domingo, 22 de março de 2026

A podridão do reino da Dinamarca, parte II: verde de slime

 

Foto – Jeffrey Epstein.

“Ashrah: a sua Hollywood está cheia de mal.

Johnny Cage: não precisa da Kris[1] para sacar”

Fala de início de luta entre Johnny Cage e Ashrah, Mortal Kombat 1.

Como já dito no preâmbulo da primeira parte, e é muito importante frisar: o caso Epstein não é uma anomalia, um caso isolado, muito menos surge do nada. Quem assim pensa assina atestado de estupidez. Muito pelo contrário, o caso Epstein surge dentro de um contexto no qual uma série de escândalos no mundo do showbusiness vem à tona. E que mostram ao mundo a extensão da podridão do reino da Dinamarca. O quão profunda a coisa é.

Dando continuidade à série de artigos, agora abordaremos o caso Dan Schneider (vulgo Dan Alfaiate[2]).

A título de registro, o título da segunda parte da presente série de artigos é uma alusão ao episódio “verde de raiva” (originalmente “green with evil”), da primeira temporada de Power Rangers, o primeiro de um arco de cinco episódios (se estende do episódio 17 ao 21) que marca a estréia do personagem Tommy Oliver (interpretado pelo finado Jason David Frank e dublado no Brasil por Reinaldo Buzzoni nas duas primeiras temporadas e Jorge Lucas nas temporadas subsequentes) no seriado.

Mas antes de entrarmos em maiores detalhes sobre o caso Dan Schneider, um pouco sobre a história da Nickelodeon para melhor contextualização da história.

A história da Nickelodeon começa ainda nos anos 1970, mais precisamente no dia 1º de dezembro de 1977. Em um primeiro momento a Nickelodeon foi parte da grade de programação da Qube Network, um dos primeiros sistemas de televisão a cabo resultado de parceria entre as empresas Warner Communications e a American Express, disponível para 600 mil assinantes da cidade de Columbus (Ohio). Seus primeiros programas, voltados ao público infanto-juvenil, eram desenhos como Video Comic Book, America Goes Bananaz, Nickel Flicks e By the Way, os quais faziam parte do Pinwheel (nome inicial do canal), show apresentado por um homem e várias marionetes.

Entretanto, apenas no dia 1º de abril de 1979 é que a Nickelodeon virou um canal próprio e disponível em outras partes dos Estados Unidos. Fundada pela educadora e executiva de televisão Vivian Horner, a Nickelodeon à época era o único canal a cabo com programação totalmente voltada ao público infanto-juvenil.

Nos anos subsequentes, a Nickelodeon não apenas passa a distribuir seu sinal para outras partes do globo (incluindo o Brasil a partir de 1996), como também passa a se destacar na produção de desenhos animados e sitcons. Entre eles desenhos famosos como a vida moderna de Rocko, Doug, Hey Arnold!, Ren e Stimpy, os Padrinhos Mágicos, Rugrats (lançado no Brasil com o título de Os anjinhos), Rocket Power, Os Thornberrys, Ginger e Bob Esponja e sitcons como Clarissa sabe tudo (originalmente Clarissa Explains it All), Kenan e Kel, show da Amanda, Manual de Sobrevivência escolar do Ned e tantos outros, os quais obtiveram grande sucesso nos anos 1990 e 2000.

Foto – Vivian Horner (1934 – 2022), a fundadora da Nickelodeon.

Uma das marcas registradas dos programas da Nickelodeon, incluindo até mesmo premiações como o Kids Choice Award e o Meus Prêmios Nick, é a presença periódica de um líquido verde e viscoso chamado slime. O slime é feito a partir de uma mistura de pudim de baunilha, purê de maçã, corante alimentício verde e um pouco de aveia. Apareceu pela primeira vez no programa “You can’t do that on Television”, nos idos de 1979.

Geralmente, o banho de slime se dava em programas de game show como forma de “punição divertida” e em premiações nas quais celebridades, geralmente vencedores de um prêmio, eram “meladas”. E com o tempo, o slime se tornou parte da identidade do canal.

Foto – banho de slime no programa “You can’t do that on Television”.

Um dos principais produtores de conteúdo da Nickelodeon em sua época áurea (ou seja, anos 1990 e 2000) é Dan Schneider.

Nascido em Memphis no dia 14 de janeiro de 1966, Dan Schneider (nascido Daniel James Schneider) cresceu em Nova York, no bairro do Queens, após ser adotado por uma família de classe baixa-média. Em 1980, Schneider inicia sua carreira, com participações em filmes como Making the Grade, Better Off Dead e The Big Picture (lançado como A Grande Comédia no Brasil). Em 1994 começa a trabalhar para a Nickelodeon, não como ator, mas como roteirista e produtor de seriados.

Durante muito tempo Dan Schneider trabalhou para a Nickelodeon por meio de sua empresa associada Schneider’s Bakery, e foi a mente por trás de muitos dos sitcons de sucesso do canal, entre eles Kenan e Kel, o show da Amanda, Drake e Josh, Zoey 101, iCarly, Victorious (lançado como Brilhante Vitória no Brasil), Sam e Cat (spin-off de iCarly e Victorious) e Henry Danger.

Foto – Dan Schneider (ao centro).

Os anos 1990 e 2000 foi a época na qual Disney e Nickelodeon travaram uma intensa briga pela audiência infanto-juvenil norte-americana. Cada uma com diferentes abordagens. Enquanto que a Disney adotava um estilo mais focado em emoção, fantasia e magia, uma coisa mais família, a Nickelodeon já tinha um estilo mais, digamos, caótico e cômico, voltado para situações absurdas.

