a imprimir papel moeda, e já é estranho um sistema que emite cédulas que apenas ‘podem’ estar realmente embasadas em valores reais, elevando os processos inflacionários a níveis antes historicamente impensáveis. Mas ainda mais bizarro é o Sistema de Reservas Fracionadas, que permite que os bancos emprestem valores várias vezes superiores ao que de fato possuem em lastro. Ou seja, além de emprestarem um dinheiro que não é deles, ainda “emprestam” um dinheiro cujo lastro na realidade não existe, e hoje sequer precisando imprimir cédulas, visto que a única coisa necessária a fazer é digitar valores no sistema informático, imediatamente, na prática, apenas autorizando trocas de valores virtuais que posteriormente exigirão trabalho real de quem realmente sustenta a economia do mundo, que são os trabalhadores.
São estes que em última instância irão trabalhar a mais para pagar as arbitrárias taxas de juros, pois alguém tem que produzir posteriormente as riquezas correspondentes os valores que foram literalmente inventados pela Reserva Fracionada, que são pagas não para quem produziu, mas para quem “emprestou um dinheiro que não existia” e que controla o sistema de emissão de moeda, mas que nada produz!
Mas esses setores financeiros usurários hoje controlam praticamente todo o sistema produtivo e político, e somente por isso aplicar-lhes um calote da dívida se torna realmente arriscado, devido a seu poder de retaliar de forma severa qualquer país que se atreva a não se submeter a essa exploração.
De protetor contra a ameaça dos ladrões, o sistema bancário se tornou como a máfia que cobra taxas de proteção, extorquindo toda a humanidade por meio de um sistema que já escravizou a quase totalidade da economia.
Por isso o exemplo dos países que aplicaram medidas anticíclicas, especialmente daqueles que outrora romperam quase por completo com o sistema financeiro, é um tema praticamente tabu, pois eles nos lembram que não só é possível escapar dessa macro exploração, como ela pode ser totalmente dispensada com absoluto ganho para a totalidade da humanidade exceto a ínfima fração que controla e se beneficia desse sistema.
O "MILAGRE" DESLAVADO
Analogamente, lembremos que a sociedade demanda serviços e produtos que evidentemente exigem a força de trabalho e organização administrativa, sendo a primeira a que emprega a grande maioria da humanidade, e a segunda os postos de liderança e controle burocrático. Mas estes últimos podem ser perfeitamente estatais, visto que há inúmeros casos de empresas completamente públicas produzindo eficazmente, bem como também de empresas cooperativas que não possuem a figura dos proprietários exclusivos cuja principal característica é se apropriar dos lucros.
Ou seja, enquanto os trabalhadores são absolutamente vitais para qualquer tipo de empreendimento, os administradores podem ser públicos ou cooperados, o que significa que a figura do proprietário dos meios produtivos é perfeitamente opcional, na melhor das hipóteses, se não dispensável, e praticamente toda a ode liberal pode ser resumida a um discurso infindável para nos convencer da absolutamente necessidade e infinita vantagem dessa contingência questionável, tratando-a com tamanha reverência e falsa importância que chega ao ponto de obscurecer por completo o que há de mais importante, que é a base trabalhista.
A necessidade de um sistema que vai ainda mais além na dispensabilidade, as elites financistas que vivem da criação de um dinheiro inventado de forma arbitrária e abusiva, é na verdade não apenas opcional, mas também claramente nociva! Um sistema parasitário cuja eliminação resulta num resultado tão benéfico que parece um milagre!
Estamos tão imersos na fraude, na mentira e na sistemática corrupção da realidade que as coisas mais simples soam como se fossem graças divinas. Quer seja um discurso que literalmente diz apenas o óbvio, mas que em meio ao lamaçal de patifaria e ignorância de nosso congresso brilha como a mais bela das revelações, ou num sistema econômico tão corrupto, alienado e hipócrita que a simples eliminação dos falsários que o controlam parece por si só miraculosa (milagre esse ao qual não podemos ficar apenas esperando.)
MARCUS VALERIO XR


Referências
1 – Roberto Requião declara seu voto contrário ao Impeachment da Presidente Dilma. O assunto em si é iniciado aos 38 segundos. E há também uma intervenção de Renan Calheiros totalmente dispensável e que foi devidamente ignorada pelo senador Requião. Já no vídeo
Francamente, é o Brasil que está em jogo, Requião sintetiza o assunto que fora antes tratado em quase 14 minutos para menos de 4, no entanto, subtraindo as referências ao Milagre Econômico Germânico.
2 – Alguns exemplos de argumento liberal de “não existe neoliberalismo” podem ser vistos em Você usa o termo neoliberal? Apenas pare., que como o próprio título sugere tem um teor jovial, para não dizer adolescente, apesar de apresentar informações interessantes dentre os típicos sofismas liberais. Já O conceito de neoliberalismo faz uma abordagem mais séria e sucinta, advogando que melhor seria usar o termo ‘neointervencionismo’, o que de fato seria totalmente acertado a não ser pelo fato que liberalismo algum existe no sentido verdadeiramente preciso do termo! Ao menos não no terceiro planeta por ordem de afastamento da estrela amarela de quarta grandeza conhecida como Sol. Mas se você tiver estômago para experimentar o baixíssimo nível predominante do discurso libertário / anarcocapitalista tente assistir ao vídeo O Que É Neoliberalismo de um sempre péssimo canal liberalóide.
De qualquer modo, todas essas argumentações podem ser resumidas num sofisma que confunde a precisão do termo com o objeto em si, como se o fato de ‘vampiros’ no sentido tradicional serem entidades lendárias fizessem o assassino serial conhecido como ‘Vampiro de Niterói’ não existir! É fato que muitos dos que usam o termo ‘neoliberalismo’ realmente tem vaga ideia do que se trata, mas isso se aplica a literalmente todos os conceitos teóricos! É até comum os próprios críticos do neoliberalismo admitirem que no fundo ele nada tem de ‘novo’ e muito menos de ‘liberal’, mas isso também se aplica a praticamente tudo o que se rotula de ‘liberal’ na atualidade, compondo uma massiva fraude conceitual. Para um texto curtíssimo de alguém que realmente entende e destrincha o histórico do conceito, e se considera um liberal no sentido clássico, veja
Um Breve História do Neoliberalismo.
3 – Dado fornecido em The Worst Hyperinflations in History: Hungary, apesar de tratar majoritariamente da Hungria.
4 – Artigo Wikipedia sobre Hjalmar Horace Greeley Schacht.
5 – Em Uma Interpretação do Primeiro Milagre Econômico Alemão temos uma descrição bastante detalhada do assunto, com um viés mais crítico.
Já 
Como Hitler Enfrentou o Desemprego há uma abordagem mais favorável ao modelos econômico do Terceiro Reich.
Muita da dificuldade de lidar com este tema deriva também do fato de outros responsáveis pela recuperação e expansão econômica da Alemanha em plena retração da economia mundial são figuras muito mais controversas, como Hermann Goring, que foi ministro da economia do Reich, e foi condenado a morte no julgamento de Nuremberg devido a seu envolvimento com o holocausto. Ou o secretário de estado
Fritz Reinhardt, que inclusive deu seu nome a um dos planos econômicos, e embora não tenha qualquer envolvimento mais direto com crimes de guerra, é frequentemente confundido com Reinhard Heydrich, este sim um dos mais temidos nazistas e um dos principais responsáveis pelo holocausto.

6 – Descrevi melhor esse tema num post em 8 de junho de 2015, também disponível nos periódicos de JUNHO DE 2015 em meu site.

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