A Disney com desenhos animados como Phineas e Ferb, sitcons como Zack e Cody, as visões da Raven, Lizzie McGuire, Hannah Montana e os feiticeiros de Waverly Place e filmes de sucesso como High School Musical e Camp Rock, lançou estrelas como Raven Simoné, Hillary Duff, Miley Cyrus, Demi Lovato e Selena Gomez. E a Nickelodeon idem, lançou estrelas tais como Amanda Bynes, Miranda Cosgrove, Victoria Justice, Ariana Grande, Daniella Monet e tantas outras. Dessas, apenas Ariana Grande (a qual participou primeiro de Victorious e depois de Sam e Cat) teve grande sucesso no mundo do showbusiness após o fim de sua passagem pela Nickelodeon (ao passo que as estrelas da Disney se saíram bem melhor nesse quesito).

Não raro, as duas empresas trocavam alfinetadas entre si por meio dos programas. Vide o episódio de iCarly “iTake on Dingo”, o episódio 21 da segunda temporada. No episódio em questão, Carly e Sam descobrem que o programa Totalmente Teri, do Dingo Channel, está plagiando as ideias do iCarly. A dupla vai a Hollywood para tentar convencer os produtores do programa a pararem com o plágio, enquanto que Freddy e Spencer decidem provar a veracidade da história de que a cabeça do fundador do canal, Charles Dingo, está congelada nos fundos do estúdio (clara alusão à lenda urbana de que Walt Disney foi congelado criogenicamente na Disneylândia debaixo de uma das atrações). O canal em questão é uma clara paródia do Disney Channel, e Totalmente Teri é claramente uma alusão a Sunny entre estrelas (originalmente Sunny with a choice), sitcom da Disney estrelado por Demi Lovato produzido entre 2009 a 2011 e que aproveitou a ideia original do iCarly, de uma garota que passa a apresentar seu programa televisivo favorito (depois modificada para um web show).

Há um ditado que diz que onde há luz há escuridão, e Dan Schneider não era a exceção que confirma a regra. Embora fosse um roteirista talentoso e tenha emplacado sucessos um atrás do outro como produtor, Dan Schneider tinha seu lado problemático nos bastidores. O que veio à tona em massa principalmente a partir de 2018, durante a explosão do movimento #MeToo. Polêmicas e controvérsias envolvendo Dan Schneider e o ambiente de trabalho dos sitcons que ele mesmo escreveu emergiram.

E, para piorar ainda mais as coisas para o lado dele, em 2024 saiu o documentário “Quiet on Set: the Dark Side of Kids TV (Calado no set: o lado sombrio da TV infantil)”, pelo canal Discovery ID, com cinco episódios ao todo e que contou com a participação de artistas e funcionários que participaram dos sitcons, entre eles Drake Bell (o Drake de Drake e Josh) e Alexa Nikolas (a Nicole de Zoey 101).

Nesse documentário, notou-se uma série de vídeos virais que mostram cenas inadequadas de programas produzidos por Dan Schneider. Entre elas, cenas de mensagens subliminares envolvendo podolatria (fetiche por pés), práticas sugestivas à ejaculação e até mesmo assédio sexual nos programas de Schneider. Boa parte dessas cenas envolvem Ariana Grande, entre elas cenas do episódio “Sobrevivendo ao calor” (originalmente “Survival of the Hottest” - título bem sugestivo e de duplo sentido, a propósito, que a dublagem brasileira do sitcom tratou de dar uma alterada, e com razão), o oitavo episódio da primeira temporada de Victorious, que se passa em uma das praias de Los Angeles. Detalhe: quando Victorious começou, nos idos de 2010, Ariana Grande tinha apenas 17 anos.

Além disso, Schneider dava festas na piscina de sua casa e chamava as atrizes dos programas, à época menores de idade, sem o consentimento dos pais delas.

Uma das controvérsias envolvendo o nome de Dan Schneider gira em torna de Jamie Lynn Spears, irmã mais nova de Britney Spears. Jamie foi a protagonista de um dos sitcons da Nickelodeon da época, Zoey 101, produzido entre 2005 a 2008. Em 2007, já no final da produção do sitcom, Jamie anunciou que estava grávida de uma menina. Detalhe: ela tinha apenas 16 anos de idade à época. Jamie sempre sustentou que o pai de sua filha, que ganhou o nome de Maddie Briann, é o namorado dela da época. Mas há quem acredite que o pai do filho de Jamie Lynn seja na verdade o próprio Dan Schneider.

Foto – Jamie Lynn Spears.

Antes mesmo do caso envolvendo Jamie Lynn Spears, houve o caso envolvendo a atriz Amanda Bynes. Amanda Bynes foi a protagonista do sitcom que leva seu próprio nome, o Show da Amanda, produzido entre 1999 a 2002, além de ter feito participações no seriado All That na mesma época. Quando o show da Amanda, um dos programas de maior audiência da Nickelodeon à época, teve início, ela ainda tinha apenas 13 anos.

Circulam vídeos nos quais pode-se ver uma Amanda Bynes em trajes de banho ainda bem novinha dividindo uma jacuzzi com Dan Schneider totalmente vestido. Algo no mínimo bem inapropriado, diga-se de passagem, um homem já adulto (e ainda por cima obeso) tendo esse tipo de relação com uma menor de idade.

Após o fim da série, ela se afastou da Nickelodeon, passou a fazer filmes voltados ao público infanto-juvenil, até encerrar a carreira em 2010. Passou a enfrentar problemas com drogas e álcool, a está irreconhecível em relação ao começo de sua carreira e lida com questões de saúde mental.

Foto – Amanda Bynes ontem (esquerda) e hoje (direita).

Outro ponto polêmico envolvendo Dan Schneider diz respeito à atriz Jenette Faye McCurdy, que interpretou a Sam Puckett em iCarly e Sam e Cat. A personagem de McCurdy fez muito sucesso no seriado, virou uma das favoritas do público. A tal ponto que boa parte do fandom do sitcom “shippa” a Sam (que no Brasil ganhou a voz de Ana Lúcia Menezes, finada em 2021) com o Freddy (interpretado por Nathan Kress e dublado no Brasil por Luciano Amaral), o cameraman do sitcom.

Em 2021, bem no meio da pandemia de Covid, saiu o revival de iCarly. Todo o elenco original voltou para o seriado. Novas temporadas foram feitas, agora mostrando os personagens mais velhos. Bom, na verdade, quase todo o elenco voltou. McCurdy não participou do revival de iCarly.

Em 2022 McCurdy lançou um livro, que no Brasil foi lançado sob o título “Estou feliz que minha mãe morreu”. No livro em questão, McCurdy relata algumas situações que viveu nos bastidores de iCarly e Sam e Cat, mas sem citar diretamente o nome de San Schneider. Este é sempre referido como “o criador” no livro. Ela cita uma tentativa de acordo feita pela emissora norte-americana em receber US$ 300 mil para não contar as suas experiências e que o próprio produtor, junto com a mãe de McCurdy (finada desde 2013 e com a qual ela tinha um relacionamento bem complicado), incentivaram-na a comer de forma exagerada, no que a fez desenvolver uma anorexia nervosa.

Foto – Jenette Faye McCurdy.

Há ainda outros casos, que envolvem Drake Bell, Alexa Nikolas, Erin Sanders (a Quinn de Zoey 101) e outras figuras que trabalharam na Nickelodeon ao longo dos anos, sobre os quais não irei me aprofundar para não me alongar muito.

Mas nem tudo é espinhos nessa história toda. Algo digno de nota é o papel que o ator Jerry Trainor, o intérprete de Spencer em iCarly, desempenhou nos bastidores do seriado. Trainor era o único adulto do elenco principal de iCarly quando as filmagens do sitcom se iniciaram, e vídeos de bastidores mostram o intérprete de Spencer exercendo um papel de protetor para com os atores mais novos do elenco. Frequentemente rechaçando eventuais investidas de Schneider para cima dos atores mais jovens do elenco, ou mesmo pedindo para o pessoal ir embora após o fim das filmagens.

Papel análogo ao de Jerry Trainor em iCarly exerceu anos depois o ator Cooper Barnes (o Capitão Man de Henry Danger). Há um vídeo no qual ele pede para que dois dos produtores do seriado fechem os zíperes, visto que estavam trabalhando em um programa para crianças.

Atualmente, Schneider não trabalha mais para a Nickelodeon. Visto que em 2018 ele se desligou da Nickelodeon por conta das polêmicas e controvérsias em torno dele. Em sua defesa, Schneider nega as acusações a ele imputadas no documentário, embora confesse que tenha feito coisas inapropriadas enquanto trabalhou para a Nickelodeon.

Cereja do bolo: em entrevista, Orlando Brown (o qual participou de as visões da Raven no papel de Eddie) afirmou que o verdadeiro dono da Nickelodeon era ninguém menos que... Jeffrey Epstein! Na mesma entrevista, Brown também afirmou que Puff Daddy era parte de um grupo ainda maior e mais sinistro de predadores sexuais de Hollywood, os quais geralmente voltam seus olhos a jovens artistas em ascensão.


Ao mesmo tempo, também surgiram teorias (um tanto quanto viajadas) de que o formato da ilha de Epstein é o mesmo formato do logo da Nickelodeon.

Foto – Ilha Epstein (esquerda) e logo da Nickelodeon (direita).

Se Orlando Brown disse isso em tom de piada, ou se é algo com algum fundo de verdade, é difícil saber. Mas o fato é que isso ajuda a mostrar, como venho ressaltando, que o caso Epstein não surge do nada e que, de alguma forma, está relacionado com outros casos similares como o de Puff Daddy, o da Nickelodeon, o de Harvey Weinstein, o de R. Kelly e outros tantos, nos quais a nata da política e do mundo empresarial e artístico norte-americano está envolvida até o pescoço.

E é bem razoável supor e imaginar, por exemplo, que Epstein e Puff Daddy tenham tido aliciadores em comum em seus esquemas de tráfico sexual. E ainda mais sabendo da podridão que é Hollywood, por trás de todo o glamour, todas as premiações, todo o luxo e todos os tapetes vermelhos. Como diz o velho ditado, onde há luz há escuridão. E é para desviar a atenção do caso Epstein que EUA e Israel hoje movem a guerra contra a República Islâmica do Irã.

NOTAS:


[1] Espada de lâmina curvada e ondulada, típica do Sudeste Asiático.

[2] Para quem não sabe, Schneider em alemão significa alfaiate.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A podridão do reino da Dinamarca, parte I: o general Combs e a guerra das costas


 Foto – Jeffrey Epstein (1953 – 2019).

Uma sombra paira sobre a Casa Branca. E essa sombra tem nome: o finado Jeffrey Epstein.

O caso Epstein envolve políticos graúdos dos Estados Unidos, e tanto Republicanos quanto Democratas nele estão envolvidos até o pescoço. E se pensam que a coisa se resume aos Estados Unidos, muito enganados estão. Altos figurões da política israelense e da realeza europeia também tiveram seus envolvimentos com Epstein, finado desde 2019 e cuja morte até hoje é objeto de controvérsia. Teria ele de fato tirado a própria vida, ou fizeram uma operação de queima de arquivo para cima dele?

O fato é que no presente momento os EUA movem uma guerra contra o Irã em parceria com Israel. Por conta dos bombardeios, veio a óbito o aiatolá Ali Khamenei, presidente da República Islâmica do Irã entre 1981 a 1989 e desde 1989 líder espiritual da nação persa, assim como outros membros de sua família, incluindo a esposa, filhos, . O filho de Ali Khamenei, Modžtaba Hosseini Khamenei, foi eleito para suceder o pai no posto de líder espiritual do Irã. Além disso, a nação persa desistiu de participar da Copa do Mundo do presente ano.

Dado o timing dos eventos, a guerra contra o Irã está sendo claramente usada para desviar a atenção do caso Epstein, da mesma forma que em 1999 Bill Clinton (talvez, não por acaso, um dos muitos políticos hoje envolvidos no caso Epstein) usou a guerra de 78 dias contra a Iugoslávia para desviar a atenção do caso Monica Lewinsky. Dessa forma podemos muito bem chamar a atual guerra contra o Irã de a guerra Epstein.

Entretanto, algo muito importante deve ser dito: o caso Epstein não surgiu do nada. Pelo contrário, ele surge em um contexto maior de falência moral do mundo político e artístico norte-americano, junto com outros casos similares. Sobre os quais iremos falar mais adiante.

Historicamente, se tem um meio pelo qual os Estados Unidos têm se utilizado para se projetar para o resto do mundo é o cinema de Hollywood. Da mesma forma que, por exemplo, a França fazia o mesmo por meio da moda e da literatura, o México por meio das novelas e programas humorísticos, Hong Kong por meio dos filmes de artes marciais (estrelados por figuras como Bruce Lee, Jet Li e Jackie Chan), o Japão por meio dos animes, mangás e seriados tokusatsu, o Brasil por meio do futebol e das novelas, e mais recentemente a Turquia por meio das novelas e a Coréia do Sul por meio dos doramas e k-pop. É o chamado soft power, algo sobre o qual Ariano Suassuna explica em uma palestra datada dos anos 2000.

Toda a fantasia, todo o glamour que Hollywood e o mundo do show business vendem, tudo isso está ruindo por conta de uma série de escândalos, entre eles os casos Jeffrey Epstein e Puff Daddy. O véu de Maya foi rasgado. É o reino da Dinamarca mostrando as suas vísceras em alto grau de apodrecimento, parafraseando Shakespeare em sua obra Hamlet.

Comecemos pelo caso Puff Daddy.

O caso em questão estourou no segundo semestre de 2023, e diz respeito ao rapper e produtor musical novaiorquino Sean Combs, também conhecido pelas alcunhas de Puff Daddy e P.Diddy. Ou simplesmente Diddy.

Foto – Sean Combs, vulgo Puff Daddy/P.Diddy.

Recapitulemos um pouco da história de Combs. Oriundo do Harlem, tradicional bairro novaiorquino cuja história remonta aos tempos da Nova Amsterdam, Combs tem uma longa história não só como organizador de eventos, como também dentro do mundo da música.

Sua história como organizador de eventos começa no dia 28 de dezembro de 1991, quando ele organizou um jogo de basquete beneficente no City College de Nova York em parceria com Heavy D. O ginásio tinha capacidade máxima para 2730 pessoas. Só que algo deu muito errado nisso: cerca de 5000 pessoas tentaram entrar no local, no que ocasionou uma debandada que terminou com 9 mortos e 29 feridos.

Em 1993 Puff funda a gravadora Bad Boy Records, e por meio da Bad Boy Records lançou artistas como Usher, Mary J. Blige e Christopher George Latore Wallace, este último também conhecido como Biggie Smalls e The Notorious B. I. G. Nessa mesma época, o mundo do rap foi sacudido pela crescente rivalidade entre as costas leste e oeste. Mais precisamente entre Califórnia e Nova York, os principais cenários do rap e hip hop nos EUA à época.

Foto – Costa Leste x Costa Oeste.

À frente dessa guerra estavam duas gravadoras: a Bad Boy Records, liderada por Sean Combs e sediada em Nova York, e a Death Row Records, encabeçada por Suge Knight e sediada em Los Angeles. Episódio emblemático dessa contenda foi a premiação do Source Music Awards, ocorrida em Nova York no Paramount Theather, no dia 3 de agosto de 1995. No qual os artistas da costa oeste, entre eles Suge Knight e Snoop Dog, foram vaiados pela plateia.

Um dos principais artistas, se não o principal, da Death Row Records à época era Tupac Shakur (vulgo Lesane Parish Crooks). Novaiorquino de nascença, Tupac Shakur (também conhecido 2Pac) em um primeiro momento era amigo de Biggie Smalls. Sempre que ia à Califórnia Biggie dormia no sofá da casa de Tupac (à época já um cantor de certo renome e já tendo atuado em alguns filmes), e Tupac, por seu turno, quando ia a Nova York ia se encontrar com Biggie. Para Biggie, Tupac exerceu um papel de mentor musical à época.  

Mas um incidente veio a azedar de forma irremediável a relação entre os dois: o incidente no estúdio Quad, ocorrido no dia 30 de novembro de 1994. Tupac foi emboscado e baleado, e em fevereiro de 1995 foi preso por conta do incidente de abuso sexual envolvendo Ayanna Jackson dois anos antes. Apenas em outubro do mesmo ano que Tupac saiu da cadeia mediante fiança paga por Suge Knight.

Foto – Suge Knight.

Tupac passou a acreditar que Biggie e Puff tiveram alguma relação com o incidente, que eles sabiam de algo e não fizeram nada para impedir o ocorrido, e para jogar ainda mais lenha na fogueira Biggie lança em 1995 a música “Who Shot Ya?”. Dado o timing infeliz, Tupac achou que a música em questão era para ele, zombando dele por ele ter sido baleado e em seguida preso.

Em resposta, Tupac lançou a música “Hit em’ Up”, uma diss track (tipo de música feita para insultar e/ou expor outro artista) destinada especialmente a Biggie e Puff Daddy. No clipe de Hit em’ Up Biggie e Puff são interpretados por sósias (prática muito comum do rap da época). 

Tupac também caçoa de Biggie e Puff na música “2 of Americaz most wanted”, do álbum “All eyez on me”, em parceria com Snoop Dog. No clipe dessa música também vemos Biggie e Puff sendo vividos por sósias.

A tensão entre as costas com o passar do tempo foi se elevando, e era questão de tempo uma tragédia ocorrer.

No dia 7 de setembro de 1996, após voltar de uma luta de Mike Tyson (amigo pessoal de Tupac) no MGM Grand Arena, Tupac, acompanhado de Suge Knight, foi baleado nas ruas de Las Vegas. Os tiros vieram de um carro que o seguiu. Tupac tomou quatro tiros, foi hospitalizado, mas dada a gravidade de seus ferimentos veio a óbito seis dias depois. A mãe dele, a ex-militante do movimento dos Panteras Negras Afeni Shakur, vendo que estava diante de uma batalha perdida, resolveu por desligar os aparelhos que o mantinham vivo. Como não poderia deixar de ser, suspeitas e especulações de que Puff estivesse envolvido de alguma forma com a morte de Tupac surgiram.

Na madrugada do dia 9 de março do ano seguinte, foi a vez de Biggie (o qual estava para lançar seu segundo disco, Life After Death) nos deixar. Após voltar de uma festa organizada pela revista Vibe no Petersen Automotive Museum, ele foi baleado nas ruas de Los Angeles, quando o carro em que Biggie estava parou em um semáforo e tiros saíram de um carro Chevrolet Impala SS. Biggie tomou quatro tiros, foi levado às pressas ao hospital, e meia hora após ser hospitalizado foi declarado morto. E assim as duas maiores lendas da história do rap nos deixaram, de forma inglória e trágica, antes mesmo de completarem 30 anos de idade.

Foto – Tupac Shakur (direita) e Biggie Smalls (esquerda).

Tupac e Biggie deixaram este mundo, assim como tantos outros rappers que vieram a morrer em circunstâncias similares nos anos seguintes, tais como Fat Pat, Big L, DJ Uncle Al, Big Hawk (irmão mais velho de Fat Pat) e tantos outros (ainda que em situações sem relação direta com a guerra das costas). Assim como os casos de Tupac e Biggie, muitos desses casos continuam sem solução até hoje.

A Death Row Records faliu em 2008 e Suge Knight, por seu turno, foi preso em 2018 por homicídio culposo voluntário em um atropelamento fatal ocorrido três anos antes. Foi sentenciado a 28 anos de prisão e apenas em 2034 terá direito à liberdade condicional.

A mãe de Tupac, Afeni Shakur, nos deixou em 2016, sem que o caso da morte do filho fosse solucionado. A mãe de Biggie, Voletta Wallace, nos deixou em 2025, também sem ver solução alguma para o caso da morte do filho.

A cena de rap nos Estados Unidos, nos anos subsequentes, viu a primazia das costas leste e oeste ser questionada por meio da ascensão de novas cenas de rap, entre elas a costa sul.

Já Puff, ou se preferirem, o general Combs, no fim das contas, emergiu como o grande vitorioso da guerra das costas. Ele começou ainda nos anos 1990 a organizar festas que reuniam a nata do mundo do show business. Mais precisamente, a partir de 1998.

Entre 1998 a 2009, Puff foi o anfitrião de uma série de festas conhecidas como as festas brancas. É um tipo de festa, muito comum em Hollywood, nas quais os presentes vestem trajes brancos, dessa forma não sendo exclusividade do rapper.

As festas de Puff aconteceram na casa do rapper e produtor musical em East Hampton, Nova York, ao passo que a festa de 2006 aconteceu em Saint-Tropez no sul da França e a de 2009, a última delas, em Beverly Hills na Califórnia. Tais festas geralmente começavam de dia e duravam até as primeiras horas do dia seguinte, sendo patrocinados por marcas importantes que distribuíam mercadorias e produtos. Importantes celebridades, entre elas Paris Hilton, Justin Bieber, Mariah Carey, Usher, Leonardo di Caprio, Rihanna, Nick Minaj, as irmãs Kardashian, Ashton Kutcher, Will Smith, Naomi Campbell, Kanye West, Jay-Z e Beyoncé compareceram a tais festas. Jornalistas como Oprah Winfrey, atletas como Lebron James e Tiger Woods, políticos graúdos como Barack Obama, Hillary Clinton e Donald Trump e membros da realeza como o príncipe Harry também marcaram presença nessas festas.

Festa – Foto da primeira festa branca de Puff, datada de 1998. Leonardo di Caprio no centro.

Só que as festas de Puff Daddy, por trás de todo o luxo e o glamour por ele vendido, também tinham seu lado sombrio.

Narcóticos rolavam soltos nelas, assim como violência física, intercursos sexuais sem consentimento de uma das partes. Tudo isso regado a uma substância conhecida como óleo de bebê. Cerca de 1000 frascos dessa substância foram encontrados em uma batida policial feita na mansão de Puff em 2024. Em outras palavras, as festas de Puff Daddy era um verdadeiro bacanal. E a coisa não para por aí: filmagens eram feitas dos atuais sexuais que ocorriam nas festas. E com essas filmagens em mãos, Puff tinha um meio de chantagem em mãos, verdadeira carta na manga muito útil para eventuais complicações judiciais.

A fama das festas organizadas por Puff era tal que não passava despercebida. Haja vista, por exemplo, o filme “As branquelas” (originalmente White Chicks), estrelado pelos irmãos Shawn e Marlon Wayans. Há uma cena na qual o personagem de Marlon Wayans, se passando por uma mulher chamada Tiffany Wilson, é leiloado e diz que não ir a um encontro com um homem chamado Buff Daddy. Lembrando, a propósito, que no clipe da música “2 of Americaz most wanted” Tupac chama Puff de Buff, Biggie de Piggie e Faith Evans (esposa de Biggie e mãe dos dois filhos dele) de Paith.

Há um episódio de South Park, o episódio 11 da temporada 10, “Inferno na Terra 2006”, em que as festas dele são citadas. Nesse mesmo episódio, Biggie aparece como espécie de alma penada que é invocada sempre que o nome dele é dito três vezes em frente a um espelho.

As festas de Puff Daddy também aparecem em um episódio de Simpsons, o episódio 12 da temporada 28, intitulado “O grande Phatsby” e lançado em 2017. Phatsby é uma clara alusão ao personagem literário Gatsby, da obra “O grande Gatsby”, escrita por Francis Scott Fitzgerald e lançada em 1925. Na obra Gatsby é um bilionário conhecido por suas festas animadas e extravagantes que ele mesmo dava em sua mansão em Long Island. Ou seja, tudo a ver com Puff Daddy. Posteriormente, a obra de Fitzgerald ganhou várias adaptações para cinema, incluindo os filmes de 1926, 1949, 1974, 2000 e 2013 (este último com participação de Leonardo DiCaprio).

Foto – Mariah Carey (esquerda) e Puff Daddy (direita).

Em 2003, Puff adquire propriedades em Star Island em Miami, e 11 anos depois propriedade em Los Angeles. Mais precisamente, uma mansão em Holmby Hills, avaliada à época em US$ 40 milhões. Isso à primeira vista pode parecer algo anedótico e até irrelevante, sendo que na verdade possui grande significado do ponto de vista simbólico. Visto que Puff passou a morar na mesma Los Angeles na qual Biggie foi morto 17 anos antes e que era a sede da já finada Death Row na época da guerra das costas. Era como se Puff, como um general vencedor de uma guerra, tivesse hasteado seus estandartes no território do inimigo vencido, ainda que um tanto quanto tardiamente. E tão logo marcou terreno em Los Angeles, começou a dar festas em sua nova propriedade, algo certamente impensável nos anos 1990.

Só que chegou 2023 e o general Combs viria a enfrentar uma nova guerra. Uma guerra bem diferente daquela que ele estava acostumado. Se nos anos 1990 o general Combs comandou as hostes da Bad Boy Records em batalhas campais contra um adversário bem definido, no caso as hostes da Death Row Records, agora ele se viu diante de um novo tipo de guerra, a guerra de tribunal. Uma guerra de caráter assimétrico na qual teria de enfrentar juízes, promotores, advogados de acusação, acusadora e de brinde a justiça dos homens. A narrativa já não está mais do seu lado e o cerco estava definitivamente se fechando contra Puff. O jogo virou – o conquistador de outrora agora precisa defender suas conquistas.

No final de 2023 a cantora Cassie Ventura, namorada de Combs por muitos anos, o denunciou à justiça. Ela formalizou acusações de agressão sexual contra o produtor musical e rapper. Ventura também acusou Puff de forçá-la a ter relações com outros homens durante vários anos. Batidas policiais foram feitas nas propriedades de Puff em Nova York, Miami e Los Angeles.

Em maio de 2024, um vídeo que mostrava Puff agredindo a cantora foi divulgado, o que levou a um processo resolvido fora do tribunal. Entretanto, essa situação desencadeou uma série de novas denúncias de agressão sexual, gerando assim investigações adicionais sobre Puff.

Em 16 de setembro de 2024 Puff foi preso, e sobre ele pesaram acusações graves: tráfico sexual, extorsão, conspiração e transporte para fins de prostituição. Diddy declarou-se inocente, mas teve pedido de fiança negado. Visto que o tribunal destacou seu histórico de abuso de substâncias e acessos de fúria como riscos à sociedade.

No julgamento que se seguiu, Puff foi inocentado das acusações mais graves de sexual e racketeering (ser o chefe de uma associação criminosa), mas foi condenado por transporte para engajamento em prostituição. Ao fim do processo foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão. Hoje amarga prisão no Metropolitan Detetion Center, em Nova York.

Triste fim de Puff Daddy. Teve um começo humilde no Harlem, em Nova York. Ascendeu socialmente, tornou-se um dos homens mais bem relacionados do mundo do show business, lançou vários artistas, tornou-se anfitrião de festas extravagantes, mas ao ascender socialmente parece-me que ele se esqueceu de onde veio. E é bem razoável supor que os grão-finos do mundo do showbusiness certamente não o aceitavam no círculo deles, no máximo o toleravam e o olhavam com desdém e de cima para baixo por conta da origem humilde e por ele mesmo ser negro em um dos países mais racistas do mundo. E agora está preso na mesma Nova York de onde veio.

Puff Daddy foi preso. E uma série de perguntas fica no ar: e as celebridades que nesse tempo todo estiveram envolvidas com o rapper, como será que ficam? Elas vão sofrer alguma represália ou será que Puff no fim das contas vai virar o boi de piranha conveniente ao sistema? E será que Puff, assim como Epstein, na verdade era apenas a ponta do iceberg do sistema em questão, ou seja, a face visível do mesmo?

Foto – Puff Daddy (direita) e Cassie Ventura (esquerda).

sábado, 7 de março de 2026

Caso Orelha - Cachorro comunitário é uma farsa!

 

Foto – Orelha.

Recentemente, a morte do cachorro de rua Orelha, de cerca de 10 anos de idade, ocorrida em Praia Brava (bairro na região norte do município de Florianópolis, Santa Catarina) no dia 4 de janeiro do presente ano por quatro jovens, chocou o Brasil. O cachorro foi morto a pauladas e com requintes de crueldade. O animal, um cachorro vira-lata, foi encontrado com ferimentos graves, em seguida enviado a uma clínica veterinária e, dada a gravidade dos ferimentos, decidiu-se sacrificá-lo.

A repercussão deste incidente lamentável foi tal que no feed do meu perfil do Facebook praticamente só via o povo falando em Orelha. Orelha isso, Orelha aquilo, Orelha não sei o que, Orelha não sei aquilo, Orelha não sei mais o que. E isso me deixou com a pulga atrás da orelha, literalmente.

Me lembrou muito do dia em que veio à tona os podres da pastora Flordelis (vulgo Queturiene), incluindo o fato de ela ter sido a mandante do assassinato do segundo marido dela, o pastor Anderson do Carmo (vulgo Niel). O povo praticamente só falava em Flordelis (à época deputada federal pelo estado do Rio de Janeiro e aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro). Flordelis isso, Flordelis aquilo, Flordelis não o sei o que, Flordelis não sei aquilo, Flordelis não sei mais o que. E também fiquei muito incomodado com isso.

E ainda por cima já se passaram quase dois meses do ocorrido e ainda vejo o assunto Orelha em alta no meu feed de notícias do Facebook.

E vejam só: o povo só falando em Orelha e se esquecendo, por exemplo, do banco Master (escândalo de corrupção EM LARGA ESCALA que envolve altos figurões da política, do sistema judiciário, da imprensa e do sistema financeiro brasileiro, verdadeiro Banestado 2.0), do caso Jeffrey Epstein (que envolve altos figurões da política americana e israelense e da realeza europeia), do caso Sean Combs/Puff Daddy (no qual estão envolvidos altos figurões do mundo do show business e que escancara a extensão da podridão de Hollywood) ou das tensões no Oriente Médio (com potencial para levar o mundo a uma Terceira Guerra Mundial).

Mas não vou entrar no mérito das questões jurídicas e legais do caso. Nem dos projetos de lei que surgiram na trilha do caso Orelha. Muito menos pedir punição para os assassinos do cachorro. Isso é mais do mesmo. E mais do mesmo é chover no molhado. Vou sim entrar no mérito de questões que, no meio da comoção do caso, passam batidas e que o povão não se dá conta (ou será que ignora propositalmente e só quer saber de sentimentalismo e comoção barata nas redes sociais – afinal, é o que gera engajamento)?

Primeiro de tudo, acho que já está mais que na hora de pararmos de agir feito um gado acéfalo quando casos como esse ocorrem. Vou falar o que tem que ser dito a respeito desse caso, não o que o povão quer ouvir. Quem quiser ver sentimentalismo, indignação barata e pedidos por justiça por Orelha, procure outro lugar. Aqui a conversa é outra.

Primeiro de tudo, vamos nos lembrar que tipo de vida o finado Orelha levava, e usando as palavras certas. O pessoal fala por ai que Orelha era um cachorro comunitário, cuidado por moradores do local em que vivia.

Só que essa coisa de cachorro de comunitário nada mais é que um malabarismo, uma maquiagem lingüística, que certo pessoal usa para mascarar a realidade lamentável e degradante que cachorros de rua como ele vivem. E por mais que os ditos cachorros comunitários tenham alguns cuidados, isso não muda a situação concreta de que eles são cachorros de rua, sem dono nem um lar fixo. Isso é como perfumar excremento. O excremento não vai deixar de ser o que é só por que foi perfumado e agora tem cheiro agradável.



Portanto, surpresa zero o destino que Orelha teve. É o típico caso do cachorro de rua que morre nas mais diversas situações. Situações tais como atropelamentos por carros, ônibus, motos e caminhões, toda sorte de agressões por parte de pessoas, ferimentos decorrentes de lutas contra outros cachorros, doenças diversas, problemas relativos à velhice (isso quando chegam à idade avançada), fome, frio, entre outras tantas. A expectativa de vida de cães de rua é bem menor que a de cães que vivem em um lar sob os cuidados de uma família, geralmente em torno de 3 a 5 anos (quando sob os devidos cuidados cachorros têm uma longevidade bem maior – eu mesmo tive uma poodle que morreu aos 18 anos, e hoje tenho uma Lhasa Apso de 10 anos de idade).

E isso para não falar que cães de rua por vezes atacam pessoas, animais silvestres, se tornam eles mesmos selvagens, formam bandos com outros cães de rua e são transmissores de doenças como a raiva (que é uma doença incurável). Ou seja, são um problema de saúde pública e ambiental!

Fazendo uma pesquisa pela Internet sobre “cachorro comunitário”, descobri vários casos semelhantes com outros cachorros de rua, e que não geraram a mesma comoção do caso Orelha. Entre eles casos como o do cachorro Abacate (da cidade de Toledo, Paraná) e tantos outros. 





Quando se coloca a coisa em perspectiva, em um contexto mais amplo, aí se tem um entendimento mais claro da coisa toda. Sem sentimentalismo barato, nem nada.

E verdade seja dita – o dito “cachorro comunitário” que certos defensores de animais e políticos e ONGs a eles ligadas advogam e tentam emplacar por aí por meio de projetos de lei nada mais é que um cachorro que é de toda a comunidade, e ao mesmo tempo é de ninguém. Em outras palavras, é um cachorro sem dono, sem casa nem nada. Uma coisa bem Grande Reset e Agenda 2030 para o meu gosto, diga-se de passagem.

Foto – “Você não terá nada e será feliz sobre isso”. Assim disse Klaus Schwab, arauto do Grande Reset e da Agenda 2030.

Essa história de cachorro comunitário é, em realidade, uma grande farsa. Não existe cachorro comunitário, e sim cachorro abandonado nas ruas. Quando será que as pessoas vão se tocar da realidade? Entenderam, ou precisa desenhar? Aliás, o próprio Orelha morava em uma casinha de cachorro junto com outras duas ao lado. Casinha essa que não oferece proteção alguma quando, por exemplo, ocorre uma chuva forte com vento e a água voa para o teu lado. Nem mesmo contra temporais e vendavais fortes.

Chamar cachorro de rua de cachorro comunitário é que nem, por exemplo, chamar favela de comunidade. Uma maquiagem lingüística e nada mais.

Não é de hoje que em nome do politicamente correto certo pessoal começou a fazer maquiagem lingüística, que no fim das contas só muda o nome da coisa. Pessoas como a renomada professora e historiadora Lilia Schwarcz e até mesmo figurões do STF endossam esse tipo de coisa sob o pretexto de coisas como limpar o idioma da escravidão e do combate ao racismo. 


E a grande imprensa do nosso país também comunga com esse tipo de coisa, vide o caso da jornalista da Globo News Carolina Cimenti, que em 2022 tomou uma corrigida ao vivo após usar a palavra denegrir.

E não para por aí: há alguns anos acompanhei a uma novela do SBT, Poliana Moça (estrelada por Sophia Valverde e Igor Jansen), continuação de as aventuras de Poliana (ambas adaptações da série de livros Pollyanna, da escritora americana Eleanor H. Porter). E na novela há uma favela, a qual no texto da mesma é chamada de comunidade. Ou seja: a favela vira comunidade e o local continua tendo infraestrutura precária, ruas sujas e fedorentas, sem água, sem esgoto, casas amontoadas, moradores sem emprego, passando uma série de necessidades e ainda por cima intimidados e chantageados por bandidos como o Rato e a Cobra.

Uma das vozes que se insurgiram contra essas maquiagens lingüísticas é o professor José Paulo Netto. Em palestra datada de 2012, o professor de Juiz de Fora e militante histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB) classifica isso como “hipocrisia pequeno-burguesa”.

Pela direita, esse tipo de maquiagem lingüística é criticada por figuras como o professor Marco Antônio Villa. 

O rapper carioca MV Bill também faz denúncia similar na música “Favela vive parte 2”, datada de 2017 e feita em parceria com Funkero e BK.

Lá atrás começaram chamando favela de comunidade. Negro de afrodescendente. Índio de povo originário. O uso de palavras como denegrir e criado mudo passou a ser prescrito. E mais recentemente, a coisa escalou e hoje chamam o proprietário de um cachorro, gato ou coelho de tutor ao invés de dono e cachorro de rua de cachorro comunitário. Para ver como essa coisa de maquiagem lingüística começou há uns 15, 20 anos e foi escalando com o passar do tempo. E a tendência é a coisa piorar e escalar ainda mais se não houver um freio a essa situação.

E fecho este artigo com algo para deixar esses defensores de animais, entre eles a famigerada Luisa Mell (vulgo Marina Zats) e deputados da chamada causa animal que acham essa coisa de cachorro de rua lindo, p* da vida: antes esses cachorros fazendo truques em um circo ou em provas de obstáculos, ajudando cegos ou conduzindo gado em rodeios, vaquejadas e fazendas que abandonado nas ruas, sujeitos a todo tipo de agressão e maldades. Que nem os infelizes Orelha, Abacate e tantos outros.

E reiterando: não contem conosco para o politicamente correto! Maquiagem lingüística não é conosco.

Fontes:

Caso Orelha. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Orelha

O que é cachorro comunitário. Disponível em: https://www.petz.com.br/blog/cachorro-comunitario/